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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Guardiola e a dupla herança de Cruyff

Em mais uma crónica na Tribuna Expresso, que de certo modo dá continuação à anterior, falo agora sobre o modo como a revolução protagonizada por Cruyff prosseguiu no trabalho de Guardiola. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sergio Busquets: o futebolista do futuro

Imaginem que são um médio-defensivo, que recebem a bola de costas no meio-campo, com a equipa adversária completamente organizada atrás e que, olhando apenas por cima do ombro, descobrem um modo de deixar o jogador mais talentoso da equipa perfeitamente enquadrado para atacar a última linha adversária. Parece impossível, mas foi o que Sergio Busquets fez em Camp Nou no fim-de-semana passado, no primeiro golo do Barça. Tudo no modo como fez a bola chegar a Messi, mas tudo mesmo, foi deslumbrante. A aparente facilidade com que o fez, então, é o sinal inequívoco do seu brilhantismo. Reparem que Busquets não está de frente para o lance, que não pode decidir a direcção do passe à última da hora. Ao olhar por cima do ombro, num primeiro momento, há uma linha de passe aberta para Messi, entre o ala esquerdo e o médio-centro do lado esquerdo do Girona. Se a bola entrasse aí, porém, o ganho não seria decisivo. Mas é essa a linha de passe mais convencional, aquela pela qual optaria a maioria dos jogadores. E já nem estou a falar de jogadores banais. Esses passariam para o lado, ou procurariam fazer a bola chegar aos flancos. Um bom jogador, um que perceba a vantagem de fazer a bola entrar verticalmente entre as linhas adversárias, escolheria essa linha mais convencional. Mas um jogador excepcional como Busquets pensa de outro modo. Entre o momento em que olha por cima do ombro e o momento em que a bola sai do seu pé, há tempo suficiente para que as circunstâncias do lance se alterem. E Busquets sabe isso. Sabe também que os adversários não ignoram essa linha de passe, e que se preparam para reagir à previsível entrada da bola nessa zona. E sabe ainda que Messi também sabe todas essas coisas, e que se encarregará de lhe dar oferecer uma linha de passe alternativa. Ao olhar por cima do ombro, Busquets vê tudo isso: vê uma linha de passe relativamente óbvia, vê aquilo que os seus adversários se preparam para fazer e vê o espaço que existe para Messi explorar alternativamente. E não faz o passe logo porque precisa de dar tempo aos adversários para tomarem consciência da linha de passe mais óbvia e porque precisa de dar tempo ao próprio Messi para perceber qual o melhor espaço a atacar.




É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Marcação Individual

A marcação individual foi um dos temas dominantes há umas semanas, sobretudo nos dias que antecederam a recepção do Sporting ao Barcelona e porque Lionel Messi estava numa forma impressionante. Para muitos, a genialidade do argentino é tanta que a maneira mais eficaz de tirá-lo do jogo é destacar alguém para o vigiar os 90 minutos, vá ele para onde for. Um dos problemas desta opção é, desde logo, o de não garantir que o alvo da marcação não vá conseguir livrar-se dessa marcação vezes suficientes para fazer a diferença. Outro, ainda mais relevante, é o de tornar cada lance em que o conseguir num lance de potencial perigo. Quando o alvo da marcação se consegue livrar do marcado directo, não fica propriamente com o espaço que teria, se não tivesse qualquer marcação, pois a equipa que defende terá sempre se de reajustar em função disso, e com um jogador a menos, que é aquele que está destacado para a marcação a esse jogador.

O problema principal da marcação individual não é, todavia, nenhum destes. Imaginando que essa marcação pudesse ser eficaz ao longo dos 90 minutos, e que o adversário que se achou importante marcar em cima não fosse capaz de escapar a essa marcação e de ter bola para fazer a diferença, a simples preocupação em seguir um adversário por todo o terreno é uma vantagem tremenda para a equipa adversária. Isto porque a equipa do jogador sobre o qual recai a marcação passa a poder levar um elemento adversário para onde lhe aprouver e, portanto, a poder induzir uma determinada desorganização defensiva nesse adversário. Imagine-se que os dois laterais de uma equipa estão destacados para marcar individualmente os dois extremos adversários (quem tiver pouca imaginação e achar que isso já não se usa assim, pode sempre ver alguns jogos do Manchester United de José Mourinho o ano passado). Se o treinador adversário quiser, pode simplesmente pedir aos seus extremos que passem a frequentar espaços centrais, levando consigo os marcadores directos, e aos restantes jogadores da equipa que façam a bola entrar no espaço que passa a ficar livre em cada flanco.


Há um lance do jogo de Alvalade que opôs o Sporting ao Barcelona que ajudar a ilustrar tudo isto. Trata-se da primeira grande ocasião de perigo criada pelos catalães, e é essencialmente causada pela ausência de gente entre os dois médios (Bruno Fernandes e William) e os dois defesas centrais do Sporting. No início da jogada, que se desenrola pela esquerda, Battaglia está mais perto de Acuña do que propriamente da zona que deveria povoar se estivesse preocupado com a cobertura aos seus médios. A missão de perseguir Messi, mesmo que apenas quando este entrava na sua zona de jurisdição (Battaglia não ia atrás do argentino quando este baixava em demasia nem quando este procurava as zonas do ponta de lança, limitando a mover a marcação individual apenas quando Messi aparecia entre linhas), fez de Battaglia um jogador a menos, do ponto de vista colectivo. Não havendo sintonia entre as referências dos colegas (a bola, o espaço e a posição relativa dos colegas) e a referência de Battaglia (o posicionamento de Messi), era natural que este tipo de coisas acontecesse. É impossível articular o comportamento de um colectivo se o comportamento de um dos elementos desse colectivo for ditado pelo adversário. No que diz respeito a este lance, ter ido atrás do argentino para uma zona tão afastada fez com que se abrisse um buraco entre a linha média e a linha defensiva, e Sergi Roberto aproveitou para invadir essa zona, recebendo sozinho e em condições de se enquadrar para a baliza, apenas com a linha defensiva pela frente. Bastou um movimento sem bola e um passe para o espaço criado por esse movimento para se originarem as condições de perigo ideais.

É verdade que do facto de ser assim tão fácil criar as condições de ataque ideais não se segue que todos os jogadores a quem é movida uma marcação individual se movimentem propositadamente para que isto se suceda. É aliás raro que um jogador o faça deliberadamente, ou que um treinador, perante uma situação destas, perceba a vantagem de que dispõe e saiba explicar ao seu atleta para onde e de que modo deve conduzir o seu marcador directo. Mas, mesmo que o adversário não compreenda essa vantagem e não saiba tirar proveito dela, a marcação individual continua a ser uma opção perigosa. Mesmo que involuntariamente, como aliás parece ter sido aqui o caso, é natural que o avançado a quem é movida a marcação acabe por arrastar o seu marcador directo para zonas potencialmente desvantajosas para quem defende e que a equipa que ataca acabe por usufruir do espaço que se cria na sequência disso. Messi é excepcional e merece considerações excepcionais, concordo. Mas hipotecar a organização defensiva na esperança de que Messi tenha menos influência no jogo parece-me estúpido. Entre apostar na organização para tentar vencer uma equipa na qual joga Messi e apostar na desorganização para se jogar contra a mesma equipa, mas sem Messi, parece-me óbvio aquilo que se deve escolher. Mesmo que, colectivamente, este Barça de Valverde seja banalíssimo, há uma quantidade de jogadores acima da média que podem facilmente usufruir da desorganização propiciada pela segunda aposta. Messi é excepcional, claro, mas achar que Messi é mais perigoso sozinho contra uma equipa bem organizada do que os restantes dez companheiros contra uma equipa mal organizada não me parece fazer muito sentido.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

As Incidências do Jogo e as Análises do Resultado

Um jogo de futebol tem 90 minutos, e a análise desses 90 minutos não pode, de maneira alguma, negligenciar as incidências que modificam a face do jogo. Entre essas incidências, a alteração do marcador (e as implicações emocionais e estratégicas dessa alteração) desempenha um papel muito importante. Uma equipa pode começar bem o jogo e, após sofrer um golo, perder a concentração ou modificar deliberadamente a sua forma de jogar. E, no entanto, não é raro os analistas desprezarem a marcha do resultado, quando instados a pronunciar-se sobre o que aconteceu numa partida de futebol. Para tais analistas, uma goleada denota sempre uma superioridade inequívoca de uma equipa sobre a outra, e qualquer vitória, mesmo que obtida nos minutos finais, num lance de bola parada, depois de 90 minutos de pouca qualidade, tem forçosamente de ser justificada mediante um mérito qualquer. Como a única coisa que lhes interessa é justificar racionalmente o resultado final, e geralmente privilegiam explicações simples, tendem a desvalorizar ocorrências que comprometam essa racionalidade ou que a tornem demasiado complexa. Coisas como um golo contra a corrente do jogo, uma expulsão ou uma sequência de falhanços inacreditáveis à frente da baliza têm impacto no modo como as equipas passam a encarar o jogo, do ponto de vista emocional ou estratégico, a partir do momento em que acontecem, e essa mudança tem de ser comtemplada aquando da análise global ao jogo. Há jogos em que, de facto, o resultado expressa bem o que aconteceu em campo. Mas o futebol é um jogo de detalhes, e muitas vezes são os detalhes que definem o resultado, pelo que também há jogos em que o resultado expressa muito mal o que aconteceu em campo. A maior parte dos analistas não considera esta segunda possibilidade, e entende que um resultado favorável traduz sempre uma superioridade qualquer.

