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terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Cabecinha de Mascherano e o Treino de Certas Habilidades

O jogo é o Barcelona-Granada, da última jornada da Liga Espanhola, e o lance ocorre já no final da partida, antes, porém, de o Barcelona chegar à vantagem. O Barcelona não fez um jogo extraordinário, denotando uma vez mais pouca elasticidade, coisa que Tito Vilanova parece não compreender, ao não abdicar do seu 433 rígido, com extremos que servem praticamente apenas para dar profundidade à equipa. Os seus pupilos dominaram a partida, criaram algumas ocasiões de golo, mas não conseguiram desmanchar a defesa do adversário como tão bem o faziam no passado. Tudo melhorou quando Xavi entrou e, sobretudo, quando Tito Vilanova, ao trocar Adriano por Tello, experimentou, pela primeira vez desde que está ao comando da equipa, o 343 losango de Guardiola. Para bem do futebol, seria bom que Tito tivesse percebido aquilo que conseguiu, ao mexer assim no jogo. A partir desse momento, sobretudo, o jogo desenrolou-se praticamente apenas dentro da área do Granada e à saída dela, com o Barça a conseguir muitas combinações curtas em zonas bastante avançadas e a conseguir pressionar muito mais alto. Os últimos 15 minutos foram os únicos que valeram mesmo a pena, e, aí sim, voltou a pairar sobre Camp Nou a aura de Pep Guardiola.

A vitória acabaria por chegar, muito naturalmente, mas não sem que antes a equipa passasse por um susto, no único lance, em todo o jogo, em que, de facto, o Granada podia ter facilmente chegado ao golo. Tito Vilanova e os mais conservadores até poderão concluir que tal ocasião, por ter acontecido precisamente numa altura em que havia menos homens atrás, é consequência do risco que o 343 representa. Estão enganados. Trata-se de um lance de vantagem numérica defensiva, que só por força de um erro individual pôde ter expressão. E erros individuais tanto acontecem em defesas a 3 como em defesas a 4, sobretudo se Mascherano estiver em campo. Confesso que não consigo compreender a admiração que se sente por este argentino, nem o entusiasmo que continua a gerar nalgumas franjas de adeptos, principalmente depois de errar tão flagrantemente e com tanta regularidade. Enfim, continua a haver muita coisa para mudar no jogo. Falemos do lance.


O filme não mostra o que antecede o passe que isola o avançado do Granada, nem permite perceber os comportamentos de Song e de Mascherano, pelo que tenho de descrevê-los. O Granada sai em contra-ataque, com a bola a cair junto à linha, do lado direito. Song, muito bem, acompanha o lance, não caindo no erro de tentar o desarme, até porque o adversário estava praticamente isolado. Mascherano acompanha a jogada de perto, e atrás dele vem um segundo atacante do Granada. Do outro lado, um terceiro defesa do Barça fecha o meio, garantindo a superioridade numérica. Não querendo forçar o desarme, Song obriga o portador da bola a recuar, permitindo a recolocação de Mascherano ao meio, em cobertura, mas o argentino, por qualquer paragem cerebral que me custa a compreender, abranda o passo, esquece a necessidade de ir fazer a cobertura a Song, e permite que o segundo atacante lhe passe nas costas, abrindo a possibilidade ao portador da bola de fazer o passe entre Song e Mascherano. É precisamente aí que o filme começa, e quem o veja pode até pensar que Mascherano chega atrasado para cortar essa linha de passe. Não é verdade. Mascherano pensou foi noutra coisa, e não compreendeu o que o lance exigia dele, permitindo que uma jogada completamente controlada, de 2 atacantes para 3 defesas, se transformasse de repente numa jogada de 1 para 0.

