De dois em dois anos, a turba anima-se com o pontapé na bola e, dando em correr melhor do que seria previsto, a participação portuguesa nos torneios de nações é motivo de batimentos cardíacos acelerados um pouco por todo o país. Junta-se a esse fenómeno, este verão, duas circunstâncias especialmente interessantes: 1) o facto de o desenho do torneio beneficiar a mediocridade (passarem 2 terços das selecções não só permite que equipas que nada façam na fase de grupos sigam em frente como aumenta a possibilidade de tais equipas avançarem na competição sem apanharem adversários dignos de respeito); e 2) o facto de aparecer em Portugal um miúdo de 18 anos que, não obstante a total banalidade e inconsequência do seu futebol, reúne todos os atributos que o povo gosta de ver num jogador (força, agressividade, rapidez, coragem, desinibição, etc.). A euforia em torno de Renato Sanches chegou ao ponto de termos um jornalista, no rescaldo do jogo com a Polónia, a descrever os acontecimentos do jogo do seguinte modo: "Primeiro a Polónia marcou; depois o Renato empatou!" Renato Sanches é hoje, portanto, sinónimo de Portugal.
Há quem já o considere, no presente, um dos melhores médios do mundo. E há outros, mais prudentes mas igualmente fanáticos, que consideram que, apesar de ainda ter muito que trabalhar, tem potencial para chegar ao patamar dos melhores. A minha opinião sobre Renato Sanches não se alterou minimamente: não tem o que é preciso para vingar ao mais alto nível, e nunca vai tê-lo. Nesta selecção, não dá nem metade do que dão João Mário, Adrien Silva, André Gomes e João Moutinho. E, ao contrário do que tem sido dito, não consigo ver que melhorias trouxe ao futebol nacional sempre que entrou. Não consigo mesmo. Contra a Polónia, por exemplo, estava a fazer um jogo miserável, até que Fernando Santos decidiu encostá-lo a uma faixa. Miserável! Posicionalmente, andava às aranhas. Não sabia onde nem como pressionar, nem sabia onde nem como pedir a bola aos colegas. Fernando Santos trouxe-o para a linha, para lhe tirar alguma responsabilidade táctica, e ele continuou sem saber muito bem o que fazer. Defensivamente e ofensivamente, o Renato andava completamente perdido. Mas depois marcou um golo, após um passe sem nexo nenhum (meteu em Nani numa zona em que o avançado português não iria conseguir fazer nada, mas teve a sorte de Nani inventar um passe de calcanhar, que o surpreendeu tanto a ele como aos polacos), e as pessoas, que não querem saber de mais nada, trataram de endeusá-lo. O Renato lá continuou perdido em campo, a errar posicionamentos e a errar decisões com bola, mas cheio de confiança. E a única coisa que as pessoas vêem é a bola nas redes e a confiança com que os jogadores andam em campo. Não vêem as distracções constantes do Renato, os maus passes sistemáticos, as decisões absurdas, a imaturidade táctica. Não vêem nada disso. Vêem um miúdo com força e desinibido, e acham que é a reencarnação do Eusébio. Ou a reencarnação de D. Afonso Henriques, à espadeirada aos mouros.
Posso acrescentar, condescendendo um pouco, que talvez pudesse dar um avançado com alguma qualidade, ou um extremo interessante. Tem velocidade, segura e protege bem a bola, e podia servir de avançado em circunstâncias de contra-ataque, sobretudo, ou de extremo a quem se peça principalmente alguma competência na transição. Ou podia dar um defesa direito aguerrido, capaz de se projectar ofensivamente. Como médio-centro - perdoem-me os seus admiradores - não lhe auguro nada de bom. Não tem qualidade de passe, não é excepcional do ponto de vista técnico e, acima de qualquer outra coisa, não toma decisões condizentes com aquilo que deve ser um médio de ataque. Como disse há uns meses, as suas principais qualidades (a capacidade de condução em velocidade, a força, a entrega e a qualidade com que protege a bola) não são as competências que se exigem a um médio moderno. Isto não significa que não possa fazer carreira como médio, e que não possa ser titular indiscutível dos clubes por onde passar e da selecção nacional (o Maniche ou o Raúl Meireles também o foram). Significa, isso sim, que não o vejo a ser um médio capaz de dar a uma equipa aquilo de que precisa, sobretudo em organização ofensiva. Algumas das pessoas que, contagiadas pela euforia geral, sentem a necessidade de justificar a admiração que têm pelo Renato precisam, por isso, de demonstrar que o tipo de futebol que pratica é de algum modo benéfico. E, reconhecendo-lhe alguns defeitos (tomada de decisão, precipitação, irresponsabilidade táctica, imaturidade, etc.), tendem a acreditar que a força que tem, a intensidade com que joga e a irreverência que apresenta em campo, contrastando com a calma pachorrenta e a lentidão de processos por que se define, alegadamente, o futebol dos outros médios da selecção, são factores de desequilíbrio evidentes. Por exemplo, acha-se que o Renato, por conduzir endiabradamente, atrai adversários a toda a hora, desposicionando-os, e que, soltando a bola para um colega depois de fixar esse adversário, produz rupturas sistemáticas nas defesas contrárias. Na verdade, subjazem a esta ideia vários preconceitos: o de achar que é sempre útil conduzir para fixar, seja em que zona do terreno for, a que velocidade for e em que circunstâncias for; o de achar que quem privilegia a condução é mais competente a conduzir do que quem privilegia outras coisas; e o de achar que esse tipo de comportamento tem como consequência necessária esse tipo de desequilíbrios no adversário. O que se segue é uma análise às acções com bola (e a algumas acções sem bola) do Renato, no jogo contra o País de Gales. Como se verá, não só as iniciativas de condução do Renato não produzem os efeitos que se defende que produzem como o seu futebol não é tão incisivo como se acha que é.
1 mins: Mau passe. (Em vez de procurar dar uma linha de passe, dentro ou fora do bloco adversário, vai ter com José Fonte, tira-lhe a bola, conduz junto à linha e entrega na direcção do lateral galês.)
4 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Joga na linha em Cedric, aproxima-se, recebe dele, dá em Nani, volta a receber e devolve a Nani.)
5 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Aproxima-se do meio, recebe de Adrien, vira-se para a direita, roda sobre si mesmo e endereça o passe a Raphael Guerreiro, na esquerda).
7 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Toca a bola para Cedric, recebe dele e toca para trás.)
9 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Dá para Cedric, que se projecta na linha, e este cruza.)
12 mins: Má opção. (Recebe de Adrien numa zona central, conduz na direcção da linha, com Cedric à sua frente e Adrien a dar o apoio recuado, mas insiste em definir o lance e cruza contra o opositor directo.)
13 mins: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para trás, mas o central galês limpa.)
13 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe no meio de Danilo e dá para trás para Adrien.)
15 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de João Mário e dá para dentro, em João Mário de novo.)
17 mins: Mau passe.(Capta junta à linha, conduz enquanto Adrien se escapa ao seu lado, mas solta antes de fixar e na direcção de Joe Allen, que intercepta o passe.)
21 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe longo de Rui Patrício, protege a bola na recepção, vem para o meio, tabela com Adrien, tabela com Ronaldo, dá na linha em Cedric, dá o apoio recuado e recebe de Nani, a quem Cedric dera a bola, conduz lateralmente e abre na esquerda, em Raphael Guerreiro.)
22 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Recebe de Adrien e devolve.)
25 mins: Má opção. (Apanha uma bola sacudida por Bruno Alves e, com um adversário à perna, e mais dois à sua frente, conduz para a linha sem dar importância ao apoio de Adrien, que chegava naquele momento, mete a cabeça no chão e tenta forçar a passagem, perdendo a bola. As bancadas exultam.)
27 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Vem ao meio, recebe de João Mário e toca curto em Adrien. Na mesma jogada, recebe de João Mário, conduz para a esquerda e deixa em Raphael Guerreiro.)
28 mins: Esforço. (Evita que a bola saia pela linha, após um mau passe de Bruno Alves.)
28 mins: Mau passe.(Apanha uma sobra, encara o médio e tenta jogar vertical, para dentro do bloco adversário, em Raphael Guerreiro, mas a bola sai para as costas do colega e a jogada perde-se.)
31 mins:Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Danilo no meio e joga em Cedric na linha. Ronaldo aproxima-se e fica com a bola.)
31 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Ronaldo, e lateraliza para Adrien.)
33 mins: Má decisão sem bola.(José Fonte conduz e Renato, como no lance do primeiro minuto, dirige-se ao portador da bola em vez de procurar dar uma linha de passe, o que leva José Fonte a desesperar, gesticulando para que o médio português saísse dali.)
34 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Perde em força para Bale, ao tentar disputar a bola com o galês, mas apanha o ressalto depois de Bale cruzar contra José Fonte, protege a bola e dá na linha em Nani.)
36 mins: Troca de bola rápida. (Aproveita uma sobra, depois de Cedric desarmar Bale, e dá rápido em Nani)
37 mins: Cruzamento. (Recebe junto à linha e cruza rasteiro, sem consequências)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Cedric e joga para trás, para Danilo)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Recebe de Adrien, no meio, e dá na linha, em Cedric)
38 mins: Má opção. (Recebe de Cedric e, com várias opções verticais, dentro do bloco adversário, mete na área sem nexo.)
40 mins: Mau passe.(Recebe de José Fonte, conduz lentamente e, sem procurar fixar o defesa, tenta jogar em João Mário, mas o passe sai transviado.)
41 mins: Passe vertical. (Recebe de Cedric, conduz para o meio, e joga vertical em Nani, que dá o apoio entre linhas. Renato não dá, no entanto, opção de passe para que Nani pudesse devolver a bola.)
