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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Jogada do Século

"Quase todos os que não eram alemães acharam que nós deveríamos ter ganho. Não estivemos no nosso melhor na final, mas demos o exemplo a biliões de pessoas. Demos igualmente esperança a todos os jogadores que, como eu, não eram grandes nem fortes. Toda a filosofia de como o futebol devia ser jogado se modificou durante esse torneio. Tal filosofia era, na verdade, muito simples, e continua a sê-lo hoje. Há uma bola, e ou a tens tu ou a têm eles. Se a tiveres tu, eles não podem marcar golo. Se usares a bola bem, a probabilidade de êxito é maior do que a probabilidade de fracasso. Isto mudou o foco para a qualidade e para a técnica, enquanto antes girava tudo em torno do esforço e do trabalho."

Johan Cruyff, My Turn


Se tivesse de escolher uma jogada que, de certo modo, definisse aquilo que foi a evolução do futebol no século XX, escolhia a primeira jogada da final do campeonato do mundo de 1974. O lance é, para os padrões actuais, uma aberração: a velocidade a que se troca a bola, a ausência de zonas de pressão, as marcações individuais dos alemães, a total anarquia da organização ofensiva holandesa, etc.. E, no entanto, o mesmo lance justifica toda a evolução que o futebol sofreu nos últimos 50 anos. É sobretudo por isso que me parece justo descrevê-la como a jogada do século. Nela estão contidas as sementes da revolução laranja, e de tudo aquilo que essa revolução proporcionaria depois, e é nela - precisamente nela - que identifico a fronteira entre o velho e o novo paradigma. Não é de todo irrazoável falar de um futebol antes de Cruyff e de um futebol depois de Cruyff, e muitos já o fizeram, mas normalmente situa-se a fronteira entre essas duas épocas um pouco mais tarde. Aquilo que Cruyff veio a ser como treinador, e o pensamento que depois criaria escola, não é indissociável, contudo, daquilo que foi como jogador. A revolução que as suas ideias protagonizaram tiveram expressão maior no seu 'Dream Team' e, posteriormente, no futebol praticado pelas equipas de Guardiola, mas tudo começou na Holanda, no final da década de 60 e início da década de 70. É nessa altura, com o sucesso do Ajax entre 1969 e 1973 (finalista vencido em 69, o Ajax venceria a Taça dos Campeões Europeus em 71, 72 e 73) e com o futebol apresentado pela selecção holandesa no Mundial de 74, que tudo começa. E a forma como a Holanda chega à vantagem na final dessa competição é o dealbar desse mundo novo. É nesse lance que a parceria entre Rinus Michels e Johan Cruyff encontra o seu expoente máximo. Mesmo que a selecção germânica tenha conseguido recuperar da desvantagem, e a Holanda não se tenha sagrado campeã do mundo, o futebol vergou-se nesse momento e nunca mais foi o mesmo. 



O momento crítico do lance, aquele momento que vai contra tudo aquilo que sabemos ou julgamos saber acerca do jogo, é o momento em que Johan Cruyff, fazendo uso da liberdade e da autoridade que tinha dentro de campo, se aproxima dos defesas holandeses e, recebendo a bola de um deles, decide ser ele a pautar o jogo a partir de trás. Durante alguns segundos, Cruyff foi o jogador mais recuado da sua equipa. Enquanto os colegas trocavam a bola no meio-campo alemão, manteve-se atrás deles, analisando o que se passava à sua frente. Isto é tão surpreendente quanto ilógico, do ponto de vista actual. Mas a verdade é que cabe nesses breves instantes uma revolução inteira. Sem que o próprio Cruyff o soubesse, estava a fundar uma nova maneira de jogar futebol. Ao posicionar-se assim, Cruyff comportou-se como o treinador que seria uns anos mais tarde e, mais ainda, como aquele tipo de jogador que, de certo modo, viria a inventar: o médio-defensivo de qualidade técnica, capacidade de passe e visão de jogo invejáveis que teve em Guardiola o primeiro e mais genuíno representante. Atrás de todos os outros colegas, Cruyff pôde ver o que não veria se estivesse mais subido no terreno. A intuição de que poderia romper por entre as linhas adversárias com a bola colada ao pé dificilmente lhe assomaria ao espírito noutras circunstâncias.