Que Mascherano tem dificuldades a interpretar lances de futebol já não deve ser novidade para ninguém. Aquilo de que me apetece falar, contudo, é de uma ideia geral de treino segundo a qual se acredita que os jogadores aprendem pelo treino a corrigir as suas capacidades interpretativas. Acredito que o treino pode melhorar muita coisa (capacidades técnicas, físicas, tácticas, etc.), mas sempre duvidei da capacidade do treino para melhorar um certo tipo de capacidades muito específicas, e que tem sobretudo a ver com a leitura de lances não-padronizados. Ou melhor, até posso aceitar que o treino possibilite essa melhoria, mas nunca a curto ou médio prazo, e somente mediante um tipo de treino muito diferente daquele em que a esmagadora maioria dos treinadores acredita. Quando digo a esmagadora maioria, não estou a exagerar; é mesmo a esmagadora maioria. Os defensores daquilo a que se convencionou chamar "periodização táctica", por exemplo, gostam de acreditar que são a vanguarda do treino, que são aqueles cuja metodologia é a mais moderna possível. Mas qual é a grande mais-valia da periodização táctica? A capacidade de mecanizar comportamentos colectivos contextualizados, mediante uma ideia de treino por tentativa e erro. O problema é que isso, não obstante a diferença para outras metodologias mais antigas, não contempla nem um décimo das situações de jogo que um jogador encontra. Por tentativa e erro pode-se ensinar um jogador a comportar-se em muitas situações típicas, mas não se pode ensinar um jogador a interpretar situações atípicas. E o problema é que o futebol é um jogo essencialmente de situações atípicas. É sobre isto que falta reflectir. De que modo poderia um treinador ensinar a Mascherano que, naquela situação, deveria ter ido proteger rapidamente as costas de Song, garantindo a permuta de funções, e inviabilizando um passe para as costas da linha defensiva? Com que exercícios de treino é que, repetindo-os muitas vezes, o argentino ficaria preparado para responder melhor a esta situação? A resposta é fácil: com nenhuns! A interpretação não é uma habilidade como as outras, e não pode ser cultivada do mesmo modo que as outras o são. Nenhuma metodologia convencional de treino (e, sim, a periodização táctica, não obstante as diferenças significativas para modelos de treino mais primitivos, é uma metodologia convencial, pela simples razão de entender o jogo exactamente do mesmo modo que os outros modelos o entendem, ou seja, como um jogo de situações típicas como o basquetebol, o voleibol, o andebol, ou o futsal) é capaz de trabalhar, a breve ou a longo prazo, as habilidades interpretativas. Para que um jogador melhore as suas habilidades interpretativas (isto é, no fundo, a sua decisão em lances para os quais o treino não o mecanizou, ou seja, lances que não exigem respostas tipificadas), tem primeiro de compreender o jogo, de compreender aquilo que a cada momento é o melhor a fazer. Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades. Um tipo de treino assim não tem propriamente uma metodologia própria, à qual vem filiado; tem, isso sim, uma concepção do jogo de espécie diferente, uma concepção do jogo que nenhum dos outros tipos de treino, sejam os mais tradicionais, seja os mais modernos, tem, e que consiste em entender o jogo, em termos teóricos, de modo completamente distinto e inovador.  

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Melhor Equipa do Mundo

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho eliminou o Barcelona, publicou o Entre Dez um texto em que defendia a equipa blaugrana. Não o fez por despeito, mas porque, apesar da eliminação, a equipa manteve a sua identidade, a sua honra, e jogou o melhor que pôde, não vencendo apenas por manifesta falta de sorte. Hoje, após a eliminição ante o Chelsea, repete-se o exercício. No final do jogo, as estatísticas deram 27% de posse de bola ao Chelsea. As estatísticas estão erradas. Desconheço quais os critérios para medir a posse de bola, mas o Chelsea não teve nem 20% de posse. Como é óbvio, a posse de bola não justifica nada, e muitos poderão dizer que o Barça não soube materializá-la em oportunidades. Mas isso também é falso. O Barcelona teve, nada mais, nada menos, do que oito oportunidades claras de golo, ao longo do jogo. Os postes, Petr Cech, e a sorte, protegeram o Chelsea.

