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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Um Panegírico da Argentina

"A afeição por um país não é determinada por certidões de nascimento nem por laços de sangue. Nunca estive na Argentina, sei pouco sobre a História e a cultura do país, mas, quando a bola começa a rolar, sou muito mais argentino do que português."


Eis um texto para todos aqueles - e sabe Deus os muitos que há! - que consideram incompreensível e ultrajante que um português possa gostar mais da selecção da Argentina do que da Selecção Nacional.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sergio Busquets: o futebolista do futuro

Imaginem que são um médio-defensivo, que recebem a bola de costas no meio-campo, com a equipa adversária completamente organizada atrás e que, olhando apenas por cima do ombro, descobrem um modo de deixar o jogador mais talentoso da equipa perfeitamente enquadrado para atacar a última linha adversária. Parece impossível, mas foi o que Sergio Busquets fez em Camp Nou no fim-de-semana passado, no primeiro golo do Barça. Tudo no modo como fez a bola chegar a Messi, mas tudo mesmo, foi deslumbrante. A aparente facilidade com que o fez, então, é o sinal inequívoco do seu brilhantismo. Reparem que Busquets não está de frente para o lance, que não pode decidir a direcção do passe à última da hora. Ao olhar por cima do ombro, num primeiro momento, há uma linha de passe aberta para Messi, entre o ala esquerdo e o médio-centro do lado esquerdo do Girona. Se a bola entrasse aí, porém, o ganho não seria decisivo. Mas é essa a linha de passe mais convencional, aquela pela qual optaria a maioria dos jogadores. E já nem estou a falar de jogadores banais. Esses passariam para o lado, ou procurariam fazer a bola chegar aos flancos. Um bom jogador, um que perceba a vantagem de fazer a bola entrar verticalmente entre as linhas adversárias, escolheria essa linha mais convencional. Mas um jogador excepcional como Busquets pensa de outro modo. Entre o momento em que olha por cima do ombro e o momento em que a bola sai do seu pé, há tempo suficiente para que as circunstâncias do lance se alterem. E Busquets sabe isso. Sabe também que os adversários não ignoram essa linha de passe, e que se preparam para reagir à previsível entrada da bola nessa zona. E sabe ainda que Messi também sabe todas essas coisas, e que se encarregará de lhe dar oferecer uma linha de passe alternativa. Ao olhar por cima do ombro, Busquets vê tudo isso: vê uma linha de passe relativamente óbvia, vê aquilo que os seus adversários se preparam para fazer e vê o espaço que existe para Messi explorar alternativamente. E não faz o passe logo porque precisa de dar tempo aos adversários para tomarem consciência da linha de passe mais óbvia e porque precisa de dar tempo ao próprio Messi para perceber qual o melhor espaço a atacar.




É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Marcação Individual

A marcação individual foi um dos temas dominantes há umas semanas, sobretudo nos dias que antecederam a recepção do Sporting ao Barcelona e porque Lionel Messi estava numa forma impressionante. Para muitos, a genialidade do argentino é tanta que a maneira mais eficaz de tirá-lo do jogo é destacar alguém para o vigiar os 90 minutos, vá ele para onde for. Um dos problemas desta opção é, desde logo, o de não garantir que o alvo da marcação não vá conseguir livrar-se dessa marcação vezes suficientes para fazer a diferença. Outro, ainda mais relevante, é o de tornar cada lance em que o conseguir num lance de potencial perigo. Quando o alvo da marcação se consegue livrar do marcado directo, não fica propriamente com o espaço que teria, se não tivesse qualquer marcação, pois a equipa que defende terá sempre se de reajustar em função disso, e com um jogador a menos, que é aquele que está destacado para a marcação a esse jogador.

O problema principal da marcação individual não é, todavia, nenhum destes. Imaginando que essa marcação pudesse ser eficaz ao longo dos 90 minutos, e que o adversário que se achou importante marcar em cima não fosse capaz de escapar a essa marcação e de ter bola para fazer a diferença, a simples preocupação em seguir um adversário por todo o terreno é uma vantagem tremenda para a equipa adversária. Isto porque a equipa do jogador sobre o qual recai a marcação passa a poder levar um elemento adversário para onde lhe aprouver e, portanto, a poder induzir uma determinada desorganização defensiva nesse adversário. Imagine-se que os dois laterais de uma equipa estão destacados para marcar individualmente os dois extremos adversários (quem tiver pouca imaginação e achar que isso já não se usa assim, pode sempre ver alguns jogos do Manchester United de José Mourinho o ano passado). Se o treinador adversário quiser, pode simplesmente pedir aos seus extremos que passem a frequentar espaços centrais, levando consigo os marcadores directos, e aos restantes jogadores da equipa que façam a bola entrar no espaço que passa a ficar livre em cada flanco.


Há um lance do jogo de Alvalade que opôs o Sporting ao Barcelona que ajudar a ilustrar tudo isto. Trata-se da primeira grande ocasião de perigo criada pelos catalães, e é essencialmente causada pela ausência de gente entre os dois médios (Bruno Fernandes e William) e os dois defesas centrais do Sporting. No início da jogada, que se desenrola pela esquerda, Battaglia está mais perto de Acuña do que propriamente da zona que deveria povoar se estivesse preocupado com a cobertura aos seus médios. A missão de perseguir Messi, mesmo que apenas quando este entrava na sua zona de jurisdição (Battaglia não ia atrás do argentino quando este baixava em demasia nem quando este procurava as zonas do ponta de lança, limitando a mover a marcação individual apenas quando Messi aparecia entre linhas), fez de Battaglia um jogador a menos, do ponto de vista colectivo. Não havendo sintonia entre as referências dos colegas (a bola, o espaço e a posição relativa dos colegas) e a referência de Battaglia (o posicionamento de Messi), era natural que este tipo de coisas acontecesse. É impossível articular o comportamento de um colectivo se o comportamento de um dos elementos desse colectivo for ditado pelo adversário. No que diz respeito a este lance, ter ido atrás do argentino para uma zona tão afastada fez com que se abrisse um buraco entre a linha média e a linha defensiva, e Sergi Roberto aproveitou para invadir essa zona, recebendo sozinho e em condições de se enquadrar para a baliza, apenas com a linha defensiva pela frente. Bastou um movimento sem bola e um passe para o espaço criado por esse movimento para se originarem as condições de perigo ideais.

É verdade que do facto de ser assim tão fácil criar as condições de ataque ideais não se segue que todos os jogadores a quem é movida uma marcação individual se movimentem propositadamente para que isto se suceda. É aliás raro que um jogador o faça deliberadamente, ou que um treinador, perante uma situação destas, perceba a vantagem de que dispõe e saiba explicar ao seu atleta para onde e de que modo deve conduzir o seu marcador directo. Mas, mesmo que o adversário não compreenda essa vantagem e não saiba tirar proveito dela, a marcação individual continua a ser uma opção perigosa. Mesmo que involuntariamente, como aliás parece ter sido aqui o caso, é natural que o avançado a quem é movida a marcação acabe por arrastar o seu marcador directo para zonas potencialmente desvantajosas para quem defende e que a equipa que ataca acabe por usufruir do espaço que se cria na sequência disso. Messi é excepcional e merece considerações excepcionais, concordo. Mas hipotecar a organização defensiva na esperança de que Messi tenha menos influência no jogo parece-me estúpido. Entre apostar na organização para tentar vencer uma equipa na qual joga Messi e apostar na desorganização para se jogar contra a mesma equipa, mas sem Messi, parece-me óbvio aquilo que se deve escolher. Mesmo que, colectivamente, este Barça de Valverde seja banalíssimo, há uma quantidade de jogadores acima da média que podem facilmente usufruir da desorganização propiciada pela segunda aposta. Messi é excepcional, claro, mas achar que Messi é mais perigoso sozinho contra uma equipa bem organizada do que os restantes dez companheiros contra uma equipa mal organizada não me parece fazer muito sentido.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Legado de Luis Enrique e outras coisas

1. O Fim de uma Era

Quando a época passada terminou, e o Barça de Luis Enrique conquistou os três principais títulos, tive o ensejo de escrever um texto que, por vários motivos, acabei por nunca escrever. O que queria ter dito na altura e não disse é o que, muito abreviadamente, direi agora. O Barça ganhou tudo e, para muitos, voltou ao domínio do futebol europeu. A minha opinião é ligeiramente diferente: o Barça ganhou tudo, e perdeu finalmente a hegemonia que teve na última década. Pode parecer um contrassenso, mas creio que as conquistas do ano passado são o ponto final de uma era que começou com a chegada de Guardiola ao clube. O futebol da equipa de Luis Enrique já não tinha muito a ver com aquele que Guardiola preconizava (e que Tito Villanova e Tata Martino, mal ou bem, mantiveram), e o sucesso desse futebol significa a ruptura decisiva com o passado. Correndo o risco de parecer incoerente, uma vez que defendo que esse futebol já não tinha muito a ver com a da grande equipa de há uns anos, acho que muito desse sucesso se deve ao que os jogadores aprenderam com Guardiola: muito do que seria o trabalho do treinador é dispensado pelo que os jogadores, em termos colectivos, ainda retêm dessa altura. O mérito de Luis Enrique nas conquistas da equipa é, aliás, muito reduzido. Além de um conjunto de jogadores que cresceram a fazer uma série de coisas que agora fazem de olhos fechados, contou com jogadores que, do ponto de vista individual, fizeram toda a diferença. Para dizer de outro modo, o Barcelona ganhou tudo como poderia ter perdido tudo e como várias equipas ganham tudo. Jupp Heynckes ganhou tudo pelo Bayern há uns anos, e não me parece que lhe deva ser dado um mérito especial. Há sempre alguém que tem de ganhar, e o ano passado calhou ao Barcelona. Ao ganhar desse modo, como ganharia qualquer outra equipa, o Barça voltou a ser uma equipa normal. E a hegemonia que teve, e que continuava a assustar toda a gente, acabou. Por outras palavras, foi a melhor equipa dos últimos dez anos, mas arrisco-me a dizer que não será a melhor dos próximos. Se o impacto de Guardiola se viu até ao ano que passou, culminando com o triplete de Luis Enrique, o impacto de Luis Enrique ver-se-á daqui a 5 anos, quando o Barça for uma equipa banal.