42 mins: Má decisão sem bola. (É ludibriado por uma simulação do defesa esquerdo galês, Taylor, quando fazia a cobertura desse flanco. Como Cedric perseguira individualmente o médio galês que ali aparecera, e que recuara, o lateral esquerdo fica com a linha escancarada.)
47 mins: Má opção.(Apanha uma sobra, depois de um corte de José Fonte, tenta fintar e perde.)
47 mins: Mau passe.(Apanha uma sobra e faz um passe rápido, sem direcção, que acaba nas pernas do árbitro. Se não batesse no árbitro, ia direito a um adversário.)
47 mins: Falta desnecessária não-assinalada. (Faz falta junto à área sobre Gareth Bale, mas o árbitro não assinala.)
47 mins: Mau passe. (Recebe de Nani, tenta entregar de primeira, mas a bola vai para Joe Allen.)
53 mins: Faz falta. (Depois de 6 minutos sem intervir, durante os quais Portugal marcou 2 golos, faz falta junto à linha.)
55 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de José Fonte e joga na linha, em Cedric.)
56 mins: Sofre falta.(Recebe de Cedric e, perante a chegada do adversário, desvia a bola e sofre falta. Estando Cedric a passar nas costas, se a finta sai mal, os galeses poderiam contra-atacar.)
59 mins: Má opção. (Apanha uma sobra, conduz, tenta passar por Gareth Bale e é desarmado.)
60 mins: Mau passe.(Recebe de Cedric e tenta meter no espaço, onde Adrien aparece, mas mede mal o passe e a bola perde-se.)
64 mins: Má opção.(Recebe no meio, de João Mário e, podendo progredir, dá de imediato na direita, em Nani, que acaba por ir para o remate.)
67 mins: Sofre falta. (Recebe junto à linha esquerda, protege a bola, roda sobre si, na direcção da linha, e sofre falta.)
69 mins: Conduz e entrega. (Apanha uma sobra, depois da recuperação de Adrien, conduz pelo meio, tira Joe Allen da frente e lateraliza para João Mário.)
72 mins: Má opção.(Capta junto à linha, conduz pela esquerda e, não respeitando a movimentação de Ronaldo, que lhe permitia solicitar Nani, que aproveitara o espaço deixado livre pelo arrastamento do central galês, opta por ir para o remate, que faz já em desequilíbrio.)
Fica o video com os apontamentos individuais do Renato (excluem-se os lances sem bola a que dei destaque), ao longo do jogo, com o agradecimento ao PicaretaLeonina, que o deixou na caixa de comentários do texto anterior:
Conclusões:
1) Das 41 acções contempladas, 4 são acções sem bola (as faltas feitas aos minutos 47 e 53, e as acções dos minutos 33 e 42), 2 são acções espontâneas (o cabeceamento aos 13 minutos e o esforço para evitar que a bola saísse aos 28) e 2 terminam com faltas sofridas (aos minutos 56 e 67). Renato participou, portanto, em 32 acções com bola, em condições suficientes para a tomada de decisão. Dessas 33 acções, 7 terminaram com maus passes; 21% de passes errados.
2) Das 26 acções que não terminaram com maus passes, Renato tomou ainda 7 más opções, das quais 4 resultaram em perdas de bola directas. Assim, teve 14 acções negativas (42% de acções negativas) e foi o responsável por 11 perdas de bola (33% dos lances em que participou acabaram nos pés do adversário).
3) Das 19 acções positivas que teve, 15 foram trocas de bola fora do bloco adversário (lateralizações ou trocas curtas com um grau de risco baixo e sem quaisquer consequências em termos de ganhos territoriais ou em termos de desequilíbrios do bloco adversário). Das restantes 4, 1 consistiu em entregar rápido, para aproveitar o desequilíbrio momentâneo do adversário e 1 consistiu em conduzir a bola, num momento de transição. Das 17 acções positivas em momentos de organização, 15 foram acções simples de circulação (88% de acções de risco mínimo), 1 foi um cruzamento rasteiro, que acabou por não ter sucesso, e apenas 1 foi um passe vertical para um colega dentro do bloco adversário. Em organização ofensiva, RenatoSanches não conduziu com sucesso uma única vez.
4) Na verdade, Renato conduziu 10 vezes. Ao minuto 1, conduziu e entregou mal. Ao minuto 12, conduziu para a linha e optou por cruzar contra o adversário, quando tinha um apoio recuado. Ao minuto 17, capta a bola junta à linha esquerda, conduz e solta demasiado cedo, e na direcção do adversário. Ao minuto 25, conduz pela linha, com vários adversários à ilharga, não espera pelo apoio e perde a bola. Ao minuto 40, conduz lentamente e, não esperando que o adversário avançasse em direcção a ele, tenta soltar para João Mário, com um mau passe. Ao minuto 47, tenta fintar um adversário e perde a bola. Ao minuto 56, finta um adversário e sofre falta. Ao minuto 59, tenta passar por Bale, é desarmado e perde a bola. Ao minuto 69, finalmente, consegue ter espaço para conduzir, em transição, tira um adversário do caminho e lateraliza para João Mário. Ao minuto 72, goza novamente de espaço, conduz pela esquerda e opta por ir para a finalização, não respeitando o bom trabalho sem bola de Ronaldo, que deixa espaço nas suas costas para Nani. E, ao minuto 64, não conduz quando tinha espaço para isso e quando se exigia que o fizesse, preferindo lateralizar para Nani. Das 10 vezes que conduziu, 6 acabaram com a perda da bola (60% de perdas de bola em acções de condução), 1 acabou com um cruzamento contra 1 adversário, 1 acabou com uma má decisão e um remate por cima (80% de acções de condução absolutamente inconsequentes), 1 acabou em falta e 1 acabou num passe lateralizado para um colega.
5) Renato recuperou 0 bolas e fez 0 cortes.
Comentários a cada uma das conclusões:
1) Já se sabia que falta maturidade a Renato Sanches, e que perde demasiadas bolas para a posição que ocupa. Para aqueles que, apesar de lhe reconhecerem talento, não ignoram os defeitos que tem, não é decerto surpreendente que falhe mais de 1 passe a cada 5 que efectua. Num jogo de exigência tão baixa, em que a maior parte das acções em que participou foram fora do bloco adversário, é muito. E é incompatível, a meu ver, com as obrigações de um médio moderno. As pessoas que gostam das renatices ou não prestam atenção a isto, ou desconsideram esta realidade por acharem que o Renato compensa com outras coisas. Como explicarei a seguir, não há nada no seu futebol que possa indicar tal compensação.
2) Se juntarmos as decisões erradas aos maus passes, a taxa de insucesso do seu futebol duplica: em cada 5 acções, 2 são erradas. E em cada 3 bolas que passam pelos seus pés, 1 acaba nos dos adversários. É muito. Nem sequer é preciso comparar estes números com os dos médios excepcionais: eles são incompatíveis com qualquer médio de qualquer equipa mediana. Aliás, sempre que o grau de dificuldade dos lances aumenta, as más decisões de Renato Sanches aumentam também. A falta de criatividade, a pouca qualidade de passe e o desconforto técnico em situações de decisão rápida não lhe permitem solucionar problemas muito complicados, e o seu futebol só não é prejudicial à equipa quando, jogando fora do bloco adversário, se dedica à simples gestão e circulação da bola. Sempre que se impõe uma acção de penetração, ou sempre que Renato decide que é tempo de procurar acções de penetração, a taxa de insucesso do seu futebol sobe desgovernadamente.
3) Se os números acima não são surpreendentes, pelo menos para aqueles que não acham que o Renato seja o Messi da Musgueira (o que é para aí um décimo da população portuguesa), as conclusões que se seguem talvez sejam. A maioria das coisas bem feitas são acções de risco reduzido, ao alcance de qualquer médio, em qualquer parte do mundo. Se contarmos apenas as situações de ataque organizado, 9 em cada 10 dessas acções positivas são passes para o lado, fora do bloco adversário, sem consequências práticas relevantes que não a mera circulação da bola. A verticalidade que, de acordo com a maioria das pessoas, supostamente oferece ao jogo não se verifica de todo: em 72 minutos, Renato Sanches fez apenas um passe vertical, a explorar o espaço interior, e não conduziu com sucesso uma única vez. Seja através do passe, seja através da condução, as acções com bola de Renato Sanches em nada contribuem para que a equipa consiga penetrar ou para criar desequilíbrios momentâneos na organização defensiva adversária.
4) A ideia, mais ou menos consensual, de que Renato Sanches agita naturalmente o jogo e tem a coragem de conduzir mesmo em situações de dificuldade elevada também não se confirma. Aos 64 minutos, num lance em que tem espaço para progredir em condução e em que se exigia que o fizesse, até para permitir aos colegas o tempo suficiente para efectuarem as suas desmarcações, Renato opta por entregar de imediato na direita, em Nani. O privilégio da condução, percebe-se assim, não advém da coragem ou da confiança que tem ao fazê-lo; advém da absoluta irracionalidade com que joga. Tanto conduz quando deve como quando não deve; tanto arrisca em condução quando se justifica que arrisque como quando não se justifica; e tanto decide não conduzir quando não há condições para o fazer como quando as há. Não são as circunstâncias que determinam as acções de condução de Renato Sanches; são os seus caprichos. E, como qualquer jogador que toma decisões em função de caprichos, é natural que o sucesso das suas acções seja limitado. Note-se, de resto, o pouco que a equipa ganhou (e o muito que perdeu) com as acções de condução em que se envolveu. Das 10 acções de condução, 6 produziram malefícios, 2 não produziram qualquer benefício e 2 produziram pequenos benefícios (a cobrança de um livre e a manutenção da posse de bola). Não, Renato Sanches não é extraordinário em acções de condução. É só alguém que o faz com frequência e à bruta. Como aquilo de que as pessoas que vêem futebol gostam mesmo é de touradas, gostam de ver o touro a investir contra os cavaleiros, de preferência muitas vezes e com toda a força. Enquanto não perceberem que o futebol não é tourada, não perceberão que aquilo que tanto admiram no futebol de Renato Sanches é tão entusiasmante quanto improdutivo. A exultação colectiva com a jogada de Renato Sanches aos 25 minutos representa fidedignamente a taurofilia dos adeptos portugueses: Renato leva para a linha, tenta passar por onde era praticamente impossível que o fizesse, perde a bola e, mesmo assim, as pessoas gritam de emoção e arrancam cabelos.
