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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Don Andrés

Chegou ao fim, pelo menos ao mais alto nível e nos grandes palcos, a carreira do melhor futebolista espanhol de sempre. O rótulo é ousado, mas inteiramente justo. E o que talvez surpreenda mais é que pouco ou nada, durante todos estes anos, se pensou em Andrés Iniesta como o melhor jogador espanhol de todos os tempos. Estou convencido de que assim foi porque o mais importante no seu futebol não era a superação, os números, as fasquias a transpor. Não só não era um jogador obcecado com isso, como não jogava, de modo nenhum, para a posteridade. E as pessoas pensavam menos em comparações do que se deliciavam com o seu futebol. Tudo o que saía dos seus pés será lembrado no futuro, claro, mas que não se tenha pensado no quão singular a sua carreira foi enquanto ela decorria mostra que aquilo que fazia em campo dava sobretudo prazer. O seu futebol não tinha o alcance longínquo das páginas dos livros por vir; era apenas uma fonte de prazer. Quem quiser falar de Iniesta, daqui para a frente, terá sempre de mostrar como jogava. A sua arte não admite a quantificação dos números, ainda que tenha conquistado inúmeros troféus e esteja ligado a alguns dos momentos mais importantes da História do Barcelona ou da Selecção Espanhola. Iniesta foi o melhor jogador espanhol de sempre, mas aquilo que verdadeiramente importava era aquilo que fazia a cada momento, a sensação de liberdade que transmitia a todos os que o viam jogar, o perfume que aqueles movimentos inexplicavelmente subtis e impossíveis de prever exalavam, a graciosidade e a naturalidade com que se movimentava, escondendo com perfeição o esforço mesmo em situações de aperto. O futebol de Iniesta está nos antípodas da estatística e de tudo aquilo em que os cientistas das tabelas numeradas parecem querer transformar o jogo. Nada do que saía dos seus pés parecia pensado de antemão, ou obedecia a regras de bem jogar. Era tudo incrivelmente intuitivo, natural e belo: a facilidade com que rodava sobre si mesmo, contornando o adversário que lhe obstava a passagem; a capacidade de jogar com a sugestão, fazendo crer a quem tomava a iniciativa de lhe tirar a bola que a tarefa não seria difícil, conduzindo-o exactamente para onde queria para depois se livrar da pressão com leveza; a liberdade, a incrível liberdade com que jogava, como se jogar futebol àquele nível fosse a coisa mais simples do mundo e não acarretasse quaisquer responsabilidades. Em suma, Iniesta era o que o futebol devia ser!

Iniesta era essencialmente um jogador que, não sendo particularmente forte, rápido ou explosivo, se sentia confortável com a proximidade de um opositor e no meio de vários adversários. Essa capacidade de conviver com a proximidade do adversário é talvez o maior recurso num jogador de futebol moderno. Há jogadores extraordinários do ponto de vista técnico, alguns muito admirados por esse mundo fora, que nunca serão capazes de chegar ao nível dos melhores simplesmente porque não conseguem habitar espaços interiores. É muito mais fácil ser Toni Kroos, por exemplo, do que ser Andrés Iniesta. O espanhol nunca foi aquele jogador a quem compete virar flancos, abrir nas alas, jogar por fora e pautar o jogo sem se meter em alhadas. Sempre foi muito mais do que isso. Conseguia, e tinha prazer, em jogar em espaços curtos, dentro do bloco adversário, e percebia que era em espaços curtos, com muitos adversários à ilharga, e onde as opções de passe não são tão óbvias, que podia dar largas à sua criatividade. Os jogadores mais criativos são invariavelmente os que mais à vontade se sentem nessas condições, e os que as procuram para se sentirem bem consigo mesmos. Iniesta adorava conduzir em direcção a vários adversários, para os fixar, e decidir em conformidade; adorava levar a bola para a confusão das pernas adversárias, em vez de a soltar, como mandam os livros, para onde há menos gente; adorava meter-se em apertos, chamar a si os opositores, para lhes perturbar a organização e gerar espaços noutras zonas; e adorava driblar, sem recurso a nada que não a técnica, apenas pelo prazer de sentir o ganho colectivo que advém de tirar um adversário do caminho e provocar a deslocação de outro para lhe fazer as vezes. Havia, aliás, uma finta que o definia (e que define em geral os verdadeiros criativos), que consistia em criar a ilusão do desarme do adversário e, no momento em que esse adversário tomasse a iniciativa, passar a bola de um pé para o outro de modo a contorná-lo. Iniesta fazia-o amiúde, geralmente do pé direito para o pé esquerdo (os destros geralmente usam a finta deste modo porque, sendo destros, criam a ilusão do desarme quando a bola está mais próxima do pé direito), e sempre com uma subtileza notável. Não sei mesmo se alguém alguma vez o terá feito melhor e mais vezes. Essa finta definia-o, em parte, porque exemplifica o futebol de Iniesta. Não é uma finta feita em potência, não carece de velocidade ou explosão, nem é pré-fabricada. É um recurso, que só faz sentido ser utilizado na circunstância de um adversário esboçar uma tentativa de desarme, e que requer destreza técnica, competência a usar o corpo quer para proteger a bola, quer para induzir o adversário em erro, audácia e muita classe.


Agora que a sua carreira chegou ao fim, é tempo de pensar no modo como contribuiu para mudar o jogo. Individualmente, creio que é o melhor exemplo de como o futebol está diferente, para melhor. Há 20 anos, era quase impensável um médio de ataque franzino, pouco veloz e tímido impor-se ao mais alto nível. Os mais dotados, do ponto de vista técnico, tinham sempre de possuir outros atributos que os valorizassem. Zidane marcou dois golos de cabeça numa final do campeonato do mundo, por exemplo. Um jogador como Iniesta, no final dos anos 90, teria poucas possibilidades de se destacar. E, verdade seja dita, não sei se teria tido a notoriedade que acabou por ter se não tivesse tido a sorte de coexistir com Guardiola naqueles quatro anos em Barcelona. Antes disso, era uma jovem promessa do Barça, que não podia jogar no mesmo meio-campo onde já jogava Xavi Hernandez, e que teria de esperar pela sua oportunidade. Mas Guardiola não mostrou apenas que havia espaço para jogadores como Iniesta; mostrou que um jogador como Iniesta é fundamental para que uma equipa possa jogar de um determinado modo. Iniesta é uma possibilidade tornada real. Há 20 anos, ninguém acreditava que o espaço interior, de tão sobrepovoado que estava, era o espaço mais importante para atacar. Quando as equipas se fechavam no meio, todos achavam que era pelas alas que se devia entrar, que era para as faixas que os médios deviam levar o jogo. Não havia espaço, e parecia impossível penetrar pelo meio, por mais dotados que fossem os jogadores que aí se colocassem. E, portanto, achava-se que o futuro do futebol estava nos desequilibradores e nos velocistas, que nessa altura iam sendo transformados em extremos. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, tornou-se um jogador de ala porque era na ala que, na altura, se achava que a sua capacidade técnica podia fazer a diferença. Foi também por isso que se decretou o fim dos números 10. Volvidas duas décadas, tudo mudou. Não só não se extinguiram os números 10, como os grandes jogadores da actualidade, aqueles mais competentes do ponto de vista técnico e mais criativos, são quase todos jogadores de corredor central. Os extremos, tão em voga nessa altura, têm hoje em dia muito menos preponderância. E se a mudança que se registou de então para cá tiver um rosto, esse é o rosto de Iniesta. Num contexto propício, claro, foi ele que mostrou que é possível jogar por dentro, em espaços curtos, e que não é com velocidade, potência física ou números de circo que se supera a organização defensiva do adversário, mas com talento e inteligência. Agora que terminou a sua carreira, vale pois a pena lembrarmo-nos do quanto contribuiu para que o jogo se tornasse melhor. É talvez o melhor tributo que podemos fazer a Don Andrés.

domingo, 23 de julho de 2017

Abdelhak Nouri

Há poucos jogadores que me impressionem apenas através de uma antologia de lances, até porque sei que os lances de que essas antologias geralmente se compõem são descontextualizados (carácter oficial ou particular dos jogos, qualidade dos adversários, resultado da partida, etc.) e não permitem uma avaliação rigorosa da qualidade dos mesmos. Há casos excepcionais, contudo. Por vezes, uma antologia de lances mostra um conjunto de acções de tal modo invulgares que leva, de facto, a causar uma impressão muito favorável. Não conhecia Abdelhak Nouri antes do triste incidente de há umas semanas (depois de ter perdido os sentidos em campo, e de ter sido conduzido ao hospital, terá tido uma paragem cardíaca e ficou com danos cerebrais permanentes), e fui tentar perceber o talento que acabava de se perder. O que descobri impressionou-me muitíssimo, sobretudo pela aparente facilidade com que idealizava certas jogadas ou com que executava certas acções nada fáceis de executar. Dizer que Abdelhak Nouri era tecnicamente soberbo não faz justiça à invulgaridade do seu talento. A sua principal virtude, a meu ver, era a imaginação. A visão de jogo; a forma como contemporizava, aguardando o momento certo para soltar a bola; a velocidade a que raciocinava; a facilidade e sobretudo a precisão do passe, com a parte de dentro ou a parte de fora do pé; a preocupação em deixar o receptor em condições ideais, medindo a força e o efeito do passe do melhor modo; o à-vontade com a bola nos pés; a competência no drible, usando-o como recurso e na conta certa; a criatividade com que descobria soluções em espaços curtos; a iniciativa de procurar constantemente os colegas de modo a não se limitar às suas próprias qualidades; o conforto que sentia em complexificar as acções colectivas de modo a criar soluções inovadoras; tudo isto, em suma, advinha de uma imaginação prodigiosa. Nunca se sabe o que poderia ter dado, como é óbvio, mas o potencial parecia ser imenso. Muitas das coisas que se podem ver na antologia que se segue, aliás, são raríssimas, e podemos apenas lamentar que não se venham a repetir.



