Grupo A
sábado, 16 de junho de 2012
Euro 2012 - 2ª Ronda
Escrito por Nuno às 18:19:00 9 bolas ao poste
Etiquetas: Benzema, Cristiano Ronaldo, Euro 2012, Giovinco, Pirlo, Postiga, Raciocínios Tácticos
domingo, 29 de abril de 2012
Jornal O Idiota!
É o que me surge, ao vislumbrar a primeira página do jornal deste Sábado: " Desgaste provocado pelo português decisivo para o adeus do catalão" ou " Aposta do Real Madrid no projecto Mourinho provocou rombo no porta-aviões culé" foram as frases que me arrebataram a atenção. Já é sobejamente conhecida a fidedignidade de grande parte dos artigos deste jornal, mas ainda assim, perante tamanha estultícia, nem o parco respeito que destilo pelo jornal A Bola me prevenira para a sua parangona. Piorou, no entanto, a minha incredulidade, ao ler as linhas que se encerravam sobre a despedida de Pep.
Miguel Correia assinou a crónica ataviada das seguintes pérolas: "uma certeza: um dos aspectos que mais terá contribuído para o desgaste do ainda responsável pelo Barcelona terá sido a guerra de palavras protagonizada por José Mourinho, treinador do Real Madrid, mind games tanto do agrado do técnico português e aos quais Josep Guardiola esquivou-se permanentemente, direcionando o seu discurso,educado, sempre noutras direções. Mas há quem defenda que, afinal, o técnico, que ainda não digeriu o último desaire contra o Real, atirou a toalha para o chão, temendo que, na próxima época, Mou ganhe os títulos mais importantes, uma atitude bem diferente da que mostrou na sua carreira de jogador, isto é, nunca se rendia as adversidades".
Tanta patetice deixou-me perdido, confesso. Não percebia se isto se tratava de uma peça humorística, ou se era apenas idiotice do Sr. Miguel Correia. Idiotice, afinal. Acho piada uma pessoa aludir a uma suposta cobardia de Guardiola, sendo que ele próprio,o Sr. Miguel Correia, abafado que está nesse lamaçal, inventa personagens para assim poder, da forma mais cobarde possível, apelidar Pep de cobarde. Depois, a convicção que coloca numa crença absolutamente idiota, quase religiosa, de que Guardiola está desgastado pela sua relação com Mourinho. Ele, Pep, que nunca adaptou a sua equipa a terceiros, que se centrou única e exclusivamente no aperfeiçoamento do seu modelo, encontrava-se desgastado pela acção de terceiros? Que estupidez!
Um aparte, em que prometo ser breve, sobre Mourinho e Ronaldo. Que são, cada um no seu espaço, elementos de enorme valia, ninguém dúvida, mas esta coisa absurda de os colocar acima de todos só porque são portugueses não encerra em si mesma a mais caluniosa das ofensas? Não será este tipo de xenofobismo a forma mais primitiva de, na sua miserável existência, se sentirem minimamente importantes? Se Mozart teve piolhos, estas pessoas dariam tudo para trocar a sua vida pela desses parasitas.
Depois, na sua habitual crónica, surge Luís Freitas Lobo. Freitas Lobo faz-se acompanhar sempre de uma elegância tremenda, evitando ao máximo melindrar quem quer que seja; porém, encontrei na crónica deste Sábado elemento que justificam reparos. Na sua coluna de opinião, intitulada "As verdades do Futebol", Freitas Lobo dá a entender que a abordagem efectuada pelo Chelsea foi meritória. Isto porque, no seu entender, os 73% de posse de bola do Barcelona estiveram sempre controlados, apesar de 2 bolas no ferro, duas enormes defesas de Petr Cech, (e já nem vale a pena abordarmos o que se passou na primeira mão). Mais, a diferença que Freitas Lobo apregoa deste Barcelona para o que venceu na época passada assenta, segundo ele, na estrutura. Critica o 343 de Guardiola, defendendo que "nenhuma equipa no futebol moderno resiste a este desequílbrio posicional", ignorando o que na realidade contribuiu para o falhanço deste ano, para além de circunstâncias relacionadas com o lado caótico do jogo, como o acaso, ou seja: as opções infelizes que o próprio Guardiola reconheceu ter tomado, assim como aquelas de que ele não falou, como seja o caso de Piqué.
O cronista português podia ter abordado a "aparente má época de Guardiola" através das suas opções, mas quis encontrar uma justificação mais elaborada, o que resultou num redundante engano. Mais, ao afirmar que nenhuma equipa no futebol moderno está preparada para o desequilibrio estrutural de que fala, Freitas Lobo ignora o essencial sobre esta equipa: as regras que se aplicam ao restante universo futebolístico não se podem notar na equipa catalã; as regras são diferentes, por que um diferente paradigma assim o obriga. No futebol moderno, como ele defende, a tendência empurra as equipas para atribuirem uma maior importância aos factores físicos. Esse nunca foi um ponto importante na equipa de Guardiola, e, apesar disso, esta "inferior" equipa, no que aos aspectos físicos diz respeito, dominou o futebol mundial nos últimos 4 anos ao mesmo tempo que lançou mais de 20 miúdos na ribalta. Não sei a partir de que data devemos começar a definir o "futebol moderno", mas esta supremacia contraria, de forma clara, a sua sugestão de que o sucesso na Europa responde a uma superioridade física de umas equipas sobre outras.
Termino com uma frase de bancada, com que ele nos brinda, na sequência da que já salientei sobre a mudança de estrutura no conjunto catalão: "Realidade tática agravada com o facto de, contra o Real, forte no jogo aéreo, o central eleito(Puyol) ter apenas 1.78metros". Não sei o que dizer, nem consigo encontrar no jogo contra o Real indícios de que o que é defendido nesta frase encerra o mais ínfimo sentido. À excepção dos últimos 10 minutos, em que existiu algum desnorte do Barcelona, o Real não conseguiu beliscar sequer a superioridade do seu adversário. As melhores oportunidades de golo, de todo o jogo, foram as duas do Barcelona. Os golos do Real resultam de erros a que nada corresponde a baixa estatura de Puyol (o primeiro golo surge de um ressalto, e no segundo Valdés não está isento de culpas), e, sendo assim, não consigo descortinar a relevância dos centimetros a menos de Puyol.
Escrito por Gonçalo às 11:36:00 26 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Cristiano Ronaldo, Guardiola, Luís Freitas Lobo, Mau Jornalismo, Miguel Correia, Mourinho
terça-feira, 27 de março de 2012
O Coice de Ronaldo
O espanto com a definição do lance tem sobretudo a ver com a imprevisibilidade do seu desfecho. E é por aqui que começo. De facto, ninguém esperava que Ronaldo, de costas, sem se virar, tentasse alvejar a baliza. Por si só, a imprevisibilidade é, obviamente, uma grande arma. Na minha opinião, no entanto, essa imprevisibilidade só deve ser alvo de admiração se de facto lhe corresponder algo genial, algo que surpreendesse o adversário fosse qual fosse o desfecho. O que estou a tentar dizer é que não é a imprevisibilidade do desfecho que merece reconhecimento, mas a imprevisibilidade da acção em si. E, honestamente, o golo de Ronaldo só gerou admiração porque a bola, realmente, entrou na baliza. Se não tivesse entrado, como seria o mais provável, a tentativa não seria senão um disparate de todo o tamanho.
Isto das más decisões tem obviamente muito que se lhe diga. Para aqueles que não lhes dão importância, o que interessa é que a bola entrou, o que interessa é que o resultado dessa decisão, por imprevisível, foi bonito. O problema dessas pessoas é a importância excessiva que dão ao resultado das acções, e não às acções em si. A probabilidade de aquele coice dar golo era baixíssima. Diria até que a probabilidade de aquele coice dar golo era mais baixa do que se Ronaldo tivesse dado um pontapé na direcção de Casillas, de modo a iniciar nova jogada de ataque do Real. No entanto, deu golo. Será isso motivo de aplauso? A meu ver, não. Da mesma forma que um autogolo não é festejado como um grande golo, um golo fortuito também o não deveria ser. Mas como foi de calcanhar, como ninguém esperava aquilo, transformou-se uma banalidade num lance de génio. Ronaldo não foi genial; foi disparatado. Acontece que em futebol, por vezes, um disparate é facilmente confundido com uma genialidade.