5) Não creio que precise de dizer grande coisa em relação à quinta conclusão. É verdade que, jogando numa ala e não no meio, a taxa de recuperação de bolas tende a diminuir, e é verdade que, por si só, este tipo de números não espelha o comportamento defensivo de um jogador. De qualquer forma, não ter recuperado qualquer bola nem ter feito qualquer corte, em 72 minutos, permite pelo menos mostrar que a agressividade e a intensidade com que Renato Sanches joga não se traduz, em termos defensivos, em nenhum daqueles factores em que as pessoas julgam que o médio português se destaca. Ao contrário do que se pensa, Renato Sanches não compensa os posicionamentos desastrosos, portanto, nem com recuperações de bola, nem com cortes, nem com desarmes.
Notas finais:
1) É aceitável argumentar, contra a pretensão deste texto, que este jogo não reproduz a real valia de Renato Sanches, e que um jogo mau não deve servir de balança da qualidade geral de um atleta. Aceito o argumento, e não tenho modo de refutá-lo que não através da convicção de que, pelo contrário, as incidências deste jogo retratam fielmente aquilo que Renato é, enquanto jogador de futebol. Estou absolutamente convencido, por exemplo, de que as percentagens de passes errados e de decisões erradas é mais ou menos idêntica a estas. Assim como estou absolutamente convencido de que a esmagadora maioria das coisas que faz bem feitas, como neste jogo, são coisas de baixo grau de dificuldade e, por conseguinte, coisas que qualquer jogador consegue fazer. Mais importante do que isso, estou ainda absolutamente convencido de que a taxa de sucesso em acções de condução (aquilo que tanto parece fascinar os portugueses) não é significativamente diferente daquela que se registou neste jogo, ou seja, praticamente nula. Na verdade, consigo perceber o fascínio Renato Sanches: é desinibido, respeita a exortação predilecta dos estultos, o famoso "Vamos para cima deles!" que amiúde se ouve nas bancadas, tem capacidades atléticas excepcionais e, além disso, é jovem, o que, para muita gente, significa que tem muita margem de progressão. O que não percebo, ou o que não aceito, é que esse fascínio impeça as pessoas de ver que aquilo que faz em campo não produz efeitos dignos de registo. Este não foi um mau jogo de Renato Sanches. Foi um jogo normal. Se tivesse marcado um golo, como contra a Polónia, provavelmente teria sido eleito o homem do jogo, e provavelmente haveria pouca gente a achar que tinha sido um jogo modesto. E esse é que é o problema. Se formos a olhar friamente para cada lance, e para os benefícios e os prejuízos que cada uma das suas acções acarreta, chegaríamos a conclusões como aquelas que este texto defende. Mas olhar friamente para alguma coisa é algo que um adepto de futebol não gosta de fazer. É precisamente por isso que o futebol de Renato Sanches é tão apreciado.
2) Além da jogada do minuto 25, que serve para demonstrar que aquilo que as pessoas mais admiram no futebol de Renato Sanches não acarreta benefícios colectivos, devo ainda destacar a primeira e a última jogada em que o médio português se viu envolvido. A primeira porque é perfeita para mostrar o quão inconsequente é a sua irreverência e a sua hiperactividade: ir buscar a bola aos pés de um central e conduzi-la a toda a velocidade apenas para a deixar nos pés do lateral adversário é a melhor ilustração daquilo que vale. A última porque é perfeita para mostrar o quão irracionais são as suas cavalgadas com bola e o quão mal define, ao contrário do que se julga, em lances de condução: se não consegue respeitar o trabalho sem bola dos colegas, de nada serve que consiga acelerar o jogo.
3) Desde que o europeu começou que me parece o mais fraco de que tenho memória. É pelo menos tão fraco quanto o de 2004. Salvava-se a Alemanha, que acabou por não ter sorte nas meias-finais, a Espanha, que insiste em vir para estas provas sem treinador, a Itália, à qual falta a qualidade individual de outros tempos, e em certa medida a criatividade isolada de certos grupos jogadores croatas (Modric e Rakitic) e galeses (Allen e Ramsey). Na final, estará a equipa anfitriã, que teve muitas dificuldades para superar as poderosíssimas selecções da Roménia e da Albânia, nos dois primeiros jogos (o que conseguiu apenas porque tem individualidades notáveis), e estará também uma equipa que passou o seu grupo em terceiro, com três empates contra equipas dificílimas como a Islândia, a Áustria e a Hungria, e que se foi apurando, eliminatória após eliminatória, quase que por milagre (ou porque teve uma sorte inacreditável no sorteio, ou porque tem o melhor cabeceador de todos os tempos, ou através das grandes penalidades, ou num lance de contra-ataque depois de levar uma bola no poste). Num europeu medíocre, cujo desenho favorece os medíocres, ganhará, portanto, uma equipa medíocre. Para bem do futebol, era bom, ainda assim, que ganhasse a menos medíocre das duas.
No passado fim-de-semana, o Sporting defrontou a Naval e Carlos Saleiro actuou ao lado de Liedson. Abaixo fica o registo das intervenções de ambos, assim como as de Hélder Postiga, que entrou a render o primeiro aos 75 minutos de jogo.
1 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)
2 mins: Boa opção. (Saleiro joga de frente em Miguel Veloso.)
3 mins: Perda de bola. (Liedson recebe, vira-se, tenta fintar e perde a bola.)
3 mins: Boa opção.(Saleiro recebe e dá pelo ar para João Moutinho.)
5 mins: Boa opção. (Liedson dá de primeira em Izmailov.)
7 mins: Mau passe. (Liedson tenta jogar com Saleiro, mas um defesa corta a jogada.)
8 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)
8 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson esconde-se atrás de um defesa, ignorando a linha de passe que deveria dar, e não recebe o passe de Miguel Veloso, que se perde.)
10 mins: Cabeceamento.(Saleiro ganha de cabeça após passe longo de Tonel.)
10 mins: Remate. (Liedson recebe depois de um ressalto e chuta contra o guarda-redes.)
12 mins: Perda de bola. (Saleiro recebe uma bola à queima-roupa e perde no ressalto.)
13 mins: Boa opção. (Saleiro recebe na esquerda, alonga o passe para Adrien, que ganha canto.)
15 mins: Faz falta. (Saleiro ganha de cabeça, vira-se e faz pé em riste.)
15 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça para Veloso, que chega tarde.)
17 mins: Cabeceamento. (Saleiro salta de cabeça e perde.)
18 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)
18 mins: Boa opção.(Liedson recebe na esquerda, roda sobre si mesmo e joga para trás para Moutinho.)
19 mins: Perda de bola. (Liedson, entre dois adversários, tenta fazer cueca e perde a bola.)
20 mins: Cabeceamento.(Saleiro ganha de cabeça.)
21 mins: Cabeceamento.(Liedson ganha de cabeça.)
21 mins: Cabeeamento. (Saleiro ganha de cabeça.)
22 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)
24 mins: Perda de bola. (Liedson tenta fintar, perde a bola e faz falta.)
24 mins: Corte.(Liedson, em esforço, corta para fora.)
25 mins: Má opção. (Liedson, na esquerda, recebe passe longo, mas deixa a bola bater duas vezes e permite o corte do defesa da Naval.)
26 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)
28 mins: Boa opção. (Saleiro joga de frente, embora a bola viesse pelo ar e difícil.)
29 mins: Recuperação de bola. (Liedson recua e ganha de cabeça, recuperando a bola para a sua equipa.)
30 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)
33 mins: Boa opção.(Saleiro recebe a bola, roda para a direita e dá em Izmailov.)
33 mins: Sofre falta. (Liedson recebe e sofre falta.)
34 mins: Cruzamento. (Saleiro recebe a bola na esquerda e cruza contra um defesa.)
35 mins: Boa opção. (Liedson, após um canto, fica com a bola e joga para trás.)
35 mins: Remate. (Liedson salta dentro da área, tenta rematar de cabeça, a bola bate no defesa que saltara com ele e sobra para Saleiro, que marca golo.)
35 mins: Golo. (Saleiro, ao segundo poste, aproveita um ressalto para introduzir a bola na baliza.)
36 mins: Cruzamento. (Liedson falha a recepção e vai cruzar à linha para as mãos do guarda-redes da Naval.)
37 mins: Recuperação de bola. (Saleiro ganha a bola e com um pontapé lança Liedson, que estava em posição irregular.)
37 mins: Fora-de-jogo. (Liedson é apanhado em fora-de-jogo.)
38 mins: Recuperação de bola. (Saleiro ganha a bola.)
38 mins: Má opção. (Saleiro perde muito tempo a soltá-la e embrulha-se. A bola acaba por sobrar para Veloso.)
40 mins: Boa opção.(Saleiro dá de primeira para Liedson.)
40 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola de Saleiro, tenta fintar e perde a bola, que no entanto sobra para Izmailov.)
40 mins: Remate. (Saleiro é lançado por Izmailov, chuta em esforço, no chão, o guarda-redes defende e choca com Saleiro. Ao levantar-se para perseguir a bola, Saleiro é agarrado pelo guarda-redes. Penalty não assinalado.)
42 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)
42 mins: Má opção. (Liedson faz a bola passar por cima de um adversário e perde a bola.)