O tributo acima fala por si, mas vale a pena destacar 1) a velocidade do raciocínio que subjaz ao passe de calcanhar ao minuto 1.16; 2) a dificuldade e a precisão do passe ao minuto 1.36; 3) a qualidade com que faz a bola entrar no sítio certo, no momento certo e com a força certa ao minuto 1.50; 4) a inteligência e a criatividade inerentes ao passe ao minuto 4.18; 5) a visão de jogo, a subtileza e a imaginação que lhe permitem o passe ao minuto 6.23; 6) a forma como se associa aos colegas para se desenvencilhar dos obstáculos ao minuto 7.07; 7) a aparente simplicidade com que, de primeira, numa acção de difícil execução com a parte de fora do pé, devolve a bola a quem lha passara ao minuto 8.35; 8) a preocupação com o efeito a dar à bola, para que ela se aproxime do colega e fuja ao adversário, ao minuto 9.57; e 9) a genialidade com que, não se preocupando em conduzir para fixar, conduz a bola para fora de modo a dar tempo ao colega de entrar, no passe ao minuto 12.13. Resta-nos apreciar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sergi Roberto e a Timidez

Sergi Roberto é um dos médios espanhóis mais promissores. Já tinha falado do seu talento anteriormente aqui, e continuei sempre a pensar o mesmo. Ainda assim, a sua afirmação tem sido adiada época após época. Depois da saída de Fabregas e Thiago Alcântara, parecia chegada a altura dele, mas tal não foi o caso, e cheguei a pensar que o seu destino não seria muito diferente do de Jonathan dos Santos, outro médio talentoso cuja evolução estagnou por falta de oportunidades. À partida para esta época, e mesmo com a saída de Xavi, Sergi Roberto parecia ser apenas o quarto médio (as primeiras três opções para o lugar de médio ofensivo, no Barça, eram claramente Iniesta, Rakitic e Rafinha) e, pelas indicações dadas na pré-época, parecia poder jogar mais tempo a lateral direito do que propriamente a médio. Foi assim, aliás, que começou a dar nas vistas, aproveitando a lesão de Dani Alves para aparecer em grande nível, como se tivesse sido lateral toda a vida. A inteligência e a criatividade são os seus principais atributos, e Sergi Roberto parece um exemplo feliz de como isso é tudo o que um jogador de futebol realmente precisava para poder vingar, seja qual for a posição. Apesar de nunca ter sido lateral, parecia saber exactamente o que fazer em cada situação, e foi mesmo o melhor em campo em vários jogos. O regresso de Dani Alves à actividade parecia, contudo, votar Sergi Roberto ao banco de suplentes, e durante algum tempo as suas excelentes prestações não pareciam ter sido devidamente reconhecidas. A lesão de Rafinha permitiu-lhe, porém, alguma utilização como médio, e a lesão mais recente, de Iniesta, contribuiu para que fosse presença assídua no meio-campo do Barça. E o que Sergi Roberto fez, nos últimos jogos, foi o suficiente para tornar difícil a vida a Luis Enrique a partir de agora. No último fim-de-semana, acrescentou à regularidade exibicional uma preponderância ofensiva muito assinalável: além do muito que tem jogado, foram dele as duas assistências para os dois golos com que o Barcelona venceu o Getafe. A primeira, então, é qualquer coisa de sublime, e merece todo o destaque.



Sergi Roberto pertence a um tipo de jogador que, não obstante o talento inegável, parece acusar alguma timidez. Sou defensor de que, numa equipa de futebol, cada jogador deve ter um tratamento diferenciado. Havendo perfis (psicológicos, atléticos, etc.) diferentes, há naturalmente quem mereça uma oportunidade e há quem mereça dez. Um jogador mais tímido, por exemplo, precisa de mais tempo para se sentir confortável dentro de uma equipa e, portanto, precisa de mais tempo para mostrar as suas qualidades. Um jogador mais irreverente, pelo contrário, precisa de menos tempo. Até pelo talento que lhe era reconhecido quando jovem, Sergi Roberto foi sempre permanecendo em Camp Nou. Ainda assim, não se soube, durante largas épocas, tornar confortável ao jogador a sua posição na equipa, e ele continuou incapaz de se livrar da sua timidez. E, se não fosse pela circunstância das várias lesões que fustigaram o plantel às ordens de Luis Enrique, ainda não era esta época que se afirmaria. O caso de Sergi Roberto é, também por isso, muito relevante para se perceber por que é que certos jogadores que parecem destinados ao sucesso acabam por passar ao lado de grandes carreiras.

O melhor exemplo que poderia dar como comparação é o de Bruno Pereirinha. É, de longe, o jogador português mais talentoso da sua geração, e está condenado a uma carreira irrisória. Até apareceu bem no Sporting, com a confiança que advinha de terem muitas expectativas a seu respeito, mas aos poucos foi acusando a sua timidez natural. Se ao seu talento somasse a irreverência que outros têm, a sua carreira teria decerto sido diferente. Podia não ter chegado ao nível a que poderia chegar, dada a conjuntura difícil que encontrou no Sporting, mas teria certamente merecido outro género de aposta, nos mais diversos clubes. A sua timidez levou, inicialmente, a considerar que nem sequer era médio, sendo a lateral que quase todos acreditavam que podia evoluir. Até por aí o seu caso é semelhante ao de Sergi Roberto. A inteligência, como a do espanhol, permitia-lhe jogar a lateral com facilidade, e as pessoas acabaram por considerar que essa era a sua melhor posição. Não era. Como não é a de Sergi Roberto. Tem facilidade nesse lugar, porque tem um talento fora do comum e porque percebe o jogo com facilidade, mas é médio. Como Sergi Roberto é. E é como médio que se espera que Sergi Roberto evolua. No início da carreira no Barça, Iniesta passou por problemas semelhantes. O perfil psicológico dos dois não é, aliás, muito diferente. E o talento, por sinal, também não. A diferença estará sempre na evolução, e nas circunstâncias que a possibilitem. Sergi Roberto já mostrou que merece a aposta, e cabe ao treinador e ao clube perceber que um jogador, por melhor que seja, precisa de que acreditem nele e de que o deixem descobrir, por si, como acomodar a sua timidez com a sua qualidade. A meu ver, o futuro do meio-campo espanhol passa necessariamente por ele e seria um desperdício não o ver, daqui a poucos anos, a comandar a selecção do país vizinho ao lado de Thiago Alcântara e de Oliver Torres.

domingo, 7 de junho de 2015

Pirlo e Xavi

Nos últimos 15 anos, o futebol foi-se tornando, gradualmente, um jogo de médios como estes dois. Com Andrea Pirlo, o futebol mundial aprendeu que os médios-defensivos não precisavam de ser, como até então se julgava, jogadores de competências essencialmente defensivas. O futebol mundial aprendeu, e o futuro precipitou-se. Nenhuma equipa de topo, hoje em dia, tem como médio-defensivo um cão de guarda., e nenhuma equipa de topo que queira ganhar alguma coisa poderá voltar a pensar em ganhar tendo médios que saibam apenas andar atrás dos adversários. Devemos isso a Andrea Pirlo. Um grande jogador vê-se sobretudo no modo como antecipa o futuro da modalidade. Ainda que não pareça haver qualquer relação entre as duas coisas, a revolução de Guardiola não teria sido possível sem Pirlo. Não é por acaso, de resto, que Guardiola quis juntar (e esteve pertíssimo de consegui-lo) Pirlo a Xavi e Iniesta, como conta o italiano na sua biografia. Pirlo é o precursor dessa fabulosa equipa de médios, e o verdadeiro precursor do futebol moderno. É também, em boa verdade, o precursor de Xavi Hernandez, cujo futebol se tornou  perfeito apenas quando Guardiola pegou na equipa e lhe entregou a batuta.

Xavi é o médio mais perfeccionista de sempre. Quando o futebol se tornou, acima de qualquer outra coisa, um jogo de decisões, foi ele quem melhor mostrou como se jogava esse novo jogo. Nenhuma revolução se faz de um dia para o outro, e Xavi herda anos de evolução na Catalunha e herda também aquilo que, por exemplo, Pirlo andava a mostrar há alguns anos. Quando finalmente pôde pôr em prática tudo isso, mudou o jogo para sempre. Fez parte da melhor equipa de todos os tempos, ganhou tudo e mais alguma coisa, mas o seu principal legado são as decisões acertadas. Ninguém, como ele, conseguiu acertar tanto, estar tanto em jogo, receber tanto e passar tanto como ele. Quando Guardiola saiu de Barcelona, pensava-se que aquele futebol tinha acabado, e que o futuro era de equipas que jogavam de modo diferente do seu Barcelona. Não é assim que as coisas se processam. O futebol, como muitas outras coisas, evolui. Tal como nunca mais será possível haver grandes equipas com médios que não saibam jogar à bola, também não voltará a ser possível ganhar continuadamente sem uma equipa que se caracterize pelas boas decisões. A evolução pode não ser linear, pode haver precalços e pequenos retrocessos, mas é irreversível.

Andrea Pirlo é o rosto do futebol do século XXI e Xavi Hernandez a sua alma. Quis a História que terminassem as suas carreiras (ao mais alto nível, pelo menos) no mesmo estádio, na mesma final, disputando o melhor dos troféus, defrontando-se um ao outro e, o que é espantoso, ainda jogando a um nível altíssimo. A admiração mútua é talvez o maior destaque desta final, e é por ela que nenhum dos dois saiu realmente derrotado de Berlim. Pirlo e Xavi mudaram o futebol, e ambos reconheceram a importância do outro nessa mudança. Não é todos os dias que dois campeões deste calibre, com esta personalidade e admirando-se mutuamente, fazem o último jogo oficial na Europa jogando um contra o outro numa final da Liga dos Campões. É por isso que interessa menos qual dos dois ficou com a taça do que o abraço que as câmaras e os fotógrafos registaram no final do jogo. Há pequenos momentos que a posteridade lembra com mais nitidez do que aquilo que se passou no jogo a que correspondem, e este será sem dúvida um deles. O legado de Pirlo e Xavi é maior do que qualquer vitrine premiada, e na retina dos vindouros ficará esta imagem, não o que se passou em campo. Hoje é um dia triste, porque deixaremos de ver dois dos maiores jogadores de sempre. Amanhã haverá, por isso, menos classe nos relvados europeus. Mas o futebol será um jogo muito diferente do que era antes de eles pisarem os grandes palcos. O papel decisivo que ambos tiveram na evolução do jogo ninguém lhes tira, e quem gosta realmente deste jogo só pode estar, por isso, muitíssimo agradecido por tudo o que eles fizeram. Pirlo e Xavi podem ter terminado as suas carreiras, mas o futebol que jogavam não terminou. Voltaremos a vê-los, ainda que nos pés e nas ideias dos melhores médios que se lhes seguirem.

domingo, 30 de março de 2014

William Carvalho e o Sporting de Leonardo Jardim

A época do Sporting tem sido suficientemente boa para que mereça o devido destaque e para que se elogie algumas das coisas que Leonardo Jardim tem conseguido. Num ano que se esperava, acima de tudo, de transição, com um orçamento bastante reduzido, a verdade é que o Sporting foi capaz de se mostrar muito competitivo, e o acesso directo à Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real. Esta época, ainda que termine sem títulos, deve por isso levar muita gente a reflectir. O Sporting tem na sua formação uma arma que deveria ter explorado melhor nos últimos anos, e que esta época, sendo forçado a isso, mostrou estar à altura das exigências. O que Leonardo Jardim tem mostrado é que é possível construir uma equipa competitiva com um orçamento mais reduzido, recorrendo a alguns jovens com qualidade, jovens como Eric Dier, William Carvalho, Adrien Silva, André Martins e Carlos Mané, e que dificilmente teriam as oportunidades que tiveram caso o clube vivesse dias de desafogo financeiro. O Sporting pode não ter, neste momento, equipa para lutar, por exemplo, com o Benfica, mas ficar à frente do Porto, como pode bem acontecer, é já um feito tremendo. A equipa tem sido regular e tem mostrado personalidade. Não jogando um futebol extraordinário, tem sido capaz de manter índices competitivos altos. Ajuda o facto de não estar envolvida em competições europeias, mas ajuda também não se terem criado expectativas como em outros anos. Leonardo Jardim aproveitou-se disso e, com os poucos recursos que tinha ao seu dispor, pôs a equipa a jogar à sua imagem. Independentemente da rigidez do modelo, um 433 pouco dinâmico, em muitos momentos do jogo, com extremos demasiado clássicos que pouco se envolvem no jogo interior da equipa, e com os médios raramente a solicitar a bola entre linhas, o Sporting tem sido uma equipa sólida, competente a nível defensivo, e que sabe aquilo que quer. As equipas de Leonardo Jardim não praticam um futebol entusiasmante, mas são geralmente muito organizadas e sempre preparadas para aquilo que devem fazer.

