Mostrar mensagens com a etiqueta Benzema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Benzema. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de abril de 2015

Notas Soltas sobre a Jornada Europeia

1. A primeira nota é sobre a surpresa do Dragão. O resultado é surpreendente, mesmo para um optimista e mesmo reconhecendo que faltaram ao Bayern vários jogadores importantes. Mais surpreendente será, talvez, a apatia dos alemães, sobretudo na segunda parte, e a incapacidade de condicionar o adversário, como habitualmente, pelo jogo de posse. A maior parte das pessoas teceu rasgados elogios à estratégia de Lopetegui e não se coibiu de traçar um nexo causal entre essa estratégia e o resultado do jogo. Não querendo de modo algum sugerir que a pressão portista não teve alguns efeitos desejados, parece-me um exagero, porém, atribuir a essa estratégia qualquer um dos golos com que o Porto construi a interessante vantagem que leva para a segunda mão. Sim, essa estratégia foi importante na forma como, na segunda parte, o Porto conseguiu evitar que o Bayern fizesse o seu jogo habitual de posse e fosse conseguindo as habituais penetrações frontais, mas não foi responsável por mais nada. Já não é de agora, mas sempre que um jogo corre mal a Guardiola, para a opinião pública, é porque o treinador contrário descobriu a pólvora. Enfim... Sobre o terceiro golo, não sei se é preciso dizer mais do que foi um pontapé para a frente, um erro de Boateng, que não percebeu onde é que a bola ia cair, e uma recepção fenomenal de Jackson. Quanto aos outros, são erros individuais não potenciados pela pressão portista, como se alegou. Pressão não é aquilo que Jackson e Quaresma fizeram nos dois primeiros golos, respectivamente. Aquilo é uma iniciativa individual que, quando muito, serve para atrasar a saída de bola do adversário. Pressão é um comportamento colectivo. Não foi a pressão do Porto que forçou aqueles erros e não foi a estratégia de Lopetegui que deu resultado. Foram erros individuais. E os erros individuais não são da responsabilidade dos treinadores. Não perceber isto é achar que, desde que o Porto consiga repetir a estratégia, tem a eliminatória garantida. Não tem.

2. Ainda sobre um aspecto do que disse acima, há a tendência absurda, hoje em dia, para elogiar treinadores cuja estratégia consiste em estabelecer zonas de pressão e em atacar rapidamente assim que se recupera a bola para aproveitar o espaço nas costas do adversário. O absurdo disto está no facto de não se ser capaz de ver estratégia em mais lado nenhum. Só há stratégia, para esta gente, quando uma equipa abdica propositadamente da bola para poder atacar com mais espaço depois. Não há paciência para estes miseráveis... Para esta gente, se uma equipa assume deliberadamente o jogo, é porque tem melhores jogadores; se não o assume deliberadamente, é porque o treinador é um estratega. E quando a estratégia defensiva, calculista, de esperar pelo erro do adversário, não tem sucesso, é porque os jogadores não a souberam cumprir. Para esta gente, a estratégia de defender atrás, pressionar nas zonas certas e sair rapidamente para o contra-ataque é infalível, desde que os jogadores se comportem como devem. Foi mais ou menos isto que Luís Freitas Lobo foi insinuando no jogo que opôs o PSG ao Barcelona. Se, por acaso, o PSG tivesse feito golo naquele contra-ataque conduzido por Lavezzi que terminou com Cavani a perder espaço e a permitir o corte de Mascherano, o que na altura daria o empate, assistiríamos decerto ao elogio da estratégia de Laurent Blanc. Como não resultou, e como o Barça continuou a mandar no jogo e ainda dilatou a vantagem, o insucesso explica-se ou pela apatia dos jogadores ou por o treinador não ter posto outro tipo de jogadores.

3. Foi só isto que se ouviu dizer pelos comentadores de serviço da Sporttv responsáveis pela cobertura da jornada da Liga Europa (Helena Costa e outro pateta). O Wolfsburgo perdeu por 4 a 1 em casa com o Nápoles porque Benitez é um estratega e porque os alemães não apresentaram agressividade, empenho e mobilidade suficiente. Para esta gente, só é possível contrariar aquela super-estratégia de ficar fechadinho atrás da linha da bola sendo mais agressivo, empenhado e mexido. 99% das pessoas que comentam futebol na televisão repetem ladainhas e ideias disseminadas que ou estão erradas ou não são bem aplicadas. Vêem um ou outro jogo e aplicam rótulos que ficam para sempre. Como ouviram dizer que Benitez é assim e como, se calhar, viram um jogo do Sevilha contra um adversário mais forte, decidiram que Unai Emery é como Benitez. E passaram o tempo todo a falar de como os dois são iguais, de como as equipas de ambos jogam defensivamente, esperando o momento certo para atacar, e de como, por essa razão, são mal amados num país em que a maior parte dos treinadores defende uma cultura de posse. Eu até aceito que em Espanha haja mais treinadores a defender uma cultura de posse do que noutros países. Daí a serem todos vai um salto enorme. E incluir Unai Emery entre os treinadores calculistas cujas equipas abdicam da bola é um disparate que não é possível qualificar.