2. A Lesão de Messi

Há um pormenor que costuma ser negligenciado quando se fala nas conquistas europeias: as lesões. Os dois anos em que Guardiola não ganhou a Champions quando ao serviço do Barcelona foram pautados por lesões relativamente longas ou recorrentes de jogadores importantes: Ibrahimovic, Iniesta, Villa, etc.. A equipa de Luis Enrique teve um ano praticamente imaculado, a esse nível, e isso também foi decisivo. Foi-o, de modo evidente, na forma como pôde superar o Bayern de Guardiola, fustigado por lesões, mas foi-o também ao longo de toda a época. Não houve lesões de grande duração em nenhum jogador importante, e isso permitiu à equipa manter os seus índices de produtividade. Que o tenha sido não me parece, de modo nenhum, irrelevante. Repetir a sorte de uma época sem lesões é praticamente impossível, e creio que isso ditará um ano bem mais modesto em termos de conquistas. A primeira lesão importante aconteceu este fim-de-semana, e ainda não se sabem bem as consequências dela. Apesar de ser preferível perder Messi nesta altura, dois meses (mais um mês ou dois até recuperar o melhor ritmo) é tempo suficiente para que o Barça perca terreno, por exemplo, no campeonato. Messi, aliás, foi decisivo nos jogos decisivos da época passada, e o principal responsável pelo sucesso de Luis Enrique nas provas a eliminar (em vários jogos da Champions, concretamente contra o Bayern, e na final da Taça do Rei, por exemplo). Sem Messi, o Barça de Guardiola era só a mesma equipa menos o seu melhor jogador. Sem Messi, o Barça de Luis Enrique vale menos de metade.

3. Xavi e Iniesta

Apesar de ter perdido a titularidade a época passada, Xavi foi quase sempre utilizado por Luis Enrique. Quando jogava de início, o Barça era quase sempre melhor, apesar de praticamente ninguém conseguir ver isso. Quando entrava, a equipa passava automaticamente a jogar melhor. Ainda que em final de carreira, aquele que foi, muito possivelmente, o melhor jogador de sempre, no que diz respeito à tomada de decisão, mantinha uma influência incrível, e só aqueles que acham que o futebol requer os melhores atletas não eram capazes de percebê-lo. Como o futebol é dominado por essa gente, tornou-se praticamente consensual que a era de Xavi no Barça chegara ao fim. Tenho para mim que não foi só a era de Xavi que terminou. Com Xavi, foi-se também a melhor equipa de sempre. Aliás, restam dessa equipa poucos jogadores: Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Messi. Com a saída de Xavi (e a de Pedro), a somar-se às saídas em anos anteriores de Thiago Alcântara e Fabregas, por exemplo, o futebol de toque curto, mais pensado do que corrido, chegou ao fim. O próprio Iniesta, se virmos bem, é um autêntico órfão em campo. Messi tem capacidades atléticas (e idade) que lhe permitem adaptar-se a um estilo de jogo diferente, e o entendimento com jogadores mais vertiginosos torna-se fácil. Iniesta não as tem, e o seu futebol eclipsa-se a cada dia que passa. Não quero ser mal entendido: esse futebol não se eclipa por  Iniesta já não ter capacidades físicas para mantê-lo vivo, mas porque já não está rodeado de colegas a quem interessa jogar o mesmo jogo. Cada jogador é aquilo que o rodeia. E Iniesta deixou de estar rodeado dos mais inteligentes. O Barça de Luis Enrique já não é o Barça de Xavi e Iniesta. Em tempos, num lance que não consigo situar (imaginava, erradamente, ter sido o lance em Old Trafford que permitira a Paul Scholes fazer o golo que eliminou o Barça nas meias finais da Champions de 2007/2008), Xavi falhou um passe decisivo à entrada da área por tê-lo feito sem perceber antecipadamente se o colega a quem passava a bola estaria à espera de recebê-la. Ninguém me compreendeu, porque para quase toda a gente não se deve passar a bola antes de olhar a ver se lá está o colega. Xavi, ao falhar esse passe, antecipava o Barcelona de Guardiola. Antecipava-o na medida em que antecipava aquilo que o Barcelona de Guardiola permitia a todos os jogadores, e em especial ao próprio Xavi: jogar de olhos fechados e passar sem precisar de perceber se o colega vai estar onde deve estar. Xavi passou a bola, nesse dia, para onde devia estar o colega. Só que o colega não estava lá porque não tinha sido ensinado a perceber antecipadamente onde Xavi queria que ele estivesse. O Barcelona de Guardiola fez-se sobretudo disto: todos pareciam saber com antecedência suficiente as intenções dos colegas. Numa equipa assim, ninguém superava Xavi. Tinha sempre mais passes que toda a gente, percorria sempre mais metros do que os outros. Sem bola, dava mais opções ao portador do que qualquer outro colega. Com ela, era sempre o mais eficaz, optasse pelo passe curto ou pelo passe longo. Agora que a equipa de Xavi e Iniesta já não existe, a única boa notícia é que estão os dois (especialmente Xavi) mais próximos de se tornarem treinadores de futebol.

 4. As Inconsistências e os Estúpidos

Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que o rendimento do sueco tenha sido o problema. Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de... isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%. A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e  que Suarez tenha feito uma boa época. Mas - surpresa das surpresas - é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir. Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ficar com a bola enquanto for preciso

A jogada é a do quinto golo do Barcelona, no passado fim-de-semana, em San Mamés, e tem sido amplamente elogiada sobretudo por aquilo que Messi fez. É possível, porém, dizer tantas coisas acerca dela que não resisto a trazê-la à discussão. Sim, deve elogiar-se o trabalho do argentino, que pôs meia equipa do Athletic de Bilbao a andar atrás de si antes de provocar a ruptura decisiva com o passe para Busquets. Mas não é tudo o que deve dizer-se acerca do lance. A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer.



A última coisa de que quero falar é da desmarcação de Busquets. Enaltecer as decisões de Messi sem lembrar a decisão de Busquets de solicitar aquele passe é tremendamente injusto. Sem ela, o lance não teria dado golo e ninguém elogiaria agora Messi. Pelo contrário, dir-se-ia que Messi se agarrara em demasia à bola, que desperdiçara linhas de passe e que permitira à defesa adversária controlar o lance sem grandes problemas. Para fazer um passe, como para dançar o tango, são precisas duas pessoas. Nenhum jogador, por melhor que seja, joga sozinho, e nenhuma boa decisão depende apenas de um jogador. Busquets é médio defensivo e, normalmente, é responsável por dar apoios recuados. Quando muito, oferece uma solução lateral ao portador da bola. E, naquele lance, poderia ter-se limitado a dá-la. Busquets percebeu, no entanto, que no momento em que Messi decide passar entre os dois jogadores adversários, havia uma melhor decisão do que ficar à espera do passe lateralizado do argentino; percebeu que, se iniciasse a marcha naquele momento e passasse nas costas do lateral, Messi iria ter uma linha de passe perfeita, instantes de segundo depois, entre o central e o lateral. Ao perceber as circunstâncias do lance, e aquilo que elas lhe pediam, Busquets percebeu que a melhor decisão que tinha a tomar, para facilitar a decisão do seu colega, era solicitar a bola naquele espaço. A isto chamo capacidade de leitura. O movimento de Busquets é profundamente atípico no jogador catalão e ninguém lhe levaria a mal que fizesse aquilo que está mais habituado a fazer, que seria oferecer uma linha de passe segura. Mas Busquets não é um jogador qualquer. A sua capacidade de leitura dos lances é muito acima da média, e aquilo que fez demonstra-o bem.

Quando se voltar a criticar um jogador que, não provocando duelos individuais, demora muito a soltar a bola, pense-se primeiro no que esse jogador está verdadeiramente a fazer. Leiam-se as circunstâncias e veja-se se, por acaso, ele não estará a pensar bem, se não estará à espera de uma solução mais fiável, de um linha de passe melhor, de um desequilíbrio da equipa adversária. E olhe-se bem para o jogo, quando isso acontecer. Que se tenha a capacidade de ver se, além de tudo isso, os colegas do portador da bola estão a fazer tudo o que devem para que ele possa tomar a melhor decisão possível. Não é nada incomum que um jogador, sobretudo um jogador inteligente, se agarre à bola sobretudo por ter intuído qualquer coisa que os colegas não intuíram ou que, tendo intuído, acharam arriscado pôr em prática. A intuição que esse jogador teve pode ser muito boa, mas, se os colegas não a facilitarem, será ineficaz. E quem é criticado é, geralmente, quem não se desfez da bola a tempo. Um bom jogador - dizem - joga bem em qualquer campo e em qualquer equipa. Não podia estar mais em desacordo. Qualquer jogador, sobretudo aquele que se destaca pelos aspectos intelectuais, é aquilo que a equipa em que joga lhe permitir ser. Numa equipa fraca do ponto de vista intelectual, um jogador inteligente só ocasionalmente se destaca pela sua inteligência. Sempre que faz ou tenta fazer algo que vai para lá das capacidades intelectuais dos que o rodeiam ou das capacidades colectivas da equipa em que está inserido, é incompreendido. Para os que não o compreendem, a imaginação com que joga e que, em equipas a sério, é o atributo mais requisitado, é invariavelmente descrita como egoísmo.

