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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lições de Mestre (1)

Eis que nasce uma nova rubrica neste espaço, dedicada a jogadas geniais. Tínhamos pensado nesta ideia há já algum e tínhamos já algumas jogadas na gaveta de modo a servir-lhe os propósitos. No entanto, visto que este fim-de-semana a jogada genial do segundo golo do Real Madrid não passou despercebida e visto que se tem comentado mais essa jogada num texto dedicado ao Porto do que propriamente os problemas que o texto em causa levanta, decidi antecipar a estreia e aqui vai o lance.



Depois de lançado por Kaká, num lance de contra-ataque em que a defesa do Deportivo da Corunha abre um buraco imenso - onde andas, Zé Castro? - Guti fica isolado perante o guarda-redes adversário. É então que o inesperado acontece, com o jogador do Real a lembrar-se de tocar a bola de calcanhar em vez de tentar a finalização. Atrás dele vinha Benzema, que ficou assim com a baliza escancarada, perante um central e um guarda-redes adversário completamente apanhados de surpresa. O toque de Guti não tem nada de irresponsável. Como é óbvio, Guti sabia que tinha um colega atrás de si. Poderia não saber quem era nem saber exactamente onde estava quando tentou o passe, mas sabia que tinha alguém atrás de si. Nunca, como chegou a ser sugerido, Guti tentaria aquilo se não soubesse tal coisa. No momento anterior a receber a bola, Guti ter-se-á certamente apercebido da posição dos colegas e só terá perdido o contacto com eles a partir do momento em que concentrou o olhar na bola para a receber. Daí que o toque de calcanhar não seja uma tentativa louca de fazer algo extravagante. Foi, isso sim, uma ideia genial baseada numa percepção correcta da posição e da movimentação lógica dos colegas. Se Guti tivesse deixado de ver Benzema a partir do momento em que passou por ele no meio-campo, jamais se lembraria de fazer o que fez.

A jogada é genial e, ao mesmo tempo, uma boa opção. Pode alegar-se que, numa situação de finalização clara, com apenas o guarda-redes pela frente, o avançado deve sempre tentar o golo. Discordo disto. Em todo o instante, a melhor opção é aquela que aumenta as probabilidades de êxito de uma jogada. Quando se está num dois para um com um guarda-redes, é sempre aconselhável transformar essa situação num um para zero, com o avançado a ficar com a baliza escancarada para finalizar. Do mesmo modo, se for possível, numa situação de um para um com o guarda-redes, transformar essa situação numa situação de um para zero, com um colega a ficar com a baliza aberta para finalizar, essa é sempre a melhor opção. Foi o que Guti fez. É verdade que poderia ter corrido mal, mas não é menos verdade que, ao correr bem, aumentou extraordinariamente as probabilidades de êxito. Ter pela frente apenas o guarda-redes é uma jogada de golo óbvia, mas mais óbvio ainda é não ter ninguém pela frente. O génio de Guti transformou uma jogada com algumas probabilidades de sucesso numa jogada de sucesso evidente. Com o seu gesto, não só o fez como deixou imediatamente batidos o guarda-redes e o defesa que o perseguia. A jogada é, portanto, brilhante, porque revela a inteligência e a capacidade de Guti para fazer do óbvio algo verdadeiramente inesperado. Isto não tem nada de irresponsável ou de mal jogado; é fantasia, imaginação, capacidade de improviso. Os grandes jogadores são aqueles que o conseguem fazer e aqueles que, ao fazê-lo, não estão apenas a tentar fazer algo ao acaso, algo de diferente apenas por capricho; fazem-no porque conseguem perceber as verdadeiras consequências do que estão a fazer. Isto não é apenas um número de circo; é um gesto que vale pela intenção. E a intenção é genial.