4. Regressando ao jogo de Paris, Luís Freitas Lobo também repetiu alarvidades. As principais tiveram a ver com Matuidi e com Pastore. Para Freitas Lobo, Matuidi é o melhor médio a jogar pela meia esquerda do mundo, signifique isso o que significar. A única coisa que Matuidi fez, no jogo de quarta-feira, foi aparecer no flanco esquerdo, a ir buscar bolas perto da bandeirola de canto. Não fez mais nada senão piques para ir apanhar a bola onde ela dificilmente seria útil. Piques! Um jogador é o melhor do mundo a jogar ali pela meia esquerda porque faz piques! Ao que chegou o comentário futebolístico em Portugal! Só esta opinião seria suficiente para que Freitas Lobo merecesse o internamento, mas é preciso confrontá-la com a opinião sobre Pastore para se perceber exactamente o tipo de coisas de que gosta. Ao contrário do que disse de Matuidi, que elogiou ad nausea, e sempre que mexia uma das pernas, Freitas Lobo passou o jogo a dizer que Pastore gostava de fazer as coisas com classe, que tecnicamente era evoluído, mas que era lento para jogar a este nível. O que fazia falta, a meu ver, era um comentador que, quando Freitas Lobo dissesse estas coisas, lhe perguntasse rapidamente o que achava de Pirlo, de Kroos, de Busquets, de Iniesta, de Thiago Alcântara ou de Fabregas. Gostava de saber, embora já saiba, de que maneira para Freitas Lobo estes jogadores são diferentes de Pastore. A resposta é óbvia, apesar de Freitas Lobo não a saber dar: são jogadores conceituados e, como tal, o que fazem é bem feito. A lentidão é apenas um defeito, para Freitas Lobo e outros atrasados mentais, de jogadores que não sejam conceituados. Nesses, lentidão é contemporização, planeamento, cérebro. Sim, pode-se jogar a este nível sem pressas, senhor Freitas Lobo! E não só se pode como é aconselhável que se faça. Na opinião de Freitas Lobo, o que falta a Pastore é ser Matuidi. Na opinião de quem percebe alguma coisa do jogo, pelo contrário, não falta nada a Pastore e falta tudo a Matuidi.

5. Sobre o duelo madrileno, tenho pouco a dizer. Foi mal jogado, de parte a parte, e só os adeptos de outros desportos e os amantes do futebol inglês é que podem gostar de um jogo cujo único motivo de interesse é a disputa da bola. Sim, foi um jogo intenso, muito disputado, com os jogadores muito empenhados. Dito isto, foi um jogo paupérrimo. Quando as equipas se preocupam em demasia em disputar cada bola como se fosse a última, transferem a concentração para essa necessidade e o futebol perde qualidade. Aproveitando a dicotomia proposta por Freitas Lobo, foi um jogo de Matuidis quando podia ter sido um jogo de Pastores. Há, no entanto, um lance que merece o meu reparo. Passou-se na área do Atlético de Madrid, com Benzema a receber uma bola com algum espaço. Ao invés de se tentar virar para a baliza, enquadrando-se com ela, o francês tentou uma habilidade de calcanhar, deixando a bola, contra todas as previsões, à entrada da área, para Ronaldo finalizar. Como Ronaldo estava apertado, o remate acabou por ser obstruído, e a jogada não teve efeito. Para Pedro Martins, que comentava o jogo, o avançado do Real tomou uma má decisão, pois estava em boa posição quando recebeu a bola e devia ter tomado a decisão mais simples de tentar finalizar ele. Não só não é certo, contudo, que Benzema ficasse com espaço para finalizar depois de rodopiar sobre si próprio, como não me parece que ser o mais simples possível seja sempre o melhor que há a fazer. Por vezes, complicar é a melhor decisão. E o que é espantoso, a meu ver, é que se diga que esta foi uma má decisão quando, semanas antes, em Camp Nou, numa jogada muito parecida, o toque de calcanhar do francês permitiu a Ronaldo fazer o golo com que, na altura, o Real empatava. Mais uma vez, é o desfecho da jogada, não a decisão do jogador, que conta para esta gente. Benzema lembrou-se de fazer uma coisa que poucos estavam à espera e fê-la bem. Como é normal, ele não pode prever o comportamento de todos os adversários, assim como não pode prever o comportamento do colega a quem vai entregar a bola. Tem que confiar que as coisas vão correr bem. Em Camp Nou, bastava que alguém do Barcelona tivesse antecipado aquilo para que a jogada não tivesse efeito. Neste caso, como no outro, só posso gabar a iniciativa de Benzema. Arriscou fazer uma coisa diferente que, tendo a desvantagem de ser mais difícil de pôr em prática, acarretava a vantagem de ser menos previsível para os adversários. Não foi bem sucedido, mas tomou uma boa decisão. Não perceber isto é também não perceber bem a diferença entre quem é simples e quem sabe simplificar.