Boa parte do bom futebol que esta equipa pratica deve-se, a meu ver, à presença de William Carvalho. Foi uma das maiores demonstrações de coragem de Leonardo Jardim no início da época, relegando para o banco Rinaudo, um dos poucos que parecia ter, para a opinião pública, lugar garantido. A verdade é que William é a grande revelação do campeonato. Conhecia-o de escalões inferiores e, embora reconhecesse nele muitas competências, duvidava que se pudesse impor com tanta facilidade. Claro está que a minha opinião era em função da posição em que jogava nessa altura, como médio de ataque. Aí, francamente, não lhe augurava nada de extraordinário. Era um jogador tecnicamente evoluído, sim, mas que não tinha propriamente facilidade em se movimentar entre as linhas adversárias; era pouco ágil, o que, em espaços curtos, costuma ser relevante. A sua evolução passou então por recuar no terreno, por passar a jogar nas zonas mais apropriadas às suas características, e isso foi decisivo. Como médio-defensivo, William tem um futuro muitíssimo promissor. Em certa medida, parece-me ser esse o problema também de João Mário, um jogador que querem a força que seja médio de ataque, organizador de jogo, ou lá o que seja, mas que não tem, parece-me, vocação senão para jogar como médio recuado. O mesmo se poderia dizer, para ir ainda mais longe, de Nemanja Matic, que sempre que jogou em zonas mais avançadas, por se reconhecer que tecnicamente era muito dotado, não apresentou o rendimento que apresentava na posição de médio mais defensivo. O que William e Matic revelam é que aquela crença enraízada de que jogadores tecnicamente evoluídos devem ter facilidade para jogar em zonas mais ofensivas é falsa. A técnica não chega. A agilidade, a capacidade de drible e, sobretudo, o perfil de decisão do jogador são características bem mais relevantes. William pode ser tecnicamente muito evoluído, mas pensa de uma determinada maneira, e essa maneira de pensar é incompatível com o que se exige em certas posições. Onde está como peixe na água é fora do bloco, com espaço e tempo para tomar as suas decisões, podendo ver constantemente quase tudo o que está a acontecer no campo.

Com William, o Sporting de Leonardo Jardim sai quase sempre da zona defensiva com qualidade. A forma como se posiciona, como gere os ritmos da equipa, como faz a bola circular, como espera pelas melhores opções de passe, como entrega quase sempre jogável, é decisiva para que a equipa tenha a capacidade de se instalar no meio-campo adversário e a capacidade para manter o domínio do jogo que tem demonstrado. Faltar-lhe-á, na minha opinião, aprender algumas coisas a respeito de posicionamento defensivo e algumas coisas a respeito de decisão circunstancial em momentos defensivos, mas é para já inegável que, em termos ofensivos, é já um jogador incrivelmente maduro, não só pelo que faz com bola como pela forma como equilibra a equipa quando esta está em posse, mantendo-se sempre como referência recuada por onde se pode circular. A facilidade que tem, depois, para manter a bola em situações de aperto, para a proteger até que surja uma opção de passe apropriada, permitem que não se desfaça dela de qualquer maneira e que, por mais que a estratégia adversária passe por pressioná-lo, o Sporting não perca qualidade em posse. Os maiores clubes da Europa não têm estado desatentos e começam já a juntar os trocos para poder adquiri-lo. Não sei se o Sporting terá capacidade para mantê-lo mais um ano ou não, mas desconfio que isso será pouco relevante para o futuro de William. Seja no final da época, seja daqui a uma ou duas épocas, parece-me neste momento mais ou menos certo que William Carvalho tem uma carreira brilhante à sua frente. Foi preciso o clube entrar em agonia para que, em poucos meses, se percebesse que há diamantes que, sem a competição, dificilmente poderão aparecer. Se o exemplo de William servir para alguma coisa, pode ser que sirva para se perceber finalmente que uma equipa como o Sporting tem tudo a ganhar em construir plantéis em que metade dos jogadores são provenientes da formação. Há muito que dizemos aqui que é esse o único caminho viável, a única e a melhor forma de competir com Benfica e Porto, e que a estratégia oposta, tal como foi posta em prática nos últimos anos, só poderia terminar em fracasso. Agora que está à vista de todos o que é que um clube como o Sporting deve ser, seguir-se-ão, assim não se deslumbrem os seus dirigentes, outros Williams.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Rosicky e o Arsenal

Há muito que me apetecia escrever um texto sobre Tomás Rosicky, e esta semana surgiu o pretexto ideal. Fruto das várias lesões que tem tido, nos últimos anos, e fruto também da idade avançada, Rosicky não é um titular indiscutível no Arsenal. Ainda assim, e havendo na equipa muitos médios de ataque com as características do checo (Arteta, Wilshere, Ramsey, Cazorla, Ozil), Wenger não deixa de contar com ele, há já várias épocas, e aqui e ali aparece na equipa, quase sempre com enorme qualidade. Devo confessar que, de todos os médios acima referidos, e reconhecendo que Rosicky pode não ser capaz, nesta fase da carreira, de exibir a regularidade de outros, é o meu preferido, seja pela classe inigualável, seja, em termos mais concretos, por dar à equipa coisas que nem mesmo o alemão Ozil é capaz de dar. Entre linhas, com pouco espaço e pouco tempo para decidir, é sem dúvida aquele que melhor lê o que a jogada pede, aquele que mais rapidamente percebe qual a melhor decisão a tomar. É ainda aquele que, em posse, mais pensa na verticalidade, e, se pode fazer a bola entrar entre linhas, recorrendo ao apoio frontal, não passa para o lado nem procura uma solução menos arriscada. Exemplos das suas melhores características são dois dos golos marcados pelo Arsenal na goleada desta semana frente ao Sunderland.



O primeiro golo do Arsenal começa precisamente com a invasão do espaço entre linhas por Rosicky, facilitando a decisão de Podolski, que executa o passe vertical sem dificuldades. Ao mesmo tempo, Wilshere entra sem bola pelo centro, e Rosicky, apercebendo-se disso, rapidamente desvia a bola na direcção do inglês. Com dois passes, o Arsenal não só entrou entre os médios e os defesas adversários como deixou fora da jogada o defesa que saíra em contenção a Rosicky. A decisão de Rosicky, de tão rápida, deixou Wilshere com a bola controlada à frente de um dos centrais e em posição de remate. Não há muitos jogadores com capacidade para decidir tão bem e tão rápido, e ainda menos são os que o conseguem fazer dando a impressão de que não é difícil fazê-lo. O melhor lance do jogo, contudo, estaria reservado para o terceiro golo, um lance cuja finalização, não obstante a qualidade da mesma e não obstante ter sido precisamente da autoria do checo, é o pormenor menos relevante.



O Arsenal é das poucas equipas que procura sistematicamente lances deste tipo, envolvendo vários atletas nas jogadas de ataque, com tabelas curtas a disposicionar os defesas, e Wenger tem todo o mérito nisso. Com Rosicky em campo, no entanto, a probabilidade de estas coisas acontecerem, e a qualidade com que acontecem, é espantosamente diferente. O lance começa com Wilshere a invadir o espaço entre linhas, com Rosicky a lateralizar para Cazorla, não interrompendo a marcha e invadindo o espaço deixado vago pelo médio adversário que saiu a Cazorla, e com o espanhol a dar de primeira em Wilshere. Wilshere, respeitando o movimento do checo, dá por sua vez de primeira, deixando Rosicky de frente para o lance, só com a linha defensiva pela frente. Com três passes e uma simples triangulação, o portador da bola ficou assim à frente da linha de meio-campo e de frente para a baliza. Se isto já era óptimo, o que Rosicky fez de seguida foi ainda melhor. Sem muito espaço, e não havendo qualquer desposicionamento da defesa contrária, solicitou de primeira Giroud, apesar de o francês praticamente não ter espaço e estar obrigado a jogar de primeira, e desmarcou-se por entre um central e o lateral-esquerdo. Giroud, percebendo as intenções do colega, devolveu de primeira, entre os dois centrais, e deixou Rosicky cara a cara com o guarda-redes adversário. A finalização do checo é primorosa, mas todo o lance é de absoluto génio. Com cinco toques na bola, e envolvendo quatro jogadores, o Arsenal entrou em progressão pelo centro do bloco adversário, um bloco que, de resto, estava bem organizado no início do lance. Embora o espaço não fosse muito e não houvesse grande liberdade para aproveitar, a equipa londrina arranjou maneira de entrar por onde é letal entrar, e soube criar uma situação de golo clara sem precisar de um erro do adverário para o fazer.