Vem isto a propósito de dois jogos da Liga dos Campeões da semana passada. É quase unânime que o Sporting foi muito inferior ao Borussia de Dortmund, sobretudo na primeira parte, e é quase unânime que essa inferioridade se explica pela incapacidade (individual e colectiva) de pressionar Weigl, o médio-defensivo que dava sistematicamente início à construção dos alemães. Não concordo com nada disto, e estou convencido de que tais análises decorrem justamente da impressão que os golos, e o resultado, causam às pessoas. Quando Aubameyang marcou o primeiro golo do Borussia, num lance em que Rúben Semedo não fica isento de responsabilidades (achou que podia tentar ganhar em velocidade, quando podia facilmente ter encostado assim que o gabonês arrancou), o Sporting mandava por inteiro no jogo: já tinha tido duas oportunidades de golo e, sobretudo, não permitia ao Dortmund senão lançamentos longos, a explorar as alas, que invariavelmente acabavam em bolas perdidas. Se, antes do golo, o jogo era diferente daquilo em que se tornaria depois, é absurdo diagnosticar um mal geral ao modo como o Sporting encarou a primeira parte do desafio. Se Bryan Ruiz tivesse conseguido dominar aquela bola que William lhe endossou e, ficando na cara do guarda-redes, fizesse golo, ou se o árbitro da partida tivesse assinalado a grande penalidade sobre Bas Dost no lance que precede o primeiro golo dos alemães, o jogo seria completamente distinto. Mais ainda, o golo não afectou a equipa de Jesus de imediato. Nos minutos seguintes, o Dortmund continuou com muitas dificuldades em ligar o seu jogo, e a liberdade de que Weigl acabou por gozar começou a fazer-se notar apenas aos poucos, e com a descrença que se foi apoderando da equipa leonina. No final da primeira parte, fica-se com a impressão de que Weigl jogou os primeiros 45 minutos sem oposição, que o Dortmund conseguiu sempre superar as linhas de pressão do Sporting e aproveitar o espaço entre a linha de meio-campo e a linha defensiva adversária, e que os leões foram totalmente subjugados. Nada mais falso. Do meu ponto de vista, aliás, o Dortmund fez uma primeira parte relativamente fraca. O jogo interior dos alemães, por exemplo, praticamente não existiu. À excepção de dois lances em que Weigl conseguiu ligar o jogo por Goetze (ao minuto 13, na sequência de uma acção defeituosa de Elias, que se fixa em demasia na referência do homem e deixa um espaço enorme no meio, e ao minuto 29, em que Goetze aparece a receber entre Elias e Gelson, já perto da linha lateral), a opção dos alemães foi sempre o jogo exterior, e esse raramente constituiu um grande problema. É verdade que  o Dortmund conseguiu chegar muitas vezes ao último terço do terreno, e que o Sporting não travou o principal responsável por isso, Weigl, mas raramente lá chegou com a defesa leonina desequilibrada. Os desequilíbrios alemães ocorreram quase todos na sequência de lances de contra-ataque (como o de Pulisic ou como o de Kagawa) ou em acções individuais (como aquelas protagonizadas por Aubameyang). Em organização ofensiva, quantas vezes o Dortmund conseguiu realmente incomodar o Sporting? Conseguiu fazer a bola chegar ao último terço do terreno, mas quase sempre por fora e quase sempre com as linhas defensivas bem arrumadas.

O Sporting começou muito bem o jogo, em todos os aspectos (qualidade a sair de zonas de pressão, capacidade de circular a bola e penetrar no bloco adversário, competência a pressionar, com a linha defensiva muito subida a encurtar os espaços interiores), e continuou a fazer bem algumas dessas coisas. Mas houve uma coisa que mudou com o golo de Aubameyang. Fosse por receio de perder o controlo da profundidade, fosse por desconcentração, a linha defensiva dos leões não se comportou sempre como deveria, afundando em excesso em determinadas ocasiões. Veja-se, por exemplo, o lance de contra-ataque conduzido por Kagawa aos 39 minutos: Bartra recupera a bola, e toda a linha média do Sporting sai em pressão; a linha defensiva, porém, permanece atrasada, e o japonês pôde receber entre linhas, sem ninguém num raio de 20 metros. Foi esse, a meu ver, o principal defeito do Sporting, na primeira parte. Sempre que, em organização defensiva, a linha de defesa baixava, a linha média não tinha outra hipótese que não fosse baixar também, dada a colocação de Goetze e Kagawa (que se posicionavam sistematicamente junto à linha defensiva leonina), e foi isso que permitiu a Weigl toda aquela liberdade. E isso só aconteceu porque o resultado era desfavorável e, concretamente, porque isso resultara de um lance em que Aubameyang conseguira ganhar as costas à defesa do Sporting. Perante um resultado desfavorável, o passar do tempo faz aumentar a descrença dos jogadores, e com essa descrença aumenta também o receio de falhar e a desconcentração. O Sporting continuou a jogar bem, tanto ofensiva como defensivamente, depois de sofrer o golo (esteve muito bem a sair de zonas de pressão, a trocar a bola em espaços curtos, a explorar o jogo interior, a criar situações de ataque através de combinações colectivas, a criar superioridade numérica na zona da bola, a reduzir os espaços no corredor central, etc.), mas num ou noutro momento os jogadores perderam a concentração (geralmente em aspectos em que é mais fácil perdê-la, como seja em acções de posicionamento sem bola), e isso criou a ilusão de que o Borussia de Dortmund tinha dominado o jogo a seu bel-prazer. O Sporting falhou em certos momentos, é certo, mas não me parece justo justificar o resultado de um jogo (neste caso, o resultado que se verificava ao intervalo) com base num falhanço estratégico quando, na verdade, as falhas foram pontuais e em grande medida motivadas pelas incidências do próprio jogo.

O outro jogo que motivou este texto foi a goleada imposta pelo Barcelona ao Manchester City, em Camp Nou. Depois do jogo, aquilo que se ouviu foi que o Barcelona dominara absolutamente, que a diferença de qualidade entre as duas equipas foi avassaladora e que o City de Guardiola ainda não está minimamente afinado. De novo, não só não concordo com nada disto como estou convencido de que tais análises decorrem unicamente dos números expressivos do resultado final. E, no entanto, os primeiros dois terços do jogo não justificam tal análise. Até à expulsão de Cláudio Bravo, o City não estava a ser inferior, de modo algum, ao Barça. Perdia por 1-0, é certo, mas não estava a ser inferior, em termos gerais, ao seu adversário. Em muitos momentos, aliás, estava até a ser superior. Até ao primeiro golo, aos 16 minutos, estava a condicionar por completo a manobra ofensiva dos catalães, e estava a conseguir produzir ataques bem mais interessantes. E mesmo o lance que permitiu ao Barcelona chegar à vantagem é do mais fortuito que há: Messi não só ganhou um ressalto, no início do lance, como acabou por ficar isolado frente a Bravo apenas porque Fernandinho escorregou. Até à expulsão do guarda-redes do Manchester City, no início da segunda parte, as equipas dividiam o jogo, havendo momentos em que uma conseguia superiorizar-se à outra e havendo oportunidades claras de golo em ambas as balizas, e dificilmente se poderia apostar num vencedor. Depois da expulsão, sim, o Barcelona dominou totalmente a partida. Com menos um jogador, o City teve mais dificuldades em suplantar a primeira linha de pressão dos catalães, e começou a cometer alguns erros. E depois do segundo golo, com a partida praticamente decidida, o desnorte apoderou-se dos ingleses. A bem dizer, o Barcelona até justificou a goleada, pelo que conseguiu fazer nos últimos 30 minutos. Mas é anedótico dissociar o que aconteceu nesse período do jogo do acontecimento que o desencadeou. Nenhuma análise séria pode pegar no que se passou nesses 30 minutos sem ter em conta que o Barcelona jogava com mais um jogador, que estava em vantagem no marcador, que tinha a partida resolvida e que os adversários já não estavam emocionalmente comprometidos com o jogo. O Barcelona só foi melhor do que o Manchester City, e só dominou como os analistas disseram que dominou, depois de acontecerem certas coisas no jogo. Foram as incidências do jogo, e só elas, que permitiram ao Barcelona superiorizar-se de modo evidente, e qualquer análise do resultado que procure justificá-lo sem reconhecer a devida importância a essas incidências é uma análise falhada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sergi Roberto e a Timidez

Sergi Roberto é um dos médios espanhóis mais promissores. Já tinha falado do seu talento anteriormente aqui, e continuei sempre a pensar o mesmo. Ainda assim, a sua afirmação tem sido adiada época após época. Depois da saída de Fabregas e Thiago Alcântara, parecia chegada a altura dele, mas tal não foi o caso, e cheguei a pensar que o seu destino não seria muito diferente do de Jonathan dos Santos, outro médio talentoso cuja evolução estagnou por falta de oportunidades. À partida para esta época, e mesmo com a saída de Xavi, Sergi Roberto parecia ser apenas o quarto médio (as primeiras três opções para o lugar de médio ofensivo, no Barça, eram claramente Iniesta, Rakitic e Rafinha) e, pelas indicações dadas na pré-época, parecia poder jogar mais tempo a lateral direito do que propriamente a médio. Foi assim, aliás, que começou a dar nas vistas, aproveitando a lesão de Dani Alves para aparecer em grande nível, como se tivesse sido lateral toda a vida. A inteligência e a criatividade são os seus principais atributos, e Sergi Roberto parece um exemplo feliz de como isso é tudo o que um jogador de futebol realmente precisava para poder vingar, seja qual for a posição. Apesar de nunca ter sido lateral, parecia saber exactamente o que fazer em cada situação, e foi mesmo o melhor em campo em vários jogos. O regresso de Dani Alves à actividade parecia, contudo, votar Sergi Roberto ao banco de suplentes, e durante algum tempo as suas excelentes prestações não pareciam ter sido devidamente reconhecidas. A lesão de Rafinha permitiu-lhe, porém, alguma utilização como médio, e a lesão mais recente, de Iniesta, contribuiu para que fosse presença assídua no meio-campo do Barça. E o que Sergi Roberto fez, nos últimos jogos, foi o suficiente para tornar difícil a vida a Luis Enrique a partir de agora. No último fim-de-semana, acrescentou à regularidade exibicional uma preponderância ofensiva muito assinalável: além do muito que tem jogado, foram dele as duas assistências para os dois golos com que o Barcelona venceu o Getafe. A primeira, então, é qualquer coisa de sublime, e merece todo o destaque.