6. A última nota é sobre a melhor liga do mundo. Há anos a fio que se diz que a Liga Inglesa é o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo, aquele em que se joga melhor, etc.. Parece-me mais ou menos incontestável que é aquele que movimenta mais dinheiro e aquele que maior capacidade tem para atrair os melhores jogadores. Não se segue daqui que seja o melhor. Para dizer a verdade, é até discutível que esteja entre os cinco melhores campeonatos da Europa. O futebol em terras de Sua Majestade continua a ser primitivo e nem a chegada de treinadores continentais, contra os quais se levantam já algumas vozes, argumentando que estão a descaracterizar o futebol inglês, tem sido suficiente para que esse futebol se consiga manter ao nível dos melhores da Europa. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, há três equipas espanholas, duas francesas, uma italiana, uma alemã e uma portuguesa. Nos quartos de final da Liga Europa, há duas equipas italianas, duas ucranianas, uma russa, uma espanhola, uma alemã e uma belga. Nos quartos de final das duas provas europeias, não resta uma única equipa inglesa. Não explicando tudo, explica alguma coisa. As melhores equipas inglesas estão num nível inferior às melhores equipas do resto da Europa, e as restantes equipas com aspirações europeias estão num nível inferior às restantes equipas do resto da Europa. Como é que a alegada melhor liga do mundo é incapaz de pôr um único clube entre os dezasseis que ainda se encontram em prova? Enquanto se continuar a achar que jogar futebol é correr muito, lutar muito e transpirar muito, nada mudará. Os treinadores continentais podem ser capazes de introduzir novas ideias, mas precisarão de décadas para mudar mentalidades. E é essencialemente a mentalidade que distingue o futebol inglês que faz com que seja bem inferior ao futebol que se pratica noutros sítios.

domingo, 19 de agosto de 2012

Benzema, os Avançados, e a Ilusão dos Números

Não foi sem controvérsia que, após o desafio que opôs espanhóis a italianos, a contar para a primeira jornada da fase de grupos do europeu deste ano, José Mourinho declarou que a Espanha, jogando sem um avançado de raiz, tinha sido praticamente inofensiva. Tive oportunidade de dizer que as declarações de Mourinho não faziam muito sentido, sobretudo tendo em conta que o avançado, no seu Real Madrid, funciona de modo muito pouco convencional, e que tal parecia muito mais uma bicada a Guardiola do que propriamente algo em que acreditasse. Entretanto, a Espanha sagrou-se campeã europeia, e realmente só foi inofensiva quando jogou com um avançado. O equívoco de Mourinho é, porém, pouco pertinente, para o assunto deste texto, embora sirva para lançá-lo.

Quando Mourinho chegou a Madrid, Gonzalo Higuain foi a sua primeira escolha. O argentino garantia velocidade de execução, profundidade nas costas das defesas adversárias, e bastantes golos. Quando se lesionou, o francês Karim Benzema, até então suplente e pouco utilizado, assumiu a posição. O jejum de golos, e as críticas de que foi alvo, fizeram com que Mourinho fosse ao mercado, em Janeiro, e trouxesse Adebayor. Felizmente para Benzema, Adebayor não pareceu conseguir dar à equipa o que Higuaín dava, e foi então que se começou a perceber que Benzema, mesmo não marcando, permitia coisas ao Real Madrid que o avançado togolês não permitia. Mesmo sem os golos do francês, Mourinho apostou nele e o rendimento colectivo não se ressentiu. Por linhas tortas, percebeu o técnico português a dada altura, por exemplo, que, com Benzema em campo, o rendimento de Ronaldo era muitíssimo superior. Quando Higuaín voltou, esta variável tinha adquirido uma importância de tal modo extrema que o francês, mesmo não marcando tantos golos quantos o argentino, mesmo parecendo passar ao lado do jogo muitas vezes, nunca mais voltou a sentar-se no banco. Benzema, ao contrário de Higuaín, garante movimentos de aproximação, linhas de passe, qualidade técnica em espaços reduzidos. Isto permite ao Real um jogo mais apoiado numa fase adiantada no terreno, uma muito melhor competência entre linhas, e, acima de tudo, a desocupação da profundidade que permite a Ronaldo todas aquelas diagonais da esquerda para o meio. Por força da lesão do seu avançado de eleição, descobriu Mourinho que a sua equipa funcionava melhor com um avançado de características diferentes, um avançado que, acima de tudo, não fosse rigorosamente, no verdadeiro sentido da palavra, e em cada momento do jogo, um avançado.