Quando a bola voltou a Cruyff, já o capitão holandês tinha visto como se comportava o bloco defensivo germânico, que tipo de marcações estavam a ser exercidas (sobre si e sobre os seus colegas), e quais as fragilidades que podia explorar. A circulação aparentemente inócua da bola não só lhe deu tempo para observar o que se passava à sua frente como fez o adversário expor os seus comportamentos defensivos. Os 16 passes que antecederam a arrancada fulminante do génio holandês, que só viria a ser travado em falta dentro da área alemã, foram absolutamente decisivos para que se formasse a intuição de que, ultrapassando o seu marcador directo em zona frontal, se criavam as condições ideais para entrar na área adversária com a bola controlada. Não acredito que Cruyff tenha feito de propósito. Isto é, não acredito que lhe tenha passado pela cabeça que precisava de ter uma visão global do campo de batalha antes de tomar a iniciativa de atacar as hostes inimigas. A atitude de Cruyff, no princípio do jogo, é puramente experimental. A ideia ocorreu-lhe e pareceu-lhe boa. E foi isso que o levou a experimentá-la. Do mesmo modo, não acredito que dessa experiência se tenha seguido uma conclusão irrefutável. O que ela originou foi uma intuição. No momento em que recebe a bola e encara Berti Vogts, Cruyff não só já tinha interiorizado uma série de padrões comportamentais do adversário como teria a percepção, mais ou menos vaga, de que havia muito espaço no centro do terreno (esse espaço existias porque os holandeses tinham arrastado as marcações dos alemães para os corredores laterais, e o centro estava momentaneamente despovoado).

À luz do futebol que hoje conhecemos, toda a jogada é estranha: Cruyff a vir buscar a bola aos defesas; Cruyff a posicionar-se atrás de todos os seus colegas; Cruyff a ir no um para um quando era o último defesa; etc. Há algo de profundamente bizarro em tudo isto. E, no entanto, a facilidade com que Cruyff transforma uma jogada de bola a meio-campo numa grande penalidade a favor da sua equipa, antes de qualquer adversário ter sequer tocado na bola, é incontornável! Se parássemos o filme no momento em que Cruyff recebe a bola pela segunda vez e, garantindo que a jogada se desenrolaria junto ao solo, perguntássemos a alguém em qual das duas áreas era mais provável que, sete segundos depois, houvesse uma falta para grande penalidade, quantos se atreveriam a dizer que isso se daria na área germânica? Dado o futebol que conhecemos hoje em dia, quase todos pensariam numa perda de bola dos holandeses e num contra-ataque alemão. O futebol moderno parece, portanto, o exacto oposto desta jogada. Mas aí é que está. O que esta jogada mostra é que, contra todas as probabilidades, há benefícios em jogar assim. Cruyff é, em grande medida, responsável por nos fazer perceber que é possível triunfar contrariando tudo o que nos ensinaram. A dívida que temos para com ele é essa. Mostrou-nos que, em futebol, há uma vantagem teórica decisiva em assumir a iniciativa, e mostrou-nos também que a vontade de fazer coisas diferentes, de não repetir apenas o que os outros fazem, de inovar constantemente, de satisfazer a curiosidade, experimentando, pode beneficiar-nos de um modo inesperado. O talento de Cruyff é, em grande medida, o reflexo da sua prodigiosa intuição. Mas essa intuição não era um dom inato; era o resultado do seu inconformismo, daquela mania de se colocar insistentemente perante obstáculos diferentes, de não resolver os problemas sempre da mesma maneira, de buscar amiúde novos desafios e novos estímulos. A intuição de Cruyff, aquilo que lhe permitia responder com criatividade aos obstáculos que se lhe deparavam, desenvolveu-se em função do desconforto a que ele próprio decidiu sempre sujeitar-se. Colocando-se sistematicamente perante circunstâncias atípicas e forçando-se a descobrir um modo de lidar com cada uma delas, ia adquirindo ferramentas que lhe permitissem lidar cada vez melhor com a atipicidade inerente ao jogo de futebol. A meu ver, esta jogada mostra tudo isto de forma flagrante. É em grande parte por isso que estão contidos nela os fundamentos do futebol moderno.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Clássicos: (Espanha 82 - Itália vs Brasil)

Na segunda fase de grupos do mundial espanhol, o sorteio ditou que o grupo C fosse composto por Brasil, Argentina e Itália, três candidatas à vitória final. Deste grupo, apenas uma destas equipas seguiria em frente, pelo que era necessário vencer dois opositores fortíssimos. A Argentina de Maradona não aguentou e perdeu os dois encontros, não obstante o anti-jogo de Gentile que, às leis actuais, teria sido expulso várias vezes (bateu um recorde ao fazer 23 faltas sobre o mesmo jogador num só jogo, isto fora as que não foram assinaladas). Por isso, tudo se decidia entre Itália e Brasil. De referir, ainda, que a Itália chegara a esta fase sem vencer qualquer jogo, com três empates e apenas beneficiando do facto de ter marcado mais um golo que o adversário em igualdade pontual.