Sergi Roberto pertence a um tipo de jogador que, não obstante o talento inegável, parece acusar alguma timidez. Sou defensor de que, numa equipa de futebol, cada jogador deve ter um tratamento diferenciado. Havendo perfis (psicológicos, atléticos, etc.) diferentes, há naturalmente quem mereça uma oportunidade e há quem mereça dez. Um jogador mais tímido, por exemplo, precisa de mais tempo para se sentir confortável dentro de uma equipa e, portanto, precisa de mais tempo para mostrar as suas qualidades. Um jogador mais irreverente, pelo contrário, precisa de menos tempo. Até pelo talento que lhe era reconhecido quando jovem, Sergi Roberto foi sempre permanecendo em Camp Nou. Ainda assim, não se soube, durante largas épocas, tornar confortável ao jogador a sua posição na equipa, e ele continuou incapaz de se livrar da sua timidez. E, se não fosse pela circunstância das várias lesões que fustigaram o plantel às ordens de Luis Enrique, ainda não era esta época que se afirmaria. O caso de Sergi Roberto é, também por isso, muito relevante para se perceber por que é que certos jogadores que parecem destinados ao sucesso acabam por passar ao lado de grandes carreiras.

O melhor exemplo que poderia dar como comparação é o de Bruno Pereirinha. É, de longe, o jogador português mais talentoso da sua geração, e está condenado a uma carreira irrisória. Até apareceu bem no Sporting, com a confiança que advinha de terem muitas expectativas a seu respeito, mas aos poucos foi acusando a sua timidez natural. Se ao seu talento somasse a irreverência que outros têm, a sua carreira teria decerto sido diferente. Podia não ter chegado ao nível a que poderia chegar, dada a conjuntura difícil que encontrou no Sporting, mas teria certamente merecido outro género de aposta, nos mais diversos clubes. A sua timidez levou, inicialmente, a considerar que nem sequer era médio, sendo a lateral que quase todos acreditavam que podia evoluir. Até por aí o seu caso é semelhante ao de Sergi Roberto. A inteligência, como a do espanhol, permitia-lhe jogar a lateral com facilidade, e as pessoas acabaram por considerar que essa era a sua melhor posição. Não era. Como não é a de Sergi Roberto. Tem facilidade nesse lugar, porque tem um talento fora do comum e porque percebe o jogo com facilidade, mas é médio. Como Sergi Roberto é. E é como médio que se espera que Sergi Roberto evolua. No início da carreira no Barça, Iniesta passou por problemas semelhantes. O perfil psicológico dos dois não é, aliás, muito diferente. E o talento, por sinal, também não. A diferença estará sempre na evolução, e nas circunstâncias que a possibilitem. Sergi Roberto já mostrou que merece a aposta, e cabe ao treinador e ao clube perceber que um jogador, por melhor que seja, precisa de que acreditem nele e de que o deixem descobrir, por si, como acomodar a sua timidez com a sua qualidade. A meu ver, o futuro do meio-campo espanhol passa necessariamente por ele e seria um desperdício não o ver, daqui a poucos anos, a comandar a selecção do país vizinho ao lado de Thiago Alcântara e de Oliver Torres.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Legado de Luis Enrique e outras coisas

1. O Fim de uma Era

Quando a época passada terminou, e o Barça de Luis Enrique conquistou os três principais títulos, tive o ensejo de escrever um texto que, por vários motivos, acabei por nunca escrever. O que queria ter dito na altura e não disse é o que, muito abreviadamente, direi agora. O Barça ganhou tudo e, para muitos, voltou ao domínio do futebol europeu. A minha opinião é ligeiramente diferente: o Barça ganhou tudo, e perdeu finalmente a hegemonia que teve na última década. Pode parecer um contrassenso, mas creio que as conquistas do ano passado são o ponto final de uma era que começou com a chegada de Guardiola ao clube. O futebol da equipa de Luis Enrique já não tinha muito a ver com aquele que Guardiola preconizava (e que Tito Villanova e Tata Martino, mal ou bem, mantiveram), e o sucesso desse futebol significa a ruptura decisiva com o passado. Correndo o risco de parecer incoerente, uma vez que defendo que esse futebol já não tinha muito a ver com a da grande equipa de há uns anos, acho que muito desse sucesso se deve ao que os jogadores aprenderam com Guardiola: muito do que seria o trabalho do treinador é dispensado pelo que os jogadores, em termos colectivos, ainda retêm dessa altura. O mérito de Luis Enrique nas conquistas da equipa é, aliás, muito reduzido. Além de um conjunto de jogadores que cresceram a fazer uma série de coisas que agora fazem de olhos fechados, contou com jogadores que, do ponto de vista individual, fizeram toda a diferença. Para dizer de outro modo, o Barcelona ganhou tudo como poderia ter perdido tudo e como várias equipas ganham tudo. Jupp Heynckes ganhou tudo pelo Bayern há uns anos, e não me parece que lhe deva ser dado um mérito especial. Há sempre alguém que tem de ganhar, e o ano passado calhou ao Barcelona. Ao ganhar desse modo, como ganharia qualquer outra equipa, o Barça voltou a ser uma equipa normal. E a hegemonia que teve, e que continuava a assustar toda a gente, acabou. Por outras palavras, foi a melhor equipa dos últimos dez anos, mas arrisco-me a dizer que não será a melhor dos próximos. Se o impacto de Guardiola se viu até ao ano que passou, culminando com o triplete de Luis Enrique, o impacto de Luis Enrique ver-se-á daqui a 5 anos, quando o Barça for uma equipa banal.

2. A Lesão de Messi

Há um pormenor que costuma ser negligenciado quando se fala nas conquistas europeias: as lesões. Os dois anos em que Guardiola não ganhou a Champions quando ao serviço do Barcelona foram pautados por lesões relativamente longas ou recorrentes de jogadores importantes: Ibrahimovic, Iniesta, Villa, etc.. A equipa de Luis Enrique teve um ano praticamente imaculado, a esse nível, e isso também foi decisivo. Foi-o, de modo evidente, na forma como pôde superar o Bayern de Guardiola, fustigado por lesões, mas foi-o também ao longo de toda a época. Não houve lesões de grande duração em nenhum jogador importante, e isso permitiu à equipa manter os seus índices de produtividade. Que o tenha sido não me parece, de modo nenhum, irrelevante. Repetir a sorte de uma época sem lesões é praticamente impossível, e creio que isso ditará um ano bem mais modesto em termos de conquistas. A primeira lesão importante aconteceu este fim-de-semana, e ainda não se sabem bem as consequências dela. Apesar de ser preferível perder Messi nesta altura, dois meses (mais um mês ou dois até recuperar o melhor ritmo) é tempo suficiente para que o Barça perca terreno, por exemplo, no campeonato. Messi, aliás, foi decisivo nos jogos decisivos da época passada, e o principal responsável pelo sucesso de Luis Enrique nas provas a eliminar (em vários jogos da Champions, concretamente contra o Bayern, e na final da Taça do Rei, por exemplo). Sem Messi, o Barça de Guardiola era só a mesma equipa menos o seu melhor jogador. Sem Messi, o Barça de Luis Enrique vale menos de metade.

3. Xavi e Iniesta

Apesar de ter perdido a titularidade a época passada, Xavi foi quase sempre utilizado por Luis Enrique. Quando jogava de início, o Barça era quase sempre melhor, apesar de praticamente ninguém conseguir ver isso. Quando entrava, a equipa passava automaticamente a jogar melhor. Ainda que em final de carreira, aquele que foi, muito possivelmente, o melhor jogador de sempre, no que diz respeito à tomada de decisão, mantinha uma influência incrível, e só aqueles que acham que o futebol requer os melhores atletas não eram capazes de percebê-lo. Como o futebol é dominado por essa gente, tornou-se praticamente consensual que a era de Xavi no Barça chegara ao fim. Tenho para mim que não foi só a era de Xavi que terminou. Com Xavi, foi-se também a melhor equipa de sempre. Aliás, restam dessa equipa poucos jogadores: Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Messi. Com a saída de Xavi (e a de Pedro), a somar-se às saídas em anos anteriores de Thiago Alcântara e Fabregas, por exemplo, o futebol de toque curto, mais pensado do que corrido, chegou ao fim. O próprio Iniesta, se virmos bem, é um autêntico órfão em campo. Messi tem capacidades atléticas (e idade) que lhe permitem adaptar-se a um estilo de jogo diferente, e o entendimento com jogadores mais vertiginosos torna-se fácil. Iniesta não as tem, e o seu futebol eclipsa-se a cada dia que passa. Não quero ser mal entendido: esse futebol não se eclipa por  Iniesta já não ter capacidades físicas para mantê-lo vivo, mas porque já não está rodeado de colegas a quem interessa jogar o mesmo jogo. Cada jogador é aquilo que o rodeia. E Iniesta deixou de estar rodeado dos mais inteligentes. O Barça de Luis Enrique já não é o Barça de Xavi e Iniesta. Em tempos, num lance que não consigo situar (imaginava, erradamente, ter sido o lance em Old Trafford que permitira a Paul Scholes fazer o golo que eliminou o Barça nas meias finais da Champions de 2007/2008), Xavi falhou um passe decisivo à entrada da área por tê-lo feito sem perceber antecipadamente se o colega a quem passava a bola estaria à espera de recebê-la. Ninguém me compreendeu, porque para quase toda a gente não se deve passar a bola antes de olhar a ver se lá está o colega. Xavi, ao falhar esse passe, antecipava o Barcelona de Guardiola. Antecipava-o na medida em que antecipava aquilo que o Barcelona de Guardiola permitia a todos os jogadores, e em especial ao próprio Xavi: jogar de olhos fechados e passar sem precisar de perceber se o colega vai estar onde deve estar. Xavi passou a bola, nesse dia, para onde devia estar o colega. Só que o colega não estava lá porque não tinha sido ensinado a perceber antecipadamente onde Xavi queria que ele estivesse. O Barcelona de Guardiola fez-se sobretudo disto: todos pareciam saber com antecedência suficiente as intenções dos colegas. Numa equipa assim, ninguém superava Xavi. Tinha sempre mais passes que toda a gente, percorria sempre mais metros do que os outros. Sem bola, dava mais opções ao portador do que qualquer outro colega. Com ela, era sempre o mais eficaz, optasse pelo passe curto ou pelo passe longo. Agora que a equipa de Xavi e Iniesta já não existe, a única boa notícia é que estão os dois (especialmente Xavi) mais próximos de se tornarem treinadores de futebol.