42 mins: Perda de bola. (Saleiro é solicitado de frente, joga de primeira, mas Adrien e Veloso não percebem, ficando a bola à mercê de um adversário.)
43 mins: Faz falta. (Liedson chega atrasado ao lance e faz falta.)
44 mins: Sofre falta.(Saleiro sofre falta.)
45 mins: Remate. (Liedson responde a um cruzamento, tocando ao de leve na bola, que chega ao guarda-redes adversário.)
45 mins: Má recepção. (Saleiro recebe um passe longo, mas a recepção não é a melhor e acaba por perder a bola.)
45 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson deixa-se antecipar depois de um bom passe vertical.)
46 mins: Mau passe. (Saleiro recebe mas entrega mal.)
46 mins: Boa opção. (Saleiro entrega de cabeça, de frente.)
48 mins: Boa opção. (Saleiro ganha um lance disputado e joga de frente.)
48 mins:Sofre falta.(Liedson sofre falta.)
49 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha um lance de cabeça na direcção de Liedson, que no entanto fica quieto atrás do defesa.)
49 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson fica atrás de um defesa e deixa-se antecipar.)
50 mins: Boa opção. (Saleiro recebe a bola na linha e ganha lançamento.)
52 mins: Sofre falta. (Saleiro sofre falta por trás.)
53 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça, mas a bola sobra para Moutinho.)
53 mins: Bom passe, mas má opção. (Liedson recebe de Moutinho na zona central, dá três toques na bola, permitindo a recolocação da defensiva contrária, e acaba por dar atrasado em Moutinho, novamente.)
57 mins: Sofre falta. (Liedson sofre falta.)
57 mins: Boa opção. (Saleiro ganha a bola no meio de vários adversários e joga com Izmailov.)
59 mins: Cabeceamento.(Saleiro ganha de cabeça.)
60 mins: Boa opção. (Saleiro tabela com Moutinho.)
60 mins: Boa opção. (Saleiro recebe novamente de Moutinho e dá em Adrien.)
60 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)
60 mins: Recuperação de bola. (Liedson recupera uma bola.)
63 mins: Boa opção. (Saleiro tabela com Miguel Veloso.)
65 mins: Cabeceamento. (Liedson ganha de cabeça.)
65 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)
67 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola através de um passe longo, tenta inventar, perde, mas a bola sobra para Grimi.)
67 mins: Boa opção. (Saleiro recebe de um lançamento lateral e dá em Veloso.)
69 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)
69 mins: Corte. (Liedson corta para fora.)
70 mins: Boa opção.(Saleiro assiste Veloso, que remata.)
70 mins: Má opção. (Liedson recebe de Moutinho e tenta lançar Saleiro, quando tinha apoios de frente. A bola bate em Diego Ângelo e fica em poder da Naval.)
70 mins: Boa opção.(Saleiro recebe e joga no meio, em João Moutinho.)
73 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde lance de cabeça.)
74 mins: Má recepção. (Liedson recebe e perde a bola depois de má recepção.)
75 mins: Sai Saleiro,entra Postiga.
76 mins: Perda de bola. (Postiga recebe a bola e perde.)
77 mins: Cabeceamento. (Postiga ganha de cabeça para o meio.)
78 mins:Boa opção. (Postiga recebe de Moutinho e tenta lançar Liedson, que no entanto é apanhado em posição irregular.)
78 mins: Fora-de-jogo. (Liedson é apanhado em fora-de-jogo.)
79 mins: Boa opção. (Postiga recebe e dá em Adrien.)
79 mins: Boa opção. (Postiga recebe e dá em Veloso.)
79 mins: Remate.(Postiga recebe novamente de Veloso, finta e remata de pé esquerdo, obrigando o guarda-redes a defesa apertada para canto.)
80 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)
80 mins: Boa opção.(Postiga entra na área e, fingindo o remate, assiste Liedson, que no entanto se deixa antecipar.)
80 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson não percebe a intenção de Postiga e deixa-se antecipar.)
82 mins: Boa opção. (Liedson dá atrás em Moutinho.)
84 mins: Recuperação de bola. (Postiga pressiona, recupera a bola e dá atrás.)
84 mins: Boa opção. (Postiga recebe novamente e joga de primeira.)
84 mins: Remate. (Liedson recebe no meio e remata ao lado.)
85 mins: Cabeceamento.(Liedson ganha de cabeça.)
86 mins: Boa opção.(Postiga joga com Liedson, que lhe devolve a bola)
86 mins: Boa opção. (Liedson tabela com Postiga.)
86 mins: Deixa-se antecipar. (Postiga vai para rematar, após tabela com Liedson, mas um defesa corta a bola.)
87 mins: Boa opção. (Liedson assiste Adrien, que remata.)
89 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola, fá-la passar por cima de um defesa e perde-a.)
89 mins:Boa opção. (Postiga tabela com Veloso.)
89 mins: Boa opção.(Postiga recebe a devolução de Veloso, progride e dá em Liedson.)
89 mins: Má opção. (Liedson recebe de Postiga, vira-se e perde a bola.)
89 mins: Recuperação de bola.(Postiga recupera a bola.)
89 mins: Sofre falta. (Liedson recebe, vira-se e ganha falta.)
90 mins: Liedson sai.
90 mins: Boa opção. (Postiga dá atrás.)
91 mins: Boa opção.(Postiga tabela com Pereirinha, mas a bola perde-se.)
92 mins: Boa recepção. Postiga recebe em esforço com o peito.
Para que seja mais fácil distinguir a acção de cada um, as suas acções estarão denotadas com cores diferentes: vermelho para Saleiro, verde para Liedson e azul para Postiga. As boas acções de cada um ficam em negrito, para melhor apreciação. Vamos às conclusões:
1) Liedson teve 48 acções durante o tempo que esteve em campo; 20 acções positivas; 42% de acções positivas. Saleiro teve 45 acções durante o tempo que esteve em campo; 32 acções positivas; 71 % de acções positivas. Postiga teve 17 acções durante o tempo que esteve em campo; 15 acções positivas; 88% de acções positivas. 2) Considerando agora os lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou disputas de cabeça, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), Liedson teve 8 boas opções contra 10 más opções; 44% de boas opções. Saleiro teve 20 boas opções contra 3 más opções; 87% de boas opções. Postiga teve 11 boas opções contra 1 má opção; 92% de boas opções. 3) Liedson foi responsável por 14 perdas de bola, 1 por má recepção, 2 por maus passes, 5 por se deixar antecipar e 6 por se virar para o adversário ou por tentar fintar (de fora destas contas ficaram ainda dois lances em que tentou inventar, perdeu a bola, mas ela sobrou para um colega de equipa); Saleiro foi responsável por 4 perdas de bola, 2 por má recepção e 2 por maus passes; Postiga foi responsável por 2 perdas de bola, 1 por mau passe e 1 por se deixar antecipar. 4) Liedson recuperou 2 bolas e fez 2 cortes; Saleirorecuperou 2 bolas; Postiga recuperou 2 bolas. 5) Liedsonsofreu 4 faltas e cometeu 1; Saleiro sofreu 2 faltas e cometeu 1; Postiga não sofreu nem cometeu faltas. 6) Liedson foi apanhado em fora-de-jogo por 2 ocasiões; Saleiro e Postiga não foram apanhados em fora-de-jogo. 7) Liedson efectuou 4 remates, sendo que apenas 1 deles levou perigo, 1 foi para fora, outro foi para as mãos do guarda-redes e outro acabou por bater no defesa e sobrar para Saleiro, que fez golo; Saleiro efectuou 2 remates, sendo que 1 deles deu golo e outro foi defendido à queima pelo guarda-redes, que de seguida agarrou Saleiro, fazendo penalty; Postiga fez apenas 1 remate, após boa combinação com Miguel Veloso. 8) Liedson disputou8 bolas de cabeça, tendo ganho 3 e perdido 5; 38% de lances de cabeça ganhos. Saleiro disputou 16 bolas de cabeça, tendo ganho 9 e perdido 7; 56% de lances de cabeça ganhos. Postiga disputou apenas 1 lance de cabeça, ganhando-o. 9) Liedson recebeu 13 bolas de costas para o jogo e jogou de frente apenas 5 vezes; em 62% dos lances, optou por se virar para o jogo, tendo perdido maior parte das bolas nessas situações. Saleiro recebeu 14 bolas de costas para o jogo, tendo jogado de frente 13 dessas vezes; optou por se virar apenas em 7% dos lances. Postiga recebeu 9 bolas de costas para o jogo, tendo jogado de frente em 8 ocasiões; optou por se virar em apenas 11% dos lances.
Comentários:
O Sporting, enquanto equipa grande, dificilmente se pode dar ao luxo de ter um jogador que, no centro do terreno, funcione tão mal como apoio vertical. Está já exausto o nosso desapreço pelo futebol de Liedson, mas este estudo ajuda a comprovar, uma vez mais, o quão nocivo o jogador é a todo o processo ofensivo. Deste ponto de vista, é muito frutuosa, a meu ver, a comparação com o seu colega de ataque, seja ele Saleiro ou Postiga. Estes dois são os avançados que melhor jogam de costas para a baliza, no plantel, e os que maior quantidades de boas decisões são capazes. Em meu entender, um avançado tem de ser muito mais do que os golos que faz e Saleiro e Postiga, ao contrário de Liedson, são-no.
