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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os melhores do Mundial 2010

Uma semana e tal depois, eis os melhores do mundial, em 433. De acordo com o esquema táctico, é natural que um ou outro jogador não se encontre na posição exacta em que actuou ou que tenha actuado nessa posição apenas algumas vezes.

Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Maicon
Defesa Esquerdo: Fábio Coentrão
Defesas Centrais: Gerard Piqué e Ricardo Carvalho
Médio-Defensivo: Sergio Busquets
Médios-Ofensivos: Xavi e Iniesta
Extremo Direito: Thomas Müller
Extremo Esquerdo: David Villa
Avançado: Diego Forlán

Treinador: Joachim Löw

Suplentes:

Guarda-Redes: Manuel Neuer
Defesa Direito: Philip Lahm
Defesa Esquerdo: Jorge Fucile
Defesas Centrais: Juan e Puyol
Médio-Defensivo: Mark Van Bommel
Médios-Ofensivos: Leo Messi e Wesley Sneijder
Extremo Direito: Arjen Robben
Extremo Esquerdo: Mesut Özil
Avançado: Miroslav Klose

Treinador: Marcelo Bielsa

O melhor jogador da competição foi, em nosso entender, Andrés Iniesta.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Campeonato do Mundo dos Idiotas

Há quem tenha opiniões esquisitas, há quem tenha opiniões erradas e há quem tenha opiniões que não devia ter. Há um quarto grupo de pessoas que tem opiniões que não consigo classificar. É o caso de Miguel Lourenço Pereira, que escreveu preciosidades atrás de preciosidades neste brilhante texto e respectivos comentários. Findo o campeonato do mundo de futebol, eis o campeonato do mundo dos idiotas.

Antes da final do campeonato do mundo e antes também de escrever um texto em que confessa o seu desdém para com pessoas que não sabem da existência de um campeonato do mundo não-oficial, Miguel Lourenço Pereira decidira escrever um texto em que a principal ideia era equiparar esta selecção de Espanha às tradicionais selecções italianas. A sugestão, só assim, já provoca o riso. Mas vejamos o que diz concretamente.

1. Embora comece por considerar que a Espanha se apurara para a final com justiça, percebemos que o diz simplesmente porque se apurou. Continuando a ler, é com facilidade que compreendemos que não nutre profunda admiração pelos espanhóis e que estava obviamente a torcer pelo apuramento alemão. Diz então que o jogo espanhol é "horizontal e irritante". Não sei por que razão o diz, até porque não há outra selecção no mundo que faça tantos passes verticais e que consiga penetrar verticalmente, pelo meio, como a Espanha. Quanto à irritação, percebo-a apenas se houver da parte de quem sofre essa irritação um certo desconforto com o que é bom. O futebol espanhol, para Miguel Lourenço Pereira, é certamente irritante do mesmo modo que a música de Beethoven é irritante.

2. Continua Miguel Lourenço Pereira, afirmando agora que a Espanha não joga bem e que "esta equipa continua a funcionar bastante melhor como um hábil producto de marketing acente na escola do Barcelona". Gosto especialmente da forma como decidiu trocar os dois "s" do verbo "assentar" pelo "c", certamente mais económico e menos "horizontal e irritante". Aliás, a obsessão com a letra "c", nesta frase, é incrível, ao usar a letra na palavra "produto", numa espécie de fenómeno de hiper-correcção contra o novo Acordo Ortográfico da língua portuguesa. Mas achar que esta equipa joga assim por efeitos de marketing, o que quer que isso queira dizer, só numa cabecinha muito diferente. Não sei, mas parece que Miguel Lourenço Pereira está a dizer que os jogadores espanhóis, em vez de estarem a jogar futebol, estão constantemente a protagonizar um reclame desportivo. Será isto?

3. Prosseguindo, diz Miguel Lourenço Pereira que a selecção espanhola "abdicou de jogar bem para ganhar", tendo herdado "essa cultura italiana que hoje mais nenhuma equipa no Mundo tem". Gosto aqui também do uso da maiúscula na palavra "mundo", como se estivesse a falar de uma coisa maior que o próprio mundo. Talvez Miguel Lourenço Pereira tenha um mundinho (com maiúscula, claro) só seu. Isso explicaria muita coisa. O que é extraordinário é que Miguel Lourenço Pereira consegue achar que a Espanha não jogou bem este mundial, apesar de ter dominado todos os jogos, de ter tido constantemente mais bola, de ter empurrado vários adversários para as imediações da sua baliza. Para o senhor Miguel Lourenço Pereira, nada disso interessa, assim como não interessa as selecções italianas terem por cultura precisamente o oposto, isto é, abdicar da bola, entregar a iniciativa ao adversário, remeterem-se ao momento defensivo e atacar venenosamente pela certa.

4. Querendo justificar a afirmação anterior, diz Miguel Lourenço Pereira que "não se vê nessa troca de bola lateral constante um fluxo de ideias como as equipas que marcaram a evolução do jogo". Já sabíamos que o senhor Miguel Lourenço Pereira tinha um problema oftalmológico que o impedia de ver coisas verticais, mas ficamos agora a saber que também não é capaz de perceber na troca de bola espanhola qualquer ideia. Onde, de facto, abundam ideias, e das boas, é na cabecinha do senhor Miguel Lourenço Pereira. Não sei ao certo que equipas é que, para Miguel Lourenço Pereira "marcaram a evolução do jogo", mas pela conversa cheira-me que está a falar do Boavista de Jaime Pacheco.

5. Diz ainda Miguel Lourenço Pereira que o futebol da Espanha está "a anos-luz de outras grandes selecções" e que "em números, serão o pior finalista de que há memória, incapazes de ganhar por mais de 1-0 nos jogos a eliminar", sendo que "nem a pior azurra" teve números tão escassos. Confesso que a história dos números já chateia. As tartarugas que acham que os números servem para alguma coisa esquecem-se que esta Espanha passou o mundial a jogar contra equipas fechadinhas lá atrás, como a Suíça, Portugal ou Alemanha, e que, naturalmente, é muito mais difícil vencer por muitos golos quando o adversário tem por estratégia não atacar durante 90 minutos. Em nenhum jogo a Espanha foi inferior ao adversário e em todos merecia ganhar por mais de um golo de diferença - era isto que os idiotas deviam ter em conta e não a inutilidade dos números, hábito norte-americano que no futebol não tem nem pode ter aplicação eficiente. O problema do senhor Miguel Lourenço Pereira, agora percebemos, é achar que a força desta Espanha está espelhada nos seus números. Não está, como nada está espelhado nos números, em futebol. É porque a Espanha marcou poucos golos (e não porque tenha subjugado todos os adversários pela posse de bola) que Miguel Lourenço Pereira a considera parecida com a Itália. A estupidez da comparação não está por isso nas conclusões, mas nas premissas e no método de análise.

6. A propósito do jogo com a Alemanha, diz Miguel Lourenço Pereira que a razão pela qual a Espanha ganhou facilmente aos alemães não se explica por mérito dos espanhóis, mas sim porque a Alemanha "não quis fazer o jogo duro de pressão alta de suiços, portugueses e paraguaios, que optaram por não deixar a Espanha jogar confortavelmente com a bola". Mais uma vez, há qualquer coisa de muito esquisito com o cérebro do senhor Miguel Lourenço Pereira. Não sei ao certo que mundial andou a ver este senhor, mas não foi certamente o da África do Sul. Os suíços passaram 90 minutos encaixotados na sua área e Portugal pressionou sempre atrás da linha de meio-campo. A única equipa que optou por uma pressão mais alta foi o Paraguai, e ainda assim privilegiou zonas de pressão à entrada do meio-campo espanhol. Miguel Lourenço Pereira acha que se tratou de pressão alta. São opiniões. Também haverá, por certo, quem ache que os sete anões eram, na verdade, gigantes.

7. Quando incitado por alguém, na caixa de comentários, a justificar a sua afirmação acerca da semelhança entre a Espanha e a Itália, Miguel Lourenço Pereira diz o seguinte:

"Fico contente que tenha vontade de rir, mas basta olhar para a campanha da Itália em 2006 para perceber a comparação. Uma fase de grupos mediana, com um apuramento algo trapalhão, um jogo de Oitavos com golo polémico, uma eliminatória de Quartos demasiado sofrida e um excelente jogo nas meias-finais, quando é a doer, contra uma equipa melhor".