O golo de Ronaldo garantiu a vitória do Real Madrid, em mais um jogo francamente mau do Real Madrid. Como em muitos outros jogos desta época, o Real voltou a vencer sem fazer o suficiente para isso. O próprio Mourinho reconheceu que o resultado mais justo, nessa partida, teria sido o empate. Aliás, já nos descontos, o Rayo Vallecano desperdiçou um lance óptimo para empatar a partida, com um avançado a falhar a emenda a menos de um metro da linha de golo, sem ninguém pela frente. O coice de Ronaldo é pois a melhor imagem possível de muito do que tem sido a época do Real Madrid. É verdade que, em muitos jogos, o Real jogou bem e mereceu vencer. Ainda no passado fim-de-semana, frente à Real Sociedad, mereceu amplamente o resultado obtido. Mas as exibições da equipa não foram minimamente regulares, ao contrário do que o ciclo de vitórias consecutivas sugeria. Em muitas ocasiões, o Real venceu apenas porque sim, porque os adversários falharam em momentos chave, porque os árbitros ajudaram, porque as vicissitudes do acaso estiveram do seu lado, porque, substituindo-se à inspiração, um coice qualquer fez entrar uma bola que não entraria de outro modo.
Já o disse várias vezes, e volto a dizê-lo: acho difícil que uma equipa, sobretudo num campeonato como o espanhol e com um adversário como o Barcelona, consiga ser campeã dependendo tanto e tantas vezes de factores como estes, mas a verdade é que, quando o Real venceu esse jogo (na altura, mantendo a distância de dez pontos), pensei que talvez aquele coice fosse o sinal de que, esta época, tudo os protegeria. Como é evidente, há sempre excepções à regra, e se, depois de ganhar vários jogos que não merecia, até com um coice o Real evitava perder dois pontos, talvez fosse prudente reconhecer que, este ano, mesmo não o merecendo, o ceptro iria para Madrid. Algumas semanas depois, porém, o Real começou a perder os pontos que deveria ter começado a perder há muito mais tempo. Em mais dois jogos em que não fez absolutamente nada para sair vencedor, eis que viu a vantagem emagrecer para 6 pontos (sabendo ainda que tem de ir a Camp Nou). Se, na altura, aquele coice me fez pensar que este ano nada os faria cair, agora já não tenho tantas certezas. Sendo verdade que o Barcelona tem no próximo fim-de-semana, entre dois jogos europeus difíceis com o Milan em 6 dias, a recepção sempre perigosa ao Athletic de Bilbao, o calendário do Real Madrid até à deslocação à Catalunha é muito mais complicado: deslocação a Pamplona para defrontar o Osasuna, actual sexto classificado (onde o Barça, por exemplo, perdeu), recepção ao Valência, e deslocação ao Vicente Calderón, três dias apenas depois do jogo com o Valência, para enfrentar um Atlético de Madrid muitíssimo agressivo, desde que Diego Simeone tomou o comando da equipa. A menos que mantenha a vantagem actual de 6 pontos até ir a Camp Nou, o que implicaria passar com distinção em qualquer um dos jogos acima referidos, o campeonato está agora longe de estar decidido. Mais do que nunca, até porque o Real terá ainda de ir a Bilbao, a equipa de Mourinho precisa de coices como o do jogo com o Rayo Vallecano para continuar a ser o principal favorito à vitória final. O mês de Abril será, para essas contas, certamente decisivo.
Escrito por Nuno às 11:05:00 27 bolas ao poste
Etiquetas: Cristiano Ronaldo, Lances, Raciocínios Tácticos, Real Madrid
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Diferenças Incomensuráveis
Diferenças que os Números não Mostram
Comecemos pela asneira da contabilização final dos golos marcados e dos golos sofridos no campeonato, que certos papalvos usaram não só para tentar mostrar que Mourinho trouxe ao Real uma capacidade competitiva semelhante à do Barcelona, como para vender a ideia de que, ao contrário das críticas que se lhe foram fazendo, não é um treinador assim tão defensivo e não mudou de ideias quanto a isso ao longo da sua carreira. Já expus aqui, num texto escrito antes de Mourinho rumar a Madrid, aquilo que penso quanto à sua carreira, e esta época comprovou tudo isso. Muito resumidamente, Mourinho mudou de crenças sensivelmente na passagem da segunda para a terceira época em Londres. A razão para tal, defendi nesse texto, foi a obsessão crescente com a revalidação do título europeu, que lhe fugiu nos primeiros dois anos de Chelsea em eliminatórias com Barcelona e Liverpool. As equipas de Mourinho passaram por isso a ser mais especificamente orientadas para competições a eliminar, mais centradas nos pormenores. E perderam, com isso, capacidades em provas regulares. Isso foi o suficiente para, não perdendo competitividade, não ganhar o título inglês na terceira época. Em Itália, o seu Inter foi o espelho disto, uma equipa muito mais pobre em organização ofensiva que o seu Chelsea e que o seu Porto, mas letal em transição e muito bem organizada atrás. Venceu o campeonato italiano, não sem algumas dificuldades, porque a concorrência interna não era forte. Em Madrid, mais do mesmo, e uma Liga que começou a ficar resolvida muito antes do embate final, na trigésima-segunda jornada, entre os dois rivais. O seu Real, ainda que sem dificuldades em ultrapassar os obstáculos noutras provas, apenas constitui ameaça ao Barcelona na primeira volta do campeonato. E isso diz muito das competências dessa equipa.
Passemos agora aos números. Ao contrário do que alguns idiotas chegaram a escrever, ao ultrapassar a barreira dos cem golos, Mourinho não fez algo que o Barcelona de Guardiola nunca tinha feito. Na primeira época de Guardiola, a sua equipa averbou 105 golos. Em segundo lugar, 102 golos foi exactamente o que Pellegrini obteve o ano passado, com a agravante de que não teve 6 jornadas de descompressão para golear adversários, nem um último jogo com uma equipa despromovida. Aliás, à jornada 32, o ano passado, o Real já tinha 85 golos marcados, mais 12 que este ano, e levava mais 5, na altura, que o Barcelona. Não precisou de andar a golear 6 jornadas seguidas, sem pressão de outros objectivos, para superar a marca dos 100 golos. Por isso também por aqui não é algo de verdadeiramente extraordinário. Aliás, esquece-se esta análise, porventura, que o Real terminou o campeonato a 4 pontos do Barça, quando o ano passado Pellegrini o terminou a 3, e que fez 92 pontos, quando o ano passado o tinha feito 96. Além disso, ficou a 4 porque o Barcelona, virtualmente campeão, desacelerou e perdeu 4 pontos. Ao contrário da época passada, também, em que Pellegrini conseguiu arrastar a decisão do campeonato até à última jornada, o Barcelona este ano sagrou-se campeão ainda com 3 jornadas para disputar. O Real de Mourinho só foi superior ao de Pellegrini em outras competições, em competições a eliminar. No campeonato não o foi. E não se aproximou do Barcelona, como se quer fazer crer. Aliás, muito dessa análise vem dos 5 confrontos ao longo da época entre as 2 equipas, em que se achou que o Real fez tremer mais o Barcelona do que no passado recente. Mas se a indecisão da Champions e a vitória merengue na Taça podem sustentar essa teoria, ao mesmo tempo Pellegrini também não foi esmagado como o Real de Mourinho na primeira volta do campeonato, tendo perdido apenas por 1-0 e 0-2.
Mas analisemos de perto os números do Real. É que não é possível separar o registo final do facto de as últimas 6 jornadas terem sido jogadas sem pressão, com objectivo prioritário de fazer de Ronaldo o melhor marcador da prova. Nessas 6 jornadas, com uma equipa de tracção à frente, o Real marcou 29 golos, sofrendo 10. Ou seja, em 6 jornadas, marcou praticamente um terço dos golos que marcou no campeonato inteiro (no restante campeonato, a média de golos do Real era de 2,28 golos por jogo. Nessas 6 jornadas foi de 4,8 golos por jogo, o que significa que aumentou a sua produção ofensiva em mais de 100%, tendo feito a média geral subir para 2,68 golos por jogo) e sofreu quase um terço dos golos que tinha sofrido no campeonato inteiro. Em 6 jornadas! Ou seja, em 6 jornadas, o Real marcou e sofreu muito mais golos, em média, do que marcara e sofrera até aí. Isso demonstra que essas 6 jornadas não foram encaradas do mesmo modo que as restantes 32. E não o foram pelas 2 razões que apontei acima, por haver uma descompressão natural, devido à impossibilidade de chegar ao título, e por haver o desejo de fazer de Ronaldo o melhor marcador do campeonato. Por isso, devem-se analisar os números tendo isto em atenção. À 32ª jornada, o Real tinha 73 golos marcados, menos 12 que o Real de Pellegrini, o ano passado, à mesma jornada, por exemplo.