P.S. O blogue tem funcionado a meio-gás nos últimos meses e continuará a funcionar assim durante mais algum tempo. A todos os seguidores, a única coisa que posso prometer é que, a partir de Setembro, passará a ser possível escrever com mais regularidade.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Criatividade e Decisão

Podem já não ser os melhores, como parece ter afirmado Piqué. Seguramente que não o são, pois já não conseguem manter os índices competitivos de outrora, deixaram de acreditar nas suas competências, os processos defensivos parecem mais enferrujados do que nunca e, ofensivamente, parece haver um défice claro de imaginação, com os jogadores aparentemente cansados, não do ponto de vista físico, mas mentalmente, como se passassem por um esgotamento de criatividade. Tudo isto aceito sem dificuldades, e reconheço que, em muitos casos, é o suficiente para que se perca a superioridade que se tinha. O que não aceito é que se considere que esta equipa já não tem nada do que a distinguiu nos últimos anos. Podem não ser capazes de manter a concentração durante os 90 minutos e cometer mais erros do que cometiam, mas continuam a fazer coisas que mais nenhuma equipa tem a capacidade de fazer. A prova disso é o quarto golo este fim-de-semana, frente ao Bétis.



Barcelona 4-2 Real Betis 05.05.2013 ourmatch.net por ourmatch

Podem ter mais dificuldades do que tinham a criar condições para que este tipo de lances ocorram, mas continuam a inventar soluções como mais nenhuma equipa o faz. Quando se fala em criatividade, fala-se usualmente em habilidade individual ou em poder de finta. Para mim, criatividade é isto. Nada disto, talvez à excepção do passe de calcanhar de Iniesta, parece difícil de fazer, do ponto de vista técnico. E, no entanto, é de uma sofisticação inacreditável. O lance começa quando Iniesta, um médio, percebendo que tem de facilitar a vida ao companheiro que conduz a bola, Messi, invade um espaço que não é o seu, entre a linha defensiva adversária e a linha de médios, à frente da linha da bola, oferecendo um apoio frontal ao portador da bola. A intuição de Iniesta parece simples, mas é o que muitas vezes é negligenciado em posse; consiste em perceber que, movimentando-se como se movimentou, aumenta as soluções de passe curto do companheiro e, por conseguinte, as possibilidades de decisão que este terá ao seu dispor. No momento em que Messi conduz a bola, dá-se também outra coisa, as diagonais dos extremos, aproximando-se do centro do jogo e do portador da bola. Messi conduz, Iniesta aproxima, Messi toca no apoio frontal e, agora, a jogada está praticamente concluída. Sim, faltam ainda dois passes e a conclusão, mas o mais difícil está feito. A bola entrou no apoio frontal e Messi aproximou-se. A partir desse momento, Iniesta tem duas soluções, uma mais óbvia do que a outra, mas as duas igualmente boas. Podia, ao invés de solicitar Alexis Sanchez de calcanhar, ter simplesmente tocado de frente para Messi. Messi, seguramente, tocaria de primeira em Tello, que ficaria em posição privilegiada ou para finalizar, ou para cruzar para Alexis, que entretanto entrava no outro lado, ou para cruzar atrasado, para Messi ou Iniesta. Fosse qual fosse a decisão de Iniesta, a probabilidade de a jogada terminar com a bola dentro da baliza, após o passe de Messi para Iniesta, era gigantesca. Criatividade é isto, é conseguir criar condições colectivas para que se tenha sucesso, é ser capaz de fabricar espaços e contextos de decisão ideais. É nisto que esta equipa é inigualável, e foi isto que Guardiola ensinou estes jogadores a fazer. Se Tito Vilanova percebesse o que tem em mãos, perceberia talvez que, do ano passado para este, o que mudou essencialmente foi a capacidade de fabricar colectivamente estes momentos. Actualmente, ainda que o faça, a equipa fá-lo apenas esporadicamente, e provavelmente mais por auto-recreação do que por exigência do treinador. Como o faz menos vezes, encontra-se mais vezes à mercê do que a rodeia, aos erros individuais, aos detalhes imponderáveis, à própria necessidade de se motivarem, etc.. E, por isso, cria a ilusão, mesmo nos próprios jogadores, de que já não são superiores.

sábado, 14 de abril de 2012

A Tabela

Para muitos, uma tabela é uma coisa relativamente banal, um truque com o qual se pode desequilibrar de vez em quando. Para alguns académicos, é uma forma muito útil de ultrapassar um adversário. Poucos há, no entanto, que vêem numa simples tabela mais do que isto. E, não raro, diverte-se muita gente a criticar aqueles que as procuram em demasia. Nos últimos quatro anos, uma equipa há que tem mostrado a todos que há ganhos extraordinários em cultivar a tabela. Falo, obviamente, do Barcelona de Guardiola, que parece cada vez mais proficiente a usar a tabela como forma de progredir no terreno e de penetrar nas defesas contrárias. Ainda assim, e apesar de muitos já reconhecerem as virtudes catalãs, a tabela continua a ser algo que as equipas procuram pouco, seja em que zona do terreno for. Apesar de tudo o que este Barcelona tem evidenciado, continua a pensar-se que a tabela só tem utilidade em situações de dois para um, ou em situações de clara vantagem numérica, ou em zonas com espaço suficiente para a executar. Discordo disto. E, para ilustrar a minha discordância, trago quatro lances em que uma simples tabela entre dois jogadores foi o suficiente para fazer ruir uma defesa inteira.



1. Para dizer a verdade, no primeiro destes lances há um terceiro interveniente, precisamente o que recebe o último passe para finalizar (neste caso, Messi). Mas é irrelevante que assim seja, para o que pretendo mostrar. O lance é o do quarto golo da já longínqua goleada imposta ao Villareal em Camp Nou, no início desta época. Apesar da finalização de Messi, e do passe extraordinário de Iniesta a isolar o companheiro, num lance que parece uma criança a brincar com um ioiô, aquilo para que quero chamar a atenção é para a tabela entre Iniesta e Thiago Alcântara, tabela essa que precede o passe. Thiago invade o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, e até tem um adversário à ilharga, protegendo esse mesmo espaço. Praticamente nenhum jogador faria o que Iniesta fez, pondo nesse mesmo espaço a bola, porque Thiago não beneficiria em nada de receber ali a bola, já que ficaria rodeado de adversários. Acontece que este Barcelona usa a bola como engodo como nenhuma outra equipa, e o simples colocar da bola num espaço preenchido por adversários oferece ao adversário a tentação de recuperá-la, desposicionando-se. Repare-se que, no momento em que a bola se dirige para Thiago, há três jogadores do Villareal (os que estavam mais perto de Thiago) que saem ligeiramente das suas posições para se aproximarem do jogador que vai receber a bola naquele espaço. Parecendo que não, um pequeno passe aparentemente inútil e inofensivo, provoca desequilíbrios estruturais decisivos. Thiago dobra imediatamente o passe, entregando a bola novamente em Iniesta, mas tudo é agora diferente. Uma simples tabela vertical, sem progressão de qualquer espécie, serviu para desestabilizar a organização defensiva do adversário: um dos centrais avançou no terreno, criando um espaço nas suas costas, entre o outro central e o lateral; o médio que estava a acautelar o espaço entre linhas deslocou-se para a esquerda, abrindo uma linha de passe pelo centro; e o médio que estava mais perto de Iniesta afastou-se dele o suficiente para lhe permitir um passe em condições. Resta dizer que Messi interpretou isto de forma impressionante, e desmarcou-se precisamente para onde se devia desmarcar, recebendo o passe de Iniesta. O que me parece importante perceber neste lance não é tanto a extraordinária capacidade que os jogadores do Barça têm para inventar estes lances, mas mais a importância de algo aparentemente inútil, como seja um passe para um jogador que não pode senão devolver a bola ao colega que a passou. Sem o passe para Thiago, e a respectiva devolução, o Barcelona não teria sido capaz de criar as condições ideais para construir uma situação de perigo. É por isso que Guardiola dá tanta importância ao espaço. Em ataque organizado, tudo o que uma equipa tem de fazer é criar espaços. Para criá-los, tem de forçar o adversário a concedê-los. E a única forma de forçar um adversário que se posiciona bem em termos defensivos a concedê-los é fazendo coisas como esta, fazendo a bola entrar e sair em zonas que os adversários têm obrigatoriamente de fechar. É por isto que o futebol de toque curto, de passe e recepção, que caracteriza esta equipa não serve apenas, como muitos julgam, para adormecer o adversário, para esperar pelo momento certo para desferir o ataque, para não perder a bola à toa. Quem pensa assim não percebe nada deste Barcelona. É claro que fazer um uso cuidado da bola, como esta equipa o faz, é também uma forma de cínica de defender. Mas é muito mais do que isso, como este lance mostra. É a forma mais eficiente de atacar.