Ao longo da partida, Luis Freitas Lobo foi gabando a estratégia do Chelsea. Há cinco anos, Luís Freitas Lobo percebia qualquer coisa de futebol. Hoje em dia é acéfalo. Não sei o que terá acontecido entretanto, mas a verdade é que não sabe o que diz. Há-de haver uma explicação clínica. Aliás, quando o Barcelona fez o primeiro golo, disse Luís Freitas Lobo que estava reposta a lógica na eliminatória. Como é que ele pode dizer isso, quando defendeu que o Chelsea tinha merecido o resultado da primeira mão? Luís Freitas Lobo diz aquilo que os resultados exigem que diga. Se o Barcelona tivesse marcado mais do que o Chelsea, diria que o Barcelona jogou bem, e que vencera a eliminatória quem mais merecera. Como não foi o que aconteceu, foi o Chelsea que mais mereceu. Repito: isto é conversa de gente com problemas na cabeça. Os resultados são o que são, mas nem sempre espelham o que se passa em campo. E o que se passou em campo, nesta eliminatória, foi que o Barcelona esmagou o Chelsea. "Estratégia" é saber defender para atrair o adversário, e depois lançar os ataques. Defender com nove jogadores dentro da área não é "estratégia". É fé. E, às vezes, porque o jogo dá-se a isto, a fé pode vencer a competência. Foi o que aconteceu. Em condições normais, o Barcelona venceria a eliminatória com a facilidade com que venceu o Bayer Leverkusen. Acontece que, juntando-se várias anormalidades (13 oportunidades claras de golo, e apenas 2 golos; 4 bolas nos postes; 3 oportunidades de golo do adversário e 3 golos sofridos; erros de Mascherano), uma eliminatória em que uma equipa esmagou a outra acabou por permitir que a equipa esmagada passasse à final. Pode acontecer. Não é muito normal, mas pode acontecer.

Há que notar que, assim que Fernando Torres marcou o golo do empate, que punha um ponto final na eliminatória, os adeptos entoaram, em coro, o hino do Barcelona. Não sei se não será algo inédito num campo de futebol. Desconfio que sim. É costume dizer que, em Inglaterra, os adeptos aplaudem a equipa mesmo quando esta perde. Isso acontece principalmente porque os adeptos são, na sua grande maioria, estúpidos. Aplaudem porque notam que a equipa se esforçou. Não reparam que, apesar do esforço, jogaram miseravelmente. Hoje, em Camp Nou, os adeptos aplaudiram por outra razão. Aplaudiram porque o orgulho na sua equipa é tanto que supera a frustração de não marcar presença na final de Munique. Isso é inédito. E só podia ser alcançado num clube com um projecto deste tipo, e com um modelo de jogo que, mesmo nos jogos em que o resultado não é favorável, deixa a certeza de que se jogou o melhor que era possível. Hoje, o Barcelona foi derrotado, principalmente porque o futebol permite que o melhor seja derrotado. Mas venceu de outra maneira, novamente. E é por ter vencido dessa maneira que é seguro que seja novamente o principal favorito a conquistar o troféu na época seguinte. Sim, o Barcelona não vai revalidar o título de campeão europeu. Mas continua a ser a melhor equipa do mundo. De longe.

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho derrotou o Barça, apontaram-se defeitos à equipa, apontaram-se erros a Guardiola, etc.. O Entre Dez optou por outro discurso, o mesmo por que opta agora. O Barcelona perdera porque, mesmo sendo o melhor, às vezes perde-se. A terceira época de Guardiola mostrou que tínhamos razão. Apesar de ter sido derrotado, continuava a ser a melhor equipa do mundo, e continuava a ser a equipa que melhor jogava, e que melhores condições reunia para ganhar as competições que disputava. Hoje, que se repetiu o azar de o Barcelona não passar à final da Liga dos Campeões, repetem-se as razões, e repetem-se as nossas previsões. Trata-se da melhor equipa do mundo, da única equipa de que tenho conhecimento que conseguiu aterrorizar o mundo do futebol. Para mim, por exemplo, este é o melhor ano, em termos de qualidade de jogo, da era Guardiola. Aceito que, defensivamente, a equipa não tem estado tão bem como já esteve, embora muito por culpa pelas ausências sistemáticas de Piqué e Abidal. Mas, ofensivamente, foi o ano em que a equipa melhor jogou. Duvido que a maioria das pessoas que me lêem consigam perceber o que digo, sobretudo porque a equipa não vai ganhar o que ganhou noutros anos, mas é assim que penso. Em termos de jogo, a equipa aprendeu a desenvencilhar-se de situações mais difíceis, e tornou-se ainda mais confortável a jogar da maneira que joga. Se, noutros anos, havia equipas que conseguiam dificultar o trabalho aos jogadores catalães, este ano não houve uma única que o conseguisse.