Saleiro e Postiga têm mais ou menos o dobro da percentagem de boas opções que Liedson, o que indicia que, em relação ao Levezinho, conseguem dar continuidade a duas vezes mais jogadas. A quantidade de bolas que os três jogadores perdem é outro indício do quão problemático é o futebol de Liedson e de quão melhor servido estaria se, na frente, o Sporting jogasse com qualquer um dos outros dois. Há quem diga, ainda, que Liedson não vale apenas pelos golos, mas pelo trabalho defensivo, pelo esforço, pela abnegação. Este estudo demonstra que isso é uma mentira em que muitos quiseram acreditar. Liedson é responsável por tantas recuperações de bola quantas os seus companheiros de ataque, sendo que ambos estiveram em campo menos tempo que ele. O facto de correr muito, como sempre disse, de parecer um tontinho atrás dos outros, não significa que seja bom em termos defensivos. Se quisermos falar em esforço e em dedicação, podemos ainda olhar para quem foi a principal referência no futebol aéreo. Saleiro disputou o dobro das bolas de cabeça de Liedson, mostrando-se competente o suficiente no mesmo e mostrando-se com capacidade de choque. Como se vê, na capacidade de luta não há grande diferença.
A principal característica de Liedson - e a única verdadeiramente relevante, diria eu - é a sua capacidade concretizadora. Como é óbvio, o facto de, neste jogo, Carlos Saleiro se ter revelado bastante mais eficaz que Liedson não demonstra nada. Não significa isto que Liedson seja um exímio finalizador. Não é. É um jogador com uma taxa de aproveitamento até relativamente baixa, embora se pense que não. A principal diferença está na quantidade de vezes que aparece em zonas de finalização. Nisso, Liedson revela de facto um instinto felino. Mas é minha convicção que essa faculdade é conseguida a expensas de outras coisas. No meu entender, Liedson consegue aparecer em zonas de finalização mais vezes que os colegas porque é a única coisa com a qual se preocupa. Enquanto Saleiro e Postiga, por exemplo, estão preocupados em procurar os colegas, em entender a movimentação colectiva, em perceber qual a melhor forma de a equipa criar perigo, Liedson está apenas preocupado com a baliza. O exemplo do lance do Hungria-Portugal, que referimos aqui atempadamente, ilustra bem tudo isto. Com bola, Liedson pensa mais em virar-se para a baliza do que em fazê-la girar, recuando se necessário, permanecendo de costas se necessário. Não é estranho, por isso, que 62% dos lances em que recebe a bola de costas sejam resolvidos virando-se para o adversário. Sem bola, Liedson está sempre mais interessado em fugir aos defesas, de modo a aparecer em zonas privilegiadas, do que em aproximar-se do portador da bola para servir como apoio vertical. Não é, por isso, de estranhar, que se tenha deixado antecipar 5 vezes nesta partida, contribuindo para 5 perdas de bola da equipa.
Liedson só é bom em zonas muito próximas da baliza, em zonas em que é mais importante fugir a marcações, demonstrar agilidade e reflexos, aparecer em sítios certos e atacar zonas importantes. Em todo o resto do campo, é miserável. Talvez seja mais expedito que Postiga e Saleiro dentro da área, mas é sem dúvida menos inteligente fora dela, com e sem bola. Saleiro e Postiga compreendem colectivamente o jogo e, com eles em campo, o Sporting jogará sempre melhor. Liedson é um jogador útil num espaço diminuto do campo e perfeitamente inútil na maior parte dele. Nenhuma equipa grande, que queira impor-se como grande, pode ter jogadores que sejam apenas úteis numa zona do terreno. É por isso que Mantorras não joga no Benfica e é por isso que Farías é apenas um plano B no Porto. Liedson é um jogador deste tipo. Poderia ser uma arma para lançar nos minutos finais das partidas, em jogos em que o coração manda mais que a razão, mas jamais um jogador para ser titular indiscutível.
Como já aqui o dissemos várias vezes e não apenas por capricho ou ousadia, o Sporting jamais será campeão enquanto tiver Liedson. A razão pela qual afirmamos repetidamente tal coisa encontra-se relevantemente ilustrada por este estudo. Com Liedson, o Sporting só pode ser uma equipa de coração, uma equipa que tanto ganha um jogo como perde outro, uma equipa incapaz de se impor convenientemente, incapaz de sustentar um futebol de ataque, baseado na posse e circulação de bola, uma equipa, em última análise, pequena, sem ideias, esforçada mas irregular, lutadora mas irracional. Com Saleiro e Postiga, ainda que nenhum destes marcasse talvez tantos golos quantos Liedson, a equipa seria bem mais ofensiva, passaria bastante mais tempo com bola, seria capaz de construir mais jogadas de ataque, seria bem mais racional, bem maior. A resolução dos problemas actuais do Sporting começaria, portanto, aqui, na compreensão de que, com Liedson, jamais se erradicarão tais problemas.
O jogo em questão foi o Atlético de Madrid - F.C. Porto; em análise, o avançado brasileiro Hulk. Esta análise não vem no imediato seguimento do jogo, o que acaba por ser interessante, visto que houve muitas opiniões favoráveis à exibição de Hulk, nomeadamente em Espanha.
1 mins: Cruzamento. (Arrancada pela direita; passa por dois adversários e cruza para Christian Rodriguez, que remata à meia-volta contra o guarda-redes adversário.)
8 mins: Boa opção. (Ganha o lance e dá em Raúl Meireles.)
8 mins: Remate. (Recebe de Raúl Meireles, vai à linha, tem tempo para assistir Lisandro, mas pára e opta por rematar por cima.)
10 minutos: Má opção. (Ganha o lance e finta; perde e ganha lançamento.)
12 minutos: Boa opção. (Recebe um passe vertical de Fernando e dá de frente em Lucho.)
14 minutos: Perda de bola. (Toque de calcanhar inconsequente e respectiva perda de bola.)
15 minutos: Faz falta. (Comete falta na frente.)
19 minutos: Cabeceamento. (Ganha lance de cabeça.)
20 minutos: Mau passe. (Ganha a bola no meio, roda para a esquerda e executa um passe que é interceptado; apesar disso, a bola sobe e acaba por chegar a Rodriguez.)
21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Raúl Meireles.)
21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Rodriguez.)
23 minutos: Mau tempo de salto. (Faz-se ao lance, mas calcula mal o tempo de salto e a bola passa-lhe por cima.)
27 minutos: Perda de bola. (Passa em velocidade por Paulo Assunção, mas insiste na jogada individual, tentando furar entre dois adversários e fica sem a bola.)
28 minutos: Golo falhado. (Boa desmarcação; fica isolado, mas tenta picar a bola e falha.)
30 minutos: Perda de bola. (Recebe de costas e perde a bola.)
33 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)
34 minutos: Má opção. (Recebe a bola, demora a soltá-la e acaba por entregá-la mal.)
35 minutos: Boa opção. (Ganha uma bola no meio-campo em falta, levando os jogadores do Atlético a parar; como o árbitro não apita, solicita Lisandro, que é desarmado.)
38 minutos: Faz falta. (Recebe a bola com a ajuda do braço.)
40 minutos: Faz falta. (Empurra, alegadamente, o defensor junto à linha de fundo.)
42 minutos: Remate. (Com espaço na esquerda, dribla Seitaridis e remata cruzado ao lado.)
42 minutos: Perda de bola. (Tenta fintar no meio de muita gente e perde a bola.)
45 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta rodar e ir em velocidade, mas é desarmado.)
47 minutos: Boa opção. (Recebe na esquerda e dá em Lisandro, que passa junto à linha.)
50 minutos: Sofre falta. (Tenta fintar no meio-campo e acaba por sofrer falta.)
51 minutos: Má opção. (Tenta fintar e ganha lançamento.)
53 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola na direita e cruza, sem consequências.)
53 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)
58 minutos: Faz falta. (Recebe a bola, mas faz falta ao tentar protegê-la.)
58 minutos: Perda de bola. (Recebe a bola, vira-se, tenta o drible e perde.)
59 minutos: Sofre falta. (Recebe, segura e sofre falta.)
60 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola, roda e cruza contra um defesa.)
63 minutos: Faz falta. (Comete falta sobre Paulo Assunção.)
64 minutos: Remate. (Responde a um cruzamento de Lucho, mas acerta com o ombro na bola.)
68 minutos: Má opção. (Recebe a bola, roda e perde; a bola sobra, porém, para Sapunaru.)
68 minutos: Má opção. (Recebe, roda e perde; ganha o lançamento.)
70 minutos: Perda de bola. (Recebe, tira um adversário do caminho e faz um passe em esforço, que é interceptado.)
71 minutos: Boa opção. (Recebe a bola, roda para a esquerda e dá na linha em Christian Rodriguez; na sequência da jogada, Lisandro faz golo.)
73 minutos: Má opção. (Recebe no meio-campo, vira-se e dá vertical em Lisandro, não respeitando o movimento do colega; a bola acaba no entanto por passar e Lucho vai apanhá-la.)
74 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um ressalto, demora demasiado tempo a fazer malabarismos, mas acaba por decidir bem e dar recuado em Raúl Meireles que cruza.)
80 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta virar o flanco sem necessidade. O passe acaba por sair mal e é interceptado.)
80 minutos: Boa opção. (Dá a bola de frente.)
81 minutos: Perda de bola. (Recebe na linha, tenta vir para o meio e perde; ganha o primeiro ressalto, insiste no drible e volta a perder; ganha ainda mais dois ressaltos, mas acaba por perder a bola.)
87 minutos: Má opção. (Ganha o lance em falta, tenta o drible no meio de três adversários; é desarmado, mas ganha um canto.)
87 minutos: Má opção. (Bate o canto curto e recebe novamente a bola, entregando-a a Lisandro, que vem numa diagonal, no meio de dois adversários, num local onde não iria tirar qualquer proveito.)
90 minutos: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para Lucho, desmarca-se para receber a bola à frente, mas não aguenta o ombro a ombro com o defesa espanhol.)