Lá está. Miguel Lourenço Pereira não está a comparar estilo de jogo nem qualidade de jogo; está a comparar campanhas. Ou seja, números. A obsessão matemática vale-lhe por isso a idiotia de não perceber tudo o que está para lá dessa matemática. E consegue, por isso, porque ignora o mais importante, comparar o dia com a noite. Se eu também ignorasse todas as propriedades que distinguem o branco do preto e me cingisse apenas ao facto de ambas as cores estarem dentro dos limites do espectro visível, também poderia dizer que o branco é igual ao preto. O que Miguel Lourenço Pereira está a fazer, por isso, é uma espécie de batota intelectual: de entre vários dados a ter em conta, apenas lhe interessa aquele que torna as duas equipas semelhantes: o facto de terem tido sucesso com números parecidos.

8. O carácter anedótico da proposta de Miguel Lourenço Pereira, porém, não fica por aqui. Diz ainda que "esta maturidade competitiva dos espanhóis, capaz de aguentar tudo e todos, compensa a falta de um toque de classe, improvisação e genialidade." Falta de classe, improvisação e genialidade? Que outra selecção teve algum dia mais classe, improvisação e genialidade que esta Espanha? Depois de voltar a frisar que "a Espanha é uma equipa horizontal" (a mais falsa das suas barbaridades), o absurdo da tese de Miguel Lourenço Pereira chega ainda ao ponto de sugerir que a equipa espanhola tem "muitos problemas ofensivos" e que, "se não fosse assim não era a primeira equipa finalista da história a chegar tão longe com 3 eliminatórias a 1-0 cada um". Fica evidente, uma vez mais, que para Miguel Lourenço Pereira, uma equipa que ganha várias vezes por 1-0 é necessariamente alguém com "muitos problemas ofensivos". Uma vez mais, carece a análise de Miguel Lourenço Pereira de algum tacto e de alguma inteligência. Uma boa razão para uma equipa não fazer mais golos é o facto de jogar tanto, de ter tanto a supremacia do jogo, que o adversário se recolhe atrás para perder pelo mínimo possível. Mas o que é extraordinário é que a equipa que mais ataques fez em toda a prova seja uma equipa horizontal e com muitos problemas ofensivos.

9. A incrível imaginação de Miguel Lourenço Pereira permite-lhe ainda dizer coisas como:

"O problema está no estilo de jogo. Xavi, Iniesta, Silva ou Navas, são jogadores que procuram quase sempre o passe. Daí que o destaque no Barça seja o Messi, o homem que joga verticalmente para o golo, quando os outros jogam para a "orquestra"".

Para Miguel Lourenço Pereira, os problemas ofensivos vêm do estilo de jogo, interpretado por jogadores que procuram quase sempre o passe. Segue-se deste raciocínio que a equipa espanhola deveria apostar mais no remate antes de meio-campo e que um estilo de jogo que dê preferência ao pontapé sem nexo (por oposição ao gesto técnico do passe), às correrias parvas e à tentativa de marcar golo sempre que se está no meio-campo ofensivo é um estilo, na cabeça de Miguel Lourenço Pereira, com menos problemas ofensivos. Faz sentido. Para este senhor, jogar à bola é como dar marteladas num prego. Como se não bastasse, tem a capacidade de juntar a Xavi, Iniesta e Silva, jogadores de toque curto e refinado, que procuram a tabela e jogam de cabeça levantada, o jogo rectilíneo, individualista e de espaço nas costas das defesas de Jesus Navas, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Para finalizar, ainda é capaz de, num tom sarcástico, elogiar a verticalidade de Messi (ignorando que o argentino privilegia o mesmo tipo de coisas que os colegas do Barcelona) e menosprezar o futebol dos restantes colegas que, segundo ele, jogam apenas para o espectáculo. Aquilo que Miguel Lourenço Pereira não consegue perceber é que existe uma coincidência entre o estilo de "orquestra" desse futebol e a eficácia do mesmo. E isto por uma só razão, que desconfio que o senhor Miguel Lourenço Pereira ainda está para descobrir: é que futebol não é halterofilia.

10. A saga continua com o seguinte:

"Espanha abre muito bem o campo, fecha muito bem os espaços defensivos, troca muito bem a bola pelo meio, numa série de 50 passos sem sentido que não o de nao perder a bola, e subitamente tenta passes rápidos para o espaço onde surge um jogador veloz para encarar. Ou, com defesas mais fechadas, procura, qual equipa de andebol, circular a bola à volta da área à procura do falho de marcaçao (golo a Portugal) ou do remate de meia distancia (papel de X. Alonso, Ramos ou Villa)."

O único sentido que Miguel Lourenço Pereira encontra para a troca de bola espanhola é o não perder a posse de bola, como se isso por si só fosse mau. E sugere ainda que os espanhóis trocam a bola sempre à espera de uma falha de marcação, não arriscando o passe se tal não ocorrer. O que Miguel Lourenço Pereira não percebe é que a posse de bola serve precisamente para provocar esses erros e que os cinquenta passes têm, além da virtude de permitir manter a posse de bola e, por isso, não ter de defender, a maior virtude de fazer com que o adversário, na tentativa de recuperar a posse de bola, se desposicione. Mais brilhante do que isto só mesmo o sotaque brasileiro com que articula o seu pensamento nesta frase, usando não só o extraordinário verbo "encarar" como inventando o substantivo masculino "falho".

11. Voltando a querer impingir a sua teoria de que isto é exactamente o mesmo que aquilo que os italianos fazem tradicionalmente, Miguel Lourenço Pereira afirma então o seguinte:

"Esse modelo de jogo é bastante similar ao historico futebol italiano, sempre com um ponta de referencia, um meio campo estendido pelo terreno de jogo, um duplo pivot-defensivo e um regista (Xavi como Pirlo) a pautar o jogo. Com menos "tiki taka" inconsequente, que os italianos são bem mais práticos. Pode não ser tão estético, mas o jogo italiano de base é muito similar ao jogo espanhol desta equipa. "

Se alguém, algum dia, viu a Itália a jogar qual equipa de andebol, a circular a bola pelos seus jogadores contra uma defesa compacta, enfiada na sua grande área, esse alguém foi Miguel Lourenço Pereira, pois garante que isso é precisamente o que os italianos costumavam fazer. Embora com menos trocas de bola, que os italianos não têm a paciência de santo dos espanhóis. É, portanto, com sabedoria que termina, dizendo que a principal diferença entre o futebol desta Espanha e o futebol dos italianos é uma diferença estética, sendo o resto "muito similar". Como disse no início, não sei se consigo classificar opiniões deste tipo. Parece-me francamente injusto tentar contrariar opiniões de arcas frigoríficas.

12. Já para o fim da conversa na caixa de comentários, Miguel Lourenço Pereira deixa finalmente perceber aquilo que está por trás de todos estes disparates:

"O português tem uma obsessão preocupante com tudo o que vem de Espanha, um sentimento de pequenês mental que faz com que tudo engrandeça. Da mesma forma que Espanha olha para o resto do Mundo aliás."

Trata-se, portanto, de um ódio mesquinho ao povo espanhol, de uma generalização pateta que tem eco no desdém pela selecção que representa o povo que abomina. A análise da selecção espanhola é assim influenciada pelo sentimento que nutre pelo povo que essa selecção representa. O que Miguel Lourenço Pereira, contudo, não percebe é que, da mesma forma que há portugueses que padecem daquilo a que Fernando Pessoa chamou "provincianismo", que consiste em elogiar tudo o que vem de fora, neste caso, de Espanha, e que coincide com a "pequenês mental" a que Miguel Lourenço Pereira se refere, há também portugueses que, num ponto diametralmente oposto, padecem de um nacionalismo tonto que consiste em rejeitar obsessivamente o que vem de fora, neste caso, de Espanha, e que é no fundo a doença do senhor Miguel Lourenço Pereira. Mais engraçado é quando a pessoa que o faz vive ou trabalha em Madrid.

13. Logo a seguir, vem a minha frase preferida: "ninguém espeterá 4 a esta equipa porque o seu futebol cinico, disfarçado de estética de museu, nunca o permitiria." Numa só frase, Miguel Lourenço Pereira consegue transgredir várias vezes a gramática portuguesa, primeiro ao inventar o verbo "espeter", depois esquecendo o acento de "cínico", e finalmente usando o condicional "permitiria" na oração causal quando na oração principal tentara usar um futuro. O jornalismo é tão bonito! Mas o que é importante é que, para Miguel Lourenço Pereira, a Espanha joga um futebol cínico, que parece muito bonitinho e servir para entreter, mas que afinal de contas é um engodo para atrair o adversário e depois atacar pela certa, como faziam as selecções italianas. Aquilo que Miguel Lourenço Pereira não percebe é que ter a posse de bola, e fazer tanto por tê-la, como seja pressionar alto ou não a perder à toa, é a maior declaração de intenções de uma equipa. Ao ter a posse de bola, a Espanha deixa necessariamente de ser cínica. Quer a bola, assume que a quer, e quer a bola para vencer o jogo. O adversário sabe-o perfeitamente e é por isso que se fecha a sete chaves lá atrás. Isto é o oposto do cinismo italiano, cuja estratégia consistia em "fingir" não querer atacar e não querer a bola para depois, assim que a recuperava, chegar à frente e, sem rodeios, sentenciar os desafios. Se há alguma coisa que a Espanha não é é cínica. E o futebol dos espanhóis é tudo menos disfarçado.