Se houve coisa em que o Real Madrid melhorou, nesta segunda época, foi na competência em ataque organizado, no último terço do terreno. Ao contrário do que se passou na primeira época, em que a equipa apenas conseguia romper blocos defensivos densos através de lançamentos para as costas da defesa ou através de desequilíbrios individuais, o Real passou a conseguir fazer a bola entrar entre a linha defensiva e a linha média dos seus adversários, passou a conseguir atrair momentaneamente defesas para perto dos médios, quebrando as linhas defensivas com maior frequência, e passou a conseguir complementar isso com as entradas de terceiros (normalmente os extremos, e principalmente Ronaldo) nas costas das defesas. Tal competência só foi possível porque o avançado da equipa, o jogador responsável por jogar na jurisdição dos defesas centrais, não era um avançado cujas movimentações típicas pediam a profundidade, mas um avançado com características diferentes, capaz de vir dentro, de combinar com maior qualidade com os médios, e com maior apetência para segurar e tabelar do que para aproveitar as costas das defesas. Por ser o avançado que é, Benzema permitiu ao Real, enquanto equipa, que fosse mais competente. Com isso, não se terá notabilizado individualmente, em termos de golos, como naturalmente um avançado como Higuain se notabilizaria. Enquanto equipa, o Real Madrid de Mourinho melhorou, de uma época para a outra, principalmente porque passou a jogar com um avançado que não se comporta como a maioria das pessoas acha que os avançados se devem comportar.

De certo modo, portanto, a ligeira melhoria da equipa deveu-se à utilização de uma estratégia absolutamente idêntica àquela que o Barcelona de Guardiola, de forma provavelmente mais enfática, preconizou no ano anterior, uma estratégia que, para muitos, é o calcanhar de Aquiles dos catalães, e que, para muitos também, incluindo o próprio Mourinho, a fazer fé nas suas palavras, era o grande problema da selecção espanhola neste europeu. É verdade que Benzema é um avançado de raiz. Mas não foram os seus comportamentos de avançado típico que permitiram à equipa tal salto evolutivo; foram antes os mesmos comportamentos que qualquer médio, ou qualquer jogador que não jogue habitualmente como avançado, naturalmente exibe quando posicionado na frente de ataque. Apesar de ser avançado, foi por Benzema ter qualquer coisa de médio (se é possível falar assim) que o Real Madrid se tornou melhor equipa. Mourinho, mesmo que o não saiba, mesmo que o critique por naturalmente lhe lembrar o estilo do rival, deve boa parte do seu sucesso em Espanha a algo que, embora de modo mais radical e mais conscientemente, o Barcelona de Guardiola desde há muito procura idealizar.

Antes de terminar, queria desviar-me ainda do assunto principal deste texto, e reflectir um pouco sobre números. Como é sabido, acho que as estatísticas, em futebol, não só não valem nada como são, muitas vezes, enganadoras. No final da época passada, tentei argumentar que a semelhança entre os golos marcados por Real Madrid e por Barcelona não implicava competências ofensivas semelhantes, e tentei demonstrar que essa semelhança de golos se deveu a um final de época em que, sem a pressão de títulos que já não se podiam conquistar, havia objectivos individuais a atingir. Do mesmo modo, fui dizendo ao longo desta época que, apesar de ser o Barcelona, pelos pontos que ia perdendo, quem parecia estar menos consistente, era o Real quem, na verdade, tinha mais dificuldades para vencer os seus jogos. Obviamente, mantenho essa teoria. Para muita gente, não só o campeonato como os números apresentados no final da prova são testemunhos inequívocos do meu engano. Foi por isso que comecei este parágrafo por dizer que os números, além de não valerem nada, costumam enganar. Quem olhar para eles em bruto, naturalmente verificará que a equipa comandada por José Mourinho, além de ter tido mais 4 vitórias que o Barcelona, marcou também mais 7 golos (121 contra 114). Para esses, o Real é talvez mais competente, em termos ofensivos, do que o Barcelona. A minha opinião é de que essas pessoas estão enganadas. É que, apesar de ter marcado mais golos, e apesar de ter obtido mais vitórias, o Real Madrid teve mais dificuldades do que o Barcelona em vencer os seus jogos. Como é isto possível? É o que pretendo demonstrar de seguida.