Coloquei em negrito aquilo que de positivo Hulk fez ao longo da partida. Vamos às conclusões:
1) 46 acções durante todo o jogo; 17 acções positivas; 37% de acções positivas. 2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 13 boas opções contra 22 más opções; 37% de boas opções. 3) Destas 22 más opções resultaram 14 perdas de bola para a sua equipa. 4) Fez 7 faltas (sendo que apenas numa se pode dizer que é duvidosa) e sofreu 2. 5) Fez 3 cruzamentos, sendo que apenas 1 deles levou perigo. 5) Fez 4 remates, sendo que apenas dois deles constituíram verdadeiro perigo. 6) Apostou em 16 acções individuais, sendo que foi mal sucedido por12 vezes. Das 4 vezes em que conseguiu tirar alguma coisa desses lances, em 2 deles sofreu faltas, ambos estando muito recuado no terreno, e em apenas 2 lances a sua capacidade individual teve consequências positivas. As suas acções individuais tiveram, portanto, um aproveitamento de 12,5% e todas elas ocorreram junto às faixas. 7) Recebeu 15 bolas estando de costas e entregou apenas 4 de frente; em 73% das vezes, optou pelo mais difícil. Optando pelo mais difícil, perdeu 3 bolas na recepção, perdeu 7 ao tentar virar-se para o adversário, e apenas ganhou 1 apostando em rodar sobre si; teve 12,5% de sucesso em lances em que se tentou virar para o adversário.
Comentários: Já aqui o disse e reafirmo-o: Hulk tem capacidades individuais fantásticas. Mas tê-las, por si só, não é nada. Há que saber aproveitá-las e que saber pô-las ao serviço do colectivo. E Hulk não faz nenhuma das duas coisas. A sua capacidade de decisão, como se comprova, é bastante baixa. Deste modo, a sua colaboração, em termos colectivos, deixa muito a desejar e Hulk é, não raras vezes, prejudicial ao processo ofensivo da sua equipa. Aproximadamente, duas em cada três bolas que lhe chegam não têm o melhor destino. É muito. Deste modo, e reconhecendo que as capacidades individuais de Hulk podem ajudar o colectivo, há que tentar explorá-las o melhor possível e de forma a que essas capacidades prejudiquem o menos possível o colectivo. Como se comprova também pelo estudo, a sua capacidade de desequilibrar é especialmente útil nas faixas, com espaço, e quando não tem de rodar sobre si próprio para progredir. As duas vezes em que o seu poder de arranque conseguiu criar estragos na defesa contrária foi junto às linhas (se exceptuarmos o lance do golo falhado, em que há uma clara desatenção da defesa adversária e em que Hulk é lançado em profundidade). Deste modo, vemos que não só as suas qualidades são potenciadas junto às linhas como é nesse local que a sua fraca capacidade de decisão poderá prejudicar menos a equipa. Se há coisa que este estudo veio demonstrar é que Hulk deve participar o menos possível na manobra ofensiva da equipa, procurando isolar-se do colectivo o mais possível de modo a ter, quando receber a bola, espaço e margem de erro para tentar desequilíbrios individuais. Era isto que, por exemplo, fazia Quaresma, em tudo idêntico ao brasileiro (ainda que menos mau a decidir), quando ficava aparentemente perdido encostado a um flanco. Às vezes, podia passar ao lado do jogo, mas não só não era um elemento nocivo no ataque da equipa como também constituía uma opção constante para as transições ofensivas da mesma. Ora, um jogador deste tipo não pode jogar enfiado entre os centrais; um jogador que em 73% das bolas que recebe de costas não a dá de frente não pode jogar como ponta-de-lança, sob pena de a equipa não poder contar com o apoio vertical que um jogador na sua posição normalmente oferece. Outra coisa que o estudo vem comprovar é que Hulk não está, como se vinha dizendo, melhor em termos de compreensão de jogo. A insistência em virar-se para a baliza adversária, sempre que recebe a bola de costas, sabendo que a probabilidade de ter um adversário à ilharga é grande, chega a ser de principiante; a quantidade de bolas que perde é assustadora; a quantidade de faltas desnecessárias um abuso. Hulk não melhorou em nada desde que chegou ao nosso campeonato a não ser em confiança. Está hoje um jogador mais confiante e com muito mais liberdade para errar. Mas a sua capacidade de decisão permanece imutável. E permanecerá sempre, ao contrário do que se pensa. Isto porque uma coisa é melhorar a nível táctico, em termos de compreensão de jogo, de experiência, de confiança, outra coisa muito diferente é melhorar em termos intelectuais. E essa mudança é tão lenta quanto uma mudança ao nível técnico, por exemplo. E a razão é simples. São coisas que se aprendem vagarosamente, com o decorrer dos anos. Hulk é isto e será só isto. Agora, é possível retirar algum proveito disto, reconhecendo-se as limitações que isto tem. Hulk está longe de ser o melhor jogador do campeonato, como parecem querer fazer dele, à força, porque embora, de facto, seja fortíssimo quando arranca com a bola, não só não executa estas iniciativas com conta, peso e medida, como, na grande maioria das vezes as mesmas acabam por significar perdas de bola ou ataques inconsequentes. Correndo o risco de tecer uma afirmação aparentemente paradoxal, para que Hulk seja o mais útil possível ao colectivo tem de colaborar o menos possível com ele, ocupando uma posição expectante na grande maioria do tempo. Nessa altura, poder-se-á tirar todo o proveito dele e, aí sim, falar dele como um jogador ao nível de Lucho ou Lisandro.
O jogo foi o Benfica-Vitória de Setúbal, do passado fim-de-semana; o espécime em estudo, Carlos Martins. Antes da descrição dos lances e das conclusões, dizer que terá sido dos jogos menos positivos de Carlos Martins, o que em parte se deveu à falta de apoios perto de si.
1 minuto: Mau passe. (Saída de jogo para o Benfica e Martins, como consequência de um lance estudado, tenta lançar em profundidade um dos avançados do Benfica; o passe é interceptado.)
1 minuto: Boa opção. (Sofre falta no grande círculo a tentar proteger a bola.)
1 minuto: Boa opção. (Apertado, roda e joga de frente no apoio.)
2 minutos: Boa opção. (Passe curto a solicitar Jorge Ribeiro)
2 minutos: Boa opção. (No seguimento da jogada, entrega a bola, num passe curto, para Reyes e este cruza.)
2 minutos: Boa opção. (A bola sobra novamente para Martins, que por sua vez faz um passe vertical para Cardozo, que se encontra a entrada da área.)
3 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a posse de bola.)
4 minutos: Bate canto. (Canto tenso, ao segundo poste; Cardozo por pouco não consegue cabecear.)
5 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a posse de bola.)
6 minutos: Boa opção, embora arriscada. (Passe vertical para Reyes (opção arriscada).)
7 minutos: Mau passe. (Lançamento em profundidade a solicitar Suazo. A opção (tentava apanhar desprevenida a equipa do Vitória de Setúbal, visto que esta estava em transição ofensiva quando perdeu a possse de bola) era correcta, mas o passe saiu demasiado longo.)
8 minutos: Lance dividido. (Perde uma disputa pela bola.)
10 minutos: Boa opção. (Passe de primeira para o jogador que lhe estava a dar cobertura (apoio).)
10 minutos: Boa opção. (Tabela com Reyes e falta sofrida no seguimento da mesma jogada.)
11 minutos: Bate livre. (Bate livre curto, a meio do meio-campo ofensivo.)
14 minutos: Lance dividido. (Perde lance em bola dividida.)
14 minutos: Mau passe. (Passe transviado para Maxi Pereira.)
15 minutos: Mau passe. (Passe transviado.)
15 minutos: Participação na recuperação de bola. (Participa de forma decisiva na recuperação da posse de bola, pressiona o adversário de forma a que a bola sobre para Reyes.)
16 minutos: Bate livre. (Livre directo frontal de meia-distância; obriga Pedro Alves a defesa apertada.)
17 minutos: Bate canto. (Deste canto resulta jogada de perigo para a baliza sadina.)
20 minutos: Boa opção. (Passe vertical para Suazo.)
21 minutos: Boa opção. (Passe lateral a solicitar Katsouranis.)
23 minutos: Faz falta. (Falta cometida a meio-campo, com o intuito de parar o contra-ataque adversário.)
23 minutos: Mau passe. (Boa opção no passe para Suazo, mas este é interceptado.)
24 minutos: Remate. (Remate à entrada da area, defesa apertada de Pedro alves.)
26 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vítor.)
27 minutos: Boa opção. (Passe lateral a solicitar Maxi Pereira.)
29 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.,)
29 minutos: Boa opção. (Dribla adversário e faz passe vertical para Cardozo.)
30 minutos: Bate livre. (Livre lateral, batido de forma tensa; obriga Perdo Alves a socar a bola.)
31 minutos: Bate canto. (A defesa sadina corta sem dificuldade.)
32 minutos: Boa opção. (Envolvimento com Amorim. No seguimento da jogada proporciona cruzamento a Amorim com um toque de calcanhar.)
33 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Maxi Pereira.)
33 minutos: Mau passe. (Passe transviado.)
34 minutos: Mau passe. (Passe precipitado, sem olhar. No entanto não possuia apoios e a bola vinha pelo ar, pelo que se torna injusto crucificá-lo por não ter arriscado ficar com ela.)
40 minutos: Perda de bola. (Tentou desenvencilhar-se de um adversário, mas não conseguiu.)
43 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.)
43 minutos: Má opção. (Apesar de ter acabado de recuperar a bola, precipita-se e perde-a novamente.)
45 minutos: Remate. (Remate à entrada da àrea, bate num adversário, e ganha canto.)
46 minutos: Bate canto. (Sem perigo.)
Primeira parte em que o benfica demonstrou grandes dificuldades, quer no processo ofensivo (vivendo sobretudo de movimentos individuais dos seus jogadores). No processo defensivo, revelaram dificuldades, consentindo muito espaço entre linhas.
46 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Maxi Pereira.)
47 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vitor.)
48 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Jorge Ribeiro.)