E o Real Madrid, no passado fim-de-semana? Tenho lido várias coisas acerca do jogo de Camp Nou que o Real ganhou, e continuo sem perceber a análise das pessoas. O Real ganhou como o Chelsea ganhou: porque teve sorte. E a sorte, por vezes, protege quem menos faz por ela. Era difícil de prever que o Barça tivesse azar três vezes seguidas, mas aconteceu. Teve azar, e teve o Mascherano em campo. A primeira oportunidade do Real Madrid, no sábado, foi a do segundo golo, aos 70 e tal minutos. Depois, tem outra mesmo a acabar, numa altura em que, aí sim, já havia algum desnorte dos catalães. O Barcelona, mesmo não tendo jogado bem, teve 4 oportunidades flagrantes de golo (uma de Dani Alves, uma de Xavi, e duas de Tello). Somando isso ao facto de os dois golos do Real terem sido precedidos de falta (para não falar no fora-de-jogo no primeiro golo), como é que se pode ser hipócrita ao ponto de dizer que o Real venceu de forma justa e foi a melhor equipa em campo? Ou estão mal habituados, tanto é o domínio dos catalães, ou são, pura e simplesmente, desonestos. Guardiola e Iniesta têm razão no que dizem: o Barcelona não jogou tão bem como é costume, é verdade, mas ainda assim foi superior ao Real Madrid e foi a equipa que mais fez por vencer. A haver um vencedor justo, esse tinha de ser, obviamente, o Barcelona. Mas, como o futebol não se faz de justiça, o Real ganhou. Como hoje o Chelsea ganhou. Acontece.

Por fim, gostaria ainda de falar de Mascherano. Tenho batido na mesma tecla, mas acho que tenho de fazê-lo novamente. Mascherano já tinha sido o responsável no golo sofrido frente ao Milan. Frente ao Chelsea, foi o responsável directo pelos dois golos (não conto o de Fernando Torres, que ocorre numa altura em que o Barça tentava tudo por tudo para apertar o cerco ao Chelsea). Em Stamford Bridge, reage mal ao lance e invade o espaço de Puyol, em vez de oferecer uma cobertura, e quando se apercebe não se reposiciona bem, não cortando a linha de passe possível para Didier Drogba. Em Camp Nou, é ele quem sai da sua posição para ir perseguir Lampard até à linha de lateral, abrindo um buraco desnecessário no centro da defesa que Busquets não conseguiu cobrir a tempo. Frente ao Real, é ele quem falha a cobertura no lance de Ronaldo. É verdade que Adriano vai fechar ao meio quando tinha Busquets ao seu lado, melhor posicionado para o fazer, e isso permite que a bola entre em Ozil. Mas, indo a bola para a linha, Mascherano só tinha que bascular. Além de não perceber o que Ozil ia fazer, que era óbvio, estava praticamente a meio do meio-campo, a mais de 20 metros de Busquets, que é quem sai ao alemão. Se, no meio-campo, é o que é, a defender, por ter menos bola, sempre pareceu o argentino um estorvo menor. O que é certo é que, a jogar com três defesas, a equipa fica mais exposta, e as carências intelectuais de Mascherano mais visíveis. O Barcelona também pagou por isso, e é bom que Guardiola o perceba. Aliás, com Piqué em campo, desconfio que o Barcelona estaria neste momento na final de Munique, e o Real em pânico por estar com um ponto apenas de avanço no campeonato. Às vezes, também é tão simples quanto isto.

Quando se fala, por isso, em passagens de testemunho, e em mudanças de ciclo, apetece dizer às pessoas para terem juízo. Quando virem uma equipa a ser capaz de vergar outra como o Barcelona faz sistematicamente com os seus adversários, ou quando virem uma equipa a ser, por pouco que seja, superior aos catalães no terreno de jogo, aí, sim, atirem foguetes. É que, até à data, o Barcelona ainda só perdeu competições por questões acidentais, e ainda não jogou um único jogo, com quem quer que seja, em que se pudesse dizer honestamente que o adversário foi superior. Há coisas que têm de ser revistas, nomeadamente o reforço do sector defensivo, mas não tenho dúvidas de que a equipa de Guardiola continuará a ter a hegemonia que teve até aqui. E é sobretudo disso que se trata, quando se defende esta maneira de jogar. É que, mesmo perante dois ou três desaires sucessivos, fica sempre a sensação de que é impossível acontecer muitas mais vezes o que aconteceu esta semana.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os Erros de Mascherano