 4. As Inconsistências e os Estúpidos

Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que o rendimento do sueco tenha sido o problema. Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de... isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%. A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e  que Suarez tenha feito uma boa época. Mas - surpresa das surpresas - é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir. Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ficar com a bola enquanto for preciso

A jogada é a do quinto golo do Barcelona, no passado fim-de-semana, em San Mamés, e tem sido amplamente elogiada sobretudo por aquilo que Messi fez. É possível, porém, dizer tantas coisas acerca dela que não resisto a trazê-la à discussão. Sim, deve elogiar-se o trabalho do argentino, que pôs meia equipa do Athletic de Bilbao a andar atrás de si antes de provocar a ruptura decisiva com o passe para Busquets. Mas não é tudo o que deve dizer-se acerca do lance. A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer.



A última coisa de que quero falar é da desmarcação de Busquets. Enaltecer as decisões de Messi sem lembrar a decisão de Busquets de solicitar aquele passe é tremendamente injusto. Sem ela, o lance não teria dado golo e ninguém elogiaria agora Messi. Pelo contrário, dir-se-ia que Messi se agarrara em demasia à bola, que desperdiçara linhas de passe e que permitira à defesa adversária controlar o lance sem grandes problemas. Para fazer um passe, como para dançar o tango, são precisas duas pessoas. Nenhum jogador, por melhor que seja, joga sozinho, e nenhuma boa decisão depende apenas de um jogador. Busquets é médio defensivo e, normalmente, é responsável por dar apoios recuados. Quando muito, oferece uma solução lateral ao portador da bola. E, naquele lance, poderia ter-se limitado a dá-la. Busquets percebeu, no entanto, que no momento em que Messi decide passar entre os dois jogadores adversários, havia uma melhor decisão do que ficar à espera do passe lateralizado do argentino; percebeu que, se iniciasse a marcha naquele momento e passasse nas costas do lateral, Messi iria ter uma linha de passe perfeita, instantes de segundo depois, entre o central e o lateral. Ao perceber as circunstâncias do lance, e aquilo que elas lhe pediam, Busquets percebeu que a melhor decisão que tinha a tomar, para facilitar a decisão do seu colega, era solicitar a bola naquele espaço. A isto chamo capacidade de leitura. O movimento de Busquets é profundamente atípico no jogador catalão e ninguém lhe levaria a mal que fizesse aquilo que está mais habituado a fazer, que seria oferecer uma linha de passe segura. Mas Busquets não é um jogador qualquer. A sua capacidade de leitura dos lances é muito acima da média, e aquilo que fez demonstra-o bem.

Quando se voltar a criticar um jogador que, não provocando duelos individuais, demora muito a soltar a bola, pense-se primeiro no que esse jogador está verdadeiramente a fazer. Leiam-se as circunstâncias e veja-se se, por acaso, ele não estará a pensar bem, se não estará à espera de uma solução mais fiável, de um linha de passe melhor, de um desequilíbrio da equipa adversária. E olhe-se bem para o jogo, quando isso acontecer. Que se tenha a capacidade de ver se, além de tudo isso, os colegas do portador da bola estão a fazer tudo o que devem para que ele possa tomar a melhor decisão possível. Não é nada incomum que um jogador, sobretudo um jogador inteligente, se agarre à bola sobretudo por ter intuído qualquer coisa que os colegas não intuíram ou que, tendo intuído, acharam arriscado pôr em prática. A intuição que esse jogador teve pode ser muito boa, mas, se os colegas não a facilitarem, será ineficaz. E quem é criticado é, geralmente, quem não se desfez da bola a tempo. Um bom jogador - dizem - joga bem em qualquer campo e em qualquer equipa. Não podia estar mais em desacordo. Qualquer jogador, sobretudo aquele que se destaca pelos aspectos intelectuais, é aquilo que a equipa em que joga lhe permitir ser. Numa equipa fraca do ponto de vista intelectual, um jogador inteligente só ocasionalmente se destaca pela sua inteligência. Sempre que faz ou tenta fazer algo que vai para lá das capacidades intelectuais dos que o rodeiam ou das capacidades colectivas da equipa em que está inserido, é incompreendido. Para os que não o compreendem, a imaginação com que joga e que, em equipas a sério, é o atributo mais requisitado, é invariavelmente descrita como egoísmo.

P.S. O blogue tem funcionado a meio-gás nos últimos meses e continuará a funcionar assim durante mais algum tempo. A todos os seguidores, a única coisa que posso prometer é que, a partir de Setembro, passará a ser possível escrever com mais regularidade.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Velhos são os Trapos

Foi noticiado, no defeso, que Xavi Hernandez abandonaria o clube de sempre. O motivo era o mais trivial de todos, o de que a idade avançava e as qualidades de Xavi já não eram as de outros tempos. A sustentar esta tese estavam, como sempre, os números. A época anterior, não obstante a titularidade indiscutível, fora surpreendentemente fraca, quer em golos, quer em assistências. Como sabe quem lê este blogue, creio que os números são o pior dos argumentos, em futebol. E podem mesmo ser falaciosos, como me parece ser o caso. O Barcelona de Tata Martino, sobretudo o da segunda metade da época, era uma equipa pouco dinâmica, pouco capaz de envolver os médios em acções ofensivas. É natural que Xavi, um jogador cujos números sempre dependeram do facto de o colectivo jogar de uma determinada maneira, se ressentisse, nesse aspecto. Pessoalmente, acho que o futebol do médio espanhol ainda não começou a decair, e que Xavi ainda é capaz de tudo aquilo que o distinguiu. As suas capacidades físicas podem já não ser as que foram (o que não é sequer certo), mas Xavi nunca se distinguiu por elas. Sempre foi um jogador de poucos rasgos, de poucas mudanças de velocidade, um jogador de regularidade, que faz das decisões a sua principal arma. E isso - perdoem-me os que acham que depois dos 30 anos um jogador já não é o que era - é coisa que Xavi ainda não perdeu. Aos 34 anos, continua ser o mesmo jogador cerebral que era, o mesmo jogador capaz de gerir os ritmos da equipa, capaz de jogar por fora e por dentro do bloco adversário, capaz de perceber, a cada momento, o que é melhor para a sua equipa. Há jogadores que se destacam por qualidades atléticas que, com 34 anos, dificilmente poderão ser o que eram aos 30. Com Xavi não é assim. Com Xavi - diria mesmo - ter 30 anos ou ter 38 é mais ou menos o mesmo. E desconfio que só deixa de jogar ou por preconceito do seu treinador ou quando decidir que é tempo de parar.


Contra o Eibar, na jornada passada, foi assim. Aquele lance em que tira um adversário do caminho e depois trava, ajeitando de calcanhar, com dois toques, tirando mais um adversário da frente, foi já perto do final do jogo. Alguém que, com 34 anos, faz 90 minutos e ainda tem a frescura, física e mental, para fazer uma coisa daquelas é alguém que não está acabado, como dizem. Há um preconceito muito comum no futebol moderno que consiste em presumir que um jogador que já não tem as pernas que tinha tem de dar lugar a quem as tenha. O preconceito está em considerar o futebol um jogo em que "ter pernas" é o principal requisito de quem o joga. Não só isso é falso como há jogadores que nunca se caracterizaram por "ter pernas". Há uns anos, Allegri achou que Pirlo estava velho. Dispensou-o, e ele foi ser campeão pela Juventus. Com Xavi, é mais ou menos o mesmo. Associou-se a época menos feliz do Barcelona, no ano transacto, à idade de Xavi, e fez-se crer que o maestro do meio-campo catalão tinha de dar lugar a outros. É sempre mais fácil achar que uma equipa precisa de mudar de intérpretes do que achar que precisa de mudar de interpretação. Com Luís Enrique, Xavi parece ter perdido o estatuto de titular indiscutível. Mas, no Barcelona de Luis Enrique, cuja principal virtude, em relação ao Barça de Tata Martino, é ser capaz de pressionar mais alto, e com o bloco bem mais junto, Xavi volta a ter o protagonismo que tinha antigamente. Volta a ter muita bola, em zonas avançadas do terreno, com companheiros perto de si, e volta a poder fazer o que melhor sabe. Quem vê Xavi a jogar hoje, não consegue ver grandes diferenças para o que era Xavi há 5 ou 6 anos. A idade está lá, e sempre que o Barcelona não for a equipa de posse que foi com Guardiola, uma equipa paciente, sem pressas, que joga a maior parte do tempo no meio-campo do adversário, que pressiona alto, começando as suas jogadas em terrenos muito avançados, Xavi terá as dificuldades que sempre teve. Mas se o colectivo lhe permitir potenciar as suas melhores qualidades e o proteger das debilidades que sempre teve, será o mesmo Xavi que era. Quem joga, numa equipa desse tipo, é o cérebro. E um cérebro de 34 anos está tudo menos acabado. 