Jogar futebol é essencialmente, fazer coisas destas, e é por estas e por outras que a equipa de Wenger, não tendo o orçamento que alguns dos rivais têm e não tendo uma equipa especialmente atlética, se manteve na alta roda do futebol europeu nos últimos anos. Muitos são aqueles que têm criticado o treinador francês ao longo dos últimos anos, sobretudo por não ganhar títulos há muito tempo, mas poucos têm sido capazes de explicar a regularidade impressionante do Arsenal. Mesmo não ganhando nada há muito tempo, nunca fez pior do que o quarto lugar, discutiu várias vezes o título com outras equipas, e apurou-se sempre para a fase das eliminatórias na Liga dos Campeões, algo que, por exemplo, Alex Ferguson não foi capaz de fazer. Disse o ano passado que, caso o Arsenal não perdesse nenhum jogador, e dadas as mudanças que se anunciavam em Manchester, os comandados de Wenger seriam novamente candidatos ao título. Embora outros tenham achado que era uma patetice, e que o mais certo era o Arsenal ser ultrapassado por clubes em ascensão como o Tottenham, justifiquei a minha opinião com base não só na regularidade da sequipas  de Wenger e na maturidade que, este ano, esta equipa atingiria, mas também no tipo de futebol que preferencialmente praticam. Esse tipo de futebol, que esta jogada tão bem exemplifica, é único em Inglaterra. E é esse tipo de futebol o mais eficaz para vencer adversários que fazem do suor e da entrega as armas preferenciais. Num campeonato em que a principal virtude é a capacidade atlética, só há duas maneiras de uma equipa se superiorizar às outras: ou ter uma equipa mais forte que as outras, do ponto de vista atlético, ou ser uma equipa diferente. Não podendo competir, em termos orçamentais, com os principais emblemas britânicos, o Arsenal de Wenger só pôde manter-se ao nível deles recorrendo à segunda hipótese. E, este ano, parece estar finalmente a colher os frutos dessa escolha. Ainda é cedo para perceber o que pode esta equipa fazer, na recta final da prova (se bem que a saída da Champions que se anuncia possa ser benéfica para as aspirações internas da equipa), mas estar na corrida pelo título a três meses do final da competição é já um murro no estômago dos que, com todas as certezas do mundo, achavam que Wenger era um falhado. Quanto a Rosicky, em quantas equipas do topo europeu seria ele opção? Quantas equipas, daquelas que lutam sistematicamente pelo campeonato e que têm algumas ambições europeias, manteriam durante tantos anos um jogador que, apesar de virtuoso, não é especialmente veloz, aguerrido ou combativo, um jogador que fisicamente é algo frágil e que já não vai para novo? Rosicky pode não ser das principais opções de Wenger, mas é com certeza o melhor exemplo do que o francês entende ser este desporto. Para aqueles que gostam de futebol, cada toque na bola de Rosicky é um momento para mais tarde recordar. Como não se sabe quanto mais durará, e se outros serão capazes de fazê-lo no futuro, sugeria que se aproveitasse ao máximo as coisas que ele tem para nos oferecer.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eusébio

Não quero ser hipócrita. Aquilo que costumo fazer é falar de um jogo que não existia nas décadas de 60 e 70. Nessa altura, o futebol era de tal maneira diferente que as considerações que faço, respeitantes ao jogo que hoje existe, não têm, na sua grande maioria, qualquer validade. O jogo evoluiu, e é daquilo que é hoje que tenho o hábito e sei falar. Tenho pouco a dizer, por isso, acerca do que era o futebol há 30 ou 40 anos, e aliás são pouquíssimos os textos que versam sobre a História do Futebol, sobre jogos antigos, sobre jogadores lendários, etc.. Quando criei este espaço, juntamente com o Gonçalo, o objectivo era falar de um jogo que tinha evoluído de tal maneira que devia ser perspectivado de um modo completamente diferente do que se fazia nessa altura. Temos sido fiéis a isso, e não faria sentido deixá-lo de ser. Por essa razão, os grandes jogadores do passado raramente foram tema de um texto. Não vou ser hipócrita agora e dizer que o Eusébio foi isto e aquilo enquanto jogador de futebol. Além de não o ter visto jogar, de conhecer apenas os seus momentos mais famosos (o que é manifestamente pouco para esboçar ideias concretas acerca do jogador que foi), não posso falar dele, e do futebol que se praticava na altura, com as ideias que tenho acerca de futebol, pois elas foram moldadas por aquilo em que o futebol se transformou nos últimos 20 anos. Para ser sincero, nem de Maradona já posso falar sem antes estipular que o jogo que jogava era outro.

Do que posso falar é de lendas. E falar disso é falar, na minha opinião, de tudo o que é honesto falar acerca de Eusébio. Tirando aqueles que ainda o viram jogar, que acompanharam os momentos áureos da sua carreira in loco, tirando portanto, uma geração de adeptos de futebol que, nos dias que correm, é uma minoria, uma geração que, de facto, pode recordar com emoção alguns dos principais momentos da sua carreira, que vibrou com certos episódios da sua vida futebolística, os restantes adeptos do jogo relacionam-se com Eusébio como nos relacionamos com qualquer herói mitológico. Desde que era criança que sei que Eusébio (como, de resto, os nomes maiores da História do Futebol) é imortal. Para mim, nunca foi o jogador de futebol e muito menos foi o cidadão Eusébio da Silva Ferreira; foi sempre uma personagem de livros, a estátua no Estádio da Luz, o deus olímpico. Sim, sabia que Eusébio estava vivo, que a mesma pessoa que tinha feito todas aquelas coisas que via em imagens de arquivo ainda respirava. Mas Eusébio nunca foi, para mim, a pessoa que via na televisão, sempre que a selecção ia jogar ao estrangeiro, por exemplo. Foi sempre, desde que me lembro, uma lenda, uma lenda sobre a qual aprendi a ver imagens antigas e a ler livros sobre a História do jogo. O facto de ainda estar vivo era mera contingência; o seu significado estava há muito morto, no sentido em que estava há muito petrificado na memória colectiva. Aquilo que Eusébio será daqui para a frente já o era há muito anos, e é aquilo que vai ser agora, ou seja, um mito, que foi sempre para mim. Para mim, e quero acreditar que para muita gente também, o que aconteceu este fim-de-semana foi um pormenor insignificante; para mim, Eusébio morrera já há muito tempo. E com a sua morte nascera já há muito tempo a lenda. Transformar-se em lenda é, talvez, um dos objectivos mais nobres de quem anda vivo, pelo que dizer que Eusébio não morreu há três dias mas há três décadas e que, de lá para cá, o que tem vivido é a lenda, é tão-somente a melhor homenagem que me parece possível prestar à pessoa que foi.

Tenho muitas dúvidas, de resto, que a História do Futebol continue a criar lendas como as que criou em tempos. Não que não me pareça que alguns dos jogadores actuais venham a ficar na História, pois creio que vão ficar. Mas Eusébio, como muito poucos, parece ter ficado nela sem mácula. Nem Pelé, nem Maradona, por exemplo, são figuras tão consensuais como a de Eusébio. Não o são, claro está, porque de Eusébio não se conhece quase nada que macule o jogador que foi. É como se, tal como dizia atrás, tivesse morrido no momento em que parou de jogar futebol. Um dos atributos que, nos últimos dias, mais se referiu foi a humildade de Eusébio. Na minha opinião, a humildade é a última das razões pelas quais pode alguém imortalizar-se, a menos que se tivesse imortalizado por ser caridoso. Eusébio foi jogador de futebol; não foi santo. Por questões políticas ou por questões religiosas, as pessoas têm tendência a confundir o talento de alguém que foi exemplar numa determinada actividade com o carácter público dessa pessoa. Se Eusébio não tivesse sido dos melhores jogadores de sempre, ninguém se lembraria dele, por mais humilde que fosse. Aclamar a sua humildade é, deste ponto de vista, rebaixá-lo. Não, Eusébio não foi humilde. Ou melhor, não interessa para nada que tenha ou não tenha sido humilde. Foi, isso sim, jogador de futebol, e é por isso que é lembrado. É uma figura mais consensual do que Pelé ou Maradona não porque tenha sido mais humilde do que estes, mas porque, depois de terminar a sua carreira, não esteve ligado ao futebol, quer politicamente, como Pelé, quer enquanto treinador, como Maradona. Ao contrário destes, e ainda que tenha continuado a aparecer com regularidade em estádios, Eusébio não teve ligação oficial àquilo que se passa dentro do relvado: assim que se reformou, imortalizou-se. O último pontapé que deu numa bola transformou-se na sua eternidade. É por essa razão que me parece dificílimo que o Futebol actual seja capaz de criar lendas como as daquele tempo. A mediatização actual divulga demasiado acerca das pessoas e destrói os mitos. Quando se ouve falar em Eusébio, pensa-se em heróis homéricos, em pessoas que foram capazes de proezas inexplicáveis. Pensa-se nisso porque a figura humana não macula a figura divina que entretanto dela se esculpiu. Como qualquer mártir, para quem a decadência da velhice, pela morte prematura, não se torna pública, Eusébio ficou sempre (e essa parece-me uma dos seus maiores feitos) o jogador que foi.

É também por isso que, quando dizem que Eusébio (ou qualquer outro jogador lendário), seria hoje muito superior a qualquer outro jogador, fico sempre sem saber o que querem dizer. Se querem dizer que, com as condições de treino e com os estímulos que o futebol actual propicia, um talento natural como o de Eusébio seria infinitamente maior, fico sempre com a sensação de que acreditam em potenciais de talento predefinidos que se desenvolvem mais ou menos, consoante o meio em que crescem; se querem dizer, pelo contrário, que o talento de Eusébio, no futebol actual, se manifestaria da mesma maneira, fico com a sensação de que acreditam que hoje em dia é tão fácil fazer o que Eusébio fazia como o era antigamente. O futebol é diferente. Individualmente e colectivamente, é muito mais evoluído, e é impossível a alguém ser bem sucedido a fazer o que Eusébio fazia, com sucesso, na sua altura. Evidentemente, o talento de Eusébio seria diferente, porque teria crescido num meio diferente, com índices competitivos diferentes, etc.. Mas isso não significa que desenvolvesse as suas aptidões infinitamente. As pessoas parecem acreditar que, transpondo talentos de uma época para a outra, as diferenças do jogador mais talentoso para os restantes se mantêm. Isto é, acham que, como o Eusébio eram muito melhor do que os restantes jogadores, seria hoje em dia muito melhor do que os jogadores actuais. Isso é falacioso. O talento dele não seria maior em proporção; seria de tipo diferente. O futebol actual exige coisas aos atletas que não exigia antes, e portanto Eusébio seria um jogador de espécie diferente. Eusébio foi uma lenda precisamente porque jogou num tempo em que, por o futebol não estar ainda muito evoluído, sobretudo do ponto de vista técnico e táctico, e por não haver a mediatização que há hoje, era propícia a criação de lendas. Isso não lhe tira valor. Não se pode saber como seria hoje em dia, enquanto jogador, porque não se pode saber como desenvolveria as suas capacidades futebolísticas. O que se sabe é que foi o que foi na época em que o foi. E, nessa época, foi um dos maiores. Que se tenha imortalizado por isso é tudo o que vale a pena preservar.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Certezas (26)