Mascherano diz-se feliz por fazer parte da História, e tem razões para isso. Afinal, se não fosse por ele, talvez o Milan nunca reentrasse no jogo. É inegável que o golo de Nocerino nasce depois de um bom trabalho de Robinho, e de uma excelente assistência de Ibrahimovic. Mas será que a bola chegaria a Nocerino em boas condições de finalização se todos se tivessem comportado adequadamente? Não. E quem falhou foi precisamente Mascherano. Para muitos, o que digo pode ser trivial, pois são capazes de perceber que é o argentino quem coloca em jogo o italiano, no momento do passe de Ibrahimovic. Mas os erros de Mascherano no lance não se limitaram à forma desajustada como respondeu ao mesmo na altura do passe decisivo.


szólj hozzá: BAR

A meu ver, o erro de Mascherano começa bem antes, ao abordar a recepção de Robinho, a meio do meio-campo defensivo, de forma imprudente. O brasileiro estava de costas, rodeado por adversários, sem apoios por perto, e o comportamento correcto consistiria em obrigá-lo a jogar para trás. Mascherano, porém, não é um jogador inteligente neste tipo de abordagem. Para muita gente, tem características defensivas óptimas, pois é muito agressivo, "morde" constantemente os calcanhares aos adversários, etc. Mas também para se ser competente defensivamente é preciso decidir bem. E, muitas vezes, ao contrário do que se pensa, a melhor decisão do jogador que sai ao portador da bola passa por não lhe querer roubar a bola. Este é um bom exemplo. O que Mascherano deveria ter feito, já que foi ele que saiu para ocupar o espaço central, era ficar em contenção, esperar que Dani Alves e Messi bloqueassem a possibilidade de passe lateral a Robinho, e "forçar" a que o brasileiro voltasse para trás. Mascherano não ficou em contenção, procurou ir para cima de Robinho para desarmá-lo, e foi "comido" com toda a facilidade do mundo. Ingenuamente, o argentino ficou batido e Robinho com o espaço central para progredir. Estava criada a superioridade. O lance acabou como acabou, mas poderia ter acabado com uma simples tabela com Ibrahimovic. Não satisfeito ainda com isso, Mascherano ainda viria a colocar Nocerino em jogo, não respeitando (quase que pornograficamente, tantos foram os metros) a linha defensiva que os seus colegas tinham delineado. Dois erros graves que foram decisivos para que o Milan empatasse a partida e para que, mais tarde, se argumentasse que houve um momento em que a eliminatória parecia pender para o lado italiano. Após quase dois anos, Mascherano continua a não perceber o que é jogar nesta equipa, e continua a ser o elo mais fraco de um conjunto muito acima da média. Mesmo não jogando na sua posição de origem, onde este tipo de comportamentos errados, aliados à sua incapacidade, em posse, para perceber os espaços certos onde a bola deve entrar, seriam ainda mais prejudiciais à equipa, Mascherano continua a ser um corpo estranho neste modelo de jogo. E ontem, de facto, ia entrando na História, mas pelas razões erradas.

Entretanto, a final de Munique começou a ser jogada logo após a partida, e já houve responsáveis madrilenos a aproveitar-se das queixas italianas (absurdas, diga-se) para preparar o eventual embate frente ao Real. As jogadas de bastidores deram resultado no passado, e são a arma mais forte até hoje apresentada pela equipa de Mourinho para parar a equipa catalã, pelo que seria natural que tal acontecesse. Quanto aos casos de arbitragem, e àqueles que se insurgiram de imediato contra o alegado favorecimento aos catalães, repete-se a história do monstro a que já muitas vezes aludi. Não me lembro de outra equipa, na História do jogo, que tenha criado tanto medo nas pessoas. Qualquer coisinha, por mais irracional que seja, serve para tentar destruir o monstro medonho em que a equipa de Guardiola se transformou. As pessoas não compreendem esta equipa, não compreendem por que é tão forte, por que não há ninguém capaz de derrubá-la, e querem à força que ela caia. Por causa dessa vontade, repetem imbecilidades. E aproveitam-se de um jogo em que foram assinaladas duas grandes penalidades, coisa pouco comum, para se atirarem ao ar; e aproveitam qualquer lance, por mais claro que seja, para pôr em causa a competência do monstro.

