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domingo, 20 de maio de 2012

Ser Adepto

O que é ser adepto? Em grande medida, é ser alguém que gosta especialmente de um clube, tendencialmente de modo irracional, e que se regozija com a vitória desse clube. Há, no entanto, um problema. De que serve uma vitória a um adepto? Isto é, por que razão uma vitória do clube de que gosta o deixa tão contente? Numa guerra, vencer o inimigo implica necessariamente evitar a aniquilação, ou a subjugação. Vencer, nesse caso, é sobreviver. Mas, em futebol, não é assim. Qual é o objectivo ulterior da vitória? Um só: sentir que se é melhor do que os vencidos. O Chelsea acabou de se sagrar campeão europeu, e muitos londrinos sentirão neste momento que são os melhores do mundo. Senti-lo-ão, sim, mas porque são estúpidos. Um adepto inteligente, havendo-o por aí, só poderia sentir vergonha, nesta altura. Aliás, a capacidade de sentir vergonha nos momentos certos é, não raro, um sintoma de inteligência.

Dir-me-ão que isto não tem nada a ver com inteligência. Respondo que defender a prática da celebração de vitórias recorrendo à estupidez em que consiste o exercício é provavelmente uma defesa idiota. Os adeptos do Chelsea que festejam hoje a vitória do seu clube são como jogadores de casino a quem saem os dados certos, com a diferença significativa de que, depois da jogada certeira, não ganham dinheiro nenhum. O que se festeja hoje em Londres é, à falta de melhor, a irracionalidade própria. Aquelas pessoas celebram porque estão convencidas - a cultura em que nasceram educou-as assim - de que as vitórias, por si só, merecem celebração. Mas não há razão nenhuma para que assim seja. Só há um tipo de sítios em que imagino que as coisas se festejem por si só: os hospícios. Londres é hoje um hospício gigante em que os doidos, apenas porque sim, apenas porque há qualquer coisa dentro deles que os faz sentirem-se embriagados de felicidade, festejam a sua doidice. Ser adepto, como é normalmente entendido, é pouco mais do que ser doido.

Ganhar, por si só, não é nada. A vitória só faz sentido enquanto materialização de uma certa superioridade. O que deve ser festejado, quando se festeja uma vitória, não é a vitória, mas a superioridade que essa vitória materializou. Quando a vitória cai do céu, quando não materializa rigorosamente coisa nenhuma, festejá-la é um absurdo. Assim é neste momento. O Chelsea não foi superior a ninguém, e a vitória que alcançou é ridícula. Festejar essa vitória é como ser muçulmano e festejar o triste episódio do World Trade Center em 2001. Pensando bem, aquilo que celebram as pessoas que celebram vitórias como a do Chelsea é o Acaso; celebram o terem tido sorte, o ter-lhes protegido os interesses qualquer força inexplicável. A conclusão surpreendente é estas pessoas celebrarem afinal o não terem livre-arbítrio. Não é extraordinário? Eis a melhor definição possível de um adepto: indivíduo que, por gostar irracionalmente de algo, reconhece inadvertidamente que esperar a morte é o único objectivo da sua vida.

Depois de, em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Real Madrid vencer; depois de, outra vez em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Chelsea vencer; depois de, em Bucareste, o Athletic de Bilbao jogar e o Atlético de Madrid vencer; eis que, em Munique, o Bayern jogou e o Chelsea venceu. Às vezes, no futebol, são os que menos fazem por isso que ganham. Este ano, sobretudo nesta fase final da época, aconteceu mais vezes do que é normal. É por isso um ano desastroso para o futebol. De tempos a tempos, acontece um ano assim. E o que dizer agora de André Villas Boas e de Di Matteo? Digo o mesmo que disse há uns anos de Juande Ramos e Harry Redknapp. Na altura, disse que o Tottenham não quisera crescer para onde podia. Harry Redknapp devolvera os resultados imediatos ao clube, mas o clube não tinha por onde crescer. Com o orçamento e o grupo de jogadores que o Tottenham tem, hoje em dia, não ser capaz de lutar pelo título é mau. Continua atrás do principal clube londrino, e vai tendo, no máximo, uma ou outra vitória circunstancial. Ao fim destes anos, confirmou-se a previsão: o Tottenham tem a força máxima que poderia ter com a qualidade do plantel que tem, mas estagnou enquanto colectivo. Preferiram-se os resultados a curto prazo, e não o projecto de longo termo. O Chelsea que Villas Boas desejava talvez desse frutos sustentados daqui a uns anos. Os jogadores não quiseram, e estou certo de que os adeptos estão, neste momento, felizes com a substituição de treinador. Ganharam um título muito importante, mas comprometeram, na minha opinião, o futuro. O Chelsea foi campeão europeu, mas, extraordinariamente, deu um passo atrás. De vez em quando, também acontece. É estranho pensar assim, mas é o único pensamento correcto. Ganhar nem sempre é dar um passo em frente. Por mais paradoxal que pareça, ao sagrar-se campeão europeu, o Chelsea tornou-se um clube mais fraco do que era.