É talvez uma boa altura, agora que começa o Euro 2012, mencionar um atleta que não vai estar na grande montra europeia da Polónia e da Ucrânia. Ainda assim, este parece ser o seu Verão, e dificilmente começará o próximo campeonato a defender o mesmo clube. Trata-se de um defesa central de qualidades muitíssimo interessantes, e que me parece ter tudo à sua frente para ser um dos melhores no seu posto, assim o queira o destino. Para além de ter algumas das características mais apreciadas num defesa (altura, velocidade, bom jogo aéreo, excelente capacidade de desarme), tem outras a que, normalmente, dou mais valor. A sua capacidade de passe é invejável, e a sua técnica, para um defesa, fora do comum. Alia um bom sentido posicional a uma tranquilidade impressionante, e parece estar sempre no sítio certo à hora certa. Não é agressivo, e isso talvez o possa prejudicar ligeiramente (sobretudo confirmando-se a ida para Inglaterra, que parece ser o cenário mais provável). Mas nem tem que o ser. Lê os lances como ninguém, antecipa-os, e percebe tudo o que está a acontecer à sua volta com extrema facilidade. É, ainda, elegantíssimo a jogar, e, aos 25 anos, possui uma maturidade que não é para todos. Um verdadeiro líder em campo, que faz lembrar Beckenbauer. Pelas suas qualidades com bola, actuou já também a meio-campo, mas é a central que me parece que deve impor-se. Na selecção do seu país, joga também a lateral-esquerdo, fruto do excelente pé esquerdo que tem, e da disponibilidade para se intrometer nas acções ofensivas da equipa (e da excelente fornada de compatriotas que actuam no centro da defesa). No Ajax, aliás, não era raro vê-lo a subir com a bola controlada e a criar situações de superioridade numérica pelo meio. Até por toda esta polivalência, seria a minha primeira opção para reforçar a defesa blaugrana, que procura jogadores para o centro e para a esquerda da defesa, e, se tivesse que mencionar os dez defesas centrais que mais me agradam no futebol actual, não me esqueceria dele. Pertence a uma geração belga muitíssimo prometedora, que dará certamente cartas nas próximas três ou quatro competições de selecções, e, apesar de tudo, estou certo de que fará boa figura para onde quer que vá. É, por isso, com muito interesse que seguirei as pisadas de Jan Vertonghen, e estarei a torcer para que o perfume do seu futebol possa contagiar até o mais conservador dos treinadores que vier a apanhar.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Certezas (25)

Não é propriamente uma novidade, mas há muito que merecia a honra de ser falado aqui. Não o fiz antes essencialmente porque queria perceber melhor qual seria o seu enquadramento no plantel da sua equipa, este ano, até porque tinha ideias a esse respeito. O seu valor é inquestionável e serão poucos os que acharão alguma novidade nesta referência. Não é, como o seu ídolo, Xavi, um jogador tão inteligente e criterioso no momento do passe. Nem me parece que seja em fases de construção tão prematuras que pode fazer a diferença. Claro que pode jogar aí, e claro que aparecerá sempre em zonas baixas, mas a sua qualidade de drible, sobretudo, merece um aproveitamento diferente. Não o considero tão rápido a ler o jogo como outro colega com quem cresceu e com quem coabitou no meio-campo, Jonathan dos Santos, mas parece ter maiores recursos que o mexicano, e uma personalidade mais forte. É atrevido, tem uma capacidade técnica invulgar, e é assaz inteligente para jogar em qualquer posição do meio-campo, mas é entre linhas, enfiado entre as defesas contrárias que gostaria de vê-lo mais vezes. É fortíssimo no último passe, muito criativo, e individualmente desembaraça-se de situações difíceis sem problemas. Como médio, não tem ainda a maturidade nem a qualidade para poder ombrear com os habituais titulares, e ficaria durante muitos anos na sombra deles. Mas encostado à esquerda, como no último jogo, partindo depois para dentro, ou à frente dos dois médios, percorrendo sem bola os espaços entre os médios e os defesas adversários, oferecendo-se para tabelas curtas e puxando as marcações adversárias para onde interesse à equipa, acho que tem tudo para crescer. Em qualquer uma dessas posições, a sua responsabilidade é menor, e as suas melhores qualidades podem continuar a ser trabalhadas. O seu treinador não parece concordar, utilizando-o quase sempre como médio-ofensivo, mas nunca como aquele jogador que joga à frente dos médios, menos posicional, deambulando pela frente de ataque com menores amarras, mais preocupado em solicitar linhas de passe do que em ter ele a bola. Agora que é claro que Guardiola valoriza como ninguém a utilização de jogadores com características de médios nas posições mais ofensivas do seu modelo, assim como valoriza a criação de espaços ofensivos, os movimentos sem bola dos atacantes, a utilização da bola como um engodo, cabe-lhe talvez a missão de fazer de Thiago Alcântara um jogador mais decisivo na manobra ofensiva da equipa, especialmente naquilo que se passa no último terço do terreno, precisamente onde os espaços são mais curtos, a quantidade de vezes que se toca na bola é menor, e a técnica individual mais preponderante.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Certezas (24)

Dizer que faz lembrar Kaká é pouco. Foi o jogador que mais me impressionou no recente mundial de sub-20, e impressionou-me sobretudo por conseguir misturar no seu jogo as competências técnicas com um nível de maturidade muitíssimo aceitável para a sua idade. Não era o jogador mais vistoso da sua selecção, nem aquele sobre quem recaíam maiores expectativas. Mas pareceu-me sempre o mais esclarecido de todos eles. Quando faltava o espaço, argumento necessário para que outros pudessem brilhar, a sua clarividência mantinha-se intacta. Se não o tinha, arranjava-o. Sempre de cabeça levantada, muito rápido a decidir e a executar, e veloz também a conduzir a bola, pareceu sempre poder modificar as coordenadas de um jogo, assim lhe apetecesse. Foi exactamente o que fez na final do torneio, onde por fim lhe foi prestado o devido reconhecimento. É apesar dessa final, e apesar das razões pelas quais acabou por ser reconhecido, que acho que o seu valor deve ser entendido. Marcar golos e contribuir de forma evidente para o sucesso da sua equipa foi apenas o somar de muitas outras coisas. Gostei sobretudo do privilégio pelo passe vertical, sempre a procurar os apoios frontais dos colegas, e a preocupação em solicitar os companheiros nos espaços entre linhas. Não há muitos jogadores, mesmo os mais dotados tecnicamente e os mais arrojados, que optem tantas vezes pelo passe vertical rasteiro para progredir. Normalmente, quando os espaços estão fechados, a opção é circundar o bloco adversário, fazer a bola chegar aos extremos de modo a que estes desequilibrem individualmente ou de modo a que, esperando pelo lateral, possam criar situações de superioridade numérica no flanco. Ele, porém, pareceu sempre perceber que há mais soluções do que as óbvias. E pareceu sobretudo perceber que progredir pelo centro é sempre uma opção válida, desde que se saiba como. Tivesse nos colegas companheiros capazes de entender o jogo tão bem como ele e teria dado ainda mais nas vistas. Não sei o que o futuro lhe reserva, principalmente porque o futuro de jogadores que se destacam pelos seus atributos intelectuais é sempre mais incerto do que o futuro de outro tipo de jogadores. Acho que tem qualidade mais do que suficiente para vir a ser dos melhores jogadores do mundo daqui a uns anos, mas não sei se isso acontecerá incondicionalmente. Enquanto que jogadores mais individualistas e mais vistosos podem vingar em praticamente qualquer equipa, desde que, para isso, mereçam a confiança do treinador que apanharem, jogadores como este, jogadores que, apesar de tecnicamente evoluídos, fazem uso sistemático das suas qualidades colectivas e privilegiam acima de qualquer outra coisa a criatividade, estarão sempre dependentes do tipo de colectivo em que acabarem inseridos. Vejamos então que caminhos desbravará o talento de Óscar...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Miguel Rosa e os Glutões

Comissões, comissões e mais comissões - eis o que interessa aos glutões. Como é possível que, no estado actual da economia mundial, e sobretudo num defeso em que os principais clubes europeus têm optado por políticas de contratação bem mais conservadoras, os três maiores clubes portugueses se preparem para adquirir, em conjunto, perto de meia centena de jogadores? Não duvidando da qualidade de algumas dessas contratações, o excesso denuncia outras intenções que não o simples reforço dos respectivos plantéis. À cabeça de tudo isto está o Benfica. É claro que há ali jogadores talentosos, e que o plantel sairá reforçado por alguns daqueles atletas. Mas à custa de quê? Sem exagero, dois terços das contratações servirão mais para encher os bolsos de alguém do que para reforçar o que quer que seja. Que equipa é que contrata 3 guarda-redes na mesma época? Que equipa europeia, mesmo em tempo de pré-época, conta em simultâneo com seis laterais esquerdos? Claro que a lista de dispensas demora a ser feita, e que no final o plantel será emagrecido. Mas esta política de contratar por contratar não parece servir ninguém (nem Jesus, nem o Benfica) a não ser agentes externos ao jogo. Não quero, porém, entrar em especulações escusadas, nem me apetece muito falar de coisas que não digam propriamente respeito ao jogo. Dito isto, importa mencionar o caso de Miguel Rosa.

Para muita gente, é um jovem desconhecido. Não para mim. Não foi aqui antes mencionado por desconfiar que o seu trajecto a nível sénior dependeria de muita coisa que o jogador não podia controlar. Não me enganei. Ainda assim, e sobretudo porque os primeiros anos como profissional o justificam, creio que merecia o salto que esteve perto de se realizar. Miguel Rosa é um médio ofensivo, ou médio interior, que pode alinhar na direita, por exemplo, com muitíssima qualidade. Não é um criativo por excelência, um jogador de último passe, de drible fácil, mas é incrivelmente correcto nas suas acções, bom tecnicamente e inteligente. Não é um médio de trabalho, mas muitíssimo compridor das suas funções, abnegado, humilde. Talvez o pudesse comparar a Pereirinha, não tão virtuoso e veloz, mas talvez mais cerebral. Acho-o muito parecido também com Rúben Amorim, embora seja ligeiramente mais ofensivo. Aliás, jogou essencialmente nas costas do avançado, no Belenenses e no Carregado. Para mim, foi o melhor jogador que saiu das camadas jovens encarnadas nos últimos 5/6 anos, a par talvez de Nélson Oliveira. É melhor do que André Carvalhas (um novo Hélio Roque que era, para muitos, o melhor jogador encarnado do seu ano e que, entretanto, como seria de esperar, desapareceu do mapa); melhor do que David Simão, que apesar de ser um ano mais novo, teve a sua oportunidade na primeira liga bem mais cedo; bem melhor do que Romeu Ribeiro, a quem foram inexplicavelmente dadas muito mais oportunidades; e melhor do que Miguel Vítor ou Roderick Miranda, que são jogadores excessivamente valorizados. Como disse, não destaquei Miguel Rosa anteriormente porque tinha muitas dúvidas quanto ao seu aproveitamento futuro. É que, já nos escalões mais novos, ficava a impressão de que não o apreciavam condignamente. A maturidade que tinha a jogar, a inteligência, a excelência do critério, nada disso chegava. Preferia-se a extravagância de outros. E a falta de extravagância, estando nós, ainda por cima, a falar do Benfica, antecipava que não fosse aproveitado.