2. O segundo lance ocorreu na primeira mão da recente eliminatória frente ao Milan, a contar para os quartos de final da Liga dos Campeões. O lance acabou por não dar golo, mas foi notável o que Xavi e Messi fizeram. Quando Xavi recebe a bola, o Milan tem 9 jogadores atrás da linha da bola (os quatro defesas, os quatro médios, e Robinho), todos eles concentrados no meio. Com a invasão do espaço defensivo e uma simples tabela com Messi, Xavi termina o lance na cara do guarda-redes. Ou seja, dois jogadores e uma tabela chegaram para suplantar 9 adversários e criar uma situação clara de golo. No momento em que a tabela tem lugar, há 8 jogadores do Milan num raio de 5 metros. Se isto não é algo extraordinário, não sei o que dizer. É importante dizer que o Milan defende este lance o melhor que é possível defendê-lo, numa estrutura de quatro médios em linha. Ou seja, não há espaço suficiente entre a linha defensiva e a linha de meio-campo para que o adversário consiga fazer entrar um passe vertical, deixando um jogador receber a bola nesse espaço. O problema é que, se por alguma razão o portador da bola consegue entrar entre dois médios, como foi o caso, é um dos defesas que tem de sair para lhe obstruir a passagem. Se, nessa altura, o portador da bola tiver sido acompanhado por um colega que, a seu lado, lhe sugere uma tabela, então esse defesa acaba por ser facilmente ultrapassado. A meu ver, este lance resulta por duas razões essenciais: o facto de o Milan estar a defender em duas linhas apenas, e o facto de os jogadores catalães (neste caso, Messi) perceberem a utilidade de fornecer apoios próximos ao portador da bola. Repare-se que, assim que Xavi invade o espaço central, Messi inicia um movimento idêntico, aproximando-se dele, e adivinhando que o colega ia precisar da sua tabela. Qualquer outra equipa do mundo, perante a concentração de adversários naquele espaço central, procuraria atacar pelos flancos. Só este Barcelona é que tem a capacidade de identificar estas possibilidades de penetração centrais e só este Barcelona é que sabe o que é preciso para que essas penetrações possam ser bem sucedidas.

3. O terceiro lance é da última jornada da Liga Espanhola, e foi, na verdade, o lance que me motivou a escrever este texto. Por tudo o que disse acerca dos dois lances anteriores, é evidente que penso que este tipo de lances é aquilo que mais elogios merece, em futebol. Também por isso, e numa jornada em que voltou a haver um desses lances formidáveis em Camp Nou, merece ampla reprovação a generalização dos elogios aos golos que Cristiano Ronaldo marcou frente ao Atlético de Madrid. É claro que as pessoas, quando vêem um golo, tendem a prestar atenção apenas ao remate, ao sítio onde a bola entra, ao efeito da bola, à potência do remate, etc.. Nesse sentido, é muito mais fácil reparar nos golos de Ronaldo do que num golo deste tipo. Como acho que a avaliação da qualidade de um golo deve ter em conta muito mais que o remate final, os golos de Ronaldo, ainda que de belo efeito, não são para mim motivo de espanto. São resultado de alguém que tem, de facto, uma técnica de remate estupenda, e são bons golos. Mas não são golos extraordinários. E falar de qualquer um desses golos quando na mesma jornada Messi fez um golo dez vezes melhor parece-me estúpido. É mais ou menos como elogiar um general que venceu uma batalha por ter melhor artilharia do que o inimigo e ignorar outro general que venceu a sua batalha apenas com infantaria, mas fazendo uso de estratégias criativas para evitar a artilharia do inimigo. Ronaldo marcou um golo num remate à entrada da área, sem oposição, com um pontapé que fez a bola entrar a meio da baliza. A execução do seu remate foi extraordinária, mas o grau de dificuldade do lance era relativamente baixo. Tal não foi o caso do golo de Messi, em que, mais uma vez, dois jogadores apenas e uma tabela chegaram para vencer a oposição de 7 adversários. No início da jogada, Iniesta dá a bola a Messi, e entra no bloco defensivo do Getafe. Messi espera que Iniesta apareça entre os quatro defesas e os três médios, e faz um passe vertical, iniciando de imediato um movimento na direcção do passe. De calcanhar, Iniesta amortece a bola para que Messi, que vinha na sua direcção, a apanhe em posição privilegiada. Uma simples tabela e Messi ultrapassa três médios e ainda fica com a linha de quatro defesas decisivamente desposicionada. Depois, foi só dominar e rematar; o trabalho mais difícil estava feito. A reacção de Guardiola ao golo diz tudo: dois dos seus pupilos, com uma simples tabela, como se fosse a coisa mais simples do mundo, tinham acabado de vencer a oposição de 7 adversários. Isto, sim, é um golo memorável!

4. Para o fim deixei o meu preferido, um golo de Iniesta frente ao Viktoria Plzen, na fase de grupos da edição deste ano da Liga dos Campeões. Ao contrário do que aconteceu nos três primeiros lances, neste lance são duas as tabelas, o que torna a coisa ainda mais complexa e difícil de realizar. Iniesta dá em Messi, que devolve a Iniesta. Com esta primeira tabela, o adversário que saíra a Iniesta inicialmente é ultrapassado. Quando Iniesta recebe a devolução, tem à sua frente um novo adversário, e aproxima-se rapidamente um terceiro pela sua esquerda. De primeira, Iniesta volta a devolver a Messi, afastando de si as atenções o suficiente para se voltar a desmarcar. Messi, que em toda a jogada funcionou como mero apoio, e praticamente não teve que se mexer, volta a jogar de primeira, desta vez para as costas do segundo opositor, entre ele e outro defesa, deixando Iniesta só com um adversário pela frente. O resto foi a habilidade individual de Iniesta a fazer. Com duas tabelas, sempre ao primeiro toque, dois jogadores ultrapassaram quatro adversários, e entraram numa estrutura defensiva bastante compacta e com coberturas suficientes para inutilizar a grande maioria dos ataques de qualquer adversário. O que este lance evidencia, talvez mais do que qualquer outro dos anteriores, é precisamente o porquê de uma tabela, de uma combinação entre dois jogadores, ser algo tão difícil de parar. Quando Iniesta endossa a bola a Messi, as atenções dos adversários, fossem eles quem fossem, centram-se em Messi e não em Iniesta, pois é Messi quem vai receber a bola. Isto dá tempo suficiente para Iniesta se movimentar para o espaço que pretende, sem que nenhum adversário o impeça. Preocupados momentaneamente com o receptor, perdem de vista aquele que fez o passe. Por mais que não quisesse, é assim que reage instintivamente qualquer defesa. Se, depois disto, Messi jogar de primeira em Iniesta, as atenções viram-se para o catalão, e é Messi quem fica livre para voltar a receber. Quando chegam a Iniesta, já este voltou a dar a bola a Messi, e as atenções voltam a virar-se para o argentino, permitindo a Iniesta uma segunda desmarcação.

Ao tabelarem, os jogadores que o fazem estão sempre à frente dos defesas que reagem à tabela. Sabendo disso, os jogadores catalães usam e abusam da tabela para iludir os adversários. Tais quais os mais competentes jogadores de xadrez, estão várias jogadas à frente dos adversários. Enquanto que, no momento seguinte ao primeiro jogador soltar a bola, os defesas estão preocupados com aquele que vai receber o passe, a jogada, para quem ataca, já está a desenrolar-se no momento posterior, no momento em que o primeiro jogador vai receber a devolução. É este o poder incomparável de uma tabela. Nenhuma outra equipa no mundo o sabe usar tão bem, e é também por isso que nenhuma outra equipa no mundo tem a capacidade deste Barcelona para entrar em blocos defensivos compactos. Cultivar, portanto, a tabela, é aquilo em que muitos treinadores deveriam procurar trabalhar, se querem realmente aproveitar alguma coisa dos ensinamentos desta equipa. Isso e perceber que, mais do que ensinar cada jogador a posicionar-se em relação aos restantes, trabalhar tacticamente é acima de tudo fazer compreender a cada jogador a mente dos colegas. Por outras palavras, criar onze almas gémeas. Tentarei voltar a este assunto brevemente.

P.S. Entretanto, pensar que há treinadores que, para criar dificuldades em certos exercícios de treino, determinam, por regra, que não se devolva a bola a quem fez o passe, parece adquirir toda uma nova dimensão. Para ser sincero, 99% dos exercícios de treino da grande maioria dos treinadores são absolutamente inúteis. Para quem treina convencionalmente, um exercício com o constrangimento de não se poder passar a bola a quem fez o passe anterior é sempre apetecível: é diferente, causa estranheza, implica obrigar os jogadores a pensar bem antes de passar. Esquecem-se é que o que deviam estar a fazer era a criar condições para que os jogadores precisassem cada vez de menos tempo para pensar antes de agir. Até nesse sentido, devolver a bola a quem fez o passe inicialmente é uma solução confortável. Mas negligenciar tudo o que uma tabela pode oferecer a uma equipa, apenas para incrementar a dificuldade do exercício, só mesmo na cabeça de alguém que não sabe o que é o jogo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Diferenças Incomensuráveis

Terminada a temporada futebolística com mais um inquestionável triunfo do Barcelona de Guardiola, é tempo de falar de disparates. Propagou-se, ao longo da temporada, com maior frequência no final, a ideia de que o Real Madrid de José Mourinho andou a par dos catalães e que a margem que os distinguiu foi mínima. Sustenta-se esta teoria com o número de pontos que os separaram na Liga, com a soma astronómica de golos de Ronaldo, com os golos marcados pelo Real, com a tensão dos quatros jogos entre as duas equipas, com a vitória na Taça do Rei, e com a polémica inventada por Mourinho para ajudar a criar a dúvida quanta à supremacia do seu adversário. É intenção deste texto defender que as diferenças entre o Barcelona e este Real foram incomensuráveis, que os números não as exprimem convenientemente, e que Barcelona, Guardiola e Messi estão a anos de luz de Real Madrid, Mourinho e Ronaldo.