49 minutos: Boa opção. (Tabela com Maxi; no seguimento deste lance, o uruguaio sofre falta.)
49 minutos: Bate livre. (Bate tenso ao primeiro poste; Katsouranis não consegue desviar com sucesso.)
54 minutos: Perda de bola. (Perde a posse de bola ao tentar desembaraçar-se de um adversário.)
54 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola e entrega curto.)
56 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Jorge Ribeiro.)
56 minutos: Boa opção. (Na sequênca da jogada, tabela com Reyes.)
56 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vítor.)
57 minutos: Cruzamento. (Cruzamento interceptado por defesa sadino.)
58 minutos: Sofre falta. (Sofre falta na zona de meio-campo.)
61 minutos: Faz Falta. (Falta inteligente.)
64 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.)
64 minutos: Má opção. (Na sequência da jogada, perde a bola.)
Coloquei em negrito aquilo que de negativo Carlos Martins fez. Vamos às conclusões:
1) 55 acções durante o tempo em que esteve em campo; 44 acções positivas; 80% de acções positivas. 2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 25 boas acções contra 10 más acções; 71% de boas acções. 3) Destas 10 más acções, só 4 foram resultado de más opções, sendo que as restantes 6 foram más execuções. 4) Embora destas 4 más opções tenham resultado 4 perdas de bola, Carlos Martins recuperou 6 bolas e participou activamente, pelo menos, em mais uma, que acabou por sobrar para Reyes. Se o índice de perdas de bola não é tão baixo quanto desejável, já as recuperações confirmam, de certo modo, além da entrega ao jogo (também confirmada pelas estatísticas oficiais, segundo as quais foi dos jogadores que mais correu) uma clara capacidade de se integrar em processos defensivos, desmentindo outra coisa que também, muitas vezes, lhe é apontada. 5) Efectuou 21 passes correctos contra 9 passes errados; 70% de passes acertados. Tem sido dito que Carlos Martins não lateraliza e não joga para trás, com segurança, preferindo invariavelmente solicitar os companheiros da frente e querendo sistematicamente fazer o último passe, mas a verdade é que, destes 30 passes, 22 foram para trás, para o lado, ou passes curtos, quer em tabelas, quer de segurança relativamente alta, e só 8 foram passes em progressão, sendo que 5 deles foram passes verticais, rasteiros, cujo grau de risco é pouco elevado. Ainda assim, contando apenas os primeiros, temos que Carlos Martins fez 73% de passes de baixo risco, o que invalida, de certo modo, a teoria de que perde demasiadas bolas tentando fazer coisas que não são para ele, assim como prejudica os ataques da equipa querendo saltar etapas. 6) Raramente recorreu ao drible, usando-o, ainda assim, só em último caso, tendo sido bem sucedido 1 vez e mal sucedido 2 vezes. 7) Sofreu 3 faltas e cometeu 2. 8) Fez 3 remates, sendo que um deles foi de livre. 9) Foi dos jogadores que mais se preocupou em dar apoios perto dos seus colegas, respeitando não só o colega que tinha a bola como o princípio da posse de bola como nenhum outro, tentando ao máximo atenuar a falta de ligação entre sectores, bem como a distância larga entre elementos. Esteve muito bem, neste aspecto, revelando uma cultura táctica e uma noção das necessidades ofensivas da sua equipa bem acima da média. 10) Dizer ainda que, apesar de não possuir dados estatísticos que o comprovem, leva-me a intuição a afirmar que Ruben Amorim, o tal jogador que tem sido tão elogiado (e com razão) pela forma como equilibra a equipa à direita, perdeu, neste encontro, mais bolas que Carlos Martins, tomando igualmente mais vezes a opção errada. Tendo em conta que a distinção que tem sido feita entre os dois é que Ruben Amorim, ao contrário de Carlos Martins, confere mais segurança aos processos da equipa e não arrisca tanto, este dado não deixa de ser curioso.
O jogo é o Portugal-França, na categoria de sub-21, a contar para o Torneio da Suécia. Em estudo, a exibição de Pelé, um dos novos ídolos, juntamente com o Gato das Botas e a Padeira de Aljubarrota, dos relvados portugueses. De referir, antes de começar, que Pelé esteve, na minha opinião, uns furos acima do que é normal, não abusando tanto do passe comprido, por exemplo. Isto deve-se, em parte, à forma como a equipa francesa defendeu, nunca pressionando em cima e fechando-se lá atrás, obrigando Pelé a passes mais laterais e recuados.
1 minuto: Má opção. (Recebe e dá em Manuel Fernandes, embora tivesse tido tempo para virar o flanco e pudesse, com isso, descongestionar o jogo.)
1 minuto: Boa opção. (Recebe um lançamento e entrega a Manuel da Costa.)
2 minutos: Falta. (Faz falta sem necessidade.)
5 minutos: Má opção. (Tenta driblar, perde, mas recupera graças ao porte atlético.)
6 minutos: Boa opção. (Dá atrás depois de receber.)
6 minutos: Má opção. (Drible arriscado no meio-campo que, por acaso, sai bem, havendo porém o perigo de, perdendo a bola, a França criar uma situação de superioridade numérica que era desnecessária.)
7 minutos: Mau passe. (Mau passe para a ala, a permitir a recuperação francesa.)
7 minutos: Recuperação de bola. (Recupera uma bola depois do jogador francês a adiantar em demasia.)
10 minutos: Mau passe. (Passe longo, na direcção de um francês.)
10 minutos: Má opção. (Tentativa de passe longo que acaba nas mãos do guarda-redes adversário)
15 minutos: Recuperação de bola. (Intercepta um passe e dá em Manuel Fernandes.)
15 minutos: Sofre falta. (Sofre falta à saída da grande-área, ao proteger a bola, após um ataque perigoso dos franceses.)
16 minutos: Mau posicionamento. (Demasiado subido no terreno, a permitir espaço entre linhas.)
18 minutos: Boa opção. (Devolve atrás.)
21 minutos: Mau passe. (Tenta pisar a bola, mas falha; o jogador francês escorrega e ele recupera, entregando depois mal a bola, obrigando Antunes a dividir a bola com um adversário.)
22 minutos: Mau posicionamento. (Novamente adiantado, concedendo muito espaço nas suas costas e entre os centrais.)
23 minutos: Boa opção. (Dá em Manuel da Costa.)
23 minutos: Boa opção. (Recebe e dá em Paulo Machado.)
25 minutos: Mau posicionamento. (Estando demasiado avançado, permite espaço entre si e os centrais, que Manuel da Costa tenta preencher, avançando ligeiramente; como Nuno André Coelho não acompanha, um lançamento longo apanha o avançado gaulês nas costas do defesa português, não sendo golo por manifesta falta de calma do francês.)
25 minutos: Boa opção. (Dá em Paulo Machado.)
25 minutos: Mau passe. (Executa um passe com demasiada força e para Bruno Gama, que não teria boas condições para receber a bola.)
26 minutos: Boa opção. (Devolve a Manuel da Costa.)
28 minutos: Mau remate. (Apesar de a opção não ser necessariamente má, o remate é francamente mau.)
30 minutos: Perda de bola. (Depois de a bola ter sobrado para uma zona de ninguém, tenta ganhar uma bola em habilidade, pisando-a, mas fá-lo de forma lenta e um francês rouba-lha.)
31 minutos: Boa opção. (Recebe, roda e dá em Manuel Fernandes.)
34 minutos: Boa opção. (Tabela com Manuel Fernandes, que no entanto estica demasiado o passe e o lance perde-se.)
39 minutos: Boa opção. (À entrada da área, tenta arranjar espaço para o remate; não consegue e dá para o remate de Paulo Machado.)
40 minutos: Boa opção. (Devolve a Nuno André Coelho.)
41 minutos: Ultrapassado. (É ultrapassado no um para um com relativa facilidade.)
42 minutos: Mau posicionamento. (Novamente muito subido, permite que apareça um adversário na sua zona, à entrada da área, a rematar completamente à vontade.)
44 minutos: Boa opção. (Recebe e dá em Manuel Fernandes.)
45 minutos: Má opção. (No meio-campo, com a selecção gaulesa a perder uma bola em transição e podendo jogar de forma mais cautelosa, efectua um passe longo para Edinho; este quase consegue chegar antes do guarda-redes, mas apenas porque a bola se afasta da baliza, obrigando o guarda-redes a percorrer um espaço maior.)
45 minutos: Má opção. (Com a equipa francesa descompensada, recebe uma bola de Antunes, podendo rodar o jogo para a direita, esticando-o, mas prefere fintar, voltar ao meio, perdendo a hipótese de uma transição rápida e permitindo à selecção francesa que se reorganizasse defensivamente.)
48 minutos: Boa opção. (Dá em Paulo Machado.)
51 minutos: Mau passe. (Passe sem nexo para o centro da defesa francesa.)
51 minutos: Ultrapassado. (É ultrapassado em velocidade por um adversário, junto à linha.)
55 minutos: Mau posicionamento. (Com Antunes fora a ser assistido, um dos centrais franceses entra pela esquerda da defesa e, através de um passe recuado, encontra um companheiro que tem tempo para tudo, numa zona que Pelé tinha de, obrigatoriamente, ter ajudado a preencher, coisa que não fez; do lance resulta o primeiro golo da França.)
56 minutos: Boa opção. (Dá para trás.)
58 minutos: Boa opção. (Recebe, tira um adversário e dá em Paulo Machado.)
58 minutos: Bom passe. (Passe vertical para Edinho.)
58 minutos: Ultrapassado. (Vai à queima e é ultrapassado.)
59 minutos: Corte. (Corte para o ar.)
62 minutos: Má opção. (Depois de deixar pregados ao relvado dois adversários, passando no meio deles, decide mal e entrega a bola a um adversário.)
64 minutos: Boa opção. (Entrega a Paulo Machado.)