domingo, 27 de abril de 2014

Idade das Trevas

Vivem-se hoje, no que diz respeito ao futebol, tempos idênticos àqueles que o mundo conheceu na sequência do declínio do Império Romano, tempos de obscuridade em que o progresso parece ter sido interrompido. Um pouco por todo o lado, triunfam as equipas cuja principal virtude é a transpiração, sendo o maior exemplo disto o Atlético de Madrid de Simeone, uma equipa tão competitiva quanto retrógrada. A primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsea foi, a todos os níveis, um dos jogos mais deploráveis do século XXI. Haver num campo de futebol duas equipas e nenhuma delas ser uma equipa de futebol não só não é coisa que se esperasse ver numa meia-final de uma competição tão importante como não é coisa que se tenha visto muito nos últimos 20 anos. Não obstante, não quero falar muito deste Atlético de Madrid, ou do Chelsea de Mourinho. O sucesso de Guardiola em Barcelona contribuiu muito, a meu ver, para o progresso do futebol, e os anos que se seguem tratarão de o comprovar, ainda que esse progresso se faça paulatinamente e, pelo meio, haja retrocessos pontuais, como parece ser o caso desta época.

A melhor forma de falar da escuridão que tem sido esta temporada futebolística, com pouquíssimas novidades dignas de interesse, é opor dois treinadores, um que pertence ao século passado, outro que é um visionário. Refiro-me a Tata Martino e a Pep Guardiola. Martino tem, apesar de tudo, uma virtude: a de não ter tentado uma revolução. Percebeu que tinha de continuar o trabalho de Guardiola e de Tito Villanova, e percebeu que o melhor a fazer era não mexer muito. As pessoas esquecem-se, por exemplo, que a primeira volta do Barcelona, este ano, foi impecável (mesmo sem Messi durante alguns meses), e isso se deve, sobretudo, à forma como Martino procurou fazer com que os jogadores continuassem a jogar da maneira como sabiam. Faltou a Martino, porém, tudo o resto. Faltou perceber que jogar de determinada maneira implica fazer um sem número de coisas, faltou ser capaz de manter os jogadores concentrados em jogos de baixa exigência, faltou dar minutos de descanso a alguns jogadores (como Xavi) e mostrar a outros que a equipa precisa deles  não apenas quando não há outros para jogar (Bartra, Song e Sergi Roberto) e faltou ser capaz de ler bem aquilo que os jogos pediam dele. Até à eliminatória com o Atlético de Madrid, para a Liga dos Campeões, estes problemas pareciam pouco visíveis. O Barça tinha superado um adversário difícil, o Manchester City, tinha mostrado que continuava superior ao Real Madrid, nos confrontos directos, e só dependia de si para ser campeão.

Tudo terminou quando uma equipa super-agressiva, que joga à margem das leis, na maioria das vezes, deixou a nu os principais problemas de Tata Martino. É verdade que o Atlético de Madrid, com árbitros menos ingleses (os primeiros dez minutos da segunda mão foram vergonhosos, com o Atlético a criar sistematicamente situações de perigo que começam em faltas não assinaladas por Howard Webb), dificilmente teria passado essa eliminatória, mas o que é constrangedor é que isso nunca fora um problema, por exemplo, no tempo de Guardiola. Martino começou a perder a eliminatória quando sugeriu que, para vencer a equipa de Simeone, o Barça precisava de ser tão intenso como o Atlético. Não percebeu que, contra equipas intensas, o melhor antídoto é ser pouco intenso, é ficar com a bola, reduzir o ritmo de jogo, circular em segurança, cansar o adversário, levá-lo para onde quer, etc.. Contra uma equipa cuja principal estratégia ofensiva é pressionar alto para aproveitar os possíveis erros do adversário, a melhor contra-estratégia é arriscar, sair a jogar pelos centrais, fazer baixar os três médios para criar linhas de passe interiores, e adiantar os laterais. O Barcelona tentou fazer a sua circulação habitual, mas muito timidamente, e abandonando-a sempre que sentiu medo de cometer erros. Contra uma equipa que faz da intensidade com que joga a sua maior arma, a melhor estratégia é sempre fazer com que essa intensidade não tenha relevância. E isso faz-se tendo a bola, entrando nas zonas de pressão do adservário apenas para sugerir ao adversário que pode recuperar a bola, saindo delas imediatamente e, com isso, cansando o adversário. 

Quando se fala de posse de bola, esquece-se geralmente de que ela tem um uso passivo e um uso activo. Diz-se que ter muita bola não serve para nada, e muitos treinadores até preferem que a equipa adversária tenha a bola para lha poderem tirar. Esquece-se de que quem tem a bola não tem apenas a bola; tem também a possibilidade de conduzir o adversário para onde quiser. O Barcelona de Tata Martino não tem apenas menos posse de bola, em quantidade, do que tinha o Barça de Guardiola. É também muito menos inteligente a fazer um uso táctico da bola. O Barcelona de Guardiola usava a bola para descansar, para se reorganizar, para retirar a iniciativa de jogo ao adversário, mas usava a bola também de forma activa, entrando no bloco para solicitar que o adversário activasse a sua pressão, saindo rapidamente do bloco para circular por fora e assim ir explorar os espaços deixados em aberto pela pressão que entretanto o adversário activara. Este Barcelona continua a usar a bola de forma passiva muito bem, continua a ser capaz de ter mais bola que os adversários, e continua a ser capaz de, ocasionalmente, activar combinações estonteantes entre os seus jogadores, mas não sabe usar a bola, porque não tem treinado para isso, como um engodo. E esse uso era precisamente aquilo que, há uns anos, fazia com que houvesse um fosso gigantesco entre essa equipa e as restantes. Esse fosso, actualmente, deixou de existir, e o Barcelona é uma equipa tão permeável aos detalhes quanto outra qualquer. Ainda que continue a ser dos melhores conjuntos, e ainda que continue a ter alguns dos melhores jogadores do mundo, já não é uma equipa que, em condições normais, ganha sempre. Acresce a esse problema um outro, que com ele se relaciona: o facto de Tata Martino não perceber que, para jogar como o Barcelona deve jogar, em toque curto, com posse, tem de cumprir um vasto leque de requisitos. Não pode, por exemplo, ter a linha defensiva sediada no meio-campo, a dez ou mais metros do médio-defensivo; tem de haver uma sucessão de coberturas que impossibilite que o adversário consiga criar linhas de passe assim que recupera a bola.

Se, contra o Atlético de Madrid, ficou evidente que Tata Martino é um treinador banal, não percebendo sequer que a equipa de Simeone não é sequer muito forte em termos zonais e que bastava ter jogado com dois extremos constantemente abertos (Martino percebeu a meio da época que tinha mais sucesso jogando com Iniesta e Neymar nas alas, ou seja, com jogadores menos profundos e que gostam de vir para dentro, mas achou que essa fórmula era a fórmula certa para todo e qualquer jogo) para que houvesse mais espaço pelo meio (aliás, foi assim que o passe de Iniesta pôde entrar, no golo de Neymar), algumas das novidades tácticas apresentadas por Guardiola no seu Bayern de Munique devem ajudar a confirmar que o catalão é mesmo de outra galáxia. É verdade que Guardiola tem cedido a algumas pressões dos dirigentes bávaros e é verdade que algumas das suas ideias, por esse motivo, têm demorado a ser implementadas. Mas nota-se, sobretudo quando as coisas correm bem e sente a possibilidade de testar coisas diferentes, uma vontade enorme de revolucionar o futebol dos alemães. A mais recente das surpresas tácticas confirma que quem acha que, em futebol, já tudo foi inventado, é um imbecil. Tal como mostrou, na Catalunha, que ainda era possível jogar em 343 ao mais alto nível, mostra agora que um lateral não é necessariamente só o que as pessoas pensam que é. Para muitos, o lateral serve para jogar pela linha. Mais defensivamente ou mais ofensivamente, é papel do lateral jogar encostado à lateral, pensa quase toda a gente. Para Guardiola, para quem os laterais foram sempre, como outros jogadores quaisquer, participantes de tudo o que equipa faz, isso nunca foi bem assim. Apesar disso, nunca os laterais de Guardiola tinham sido médios. Até agora.