A qualquer uma destas pessoas poderia facilmente fazer recordar as razões de queixa que os catalães tinham na primeira mão. Mas nem vale a pena. É que qualquer dos lances que protestam, no jogo de ontem, foi claramente bem assinalado: qualquer um dos penáltis é claríssimo, sendo que o primeiro só por misericórdia é que não valeu igualmente a expulsão de Antonini; o alegado penálti sobre Ibrahimovic só é penálti na cabeça dos que querem à força que o seja; e o lance em que Robinho fica isolado, de longe o meu preferido, só não vê que a bola foi amortecida nos braços do brasileiro, coisa que o beneficiou, quem não quiser ou por má fé decida não ver. O jogo de ontem teve casos não porque, de facto, os tenha tido, mas porque as pessoas querem à força que os jogos do Barcelona tenham casos. Querem justificar aquilo que não compreendem, e precisam de algo (arbitragens) que lhe confira racionalidade. Se isto já é estúpido no comum adepto, é muito grave num jornalista. A falta de ética profissional de alguns dos jornalistas da Sporttv, no que diz respeito às analises dos jogos do Barcelona, tem-se vindo a acentuar nos últimos tempos, e ontem, após o jogo, atingiu proporções obscenas. Não obstante Luís Freitas Lobo se recusar a comentar a arbitragem, chegando aliás a dizer que ela nunca poderia justificar um jogo tão desnivelado, o jornalista de serviço insistiu, outra e outra vez, procurando forçar a interpretação de que o jogo tinha sido resolvido pelos homens do apito. Apesar de estúpido, a insistência condiciona a opinião do espectador, sobretudo daquele espectador que não tem opinião própria. A ética jornalística não existe apenas porque é giro que exista; existe porque a opinião jornalística influencia a opinião pública e porque o jornalista é um profissional com mais responsabilidades do que o comum cidadão. Num país a sério, depois do exercício de irresponsabilidade profissional de ontem, a carreira deste senhor estaria, no mínimo, em risco. Como não é esse o caso, a demonstração de valores patrióticos no acto de protestar subtilmente contra os rivais dos portugueses em Madrid até fica bem vista. De resto, o jogo esteve sempre controlado pelos catalães, e é quase criminoso dizer, num jogo com aquelas características, que a arbitragem desempenhou um papel importante. Francamente, é preciso ser idiota para ter uma interpretação da partida tão profundamente errada.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mascherano e a Competência de uma Equipa

Mascherano foi o último reforço do Barcelona para esta temporada. Para muitos, é um dos melhores médios defensivos da actualidade e traz ao Barcelona uma agressividade e uma capacidade de recuperação invulgares, sendo por isso natural o interesse que o clube catalão depositou no jogador. Não partilho desta ideia. E vou mais longe. Nem sequer compreendo esta aquisição. Faria sentido em qualquer outro clube do mundo. No Barcelona de Guardiola, simplesmente não faz.

Mascherano é um jogador de grande utilidade defensiva, um atleta incansável, com uma capacidade de luta pouco vulgar. É, além de tudo isto, um jogador de passe fácil, raramente se aventurando em coisas que não são para ele. Com as suas características, há pouquíssimos jogadores no mundo inteiro com a sua qualidade. O problema é que o Barcelona não faz uso dessas características nem necessita propriamente de um jogador para fazer algo que, habitualmente, faz em equipa. Aquilo em que Mascherano é forte e aquilo que pode oferecer é capacidade de recuperação, agressividade e muita disponibilidade física. Com ele em campo, o Barça ganha maior capacidade de luta. Mas perde muitíssimo mais. Perde critério, qualidade posicional, entendimento do jogo e capacidade de decisão. E, enquanto as primeiras coisas são pouco importantes, uma vez que a equipa funciona como um todo a defender, não necessitando propriamente de um jogador estritamente vocacionado para os momentos defensivos do jogo, a capacidade de decisão do colectivo depende em muito da soma da capacidade de decisão dos seus atletas. E, nesse particular, a permanência de Mascherano em campo é incrivelmente nociva ao Barcelona.