 Ora, comecemos pelas vitórias. O Real Madrid somou 32 vitórias, contra 28 do Barcelona. Das 28 vitórias dos catalães, 22 começaram a ser construídas na primeira parte. Ou seja, a vantagem obtida na primeira parte não mais voltou a ser anulada. Significa isto que 79% dos jogos ganhos pela equipa de Guardiola começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 6 jogos, 2 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 1 apenas depois dos 80, mais concretamente o jogo contra o Atlético de Madrid, em que os madrilenos anularam a vantagem dos catalães a meio da segunda parte e obrigaram a um segundo golo aos 81 minutos. Quanto ao Real Madrid, das 32 vitórias, apenas 21 começaram a ser construídas na primeira parte. Significa isto que, ao contrário dos 79% dos catalães, só 66% dos jogos ganhos pela equipa de José Mourinho começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 11, 6 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 2 depois dos 80. Embora não totalmente claros, até porque uma vantagem de 1-0 desde o primeiro minuto não é bem uma vantagem segura, estes dados permitem desde logo perceber uma tendência: a equipa catalã teve menos dificuldades em resolver os seus desafios, e teve por isso menos necessidade de acelerar para marcar mais golos. Mas passemos agora aos períodos de tempo em que os golos foram marcados. A consistência do Barcelona de que falava anteriormente não poderia ficar melhor espelhada do que na consistência com que os marcou em todos os períodos de tempo. Dos 114 golos, marcou 58 (51%) na primeira parte e 56 na segunda. Na segunda parte, marcou 21 entre o minuto 45 e o minuto 70, 19 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 16 depois dos 80. Ou seja, o Barcelona não teve períodos mais fortes e períodos mais fracos. Foi uma equipa consistente, com o mesmo grau de eficácia em todos os períodos das partidas, quer os adversários estivessem mais frescos ou mais cansados, quer o cronómetro se aproximasse do fim ou não. Já dos 121 golos do Real Madrid, marcou 51 (42%) na primeira parte e 70 na segunda. Na segunda parte, marcou 37 entre o minuto 45 e o minuto 70, 13 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 20 depois dos 80. Ou seja, o Real Madrid foi claramente mais concretizador nas segundas partes dos jogos, tendo especial apetência por marcar ora no reatamento da partida, ora nos últimos 10 minutos. Como comprova a análise destes números, a equipa de José Mourinho foi muito menos consistente do que o Barcelona, e, apesar de mais golos e mais vitórias, teve maiores dificuldades em superar os seus desafios. Podíamos ainda fazer outro tipo de análises. Dos 79 golos que o Barcelona marcou antes dos 70 minutos, só 27% foram marcados entre os 45 minutos e os 70. Já dos 88 do Real, 42% foram marcados nesse período. Dos 35 golos que o Barcelona marcou depois dos 70, 46% foram marcados depois dos 80. Já dos 33 do Real, 61% foram marcados nesse período.

Dividi a segunda parte em três períodos de tempo desiguais propositadamente, porque tinha a impressão de que era nos últimos vinte minutos que o Real Madrid mais marcava. De facto, assim não é, e a equipa marcou tanto como no resto da segunda parte. Apesar disso, marca muito mais nos últimos dez minutos do que nos penúltimos, e isso deve ser levado em conta. No fim-de-semana em que recomeça a Liga Espanhola, é bom que se tenha consciência destas diferenças. O título da época passada, muito mais do que da qualidade apresentada, dependeu essencialmente do sacrifício e da força de vontade. Naqueles jogos em que a qualidade não chegou, foram esses os factores desequilibradores. Foi isso que fez a diferença, e foi por isso que o Real marcou mais e resolveu mais jogos na segunda metade das partidas do que o Barcelona. Ao contrário dos catalães, cuja qualidade ímpar lhes permitiu serem consistentes ao longo da época, o Real de Mourinho teve, muitas vezes, de fazer das tripas coração para vencer os seus desafios. Para compensar a menor qualidade, teve de sustentar as suas vitórias no desgaste dos adversários, na força de vontade da própria equipa, e em índices de concentração muito difíceis de manter sem motivações extraordinárias. De certo modo, a equipa excedeu-se nas segundas partes dos jogos porque a motivação de vencer um campeonato a este Barcelona era altíssima. Foi esse o factor decisivo. Para isso contribuiu também o facto de Mourinho raramente ter rodado a equipa, de ter apresentado quase sempre o seu melhor onze, e de ter contado com pouco mais do que 15 ou 16 jogadores. Numa época com mais lesões, tal seria impossível de realizar. Na época que agora começa, nem a motivação deverá ser a mesma, nem a improbabilidade de realizar uma época com tão poucas lesões se deve repetir. Embora o Real Madrid tenha melhorado, da primeira para a segunda época, no aspecto particular a que me referi acima, a qualidade geral do seu jogo continua a léguas da qualidade geral do jogo catalão. Uma série de factores, alguns deles difíceis de controlar, contribuíram para que pudesse sagrar-se campeão. Veremos de que modo se regenera agora.