Diferenças que os Números não Mostram

Comecemos pela asneira da contabilização final dos golos marcados e dos golos sofridos no campeonato, que certos papalvos usaram não só para tentar mostrar que Mourinho trouxe ao Real uma capacidade competitiva semelhante à do Barcelona, como para vender a ideia de que, ao contrário das críticas que se lhe foram fazendo, não é um treinador assim tão defensivo e não mudou de ideias quanto a isso ao longo da sua carreira. Já expus aqui, num texto escrito antes de Mourinho rumar a Madrid, aquilo que penso quanto à sua carreira, e esta época comprovou tudo isso. Muito resumidamente, Mourinho mudou de crenças sensivelmente na passagem da segunda para a terceira época em Londres. A razão para tal, defendi nesse texto, foi a obsessão crescente com a revalidação do título europeu, que lhe fugiu nos primeiros dois anos de Chelsea em eliminatórias com Barcelona e Liverpool. As equipas de Mourinho passaram por isso a ser mais especificamente orientadas para competições a eliminar, mais centradas nos pormenores. E perderam, com isso, capacidades em provas regulares. Isso foi o suficiente para, não perdendo competitividade, não ganhar o título inglês na terceira época. Em Itália, o seu Inter foi o espelho disto, uma equipa muito mais pobre em organização ofensiva que o seu Chelsea e que o seu Porto, mas letal em transição e muito bem organizada atrás. Venceu o campeonato italiano, não sem algumas dificuldades, porque a concorrência interna não era forte. Em Madrid, mais do mesmo, e uma Liga que começou a ficar resolvida muito antes do embate final, na trigésima-segunda jornada, entre os dois rivais. O seu Real, ainda que sem dificuldades em ultrapassar os obstáculos noutras provas, apenas constitui ameaça ao Barcelona na primeira volta do campeonato. E isso diz muito das competências dessa equipa.

Passemos agora aos números. Ao contrário do que alguns idiotas chegaram a escrever, ao ultrapassar a barreira dos cem golos, Mourinho não fez algo que o Barcelona de Guardiola nunca tinha feito. Na primeira época de Guardiola, a sua equipa averbou 105 golos. Em segundo lugar, 102 golos foi exactamente o que Pellegrini obteve o ano passado, com a agravante de que não teve 6 jornadas de descompressão para golear adversários, nem um último jogo com uma equipa despromovida. Aliás, à jornada 32, o ano passado, o Real já tinha 85 golos marcados, mais 12 que este ano, e levava mais 5, na altura, que o Barcelona. Não precisou de andar a golear 6 jornadas seguidas, sem pressão de outros objectivos, para superar a marca dos 100 golos. Por isso também por aqui não é algo de verdadeiramente extraordinário. Aliás, esquece-se esta análise, porventura, que o Real terminou o campeonato a 4 pontos do Barça, quando o ano passado Pellegrini o terminou a 3, e que fez 92 pontos, quando o ano passado o tinha feito 96. Além disso, ficou a 4 porque o Barcelona, virtualmente campeão, desacelerou e perdeu 4 pontos. Ao contrário da época passada, também, em que Pellegrini conseguiu arrastar a decisão do campeonato até à última jornada, o Barcelona este ano sagrou-se campeão ainda com 3 jornadas para disputar. O Real de Mourinho só foi superior ao de Pellegrini em outras competições, em competições a eliminar. No campeonato não o foi. E não se aproximou do Barcelona, como se quer fazer crer. Aliás, muito dessa análise vem dos 5 confrontos ao longo da época entre as 2 equipas, em que se achou que o Real fez tremer mais o Barcelona do que no passado recente. Mas se a indecisão da Champions e a vitória merengue na Taça podem sustentar essa teoria, ao mesmo tempo Pellegrini também não foi esmagado como o Real de Mourinho na primeira volta do campeonato, tendo perdido apenas por 1-0 e 0-2.

Mas analisemos de perto os números do Real. É que não é possível separar o registo final do facto de as últimas 6 jornadas terem sido jogadas sem pressão, com objectivo prioritário de fazer de Ronaldo o melhor marcador da prova. Nessas 6 jornadas, com uma equipa de tracção à frente, o Real marcou 29 golos, sofrendo 10. Ou seja, em 6 jornadas, marcou praticamente um terço dos golos que marcou no campeonato inteiro (no restante campeonato, a média de golos do Real era de 2,28 golos por jogo. Nessas 6 jornadas foi de 4,8 golos por jogo, o que significa que aumentou a sua produção ofensiva em mais de 100%, tendo feito a média geral subir para 2,68 golos por jogo) e sofreu quase um terço dos golos que tinha sofrido no campeonato inteiro. Em 6 jornadas! Ou seja, em 6 jornadas, o Real marcou e sofreu muito mais golos, em média, do que marcara e sofrera até aí. Isso demonstra que essas 6 jornadas não foram encaradas do mesmo modo que as restantes 32. E não o foram pelas 2 razões que apontei acima, por haver uma descompressão natural, devido à impossibilidade de chegar ao título, e por haver o desejo de fazer de Ronaldo o melhor marcador do campeonato. Por isso, devem-se analisar os números tendo isto em atenção. À 32ª jornada, o Real tinha 73 golos marcados, menos 12 que o Real de Pellegrini, o ano passado, à mesma jornada, por exemplo.

O campeonato terminou à jornada 32, com o empate no Bernabéu. Nessa altura, o Barça tinha 86 golos marcados, mais 13 que o Real, que tinha 73. O que aconteceu daí para a frente foi consequência de um final de campeonato em que uns queriam apenas gerir esforços e outros queriam sair de cabeça erguida. O Real, sem nada a perder, sem pressões, fez 29 golos em 6 jogos. O Barcelona não manteve a bitola, concentrado noutras provas e a gerir a confortável vantagem pontual que adquirira, e marcou apenas 9 golos em 6 jogos. Aliás, nessa altura, Messi tinha mais 2 golos do que Ronaldo. As contas finais mostram uma realidade diferente, que ignora esta análise. Nem Ronaldo foi substancialmente mais eficaz que Messi, nem o Real se mostrou uma equipa mais concretizadora que o Barcelona. Simplesmente, o Barcelona tinha um objectivo que estava praticamente alcançado e deixou de se preocupar com objectivos menores, que o Real e Ronaldo perseguiram e que agora os devotos acham que revelam uma aproximação ao adversário. Não revelam nada disso, obviamente.

É este, muitas vezes, o problema da análise estatística: acha-se que analisar é olhar para números e tirar conclusões, mas não é. Para analisar, é preciso perceber o porquê das coisas. Sempre! E uma análise correcta destes números mostra aquilo que acabei de mostrar, que o Real só conseguiu a produção ofensiva e só conseguiu mais golos marcados que o Barcelona por o campeonato ter ficado resolvido tão cedo. Isto é absolutamente inequívoco e qualquer pessoa inteligente e honesta o percebe. Mas quando o argumentei, em discussão com pessoas que defendiam as teses acima criticadas, a resposta que me deram foi que faço inversões de raciocínio e que não percebo nada de números, o que é - diga-se - uma boa resposta, para quem não percebe nada de argumentos. Enfim, os devotos das calculadoras, assim como os tolos, acham que estes números revelam que o Real de Mourinho se aproximou do Barcelona de Guardiola, na esperança de que o monstro blaugrana caia num futuro próximo. Aquilo que os move, no fundo, é a uma determinada fé, uma qualquer irracionalidade que acreditam expressar-se em certos milagres como este, que depressa se percebe que não é milagre nenhum. De resto, acabam por valorizar o sucesso do Barcelona mais pelo medo, pelo mesmo medo do incompreensível que é aquilo que melhor caracteriza os que não percebem a profunda diferença que esta equipa representa. E, como têm medo de um monstro que não compreendem, acham sempre que aquele que está mais perto de vencê-lo é o maior dos heróis humanos, ou seja, o mais competente entre aqueles a quem conseguem perceber as competências. O problema é que, apesar de Mourinho ser o mais competente treinador de futebol do mundo, e o Real a mais competente equipa do mundo, e Ronaldo o melhor jogador do mundo, isso não chega. É que Guardiola, o Barcelona e Messi não são deste mundo. E aquilo que fazem nem sequer é jogar futebol; é outro desporto. A diferença entre eles não é de grau, mas de espécie.