Os brasileiros apresentaram-se num 352, com Valdir Peres na baliza, Leandro na direita, Luisinho na esquerda e Óscar no meio, Cerezo e Falcão como médios-defensivos, Sócrates, Júnior e Éder à frente destes, com liberdade, e Zico e Serginho na frente. Do lado da Itália, a mesma estratégia do jogo contra a Argentina: Gentile a marcar em cima Zico. Os italianos jogaram, portanto, em 541, com Zoff na baliza, Oriali à direita, Cabrini à esquerda, Scirea, Colovatti e Gentile no meio, Tardelli e Antognoni no meio-campo, Conti à direita, Graziani à esquerda, e Rossi na frente. Apesar do esquema aparentemente defensivo, a Itália nunca deixou de procurar o ataque e, na primeira parte, o jogo foi mesmo bastante equilibrado. Logo aos 5 minutos, um cruzamento do meio da rua encontrou Rossi na área que, de cabeça, concluiu sem dificuldades. Vítima do pouco rigor defensivo, o Brasil arrancava a perder. Entretanto, já Zico levara cacetada suficiente para que Gentile estivesse a ver o jogo pela televisão. Cartões, nem vê-los. Ou melhor, viu-o, sim, mas por protestos após mais uma falta. Aliás, os cartões naquela época serviam mais para que os jogadores estivessem calados do que para proteger os artistas e o espectáculo. Antes do golo do empate, destaque ainda para um falhanço inacreditável de um avançado inacreditável. Zico recupera uma bola e vai-se a isolar; para azar seu, Serginho, um matacão sem técnica, sem velocidade, sem agilidade e sem cérebro, chega primeiro à bola e finaliza de qualquer maneira; o resultado foi um pontapé estúpido, com a bola a sair francamente ao lado e aos trambolhões, digno de um troglodita. O golo do empate nasce de novo lance de Zico, que se liberta por momentos de Gentile e efectua um passe do outro mundo a isolar Sócrates, que não perdoou. E quando o Brasil tinha tudo para ir para cima dos italianos, eis mais um erro imperdoável. Ao estilo de Secretário para Acosta, Cerezo isola Paolo Rossi que, com um remate à entrada da área, não perdoa. Até final da primeira parte, o jogo foi repartido.

Na segunda parte, o Brasil surgiu mais determinado, com Júnior e Éder, principalmente, a tentarem pegar no jogo da equipa. Depois de muito tentarem e de Zoff ter negado tudo e mais alguma coisa, eis que Falcão, com todo o tempo do mundo à entrada da área, empata a partida com um remate potente. Com este resultado, era o Brasil quem seguia em frente. Faltando menos de 20 minutos para o final, havia que fazer alguma coisa. Mas Enzo Bearzot não mexeu na equipa. Quase do nada, num pontapé de canto que sobra para a entrada da área, um remate de primeira encontra Paolo Rossi, que desvia para o terceiro golo. A partir daqui, sim, a Itália remeteu-se à defesa e ofereceu toda a iniciativa de jogo aos comandados de Telê Santana, apostando apenas no contra-ataque. Mas a falta de inspiração dos brasileiros e a segurança de Zoff haveriam de estipular que o marcador não mais se alterasse.

A Itália seguia assim para as meias-finais da prova depois de ter passado a primeira fase de grupos sem conseguir vencer adversários como os Camarões, o Perú e a Polónia. Apesar da exibição paupérrima no início do torneio, conseguia - à custa de muita sorte e favorecimento, é certo - ultrapassar um grupo complicadíssimo e ia agora ter pela frente novamente a Polónia. Como até nem tinha tido muita sorte até aqui, Boniek, a estrela polaca, não pôde jogar. A Itália venceu e seguiu para a final, sagrando-se campeã frente à Alemanha. Ilustrativo do que foi a campanha italiana foi o facto de Paolo Rossi, o melhor marcador da prova, só ter marcado golos nos últimos três jogos do torneio, três ao Brasil, dois à Polónia e um à Alemanha. De entre os destaques individuais, há a realçar, do lado da Itália, Zoff (simplesmente imperial), Tardelli e Antognoni (excelentes a pautar o jogo italiano) e Rossi, com uma mobilidade refrescante e um sentido de baliza bastante apurado. No Brasil, Cerezo (com os seus movimentos verticais, a aparecer constantemente na área a finalizar), Júnior, Éder e Sócrates (pela responsabilidade de pôr a jogar toda a equipa) e Zico (o pequeno génio, de drible curto, rápido a pensar e a executar), criminosamente anulado nesta partida por um dos mais facínoras defesas de todos os tempos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Clássicos: (Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique)

