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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um Problema de Sol

Como é Verão, vamos falar de sol e de coisas que pessoas não fazem por estar muito sol. Devo dizer que este texto, pelo menos em parte, estava escrito já há vários meses, e que apenas por desmazelo não foi publicado mais cedo. Reporta-se a uma partida do campeonato espanhol, que opôs o Málaga ao Real Madrid de Mourinho. Diamantino Miranda, esse arauto do disparate, foi o comentador de serviço do desafio, e disse, entre outros disparates certamente merecedores de referência, que as equipas do sul de Espanha eram, por norma, menos agressivas que as do norte. A razão pela qual Diamantino pensa assim, disse-o depois, prende-se com as diferenças climatéricas. Segundo o astuto comentador, equipas que estejam sediadas em regiões com climas mais quentes, com praias, sol e, provavelmente, raparigas de biquini, são compostas por jogadores mais tecnicistas, mas menos disponíveis para ajudar a defender. Por si só, a ideia de que o clima define características de um atleta é suficientemente estúpida para que lhe fique indiferente, e é disso que vou falar em seguida. Antes, porém, quero falar do argumento particular de Diamantino. Muito rapidamente, e até porque estendeu a ideia a outros países, a Portugal, por exemplo, o argumento faz depender a pouca agressividade defensiva de onze atletas da localização geográfica de uma cidade. Do que Diamantino se terá esquecido é que os onze jogadores que, segundo ele, eram pouco agressivos, não eram naturais de Málaga, nem tão-pouco de cidades do sul de Espanha. A menos que, a juntar ao primeiro argumento, mais geral, defenda Diamantino também que estes jogadores perdem agressividade de acordo com o sítio onde vivem, e que, por exemplo, Toulalan, que jogou toda a vida em Lyon, era agressivo até se ter mudado para Málaga, não percebo muito bem como é que pode defender o que defendeu.

Enfim, não quero perder muito tempo a discutir o raciocínio de Diamantino Miranda, pois não me parece fácil tentar perceber lógica onde ela não existe. Mas a ideia de que o clima influencia as características de um atleta merece algum debate, e sobre isso gostaria de dizer algumas coisas. Há coisa de dois anos, lançou o Filipe no Jogo Directo uma discussão parecida, defendendo que "há indícios claros de que a temperatura mexe, e bem, com o calor do jogo". Tive a oportunidade de comentar esse texto, e de participar na discussão. Ainda hoje penso do mesmo modo, e o comentário de Diamantino Miranda veio apenas tornar presente algo que me faz de facto bastante confusão. Como é que alguém pode sequer conceber que o clima tem influência directa no tipo de futebol que se pratica em determinado sítio? Na verdade, talvez sem se aperceber, o Filipe defendia duas coisas diferentes: primeiro, que uma equipa não se consegue comportar como se comporta habitualmente, se a temperatura for consideravelmente mais alta; em segundo, que os brasileiros jogam de modo mais "acalorado" porque o clima assim o propicia. O primeiro caso não se insere sequer no mesmo tipo de discussão: qualquer equipa europeia que vá jogar a 2000 metros de altitude, com baixas concentrações de oxigénio, tem desempenhos inferiores, e não consegue manter o ritmo habitual. Não é propriamente a temperatura, mas sim qualquer condicionante externa que modifica o comportamento habitual dos jogadores, que estão preparados para responder em determinadas condições e têm dificuldades imediatas em adaptar-se a condições novas. O "calor" do jogo, nesse primeiro caso, é determinado pela habituação, ou falta dela, e não porque a temperatura desempenhe um papel providencial. Mas é o segundo caso que mais interessa, pois é sobre ele que as pessoas mais opiniões engraçadas têm.

Existe, aliás, a tendência para achar que não é só o futebol, mas todo o tecido social, que é reflectido pelo clima de um país. Acho tal conclusão, como deverão calcular, um profundo disparate. Para muita gente, os países mediterrânicos são menos produtivos, em geral, porque são países com climas temperados, e é o clima que se regista nesses países que faz com que as pessoas sejam mais preguiçosas, mais irresponsáveis, mais inconstantes, e mais emocionais. O raciocínio de quem pensa assim é mais ou menos o seguinte: as pessoas vivem debaixo de temperaturas altas toda a vida, e isso frita-lhes as ideias. Enfim, achar que a temperatura é responsável pela definição do carácter de um povo é tão ridículo que chega a ser difícil falar sobre isso. As características gerais de um povo - se é possível, de facto, traçá-las - são definidas ao longo de séculos de História, e influirá mais no tipo de pessoas que os portugueses são, para usar o exemplo de Portugal, o facto de termos uma tradição católica profundamente enraízada, ou o facto de termos sofrido certos acidentes históricos, do que o facto de vivermos à beira-mar, com um clima ameno. O ser humano é uma criatura de hábitos, e as pessoas comportam-se como vêem os outros comportar-se. Se o clima em Portugal mudasse subitamente, e passássemos a ter um clima nórdico, a geração seguinte seria exactamente igual à geração seguinte que viria, caso isso não acontecesse. Quem fala em portugueses, fala noutros povos quaisquer. Se a temperatura, ou a latitude, fossem determinantes, ingleses e irlandeses seriam praticamente iguais.