sábado, 16 de junho de 2012

Euro 2012 - 2ª Ronda

Grupo A

Confirmaram-se as impressões da primeira ronda, com a Rússia a ter muito maiores dificuldades contra uma equipa que jogou quase sempre atrás da linha da bola, e com a República Checa a mostrar credenciais. Jogo horripilante da Grécia de Fernando Santos. Se, no primeiro desafio, os gregos ainda tinham mostrado algumas ideias, neste segundo jogo, a colocação de Samaras no eixo do ataque abriu espaço para uma constante e pouco criteriosa solicitição do avançado. Já a República Checa fez uma primeira parte extraordinária, do melhor que já se viu neste europeu. A pouca qualidade individual dos checos atraiçoá-los-á, como já os atraiçoara na primeira partida, mas tirando a Espanha, que é de outro campeonato, os checos são talvez aqueles que praticam o melhor futebol deste torneio. Combinações ofensivas excelentes, trocas curtas e rápidas da bola, muitíssimo bem Milan Baros nos movimentos de apoio e na forma como se relaciona com os colegas. Na segunda parte, mais desgastados e sem Rosicky, os checos confiaram na vantagem que tinham e não procuraram com a mesma insistência e qualidade a baliza adversária, mas a primeira parte foi de luxo. No outro jogo, os polacos puseram a nu as debilidades que me parecia haver na selecção russa. Kerzhakov tem movimentações de ruptura excelentes, mas já se percebeu que só sabe procurar a profundidade. Sem critério, sem capacidade para modificar o seu comportamento, o avançado russo torna-se previsível. E não ajuda a que a Rússia consiga ter maior qualidade em posse. Arshavin e, principalmente, Dzagoev, não conseguiram invadir os espaços interiores tão bem como o tinham feito no primeiro jogo, e disso se ressentiu também a selecção russa. Na verdade, não o conseguiram porque a Rússia não soube criar os espaços para que eles conseguissem invadi-los, e foi essa a crítica que lhes fiz no primeiro jogo. É que, em transição, e com equipas que se posicionam mal no momento da perda da bola, é fácil invadir esses espaços. Em organização é que é complicado. E os russos, ainda que bem organizados, uma vez mais, mostraram pouca imaginação para criar esses espaços. Ou seja, com bola, a Rússia nunca conseguiu fazer o que me parece mais importante uma equipa fazer com bola: atrair o adversário para certas zonas de modo a desimpedir outras, provocar zonas de pressão ilusórias para abrir buracos em zonas preferenciais. Sem essa capacidade, a Rússia só conseguiu acercar-se da baliza adversária em ataques rápidos, em solicitações compridas, e em erros do adversário. Mandou mais no jogo do que na primeira partida, mas acabou por ser incapaz de controlar a partida frente a um adversário tão débil como a Polónia. Quanto aos polacos, não são, individualmente, tão fracos como noutras alturas. Os três jogadores do Dortmund e Obraniak têm qualidade, e conseguem incomodar os adversários. Mas colectivamente a equipa não é extraordinária. Até podem conseguir vencer os checos, nem que seja pela motivação extra, até agora bastante relevante, de jogarem em casa, mas a minha previsão é a de que acabem eliminados.