O campeonato terminou à jornada 32, com o empate no Bernabéu. Nessa altura, o Barça tinha 86 golos marcados, mais 13 que o Real, que tinha 73. O que aconteceu daí para a frente foi consequência de um final de campeonato em que uns queriam apenas gerir esforços e outros queriam sair de cabeça erguida. O Real, sem nada a perder, sem pressões, fez 29 golos em 6 jogos. O Barcelona não manteve a bitola, concentrado noutras provas e a gerir a confortável vantagem pontual que adquirira, e marcou apenas 9 golos em 6 jogos. Aliás, nessa altura, Messi tinha mais 2 golos do que Ronaldo. As contas finais mostram uma realidade diferente, que ignora esta análise. Nem Ronaldo foi substancialmente mais eficaz que Messi, nem o Real se mostrou uma equipa mais concretizadora que o Barcelona. Simplesmente, o Barcelona tinha um objectivo que estava praticamente alcançado e deixou de se preocupar com objectivos menores, que o Real e Ronaldo perseguiram e que agora os devotos acham que revelam uma aproximação ao adversário. Não revelam nada disso, obviamente.
É este, muitas vezes, o problema da análise estatística: acha-se que analisar é olhar para números e tirar conclusões, mas não é. Para analisar, é preciso perceber o porquê das coisas. Sempre! E uma análise correcta destes números mostra aquilo que acabei de mostrar, que o Real só conseguiu a produção ofensiva e só conseguiu mais golos marcados que o Barcelona por o campeonato ter ficado resolvido tão cedo. Isto é absolutamente inequívoco e qualquer pessoa inteligente e honesta o percebe. Mas quando o argumentei, em discussão com pessoas que defendiam as teses acima criticadas, a resposta que me deram foi que faço inversões de raciocínio e que não percebo nada de números, o que é - diga-se - uma boa resposta, para quem não percebe nada de argumentos. Enfim, os devotos das calculadoras, assim como os tolos, acham que estes números revelam que o Real de Mourinho se aproximou do Barcelona de Guardiola, na esperança de que o monstro blaugrana caia num futuro próximo. Aquilo que os move, no fundo, é a uma determinada fé, uma qualquer irracionalidade que acreditam expressar-se em certos milagres como este, que depressa se percebe que não é milagre nenhum. De resto, acabam por valorizar o sucesso do Barcelona mais pelo medo, pelo mesmo medo do incompreensível que é aquilo que melhor caracteriza os que não percebem a profunda diferença que esta equipa representa. E, como têm medo de um monstro que não compreendem, acham sempre que aquele que está mais perto de vencê-lo é o maior dos heróis humanos, ou seja, o mais competente entre aqueles a quem conseguem perceber as competências. O problema é que, apesar de Mourinho ser o mais competente treinador de futebol do mundo, e o Real a mais competente equipa do mundo, e Ronaldo o melhor jogador do mundo, isso não chega. É que Guardiola, o Barcelona e Messi não são deste mundo. E aquilo que fazem nem sequer é jogar futebol; é outro desporto. A diferença entre eles não é de grau, mas de espécie.
As diferenças entre estas duas equipas não são expressas pela diferença final de 4 pontos; nem sequer pela diferença de 8 pontos após o clássico; nem pela diferença, favorável ao Barcelona, de 5 golos na diferença entre golos marcados e golos sofridos; nem pela indecisão quanto a quem seguia em frente na Liga dos Campeões. Isso são contingências das regras do jogo. Uma vitória, seja categórica ou não, conta apenas 3 pontos; uma eliminatória, sendo disputada até ao fim ou não, vale sempre pela vitória. Nada disso demonstra a real diferença entre estas duas equipas, que é incomensurável. A única coisa numérica que reflecte, ainda que de um modo pouco evidente, a diferença entre as duas equipas, é a média de posse de bola. A teoria convencional sobre a posse de bola diz que ter mais bola não significa ter o domínio de jogo. Concordo inteiramente com isso. O problema é que essa teoria é correcta para casos de posse de bola até aos 60%, que é o que uma equipa que domina um jogo normalmente consegue. 60% de posse de bola não é suficiente para que possa fazer a mínima diferença. Mas uma equipa que consegue ter, em média, uma posse de bola acima dos 70% não pode estar ao abrigo do mesmo tipo de teoria. O tipo de competências tem de ser necessariamente distinto e, para estes, realmente, a quantidade de posse de bola representa o domínio do jogo. Nenhuma outra equipa, na História do Futebol, conseguiu números de posse de bola sequer semelhantes a estes. E é por isso que nenhuma equipa na História foi tão claramente superior aos adversários como este Barcelona. Estes números incríveis, incomensuravelmente diferentes de quaisquer outros números até hoje vistos, são a causa principal da grande diferença que separa esta equipa de qualquer outra. Dizê-lo não é, como pode parecer, sustentar que a única causa desta supremacia é o que o Barcelona faz com a bola. Pelo contrário, é dizer que o que fazem com a bola está intimamente ligada a tudo o resto. Se o pressing não fosse extraordinário, se o colectivo não estivesse bem mecanizado e os jogadores não pensassem da mesma maneira, se a preservação da posse de bola não fosse o principal critério, deste a pequena área defensiva até à área adversária, se não houvesse competências técnicas e intelectuais extraordinárias em cada um destes jogadores, se a capacidade de decisão não fosse alta, esta quantidade de posse de bola não seria possível. A posse de bola é o retrato fisionómico deste Barcelona, e são os números avassaladores dessa posse de bola que mais e melhor definem o fosso que separa esta equipa das restantes equipas que praticam esta modalidade, a mesma apenas por força das circunstâncias.
Ronaldo e Messi
Ronaldo é o melhor jogador do mundo, mas Messi não é deste planeta, e esse vai ser sempre um problema para Ronaldo. O madeirense é uma máquina perfeita e a sua determinação qualquer coisa sem paralelo na História do Futebol. Mas não tem um talento extraordinário, como aqueles que figuram no Olimpo dessa História, e isso é talvez o mais importante. Surpreendeu-me sempre a sua evolução e reconheço que não esperava que vingasse com tanta facilidade em Espanha. Acontece que nunca parou de evoluir e que melhorou muito os seus pontos fracos, como a capacidade de decisão. É hoje um jogador praticamente completo, faltando-lhe apenas aquilo que o poderia fazer melhor que Messi, a genialidade. É um jogador que corresponde bem a tudo o que se espera dele, mas não tem génio. O seu futebol assenta na perfeição humana, não nas qualidades divinas, como o argentino. Compará-los, por isso, é absurdo, sim, mas não por a comparação ser inútil; não se podem comparar porque são de espécies diferentes. Se a qualidade de um jogador se medisse pela soma das coisas que consegue fazer, Ronaldo seria incomparável. Mas a qualidade de um jogador mede-se pelo talento, pelo génio, pela classe, pela capacidade para fazer coisas que ninguém espera. Messi é muito mais imprevisível e resolve problemas muito mais difíceis. Ronaldo supera a força com a força, a altura com a altura, a velocidade com velocidade. Messi supera esses obstáculos com o seu talento. A essas coisas responde com virtuosismo. É pela natureza das dificuldades que um determinado desafio impõe a quem o enfrenta que se descobre quais os melhores entre os que o enfrentam. É assim em qualquer arte. Se Ronaldo fosse pintor, pintaria muito, responderia a todas as encomendas que lhe fizessem, pintaria mais rápido que qualquer outro pintor, pintaria de forma mais perfeita aquilo que lhe encomendavam, e seria venerado pela sua competência. Mas Messi pintaria com mais virtuosismo, pintaria de um modo inesperado, vencendo todos os desafios técnicos não com competência mas com génio. Ronaldo é o protótipo do artífice; Messi o do artista genial. Aliás, nem Maradona, nem Zidane, porventura os mais geniais de todos os futebolistas da História, podem já ser comparados ao pequeno craque argentino. As coisas que faz em campo e a regularidade com que as faz são inequívocas. É verdade que ainda lhe falta atingir o sucesso ao nível de selecções que os outros atingiram, mas isso é apenas um pormenor. A genialidade de Messi já há muito ultrapassou a dos mais geniais de sempre. E quem quer que veja agora um jogo de Messi, deve vê-lo com a consciência de que, no futuro, é sobre ele que falarão os livros.