14. Quando confrontado com a ideia de que a Itália, ao contrário da Espanha, se sentia confortável era sem a bola, Miguel Lourenço Pereira propõe que tal acontecia porque, ao contrário da Itália, que era uma selecção multifacetada e se sentia confortável a jogar de muitos modos, a Espanha "joga sempre o mesmo estilo de jogo, mesmo tendo opçoes para outras abordagens". Para Miguel Lourenço Pereira, portanto, a Espanha está refém do seu estilo de jogo horizontal e irritante, com muitos problemas ofensivos, no qual os jogadores só sabem fazer passes. Com tantas deficiências no estilo de jogo e não tendo competência para jogar de outro modo, gostava muito que o senhor Miguel Lourenço Pereira explicasse como é que a Espanha conseguiu ser campeã do mundo.

15. Por esta altura, intrometeu-se um leitor espanhol na conversa, obviamente para criticar, com bons argumentos, a proposta atoleimada de Miguel Lourenço Pereira. Quando este leitor, apresentando como argumentos o facto de a Espanha, ao contrário do que acontece tradicionalmente com as selecções italianas, ter sido a equipa que mais rematou, que mais passes e posse de bola teve, que mais faltas sofreu e que menos faltas fez, dinamitou o argumento de Miguel Lourenço Pereira, a resposta não podia denotar melhor a xenofobia evidente desde o princípio do texto, assim como a estultícia que lhe vem atrelada, e Miguel Lourenço Pereira, depois de sugerir, com imbecilidade e despeito, que até os galegos podem opinar sobre futebol, acaba por contra-argumentar com isto:

"Uma equipa com muita posse de bola no miolo nao é uma equipa ofensiva. É uma equipa controladora. O que é bem diferente. Contra defesas organizadas há alternativas tácticas que Espanha nao se presta a utilizar, provavelmente porque nao sabe."

Não, caro Miguel Lourenço Pereira. A posse de bola, quando utilizada como arma, como a Espanha, é tudo em futebol. Serve, por exemplo, para ser campeã do mundo. É uma equipa ofensiva e controladora, não uma coisa ou outra isoladamente. Tendo a bola, ataca-se e, ao mesmo tempo, defende-se pelo simples facto de não se estar a defender. Contra defesas organizadas, há muitas maneiras de marcar golo. A mais eficaz e a que mais garantias de sucesso dá é a posse e circulação de bola rápida, com passes curtos, tabelas, apoios próximos, paciência e muita qualidade de passe e recepção. A Espanha não utiliza alternativas tácticas não só porque é fortíssima neste estilo como porque percebe que não há melhor maneira de alcançar o que pretende.

16. Como a idiotia de Miguel Lourenço Pereira não parece ter limites, continua aventando que o futebol da Espanha, porque "lento e aborrecido", não ficará na História. Miguel Lourenço Pereira está por isso convencido de que, daqui a dez anos, as pessoas se vão lembrar é da "fresca Alemanha" e não desta Espanha. Como Miguel Lourenço Pereira é tão bom na arte da adivinhação como a falar de futebol, não sabe o que diz. Aliás, poucas selecções serão tão lembradas como esta Espanha no futuro, pela revolução ideológica que esta vitória representa. Tal como o futebol total da Laranja Mecânica de setentas e o estilo italiano que Arrigo Sacchi ajudou a cristalizar, o "tiki taka" do Barcelona de Guardiola importado por esta Espanha ficará evidentemente para sempre e constitui até um salto evolutivo que tem apenas um ou dois precedentes significativos. Só a má fé, a desonestidade e a galhardia de novo-rico de Miguel Lourenço Pereira é que não o percebem.

17. Já noutro texto, quando fala dos onze melhores jogadores do mundial, Miguel Lourenço Pereira volta a deslumbrar e diz:

"sem Xavi esta equipa espanhola era um conjunto absolutamente vulgar. De isso não sobra nenhuma dúvida."

Gosto, antes de mais, da forma como Miguel Lourenço Pereira "descontrai" a contracção da preposição "de" com o pronome demonstrativo "isso", revelando uma vez mais a sua extraordinária vocação para inventar não só palavras como categorias gramaticais inteiramente novas. Para Miguel Lourenço Pereira, todo o plantel da Espanha, à excepção de Xavi, é portanto absolutamente medíocre. O que é estranho, não só porque antes diz que Piqué é o melhor central do mundo, como num texto mais recente sugere que a Espanha reunira o melhor plantel de sempre da sua História e que, por isso, merecera bem a vitória. Não sei se Miguel Lourenço Pereira sofre de esquizofrenia, mas julgo que não. Estou mais virado para falta de coerência crónica agravada pelo facto de querer dizer mal de uma selecção que representa um povo que odeia e acabar por não conseguir organizar as ideias.

Foram portanto dezassete pontos interessantes acerca das ideias de Miguel Lourenço Pereira sobre o futebol da selecção espanhola. Como terá ficado visível, há pessoas muito esquisitas. Miguel Lourenço Pereira é uma delas. Não sei se os três nomes denotam a sua natureza aristocrática e antecipam o seu carácter nacionalista e xenófobo, tão vincado naquilo que procura defender. Sei, contudo, que Miguel Lourenço Pereira tem por patologia o não perceber nada do que diz e, como muito gente, o querer falar do que não sabe. É um mal comum nos dias que correm. Tal como muita gente, Miguel Lourenço Pereira não percebe patavina do futebol desta Espanha. Juntando a isto o facto de não perceber muito de português e de destilar sentimentos violentos contra o país representado por essa selecção, o resultado só poderia ser ridículo. Se há , todavia, muita gente que não percebe o futebol da Espanha, mas se resigna à sua superioridade, o quixotismo de Miguel Lourenço Pereira, espanholice que afinal, contra a sua vontade, tão bem o define, fez com que visse nesse futebol o mais perfeito contrário do mesmo. Não querendo com isto fazer qualquer juízo de valor acerca dos dois termos da comparação, comparar esta selecção àquilo que costumam ser as selecções italianas não faz qualquer sentido e só merece o descaro do riso.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pontos sobre o Mundial

1. Os movimentos interiores de Müller eram aquilo que tornava a equipa alemã, a atacar, uma equipa imprevisível. Ao aparecer em zonas centrais, entre os médios e os avançados, concedia não só todo o flanco para as subidas de Lahm como fornecia linhas de passe verticais, povoava zonas entre linhas e unia o sector do meio-campo ao atacante. O segundo golo frente à Argentina é a demonstração disto. É o posicionamente de Müller que permite o passe vertical e o desequílbrio ofensivo decisivo. Sem Müller, a Alemanha, do ponto de vista colectivo, era só mais uma equipa.


Argentina 0-2 Germany

Perry | Vídeo do MySpace

2. Num mundial em que um elevado número de equipas apresentou um duplo-pivot defensivo no meio-campo ou, simplesmente, dois jogadores actuando de perfil, ficaram visíveis os problemas crónicos desse tipo de estrutura. A Alemanha não conseguiu suster a posse de bola espanhola e o constante povoamento da zona entre os centrais e os médios-defensivos, afundando-se no campo; o Brasil nunca foi uma equipa compacta e concedeu sempre espaços indesejáveis, caindo contra uma Holanda que pouca qualidade tem a trocar a bola; a Inglaterra e a França nunca se encontraram; a Holanda sofreu todos os golos de bola corrida por causa dessa estrutura. Só a Espanha, e sobretudo porque tem mais tempo a bola, não tem sofrido por causa dos dois jogadores lado a lado no meio-campo. A epidemia, porém, merecia uma reflexão.