A equipa de Artur Jorge actuou num 451, mostrando desde logo respeito e receio dos germânicos. Mlynarczyk na baliza, João Pinto à direita e Inácio à esquerda, Celso e Eduardo Luís no centro da defesa. No meio-campo, Jaime Magalhães à direita e Quim à esquerda eram quase segundos laterais. André, Sousa e Madjer ajudavam a fechar o meio, ficando o ataque entregue única e exclusivamente a Paulo Futre. O Bayern tomou, por isso mesmo, conta do jogo logo de início e só em fugazes contra-ataques, normalmente lançamentos para a velocidade de Futre, o Porto conseguia sacudir a pressão germânica. Em largura, a equipa defendeu muito mal, sendo os alemães capazes de chegar à linha para cruzar com muita frequência. As figuras em maior evidência, nesta fase, foram o lateral direito Winklhofer e o extremo-esquerdo Ludwig Kögl, um jogador velocíssimo e dotado de uma requintada técnica. Os alemães iam causando cada vez mais perigo até que, num lance esquisito, após um lançamento lateral, a bola sobra para Kögl, que, na área, mergulha e faz, de cabeça, o primeiro golo. Não fica, contudo, isento de culpas o guardião portista, que saíra dos postes sem necessidade. A partir desta altura, sensivelmente a meio da primeira parte, o Porto não mais foi capaz de lançar os seus contra-ataques, apesar de Madjer ter avançado no terreno, para o lado de Futre. A equipa enervou-se e perdeu bastantes bolas, coisa que os alemães aproveitaram. Apareceu nesta fase Lothar Matthäus, com vários passes de morte, não aproveitados pelos seus companheiros. Entretanto, Kögl continuava a fazer o que queria de João Pinto, rubricando uma exibição fantástica. O resultado de 1-0 ao intervalo era lisonjeiro para aquilo que o Porto tinha feito.

No segundo tempo, Artur Jorge lançou Juary, tirando Quim. Puxou Sousa para a esquerda e o brasileiro passou a fazer companhia a Futre na frente. Isto teve o condão de soltar mais o 10 portista, que começou a pôr em água a cabeça aos alemães. Já na primeira parte fora travado em falta várias vezes, mas nesta segunda parte seria ainda mais castigado. O Bayern, apesar da maior audácia portista, nunca se enervou e continuou a controlar a partida. Os primeiros 25 minutos da segunda parte foram repartidos e nenhuma equipa se superiorizou à outra, acumulando-se jogadas de ataque nos dois meios-campos. De assinalar, nesta fase, um excelente remate de Madjer, após um ressalto, que levou a bola a sobrevoar a barra da baliza, bem como um lance na área portista, em que João Pinto derruba Kögl e o árbitro não vê. Logo após este lance, surge a melhor jogada de todo o encontro, iniciada numa tabela de Futre com Jaime Magalhães. O 10 do Porto, recebendo a bola de Jaime, entra então na área com ela dominada, ultrapassa dois adversárias, sentando-os, e remata a rasar ao poste direito da baliza de Pfaff: era o sinal do que viria a seguir. Antes ainda da reviravolta no marcador, nota para uma entrada assassina de Celso, que viu apenas amarelo; para um lance anedótico em que Celso trava Kögl e no qual o árbitro, em vez de dar o segundo amarelo ao central portista, assinala falta contra o Bayern por interpretar que o extremo alemão mergulhara; e para uma sucessão de faltas e de protestos de Jaime Magalhães que lhe poderiam ter valido o segundo amarelo. Artur Jorge faz então entrar Frasco e, minutos depois, numa altura em que o Bayern até já sacudira a maior pressão dos portugueses, um passe em profundidade encontra Juary, que toca pela segunda vez na bola durante os 30 minutos que já estava em campo; este dá para Frasco, que tira um adversário do caminho e cruza; a bola encontra novamente Juary, que remata; o remate vai encontrar Madjer que, de costas para a baliza, já sem Pfaff, utiliza o calcanhar para igualar a partida. Após este lance, Madjer saiu do terreno para ser assistido e, ao reentrar, cria um desequilíbrio na esquerda. Recebe um passe longo, dá um nó de todo o tamanho em Winklhofer e, já em esforço, cruza para Juary que, sem oposição, encosta para o 2-1: estava dada a volta no marcador. Até ao final, o Porto limitou-se a pontapear a bola para onde estava virado e a queimar tempo, sendo que os germânicos perderam todo o discernimento que tinham e não foram capazes de voltar a criar situações de real perigo.