A Melhor Estratégia para Derrotar o Barcelona
Uma das coisas que tem sido mais debatida sobre este Barcelona tem a ver com a forma mais eficaz para contrariar o seu futebol. Aliás, a simples discussão acerca deste ponto demonstra o quão diferente é esta equipa. Nunca uma equipa fora alvo de um debate tão amplo acerca das possibilidades estratégicas para a derrotar. Ora, uns defendem que, não podendo contrariar o seu futebol na sua essência, que consistiria em retirar-lhe a bola, a melhor estratégia é, entregando-lhe a iniciativa, defender, mais alto ou mais baixo, provocar o erro, e jogar insistentemente em transição, no máximo com três toques. Foi isto que o Real Madrid fez, como já várias outras equipas o tinham feito, com mais ou menos sucesso. Onde me parece que o Real Madrid foi mais exigente foi precisamente no modo como nunca quis a bola, quando a recuperava. Sempre que, ao terceiro toque, a bola ainda não tinha passado o meio-campo, gerava-se imediatamente entre os jogadores um certo tipo de pânico característico de quem está preocupado com o que fazer. Dentro deste tipo de estratégia, é também possível discutir se é mais eficaz pressionar alto ou pressionar baixo, condicionar a saída de bola por um dos centrais ou pelo outro, ect.. Mas, na generalidade, o tipo de estratégia é idêntica: contrariar o futebol do Barcelona opondo-lhe um futebol antagónico, contrariar uma equipa que ataca muito bem defendendo ainda melhor. Há outra solução, até agora raramente tentada, que passa pela estratégia oposta, ou seja, contrariando uma equipa que ataca muito bem não a deixando ter o instrumento que faz dela uma equipa atacante, ou seja, a bola. Não deixar a outra equipa ter a bola só é possível de uma maneira, tendo a bola. Pressionar muito alto, ser muito agressivo, não permitir a circulação de bola do adversário, são tudo formas de defender sem bola. Mas, se se for competente a preservar a bola, defende-se de uma equipa que é forte quando tem a bola não lhe permitindo tê-la.
Poucas equipas, até agora, o tentaram, por duas razões diferentes: a primeira, por medo de que, ao tentar ter a bola, se cometam erros de que depois os catalães se aproveitem. Sobre isto, tenho várias coisas a dizer. Há maneiras e maneiras de ter a bola. Se, de facto, para ter a bola a equipa se desorganiza, mais vale não tê-la, porque o Barça irá aproveitar necessariamente essa desorganização. Mas há maneiras de ter a bola sem provocar desorganização própria. As melhores equipas do mundo a trocar a bola não ficam expostas quando a perdem porque a própria posse e circulação de bola correctas implica uma precaução com o momento da perda. O Barcelona, por exemplo, apesar de envolver sempre muita gente no processo ofensivo, tem sempre uma estrutura de apoios e coberturas que faz com que o momento da perda de bola não seja necessariamente danoso. Por isso, para uma equipa que sabe trocar a bola, que o faz bem, ter medo de perdê-la não deveria ser uma razão para abdicar dessa estratégia. Aliás, o Barcelona não é sequer uma equipa especialmente forte em transição. A segunda razão tem a ver com a competência para o fazer. É que não basta vontade. Não defendo que o Real Madrid deveria ter tido outra postura naqueles quatro jogos, pois passou a época inteira a trabalhar de uma maneira que os impedia de jogar de outro modo. A minha crítica a Mourinho não é pela opção estratégica desse jogo, mas pela forma como planeou a temporada, como pretendeu que o seu Real Madrid jogasse. E isso foi, desde o início, muito claro. O Real foi uma equipa de explosão, partida em duas metades, com quatro jogadores na frente com muita liberdade, muito habilidosos, e e uma estrutura defensiva sempre com seis jogadores atrás da linha da bola. Nunca se pretendeu impor pela posse e circulação da bola, e teve sempre muitas dificuldades em encontrar espaços nas defesas contrárias quando tinha de recorrer a um jogo mais rendilhado. Não fazia, por isso, sentido, que encarasse os duelos com o Barcelona procurando ter a bola, pois não se tinha preparado, ao longo da época, para o fazer.
Do meu ponto de vista, a equipa que mais problemas causou ao Barcelona esta época foi o Arsenal. Foi a única equipa que conseguiu, em alguma altura, manter incerto o destino de uma eliminatória. O Real condicionou o ataque catalão, sim, mas nunca, por um momento, esteve mais próximo de seguir em frente do que o Barcelona. O Arsenal, no jogo de Londres, fez exactamente o que se deve fazer contra este Barcelona: roubou-lhe a bola. É verdade que houve algum demérito dos catalães, nesse jogo, que descontraíram após o golo, mas também é verdade que tiveram sempre dificuldades em impor-se como se costumam impor. E isso porque o Arsenal geriu a posse de bola, retirando-a sistematicamente de zonas de pressão com qualidade e não caindo no erro de querer atacar rapidamente, com poucos toques, arriscando perder a bola para um adversário que vive da sua posse. O segredo para ganhar a este Barcelona reside num modo de jogar parecido com o que o Arsenal apresentou em Londres e o desfecho da eliminatória poderia ter sido muito diferente se, em Camp Nou, Wenger tivesse mantido o modelo da primeira mão. Como não o fez, como caiu no erro de tentar defender a vantagem, ainda que de um modo estranho, cedeu os 90 minutos ao Barcelona e acabou derrotado. O ponto do argumento é simples: o melhor método para vencer o Barcelona passa por trabalhar a longo prazo para adquirir uma competência parecida com a dos catalães com bola. Só através dessa competência é possível depois sujeitar os pupilos de Guardiola a um jogo com menos bola do que aquele a que estão habituados. E aí sim, modificando-lhes o habitat, pode um adversário do Barcelona reduzir-lhe as possibilidades de êxito. Não é certo que vença, mas é seguro que torna estranho o jogo ao adversário.
Escrito por Nuno às 16:10:00 28 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Cristiano Ronaldo, Guardiola, Messi, Mourinho, Raciocínios Tácticos, Real Madrid
terça-feira, 21 de julho de 2009
Técnica: um Atributo Mental
Coisas que não se esquecem
Por que razão, depois de aprendermos a andar de bicicleta, nunca mais desaprendemos? Por que é que, depois de se aprender a fazer malabarismo com três bolas, nunca mais se desaprende? Como é que conseguimos falar ao telefone e conduzir ao mesmo tempo? Por que é um canhoto consegue escrever tão bem com a mão esquerda e parece um deficiente mental com a direita? A resposta a estas perguntas tem um denominador comum: a técnica. Aprendemos uma técnica e, ao contrário do que querem crer algumas pessoas, nunca mais a voltamos a perder. Ter uma técnica ou ser capaz de uma habilidade consiste num processo de aprendizagem mental, processo esse que, uma vez concluído, fica "gravado" em nós, muito possivelmente na parte subconsciente do nosso cérebro. O acesso a essa "gravação", nestes casos, será imediato e instintivo. Executamos todas estas técnicas sem raciocinar, sem pensar se o estamos a fazer bem, mas de uma maneira natural. Isto ainda que, numa determinada altura da vida, não fôssemos capazes de fazê-lo. Noutros casos mais complexos, o acesso à "gravação" pode ser mais demorado e pode requerer, por falta de prática, uma determinada afinação.