3. No jogo da Holanda contra o Brasil, não foram apenas as referências ao homem evidenciadas pelo comportamento de Heitinga, Van Bronckhorst ou De Jong que permitiram ao Brasil chegar ao golo. O espaço central deveria estar sempre protegido, mas a inclusão de dois médios defensivos, ainda por cima com este tipo de comportamento, torna esse espaço um deserto. Kaká arrasta De Jong e não há maneira de Van Bommel fechar o espaço rapidamente. Assim, forma-se uma avenida que Filipe Melo aproveita, fazendo um passe rasteiro de 40 metros a isolar Robinho, possibilidade inaceitável a este nível.


Netherlands 0-1 Brazil

Simão | Vídeo do MySpace

4. Ainda a Holanda, desta vez contra o Uruguai. O golo de Forlan evidencia o problema das linhas defensivas holandesas. Com dois médios de perfil, cria-se um buraco entre linhas que Forlan aproveita. Recebe um passe vertical e, tendo todo o tempo do mundo ao seu dispor, dribla um adversário e chuta sem oposição. Apesar de facilitado pelo erro técnico do guarda-redes holandês, a chave do lance está no espaço que o duplo-pivot defensivo dos holandeses concede.


Uruguay 1-1 Netherlands

Ricardo | Vídeo do MySpace

5. O futebol da Holanda é pobre. Da afirmação não se segue que não merecesse estar onde está. A única equipa individualmente superior ou semelhante que enfrentou foi o Brasil, que também não apresentou um futebol extraordinário. Um mundial, porém, em que esta Holanda chega tão longe, só pode ser um mundial fraco. Não houve uma única equipa, das que enfrentaram a Holanda, que soubesse aproveitar as deficiências defensivas e a pobreza ofensiva dos holandeses. Junte-se ainda a isto a forma quase fortuita como a equipa adquiriu vantagem nos seus jogos e explica-se a aparente facilidade com que chegou até à final. Sobre o momento ofensivo, é sobretudo relevante falar daquilo que não se vê. Não se vêem movimentos de aproximação e, por conseguinte, capacidades colectivas interessantes na troca da bola; não se vêem os médios a dar apoios laterais ao portador da bola, quando esta está no flanco; não se vê movimentos sem bola significativos; não se vêem ideias; não se vê imaginação; não se vê capacidade para mandar no jogo. Apesar de muitos tecerem considerações positivas em relação ao futebol dos holandeses, gabando-lhe a genialidade ofensiva e o pragmatismo com que tem abordado os jogos, a Holanda tem sido pouco mais que medíocre. A genialidade é meramente individual e o pragmatismo é uma palavra mal usada para se referirem a "muitos homens atrás da linha da bola". A Holanda não defende bem, arrisca é pouco; a Holanda não ataca bem, tem é bons atacantes.

6. Wesley Sneijder tem sido, para muitos, dos melhores jogadores do torneio. Acho que todo aquele que o afirma não tem visto bem os jogos da Holanda. Não está em causa o valor do jogador. Está em causa aquilo que tem feito. Antes de mais nada, creio que esta opinião, em muitos casos, deve estar viciada pelo facto de ele já ter cinco golos. O problema é que é preciso ter em conta como é que os marcou. Contra o Japão, um frango monumental do guarda-redes nipónico; contra a Eslováquia, de baliza aberta, após trabalho de Kuyt; contra o Brasil, um cruzamento desviado por Filipe Melo e um de cabeça, após bola parada; contra o Uruguai, às três tabelas. Sneijder ainda não marcou, por assim, dizer, um golo em que pudesse dizer-se que fora seu todo ou o principal mérito. Por isso, se avaliar-lhe a prestação pelos golos obtidos já não fazia muito sentido, menos o faz quando os golos aconteceram como aconteceram. Para além disto, Sneijder tem jogado muito menos do que têm afirmado. Raramente se aproxima do portador da bola; raramente faz movimentos horizontais para criar superioridade numérica nas linhas ou fornecer apoio ao portador da bola; não vai para a confusão, procurando uma tabela. Prefere geralmente alhear-se do jogo e procurar espaços sem ninguém, para poder receber e fazer o que bem entender. Mas com isso foge ao jogo e não ajuda a equipa a encontrar soluções mais complexas. Sneijder tem-se protegido, procurando receber a bola sempre em condições ideais. Com isso, não só tem estado menos em jogo do que poderia como não tem sido colectivamente competente. Continua, sempre que tem a bola, a evidenciar uma qualidade de passe muito boa. Mas pouco mais do que isso tem apresentado. E, sinceramente, isso não chega para estar entre os melhores do torneio. Comparar a sua prestação com a de Xavi ou Iniesta, por exemplo, não faz o menor sentido.

7. Muito se falou de Fábio Coentrão e da sua forma neste mundial. Não creio que se deva ceder à euforia. A análise fria e racional mostra que Fábio Coentrão fez um bom mundial, é verdade, que foi um contributo ofensivo relevante no flanco esquerdo português. Isso é verdade e é nisso que Coentrão é, de facto, forte. Mas está longe de ser um jogador completo e de ter mostrado, neste mundial, que estava perfeitamente adaptado à posição de lateral. Dizem os que defendem o contrário que Coentrão esteve extraordinário a defender e que, se mais provas fossem precisas, que Maicon e Dani Alves não lhe criaram grandes problemas. O que estas pessoas estão a esquecer é que Portugal defendeu quase sempre enfiado no seu meio-campo e maioritariamente em organização e em superioridade numérica. É natural, nessas condições, que os defesas estejam menos expostos. Fábio Coentrão não sentiu grandes dificuldades a defender, é verdade, mas isso, por si, não significa nada. Pelo modo como Portugal defendeu, sobretudo contra o Brasil e contra a Espanha, seria natural que assim fosse. Raramente os defesas tiveram que corrigir rapidamente o seu posicionamento, raramente ficaram em igualdade numérica ou em lances de um para um com os avançados, raramente ficaram com muito espaço para cobrir. Fábio Coentrão atacou bem e isso é digno de registo. Mas fiquemos por aqui, porque não foi verdadeiramente testado para aquilo em que ainda lhe faltam atributos.

8. Num mundial pobre, em termos tácticos, não há um treinador que tenha merecido mais do que elogios ocasionais. Os dois principais nomes são os de Marcelo Bielsa e de Joachim Löw, embora ambos tivessem dado importantes tiros no pé. Bielsa começou bem e mostrou que uma equipa individualmente menos capaz pode bater o pé aos grandes e jogar deliberadamente ao ataque. Falhou rotundamente ao abdicar das suas principais ideias na eliminatória frente ao Brasil. O jogo de posse e pressão alta dos chilenos, em 343 losango, com Matías Fernandez e Valdivia como principais referências, deu lugar ao jogo veloz, em 442, sem os dois nomes acima referidos. O medo do Brasil ou a cobardia de não ter sido fiel a si mesmo valeram a Bielsa a desilusão. A de todos os chilenos e a nossa. Quanto a Joachim Löw, tem o mérito de ter colocado a selecção alemã a jogar um futebol menos germânico do que é costume. Muito disso, como já referi, era afinal fruto do comportamento criativo de uma individualidade, mas mesmo assim os alemães eram organizados e pareciam pensar de um modo colectivo. Falhou, contudo, como já falhara no Euro 2008, a opção por um 442 clássico e a ausência de movimentos atacantes imprevisíveis, para além dos protagonizados por Thomas Müller.

9. O Uruguai chegou longe, mas nunca impressionou. A caminhada teve na arbitrariedade do calendário a sua principal causa e os uruguaios tiveram apenas o mérito de nunca perder contra equipas individualmente mais fracas. Percebeu-se, todavia, que não podiam ir muito mais longe e que, assim que tivessem pela frente um conjunto mais forte, ficariam pelo caminho. Dentro dos uruguaios, é preciso porém destacar Diego Forlan, um jogador claramente acima da média. Quaanto a Luis Suarez, para muitos uma grande revelação, não posso deixar passar a oportunidade de dizer que me parece extraordinariamente sobrevalorizado. É um jogador que finaliza bem e que aparece bem em zonas de finalização. Mas é só. É incrivelmente prejudicial na construção e toma invariavelmente más decisões com bola. A quantidade absurda de golos que marcou no campeonato holandês deve ser relativizada, tal como relativizado deve ser o seu real valor. Parece-me um jogador do estilo de Mateja Kezman, muito competente num campeonato em que se passa muito tempo perto das balizas, mas sem qualidade para grandes voos.

10. Diego Maradona e Dunga montaram equipas à imagem daquilo que foram enquanto jogadores. Por razões diferentes, nem um nem outro mostraram competência enquanto treinadores de futebol. Vem isto demonstrar que, para se ser treinador, não basta ter sido jogador, por mais genial que se tenha sido. Para Maradona, o futebol é estritamente individual e, nos dias que correm, só um milagre faria com que alguém com uma concepção do jogo deste tipo pudesse ser campeão do mundo.