Desde o início da época que se percebia que os laterais do Bayern não faziam bem o mesmo que os laterais do Barça de Guardiola, integrando a manobra ofensiva por dentro e não por fora do extremo. Agora, contudo, Guardiola parece interessado em fazer dos laterais não apenas participantes do jogo interior no último terço do terreno, mas médios de construção. Assim que a equipa entra em processo ofensivo, os centrais abrem, o médio defensivo baixa, formando uma linha de três atrás, e os laterais, em vez de subirem no terreno pela linha, vêm para dentro, para a zona deixada vaga quer pelo abaixamento do médio-defensivo, quer pela subida dos outros dois médios, que passam a preocupar-se em solicitar linhas de passe dentro do bloco adversário. O que acontece é a equipa passar a jogar com três defesas, dois médios defensivos, dois extremos bem abertos, e dois médios atacantes, constantemente preocupados em explorar os espaços atrás dos médios adversários. Introduzindo esta dinâmica logo na primeira fase de construção, Guardiola consegue assim manter bastantes jogadores no meio-campo, de maneira a dar linhas de passe próximas na primeira fase de construção sem perder a profundidade e a largura dos extremos e sem perder médios dentro do bloco adversário, algo a que dá muitíssima importância e algo que nem Kroos nem Schweinsteigger têm conseguido dar-lhe. Com esta estratégia, a equipa parece conseguir manter o adversário o mais aberto possível (dado o posicionamento dos extremos, que deixam de ter de vir tanto para dentro) e parece ser capaz de manter vários homens dentro do bloco adversário, a solicitar linhas de passe entre as linhas adversárias, duas coisas que, até agora, estava a ter dificuldades em conseguir em simultâneo. Tal como o 343 na Catalunha servira para ter muitos médios ofensivos entre as linhas adversárias, sem perder a largura que força a que o adversário esteja aberto, esta dinâmica parece assim permitir duas das coisas a que Guardiola mais importância dá, em termos ofensivos.

Não obstante ter algumas reservas quanto a mudanças de posições relativas de jogadores de processo defensivo para processo ofensivo, reconheço que é das coisas mais engenhosas que já vi um treinador pensar. E sentir que há quem seja capaz de surpreender com coisas nunca antes tentadas, em termos tácticos, é das coisas mais gratificantes, para quem percebe o jogo. A mim, Guardiola continua a surpreender-me. É pena que Beckenbauer, que ainda esta semana não percebeu nada do que se passou no jogo da primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid (o Bayern só jogou mal quando abdicou da posse de bola com que dominou toda a primeira parte), ache que o Bayern deve continuar a ser uma equipa banal, sujeita à mesma aleatoriedade da fortuna que todas as outras. E é pena que Guardiola, por força da pressão que Beckenbauer tem exercido com a sua estupidez, não possa reformar a equipa como deseja. Num ano de trevas, como este, há quem queira que as trevas engulam até a única pessoa que não se conforma em viver nas trevas. Os estúpidos só estão bem se todos à volta deles forem estúpidos como eles.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uma Tabela e um Golo

Neymar marcou um grande golo, assim como Messi, mas é o quarto golo do Barcelona, o golo de Pedro, que, na minha opinião, merece menção na goleada do Barcelona, este fim-de-semana, diante do Rayo Vallecano. É verdade que o lance ocorre numa altura da partida em que os jogadores do Rayo Vallecano já tinha entregado o jogo e estavam conformados com a derrota, e é também verdade que a oposição do adversário, no lance em questão, é muito deficiente, com Fabregas a gozar de muito espaço no meio e, sobretudo, a equipa a iniciar a abordagem ao lance praticamente numa única linha defensiva, com os seus jogadores uns em cima dos outros. Nada disso, porém, invalida que o lance tenha sido superiormente trabalhado por Fabregas e Iniesta, e mais uma vez se demonstra que uma simples tabela, desde que bem executada, pode servir para ultrapassar uma defesa inteira.



O lance inicia-se com Fabregas a invadir o espaço central. Dois jogadores, de perfil, saem-lhe ao encalço, posicionando-se numa linha à frente da linha defensiva. Ao mesmo tempo, Adriano abre na esquerda, o que faz com que o lateral direito do Rayo abra e suba ligeiramente. Ao perceber que estão criadas as condições ideais para a penetração, Iniesta solicita o passe vertical entre as duas linhas defensivas e entre os dois médios de perfil. Sem hesitar, Fabregas dá em Iniesta e inicia a desmarcação para o espaço deixado em aberto pelo movimento do lateral direito, que se preocupara em demasia com Adriano e quebrara a linha defensiva. A partir daqui, era uma questão de a bola entrar no sítio certo, coisa que aconteceu. Mesmo que o passe de calcanhar de Iniesta não permitisse a Fabregas ultrapassar, de uma só vez, toda a defesa adversária (o que só aconteceu porque Zé Castro tentou ir pressionar Iniesta e a bola acabou por passar entre ele e o outro central), permitiria, com toda a certeza, que ultrapassasse os dois médios.

Com uma simples tabela, e envolvendo somente dois jogadores, um médio é pois capaz de passar por uma linha inteira de médios. Note-se, aliás, que entre a linha defensiva do Rayo e os dois médios que formam a outra linha não há mais do que 3 ou 4 metros. Significa isto que, por mais próximas que estejam dispostas as linhas  de defesa e meio-campo do adversário, há formas de uma equipa entrar nelas em progressão. Defender com duas linhas acarreta, pois, este problema, o de serem precisos menos toques para que aquele que conduz a bola fique apenas com a linha de defesa pela frente. De igual modo, ilustra este lance também aquele que me parece ser o principal problema, em termos defensivos, de um duplo-pivot. Por mais perto que joguem entre eles, e por mais perto que joguem da linha defensiva, é sempre possível colocar um passe vertical ou solicitar uma tabela entre os dois. Com três médios, dispostos em duas linhas diferentes, este problema não se põe: se um passe entrar entre dois médios mais ofensivos, há o terceiro, no meio e atrás deles; se, com uma tabela, a linha dos médios mais ofensivos for ultrapassada, há ainda a linha do médio mais defensivo para ultrapassar. Contra equipas que defendem de forma tão primária, e ainda por cima com laterais que não respeitam os princípios básicos de defesa à zona, sendo atraídos para fora por quem abre nas alas, as progressões pelo centro dos catalães continuam, por isso, a ser muitíssimo eficazes. E, assim, o futebol do Barça, se bem que longe do que foi com Guardiola, continua a ser das melhores coisas que se pode ver num campo de futebol.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Xavi e Iniesta: a Incompatibilidade Compatível

Há 5 anos, antes de Guardiola chegar ao comando do Barcelona, jogar com um médio-defensivo e dois médios à frente dele era coisa em que poucos treinadores apostavam. Mesmo de entre os que o faziam, quantos arriscavam em dois jogadores de características ofensivas, dois jogadores criativos no meio-campo? Desde que o Entre Dez existe que essa foi uma das coisas que mais se defendeu aqui, que não só era compatível jogar com dois médios de ataque à frente de um médio-defensivo como era assim e só assim que uma equipa que se pretendesse ofensiva podia ser dominadora a meio-campo. Desde que chegou, Guardiola apostou em Xavi e Iniesta, lado a lado, dois médios de características ofensivas, pequenos, franzinos, sem capacidade de ir ao choque. Sem medo, entregou o meio-campo a quem tinha cabeça, não a quem tinha pernas. Para muitos treinadores, um criativo chega e sobra. Para esses, o meio-campo serve para vedar o caminho ao adversário e pouco mais; serve para fechar espaços, para roubar bolas e, quando dá, para solicitar o médio com melhores pés, que joga preferencialmente perto do avançado, para que ele possa depois fazer a bola chegar aos atacantes. Para Guardiola, o meio-campo é muito mais do que isso. Percebeu que o trabalho defensivo, o trabalho de cobrir espaços, de reagir à perda, é da competência de toda a equipa em conjunto e que, sendo-o, não precisava de jogadores no meio-campo que se distinguissem pela quantidade de desarmes que conseguem. No meio-campo precisava era dos mais inteligentes, daqueles capazes de perceber melhor as necessidades da equipa. É um chavão dizer-se que o meio-campo é o centro nevrálgico do jogo, mas quantos dos que o dizem tiram as consequências que deviam tirar disso? Dizem que é o centro nevrálgico do jogo, mas depois acham que é lugar para pôr aqueles que têm mais pulmão ou mais músculo. Não. No centro nevrálgico do jogo devem jogar os mais inteligentes, os que sabem desenvencilhar-se melhor dos problemas. Eis o que Guardiola pensava de Iniesta:

"Iniesta es un jugador fino, es de los que priorizan más pensar que correr. Su primer control en movimiento es maravilloso. Le da continuidad y velocidad al juego. Interpreta el juego. Seguramente en otros lugares habrá jugadores de este estilo, pero allí no interesan, no los buscan", sostenía Pep Guardiola."

Poderá isto parecer presunção, mas este blogue nasceu porque, antes de Xavi e Iniesta jogarem juntos, já havia quem reclamasse que Xavi e Iniesta tinham de jogar juntos. Tínhamos descoberto, o Gonçalo e eu, que o futebol de cada um era muito mais fácil quando um andava perto do outro. Fosse para não ser forçado a driblar, fosse para não ser forçado a fazer um passe comprido, fosse por que fosse, com alguém que pensava exactamente da mesma maneira ali ao lado, na mesma posição e com as mesmas obrigações, o futebol era muito mais fácil. Qualquer médio ofensivo habilidoso, sobretudo jogando com dois médios nas costas, com liberdade para fazer mais ou menos o que lhe apetecesse, pode resolver um jogo a qualquer altura, seja com um último passe, seja com uma jogada individual, seja com um remate à entrada da área. E qualquer jogador ambiciona jogar como médio-ofensivo precisamente por isso, porque é aquele a quem o treinador, por norma, entrega a batuta da equipa e a maior fatia de liberdade; é aquele que é invejado pelos colegas, aquele que assume maior protagonismo, etc.. O que a dada altura percebemos é que isso é uma imbecilidade. Quantas bolas tem um médio-ofensivo de entregar ao adversário para que seja o protagonista que esperam que seja? Quanto ganha a equipa com um jogador assim e quanto perde? À medida que íamos ganhando consciência táctica, que íamos percebendo a consequência de cada uma das nossas acções, menos contentes estávamos com o papel de protagonista solitário que nos cabia. Sempre que tínhamos a possibilidade de jogar juntos, por outro lado, a tendência era aproximar-nos, pedir a bola um ao outro, dar ao outro uma solução diferente, uma tabela, uma possibilidade de passe curto que deixasse o adversário indeciso, uma troca de posições, etc.. Dois criativos no meio-campo não é só o dobro da criatividade; é também todo um conjunto de novas possibilidades de lances. Foi isso que Guardiola mostrou ao mundo, quando pôs Xavi a jogar ao lado de Iniesta. Mostrou que dois médios criativos são compatíveis e mostrou ainda que, mais do que serem compatíveis, permitem à equipa coisas que, de outra maneira, a equipa nunca conseguiria fazer.