No caso do futebol, a aquisição da técnica é um processo gradual, de constante modificação e aperfeiçoamento da relação entre indivíduo e bola, que é obviamente influenciado pelo crescimento do corpo. Durante o crescimento, a relação com os objectos tem de ser constantemente reavivada, pois o corpo, conforme vai crescendo, vai alterando a forma como reage aos estímulos. Ao contrário do que muita gente pensa, ser alto não é sinónimo de ser tosco. É verdade que o facto de ter um centro de gravidade mais baixo permite outras coisas aos jogadores, mas permite sobretudo agilidade, velocidade de reacção. É perfeitamente possível que um jogador alto seja tão dotado tecnicamente quanto um jogador baixo e há inúmeros casos de jogadores prodigiosos a nível técnico que não tinham um centro de gravidade baixo: Zidane, Riquelme, Ibrahimovic. Assim, a técnica não depende de uma certa estrutura morfológica, mas sim de um processo aquisicional. O facto de os jogadores altos, de uma maneira geral, terem menores competências técnicas não se explica pelo seu corpo, mas sim pela forma como o seu corpo cresceu. É portanto uma questão do foro da história do crescimento e da relação que se mantém, ao longo do crescimento, com o corpo. Maior parte dos jogadores grandes que são toscos terão tido, por certo, um crescimento gradual. Uma vez que o seu corpo cresceu de forma progressiva, não se estabelecia durante muito tempo de maneira a que desse tempo ao atleta para perceber exactamente como o seu corpo funcionava, o que, por fim, gerou um futebolista com competências técnicas abaixo do desejado. Por outro lado, os atletas cujo crescimento foi mais abrupto, tiveram mais tempo, em cada uma das fases de crescimento, para se relacionar com o seu corpo e para adquirir uma técnica aceitável. Por exemplo, dificilmente o crescimento de Ibrahimovic terá sido uma coisa gradual. O mais certo é ter crescido por etapas, muito de cada vez, o que lhe deu tempo para se aperceber das faculdades motoras ao seu dispor e para desenvolver uma competência técnica que, de outro modo, não poderia desenvolver.
Ter técnica é, pois, ter adquirido uma determinada competência mental. Aceder a essa competência mental, porém, não é um processo automático e depende muito da natureza da própria competência. No caso de andar de bicicleta, provavelmente porque envolve menos coisas e porque o aperfeiçoamento é menos exigente, temos poucos problemas, mesmo que o nosso corpo sofra modificações significativas. No caso do futebol, porque envolve muito mais coisas, porque implica não só a relação com o próprio corpo como a relação com uma bola e com um jogo muito específico e complexo, o acesso à técnica pode ser mais complicado. Mas detenhamo-nos, para já, em dois exemplos: bater livres e fazer truques com a bola. Estes dois exemplos são peculiares porque eliminam boa parte das variáveis que tornam o futebol um jogo cuja competência técnica depende de muita coisa. No caso dos livres, um jogador aperfeiçoa a sua técnica ao longo da carreira. Aperfeiçoar a técnica de bater livres é aperceber-se, gradualmente, das melhores condições para ter êxito nessa actividade. Ao longo do processo de aprendizagem, o jogador vai retendo as condições ideais de equilíbrio, a posição do corpo no momento de tocar na bola, o ponto específico da bola no qual deve acertar, a potência que deve dar ao remate, etc. Essa retenção nunca mais desaparece, embora o seu acesso possa não ser imediato. A interrupção da prática constante de bater livres pode tornar o acesso às condições ideais para o fazer mais complicado. Mas, nesse caso, é uma questão de retomar a prática constante, que "aviva" de certo modo a "gravação" do processo técnico. É por isso que, mesmo em idades avançadas, em idades em que já perderam grande parte das faculdades físicas, maior parte dos exímios marcadores de livres continuam exímios marcadores de livres. Lembremo-nos de André Cruz, por exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém, certamente, que David Beckham algum dia deixe de ser periogoso a bater livres, sofra o seu corpo as alterações que sofrer (desde que essas alterações não impeçam que continue apto para praticar futebol ao mais alto nível). De igual modo, fazer truques com uma bola depende de uma aquisição técnica que não se volta a perder. Fazer a chamada "volta ao mundo" só custa antes de sabermos fazê-la. Depois de aprendermos a técnica, sai naturalmente, porque "gravamos" as condições ideais para a sua execução. Nestes dois casos específicos, a execução perfeita pode ser afectada pela ausência de prática, mas nunca existe um esquecimento do que foi adquirido mentalmente.
A aquisição de uma técnica é, por isso, segundo esta defesa, um processo irreversível. Uma vez adquirida, temo-la para sempre. O que pode mudar é o acesso a essa técnica, sendo que este pode ser influenciado pela regularidade do acto de aceder a essa técnica, ou seja, a prática dessa técnica, ou pela modificação dos estímulos que nos fazem aceder à técnica. Um atleta, ao modificar o seu corpo, modifica a relação que tem com ele. Por outras palavras, modificará a forma como capta os estímulos exteriores. Ora bem, era aqui que pretendia chegar. Um jogador, ao modificar o seu corpo, não perde faculdades técnicas. O que acontece é que põe em conflito uma determinada "gravação", ajustada para responder de determinada maneira em função de um conjunto de estímulos específico, com um corpo que, por estar diferente, é estimulado de forma diferente. O novo conjunto de estímulos, uma vez que é diferente, não conduz à mesma "gravação" e tem de haver, nesta altura, uma readaptação da "gravação" ao novo conjunto de estímulos. Essa readaptação não constitui necessariamente, todavia, uma perda da "gravação" anterior. Trata-se somente de um ajuste.
Terá Cristiano Ronaldo perdido Técnica?
Dito isto, há quem defenda, muito seriamente, que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, tornando-o mais potente, perdeu faculdades técnicas. Por tudo o que foi dito acima, não concordo com isto. Perdeu, certamente, alguma coisa, mas nada do que perdeu é técnica. Terá perdido agilidade, capacidade de reacção, reflexos. Nada disto é técnica. São coisas, é certo, que podem participar do acesso à técnica. Mas não são a técnica em si. Podem facilitar a sua execução, mas não são, em concreto, a técnica. Aliás, no caso de Cristiano Ronaldo, a importância destas faculdades na sua técnica era até diminuta. A sua técnica nunca foi apurada ao ponto de necessitar do máximo de agilidade ou do máximo da capacidade de reacção imediata. Nunca foi forte, por isso, em espaços curtos; o seu drible curto estava pouquíssimo trabalhado, a sua capacidade para proteger a bola em condições espaciais reduzidas nunca foi relevante, etc. Assim, a perda necessária de algumas dessas características terá até tido uma participação diminuta na readaptação dos novos estímulos corporais à técnica pré-existente.
Ronaldo não perdeu a técnica que tinha, nem sequer perdeu capacidade individual, o que é muitas vezes confundido com "técnica". E isto por uma razão simples: aquilo que perdeu não era, já antes, predicado necessário na capacidade individual que tinha. A sua capacidade individual era manifestada mais pela potência do que pela agilidade ou pela velocidade de reacção. A competência individual de Ronaldo sempre dependeu da sua potência muscular e não dos seus atributos técnicos. Há, de facto, diferenças, mas elas não têm necessariamente a ver com técnica. O Ronaldo de antes fazia meia-dúzia de truques quando encarava os adversários no um para um, mas o factor que desequilibrava era sempre a sua explosão, a velocidade com que saía do drible. E isto ele não perdeu. Pelo contrário, a sua potência muscular actual permite-lhe ser mais forte até neste pormenor. A única diferença é que agora, antes de fazer valer a sua potência muscular, já não recorre a tantos malabarismos. E não porque não seja capaz de fazê-los (ainda que, muito provavelmente, a velocidade com que os executava não possa ser a mesma), mas antes porque percebeu a pouca importância dos mesmos no desfecho do duelo individual. Aquilo que mudou em Ronaldo foi o seu comportamento perante as situações. Ao ganhar experiência, percebeu que o recurso determinante era a forma como saía do drible e não tudo o que antecedia esse momento. Por isso, passou a conceder cada vez menos espaço aos artifícios técnicos e a dar prioridade ao arranque, à explosão, à mudança de velocidade, à velocidade de ponta. Nada disto implica que tenha perdido técnica.