11. Esta Espanha, ao contrário do que se tem dito, não é o Barcelona. Dito isto, é mais o Barcelona do que era a selecção de 2008, ao contrário do que também algumas pessoas pensam. A selecção de 2008 não trocava tanto a bola como esta, não se detinha tanto em passes e tabelas como esta; não tinha também mais do que três jogadores do Barcelona (Xavi, Iniesta e Puyol), enquanto esta tem seis ou sete; e, sobretudo, Guardiola ainda não era treinador do Barcelona na altura, com toda a revolução que isso acarreta. No entanto, o que é preciso frisar é que esta Espanha, ainda que tenha adoptado o estilo do Barcelona, não tem os automatismos da equipa de Guardiola. Assim, o que há de Barcelona nesta equipa é a quantidade absurda de jogadores do Barcelona no onze. A única coisa que esta selecção tem do Barcelona é as individualidades. Colectivamente, como disse, só o estilo é igual. Nem a competência na pressão, nem a mecanização sem bola, nem o esquema táctico são sequer parecidos. O que é igual é o estilo.

12. O estilo da Espanha é, ainda assim, a principal bandeira desta equipa. E se os espanhóis se sagrarem campeões do mundo, será porventura a vitória conceptual mais importante desde o início do século. O que os espanhóis têm mostrado ao mundo é que este estilo, este jogar para o lado e para trás, este brincar à rabia com os adversários, o ter e querer sempre a bola, a certeza do passe, a profusão de tabelas, o jogo de apoios e pelo centro do terreno é o modo mais eficaz de ser superior a qualquer adversário. Este estilo, ainda que somente o estilo, mesmo faltando toda a mecanização e entrosamento entre jogadores, mesmo faltando limar os mais diversos detalhes, é assim o primeiríssimo e mais importante princípio que uma equipa de topo deve ter. Os espanhóis, sem serem colectivamente uma equipa bem trabalhada, gozam do facto de terem jogadores que preferem jogar neste estilo. E essa preferência faz deles, quando juntos, o mais forte conjunto em prova.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Criatividade de Müller

A palavra "criatividade", no que diz respeito a futebol, tem frequentemente usos errados. Presume-se que um criativo é um jogador capaz de inventar maneiras requintadas de fintar os adversários, um jogador capaz de fazer passes de ruptura, um jogador, em suma, capaz de coisas que parecem difíceis. Isso não faz qualquer sentido. A criatividade não tem nada a ver com truques, malabarismos, recursos técnicos e artifícios excêntricos. A criatividade é um atributo mental, um atributo que permite solucionar problemas difíceis de maneiras inesperadas. O jogador criativo é aquele que descobre soluções inovadoras, que interpreta os dados de um lance de uma maneira imprevisível e que consegue ser mais espontâneo, mais rápido a pensar e mais eficiente a contornar os problemas que lhe são impostos.

Esse uso errado da palavra "criatividade" ocorre muitas vezes quando se pretende classificar um extremo. Raramente um extremo é um jogador criativo. Por norma, o extremo que as pessoas acham que é criativo é um jogador muito hábil, do ponto de vista técnico, e muito rápido. Só. Por exemplo, a criatividade de Cristiano Ronaldo é, quando comparada com outros jogadores, uma coisa quase ridícula. O mesmo se passa com Di Maria e Hulk, ou, noutra dimensão, com Robinho. São jogadores que, tecnicamente, possuem recursos muito interessantes, mas não são jogadores que, perante dificuldades imprevistas, saibam solucionar os seus problemas. É por isso que, em espaços curtos, não são jogadores extraordinários ou, pelo menos, não conseguem sê-lo de um modo regular. O paradigma do jogador criativo, na acepção de palavra que estou a defender, é o típico jogador espanhol da actualidade: Iniesta, Fabregas, David Silva, Mata, Bojan, etc. Tratam-se de jogadores que interpretam os lances de um modo mais abrangente, que conseguem, perante problemas difíceis, encontrar invariavelmente a melhor solução e que conseguem descobrir soluções inesperadas. São por isso mais imprevisíveis e, por conseguinte, mais difíceis de entender, por parte dos adversários. O jogador criativo é, por isso, aquele que percebe com mais facilidade para onde é que a bola deve seguir, aquele que percebe mais rapidamente se deve fazer um compasso de espera ou se deve jogar de primeira e aquele que, mesmo sem recursos técnicos assinaláveis, é capaz de se livrar individualmente de adversários directos, enganando-os com um drible, com uma simulação de passe, com uma tabela ou uma desmarcação no momento certo.

Uma das razões pelas quais Mesut Özil tem sido amplamente elogiado e Thomas Müller ignorado prende-se precisamente com o facto de as pessoas terem tendência a reter com mais facilidade os atributos técnicos de um atleta do que os seus atributos intelectuais. Özil é tecnicamente mais vistoso que Müller e terá melhores capacidades a esse nível. Mas não é mais criativo que o jogador do Bayern. Isto porque criatividade não tem nada a ver com capacidade técnica. Aliás, uma das razões pelas quais o momento ofensivo da selecção alemã parece tão fluido tem a ver com a liberdade que Müller tem para vir para o meio, permutando com Özil, onde a sua capacidade de decisão e a sua criatividade têm mais influência no desempenho do colectivo. Se Müller ficasse amarrado ao flanco, como do outro lado acontece com Podolski, cujos movimentos são essencialmente verticais, a Alemanha seria muito mais estéril do ponto de vista ofensivo, pois a criatividade de Müller não estaria tanto em jogo. A jogada que - creio - melhor exemplifica as qualidades que estou a querer reconhecer em Müller é a jogada do segundo golo frente à Inglaterra.


Simão | Vídeo do MySpace

O lance começa na direita, com Kedhira a servir Müller, junto à linha, com Ashley Cole atrás dele. Sem preparação, de primeira, de modo a não permitir a aproximação dos defesas ingleses, Müller reenvia a bola para o meio, para o apoio de Mesut Özil ao centro. É nesta opção, invulgar na maior parte dos jogadores que jogam junto às linhas, que está a primeira e a mais decisiva acção do lance. Depois de soltar em Özil, Mülller desmarca-se de imediato. Özil joga de primeira em Klose, que está junto à linha, e este, também de primeira, faz a bola entrar nas costas da defesa inglesa, num espaço que Müller, ao desmarcar-se, atacara. O desequilíbrio está causado e Müller, com espaço para rematar, opta antes por servir Podolski, que fica sozinho porque Müller arrastou todas atenções para si. A capacidade de decisão de Müller, tanto no passe para Podolski, mas sobretudo no primeiro momento, quando joga no apoio e se desmarca de imediato, é que é aqui preciso notar. É que, embora pareça um movimento simples, isto denota uma capacidade criativa invulgar. Em primeiro lugar, Müller percebe a opção que tem ao meio de um modo notável e percebe também que, para fazer uso dessa opção, deve executar de primeira. Qualquer recepção tornaria inválido o apoio de Özil. Müller pôde usar a opção porque pensou rapidamente e a descobriu antes de receber a bola. Pouquíssimos jogadores têm esta capacidade. Depois disto, percebe rapidamente que, com Özil na posição em que estava e Klose à esquerda, o lateral-esquerdo e os dois centrais haviam sido puxados para ali e a defesa inglesa estava, portanto desorganizada. Como tal, imediatamente a seguir ao passe de primeira, desmarca-se e aproveita essa desorganização. Foi a criatividade de Müller, a sua capacidade de visualizar rapidamente o que rodeava e de perceber rapidamente os dividendos que poderia tirar dessa conjuntura, que permitiram que fosse criado tamanho desequílibrio. Depois, porque o seu pensamento exigia o passe de primeira e a desmarcação célere, tratou de pôr em prática aquilo que a sua mente idealizou com facilidade. É esta capacidade intelectual de antecipar com tanta precisão tudo aquilo que uma simples acção ou um simples movimento implica, assim como a capacidade de extrair dessa capacidade primeira todo o lucro possível, que faz de Müller um jogador extraordinariamente criativo. A criatividade é isto, é o atributo que permite ao jogador antecipar mais correctamente o futuro imediato.