Notas Finais:

1) O Porto venceu num jogo em que foi claramente inferior, aproveitando um lance fortuito e uma desconcentração germânica para marcar. Além de Futre, que conseguiu sempre, através da sua técnica e da sua velocidade, ameaçar as hostes alemãs, e de alguns pormenores de Madjer e Sousa, pouco ou nada o Porto fez para merecer igualar o marcador. Em termos tácticos, os alemães foram superiores até à altura em que sofreram dois golos de rajada, nunca perdendo o domínio dos acontecimentos, gerindo ritmos e conseguindo levar o jogo para longe da sua área. Foi, pois, em pequenos detalhes que o jogo se definiu. Poder-se-ia dizer que as opções de Artur Jorge foram acertadíssimas, mas nem isso é bem verdade. Até à altura do primeiro golo, o Porto da segunda parte limitou-se a chutar bolas para as costas da defesa do Bayern, a solicitar a velocidade de Juary, sendo que os lances raramente assustavam os germânicos. O brasileiro, que acabou por ser decisivo e esteve nos dois golos, tocou três vezes na bola em 33 minutos, o que revela que não teve muito a ver com a vitória. Os lances dos golos nada tiveram a ver com uma mudança de atitude ou com uma melhoria do futebol do Porto: foram lances isolados e o êxito dos mesmos deveu-se a um ou outro detalhe, como o facto de Madjer, no lance do segundo golo, não estar marcado por ter acabado de reentrar na partida.

2) O homem da partida foi Ludwig Kögl, que não parou um minuto e levou tanta ou mais porrada que Futre. Do lado dos germânicos, há ainda a destacar a excelente exibição de Matthäus e alguns pormenores de Rummenigge (irmão de Karl-Heinze Rummenigge), enquanto que no Porto os melhores foram Futre, Madjer e Sousa.

3) Nota negativa, do meu ponto de vista, para Jaime Magalhães, que passou o jogo a refilar e só não foi expulso porque o árbitro não quis, que teve uma entrada maldosa sobre Kögl, já com um amarelo, não tendo ido para a rua uma vez mais por caridade, e que, depois do 2-1, sempre que o árbitro interrompia o jogo, ia a correr e dava uma biqueirada na bola para o mais longe possível, sem sofrer as devidas consequências desse comportamento.

4) A estratégia inicial de Artur Jorge revelou-se perfeitamente errada e o Porto só não foi para o intervalo com uma desvantagem maior por manifesta incompetência dos avançados alemães na hora da finalização. Além disso, o lance do penalty na área do Porto poderia ter sentenciado o jogo.

5) Fica, pois, para a História, um Porto desconhecido que vergou e humilhou o arrogante colosso alemão. Fica para a História um Golias caído aos pés de um David. E o que a História nos deixou, aquilo que fica, é que o Porto foi um justo campeão. Ainda que a outra história, com "h" pequeno, a história do jogo, tenha sido um pouco diferente daquilo que a História com "H" grande preservou.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Clássicos: (Itália 90 - Alemanha vs Argentina)

And now for something completely different...

... proponho assim iniciar uma nova rubrica: os Clássicos da História do Futebol. Porque nunca é de mais relembrar o passado, eis a resenha histórica de alguns jogos que jamais deverão ser esquecidos. Como estreia, proponho a análise detalhada, tanto quanto possível, da final do Mundial de Itália, em 1990, que opôs a mítica Argentina de Maradona, campeã do mundo em 1986, e a fria Alemanha, capitaneada por aquele que, após duas finais perdidas, em 82 e 86, haveria finalmente de tirar a barriga de misérias: Lothar Matthaus.