As diferenças entre estas duas equipas não são expressas pela diferença final de 4 pontos; nem sequer pela diferença de 8 pontos após o clássico; nem pela diferença, favorável ao Barcelona, de 5 golos na diferença entre golos marcados e golos sofridos; nem pela indecisão quanto a quem seguia em frente na Liga dos Campeões. Isso são contingências das regras do jogo. Uma vitória, seja categórica ou não, conta apenas 3 pontos; uma eliminatória, sendo disputada até ao fim ou não, vale sempre pela vitória. Nada disso demonstra a real diferença entre estas duas equipas, que é incomensurável. A única coisa numérica que reflecte, ainda que de um modo pouco evidente, a diferença entre as duas equipas, é a média de posse de bola. A teoria convencional sobre a posse de bola diz que ter mais bola não significa ter o domínio de jogo. Concordo inteiramente com isso. O problema é que essa teoria é correcta para casos de posse de bola até aos 60%, que é o que uma equipa que domina um jogo normalmente consegue. 60% de posse de bola não é suficiente para que possa fazer a mínima diferença. Mas uma equipa que consegue ter, em média, uma posse de bola acima dos 70% não pode estar ao abrigo do mesmo tipo de teoria. O tipo de competências tem de ser necessariamente distinto e, para estes, realmente, a quantidade de posse de bola representa o domínio do jogo. Nenhuma outra equipa, na História do Futebol, conseguiu números de posse de bola sequer semelhantes a estes. E é por isso que nenhuma equipa na História foi tão claramente superior aos adversários como este Barcelona. Estes números incríveis, incomensuravelmente diferentes de quaisquer outros números até hoje vistos, são a causa principal da grande diferença que separa esta equipa de qualquer outra. Dizê-lo não é, como pode parecer, sustentar que a única causa desta supremacia é o que o Barcelona faz com a bola. Pelo contrário, é dizer que o que fazem com a bola está intimamente ligada a tudo o resto. Se o pressing não fosse extraordinário, se o colectivo não estivesse bem mecanizado e os jogadores não pensassem da mesma maneira, se a preservação da posse de bola não fosse o principal critério, deste a pequena área defensiva até à área adversária, se não houvesse competências técnicas e intelectuais extraordinárias em cada um destes jogadores, se a capacidade de decisão não fosse alta, esta quantidade de posse de bola não seria possível. A posse de bola é o retrato fisionómico deste Barcelona, e são os números avassaladores dessa posse de bola que mais e melhor definem o fosso que separa esta equipa das restantes equipas que praticam esta modalidade, a mesma apenas por força das circunstâncias.

Ronaldo e Messi

Ronaldo é o melhor jogador do mundo, mas Messi não é deste planeta, e esse vai ser sempre um problema para Ronaldo. O madeirense é uma máquina perfeita e a sua determinação qualquer coisa sem paralelo na História do Futebol. Mas não tem um talento extraordinário, como aqueles que figuram no Olimpo dessa História, e isso é talvez o mais importante. Surpreendeu-me sempre a sua evolução e reconheço que não esperava que vingasse com tanta facilidade em Espanha. Acontece que nunca parou de evoluir e que melhorou muito os seus pontos fracos, como a capacidade de decisão. É hoje um jogador praticamente completo, faltando-lhe apenas aquilo que o poderia fazer melhor que Messi, a genialidade. É um jogador que corresponde bem a tudo o que se espera dele, mas não tem génio. O seu futebol assenta na perfeição humana, não nas qualidades divinas, como o argentino. Compará-los, por isso, é absurdo, sim, mas não por a comparação ser inútil; não se podem comparar porque são de espécies diferentes. Se a qualidade de um jogador se medisse pela soma das coisas que consegue fazer, Ronaldo seria incomparável. Mas a qualidade de um jogador mede-se pelo talento, pelo génio, pela classe, pela capacidade para fazer coisas que ninguém espera. Messi é muito mais imprevisível e resolve problemas muito mais difíceis. Ronaldo supera a força com a força, a altura com a altura, a velocidade com velocidade. Messi supera esses obstáculos com o seu talento. A essas coisas responde com virtuosismo. É pela natureza das dificuldades que um determinado desafio impõe a quem o enfrenta que se descobre quais os melhores entre os que o enfrentam. É assim em qualquer arte. Se Ronaldo fosse pintor, pintaria muito, responderia a todas as encomendas que lhe fizessem, pintaria mais rápido que qualquer outro pintor, pintaria de forma mais perfeita aquilo que lhe encomendavam, e seria venerado pela sua competência. Mas Messi pintaria com mais virtuosismo, pintaria de um modo inesperado, vencendo todos os desafios técnicos não com competência mas com génio. Ronaldo é o protótipo do artífice; Messi o do artista genial. Aliás, nem Maradona, nem Zidane, porventura os mais geniais de todos os futebolistas da História, podem já ser comparados ao pequeno craque argentino. As coisas que faz em campo e a regularidade com que as faz são inequívocas. É verdade que ainda lhe falta atingir o sucesso ao nível de selecções que os outros atingiram, mas isso é apenas um pormenor. A genialidade de Messi já há muito ultrapassou a dos mais geniais de sempre. E quem quer que veja agora um jogo de Messi, deve vê-lo com a consciência de que, no futuro, é sobre ele que falarão os livros.

A Melhor Estratégia para Derrotar o Barcelona

Uma das coisas que tem sido mais debatida sobre este Barcelona tem a ver com a forma mais eficaz para contrariar o seu futebol. Aliás, a simples discussão acerca deste ponto demonstra o quão diferente é esta equipa. Nunca uma equipa fora alvo de um debate tão amplo acerca das possibilidades estratégicas para a derrotar. Ora, uns defendem que, não podendo contrariar o seu futebol na sua essência, que consistiria em retirar-lhe a bola, a melhor estratégia é, entregando-lhe a iniciativa, defender, mais alto ou mais baixo, provocar o erro, e jogar insistentemente em transição, no máximo com três toques. Foi isto que o Real Madrid fez, como já várias outras equipas o tinham feito, com mais ou menos sucesso. Onde me parece que o Real Madrid foi mais exigente foi precisamente no modo como nunca quis a bola, quando a recuperava. Sempre que, ao terceiro toque, a bola ainda não tinha passado o meio-campo, gerava-se imediatamente entre os jogadores um certo tipo de pânico característico de quem está preocupado com o que fazer. Dentro deste tipo de estratégia, é também possível discutir se é mais eficaz pressionar alto ou pressionar baixo, condicionar a saída de bola por um dos centrais ou pelo outro, ect.. Mas, na generalidade, o tipo de estratégia é idêntica: contrariar o futebol do Barcelona opondo-lhe um futebol antagónico, contrariar uma equipa que ataca muito bem defendendo ainda melhor. Há outra solução, até agora raramente tentada, que passa pela estratégia oposta, ou seja, contrariando uma equipa que ataca muito bem não a deixando ter o instrumento que faz dela uma equipa atacante, ou seja, a bola. Não deixar a outra equipa ter a bola só é possível de uma maneira, tendo a bola. Pressionar muito alto, ser muito agressivo, não permitir a circulação de bola do adversário, são tudo formas de defender sem bola. Mas, se se for competente a preservar a bola, defende-se de uma equipa que é forte quando tem a bola não lhe permitindo tê-la.

Poucas equipas, até agora, o tentaram, por duas razões diferentes: a primeira, por medo de que, ao tentar ter a bola, se cometam erros de que depois os catalães se aproveitem. Sobre isto, tenho várias coisas a dizer. Há maneiras e maneiras de ter a bola. Se, de facto, para ter a bola a equipa se desorganiza, mais vale não tê-la, porque o Barça irá aproveitar necessariamente essa desorganização. Mas há maneiras de ter a bola sem provocar desorganização própria. As melhores equipas do mundo a trocar a bola não ficam expostas quando a perdem porque a própria posse e circulação de bola correctas implica uma precaução com o momento da perda. O Barcelona, por exemplo, apesar de envolver sempre muita gente no processo ofensivo, tem sempre uma estrutura de apoios e coberturas que faz com que o momento da perda de bola não seja necessariamente danoso. Por isso, para uma equipa que sabe trocar a bola, que o faz bem, ter medo de perdê-la não deveria ser uma razão para abdicar dessa estratégia. Aliás, o Barcelona não é sequer uma equipa especialmente forte em transição. A segunda razão tem a ver com a competência para o fazer. É que não basta vontade. Não defendo que o Real Madrid deveria ter tido outra postura naqueles quatro jogos, pois passou a época inteira a trabalhar de uma maneira que os impedia de jogar de outro modo. A minha crítica a Mourinho não é pela opção estratégica desse jogo, mas pela forma como planeou a temporada, como pretendeu que o seu Real Madrid jogasse. E isso foi, desde o início, muito claro. O Real foi uma equipa de explosão, partida em duas metades, com quatro jogadores na frente com muita liberdade, muito habilidosos, e e uma estrutura defensiva sempre com seis jogadores atrás da linha da bola. Nunca se pretendeu impor pela posse e circulação da bola, e teve sempre muitas dificuldades em encontrar espaços nas defesas contrárias quando tinha de recorrer a um jogo mais rendilhado. Não fazia, por isso, sentido, que encarasse os duelos com o Barcelona procurando ter a bola, pois não se tinha preparado, ao longo da época, para o fazer.