Grande parte dos jogadores, mesmo os muito dotados tecnicamente, agem essencialmente por reacção e não são capazes de antecipar, quais xadrezistas vulgares, senão os milésimos de segundo que se seguem à sua acção. O jogador verdadeiramente criativo é aquele que consegue desenhar na sua cabeça toda a jogada, que consegue perceber, com um grau de precisão muito elevado, tudo o que vai acontecer em seguida. Esse, porque tem essa capacidade, está sempre um passo à frente dos outros, mesmo que não possua argumentos técnicos e físicos tão elevados como os melhores. É por isso que a criatividade, ainda que dependa sempre da acção dos outros para se fazer valer, é um atributo tão importante. Numa equipa que jogue como equipa, que se faça valer mais da relação entre os diferentes elementos da equipa do que das individualidades que a compõem, a criatividade é, portanto, o atributo mais importante num jogador. Müller é mais criativo que Özil porque tem esta capacidade de ler as jogadas muito mais apurada que o jogador do Werder Bremen, ainda que não seja tão evoluído, do ponto de vista técnico, quanto o seu compatriota, nem seja tão competente quando entregue a duelos individuais. Como tal, só quem entende o futebol como um jogo de individualidades é que pode ficar mais entusiasmado com Özil do que com Müller. Estas pessoas acham igualmente que o primeiro é mais criativo porque nem sequer concebem a existência de atributos essencialmente colectivos, que só têm real valor se o jogo for entendido para além desse choque entre onze indivíduos de cada lado. Para esses, Özil é mais influente na equipa porque as qualidades da equipa são apenas a soma das qualidades individuais de cada elemento que forma a equipa. Ignoram, porque incapazes de não ignorar, que as qualidades da equipa são, isso sim, muito mais do que essa soma, a soma das relações que cada individualidade tem com as outras individualidades, e que, portanto, é mais influente aquele cujas capacidades de se relacionar com os outros é melhor. No fundo, Müller é mais influente porque a sua relação com os outros e com o colectivo em geral é mais valiosa, independentemente de, quando entregue a si, não ter tanta facilidade para resolver problemas quanto tem Özil.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Primeira Surpresa e a Melhor Equipa

Na estreia daquela que era unanimemente considerada como uma das principais favoritas à vitória final na competição, a primeira surpresa. Os suíços, recorrendo a uma estratégia que, para gáudio dos pragmáticos, parece ser moda neste mundial, conseguiram levar de vencida os campeões europeus. Significa isto que está encontrada a fórmula mágica para vencer os espanhóis e todos aqueles que se impõem pela posse de bola? Há quem ache que sim. O Miguel, um dos nossos leitores, disse o seguinte há uns dias:

"A atitude para ganhar a Espanha é simples: organização na defesa e não deixar-se embalar pelo joguinho deles. E ver muitas vezes o Barcelona-Inter..."

Será que o Miguel tinha razão e que os suíços, ao fazer precisamente isto, encontraram um modo infalível de vencê-los? Só um tolo poderia achar que sim. Ou alguém que não tenha visto o jogo. A Espanha dominou do princípio ao fim, criou 8 ou 9 ocasiões de golo e sofreu um muito esquisito, não num contra-ataque, como parece que querem crer, mas no seguimento de um pontapé de baliza e após vários ressaltos muito felizes. O que se pode dizer é que a razão para a Espanha não ter vencido os suíços, mais do que ter sido a estratégia dos helvéticos e a fórmula mágica do Miguel, foi o simples acaso. Só por manifesta infelicidade é que os espanhóis não ganharam o jogo inaugural e o resto é conversa. A fórmula mágica é apenas mágica para quem acredita em magia. A Espanha fez o seu jogo e encontrou uma boa resistência do outro lado. Dominou, circulou a bola e penetrou várias vezes na defensiva adversária. Se não marcou, foi porque não conseguiu concluir as muitas jogadas que criou. Mais nada. Bastava que qualquer um desses lances tivesse dado golo e os suíços tinham imediatamente de mudar de estratégia. Já a selecção helvética jogou para o empate e acabou por ganhar. É por isso que o futebol é tão fascinante, porque permite a equipas mais fracas encontrarem estratégias que podem conduzir a bons resultados, ainda que para isso dependam muito da sorte. Ao contrário, porém, de muita gente, sobretudo dos comentadores televisivos que, após o primeiro jogo, já fazem da Suíça vencedora do grupo e concedem ao Chile ou à Espanha o segundo lugar, acho que os suíços estão muito longe de terem carimbado o apuramento. Em primeiro lugar, porque terão bastantes dificuldades para vencer as Honduras, até porque os hondurenhos deverão jogar de um modo parecido com aquele em que os suíços jogaram e a Suíça tem carências ofensivas muito relevantes, e depois porque o Chile é, a par da Espanha e da Alemanha, a equipa mais interessante a nível ofensivo, não fosse treinado por Marcelo Bielsa.

É precisamente aqui que quero chegar, ao Chile. Embora os cépticos do futebol ofensivo se centrem no resultado da Espanha para justificar o seu cepticismo, houve no mesmo grupo um jogo que serviu de contraprova dessa justificação. As Honduras jogaram como a Suíça e o Chile venceu. Os chilenos, como os espanhóis, são ofensivamente muito bons. Diria, até, que são a melhor equipa da prova, em termos colectivos, neste particular. São das poucas equipas deste campeonato que opta por um só médio-defensivo e das poucas que tem movimentos verdadeiramente colectivos na base da sua estratégia ofensiva. A facilidade com que a equipa conseguiu fazer passes verticais, introduzindo a bola entre as linhas hondurenhas, tem a ver com a capacidade colectiva da equipa e com a criação constante de linhas de passe nesse sentido. Ao contrário de selecções mais cotadas, como a França ou o Brasil, só para citar dois exemplos de equipas que não conseguiram superar um bloco defensivo baixo e solidário e que revelaram uma tremenda inépcia no momento ofensivo, os chilenos souberam sempre como penetrar no bloco hondurenho. É evidente que existe qualidade individual nisto tudo, com Matías Fernandez à cabeça, bem secundado por Valdivia, Isla e Carmona, sobretudo, mas há essencialmente mão de Marcelo Bielsa na forma como o colectivo se comporta. Não admira, portanto, a extraordinária fase de qualificação dos chilenos. É de Bielsa a responsabilidade por os laterais procurarem o meio como solução de passe; é de Bielsa a responsabilidade pela formação constante de apoios próximos ao portador da bola; é de Bielsa a responsabilidade pela movimentação educada sem bola dos médios, que permite à equipa contornar as zonas de pressão dos adversários; é de Bielsa a responsabilidade pela forma como a equipa cria zonas de pressão alta eficazes. Isto é uma lição. Uma lição aos cépticos e uma lição a treinadores como Dunga, Domenech, Queiroz e Capello. Uma lição que consistiu em demonstrar que não é só o momento defensivo que pode ser fruto de trabalho de um treinador. Deu também uma lição a Carlos Carvalhal, no que toca a demonstrar que só os tolos não aproveitam os mais talentosos.

O Chile pode não ir longe, até porque além de estar incluído no grupo mais difícil da prova, está no grupo que se cruza com o segundo grupo mais difícil da prova, mas este mérito já ninguém lhe tira. Marcelo Bielsa - lembremo-nos - é o mesmo que defende que, ao contrário do que se passa no momento defensivo, o momento ofensivo tem infinitas possibilidades:

"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."

Não é por acaso, portanto, que o Chile joga como joga. O seu futebol é fruto do trabalho de um treinador que percebe que o momento ofensivo não pode ficar a cargo da inspiração dos jogadores mais talentosos, mas que deve ser, tal como o momento defensivo, resultado de um trabalho metódico do treinador. O Chile denota uma inteligência táctica, em termos ofensivos, extraordinariamente invulgar. E o que é irónico é que, numa competição em que as principais equipas europeias parecem incrivelmente ineptas do ponto de vista ofensivo, seja uma equipa sul-americana a ensinar como é que se faz. Mais irónico, só se pensarmos que, tirando a Espanha, a única equipa europeia que parece ter ideias é a selecção germânica. Num mundial em que, finalmente, parece haver mais equipas interessadas em defender do que equipas que joguem ao ataque, é de salutar que ainda existam selecções com outra filosofia. A bem do futebol, o Chile, a Espanha e a Alemanha são por isso as equipas em quem mais se deveriam centrar as atenções, sob pena de haver nova regressão na modalidade. Vamos ver que sorte lhes reserva este mundial.