Para muita gente, uma equipa de futebol é um agregado de operários fabris, cada um com as suas funções específicas. Para esses, se um determinado jogador vai jogar (por exemplo, um médio criativo), é preciso que um jogador de características diferentes jogue a seu lado ou perto dele, para compensar as coisas em que é menos bom. É por isso que quase todos os treinadores sentem a necessidade de utilizar um médio de características defensivas (ou dois) ao lado de um médio mais habilidoso. O que Guardiola mostrou é que o futebol não é nada disso, que não é preciso que as características de um jogador compensem as de outro. É possível construir uma grande equipa sem jogadores altos, sem jogadores musculados, sem jogadores agressivos, etc.. Isto porque, em futebol, tudo isso é secundário. Para muita gente, o trabalho de um treinador consiste essencialmente em montar uma máquina em que cada peça está no sítio certo e desempenha o melhor possível a tarefa que lhe compete. Não acredito em nada disso. Não acredito que o futebol seja um jogo em que a melhor equipa é aquela que tem os onze melhores especialistas em cada uma das onze posições a desempenharem o melhor possível a sua função. E é por não acreditar que o futebol é um jogo desse tipo que não acredito que o trabalho de um treinador seja apenas educar os seus jogadores a comportarem-se o melhor possível de acordo com as funções que desempenharão dentro de campo. O futebol é um jogo de relações, um jogo em que é melhor não a equipa que tiver os onze melhores especialistas a fazerem o melhor que podem, mas um jogo em que é melhor a equipa em que os onze jogadores se compreendem melhor uns aos outros. Para muita gente, a qualidade de uma equipa é a soma da qualidade individual dos onze jogadores que a compõem somada, por sua vez, à capacidade que cada indivíduo tem para cumprir os requisitos colectivos da sua posição. Para mim, a qualidade da equipa mede-se essencialmente pela forma como os onze jogadores se relacionam entre si. É por isso que não acredito na tese da incompatibilidade entre dois jogadores muito parecidos. Para mim, as fragilidades de um jogador devem ser supridas pelo colectivo, não por um jogador com características opostas. Ter dois jogadores parecidos não é um problema, como muita gente pensa; é uma bênção. Dois jogadores parecidos não descompensam uma equipa; equilibram-na. Dois jogadores parecidos não é um excesso ou um luxo; é complementaridade. Vejam como discutem Xavi e Iniesta sobre o assunto, nesta entrevista de 2006:

"X. Justo. Pues ya mete goles y nadie se acuerda de las tonterías que decían: que si el salto cualitativo no lo daba, que si patatín... ¡Listos! Tiempo al tiempo. Eso hay que darle a la gente, tiempo para que madure. Ahora parece que yo estoy acabado; que, si juega él, no puedo jugar yo.
I. Más tonterías. Podemos jugar juntos. No se dónde está escrito que no podemos hacerlo. La putada es que llevaban pidiendo que jugáramos juntos no sé cuánto tiempo y nos ponen en Madrid y perdemos. Dos días antes era la mejor solución. Ni que perdiéramos por jugar nosotros.
X. Es que yo me lo paso muy bien contigo. No somos clónicos, somos complementarios. ¿Sabes cuál es el problema? Que somos de la casa. Si uno de los dos fuese de fuera, no habría debate."

Para Iniesta, não havia razão nenhuma, já em 2006, para que ele e Xavi não jogassem juntos. Xavi, por sua vez, dizia que se sentia bem a jogar com Iniesta. Não compreender isto é não compreender nada de futebol. O que estes dois sentiam, numa altura em que não jogavam juntos, numa altura em que não tinham o estatuto que têm hoje e numa altura em que se dizia que, quando Iniesta começasse a jogar, Xavi deixaria de fazê-lo, era precisamente que o futebol não é tão individual como queriam que acreditassem. Já na altura sentiam que eram melhores jogadores quando jogavam os dois, quando um percebia as necessidades do outro e lhe dava a linha de passe de que precisava, quando o outro percebia que podia ficar com a bola até ao último instante porque sabia que, nessa altura, se precisasse, o outro lá estaria a dar-lhe uma solução de passe alternativa. Com Iniesta ao lado, era como se Xavi jogasse com outro Xavi. E o mesmo ao contrário. É por isso que não é apenas por serem dois criativos e não um, por haver o dobro da criatividade em campo, que acho que uma equipa é melhor com dois criativos em vez de um. É porque, além de a criatividade ser a dobrar, cada um deles é melhor jogador se o outro estiver em campo. Com Iniesta ao lado, Xavi era mais Xavi do que nunca. E Iniesta mais Iniesta do que nunca. É por isso que a qualidade de uma equipa não pode ter apenas a ver com a qualidade de cada um dos jogadores e com a adequação da qualidade de cada um deles à posição que ocupam em campo. Tem também de ter a ver com (eu diria que tem sobretudo a ver com isso) a relação de cada jogador com cada um dos colegas, começando, obviamente, por aqueles que estão mais próximos.

Quando se fala em sintonia entre colegas, fala-se sobretudo em duplas de atacantes ou duplas de centrais e fala-se sobretudo das características complementares que devem ter: um avançado mais fixo e um mais móvel; um defesa mais cerebral e um mais rápido, etc.. Não é disso que falo. A compatibilidade a que me reporto é do foro intelectual e aquilo para o qual estou a tentar chamar a atenção é para jogadores que se compreendem muito bem por pensarem da mesma maneira, que sabem exactamente o que o colega vai fazer porque era aquilo que fariam naquelas circunstâncias, que sabem perfeitamente que, em determinada situação, o colega vai estar a dar o apoio no sítio certo porque, se estivessem na pele dele, perceberiam que o colega iria imaginar que ele ali estivesse. Dir-me-ão que isso só acontecerá em casos extraordinários, que almas gémeas desse tipo só em jogadores que jogam há muitos anos uns com os outros. Também não acredito nisso. Xavi e Iniesta, aliás, não cresceram juntos e não jogaram juntos até coincidirem na equipa principal. Basta que o treinador saiba criar as condições ideais para que isso aconteça, que saiba estimular os jogadores a compreenderem-se, a pensar de forma análoga, a interpretar as necessidades uns dos outros, etc.. Foi o que, de resto, Guardiola fez, ao permitir, sem hesitar, que Iniesta e Xavi jogassem lado a lado. E foi precisamente a dupla Xavi-Iniesta quem primeiro pôs em prática o que Guardiola queria que todos os seus onze jogadores fizessem. Antes de haver verdadeiramente o Barcelona de Guardiola, já havia Xavi e Iniesta a tabelar, a trocar a bola entre si, a dar e a devolver, a oferecerem apoios verticais um ao outro, etc.. No primeiro ano de Guardiola, a equipa catalã ainda não estava totalmente afinada. As únicas almas gémeas que verdadeiramente existiam eram as de Xavi e Iniesta. Foram eles, pela relação que mantiveram um com o outro, quem ensinaram os colegas a jogar. Associou-se a eles depois Messi e, mais tarde, toda a equipa. E assim se cumpriu o sonho de Guardiola.

É por isso que acho que o trabalho de um treinador é muito mais do que desenvolver características individuais e adaptá-las às funções que os jogadores desempenharão em campo. A esmagadora maioria dos treinadores acredita nisso. Para mim, por outro lado, aquilo que verdadeiramente compete a um treinador de futebol é criar onze almas gémeas. É esse o verdadeiro legado de Cruyff, e só assim me parece plausível pensar no jogo de forma colectiva. Ao contrário da maioria dos treinadores (e até da maioria dos treinadores actuais), não eram as características estritamente individuais, mas as características "relacionais", aquelas com as quais alguém se relaciona com o meio envolvente, que mais interessavam a Cruyff. O próprio Guardiola o confessa, nesta conversa com Valdano:

"J.V.:¿Soñabas con ser jugador de Primera División?
P.G.:"Si, por supuesto. De diez niños catalanes, ocho querrán jugar en el Barcelona. Le decia a mi madre: "Si llego al juvenil, ya estaré contento". Pensaba que para jugar al fútbol necesitaba mucho más que: "Pasa bien el balón, juega bien, las pilla todas". El destino y el estilo de un entrenador que le gustaba más el hecho de pasar que el de romper fue lo que me ayudó".
¿Qué hubiera pasado si no hubiera existido ese entrenador?
Lo habría pasado mal. Es de esas cosas en las que he tenido suerte. Jugué desde el primer momento. El primer año, si no juego y estoy mal, igual me voy para casa. Aunque no fue cuestión de supervivencia. Me lo pasaba muy bien siendo jugador infantil del Barcelona."