Do meu ponto de vista, a equipa que mais problemas causou ao Barcelona esta época foi o Arsenal. Foi a única equipa que conseguiu, em alguma altura, manter incerto o destino de uma eliminatória. O Real condicionou o ataque catalão, sim, mas nunca, por um momento, esteve mais próximo de seguir em frente do que o Barcelona. O Arsenal, no jogo de Londres, fez exactamente o que se deve fazer contra este Barcelona: roubou-lhe a bola. É verdade que houve algum demérito dos catalães, nesse jogo, que descontraíram após o golo, mas também é verdade que tiveram sempre dificuldades em impor-se como se costumam impor. E isso porque o Arsenal geriu a posse de bola, retirando-a sistematicamente de zonas de pressão com qualidade e não caindo no erro de querer atacar rapidamente, com poucos toques, arriscando perder a bola para um adversário que vive da sua posse. O segredo para ganhar a este Barcelona reside num modo de jogar parecido com o que o Arsenal apresentou em Londres e o desfecho da eliminatória poderia ter sido muito diferente se, em Camp Nou, Wenger tivesse mantido o modelo da primeira mão. Como não o fez, como caiu no erro de tentar defender a vantagem, ainda que de um modo estranho, cedeu os 90 minutos ao Barcelona e acabou derrotado. O ponto do argumento é simples: o melhor método para vencer o Barcelona passa por trabalhar a longo prazo para adquirir uma competência parecida com a dos catalães com bola. Só através dessa competência é possível depois sujeitar os pupilos de Guardiola a um jogo com menos bola do que aquele a que estão habituados. E aí sim, modificando-lhes o habitat, pode um adversário do Barcelona reduzir-lhe as possibilidades de êxito. Não é certo que vença, mas é seguro que torna estranho o jogo ao adversário.

domingo, 26 de setembro de 2010

Lições de Mestre (6)

Comecemos por uma ideia defendida habitualmente por muita gente e que está absolutamente errada. Para muitos, o Barcelona de Guardiola é uma equipa que abre muitíssimo, em momento ofensivo, fazendo campo grande e circulando a bola a toda a largura do terreno. Dizem certos entendidos que é esta faculdade que possibilita ao Barcelona o seu jogo rendilhado e que é no jogo exterior da equipa que está a sua principal virtude. Luís Freitas Lobo, a semana passada, a propósito do massacre a que o Braga foi sujeito em Londres, sugeriu que as pessoas estão equivocadas quando dizem que o Arsenal joga de maneira idêntica ao Barcelona. O seu argumento era o de que, ao contrário do Barcelona, que abre o seu jogo, o Arsenal privilegia a zona central para atacar.

Também considero que há diferenças entre o modo de jogar das duas equipas, mas esta não é certamente uma delas. É que, se há coisa em que as duas se aproximam, é no privilégio quase contra-intuitivo dos espaços centrais para atacar. O Barcelona não faz campo grande como julgam. Se há coisa que distingue o 433 dos catalães é a não fixação dos extremos nas linhas. Quem quer que jogue como extremo, tem por missão jogar por dentro, aproximar-se do portador da bola. A profundidade, em organização ofensiva, é sempre dada pelo lateral. Os extremos só ocupam a linha em momentos de transição ou como ponto de origem, de onde saem para vir receber um passe curto numa zona central. O futebol do Barcelona, assim como o do Arsenal, é preferencialmente jogado pelo meio; Luís Freitas Lobo está completamente enganado quando pensa que não.

O lance que se segue fortalece esta ideia. Mas podia ainda alegar, por exemplo, a opção clara de Guardiola pelo 442 losango nos dois últimos jogos, frente ao Gijón e frente ao Bilbao, com Busquets a trinco, Keita e Xavi como interiores, e Iniesta como médio ofensivo, a cair preferencialmente em zonas centrais, ficando o ataque entregue a Villa e Pedro/Bojan. Neste esquema, então, foi ainda mais visível a ocupação dos espaços centrais e o privilégio dado ao jogo pelo meio. Fazer campo grande não é algo que esteja nos princípios do Barça, simplesmente porque tal é contraditório à filosofia de jogo da equipa, que requer uma rede de apoios muito mais próxima e compacta. Para que o Barcelona possa jogar como joga, tem de ter, mesmo com bola, os jogadores muito juntos uns aos outros. A largura e a profundidade é, por isso, tarefa de quem vem de trás, nunca dos extremos.




O golo começa a ser construído com a vinda da bola da linha para o meio e é a partir do meio que tudo se desenha. Neste momento, estão 9 jogadores do Panathinaikos atrás da linha da bola. Um passe vertical de Messi trata de deixar batidos os dois médios entre os quais a bola passa. Entre linhas, Xavi devolve de primeira a Messi, que entretanto se desmarcara para a frente. Ao receber a bola de Xavi, Messi torna-se no alvo das atenções dos defesas gregos. O defesa que estava em cima de Pedro sai da marcação para travar Messi, que passa a poder jogar com Pedro. Fá-lo e recebe de imediato a devolução, já no interior da área. Depois, é dominar a bola e rematar. O mais difícil estava feito.

Com duas tabelas perfeitas, as duas iniciadas por um passe vertical que queima linhas, o Barça ultrapassou uma defesa que, inicialmente, estava composta por nove jogadores. É assim que se entra numa defesa compacta, que opta por colocar quase todos os seus jogadores atrás da linha da bola. Esta jogada exemplifica várias coisas. Reforça, em primeiro lugar, a ideia que referi há algumas semanas acerca de fazer da bola um engodo. Desmente, igualmente, a teoria de que o Barcelona não ataca pelo meio. E demonstra, por fim, a utilidade que há num simples passe vertical. Nos dias que correm, o jogador que tenha por preocupação este tipo de passes é sempre um jogador com uma capacidade acima da média. Era esta qualidade que, por exemplo, Pontus Farnerud possuía e que poucos valorizavam. É esta qualidade, também, que faz de Hélder Postiga um avançado muito mais valioso do que se quer crer. Mas como se prefere a garra, a capacidade de luta e a obsessão pelo golo, jogadores como estes dificilmente agradam às massas. É pena que não haja mais Guardiolas para educá-las.

quarta-feira, 12 de março de 2008

As lágrimas de Messi

Pelo terceiro ano consecutivo, o astro argentino do Barcelona, Lionel Messi, ficará (tudo indica) impossibilitado de participar na caminhada da sua equipa pela Liga dos Campeões. Depois de o ano passado a equipa ter sido eliminada cedo e de, há duas épocas, se ter lesionado precisamente nos oitavos-de-final e de não mais, até à final, ter conseguido recuperar, voltou este ano a contrair uma lesão nos oitavos-de-final, numa eliminatória que o Barcelona, uma vez mais, superou. Não sei se a lesão deste ano implicará um tempo de paragem igual à de há dois anos, mas quase toda a caminhada do Barcelona estará, certamente, perdida. O argentino, um dos melhores do mundo e, sem dúvida, um dos jogadores que mais entusiasma, hoje em dia, o verdadeiro adepto de futebol, saiu do terreno lavado em lágrimas. A cena foi mesmo comovente: aquele miúdo, que o mundo do futebol já aprendeu a respeitar, rendeu-se à pequenez humana, a uma pequena, mas decisiva lesão, a um claro sinal de como o corpo humano é frágil e pode, a qualquer momento, trair-nos, e chorou compulsivamente. Com as mãos tapando o rosto, pranteando como uma criança perdida da mãe, foi confortado pelos colegas. Acredito que não sentiu nenhum gesto de apoio, nenhum aplauso, nenhuma palmadinha nas costas. Na sua cabeça, estaria apenas a dor de não poder continuar em campo, muito maior que a dor física, e a raiva, a impotência perante tamanho azar. Até nisso o futebol nos mostra o quão injusto pode ser: há jogadores que fazem falta, que não mereciam lesionar-se nunca. Mas assim foi. Como Aquiles, fatalmente atingido no único ponto do corpo que o poderia matar, Messi não pôde continuar a jogar. Saiu a chorar, como se não lhe restasse mais do que deixar escapar a frustração. As lágrimas foram do argentino, é certo. Digo eu, porém, que aquelas lágrimas são de todos aqueles que sentiram, ao mesmo tempo que o pequeno génio chorava, que se passara algo de profundamente errado nos desígnios divinos.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ronaldo: o porquê de não ser o melhor do mundo

Como bons portugueses que somos, estamos historicamente habituados a ser do contra: seja a lutar contra causas nobres, contra a dinastia filipina ou contra o salazarismo e a opressão do regime, seja por pura teimosia, contra a independência das colónias ou contra tudo o que é inovador e que vem mexer com os nossos "brandos costumes". Este carácter de guerrilha que se apodera da população geral atinge todas as áreas. Somos, neste sentido, demasiado bairristas, demasiado agarrados ao que é nosso. Se por um lado isso é uma demonstração de força, de união, de nacionalismo, de espírito de luta, por outro impede de ver as coisas de forma mais sensata. Destituídos de razão, achamos que somos desvalorizados pelo resto do mundo. Admito que haja nações com mais força que outras, que soframos certas injustiças por não termos o mesmo peso que outros países têm, mas há, da nossa parte, um exagero tremendo em considerar que nos perseguem até à exaustão. No futebol, como em tudo em geral, temos tendência para achar que muitos dos nossos insucessos se explicam pelo pouco poder que o país tem na conjuntura mundial. Não digo que assim não seja, mas há que pensar bem nas coisas e nem tudo tem a mesma explicação. O terceiro lugar de Ronaldo na eleição do melhor jogador do mundo gerou uma onda de contestação que considero despropositada, e, como consequência, uma euforia desmedida sempre que o madeirense comprova o seu enorme valor: a cada golo, a cada finta, a cada exibição de encher o olho, os indignados levantam a voz patriota em alerta: "Vejam! Vejam como é injusto ele não ser o melhor do mundo!" Além de francamente conveniente, acho errado tudo o que dizem.