Quatro anos depois da final do México, Argentina e Alemanha voltariam a degladiar-se na final de um mundial, desta feita em terras que Maradona tão bem conhecia, na sua segunda pátria, a Itália. Por ter eliminado a selecção italiana, Maradona e a Argentina haveriam de jogar esta final sob um coro de assobios. Reunindo o apoio do público e uma mentalidade mais ofensiva que a sua congénere das pampas, a selecção germânica dominou praticamente todo o desafio, à excepção dos últimos vinte minutos da primeira parte, altura em que a formação liderada por Carlos Bilardo conseguiu equilibrar a contenda.

A Alemanha dispôs-se num 442 clássico, com Bodo Ilgner na baliza, Thomas Berthold a defesa-direito e Andreas Brehme, aquele que viria a decidir o mundial, como defesa-esquerdo; os centrais eram Klaus Augenthaler e Jurgen Kohler, apoiados nas tarefas defensivas pelo impetuoso médio-defensivo Guido Buchwald; as restantes posições no meio-campo eram ocupadas por Thomas Hassler à direita, Pierre Littbarski à esquerda e Lothar Matthaus ao meio; na frente, jogavam em cunha Rudi Voeller e Jurgen Klinsmann. O estilo rectilíneo e de transições velozes, o futebol objectivo, centrado na baliza, ajudariam ao domínio da partida. Já a Argentina actuou de forma pouco organizada, retraída, raramente avançando as suas linhas e dando a iniciativa de jogo à formação germânica. Com Maradona, o jogador mais imprevisível, preso a posições demasiado avançadas, a formação sul-americana foi totalmente manietada pelo futebol mais adulto dos europeus. Sem organização táctica, com posições pouco definidas e demasiada leviandade permitida aos seus jogadores do meio-campo, a Argentina nunca teve consistência e as oportunidades junto da sua área foram-se acumulando. A equipa apresentou-se com um esquema de três defesas, mas a anarquia do meio-campo suscitou variações. O guarda-redes era Goycochea, os defesas Oscar Ruggeri, Simón e José Serrizuela; no meio-campo, Troglio incumbiu-se do lado direito, permutando não raras vezes com Sensini, que ocupava o centro com Basualdo; na esquerda, posicionou-se Lorenzo, que desceu muitas vezes para a defesa; Burruchaga era o vagabundo, aparecendo ora no centro, ora na esquerda, ora na direita, equanto Maradona fazia companhia no ataque a Dezotti.

O 352 da Argentina, pouco flexível, e com as linhas demasiado baixas, implicava 8 jogadores atrás da linha da bola. Isto deu a iniciativa de jogo à Alemanha, cujos centrais e Buchwald tinham demasiado espaço para manobrar. A pressão alta dos germânicos também foi eficiente e a Argentina raramente conseguiu sair a jogar com qualidade. O destaque, nas primeiras transições, vai para Basualdo, o mais criterioso e elegante dos médios. Burruchaga andou sempre perdido no campo e, apesar de tecnicamente muito dotado, foi sempre pouco lesto a desembaraçar-se da bola. Maradona, na frente, poucas bolas recebeu, apesar de todo o futebol dos argentinos passar por endossar a bola ao seu capitão. Insistindo em lançamentos longos para Maradona, que se encontrava preso entre os centrais e Buchwald, a Argentina raramente conseguiu chegar perto da baliza de Ilgner. Só a partir dos 25 minutos da primeira parte é que a equipa se soltou e Basualdo, juntamente com um ligeiro recuo de Maradona e a participação mais correcta de Burruchaga nos lances, comandaram as ofensivas. A formação alemã, ainda que menos dominadora neste período, continuou a ter um futebol sério, fiel aos seus princípios tácticos, e a sair para o ataque de forma veloz, maior parte das vezes por iniciativas de Hassler ou de Littbarski. Andreas Brehme integrou-se igualmente bem no ataque e, além de bons lances pela esquerda, apareceu em zona de remate, à entrada da área, várias vezes, causando situações de pânico para os sul-americanos.