O argentino estreou-se este Sábado, num jogo que o Barcelona acabou por perder, frente ao Hércules. Dificilmente, porque é difícil relacioná-lo aos lances dos golos, haverá quem justifique a derrota catalã com essa estreia. Pois é precisamente o que pretendo fazer. A relação não é directa, isto é, não é nos lances decisivos que quero justificar esta ideia. É antes no que, em termos gerais, significou ter em campo um jogador como o argentino. Mascherano não só não esteve ligado aos golos, como teve intervenções que, aos olhos de muitos, foram boas. Raramente falhou um passe, não comprometeu, esteve relativamente bem posicionado, etc. Estatiscamente, para aqueles que acham que as estatísticas reproduzem fielmente o rendimento de um jogador em campo, Mascherano fez um jogo extremamente positivo. De que modo então é possível, como eu quero fazer crer, que tenha feito um jogo deplorável e, mais do que isso, que tenha tido sérias responsabilidades na derrota dos catalães?

O Barcelona tem no seu plantel um jogador relativamente parecido com Mascherano, embora esteja mais habituado a jogar como médio-ofensivo, ao lado de Xavi, e não como pêndulo defensivo. Esse jogador é Keita. Acontece que, ao contrário de Mascherano, Keita não só leva dois anos de avanço de aprendizagem, não prejudicando tanto a equipa com a sua menor capacidade de decisão, como esgota a sua utilidade nos movimentos verticais e na capacidade que denota em juntar os sectores, fruto da sua excelente recuperação defensiva. Se Mascherano viesse para ser substituto de Keita, utilizado ao lado de um médio criativo e para equilibrar a equipa, menos mal, embora não me pareça tão necessário como isso ter sempre um jogador dessas características em campo, nesta equipa. Mas Mascherano vem para jogar como médio-defensivo, onde sempre jogou, para funcionar como cobertura dos médios mais ofensivos. E, tendo em conta a exigência específica da posição nesta equipa, nem para suplente de Busquets tem categoria, ficando muito aquém, por exemplo, de Yaya Touré, que é o jogador que vem, possivelmente, substituir no plantel.

Ora, foi precisamente como médio-defensivo, no lugar de Busquets, que Mascherano actuou. E, apesar de ter dado praticamente sempre seguimento às jogadas, apesar de não ter falhado praticamente nenhum passe, apesar de se ter conseguido desembaraçar das duas ou três situações complicadas em que se viu envolvido, fez um jogo miserável. A razão? Não percebeu ainda - e duvido que venha a percebê-lo - o que significa jogar nesta equipa e que tipo de competências deve desenvolver. Mascherano optou quase sempre pelo mais simples: jogar para o lado e para trás. Quando não o fez, quando procurou algo diferente, explorou o passe longo, para as alas. Nenhuma destas opções se coaduna com o jogar deste Barcelona. Mascherano não fez um único passe vertical. Repito: um único! E foram várias as vezes em que podia tê-lo feito. Por passe vertical entendo, como já o referi várias vezes, um passe rasteiro, não necessariamente comprido, a explorar um apoio frontal. Este tipo de passe é, nos dias que correm, algo a que pouquíssimas equipas dão importância, mas uma das mais interessantes opções que uma equipa que quer mandar no jogo pela posse de bola tem ao seu dispor. Mascherano preferiu sempre lateralizar ou, quando com espaço, esticar nas linhas. Não é assim que se joga à bola. Lateraliza-se ou joga-se para trás quando não há opções para a frente, quando o adversário fechou bem e a pressão vertical é eficaz. Estica-se nas linhas quando a pressão horizontal do adversário congestionou o jogo de um dos lados, quando há espaço e tempo para a bola chegar em condições a um colega e quando esse colega tem apoios próximos. Mascherano utiliza estas duas opções sem critério, apenas porque entende que ele (repare-se no individualismo da coisa) tem condições para decidir desse modo e executar em conformidade.