Tem sido usada, para reforçar a tese de que que Cristiano Ronaldo perdeu competências técnicas, a entrevista de Nuno Amieiro a Vítor Frade, publicada no blogue Falemos de Futebol. Não tenho quaisquer problemas com as concepções teóricas veiculadas nessa entrevista e concordo que a aquisição de algumas coisas implica a perda de outras. Mas não considero que isso se passe ao nível da técnica porque simplesmente considero a técnica como um atributo próprio (ainda que, na sua formação, possa ser influenciado por um conjunto de atributos) e não uma soma de atributos. Tentando ser o mais analítico possível, aqueles que defendem que a alteração de atributos como a agilidade, a força, a velocidade, a potência muscular, os reflexos e a capacidade de resposta a estímulos, só para dar alguns exemplos, alteram a competência técnica do atleta não podem crer que exista uma coisa chamada "técnica". Essas pessoas acham que a "técnica" é uma substância predicada pela soma dos seus atributos, sendo esses atributos os acima mencionados. Neste sentido, a técnica seria uma entidade abstracta e o atleta mais competente a nível técnico seria aquele que reunisse o melhor equilíbrio entre os diferentes atributos mencionados. Ao contrário desta hipótese, considero a técnica um atributo em si e não uma substância. Isto é, para mim, a técnica é um atributo como os outros, conquanto de natureza diferente. É esta diferença de natureza que é necessário investigar.
A natureza relacional da Técnica
Atributos como a agilidade, a força, a potência muscular e afins são atributos que podem ser treináveis não-especificamente. Isto é, dependem apenas do indivíduo. Por outro lado, uma técnica, qualquer que seja, depende sempre da relação entre um indivíduo e um objecto. Equilibrar pratos no nariz, andar de bicicleta ou dançar requerem técnicas que só podem ser treinadas com o objecto sobre o qual se debruçam, respectivamente pratos, bicicletas e ritmos musicais, e também sob uma determinada forma de usar esses objectos. Nesse sentido, enquanto os outros atributos são especificamente atributos corporais, uma técnica é um atributo mental cuja execução é mediada pelo corpo. Adquirir uma técnica é, por isso, diferente de adquirir agilidade ou velocidade. Fica, portanto, evidente que a natureza de uma técnica é diferente da natureza de outro tipo de atributos. Falta explicar por que razão considero que essa diferença de natureza não faz da técnica uma substância predicada por vários atributos, mas sim um atributo como tantos outros. Se a técnica fosse uma substância, isto é, uma entidade abstracta que mais não é que um conjunto de vários atributos arranjado de uma forma específica, teria de poder ser treinável de forma descontextualizada, isto é, sem a presença do objecto sobre o qual essa técnica se debruça. Mas ninguém aprende uma técnica sem prática. Para aprender a técnica de andar de bicicleta é preciso andar de bicicleta. Logo, se aprender uma técnica depende do contacto com o objecto sobre o qual essa técnica se debruça, é impossível que ela seja apenas a soma de determinados atributos que não têm uma relação específica com esse objecto. Pelo contrário, a técnica é um atributo mental que se origina pela prática, isto é, que radica unicamente na relação entre indivíduo e objecto. Todo o ser humano adulto aprendeu, em determinada altura da vida, a andar. Andar é uma técnica porque consiste unicamente na relação entre um indivíduo e uma superfície. E é nessa relação e não nos dois pólos (indivíduo e objecto) que jaz a competência técnica.
Ao contrário, portanto, de muitos outros atributos, a técnica é essencialmente um atributo mental, um atributo cuja natureza é relacional e não intrínseca. Para que tudo isto seja coerente, tenho de defender que nenhuns dos atributos mentais são perecíveis. É o que pretendo. A técnica é um atributo semelhante à memória. Quando dizemos que memorizamos algo estamos a mentir. Memorizamos, isso sim, uma impressão de algo. E uma impressão é a relação entre um indivíduo e o algo que impressiona. A natureza da memória é, pois, igualmente relacional. Será que as memórias se perdem? Não creio. Acredito que retemos toda a experiência que acumulamos, (ou grande parte dela, pelo menos) ainda que não tenhamos consciência disso e ainda que certas coisas sejam mais difíceis de relembrar do que outras. Quando achamos que algumas das nossas memórias são pouco claras, não será apenas o acesso a elas que é deficiente? Há técnicas, como a hipnose, que nos permitem aceder a lembranças a que, de outra forma, nunca conseguiríamos aceder. Será, por isso, pelo menos legítimo afirmar que o que se modifica com o tempo é o acesso à memória e não a memória em si. E o mesmo se poderia passar com uma técnica: aquilo que se altera ou danifica é o acesso à técnica e não a técnica em si. O funcionamento de uma memória é assim muito semelhante ao funcionamento de uma técnica. Se exercitarmos recorrentemente uma memória, mantemos intacta a relação entre indivíduo e objecto. Da mesma maneira se mantém intacta essa relação, se exercitarmos recorrentemente uma técnica. Indo mais longe, possuir uma técnica consiste em possuir uma memória de uma relação entre o indivíduo e o objecto sobre o qual se debruça a técnica. Possuiremos sempre essa técnica, embora seja possível que nem sempre a tenhamos afinada, pelas mais variadas razões.
Há, porém, uma diferença relevante entre memórias e técnicas. Ao contrário do que acontece com uma memória, exercitar uma técnica depende daquilo que medeia a relação entre indivíduo e objecto, ou seja, o corpo. Seria possível, portanto, defender que, sendo o corpo precisamente o instrumento pelo qual se estabelece a relação entre indivíduo e objecto, relação essa que é a própria essência da técnica, qualquer alteração nesse instrumento resultaria numa necessária alteração da técnica. Discordo. A técnica mantém-se intacta. O que se modifica são os estímulos. Pensemos no exemplo de um pintor que tem por hábito pintar ora com os dedos ora usando pincéis. Se, por questões profissionais, estiver um ano a pintar com pincéis, perderá o jeito, a habilidade, a técnica de pintar só com os dedos? É óbvio que não. Poderá a sua prática estar enferrujada, mas a técnica não a perde, seguramente. E não consistirão, porventura, pintar com pincéis e pintar com os dedos duas técnicas diferentes, podendo o pintor dominar as duas? Penso que não. E penso que não porque o objecto sobre o qual se debruça a técnica de pintar não é nem o lápis, nem o pincel, nem os dedos. A técnica de pintar consiste na relação entre pintor (indivíduo) e tela (objecto). Os dedos e os pincéis são o corpo, isto é, aquilo que medeia a relação entre pintor e tela, sendo que o pincel é uma extensão do corpo na mesma medida em que uma caneta é uma extensão do corpo na técnica de escrever. Dito isto, é evidente que pintar com os dedos produz efeitos diferentes de pintar com pincéis. Mas o que produz esses efeitos diferentes é tão-somente a execução da técnica, que tem logicamente de ser diferente, pois é mediada de forma diferente. Assim, uma mesma técnica pode ter diferentes execuções, consoante o instrumento (e as potencialidades desse instrumento) através do qual se materializa a sua execução, mas não se modifica. Isto não implica que quem domina uma técnica seja capaz de executá-la das mais variadas formas. Como já ficou dito acima, uma técnica não se aperfeiçoa descontextualizadamente, mas pela prática. E praticar é executar a técnica, dependendo a execução do instrumento que se usa.