Em primeiro lugar, há que perceber que quem elege os melhores jogadores de um determinado ano dá mais importância às competições europeias, onde todos estão envolvidos e cujo grau de dificuldade é igual, do que aos desempenhos internos. Não é este o meu argumento, mas vejamos o que se passou. Nas competições europeias, Kaká foi o melhor marcador da Liga dos Campeões, com 10 golos (Ronaldo marcou apenas 3), levou o Milan ao título e, no confronto directo com Ronaldo, foi decisivo, ao contrário do português. Já de Messi não se pode dizer o mesmo, pelo que o facto de o argentino ter ficado à frente do português não se explicará da mesma forma. Em segundo lugar, em competições decisivas, isto é, em finais ou eliminatórias, Ronaldo fracassou sempre. Ganhou o campeonato inglês, mas perdeu a final da taça de Inglaterra, fazendo um jogo discreto, e perdeu as meias-finais da Liga dos Campeões, numa eliminatória em que foi profundamente ineficaz. Se aliarmos isto ao seu desempenho medíocre na Selecção Portuguesa, onde se salvou pelos golos que marcou ao longo do apuramento e nada mais, temos que só vemos o Ronaldo ao mais alto nível no campeonato inglês. Deste modo se explica a preferência dos votantes por Kaká. É verdade que este ano já marcou 5 golos na Liga dos Campeões, ao passo que Kaká só ainda marcou 2. Messi, porém, já marcou 4. Mas as prestações desta época pouco terão contado para as votações, até porque se dá, normalmente, mais importância à fase decisiva das épocas.

Esquecendo os possíveis argumentos de quem votou, tentemos então comparar as épocas dos três eleitos. Dizem os delatores de Kaká que o brasileiro teve uma prestação notável fora de portas, mas que, no campeonato, foi uma sombra de si próprio. Devo esclarecer que o Milan acabou em 4º, depois de ter começado com menos 8 pontos, e que Kaká marcou 8 golos (14% dos golos da equipa) em 31 jogos (0,26 golos por jogo). Esta época, ao contrário do que dizem, Kaká tem sido o menos responsável pelo mau campeonato do Milan e leva 7 golos (33% dos golos da equipa) em 12 jogos (0,58 golos por jogo). Aliás, dizer que um jogador, sendo bom, tem obrigação de conduzir sozinho a sua equipa a uma boa prestação é ridículo. Ronaldo, na época passada, marcou 17 golos (20% dos golos da sua equipa) em 34 jogos (0,50 golos por jogo) e, esta época, leva 12 golos (33% golos da sua equipa) em 15 jogos (0,80 golos por jogo). Messi, na época anterior, marcou 14 golos (18% dos golos da sua equipa) em 26 jogos (0,54 golos por jogo). Esta época leva 8 golos (25% dos golos da sua equipa) em 14 jogos (0,57 golos por jogo). Os números, por si só, dizem-me pouco, mas por estas estatísticas podemos perceber que, na época passada, no campeonato interno, Ronaldo marcou 20% dos golos da sua equipa, ao passo que Messi marcou 18% e Kaká 14%; podemos perceber que, na época passada, Messi marcou 0,54 golos por jogo, ao passo que Ronaldo marcou 0,50 e Kaká apenas 0,26; esta época, Ronaldo marcou 33% dos golos da sua equipa, os mesmos 33% que Kaká, ao passo que Messi marcou 25%; Ronaldo marcou 0,80 golos por jogo, ao passo que Kaká está nos 0,58 e Messi nos 0,57. O que demonstra isto? Apenas e só que, em golos, Ronaldo é ligeiramente (e é preciso sublinhar o "ligeiramente") superior aos seus adversários directos.

Os golos não explicam tudo; aliás, não explicam quase nada. Ao contrário do que faz muito boa gente, é preciso enquadrá-los na equipa em que jogam (daí ter focado a percentagem de golos marcados em função dos golos marcados pela equipa) e o campeonato onde cada um joga. E é aqui que pretendo chegar. Muito do que Ronaldo é deve-se ao facto de jogar em Inglaterra; muitos dos seus êxitos individuais não são indissociáveis do campeonato em que joga. Em Inglaterra, há muito mais espaço do que em Itália, logo é desonesto esperar que Kaká marque tantos golos como Ronaldo. O próprio Milan marca menos golos que o Manchester, em parte porque o campeonato é menos propício a isso. Além disto, num campeonato como o inglês é muito mais fácil um jogador destacar-se individualmente do que em Itália ou em Espanha. Se juntarmos a essa facilidade as características de Ronaldo, percebemos que um jogador como ele está muito potenciado em Inglaterra. A velocidade e a explosão de Ronaldo tornam-se ainda mais fundamentais num tipo de futebol com mais espaço, no qual as transições sejam mais rápidas. Em Inglaterra, um jogador essencialmente individualista (que vive muito das acções individuais) está sempre no seu habitat preferido. Não tenho a menor dúvida de que, em Itália ou em Espanha, Ronaldo marcaria menos golos e seria menos decisivo e que Kaká e Messi, em Inglaterra, jogariam mais e marcariam mais.

Ronaldo teria muitas dificuldades em se adaptar ao futebol italiano, por exemplo. Se bem que seja um jogador parecido com ele, pois vive muito das acções individuais, dos dribles, dos "slalons", dos desequilíbrios com bola, o argentino Messi adaptar-se-ia com mais facilidade ao futebol italiano. Isto porque o seu drible é muito mais curto do que o do português e isso confere-lhe outra facilidade em espaços mais curtos. Por esta razão, não necessita tanto que o ritmo de jogo seja alto como o português. É fácil de perceber que, sempre que encontra equipas fechadas, que jogam compactas, Ronaldo tem muito mais dificuldades em impor o seu futebol. Normalmente, quando tira um jogador da frente em Inglaterra, porque o ritmo é alto e os sectores muito desligados uns dos outros, tem sempre espaço para manobrar. Contra equipas que não as inglesas, quando se desembaraça do primeiro adversário, tem sempre menos espaço e as suas acções não são tão frutuosas. Kaká é, actualmente, o jogador mais rápido no mundo a conduzir a bola. Não tem um drible tão curto quanto Messi, nem a explosão de Ronaldo, mas conduz a bola colada ao pé à mesma velocidade a que corre sem ela, enquanto o português conduz a bola com toques muito mais longos. A velocidade em posse de Kaká é mais eficaz, porque mais curta, que a de Ronaldo, mesmo que não atinja a mesma velocidade do português. Aliando a isso uma inteligência notável e uma velocidade de decisão acima da média, tem as características ideais para o futebol italiano. Ronaldo, além da velocidade e da explosão, tem pouca coisa. Se bem que rapidíssimo a executar, não é tão rápido a pensar. E isso também se explica pelos hábitos do campeonato inglês. Num futebol de ritmo elevado, os espaços são muitos e é possível ter a bola durante mais tempo. Isso faz com que o jogador tenha muito tempo para decidir e que tenha, invariavelmente, muitas opções válidas para escolher. Porque joga em Inglaterra, Ronaldo não desenvolveu um pensamento veloz, ao contrário da execução. A velocidade, em si, pode ser treinada individualmente, pode ser potenciada sem a conjuntura do jogo. Já o pensamento depende do espaço e do tempo que o jogador dispõe a cada instante e esse espaço e esse tempo, em Inglaterra, são muito mais elevados do que nos restantes campeonatos. Porque joga num futebol aberto, Ronaldo não tem a necessidade de decidir tão rapidamente quanto têm Messi e, sobretudo, Kaká.

Resumindo, Ronaldo atinge os números que atinge e joga o que joga porque actua num campeonato propício às suas características. Kaká e Messi, porque têm, em quantidades idênticas, as mesmas características que fazem de Ronaldo o que ele é, a saber, a velocidade e a explosão, seriam igualmente potenciados se jogassem em Inglaterra. Já o contrário não é necessariamente verdade. Tanto Kaká como Messi decidem melhor em espaços curtos do que Ronaldo; tanto o brasileiro como o argentino têm uma condução de bola mais curta; tanto um como outro têm uma técnica mais apurada (para evitar, a priori, as críticas que adivinho, alerto para o seguinte: técnica não é fantasia, não é imaginação, não é criatividade, não é dribles). Por isso, não é possível tomar uma decisão sobre o melhor jogador do mundo independentemente da equipa onde se joga, do esquema táctico e da filosofia de jogo dessa equipa, do campeonato onde jogam, etc. A eleição de Kaká como o melhor do mundo não oferece, quanto a mim, qualquer tipo de contestação. Já o segundo lugar de Messi, à frente de Ronaldo, é, penso, tão válido quanto o contrário. Não me surpreendeu, da mesma forma que não me surpreenderia se Ronaldo ficasse à frente de Messi. Tenho, contudo, a minha opinião sobre os três, opinião essa que julgo ter ficado clara. Kaká e Messi são mais completos que Ronaldo e, como não se pode ignorar a profunda diferença entre os campeonatos onde actuam, os dois primeiros estão mais preparados que o último. Por tudo isto, concordo com o terceiro lugar de Ronaldo, embora lhe reconheça talento mais do que suficiente para que venha, um dia, a ser o melhor do mundo, coisa que, definitivamente, ainda não é...