Se a Península Ibérica fosse a América do Sul, Portugal era o Brasil e a Espanha a Argentina, mas não estou a pensar que num lado se fala português e noutro espanhol. As grandes estrelas do futebol português dos últimos anos são jogadores espalhafatosos, artistas que gostam de exibir os seus truques, que gostam de humilhar o adversário, que gostam de picardias, de duelos, que gostam do aplauso do público após um número de circo. Como o jogador brasileiro típico, o jogador português, actualmente, é um brincalhão, um malabarista. O jogador espanhol, por seu turno, é muito mais refinado, mais elegante, não tem um sangue tão quente, e só recorre ao talento por necessidade.
Tanto no Brasil como na Argentina, produzem-se inúmeros talentos. Mas são talentos diferentes. Em Portugal, talvez por influência dos muitos jogadores brasileiros que vêm para o nosso campeonato, talvez simplesmente por uma questão histórico-cultural, os jogadores são cada vez mais parecidos com os brasileiros. Ronaldo e Quaresma são os exemplos mais visíveis: no futebol de cada um deles abunda o sangue quente do jogador brasileiro, o samba, os truques para o público, os penteados extravagantes, a vaidade, etc. Nos actuais talentos espanhóis, não vemos nada disto. Fabregas e Iniesta são senhores de fato e gravata dentro de campo; Torres é uma flecha que sabe usar os pés, mas que só os usa por necessidade; Villa é um lutador incansável. Mesmo os extremos espanhóis são muito mais comedidos que os portugueses: Joaquín, Vicente e Silva são jogadores tecnicamente acima da média, mas o drible, para eles, é apenas um recurso. Raramente encaram o adversário com uma finta premeditada; vão para cima dele e fazem tudo espontaneamente. Nisto, são iguais aos argentinos. É raro vermos um jogador argentino a fazer macacadas com a bola, como o brasileiro ou o português. E o jogador espanhol dos dias que correm é muito parecido com o argentino. Não é por acaso que, a nível de escalões jovens, a Espanha é a maior potência da Europa e a Argentina a maior do mundo. No nosso tempo, a Espanha tem a melhor escola de formação do mundo e - acredito - extrairá, em pouco tempo, dividendos disso mesmo. Aliás, a selecção espanhola é aquela que, para mim, tem mais condições de se sagrar campeã europeia este Verão.
Lembrei-me desta distinção após mais um número notável de Bojan Krkic. O astro do Barcelona é mais um dos muitos grandes jogadores espanhóis que aparecem ao mais alto nível ainda em tenra idade. Fabregas apareceu com 17 anos a jogar na equipa principal do Arsenal e impressionou-me de imediato; no mundial de sub-20 de 2005, Silva era ainda suplente, mas já aí era fácil de perceber o seu enorme talento; Iniesta e Xavi começaram a jogar regularmente na equipa principal do Barcelona ainda muito jovens. Agora, em 2007, aparece este miúdo pequeno, do tamanho da pulga Messi, com pezinhos de lã, mas com uma maturidade fenomenal. É, de origem, avançado e um goleador por excelência, mas Rijkaard tem apostado nele a extremo esquerdo. Tendo em conta a táctica do Barcelona, julgo ser a melhor posição para as suas características. A velocidade e o sentido de oportunidade são notáveis, mas, apesar de ser um avançado, não se fica por aqui. Sempre que precisa, tira adversários da frente como quem estala um dedo, com uma facilidade espantosa. É um prodígio a nível técnico e tem um toque curto como poucos. Entre os seus recursos, conta-se a facilidade com que passa a bola entre as pernas dos adversários. No mundial de sub-17 do ano passado, humilhou alguns. Este ano, no Barcelona, já repetiu a graça por várias vezes. Há duas semanas, a vítima foi um indefeso defesa do Maiorca, num lance que, por acaso, até deu o segundo golo do Barcelona. É admirável o requinte com que o faz. Não há, por certo, ninguém no mundo, neste momento, que o esteja a fazer com mais regularidade e eficácia que este puto de 17 anos.
Resumindo, agrada-me, e muito, a pinta de argentino de Bojan Krkic e antevejo-lhe um futuro extraordinário. De resto, como prefiro, por norma, o jogador argentino ao brasileiro, prefiro, actualmente, o jogador espanhol ao português. Tirando Bruno Pereirinha e Diogo Rosado (e o excelente trabalho da Academia leonina não pode deixar de ser notado), não conheço futuros craques que me entusiasmem como os miúdos espanhóis que vão aparecendo a cada ano. É por isso que, neste momento, tiro chapéu a "nuestros hermanos" e lhes concedo, se não todo, grande parte do meu apoio de adepto de futebol que, muito antes de patriotismos injustificados, torce por quem melhor dignifica o futebol enquanto arte.