A ter alguma influência no carácter de um povo, o clima tem uma influência reduzidíssima. Se assim é, menor será ainda essa influência em qualquer manifestação cultural desse povo. O futebol, enquanto manifestação cultural, não foge à regra. O futebol praticado numa determinada região do globo difere do futebol praticado noutra região por várias razões. Primeiro, porque são manifestações culturais de povos diferentes, com culturas diferentes, com preocupações diferentes, com legados históricos diferentes, com estruturas morais diferentes. Depois, e sobretudo por isso, porque o próprio futebol cria uma determinada tradição. Por que é que os italianos são mais defensivos? Porque, enquanto povo, são mais conservadores, mais reservados, mais precavidos? Obviamente que não. Porque, a dada altura, os modelos defensivos italianos começaram a ter sucesso, e criaram escola. A tradição futebolística de um país é talvez o factor mais relevante na definição do tipo de futebol que se pratica num país. Que causa está por trás do futebol de toque da Espanha, nos últimos anos? Um trabalho de fundo que modificou radicalmente a identidade do futebol espanhol, o privilégio pela inteligência e pelo talento. E no Brasil, por que é que no Brasil o jogo é tão "acalorado", há tanta irresponsabilidade táctica, e há tanto jogador talentoso? Não é por causa do calor, que faz com que os jogadores tenham as emoções à flor da pele, assim como é o calor que leva os miúdos para a praia e para as ruas, onde aprendem a jogar? Claro que não. São as condições sociais, a cultura do país, o fundo católico, etc.. Será a irresponsabilidade táctica característica do futebol brasileiro assim tão diferente da irresponsabilidade táctica de outros países sul-americanos? Não é. E o que dizer da irresponsabilidade táctica dos britânicos? É uma irresponsabilidade diferente da dos brasileiros, mas ainda assim é irresponsabilidade. Como explicá-la, se o clima não é "acalorado"? Essencialmente, porque a tradição futebolística na Grã-Bretanha não conheceu praticamente evoluções, nos últimos 50 anos, e porque no futebol (e no desporto, em geral) britânico se tendem a privilegiar atributos atléticos.

Acreditar que a temperatura (e o sol, em particular) determina o tipo de futebol que se pratica num certo país é não perceber nada de futebol, e é não perceber nada de seres humanos. O futebol, como todas as expressões de um povo, reflectem em parte o tecido histórico, cultural, religioso, e social desse povo. Mas, em si, é uma prática isolada, que pode, a qualquer altura, seguir um trajecto completamente distinto, sem qualquer relação directa com esse tecido. Estes dois tipos de factores são aqueles que, a meu ver, melhor explicam as distinções entre os vários tipos de futebol que se praticam pelo mundo. O clima, ou qualquer factor ambiental, não entra em nenhum deles. Não é sequer um factor secundário; não influi sequer na personalidade dos indivíduos que compõem esse povo, quanto mais nas suas práticas. Pode, quando muito, num passado muito remoto, ter ajudado a que determinados povos se dedicassem mais a umas actividades do que a outras, optassem por um determinado estilo de vida e não por outro, e que a personalidade desse povo - que foi sendo criada paulatinamente, ao longo dos tempos - tenha então sofrido inflexões decisivas em determinado período da sua formação por força do clima em que se vivia. Mas isso nem uma influência indirecta é. Se, a partir de agora, começasse a nevar durante todo o ano na península ibérica, e fizesse sol na Islândia, seriam preciso inúmeras gerações, e vários séculos para que os islandeses passassem a ter tradição futebolística, e os portugueses e os espanhóis perdessem a deles. A influência dos factores ambientais é, na melhor das hipóteses, uma influência remota, e só com muita boa vontade é que se consegue aceitar que Diamantino Miranda e outros que, como ele, acreditam em tais disparates, não estejam ainda hospitalizados.