66 minutos: Boa opção. (Recebe, dá em Manuel da Costa; este devolve a bola e Pelé abre na direita, para João Pereira.)
67 minutos: Corte. (Ganha um lance de cabeça.)
68 minutos: Má opção. (Tenta fazer uso do seu poderio atlético e segurar a bola junto à linha, quando a poderia entregar a um colega, e acaba por perdê-la.)
72 minutos: Boa opção. (Dá para Nuno André Coelho.)
73 minutos: Recuperação de bola. (Recupera uma bola.)
73 minutos: Má opção. (Depois da recuperação de bola, progride no terreno e, de muito longe e sem preparação, tenta alvejar a baliza adversária, quando se impunha que jogasse com um colega.)
75 minutos: Corte. (Corte com a ponta do pé, com a bola a sobrar para Paulo Machado.)
76 minutos: Remate. (Remate contra a barreira, na sequência de um livre indirecto.)
78 minutos: Bom passe. (Passe vertical para Hélder Barbosa.)
78 minutos: Má opção. (Ganha um ressalto; tenta fintar e perde a bola; ganha novamente o ressalto, dribla um adversário mas torna a perder a bola.)
80 minutos: Mau passe. (Mau passe para Tiago Gomes.)
80 minutos: Boa opção. (Recebe no peito e dá para Nuno André Coelho.)
81 minutos: Boa opção. (Entrega a João Moreira.)
81 minutos: Boa opção. (Dá atrás.)
81 minutos: Boa opção. (Dá a Paulo Machado.)
82 minutos: Boa opção. (Abre para João Pereira.)
83 minutos: Boa opção. (Intercepta e dá em Paulo Machado.)
84 minutos: Boa opção. (Entrega a Paulo Machado, recebe novamente e dá a Celestino.)
85 minutos: Bom passe. (Passe a abrir na esquerda, para Tiago Gomes, embora o facto de o lateral esquerdo não ter apoios tenha inviabilizado a jogada.)
85 minutos: Boa opção. (Passa a Hélder Barbosa.)
86 minutos: Mau passe. (Passe vertical para um colega que tinha marcação apertada, resultando numa bola dividida e, depois, perdida.)
86 minutos: Boa opção. (Dá atrás.)
86 minutos: Boa opção. (Recebe, tira um adversário com uma simulação de corpo e entrega bem no meio.)
87 minutos: Boa opção. (Dá para Manuel da Costa.)
87 minutos: Boa opção. (Passe lateralizado para Tiago Gomes.)
92 minutos: Má opção. (Tentativa de passe longo que acaba nas mãos do guarda-redes francês.)
Para melhor se aferirem os resultados, coloquei em negrito as acções negativas de Pelé. Vamos aos resultados:
1) 70 acções durante os 90 minutos; 41 acções positivas durante o jogo; 59% de acções positivas. 2) Em 53 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se portanto os lances de bola parada ou as disputas de cabeça, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 34 boas opções contra 19 más opções; 64% de boas opções. 3) Destas 19 más opções, resultaram 15 perdas de bola, sendo que 9 delas não trouxeram perigo de maior à sua equipa, por terem ido para fora ou parar a zonas recuadas do campo, mas 6 delas provocaram desequilíbrios perigosos, permitindo à selecção francesa iniciar o seu processo ofensivo de imediato e com a selecção das quinas desorganizada defensivamente. 4) Pelé fez 3 cortes, ganhou 1 bola de cabeça e recuperou 3 bolas. 5) Fez 1 falta e sofreu outra. 6) Tentou desembaraçar-se individualmente dos seus adversários por 11 vezes, o que para um médio-defensivo é um exagero. Dessas 11 tentativas, apenas 6 foram bem sucedidas, sendo que, dessas 6, apenas 3 eram a melhor opção na altura. 7) Por sua vez, foi ultrapassado individualmente por 3 vezes. 8) Sendo um tipo que tem marcado golos que todos têm elogiado e que detém um pontapé invejável, fez 3 remates, sendo que 2 deles passaram muito por cima e outro saiu rasteiro e foi embater nos adversários que constituíam a barreira. 9) Passou o jogo todo mal posicionado, mas, em jogadas concretas de ataque francês, causou problemas à sua equipa por 5 vezes, o que, tendo em conta o pouco que os franceses atacaram, sobretudo na primeira parte, é muitíssimo.Desses lances, 1 deu golo da França, outro provocou o avanço de Manuel da Costa e o isolamento do avançado francês, outro permitiu a um francês um remate frontal, à entrada da área, sem oposição, e outros dois permitiram jogadas perigosas. 10) Efectuou 41 passes acertados contra 11 passes errados; 79% passes acertados. Este número revela que 1 em cada 5 passes de Pelé são errados. Não sendo um número muito problemático, tem de se ter em conta o risco dos mesmos. Destes 41 passes acertados, apenas 3 foram de risco elevado, sendo 2 deles passes verticais, pelo chão, que permitiram à equipa jogar entre linhas e 1 deles um passe a rasgar na esquerda. Se tivermos em conta o total dos 52 passes que efectuou, dos quais apenas 10 foram de risco elevado, vemos que apenas 19% dos passes que Pelé fez comportavam um risco elevado. Desses 10 passes de risco elevado, só 3 foram acertados, o que implica que os 79% de passes acertados diminuem drasticamente com o aumento do risco do passe. Assim, Pelé acertou 90% dos passes de risco baixo (38 passes acertados de um total de 42 passes de risco baixo) que efectuou, mas apenas 30% dos passes de risco elevado. Se é verdade que o seu acerto em passes de menor risco deve constituir prova de que conferiu alguma segurança com bola à equipa, não pode deixar de ser relevante que foi mal sucedido 2 em cada 3 vezes que tentava arriscar mais. Ora, tendo em conta o claro insucesso dos seus passes de maior risco, Pelé salvaguardar-se-á sempre que não abusar dos passes de risco elevado. Se é verdade que neste encontro obteve 79% de passes acertados, também é verdade que isso se deveu à percentagem relativamente baixa de passes de risco elevado, 19%. Uma vez que é conhecida a apetência de Pelé pelo risco, é de adivinhar que esta percentagem aumente noutros encontros, contra adversários que actuam de outra forma. Façamos um exercício: com estas contas e com uma percentagem de, por exemplo, 38% de passes de risco, o correspondente ao dobro do jogo de hoje e mais condizente com a apetência dele, Pelé teria, em 52 passes, 20 passes de risco, dos quais acertaria apenas 6; dos restantes 32 passes de risco menos elevado, à percentagem de 90%, Pelé acertaria 29; assim, com uma percentagem de passes de risco elevado nos 38%, Pelé acertaria, em 52 passes, apenas 35 e já não 41; o seu índice de passes acertados desceria de 79% para 67%. Se é evidente que 79% de passes acertados, não sendo uma marca óptima, é uma marca relativamente boa, não deixa de ser menos verdade que, num jogado mais normal de Pelé (como já o demonstrou noutras partidas, gosta de arriscar passes mais longos) esse índice relativamente bom tende a decrescer consideravelmente.
Notas finais: Tendo a equipa portuguesa a bola, Pelé raramente ofereceu linhas de passe aos colegas, andando nestas alturas a passo. Sem bola, quer em missão defensiva, quer ofensiva, foi um desastre, errando em termos posicionais como um principiante. Esta falta de aptidão para oferecer apoios ou para perceber que espaços deve ocupar nas diferentes situações de jogo são, talvez, o seu maior defeito. Sem bola, portanto, fica evidente que Pelé tem graves deficiências. Com bola, durante esta partida, não esteve tão mal como noutras alturas, sobretudo porque optou por não arriscar tanto quanto costuma. Ainda assim, para um jogador na sua posição, abusa de iniciativas individuais desnecessárias e não garante a segurança no passe que se desejaria. Como se não bastasse, não foi (nem é, normalmente), um jogador concentrado, andando a passo em muitas situações em que se exigia uma resposta rápida da sua parte. Esta lentidão de processos agravou-se ainda com a pouca disponibilidade de Pelé para as bolas divididas, coisa que, de acordo com o seu porte atlético, deveria ter facilidade em ganhar. Sabendo-se que Mourinho espera dos seus jogadores, além de inteligência e interesse pelo jogo, concentração máxima, estou em crer que Pelé precisa de modificar muito do seu futebol para entrar nas contas do técnico português.
Ainda sobre este encontro:
1) Um dos comentadores de serviço lembrou-se de comparar Nuno André Coelho a Ricardo Carvalho. O que eu gostava de saber era em que esquina esse indivíduo bateu com a cabeça.
2) A selecção nacional é das mais miseráveis de que me lembro neste escalão. Do onze inicial, aproveita-se um: Carlos Saleiro. O resto são tipos sem potencial, ou com menos potencial do que se diz, ou que pararam de evoluir, embora tivessem um potencial considerável.
3) Manuel da Costa foi repreendido por Rui Caçador e meio país ficou espantado. Foi preciso uma coisa dessas para se perceber que o jogador português é horrível na interpretação dos lances e na forma como abusa em subidas sem nexo, ou em lances individuais, ou em habilidades sem sentido?
4) Hélder Barbosa continua a não ser opção para Caçador. Agora, o melhor extremo português desta idade até já se vê ultrapassado por um ponta-de-lança adaptado... e que ainda por cima não tem idade para jogar nesta selecção. Brilhante!
5) E Fábio Coentrão, não?
6) Os comentadores disseram ainda que Pelé estava cansado, após uma época longa e desgastante. Segundo eles, o internacional português jogara mais de 20 jogos em Itália, tendo-se afirmado na equipa do Inter como poucos esperariam. Ya, ya. Pelé jogou 4 jogos a titular no campeonato, tendo entrado noutros 9. São 13. 496 minutos jogados. Isto é afirmar-se como?