Grupo B

Portugal venceu a Dinamarca, mas não convenceu. Não convenceu não porque não tivesse merecido (apesar de tudo, acho que a vitória é justa), mas porque não soube, sobretudo estando a vencer por dois golos, controlar a partida. Os dinamarqueses voltaram a mostrar muita qualidade com bola, e muita paciência na gestão da partida. Mesmo a perder por dois golos, não procuraram o que seria mais fácil, que era um futebol mais directo, a impor o físico. Tentaram atrair a pressão portuguesa para onde lhes convinha, normalmente o flanco esquerdo, e saíram muitas vezes dessa zona a solicitar o flanco contrário, com o lateral direito a aparecer para cruzar. Muito sinceramente, não consigo aceitar nem as críticas a Ronaldo, cujo posicionamento aberto e profundo foi claramente estratégico, nem as críticas a Fábio Coentrão ou a Miguel Veloso. Há mérito dinamarquês na forma como conseguiram criar sistematicamente espaço no lado direito, e, a haver demérito português, há-o colectivamente. Depois, estrategicamente, Portugal não fez um bom jogo. A Dinamarca gere bem a posse de bola, e controla bem o ritmo de jogo. É uma selecção que privilegia os momentos de organização, e o recuo estratégico dos portugueses só os beneficiou. A intenção era surpreender o adversário numa transição, eu sei, mas nem isso foi bem pensado. A Dinamarca ataca de forma cautelosa e muito bem organizada. Este tipo de predilecção faz com que percam muito menos vezes a bola, o que faz com que se sujeitem muito menos vezes a transições, e faz com que não sejam frágeis ao perder a bola. Era com bola que Portugal deveria ter jogado. Se a circulasse, obrigaria os dinamarqueses a pressionar mais alto e a momentos de maior desorganização. Não o fazendo, sujeitou-se àquilo em que eles são melhores, e o empate chegou muito naturalmente. Um golpe de sorte salvou Portugal, não obstante o facto de a partida poder ter sido sentenciada muito antes, mas a verdade é que Paulo Bento e os seus pupilos puseram-se a jeito. Tornou-se consensual de que, a ganhar, uma equipa faz bem em permanecer recuada e em apostar nos momentos de transição. Mas isso é estúpido, principalmente contra selecções que estão preparadas para isso. Enquanto Portugal quis mandar no jogo, foi superior e marcou dois golos. A partir do momento em que abdicou da iniciativa, perdeu o controlo da partida. Nota de destaque, ainda, para Cristiano Ronaldo e Hélder Postiga. Não sei se é legítimo que uma nação que assobia um jogador festeje um golo marcado por ele, nem sei se é legítimo que um país que mima tanto um jogador o assobie por falhar dois golos. A maioria dos que têm opiniões fortes sobre estes dois deviam ter ficado indiferentes às duas situações. Era, pelo menos, a única reacção coerente. Mas este é talvez um bom jogo para que se perceba que os patinhos feios talvez não sejam tão feios como os pintam, e que os super-hérois talvez não sejam tão heróicos como também muitas vezes os consideram. A verdade é que o melhor do mundo e arredores pecou onde - dizem os sábios e os adivinhos - o outro costuma pecar. Foi uma boa demonstração de como as certezas das pessoas estão tão certas como as previsões de um bruxo. E, tal como não acho que Postiga é o perdulário que dizem ser, além de merecer ser avaliado por outras coisas, acho a crucifixação de Ronaldo, apenas por ter feito um mau jogo, um absoluto disparate. Ronaldo marca muitos golos porque é fortíssimo a aparecer em zonas de finalização, não por ter uma especial aptidão para marcá-los. E nisso, Ronaldo foi o que costuma ser: as desmarcações foram perfeitas; o que falhou foi o momento de finalização. Mas esse momento é um pormenor que depende de muitas coisas, e é até absolutamente falso que Ronaldo seja exímio nesse momento. Quanto ao jogo que opôs a Holanda à Alemanha, não tenho muito para dizer. A Holanda - e o seu treinador - é uma equipa tão fraca (enquanto colectivo) que chega a aleijar. Aquilo são onze individualidades, cada uma com capacidades extraordinárias, que não conseguem relacionar-se entre si. Se o futebol fosse uma corrida de estafetas, a Holanda era das melhores equipas do torneio. Como não é, é das piores. Do outro lado, a Alemanha parece nem se ter esforçado muito. Sempre muito organizada, quer a defender, quer a atacar, parece ter jogado apenas quanto bastava. Aliás, acho que a Alemanha ainda não mostrou, porque ainda não foi obrigada a isso, toda a sua competência. Talvez o faça contra a Dinamarca, que, dos três adversários do grupo, é.a equipa colectivamente mais interessante.