A segunda parte foi inteiramente dominada pelos germânicos. Bilardo deixou nas cabines Ruggeri e fez avançar o gigante Monzon. O futebol da Argentina, cada vez mais medíocre, permitiu que a Alemanha dominasse o encontro. A segunda parte começou praticamente com um lance individual de Littbarski, que passou por dois argentinos e, à entrada da área, rematou forte a rasar o poste. Surgiu mais em jogo, neste período, o capitão Matthaus que, apesar de ser o maestro da equipa, raramente tinha comandado os ataques na primeira parte. Embora não construindo muitas oportunidades de golo, os germânicos encostavam cada vez mais os argentinos atrás, até que se deu o lance capital do encontro. Numa entrada completamente absurda, Monzon ceifou Klinsmann e o árbitro não hesitou em expulsá-lo. Com menos um elemento, a Argentina baixou ainda mais e Maradona passou a pisar terrenos mais recuados. Por esta altura, já o meio-campo alemão era um imenso deserto. Num lance em que, mais uma vez, o espaço na zona central do terreno era muito, Matthaus faz um passe a rasgar para Voeller, que cai na área em disputa com Sensini. O árbitro aponta para a marca de grande penalidade, mas equivoca-se. Andreas Brehme marca o único golo da partida e a selecção das pampas, se já não conseguia sair para o ataque com nexo, perde todo o norte. Poucos minutos depois, com o jogo interrompido, Dezotti tenta apressar a devolução da bola ao local de uma falta e puxa Kohler, que escondia a bola. O gesto ostensivo do argentino e a simulação do defesa alemão fizeram com que o árbitro expulsasse mais um jogador sul-americano. Irados, os argentinos rodearam o árbitro, empurrando-o e encostando-lhe a cabeça. Vindo por trás, Maradona pareceu, numa primeira instância, ter a mesma vontade que os seus companheiros, mas conteve-se, abriu os braços, afastou os colegas, dizendo que ele é que iria falar com árbitro, protegendo-o, e recebeu, imagine-se, um cartão amarelo. Até final, a Argentina limitou-se a ver os alemães a trocar a bola e a desperdiçar, pateticamente, duas ou três oportunidades de baliza aberta.

Mais tarde, Maradona viria a dizer que lhe tinham roubado o título. Não sei até que ponto o árbitro agiu ou não de má fé, mas a verdade é que a Alemanha foi claramente beneficiada. Sendo, apesar de tudo, a equipa que mais jogou e que mais fez por ganhar, o penalty é inexistente e a segunda expulsão é um equívoco. Mas, creio, o gesto mais suspeito do árbitro, foi aquele cartão amarelo para Maradona, quando o astro argentino fora o único de entre os sul-americanos que defendera a autoridade do árbitro. Além de tudo isto, Buchwald merecia ter sido expulso, pelo menos, três ou quatro vezes. A entrada dura de Monzon era, claramente, para vermelho, mas Buchwald teve entradas idênticas que nem amarelo lhe valeram e ainda deu uma cotovelada sem bola em Maradona. Apesar de todos estes episódios, a vitória ficou com quem praticou melhor futebol e com quem encarou o jogo de forma mais inteligente.

Depois da análise do jogo em si, queria, à laia de nota de rodapé, fazer referência a alguns factos importantes. Comparando o futebol da final daquele que ficou conhecido como o mundial mais mal jogado de sempre com o futebol actual, são evidentes todas as evoluções que a modalidade teve. Os jogadores, de uma forma geral, são mais refinados a nível técnico, são mais inteligentes, são capazes de solucionar problemas mais difíceis. No fundo, estão mais preparados a todos os níveis e foram modelados segundo uma exigência muito maior. Porque tiveram necessidade de se adaptar a um futebol mais "difícil" (o futebol dos dias de hoje), os jogadores actuais são melhores, em termos comparativos: qualquer jogador de nível mediano hoje seria um grande jogador naquela altura. Ainda assim, há os casos extraordinários. Maradona era um fora-de-série, um jogador incomparável, dotado de uma capacidade técnica inigualável e de uma imaginação poderosíssima. Basualdo e Burruchaga são os outros nomes que me apraz salientar na Argentina daquela época. Mas, os restantes eram jogadores medíocres, visivelmente pior preparados do que os jogadores actuais. Na Alemanha, destaque para a maturidade de todo o conjunto e para a qualidade de Matthaus, cerebral e competente, Hassler, velocíssimo e tecnicamente muito forte, Littbarski, poderoso no um para um, e Brehme, um lateral de índole ofensiva com um remate espantosamente certeiro e potente. Destaque, pela negativa, para Voeller e Klinsmann. Muito disponíveis, a aparecerem muito bem em zonas de finalização, rápidos, móveis, mas pouco inteligentes. Eram jogadores unicamente para finalizar e, mesmo nesse capítulo, sobretudo Klinsmann, era pouco frio. Raramente tabelavam com os colegas, eram tecnicamente muito deficientes e tinham pouca imaginação. De salientar ainda, uma substituição francamente incompreensível: com mais um homem e o jogo ainda empatado, com a Argentina completamente remetida para a sua zona defensiva, Franz Beckenbauer substituiu o lateral-direito Berthold por outro lateral-direito, Reuter. Aquilo é que era correr riscos, naquela altura...