Certo é que as três épocas de segunda liga não fizeram com que Miguel Rosa se resignasse. No Estoril e no Carregado foi uma mais-valia. No Belenenses, confirmou-se como uma certeza. Tanto é que foi eleito o melhor jogador do segundo escalão português esta temporada. Ainda antes do troféu, anunciava o jogador, confessando que Rui Costa lhe garantira o regresso à Luz, que iria integrar o plantel encarnado no ano seguinte. Surpreendeu-me a notícia, sobretudo por duas razões: pela precocidade do seu anúncio, pouco tempo depois de a época transacta terminar, e por ter conhecimento de certos atritos entre o Benfica e a família do jogador. O que é certo é que Miguel Rosa iniciou mesmo os trabalhos de pré-temporada, sendo antes utilizado numa campanha, ao lado de Nélson Oliveira, Rúben Pinto e David Simão, para promover a ideia absolutamente falsa de que, esta época, o Benfica iria apostar na prata da casa. Enfim, em pouco tempo se percebeu que, afinal, o jogador não iria fazer parte dos planos do clube, e que nem na pré-época iria poder mostrar serviço. Começaram a surgir notícias de empréstimos a clubes da primeira liga e acabou novamente recambiado para o Belenenses. Para ser honesto, o desaproveitamento de jovens de qualidade não é coisa que me espante. Mas há qualquer coisa esquisita neste caso. Repare-se só no seguinte exemplo: André Almeida foi recrutado ao Belenenses e posteriormente emprestado ao Leiria; Miguel Rosa, que não só jogava no mesmo Belenenses, como foi o melhor jogador do Belenenses e o melhor jogador de toda a segunda liga, vai voltar a ser emprestado a uma equipa da segunda liga. Que sentido é que isto faz? Não haveria mercado para o jogador na primeira liga? E, mais do que isso, por que é que não parece haver interesse do Benfica em valorizar o jogador, emprestando-o a um clube mais competitivo?

É aqui que entram os glutões. Sim, o mesmo tipo de gente que tem tudo a ganhar com a contratação de camionetas de jogadores parece ter o poder para marginalizar o jogador e assim satisfazer a sua vontade como bem lhe apeteça. Convenhamos, Miguel Rosa volta este ano ao Belenenses por uma única razão: porque alguém não quer que ele venha a ter o sucesso que promete ter. A notícia que veio a público dava conta do interesse de Miguel Rosa permanecer perto de casa, e de ter recusado sistematicamente todas as propostas de clubes da primeira liga que apareceram (mais tarde, apareceu uma notícia contraditória, em que Miguel Rosa dizia que fora o Benfica que preferira emprestá-lo ao Belenenses). Francamente, isso não cheira nada bem, ainda por cima quando uma das propostas era do Vitória de Setúbal, que não é muito mais longe do que o Seixal. O pai do jogador afirma que foi o Benfica que recusou as propostas do Nacional, do Vitória de Setúbal, do Olhanense e do Feirense, forçando-o ao empréstimo ao Belenenses (acrescentou, aliás, que o Benfica lhe sugeriu, como única alternativa ao Belenenses, ficar uma época inteira a treinar sozinho). Não é por ser a versão do pai do jogador, mas por ser logicamente a mais inteligível, que é, a meu ver, a versão que faz mais sentido. As pessoas acham que é absurdo, por ser contra os interesses do clube o Benfica preferir emprestá-lo a um clube da segunda liga, mas a verdade é que é contra os interesses do clube ter praticamente 50 jogadores a fazer a pré-época e foi isso que se passou. O que se acontece é que, mesmo que estas coisas sejam contra os interesses do clube, favorecem os interesses de alguém. E é isso que está aqui em causa. Nenhuma das duas versões do caso, 1) ter sido o jogador a preferir a segunda liga, por poder ficar perto de Lisboa, e 2) ter sido o Benfica a preferir o Belenenses, parecem lógicas, porque não o são. O que falta nesta equação é a vontade de alguém que não serve nem o clube nem o jogador.

Em campo, além de virtuosíssimo, Miguel Rosa é um jogador trabalhador, abnegado, lutador. O seu benfiquismo é inatacável - basta ver como agradeceu ao Benfica, de forma até pouco razoável, o prémio de melhor jogador da segunda liga. A acusação de falta de profissionalismo, num jogador com este tipo de características, não faz sentido nenhum. Argumentam os que consideram que o responsável pela situação foi o Miguel Rosa que os clubes a que esteve ligado são todos da zona de Lisboa: Estoril, Carregado e Belenenses. E argumentam ainda que o Benfica teria todo o interesse em valorizá-lo na primeira liga. Sobre o primeiro argumento, sinceramente, não acho que haja nada de extraordinário. Ter Miguel Rosa preferido o Carregado a outra equipa da segunda liga não é nada de esquisito. E o certo é que ficar perto de casa, sobretudo quando as alternativas não são de nível superior, não me parece um mau critério. Esteve em três clubes da zona de Lisboa porque havia clubes da zona de Lisboa interessados nele. Ponto final. Nada nesse argumento joga a favor da teoria de que Miguel Rosa não tem ambição. Quanto ao segundo argumento, de facto faz sentido. Mas faz sentido, como disse acima, se acharmos que são apenas os interesses do Benfica que estão em jogo. E claramente não são. Já há alguns anos que tenho conhecimento dos problemas entre alguns dirigentes do Benfica e a família de Miguel Rosa (isto explica, aliás, que não tenha tido, nos últimos anos, o mesmo tipo de projecção pública que outros miúdos). O que me parece que terá acontecido foi que Rui Costa, de boa fé e reconhecendo-lhe o talento que tem, o contactou de maneira a que ele integrasse o plantel na época seguinte. A forma como Miguel Rosa anunciou a coisa indicava até que não ia fazer apenas a pré-época, mas concedo, ainda assim, que fosse apenas para isso que foi contactado. O problema é que nem a pré-época lhe permitiram. Que explicação há para isto? A meu ver, a entrada em cena de alguém que não quer o jogador no Benfica por razões pessoais, e por cima de quem a decisão de Rui Costa terá passado. Não sei quem será essa pessoa (ou pessoas), mas, por tudo o que sei, acerca do jogador, acerca do seu valor, acerca do caso em si, acerca dos problemas passados com a família, acerca da índole de grande parte dos dirigentes desportivos, esta conclusão é claríssima: Miguel Rosa volta agora para o Belenenses não porque não tem mercado na primeira liga, não porque o Benfica não está interessado em valorizá-lo, não porque é irresponsável e não tem ambição, não porque tem uma namorada em Lisboa e quer ficar perto dela (estes são os argumentos mais comuns), mas porque alguém, alguém com poder suficiente na estrutura do clube, tem problemas pessoais com ele ou com a família dele. Aliás, basta que se conheça minimamente os meandros do futebol para chegar a esta conclusão. E agora, para terminar, queria apenas lançar uma perguntinha, uma perguntinha que, por reunir indícios suficientes para que justifique que seja colocada, não é apenas uma perguntinha arbitrária e infundada. Como é que se chama o ex-gestor do futebol de formação do Benfica (curiosamente numa altura em que Miguel Rosa era juvenil e júnior e que, segundo consta, chegou a ser visto em altercações com o pai de Miguel Rosa), que regressou à estrutura encarnada para exercer a função de director do futebol profissional precisamente poucos dias antes de Miguel Rosa ser novamente escorraçado do clube? Uma pista: tem o mesmo nome de um parasita que costuma ser portador de doenças.

P.S. Muito do trabalho de casa em torno da discussão acerca das razões para o regresso do jogador ao Belenenses, principalmente no que diz respeito à posição do pai de Miguel Rosa nesta questão, foi feito no fórum do Ser Benfiquista.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Certezas (23)

A recente e, por que não, surpreendente transferência deste jogador para Inglaterra veio apressar a necessidade de escrever este texto. Dele há a dizer, em primeiro lugar, que foi o jogador que mais me impressionou no europeu sub-20 do ano passado. Senhorial, com um sentido posicional perfeito e uma simplicidade de processos ao nível de poucos, destacou-se mais pela sobriedade e pelas capacidades de liderança do que pelos atributos atléticos que também possui. Não sendo extraordinariamente alto, é no entanto muito forte fisicamente. Isso não o impede, como é hábito acontecer, de ser tecnicamente evoluído e de privilegiar o intelecto. Jogando na posição de médio defensivo, sente-se confortável com o papel posicional que desempenha, sendo especialmente forte nas coberturas ofensivas e defensivas, aparecendo invariavelmente perto dos médios mais avançados em todas as situações do jogo. Com bola, é também muito bom. Não exagera no passe à distância, nem parece ter necessidade de fazê-lo para se impor, e percebe bem as reais necessidades da equipa, a cada momento. Apesar de não usar o passe longo com frequência, tem uma facilidade de passe invejável e muito critério quando tem de entregar a bola. Percebe que a sua posição não implica apenas recuperar e entregar, e toma invariavelmente boas decisões, não deixando de procurar soluções verticais, com passes entre linhas, quando assim se exige. Antes de se confirmar que o seu futuro passaria afinal por Inglaterra, foi conjecturada a sua vinda para Portugal, para um dos três grandes. Se na altura pareceu claro que não era do interesse do seu clube um empréstimo a uma equipa portuguesa, o que fazia antever uma aposta, pelo menos a médio prazo, neste jogador, não deixa de ser para mim uma surpresa o desfecho do caso. Aliás, imaginei mesmo que, no início da época que agora acabou, pudesse vir a integrar os trabalhos da principal equipa com alguma frequência, e perspectivei que se tornasse rapidamente o substituto de Sergio Busquets, com quem o compararia, se tivesse de compará-lo com alguém. A chegada de Mascherano acabou, contudo, por lhe dificultar a ascensão, e sai agora de Barcelona, rumo a Londres, por uma quantia quase irrisória, tendo em conta o seu enormíssimo valor. Demorei este texto por querer vê-lo noutro contexto que não a selecção de sub-20 e o Barcelona B, mas a perspicácia de André Villas-Boas impede agora que continue a fazê-lo. É hora, pois, de lembrar que na Catalunha mora (ou morava) mais um incrível médio defensivo, um jogador que, apesar de possuir uma fisionomia bem diferente de Busquets ou Guardiola, muito mais condizente com um médio de choque, acaba porém por cultivar um perfil idêntico àqueles de quem herdou o talento. Pode ser que Camp Nou não venha afinal a ser o palco onde futuramente evidenciará as suas qualidades, mas isso não impedirá que Oriol Romeu venha a ter a grandeza que se lhe adivinha...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Certezas (22)