Grupo C

 A primeira pergunta é: quem é o Iovinco? Luís Freitas Lobo conhece muitos jogadores, eu sei, mas na Itália não joga nenhum Iovinco, tanto quanto eu saiba. Joga um Giovinco, que até devia jogar de início, mas não deve ser o mesmo, porque Freitas Lobo também disse que o rapaz tinha menos de 1,60m. Disparates à parte, como antevi, a Itália teve mais dificuldades em impor-se contra um adversário mais fraco. Prandelli manteve a estrutura, e gosto bastante da forma como os italianos constroem o início das suas jogadas, sem pressa nenhuma. O problema está, acima de tudo, na ligação do meio-campo com o ataque. Thiago Motta tem movimentos verticais interessantes, mas não é um jogador que saiba o que fazer à bola quando o jogo exige maior criatividade. Montolivo, sim, sabe-o, e devia ser nele que Prandelli devia apostar. A Itália, também pelo próprio sistema táctico, coloca poucos jogadores entre linhas, e precisava de que os médios, Marchisio e Thiago Motta (ou Montolivo), e um dos avançados, Cassano (para mim, Giovinco), jogassem mais sem bola, procurando espaços de recepção em zonas interiores. A verdade é que a Itália parece conseguir criar espaços na profundidade e pelos flancos, mas não os consegue criar pelo meio, e isso é problemático. À margem de tudo isto, enorme o europeu de Andrea Pirlo, até agora. É o melhor, na posição de médio-defensivo, desde Fernando Redondo. Quanto à Espanha, foi o que se esperava. A Irlanda é demasiado fraca para estas andanças, e levou 4 como podia ter levado 10. Shay Given foi o melhor em campo, do lado dos irlandeses. Um adversário tão fraco, ao nível do posicionamento colectivo, e ao nível da decisão com bola, até deve ser aborrecido, para os espanhóis. Jogo sem grande história, com Vicente del Bosque a fazer a vontade aos críticos, abandonando a ideia de jogar sem um jogador com características de avançado. Não é necessariamente mau, mas mostra poucas convicções. Se estivesse convicto de que, pelo modo como estes jogadores jogam, era mais importante ter 3 atacantes que privilegiam movimentos de aproximação e não de ruptura, devia ter continuado a apostar em Fabregas. O que revela o treinador espanhol é que não está certo de saber o que é este tipo de jogo. Fernando Torres, enquanto avançado, oferece à Espanha certos movimentos que Fabregas não oferecia, sim, mas faz com que esses movimentos de ruptura, que antes eram quase aleatórios, podendo surgir na pessoa de Fabregas, de Iniesta, de Silva, ou de Xavi, sejam agora quase que exclusivamente protagonizados pelo avançado do Chelsea. Com avançado, a Espanha até pode criar mais situações de golo, mas é menos imprevisível e, sobretudo, não cria tão boas situações de golo.

Grupo D

Mais dois jogos fracos, neste grupo, com os principais candidatos a mostrarem-se incapazes de encantar. Vale à França e à Inglaterra a terrível ingenuidade quer dos ucranianos, quer dos suecos. Rooney até pode começar o Euro a partir de agora, mas a verdade é que a equipa inglesa precisava de muito mais do que alguém como ele. Estão em boa posição para seguir em frente, bastando-lhe o empate contra a Ucrânia, mas ainda não vi uma única jogada interessante protagonizada pela equipa inglesa. Contra a Suécia, nem sequer soube manter a vantagem inicialmente adquirida. Quanto aos suecos, contar apenas com Ibrahimovic é pouco, muito pouco. É pena que ele, um dos melhores avançados, se calhar de todos os tempos, não tenha a possibilidade de representar uma selecção mais competitiva. Quanto à França, Laurent Blanc modificou o sistema táctico, passando a actuar apenas com dois médios. Em termos práticos, porém, o 4231 não foi excepcionalmente diferente. Os franceses continuaram pouco ligados, com Ribery a querer resolver tudo sozinho. Um apontamento para Benzema, que é um avançado fenomenal. No Real Madrid, não sendo a figura máxima da equipa, tem tendência a procurar combinações com os restantes companheiros de ataque. Na selecção, contudo, fá-lo bem menos. Talvez por se sentir mais influente, talvez por lhe ser pedido que seja mais individualista, Benzema remata de tudo o que é sítio, procura ser ele a criar e a concluir, e é muito menos jogador. A França não deslumbrou, e houve até momentos no jogo em que deu a sensação de que eram os ucranianos quem estavam mais perto de inaugurar o marcador. Depois, quase caídos do céu, a França marcou dois golos e resolveu a partida. Acontece muitas vezes, e continuará a acontecer. O primeiro adversário a sério da França aparecerá ao quarto jogo, seja ele a Espanha, a Itália, ou a Croácia, e aí se verá a que pode verdadeiramente aspirar esta equipa.