Tanto no Brasil como na Argentina, produzem-se inúmeros talentos. Mas são talentos diferentes. Em Portugal, talvez por influência dos muitos jogadores brasileiros que vêm para o nosso campeonato, talvez simplesmente por uma questão histórico-cultural, os jogadores são cada vez mais parecidos com os brasileiros. Ronaldo e Quaresma são os exemplos mais visíveis: no futebol de cada um deles abunda o sangue quente do jogador brasileiro, o samba, os truques para o público, os penteados extravagantes, a vaidade, etc. Nos actuais talentos espanhóis, não vemos nada disto. Fabregas e Iniesta são senhores de fato e gravata dentro de campo; Torres é uma flecha que sabe usar os pés, mas que só os usa por necessidade; Villa é um lutador incansável. Mesmo os extremos espanhóis são muito mais comedidos que os portugueses: Joaquín, Vicente e Silva são jogadores tecnicamente acima da média, mas o drible, para eles, é apenas um recurso. Raramente encaram o adversário com uma finta premeditada; vão para cima dele e fazem tudo espontaneamente. Nisto, são iguais aos argentinos. É raro vermos um jogador argentino a fazer macacadas com a bola, como o brasileiro ou o português. E o jogador espanhol dos dias que correm é muito parecido com o argentino. Não é por acaso que, a nível de escalões jovens, a Espanha é a maior potência da Europa e a Argentina a maior do mundo. No nosso tempo, a Espanha tem a melhor escola de formação do mundo e - acredito - extrairá, em pouco tempo, dividendos disso mesmo. Aliás, a selecção espanhola é aquela que, para mim, tem mais condições de se sagrar campeã europeia este Verão.
Lembrei-me desta distinção após mais um número notável de Bojan Krkic. O astro do Barcelona é mais um dos muitos grandes jogadores espanhóis que aparecem ao mais alto nível ainda em tenra idade. Fabregas apareceu com 17 anos a jogar na equipa principal do Arsenal e impressionou-me de imediato; no mundial de sub-20 de 2005, Silva era ainda suplente, mas já aí era fácil de perceber o seu enorme talento; Iniesta e Xavi começaram a jogar regularmente na equipa principal do Barcelona ainda muito jovens. Agora, em 2007, aparece este miúdo pequeno, do tamanho da pulga Messi, com pezinhos de lã, mas com uma maturidade fenomenal. É, de origem, avançado e um goleador por excelência, mas Rijkaard tem apostado nele a extremo esquerdo. Tendo em conta a táctica do Barcelona, julgo ser a melhor posição para as suas características. A velocidade e o sentido de oportunidade são notáveis, mas, apesar de ser um avançado, não se fica por aqui. Sempre que precisa, tira adversários da frente como quem estala um dedo, com uma facilidade espantosa. É um prodígio a nível técnico e tem um toque curto como poucos. Entre os seus recursos, conta-se a facilidade com que passa a bola entre as pernas dos adversários. No mundial de sub-17 do ano passado, humilhou alguns. Este ano, no Barcelona, já repetiu a graça por várias vezes. Há duas semanas, a vítima foi um indefeso defesa do Maiorca, num lance que, por acaso, até deu o segundo golo do Barcelona. É admirável o requinte com que o faz. Não há, por certo, ninguém no mundo, neste momento, que o esteja a fazer com mais regularidade e eficácia que este puto de 17 anos.
Resumindo, agrada-me, e muito, a pinta de argentino de Bojan Krkic e antevejo-lhe um futuro extraordinário. De resto, como prefiro, por norma, o jogador argentino ao brasileiro, prefiro, actualmente, o jogador espanhol ao português. Tirando Bruno Pereirinha e Diogo Rosado (e o excelente trabalho da Academia leonina não pode deixar de ser notado), não conheço futuros craques que me entusiasmem como os miúdos espanhóis que vão aparecendo a cada ano. É por isso que, neste momento, tiro chapéu a "nuestros hermanos" e lhes concedo, se não todo, grande parte do meu apoio de adepto de futebol que, muito antes de patriotismos injustificados, torce por quem melhor dignifica o futebol enquanto arte.