Surgiu ligado ao Porto há dois anos, mas a sua vinda para Portugal acabou por não se confirmar. As semelhanças de estilo com Lucho González eram, na altura, o que mais impressionava. Ao contrário, porém, do argentino que passou pelo Dragão, este jovem tem ainda mais atributos técnicos, e uma capacidade individual extraordinária. Dotado ainda de uma personalidade aparentemente forte, foi com alguma surpresa que não esteve entre os titulares da selecção do seu país, no mundial do ano passado. Felizmente para ele, soube evoluir numa equipa de segundo plano e é agora dos atletas mais cobiçados na Europa. Médio de ataque, com boa chegada à área adversária, mas sobretudo muito evoluído tecnicamente e com criatividade para dar e vender. Trata-se, pois, do médio que tipicamente se aprecia por aqui: um jogador inteligente, com índices técnicos e de criatividade acima da média, que faz do passe e das combinações complexas a sua maior arma, e com muita, muita classe. Nos últimos tempos, foi sendo ligado ao Barcelona com mais insistência, mas duvido que a Catalunha seja o seu destino, sobretudo se se confirmar a transferência de Fabregas, que parece ser a preferência dos blaugrana. Isso não deverá, porém, afectar a evolução deste extraordinário jogador, principalmente se encontrar no seu próximo destino quem lhe permita a liberdade de que o seu futebol parece precisar. Numa altura em que se confunde sistematicamente capacidade no um para um com criatividade, e numa altura em que cada vez mais se perde a cabeça por jogadores que fazem do drible a sua arma prioritária, era bom que se olhasse para este magnifíco jogador e se percebesse que a classe e a imaginação são tudo o que uma grande equipa deveria procurar num jogador. Onde quer que venha a continuar a sua carreira, será, por isso, um prazer - um prazer que pouquíssimos futebolistas me conseguem hoje em dia oferecer - continuar a acompanhar o virtuosismo de Javier Pastore...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Certezas (21)

Quando apareceu, compararam-no imediatamente a Theo Walcott, mas depressa me pareceu que a comparação requeria ajuste considerável. Como apareceu a jogar numa posição semelhante, mais avançado e junto à linha, e como fazia uso da velocidade como Walcott, não tiveram dúvidas em relação ao rótulo. Antes mesmo de o ver jogar, torci o nariz, precisamente por causa da comparação. Mas, ao vê-lo, percebi que não era apenas o que Walcott é, um jogador veloz e mortífero quando se apanha com espaço, mas sim alguém de toque mais curto, mais refinado tecnicamente, e sobretudo mais imaginativo. A evolução que a sua curta carreira foi tendo comprovou as minhas suspeitas: tratava-se de um atleta fadado para outras coisas e para outra posição no terreno. A sua colocação na zona central foi para mim óbvia, essencialmente porque a sua capacidade para inventar requeria a problematização que o centro do terreno oferece. Faltava perceber, apenas, se conseguia juntar à criatividade e à capacidade de improvisação a frieza e a natureza cerebral de um médio centro clássico. Este ano, apareceu precisamente a jogar no meio-campo, não como médio-ofensivo que é, mas como médio recuado, numa posição em que se lhe exige que seja mais cerebral e menos mágico. Confesso que não é aí que me parece que possa ser extraordinário, não necessariamente por ser fisicamente débil e pouco fiável no choque, mas porque nessa posição a sua criatividade não é verdadeiramente posta à prova. Desembaraça-se com facilidade e empresta ao jogo da sua equipa uma fluidez notável, fruto da sua qualidade com bola e da sua inteligência, mas acaba por não estar tantas vezes em zonas densamente povoadas e acaba por não estar sujeito tantas vezes a problemas que exijam soluções de dificuldade acrescida. O seu crescimento, porque a sua capacidade actual assim o exige, deveria passar por uma posição central, sim, mas mais avançada no terreno, mais junto dos avançados e mais metido dentro do bloco adversário, obrigado a jogar mais vezes entre linhas e menos de trás para a frente. É vítima, por isso, do problema do duplo-pivot do qual Wenger tarda em libertar-se. O seu pé esquerdo e a sua imaginação são, porém, demasiado grandes para que possa vir a cair no esquecimento e, dentro de um ou dois anos, Jack Wilshere será certamente um dos nomes maiores do futebol inglês.

sábado, 27 de novembro de 2010

Certezas (20)

É a primeira vez que um guarda-redes é elogiado nesta rubrica, mas a qualidade deste jovem é tanta que dificilmente lhe poderia escapar. Os melhores clubes do mundo andam já interessados no seu concurso e não é crível que aguente muito mais tempo no seu clube. De qualquer modo, porque a concorrência não podia ser maior, o seu lugar na selecção do seu país continuará a ser difícil de assegurar. À parte disso, o seu futuro é quase uma certeza absoluta. O que mais impressiona, quando o vemos na sua baliza, é a frieza e a segurança, como se fizesse aquilo há já muitos anos. Aliando a esta capacidade mental uma técnica de guarda-redes prodigiosa e a facilidade com que rapidamente se impôs na ribalta do futebol europeu, diria que estamos na presença de um dos cinco melhores guarda-redes dos próximos dez anos. Tanto quanto me pude aperceber, não tem propriamente pontos fracos. Ainda que não tenha uma envergadura invejável, é seguro a sair dos postes. Nas saídas aos pés dos avançados, faz uso da sua agilidade e, não sendo muito agressivo e intimidador, é no entanto tecnicamente evoluído e sabe esperar pelo momento certo quer para fazer a mancha, quer para cair. Naquilo em que é, todavia, indiscutivelmente muito forte é na meia distância. A sua elasticidade e a perfeição técnica com que voa para qualquer um dos lados é ímpar. Não me lembro, talvez à excepção de Preud'homme, de outro guarda-redes tão elegante e com um gesto técnico tão perfeito quanto ele. De resto, é capaz de segurar bolas muito difíceis, bolas que outros, pela dificuldade do voo, preferem invariavelmente defender com a palma da mão para canto. Esta, a meu ver, é a imagem de marca dos melhores do mundo na baliza: ser capaz de voar para um dos lados e, ainda assim, agarrar a bola. Preud'homme era mestre nisso; este miúdo também parece sê-lo. Não duvido, por tudo isto, que David De Gea terá, muito brevemente, o mundo a seus pés...

sábado, 31 de julho de 2010

Certezas (19)

A cara de miúdo, a alegria a jogar e a coragem são os atributos que mais transparecem. Por trás deles, está o enorme talento em que se funda toda a sua qualidade. Possuidor de um pé esquerdo finíssimo, é um jogador elegante, que trata bem a bola e com muitos recursos técnicos. Não é malabarista, como muitos, até porque a sua nacionalidade parece ser à prova dessas inconsequências, mas é extremamente habilidoso. Usando essa habilidade pelas razões certas e nas alturas certas, deslumbrou esta época ao serviço do seu clube, motivando a cobiça dos grandes do seu país. Acabou vinculado a um deles e tem agora todo um futuro promissor à sua frente. Distingue-se dos outros jovens da sua idade por parecer mais maduro, por ter chegado ao escalão sénior e se ter imposto sem dificuldades. A sua margem de progressão, até por estas características, é por isso muito grande. Joga preferencialmente como segundo avançado e seria um erro, pelo menos nesta fase da carreira, fazê-lo actuar como médio organizador de jogo. Trata-se de um jogador mais vertical, excelente no drible e que procura muito o último passe. É principalmente um desequilibrador e é, por isso, em zonas mais adiantadas do terreno que o seu potencial deve ser aproveitado. Como médio organizador, falta-lhe alguma lucidez e alguma capacidade para ponderar a melhor solução de passe em zonas mais recuadas. Não raras vezes, mesmo estando ainda consideravelmente longe da área, procura protagonizar o último passe, procura excessivamente o movimento de ruptura decisivo. Actuando na frente, com liberdade para aparecer ora nas linhas, ora no espaço entre linhas, ora a aproveitar as costas de um avançado mais fixo, pode explorar todo o seu talento sem prejudicar a equipa mais atrás. A sua evolução passa por isso por jogar como avançado móvel e, tratando-se de um jogador muito imaginativo, inteligente e com boa capacidade técnica, depressa crescerá o suficiente para perceber como deve actuar em zonas mais recuadas. Para já, é como atacante e não como médio que Mourinho deverá tentar tirar todo o proveito dele. E talvez daqui a uns anos a selecção espanhola tenha mais um prodígio na sua principal selecção. Assim evolua Sergio Canales...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ibrahimovic

Foi publicado a semana passada, na Academia de Talentos, um artigo infame no qual se defendia que Ibrahimovic era um flop europeu. A infâmia do artigo está não só na forma absurdamente exagerada em que são postos os termos e nas coisas que são consideradas, mas também e sobretudo nos argumentos utilizados. As razões que presidiram a tal teoria foram, uma vez mais, os golos que o sueco faz (ou não faz). Dizer que o sueco faz poucos golos na Europa, que se mexe pouco e que, considerando o derradeiro teste o jogo atípico em Camp Nou frente ao Inter, o Barcelona só começou a criar perigo quando ele saiu é não perceber nada de Ibrahimovic nem de pontas-de-lança e é também mentir com quantos dentes se tem. Poderia lembrar o remate de Pedro ao lado ou o remate de Messi para excelente defesa de Júlio César, pois a movimentação de Ibrahimovic está na origem dos mesmos. Poderia lembrar a assistência de calcanhar para Messi, que o deixa na cara de Júlio César antes de Lúcio conseguir, à última, o corte. Poderia também lembrar a assistência de cabeça para Xavi, que fica igualmente em zona de finalização e que só não consegue o remate porque, uma vez mais, alguém corta "in extremis". Podia também lembrar o penalty que sofreu e que não foi assinalado. Tudo isto demonstra que Ibrahimovic não esteve propriamente apagado nesse desafio. O que é, no entanto, grave e que, provavelmente, tem origem na mesma cegueira em que se viu um jogo diferente do verdadeiro, é que se meça o valor do jogador, ou o valor de qualquer ponta-de-lança, pelos golos que marca. Ibrahimovic só é, por isso, um flop europeu para os que não sabem o que é um ponta-de-lança. Esses, como muitos outros, deveriam estar calados na hora de falar sobre coisas das quais não percebem.

Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.

As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.

Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.

Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:

"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."

Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:

"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."

Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Certezas (18)

Apareceu este ano a jogar regularmente, desde o início da época, sendo aposta incondicional do seu treinador, ao contrário de certos jogadores consagrados, que tiveram de penar bastante. Enquanto Luca Toni, Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Franck Ribéry, sobretudo, tiveram dificuldades em agradar a Louis Van Gaal, este jovem foi uma aposta firme, primeiro numa das alas e depois no centro do terreno, como médio de ataque que ligava o meio-campo ao ataque no 4231 do holandês. É verdade que Van Gaal é dado a caprichos, mas não será menos verdade que de alguma maneira este miúdo o terá impressionado desde muito cedo. Em mim, desde o primeiro momento em que o vi jogar, fez-me sentir uma natural empatia. A sua inteligência e a sua maturidade, raríssimas num jogador com a sua idade, sobretudo atendendo aos excelentes atributos técnicos de que é dotado, foram as coisas que mais me prenderam a atenção. Achei-o, desde logo, extraordinariamente criativo, capaz de inventar soluções de passe com facilidade, um jogador que, embora muito bom a nível técnico, raramente optava por partir para cima dos seus opositores, que procurava apoios próximos, etc. Com a diferença óbvia no tamanho, pareceu-me um jogador extraordinariamente semelhante a Bruno Pereirinha, quer pelo próprio estilo, quer essencialmente pela forma de pensar e perceber o jogo. Na altura, jogava como extremo mas, tal como sempre vaticinei em relação ao jovem leão, era no meio, como médio de ataque, que me parecia que o seu potencial melhor podia ser explorado. A sua simplicidade, aliada às facilidades técnicas que possuía, permitia, a meu ver, que pudesse jogar metido entre as linhas adversárias, conferindo ao futebol da sua equipa uma solução vertical constante. Van Gaal, creio, percebeu isso mesmo. E estou em crer ainda que o futebol do Bayern se revolucionou para melhor desde que este jovem alemão passou a jogar como médio-ofensivo, jogando nas costas do ponta-de-lança e sempre como apoio vertical ao médio portador da bola. Tem ainda, para além desta influência clara, a capacidade para, aproximando-se das linhas, servir de apoio lateral quando o jogo é conduzido pelas faixas, criando situações de superioridade numérica nessas zonas do terreno. É, no fundo, no modelo de Van Gaal, o jogador responsável pela formação de triângulos nas zonas com maior densidade de adversários e, por isso, o jogador mais importante da equipa no momento da construção ofensiva e a peça mais difícil de substituir no onze do holandês. O futebol do Bayern melhorou significativamente na segunda metade da temporada, consolidando-se. Melhorou sobretudo ao nível da construção ofensiva, sendo agora uma equipa muito personalizada. A principal razão, penso, para que isso tenha acontecido, foi precisamente a aposta neste jogador nesta posição. Numa altura decisiva da época, depois de ter sido pré-convocado para a selecção alemã para o mundial da África do Sul, de ter ajudado o Bayern a sagrar-se campeão e dias antes da primeira de duas finais importantíssimas para o seu clube, não queria deixar de reconhecer o extraordinário valor de Thomas Müller.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Emídio Rafael e Maxwell

Comecemos com a rudeza e a brutidão de todas as certezas: Emídio Rafael é o melhor lateral esquerdo desta Liga Sagres. Quanto às razões para tal afirmação, já lá irei. Confesso primeiro que não o conhecia antes desta temporada, mas confesso igualmente que só a muito custo percebo o anonimato a que foi votado nos últimos anos. Foi campeão de júniores com Paulo Bento e nunca foi aposta deste, na equipa principal, porquê? Se a lateral esquerda foi sempre um problema com que se debateu Paulo Bento, se se deu tanto dinheiro por Grimi e se deu hipóteses a um jogador como André Marques, por que raio nunca foi dada uma hipótese a Emídio Rafael? A única explicação que encontro prende-se com as características físicas do atleta. Aliás, é essa a mesma explicação que encontro para que André Nogueira, um lateral direito de grande qualidade que apareceu no plantel de júniores no ano imediatamente a seguir, tenha desaparecido do mapa. E essa explicação tornaria também claro por que razão Emídio Rafael nunca foi opção e André Marques sim. Afinal, trata-se de um jogador com uma envergadura invejável, enquanto Emídio Rafael é magro e baixo.

Esta preocupação com o tamanho é algo que me causa alguma repulsa. Não é nada de novo, claro, mas parece-me uma teimosia que demora a ser erradicada do futebol. Aliás, numa altura em que já se devia ter percebido a pouca importância que os factores físicos têm num jogador de futebol, com o Barcelona de Guardiola a estender o dedo do meio a todos os imbecis que pensam o contrário, parece que continua a haver uma tendência incrível para se dar atenção a factores secundários como esses. Nos escalões de formação, continuam a ser dispensados atletas talentosos porque os testes do pulso revelam que não vão ser altos; continuam a ser avaliados atletas pelo tamanho dos pais; continuam a ser contratados africanos poderosos fisicamente para colmatarem a baixa estatura dos atletas portugueses. E se isto é assim na formação, cuja principal obrigação deveria ser promover os mais talentosos e não os mais cabeçudos, nos principais escalões as coisas continuam muito primitivas. De tal modo que, depois, se deixam escapar talentos como o de Emídio Rafael.

Quem o vê jogar com olhos de ver, percebe imediatamente que não se trata de um lateral vulgar. É inteligente, tem um pé esquerdo formidável, posiciona-se invariavelmente bem, lê quase sempre bem os lances e permite à equipa uma qualidade incomparável com bola. Não é tão forte no um para um defensivo quanto poderia ser, mas compensa isso com uma boa leitura dos lances e, sobretudo, com um posicionamento defensivo acima de toda a suspeita. A forma como defende por dentro não tem quase paralelo em Portugal. Mas é a atacar que mais se destaca. Não só porque está incumbido das bolas paradas para o pé esquerdo, mas sobretudo pelo que faz em jogo corrido. Muitos acham que um lateral que ataca bem é um lateral possante, ao estilo de Roberto Carlos, que faz o corredor todo, que é veloz e forte no drible. Emídio Rafael não é nada disto. Não é possante, não é explosivo e raramente dribla. Cruza extraordinariamente bem, mas isso é apenas um pormenor. Aquilo em que é, de facto, muito bom, é nas opções com bola, é na forma como encontra soluções por dentro, permitindo à equipa permanecer com a posse de bola. Raramente estica o passe ao longo do corredor, raramente joga comprido ou tenta virar o flanco de jogo. As suas opções são jogar perto, com o apoio mais próximo, vindo para dentro. Um lateral, numa equipa que queira assumir a iniciativa do jogo através da posse de bola, deve ter como principal característica o jogar para dentro, curto. É por essa característica, tão pouco usual num lateral, que o comparo ao lateral brasileiro do Barcelona, Maxwell.

Como Emídio Rafael, Maxwell não é um jogador com uma envergadura extraordinária. Não é pelos atributos físicos que se destaca. Com bola, porém, permite coisas ao Barcelona que Abidal, por exemplo, não permite. A facilidade que tem em jogar de primeira, curto, para dentro, é notável. Isto permite ao Barcelona ir ao flanco e vir rapidamente, estraçalhando a basculação do adversário; permite ao Barcelona sair de zonas de pressão difíceis e trocar a bola rapidamente. Com Maxwell, o Barcelona não é tão vertical a atacar e não tão agressivo a defender. Mas é posicionalmente mais estável e mais imprevisível com bola; é mais dinâmico a trocar o esférico e mais paciente; mais eficaz em tabelas curtas e mais temível a atacar pelos espaços centrais. Para mim, para quem um lateral, ofensivamente, deve valer essencialmente por esta característica tão pouco usual, Maxwell é melhor que Abidal e um dos melhores laterais do mundo. O seu futebol, enquadrado num colectivo que o valorize, como é o caso do Barcelona, é sempre mais interessante que aquele que qualquer lateral que valha pela capacidade de fazer o flanco todo com rigor e pela intensidade que põe em jogo é capaz de oferecer.

Voltando agora a Emídio Rafael e à afirmação inicial de que era o melhor lateral desta liga. Acho que havia um jogador, no início da temporada, que se poderia ter imposto precisamente por coisas semelhantes e que, caso tivesse sido aposta, talvez rivalizasse agora com o jogador da Académica. Falo de Shaffer. Como o referimos aqui atempadamente, o argentino possuía qualidades invulgares a este nível e, caso melhorasse sobretudo em termos posicionais, seria facilmente o melhor lateral a jogar em Portugal. Jorge Jesus nunca confiou nele, acredito que por nunca o jogador lhe ter merecido a confiança no que diz respeito a aspectos defensivos. É, contudo, pouco interessante analisar aqui as razões pelas quais Shaffer acabou por não vingar, embora me pareça que foi um dos maiores erros da campanha de Jesus. O que é facto é que, sem Shaffer, não há outro lateral esquerdo em Portugal, além de Emídio Rafael, que valorize as coisas que ele valorizava. A capacidade que possui para participar na posse de bola da sua equipa e a qualidade que empresta nesse sentido, com opções invariavelmente correctas, fazem dele o único lateral esquerdo que não se impõe pela agressividade ou pela velocidade que dá ao flanco. Poderíamos referir Álvaro Pereira, Evaldo, Alonso ou Fábio Coentrão. São, todos eles, jogadores muito parecidos: agressivos a defender, rápidos a partir para o ataque, bons individualmente e competentes a fazer a linha. Nenhum deles, porém, valoriza a opção interior como Emídio Rafael. A prioridade do defesa academista não é jogar ao longo da linha, solicitando o extremo ou lançando em profundidade nas costas dos defesas. Essa é a prioridade de um lateral que tem medo de ser apanhado em contrapé, se o passe sair mal. Emídio Rafael dá preferência ao meio, ao apoio lateral e não ao apoio vertical, sobretudo porque percebe que, numa equipa que pretende preservar a posse de bola, uma bola que chega à linha deve voltar ao meio, por ser essa a forma mais eficaz de fugir ao pressing e de evitar o constrangimento do décimo segundo defesa do adversário, a linha lateral. Ao perceber isto, o seu futebol torna-se invulgar. E é tão invulgar que não tem par neste campeonato.