P.S. Um dos comentadores do encontro do Brasil referiu, muito indignado, que um qualquer responsável norte-coreano teria sugerido que Portugal jogava como a Alemanha, e desmentiu-o categoricamente, como se isso fosse um ultraje para os portugueses. A verdade é que, como já tive oportunidade de referir, Portugal tem vindo a tornar-se, aos poucos, numa selecção germânica, uma selecção que dá preferência ao músculo e ao rigor táctico, uma selecção cautelosa, fria, mas na qual não abundam ideias. O mais irónico é que, pelo menos neste mundial, os próprios germânicos são menos germânicos que os portugueses. Por isso, se há algo a condenar na afirmação do norte-coreano, não é o facto de ser ultrajante comparar Portugal à Alemanha, mas o ultraje de comparar a Alemanha a Portugal.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ballack, Schweinsteiger, Müller e Özil

Começou o mundial e estas são as primeiras notas acerca da competição. Devo adiantar, em primeiro lugar, que o blogue não procurará acompanhar exaustiva e regularmente o campeonato do mundo. Considerações pontuais, como esta, deverão surgir de tempos a tempos, durante a prova, mas análises a jogos, perspectivas mais profundas e considerações mais atentas ficarão para os nossos artigos semanais na Academia de Talentos. Assim, para os mais interessados, após cada uma das três rondas desta primeira fase e após cada eliminatória, será possível ler as nossas considerações acerca da prova no respectivo site.

Antes de passar ao assunto alemão, gostaria de referir que, para já, a prova não tem suscitado grandes surpresas. A França é medíocre, mas ninguém, por mais ingénuo que fosse, poderia esperar muito mais. O principal problema da equipa é a incapacidade para formar apoios próximos. A equipa tenta não jogar comprido, mas os jogadores parecem sempre o mais afastados possível uns dos outros. Gourcuff, coitado, parecia ter peçonha, tal era a separação para o duplo pivot e para os extremos, demasiado agarrados às posições. Dizer ainda que, apesar da qualidade, há jogadores na selecção francesa incrivelmente sobrevalorizados: Toulalan, Anelka e, sobretudo, Govou. É quase criminoso não ter levado Nasri. Da Inglaterra, não se esperava muito mais. Mas é uma das principais favoritas. Isto porque as equipas de Capello são geneticamente assim. Pouco criativas, mal arrumadas em termos ofensivos, incapazes de criar apoios com facilidade, com poucas ideias, mas com argumentos individuais óptimos e uma consistência defensiva suficientemente boa. Contra adversários menos cotados, dão sempre a impressão de não serem capazes de exercer um domínio claro. Mas são difíceis de bater, mesmo pelas principais potências, e têm atletas que podem resolver a qualquer instante. Já a Argentina de Maradona vive de Messi. E cairá quando Messi não chegar para compensar todos os problemas tácticos desta selecção.

Agora, a Alemanha. A primeira goleada da prova dirá muito mais dos australianos do que propriamente dos alemães. Foi um teste demasiado fácil e nenhuma consideração optimista poderá ser mais do que uma precipitação. Ainda assim, não percebo o espanto de grande parte das pessoas. Tirando a Espanha, cujo futebol é de uma qualidade inigualável, os alemães tinham de vir no segundo grupo de favoritos. A qualidade da selecção germânica tem vindo a melhorar gradualmente e este ano, com alguns jovens com um futuro muito promissor, está ainda mais forte. Persistem, porém, os problemas colectivos que Joachim Löw parece não compreender. O espaço entre os dois médios e a defesa, se bem explorado, será uma vulnerabilidade demasiado grande e o sistema táctico, ainda que alimentado por alguns talentos indiscutíveis, é excessivamente rígido. Contra a Austrália, os alemães tiveram sempre espaço para trocar a bola e até para se recriarem, mas contra uma equipa que pressione condignamente terão mais dificuldades, pois não são extraordinariamente competentes a criar apoios ao portador da bola. O calcanhar de Aquiles, contudo, parece-me ser claramente a transição defensiva. Sempre que é necessário baixar rapidamente, aparece espaço para jogar. Os dois médios, já sendo poucos, tornam-se ainda mais vulneráveis por ambos parecerem ter liberdade para aparecer em zonas de finalização, e o meio-campo germânico demora bastante a reorganizar-se sempre que perde a bola.

Quanto a nomes, muito se falou de Ballack e da sua ausência. Discordo de que o carismático capitão faça alguma falta a esta equipa. Aliás, Ballack nunca foi um jogador que apreciasse muito. Trata-se de um jogador cerebral, competente na distribuição de jogo, mas com índices de criatividade banalíssimos. Emprestaria experiência à selecção, mas subtrair-lhe-ia certamente alguma da criatividade que, deste modo, possui. Schweinsteiger é quem aparece ao meio, tal como fez ao longo da época no Bayern. Há quem considere que o irreverente alemão terá encontrado finalmente a vocação certa. No meu entender, como médio, Schweinsteiger é um jogador vulgar. Além de relativamente fraco a nível táctico, com graves problemas em termos posicionais, por exemplo, não é também um jogador imaginativo. Será ele quem substituirá Ballack, nesta competição e, porventura, no futuro, mas não lhe auguro muito melhor que o antigo capitão germânico, tendo até ainda muito que trabalhar para se tornar no jogador cerebral que o médio do Chelsea é. Com Thomas Müller e Mesut Özil a história é outra. O criativo do Werder Bremen não me entusiasma tanto como à generalidade dos adeptos, sobretudo porque precisa de ser mais consistente e um jogo contra um adversário tão insignificante não é um teste suficientemente exigente, mas trata-se de um jogador imaginativo, com excelentes pés e capaz de coisas muito boas. Para muitos, foi o melhor em campo, por tudo o que fez. Mas misturou fintas e assistências interessantes com alguns momentos de irreflexão e má decisão. Müller, embora mais discreto, fez um jogo perfeito. Ainda assim, com estes dois jovens, a selecção germânica deixa de ser aquela selecção apenas forte fisicamente, reputada, com experiência e carisma, mas pouco imaginativa.

Ballack e Schweinsteiger são médios que dão continuidade à tradição alemã: experientes, seguros a distribuir, cerebrais, até, mas pouco imaginativos, pouco capazes de modificar, de súbito, as coordenadas de uma partida, não necessariamente com uma arrancada fulminante, mas com um passe menos previsível, com uma qualquer invenção de génio. Müller e Özil são muito mais talentosos. E embora ainda tenham de crescer, para o confirmar, constituem as principais referências para o futuro. A principal diferença entre um e outro, por sua vez, está essencialmente no facto de Özil ser muito mais espalhafatoso, de apostar muito mais vezes nos lances individuais, de arriscar mais no passe, etc. Por essa razão, nem sempre opta pela melhor decisão. Müller é mais inteligente, percebe melhor as necessidades da equipa a cada momento. E isto sem que signifique que não tem a capacidade adequada para fazer um passe deslumbrante, para descobrir uma solução imprevista. É por isso que a opinião foi tão favorável em relação a Özil. As pessoas não valorizam adequadamente a discrição, atributo que pode dizer muito de um atleta. Contra adversários mais competentes, Müller manterá certamente o nível exibicional. A sua inteligência e a sua maturidade assim o permitem. Já Özil, embora se possam sempre esperar dele rasgos formidáveis, estará muito mais vulnerável a oscilações de exibição e desaparecerá do jogo com muito mais facilidade, sempre que não for capaz de deslumbrar como deslumbrou neste primeiro desafio.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Previsões de Ano Novo

Em futebol, fazer previsões sem as justificar é algo que parece muito pouco interessante. Nem foi nunca algo que me cativasse. Fazer previsões é, desse ponto de vista, como dar palpites, como tirar à sorte. Interessa, sobretudo, saber que fundamentos levam alguém a predizer algo. Este espaço foi sempre um espaço de fundamentos, um espaço mais preocupado com os processos que conduzem a uma determinada conclusão do que com a conclusão em si. Ainda assim, porque esta é uma altura em que é costume fazer-se este tipo de coisas, farei as minhas previsões, anunciando de antemão que a elas, embora só por quatro ou cinco linhas justificadas, presidem razões e convicções profundas.

1. Vencedor do Campeonato Português: Benfica. Acredito que este é o ano dos encarnados e acredito nisto mais ou menos desde o início da prova. A boa prestação do Braga até aqui tem ensombrado, de alguma maneira, a boa prova da equipa de Jorge Jesus, com percalços aqui e ali justificados pelo facto de se ignorarem os melhores princípios da equipa, mas a segunda parte do campeonato será o derradeiro teste à turma da Luz. O embate com o Porto, além de mostrar que o Benfica não vinha em decréscimo de produção, terá mostrado finalmente que a equipa de Jorge Jesus é o mais sério candidato ao título.