Outra coisa da qual gostaria de falar era da possibilidade de se atrasar a bola para o guarda-redes. Só ao rever um jogo desta altura me pude aperceber que consequências trouxe essa regra. Até aqui, pensei sempre que a principal consequência era a impossibilidade de se queimar tempo atrasando a bola para o guarda-redes, mas houve algo muito mais importante que passou a suceder. A pressão alta, feita nos últimos defesas, só ganhou verdadeira expressão após esta regra. Porquê? Porque antes não tinha a mesma eficácia que agora. Podendo o defesa atrasar a bola para o guarda-redes, pressionar alto era quase inútil, uma vez que os defesas, sentindo-se ameaçados, podiam sempre recorrer ao guarda-redes, enviando-lhe a bola. É também por esta regra que se explica que o "catennacio", que o futebol defensivo tenha perdido eficácia. Defender em bloco baixo, na altura, era quase a solução mais prática, pois não havia muito a ganhar em defender mais alto. Hoje em dia, há essa possibilidade e tudo passou a ser diferente.

Como último reparo, gostaria de deixar claro que, ao contrário do que alguns palermas me quiseram fazer crer, Matthaus não passou os 90 minutos a marcar individualmente Maradona. Quando confrontado com essa hipótese, a minha intuição e a minha memória disseram-me que Matthaus era, à época, o médio organizador da selecção, sendo por isso praticamente impossível que fosse sacrificado para marcar o astro argentino. Não tendo a certeza absoluta desta intuição, concedi a razão a quem, com tantas certezas, alardeava o contrário. Após ver o jogo, percebi que todas essas supostas certezas caíam em saco roto e que Maradona, além de não ter sido marcado em cima por Matthaus, não teve qualquer espécie de marcação especial. O jogador com quem mais se cruzou em campo foi o médio-defensivo Buchwald. Com Matthaus, Maradona apenas se cruzou uma vez, numa altura em que a Argentina jogava com menos um e que, por causa disso, recuara ainda mais, dando-se o lance no meio-campo. Matthaus jogou como médio-ofensivo, nunca pisando os mesmos terrenos que Maradona, mas havia quem mo jurasse a pés juntos. Essa pessoa não possuía, afinal, qualquer razão, o que me faz acreditar que vale mais a minha intuição que as certezas absolutas dela. Tendo em conta que se achou no direito de me mandar calar, crendo-se sabida, acho-me no direito, agora que estou ciente de ter razão, de lhe dizer que consulte um oftalmologista, que faça um transplante cerebral ou que resolva o seu problema de outra maneira mais simples: não dar opiniões sobre futebol, uma vez que não percebe nada disto. Da mesma maneira que não escrevo sobre política nem venho para aqui dizer que o Bacalhau à Lagareiro é bom é com alho picado, há pessoas que não deveriam ter opinião sobre futebol, ainda que muitas delas escrevam em locais conceituados e sujeitem aquilo que escrevem a muitos leitores. Essas pessoas, quais personagens flaubertianas, não têm consciência de que as suas opiniões, ou infundadas, ou erradas, ou pura e simplesmente insignificantes, não têm qualquer tipo de validade, e crêem-se dotadas de uma cultura e de uma inteligência superior à que na verdade possuem. Arrogam-se de poder falar de coisas das quais não percebem e não aceitam argumentos que comprovam a falsidade das suas suposições. Pessoas como essas, que não têm capacidade para entender mais do que vislumbram, que não têm uma capacidade de raciocínio suficientemente apurada para entender coisas ligeiramente mais complicadas, mas que pensam que são capazes de falar de tudo, de ter conversas interessantes e de se tornarem sábias a pouco custo, pessoas cujo mais profundo pensamento é a mais frívola e superficial ideia que se pode ter, pessoas que repetem as opiniões do povo e julgam arvorar a mais original das novidades, que falam aborrecidamente mas julgam interessante o discurso, que se enchem de clichés e advogam ideias que não são suas, que concordam com a chusma que balbucia disparates sem pensarem na coerência daquilo que dizem, pessoas como essas reúnem em si os valores burgueses (a pequenez, a insolência e a mediocridade) com que Gustave Flaubert dotou o filisteu Monsieur Homais...