Mascherano não pensa o jogo colectivamente. Individualmente, é um dos médios defensivos mais fortes do mundo. Colectivamente, é banal. E o problema de jogar no Barcelona é que pode não chegar ser dos melhores em termos individuais, se não se souber pensar colectivamente. Por não sabê-lo, Mascherano comprometeu sempre o jogo catalão. Nunca procurou o apoio frontal, nunca arriscou um passe vertical, que ganharia metros à equipa, quando um colega tinha perto de si um adversário (coisa que qualquer jogador habituado ao futebol do Barça faz de olhos fechados, sabendo perfeitamente que o colega vai devolver a bola), nunca jogou curto sem ser para o lado, em total segurança. Fez um jogo medroso, não comprometendo com perdas de bola ou com passes falhados, mas comprometendo com más decisões, simplesmente por não decidir pelo melhor. A melhor decisão não é simplesmente a que permite à equipa permanecer com a posse de bola. Se a equipa pode progredir e ultrapassar uma linha defensiva, com um simples passe, jogar para o lado é uma má decisão, ainda que segura. Mascherano teve oportunidades de sobra para fazer evoluir o jogo da sua equipa, mas optou sempre por um passe de menor risco. O Barcelona manteve a posse de bola, mas raramente conseguiu ser incómodo com ela, raramente a conseguiu fazer entrar nas linhas adversárias.

Mascherano nunca respeitou os movimentos de abaixamento do avançado ou do médio mais ofensivo, nunca explorou os movimentos entre linhas dos colegas. Preferiu sempre o passe certo e a bola longa. Com isso, fez do Barcelona uma equipa muito mais previsível. É por isso que as estatísticas individuais objectivas, que contabilizam números de passes e percentagens de passes acertados e fazem disso um critério irrevogável para aferir o rendimento de um jogador, não servem para nada. É que incorrem num erro crasso. O rendimento de um jogador é uma coisa colectiva e não pode ser calculado pela soma objectiva das suas intervenções individuais. Para se aferir o rendimento de um jogador, é necessário perceber o impacto que cada uma dessas intervenções individuais teve no rendimento colectivo. E isso, por mais que o pretendam, não pode ser calculado somando acções contabilizáveis e fazendo contas de algibeira. Mascherano, para aqueles que acham que podem contabilizar o rendimento de um jogador somando-lhe as acções mais visíveis, teria feito um jogo exemplar. Para aqueles que desconfiam disso e sabem que o rendimento é muito mais do que aritmética primária, Mascherano fez um jogo fraco. Foi incapaz de ligar, com bola, a equipa e, muita por sua causa, o Barcelona foi uma equipa demasiado especulativa, demasiado horizontal, demasiado previsível a circular a bola.

É verdade que o argentino saiu ao intervalo e é verdade que o Barcelona não melhorou significativamente. Mas também é verdade que a equipa já se encontrava a perder e tinha necessariamente de fazer as coisas mais depressa, o que conduziu a alguma precipitação. No seu lugar, na segunda parte, jogou Keita, que oferece mais ou menos o mesmo que o argentino, nessa posição. Também por isso, o Barcelona não melhorou substancialmente. O erro de palmatória de Guardiola foi subestimar o Hércules, que além de se ter apresentado muito personalizado, tinha jogadores interessantes na frente. O Barcelona circulou demasiado a bola à roda do bloco defensivo do adversário, não procurando movimentos verticais de penetração. Competia isso, em grande parte, ao médio defensivo, porque era aí que começava a construção blaugrana. Quando esse médio é apenas um pêndulo defensivo, quando não procura ser ele a iniciar os movimentos de ruptura, a equipa fica com menos armas do que habitualmente tem. Que diferença para Busquets! Mascherano tem muito que evoluir, se algum dia interessar a Guardiola que seja útil ao seu Barcelona. No Sábado, apesar da ficha imaculada com que as estatísticas o terão certamente apresentado, Mascherano foi, não só uma nulidade, mas o melhor amigo de um adversário cuja estratégia passava por esperar pelo Barcelona no seu meio-campo, com as linhas muito juntas e quase todos os homens atrás da linha da bola. Quando, em simultâneo com o argentino, coincidiu no onze Adriano, outro dos reforços desta época, o Barcelona jogou com menos dois. E ainda há uns palermas que gostam de falar nas contratações da época passada!