Ora bem, um pintor que tenha passado toda a vida a pintar com os dedos terá dificuldades, no imediato, em exprimir a sua técnica através do uso de um pincel. Mas aprender a usar um pincel não é o mesmo que aprender uma técnica. É uma questão meramente instrumental e requer apenas uma ligeira habituação. É certo que as potencialidades de pintar com pincéis são diferentes das potencialidades de pintar com os dedos, mas a técnica de desenho será igual nos dois casos. O que varia é a forma como essa técnica é colocada em prática e não a técnica em si. Um jogador de futebol, ao "engrossar", modifica a relação que tem com o corpo. Perde agilidade, reflexos, rapidez de execução. Ou seja, altera o instrumento através do qual executa a técnica que possui. Mas nada disto é técnica. A perda destas coisas pode implicar uma execução deficiente da técnica que possui, já que essa técnica está programada para reagir a estímulos diferentes daqueles que agora são captados. Mas da perda dessas coisas não se segue uma perda de técnica. O que ocorre é um conflito, um desajuste entre um conjunto de estímulos desconhecido e uma técnica conhecida e preparada para um determinado conjunto de estímulos específico. Este novo conjunto de estímulos, embora desconhecido, não irá requerer uma nova aprendizagem e não irá produzir uma nova técnica. Isso seria admitir que a mais pequena transformação corporal destruiria por completo a técnica pré-existente. O que vai acontecer é que este novo conjunto de estímulos irá ter de aprender a aceder à técnica já existente. Dessa aprendizagem, dessa habituação, não resultam perdas de técnica, pese embora as potencialidades não sejam as mesmas. Tal como um pintor, ao pintar com os dedos, não tem ao seu dispor as mesmas potencialidades que tem ao pintar com pincéis, um jogador de futebol, ao "engrossar", tem potencialidades diferentes. Provavelmente, não conseguirá executar aquilo que tem em mente com tanta rapidez, pois possuirá menos flexibilidade. Mas também é provável que consiga executar aquilo que tem em mente com mais potência. Assim, não é a técnica que se perde ou se altera; o que sofre modificações é a forma como essa técnica é executada. A execução de uma técnica corresponde àquilo a que chamei "acesso" a uma técnica. Esse acesso pode ser dificultado por ausência de prática, que no fundo é tornar menos presente a relação entre indivíduo e objecto, ou por alterações no indivíduo ou no objecto, o que implica alterações na relação entre os dois. Ultrapassar esta última dificuldade implica, como tentei demonstrar, um ajuste. "Engrossar" não implica, portanto, uma perda de competência técnica, mas um ajuste dessa competência técnica, ajuste esse que só pode ser conseguido pela prática da técnica. Ajustar uma determinada competência técnica passa então por aplicar a técnica pré-existente aos novos estímulos propiciados pela nova relação entre indivíduo e objecto.
Técnica e Talento
Falta dedicar, por fim, algumas palavras em relação à diferença entre técnica e talento. Por técnica entendo, como penso ter ficado claro, a relação de um indivíduo com um objecto, relação essa que é orientada para uma determinada finalidade. Assim, o mesmo indivíduo e o mesmo objecto podem originar técnicas diferentes, mediante a finalidade a que se proponha a própria técnica: um homem pode relacionar-se de diferentes maneiras com uma caneta, consoante o fim a que se proponha, e desenvolver a técnica da escrita, a técnica do desenho, a técnica de equilibrar canetas no nariz, etc. Uma vez que a essência de qualquer técnica é precisamente o ser uma relação específica e contextualizada entre um indivíduo e um objecto, possuir uma técnica é possuir um atributo diferente de atributos como a velocidade, a agilidade, a força, etc. Estes atributos são treináveis por si, podendo ser adquiridos através de um treino analítico, descontextualizado. Como defendi, uma técnica, por ser essencialmente uma relação entre coisas, é um atributo mental, atributo esse cujo aperfeiçoamento não está, de maneira nenhuma, dependente da quantidade existente dos outros atributos. Pode ser que, por esta altura, para muita gente, a noção de talento entre em conflito com a noção de técnica. Não creio que exista problema algum. Uma técnica consiste numa relação simples entre um indivíduo e um objecto; um talento consiste numa relação complexa entre um indivíduo e um objecto e uma situação. Assim, o talento será igualmente um atributo mental, ou seja, será um atributo da mesma natureza que a técnica. Mas será um atributo mental de natureza complexa, que envolverá, mais do que a relação entre um indivíduo e um objecto, a relação entre estes dois e uma situação complexa. Assim, de uma pessoa que sabe andar de bicicleta diz-se que tem técnica para tal, mas não se diz que tem talento. Andar de bicicleta requer técnica, não talento. Andar sobre uma corda, equilibrar pratos, fazer malabarismo são técnicas, não talentos. Aliás, nenhuma arte circense requer talento. É por isso que são artes menores, quando comparadas com as grandes artes. O mesmo se aplica a um guitarrista. É perfeitamente possível que consiga desenvolver uma técnica perfeita e que consiga tocar guitarra de uma forma exemplar. Mas isso não basta para ser talentoso. Através do uso dessa técnica será capaz de imitar os grandes guitarristas, mas é possível que não consiga criar nada de verdadeiramente grandioso. Isto porque o talento para a música é muito mais do que o domínio perfeito da relação entre o indivíduo e uma guitarra.
Contribuem para o desenvolvimento de um talento não só a técnica, mas também outros atributos mentais, como a inteligência, a criatividade, o conhecimento, a intuição, etc. Há inúmeros casos de pessoas que possuem uma técnica perfeita mas que não são minimamente talentosas. Um exímio falsificador de quadros tem de ser alguém possuidor de uma técnica perfeita, mas não é, se não for capaz de produzir arte sua com relativo valor, um artista talentoso. Também no desporto há exemplos destes. Os Globetrotters são tecnicamente perfeitos e conseguem fazer coisas em basquetebol que não está ao alcance de todos. Mas terão talento para jogar basquetebol? Isto é, conseguiriam ser tão competitivos como os melhores jogadores de basquetebol? Em futebol, são incontáveis as pessoas que são capazes de fazer truques com a bola e que dominam com perfeição a relação com a bola. Mas para serem talentosos teriam de saber jogar futebol, e muitas destas pessoas não o sabem. Falcão, o mais reputado jogador de futsal do planeta, é tecnicamente perfeito, domina a relação com a bola como poucos. No entanto, o seu talento para jogar futebol de 11 é diminuto, não obstante ser um muito talentoso jogador de futsal. É possível concluir, portanto, que ao contrário da técnica, o talento não depende apenas de uma relação específica, orientada para uma determinada finalidade, entre indivíduo e objecto, mas de uma relação entre essa relação e uma situação complexa que exige uma competência diferente de uma competência técnica. Adquirir um talento depende por isso, muito mais do que do domínio da relação com um objecto, de uma determinada percepção de uma situação complexa. Nesta percepção intervem, muito mais do que quaisquer competências técnicas, todo o intelecto. É por isso que um talento é uma capacidade complexa, passível de ser adquirida apenas pela experiência da situação complexa em questão, e nunca uma predisposição inata. Na sua aquisição influem muitas coisas, nenhuma delas possível de desenvolver na ausência da situação complexa que o determina. Há, para finalizar, ainda outra diferença importante entre uma técnica e um talento. Uma técnica, sendo a relação entre um indivíduo e um objecto, é mediada por um corpo, ou seja, a sua execução depende de um corpo que a concretize. Um talento não tem esta dimensão; não se executam talentos. A execução tem um papel relevante numa técnica, mas não o tem num talento. O xadrez é tipicamente um desporto para o qual não existe uma técnica relevante, mas para o qual é necessário talento, ou seja, formas eficazes de perceber coisas. Assim, ao contrário da técnica, que é um atributo mental que se concretiza pela acção de um corpo num objecto, o talento é um atributo mental puro, desenvolvido independentemente do corpo e do objecto e em função de uma situação complexa.
Escrito por Nuno às 01:46:00 12 bolas ao poste
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sábado, 26 de janeiro de 2008
Incompetência
Escrito por Nuno às 13:48:00 5 bolas ao poste
Etiquetas: Cortesias, Cristiano Ronaldo, Futebol Inglês
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Ronaldo: o porquê de não ser o melhor do mundo
Em primeiro lugar, há que perceber que quem elege os melhores jogadores de um determinado ano dá mais importância às competições europeias, onde todos estão envolvidos e cujo grau de dificuldade é igual, do que aos desempenhos internos. Não é este o meu argumento, mas vejamos o que se passou. Nas competições europeias, Kaká foi o melhor marcador da Liga dos Campeões, com 10 golos (Ronaldo marcou apenas 3), levou o Milan ao título e, no confronto directo com Ronaldo, foi decisivo, ao contrário do português. Já de Messi não se pode dizer o mesmo, pelo que o facto de o argentino ter ficado à frente do português não se explicará da mesma forma. Em segundo lugar, em competições decisivas, isto é, em finais ou eliminatórias, Ronaldo fracassou sempre. Ganhou o campeonato inglês, mas perdeu a final da taça de Inglaterra, fazendo um jogo discreto, e perdeu as meias-finais da Liga dos Campeões, numa eliminatória em que foi profundamente ineficaz. Se aliarmos isto ao seu desempenho medíocre na Selecção Portuguesa, onde se salvou pelos golos que marcou ao longo do apuramento e nada mais, temos que só vemos o Ronaldo ao mais alto nível no campeonato inglês. Deste modo se explica a preferência dos votantes por Kaká. É verdade que este ano já marcou 5 golos na Liga dos Campeões, ao passo que Kaká só ainda marcou 2. Messi, porém, já marcou 4. Mas as prestações desta época pouco terão contado para as votações, até porque se dá, normalmente, mais importância à fase decisiva das épocas.