2. Vencedor do Campeonato Espanhol: Barcelona. Está tudo em aberto e o Real Madrid conseguiu um início de campeonato muito bom. Não foi tão assertivo quanto o Barcelona, ganhando vários jogos com muito sofrimento, mas conseguiu, pelo menos, manter-se colado ao líder. O Barcelona, no entanto, tem sido igual a ele próprio e, com o regresso em pleno de Iniesta espera-se que volte a ser regular como antes. A equipa está a jogar ainda melhor do que o ano passado e se as lesões não perturbarem a segunda metade do campeonato, o principal problema deste Barcelona, o plantel pequeno que possui, não ficará manifesto.

3. Vencedor do Campeonato Italiano: Inter. Em Itália, antevi no início da época que a Juventus era a equipa que melhor poderia fazer frente ao Inter de José Mourinho. Percorrido que está metade do caminho, a Juventus parece estar mais próxima da qualidade do Milan do que da do Inter. Assim sendo, e não me parecendo que venham a ocorrer modificações exibicionais extraordinárias, o Inter continuará a ser o único candidato ao título. Será mais um êxito na carreira de Mourinho, ainda que não coroado do brilho de outrora.

4. Vencedor do Campeonato Inglês: Arsenal. Quando o Arsenal perdeu com o Chelsea, parecia irremediavelmente afastado da luta pelo título. As últimas jornadas, com os sucessivos empates do Chelsea, colocaram porém a equipa de Arséne Wenger novamente na rota do título. Se ganhar o jogo que tem em atraso, o Arsenal fica apenas a 1 ponto do Chelsea, com a equipa comandada por Carlo Ancelotti a ter de jogar em Janeiro sem Drogba e Kalou, e tendo ainda Anelka lesionado. Com esta conjectura e a jogar o que está jogar, o Arsenal tem tudo para se impor. É a equipa que melhor futebol pratica em terras de Sua Majestade. O Manchester também terá uma palavra a dizer, mas parece-me francamente debilitado e dependerá muito dos desempenhos dos outros dois candidatos.

5. Vencedor do Campeonato Francês: Bordéus. Em França, o Bordéus não tem dado propriamente grandes hipóteses. Lyon e Marselha, os mais apresentáveis dos rivais, têm sido bastante irregulares e a equipa comandada por Laurent Blanc já leva uma vantagem considerável. Gourcuff e companhia são, também por isso, a minha aposta.

6. Vencedor do Campeonato Alemão: Bayern. O Bayern de Louis Van Gaal não começou bem, mas a recuperação é visível. Não só conseguiu o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, como está apenas a dois pontos da liderança do campeonato. A segunda volta deverá consolidar as ideias do controverso treinador holandês e o tempo tenderá a fortalecer esta equipa. Como a concorrência no campeonato alemão não é muito forte, o Bayern, ainda com alguns deslizes, é o grande favorito à vitória final.

7. Vencedor da Liga dos Campeões: Barcelona. A minha aposta é, uma vez mais, o Barcelona de Guardiola. Seria a consumação final daquela que é a melhor equipa de sempre e o lugar no Olimpo que tanto merece. Nunca uma equipa venceu por duas vezes seguidas a Liga dos Campeões, mas nenhuma também apresentou o futebol que esta equipa apresenta. Dependerá, como é óbvio, da fortuna das lesões e da sua capacidade para se superar continuamente. Ainda assim, acredito que é o candidato que reúne melhores condições.

8. Vencedor do Campeonato do Mundo: Espanha. A Espanha é a equipa que melhor colectivo apresenta. Neste tipo de provas, é sabido, isso não chega. Quando toca a eliminar, e ainda por cima a uma só mão, os melhores nem sempre se consagram. Ainda assim, e com as melhorias que a equipa teve em termos de competitividade sob o comando de Del Bosque, é a formação que me parece melhor preparada. Ainda estamos longe da prova e em seis meses muita coisa pode acontecer. Como acontece nestes torneios, dependerá muito da forma em que os jogadores chegarem à África do Sul.

9. Participação de Portugal no Campeonato do Mundo: Oitavos de final. A Espanha deverá passar em primeiro lugar, no seu grupo, e Portugal terá a difícil missão de se apurar à frente do Brasil ou da Costa do Marfim. Nenhum dos adversários será fácil, mas numa competição deste género é difícil fazer previsões acertadas no que diz respeito a um conjunto de três jogos. Ainda assim, os campeonatos recentes mostraram que a capacidade de superação da equipa lusitana neste tipo de competição é notável. É claro que isso era com Scolari e tudo pode ser diferente agora. Tendo em conta a dificuldade do grupo, a qualidade do futebol apresentado durante a fase de apuramento e a equipa técnica comandada por Carlos Queiroz, a eliminação logo na fase de grupos não seria de espantar. Mas admito que Portugal consiga superar essa primeira fase. A partir daí, já acho mais complicado.

10. João Pereira. É um dos nomes sonantes da reabertura do mercado. Ao contrário da maioria, acho que João Pereira está longe de ser um grande lateral direito. É um jogador rápido, muito agressivo, mas tem pouco mais que isso. Chega a um grande depois de ser um dos principais protagonistas, do ponto de vista do comum adepto, do Braga. Há alguns anos, morava em Braga um lateral direito em tudo idêntico ao que é hoje João Pereira: um jogador veloz, que participava muito nas investidas ofensivas da equipa, e que era tido como o melhor lateral direito a jogar num clube que não um grande. Alguém se lembra de quem era? Na altura, ao contrário do comum adepto, achei que a sua vinda para um grande lhe tornaria visíveis as debilidades. Assim foi. Entendo que João Pereira venha a ter um destino parecido. Os seus problemas posicionais, a má leitura dos lances, as más decisões com bola são coisas que no Braga não são tão importantes. No Braga, esse tipo de problemas é algo que mais jogadores possuem. Por isso mesmo, a exigência no Braga é mais baixa. No Sporting, não terá Alans, Vandinhos, Moisés, Evaldos ou Paulos Césares com quem se comparar. Terá jogadores de maior craveira, jogadores mais perfeitos, que cometem menos erros. Os problemas de João Pereira, no Sporting, serão por isso mais evidentes. É óbvio que pode corrigi-los, mas não é algo que consiga fazer de um dia para o outro. Pode até, porque a equipa está a atravessar um mau momento, conseguir destacar-se. Quando as coisas estão mal, normalmente jogadores vistosos como ele, jogadores que fazem das suas características físicas e técnicas as suas mais-valias, são mais apreciados. Mas dificilmente conseguirá construir uma carreira sólida, regular. João Pereira não é muito diferente de Nélson, por exemplo, se bem que não tão bom tecnicamente. É um lateral ofensivo, que pode causar desequilíbrios quando apoia o ataque, mas a qualidade das suas decisões e a sua capacidade defensiva não é brilhante. Nélson durou um ano, num ano em que a equipa do Benfica pouco ou nada jogava. Depois, quando foi preciso evoluir, estagnou, cometeu erros e foi-se embora. João Pereira será assim tão diferente? A minha previsão é que não trará ao Sporting a tão desejada qualidade para a lateral direita.

Antes de acabar o ano, gostaria ainda de fazer referência a um projecto em que eu e o Gonçalo estamos inseridos há aproximadamente três meses. Os mais atentos terão talvez estranhado a ausência, há já algum tempo, de textos sobre uma determinada jornada ou sobre a generalidade da actualidade futebolística. A ausência desses textos explica-se porque todas as semanas escrevemos um texto para o jornal online "Academia de Talentos" com esse tipo de conteúdos. Aqueles que nos quiserem seguir ainda mais podem sempre procurar os nossos textos na Área Técnica do respectivo jornal. A ligação encontra-se entre as várias ligações aqui ao lado. O "Academia de Talentos" é, possivelmente, o local com mais e melhor informação sobre a actividade futebolística a nível dos escalões de formação. Nesse aspecto, a sua relevância está para além de qualquer dúvida e qualquer pessoa que esteja interessada em acompanhar o que se passa na actualidade desportiva nos mais variados escalões de formação terá interesse em consultar com regularidade o jornal. Mais recentemente, o jornal tem procurado evoluir noutros sentidos e expandir os seus horizontes. O espaço designado por "Área Técnica" reúne, por isso, textos de outro carácter e com outros conteúdos. É precisamente nesse projecto que colaboramos e, além de nós, podem ser encontrados textos de outros bloggers que, normalmente, valem a pena ser lidos, como os do Pedro Bouças e do Rodrigo Rodrigues, do blogue "Lateral-Esquerdo" ou os do Paulo Santos, do "Apenas Futebol". Fica o anúncio e o convite, claro...