Esquecendo os possíveis argumentos de quem votou, tentemos então comparar as épocas dos três eleitos. Dizem os delatores de Kaká que o brasileiro teve uma prestação notável fora de portas, mas que, no campeonato, foi uma sombra de si próprio. Devo esclarecer que o Milan acabou em 4º, depois de ter começado com menos 8 pontos, e que Kaká marcou 8 golos (14% dos golos da equipa) em 31 jogos (0,26 golos por jogo). Esta época, ao contrário do que dizem, Kaká tem sido o menos responsável pelo mau campeonato do Milan e leva 7 golos (33% dos golos da equipa) em 12 jogos (0,58 golos por jogo). Aliás, dizer que um jogador, sendo bom, tem obrigação de conduzir sozinho a sua equipa a uma boa prestação é ridículo. Ronaldo, na época passada, marcou 17 golos (20% dos golos da sua equipa) em 34 jogos (0,50 golos por jogo) e, esta época, leva 12 golos (33% golos da sua equipa) em 15 jogos (0,80 golos por jogo). Messi, na época anterior, marcou 14 golos (18% dos golos da sua equipa) em 26 jogos (0,54 golos por jogo). Esta época leva 8 golos (25% dos golos da sua equipa) em 14 jogos (0,57 golos por jogo). Os números, por si só, dizem-me pouco, mas por estas estatísticas podemos perceber que, na época passada, no campeonato interno, Ronaldo marcou 20% dos golos da sua equipa, ao passo que Messi marcou 18% e Kaká 14%; podemos perceber que, na época passada, Messi marcou 0,54 golos por jogo, ao passo que Ronaldo marcou 0,50 e Kaká apenas 0,26; esta época, Ronaldo marcou 33% dos golos da sua equipa, os mesmos 33% que Kaká, ao passo que Messi marcou 25%; Ronaldo marcou 0,80 golos por jogo, ao passo que Kaká está nos 0,58 e Messi nos 0,57. O que demonstra isto? Apenas e só que, em golos, Ronaldo é ligeiramente (e é preciso sublinhar o "ligeiramente") superior aos seus adversários directos.
Os golos não explicam tudo; aliás, não explicam quase nada. Ao contrário do que faz muito boa gente, é preciso enquadrá-los na equipa em que jogam (daí ter focado a percentagem de golos marcados em função dos golos marcados pela equipa) e o campeonato onde cada um joga. E é aqui que pretendo chegar. Muito do que Ronaldo é deve-se ao facto de jogar em Inglaterra; muitos dos seus êxitos individuais não são indissociáveis do campeonato em que joga. Em Inglaterra, há muito mais espaço do que em Itália, logo é desonesto esperar que Kaká marque tantos golos como Ronaldo. O próprio Milan marca menos golos que o Manchester, em parte porque o campeonato é menos propício a isso. Além disto, num campeonato como o inglês é muito mais fácil um jogador destacar-se individualmente do que em Itália ou em Espanha. Se juntarmos a essa facilidade as características de Ronaldo, percebemos que um jogador como ele está muito potenciado em Inglaterra. A velocidade e a explosão de Ronaldo tornam-se ainda mais fundamentais num tipo de futebol com mais espaço, no qual as transições sejam mais rápidas. Em Inglaterra, um jogador essencialmente individualista (que vive muito das acções individuais) está sempre no seu habitat preferido. Não tenho a menor dúvida de que, em Itália ou em Espanha, Ronaldo marcaria menos golos e seria menos decisivo e que Kaká e Messi, em Inglaterra, jogariam mais e marcariam mais.
Ronaldo teria muitas dificuldades em se adaptar ao futebol italiano, por exemplo. Se bem que seja um jogador parecido com ele, pois vive muito das acções individuais, dos dribles, dos "slalons", dos desequilíbrios com bola, o argentino Messi adaptar-se-ia com mais facilidade ao futebol italiano. Isto porque o seu drible é muito mais curto do que o do português e isso confere-lhe outra facilidade em espaços mais curtos. Por esta razão, não necessita tanto que o ritmo de jogo seja alto como o português. É fácil de perceber que, sempre que encontra equipas fechadas, que jogam compactas, Ronaldo tem muito mais dificuldades em impor o seu futebol. Normalmente, quando tira um jogador da frente em Inglaterra, porque o ritmo é alto e os sectores muito desligados uns dos outros, tem sempre espaço para manobrar. Contra equipas que não as inglesas, quando se desembaraça do primeiro adversário, tem sempre menos espaço e as suas acções não são tão frutuosas. Kaká é, actualmente, o jogador mais rápido no mundo a conduzir a bola. Não tem um drible tão curto quanto Messi, nem a explosão de Ronaldo, mas conduz a bola colada ao pé à mesma velocidade a que corre sem ela, enquanto o português conduz a bola com toques muito mais longos. A velocidade em posse de Kaká é mais eficaz, porque mais curta, que a de Ronaldo, mesmo que não atinja a mesma velocidade do português. Aliando a isso uma inteligência notável e uma velocidade de decisão acima da média, tem as características ideais para o futebol italiano. Ronaldo, além da velocidade e da explosão, tem pouca coisa. Se bem que rapidíssimo a executar, não é tão rápido a pensar. E isso também se explica pelos hábitos do campeonato inglês. Num futebol de ritmo elevado, os espaços são muitos e é possível ter a bola durante mais tempo. Isso faz com que o jogador tenha muito tempo para decidir e que tenha, invariavelmente, muitas opções válidas para escolher. Porque joga em Inglaterra, Ronaldo não desenvolveu um pensamento veloz, ao contrário da execução. A velocidade, em si, pode ser treinada individualmente, pode ser potenciada sem a conjuntura do jogo. Já o pensamento depende do espaço e do tempo que o jogador dispõe a cada instante e esse espaço e esse tempo, em Inglaterra, são muito mais elevados do que nos restantes campeonatos. Porque joga num futebol aberto, Ronaldo não tem a necessidade de decidir tão rapidamente quanto têm Messi e, sobretudo, Kaká.
Resumindo, Ronaldo atinge os números que atinge e joga o que joga porque actua num campeonato propício às suas características. Kaká e Messi, porque têm, em quantidades idênticas, as mesmas características que fazem de Ronaldo o que ele é, a saber, a velocidade e a explosão, seriam igualmente potenciados se jogassem em Inglaterra. Já o contrário não é necessariamente verdade. Tanto Kaká como Messi decidem melhor em espaços curtos do que Ronaldo; tanto o brasileiro como o argentino têm uma condução de bola mais curta; tanto um como outro têm uma técnica mais apurada (para evitar, a priori, as críticas que adivinho, alerto para o seguinte: técnica não é fantasia, não é imaginação, não é criatividade, não é dribles). Por isso, não é possível tomar uma decisão sobre o melhor jogador do mundo independentemente da equipa onde se joga, do esquema táctico e da filosofia de jogo dessa equipa, do campeonato onde jogam, etc. A eleição de Kaká como o melhor do mundo não oferece, quanto a mim, qualquer tipo de contestação. Já o segundo lugar de Messi, à frente de Ronaldo, é, penso, tão válido quanto o contrário. Não me surpreendeu, da mesma forma que não me surpreenderia se Ronaldo ficasse à frente de Messi. Tenho, contudo, a minha opinião sobre os três, opinião essa que julgo ter ficado clara. Kaká e Messi são mais completos que Ronaldo e, como não se pode ignorar a profunda diferença entre os campeonatos onde actuam, os dois primeiros estão mais preparados que o último. Por tudo isto, concordo com o terceiro lugar de Ronaldo, embora lhe reconheça talento mais do que suficiente para que venha, um dia, a ser o melhor do mundo, coisa que, definitivamente, ainda não é...
Escrito por Nuno às 16:20:00 21 bolas ao poste
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