Quando era jovem, Guardiola achava que precisava de mais do que de passar bem a bola para vingar na modalidade, mas acabou por triunfar única e exclusivamente porque Cruyff era diferente dos outros treinadores. Não tivesse Guardiola sido treinado por alguém assim, dificilmente teria sido o jogador que foi. Poucos há que percebam isto. Para muita gente, quando se tem talento, tem-se talento e ponto final, e quem o tem acaba por triunfar, mais tarde ou mais cedo. Não podia estar mais em desacordo. Para que um jogador triunfe, sobretudo um jogador cujas principais virtudes são as tais características "relacionais", é preciso que o treinador seja especial, que prefira um determinado tipo de atributos e não outros. Ao longo dos anos, muitos dos jogadores que aqui fomos defendendo e que não conseguiram triunfar são jogadores deste tipo, jogadores que, ao contrário de Guardiola, não tiveram a sorte de ser treinados por alguém especial e que, por isso, não atingiram o máximo do seu potencial. Quanto a Xavi e Iniesta, alguém acredita que eles seriam o que são hoje se não fosse Guardiola? Basta ver como se queixavam, em 2006, por todos acharem que não podiam jogar juntos. Toda a gente gaba as habilidades de Iniesta, a capacidade de manter a bola, de rodar sobre si mesmo, a calma com que sai de situações complicadas, etc.. Mas Iniesta é capaz disso tudo porque está inserido num contexto que o favorece, porque sabe que tem sempre alguém muito perto de si e que, por tê-lo, tem também uma solução de recurso a toda a hora, o que lhe permite forçar certos movimentos, arriscar certas iniciativas. Iniesta é o jogador que é porque cresceu no ambiente mais favorável possível; tem aquelas características individuais notáveis, que todos elogiam e que a todos espanta, não porque as tenha e pronto, mas porque tem também certas características "relacionais" e está inserido num modelo que privilegia as últimas.

Ser um jogador de futebol a sério é essencialmente isto: ser extraordinário a relacionar-se com os colegas de equipa. Evidentemente, há jogadores de outro tipo, jogadores cujas habilidades individuais definem o seu talento. A estes é relativamente fácil medir a qualidade; basta contabilizar o sucesso e o insucesso de cada uma das suas acções. Medir o futebol de Xavi ou Iniesta, por exemplo, é muito mais difícil. E é-o porque cada uma das suas acções não se esgota em si mesma. Cada coisa que fazem beneficia o que faz um colega e beneficia o que faz o colectivo. É o talento individual de Xavi que faz com que consiga aquela quantidade absurda de passes por jogo? É Xavi sozinho o responsável por todos aqueles passes de régua e esquadro? É unicamente por ser Xavi o maestro que é que todos reconhecem que é dos pés dele que se inicia boa parte das jogadas do Barcelona? Não. Xavi é o que é porque os colegas fazem com que o seja. Dão-lhe opções constantes de passe, aproximam-se dele para lhe permitir várias decisões, garante-lhe proximidade e segurança para que não tenha de se apressar a tomar uma decisão. Xavi é o que é por força do que o rodeia. E o que o rodeia é um conjunto de jogadores que pensa como ele, que percebe quais possam ser as suas intenções e que fazem tudo para que ele as possa cumprir. Xavi é o que é porque joga com almas gémeas. É o próprio Xavi quem o reconhece, nesta entrevista:

"Your Barcelona team-mate Dani Alves said that you don't play to the run, you make the run by obliging team-mates to move into certain areas. "Xavi," he said, "plays in the future."
They make it easy. My football is passing but, wow, if I have Dani, Iniesta, Pedro, [David] Villa … there are so many options. Sometimes, I even think to myself: man, so-and-so is going to get annoyed because I've played three passes and haven't given him the ball yet. I'd better give the next one to Dani because he's gone up the wing three times. When Leo [Messi] doesn't get involved, it's like he gets annoyed … and the next pass is for him."

Dizer que Guardiola teve o trabalho facilitado porque tinha os jogadores certos para o modelo que pretendia é um disparate. Foi Guardiola que impôs que os jogadores se relacionassem como se relacionam. É claro que ajuda o facto de a grande maioria ter "estudado" no mesmo sítio, ter tido os mesmos "professores" e ter tido as mesmas referências. Mas nada disso teria sido relevante se não fossem obrigados a fazer certas coisas. Não foram a mentalidade do clube ou a educação semelhante que os jogadores tiveram que construíram o modelo de Guardiola; foi Guardiola que, levando-os a comportar-se de determinada maneira, levando-os a executar um determinado modelo de jogo, "obrigou" a que os jogadores recuperassem a mentalidade do clube que lhes tinha sido incutida e a que relembrassem a educação que tinham tido nesse mesmo clube. Mais do que qualquer outro modelo de jogo, o modelo de Guardiola força a que os jogadores se relacionem constantemente. Como tal, força a que sejam aquilo para o qual foram ensinados a ser, ou seja, jogadores que privilegiam determinadas coisas em detrimento de outras.

Regressando à questão da compatibilidade, posso aceitar que um determinado jogador não seja compatível com outro igual a ele, mas apenas se forem jogadores que se distingam pelos seus atributos individuais. Mas, nesse caso, não acho sequer que um só jogador seja compatível com a equipa. Como entendo o jogo, uma equipa de futebol a sério tem de ter onze jogadores que se caracterizem essencialmente pela capacidade com que se relacionam com os colegas. Se for esse o caso, não me interessa ter um jogador de cada tipo, apto para uma coisa específica, mais indicado para um tipo de função e menos para outros tipos. Interessa-me, isso sim, ter jogadores todos do mesmo tipo, jogadores parecidos entre si, que valorizem as mesmas coisas, que se compreendam com facilidade, que percebam quais as dificuldades de cada colega, consoante as circunstâncias em que se encontrem. Não só acho, portanto, que Xavi e Iniesta são compatíveis, como sempre achei, como acho que Xavi é compatível com dez Iniestas, e vice-versa. Para muita gente, Xavi e Iniesta são compatíveis porque Guardiola mostrou que podiam sê-lo. Não pensavam assim há 5 anos, no entanto. E mesmo aceitando agora que o são, aceitam-no por razões erradas, porque acham que, afinal, até dá para ter dois criativos no meio-campo. Eu acho que são compatíveis, mas não por achar que haja espaço para dois médios criativos numa equipa de futebol; acho que são compatíveis porque o futebol é um jogo de médios criativos. E é por isso, em última análise, que acho não só que são compatíveis entre eles como são compatíveis com mais nove jogadores idênticos. O futebol é um jogo para criativos, e o modelo ideal de um jogo que se caracteriza assim é necessariamente aquele em que a criatividade dos jogadores for melhor potenciada. O papel do treinador ideal, deste ponto de vista, não é propriamente trazer ao de cima o melhor de cada atleta, não é conceber as melhores estratégias possíveis para contrariar os adversários, não é ser capaz de manter motivados os seus jogadores; é fazer com que cada jogador aprenda a relacionar-se com os colegas. Só isso: criar almas gémeas. E, para criá-las, há um atributo indispensável: a criatividade, entendendo-se criatividade como imaginação, ou seja, o atributo intelectual que permite a cada um perceber o tipo de soluções que pode empreender para fazer face ao que o rodeia e, por conseguinte, o que permite a cada um perceber aquilo de que precisa cada um dos seus colegas a cada instante.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Criatividade e Decisão

Podem já não ser os melhores, como parece ter afirmado Piqué. Seguramente que não o são, pois já não conseguem manter os índices competitivos de outrora, deixaram de acreditar nas suas competências, os processos defensivos parecem mais enferrujados do que nunca e, ofensivamente, parece haver um défice claro de imaginação, com os jogadores aparentemente cansados, não do ponto de vista físico, mas mentalmente, como se passassem por um esgotamento de criatividade. Tudo isto aceito sem dificuldades, e reconheço que, em muitos casos, é o suficiente para que se perca a superioridade que se tinha. O que não aceito é que se considere que esta equipa já não tem nada do que a distinguiu nos últimos anos. Podem não ser capazes de manter a concentração durante os 90 minutos e cometer mais erros do que cometiam, mas continuam a fazer coisas que mais nenhuma equipa tem a capacidade de fazer. A prova disso é o quarto golo este fim-de-semana, frente ao Bétis.



Barcelona 4-2 Real Betis 05.05.2013 ourmatch.net por ourmatch

Podem ter mais dificuldades do que tinham a criar condições para que este tipo de lances ocorram, mas continuam a inventar soluções como mais nenhuma equipa o faz. Quando se fala em criatividade, fala-se usualmente em habilidade individual ou em poder de finta. Para mim, criatividade é isto. Nada disto, talvez à excepção do passe de calcanhar de Iniesta, parece difícil de fazer, do ponto de vista técnico. E, no entanto, é de uma sofisticação inacreditável. O lance começa quando Iniesta, um médio, percebendo que tem de facilitar a vida ao companheiro que conduz a bola, Messi, invade um espaço que não é o seu, entre a linha defensiva adversária e a linha de médios, à frente da linha da bola, oferecendo um apoio frontal ao portador da bola. A intuição de Iniesta parece simples, mas é o que muitas vezes é negligenciado em posse; consiste em perceber que, movimentando-se como se movimentou, aumenta as soluções de passe curto do companheiro e, por conseguinte, as possibilidades de decisão que este terá ao seu dispor. No momento em que Messi conduz a bola, dá-se também outra coisa, as diagonais dos extremos, aproximando-se do centro do jogo e do portador da bola. Messi conduz, Iniesta aproxima, Messi toca no apoio frontal e, agora, a jogada está praticamente concluída. Sim, faltam ainda dois passes e a conclusão, mas o mais difícil está feito. A bola entrou no apoio frontal e Messi aproximou-se. A partir desse momento, Iniesta tem duas soluções, uma mais óbvia do que a outra, mas as duas igualmente boas. Podia, ao invés de solicitar Alexis Sanchez de calcanhar, ter simplesmente tocado de frente para Messi. Messi, seguramente, tocaria de primeira em Tello, que ficaria em posição privilegiada ou para finalizar, ou para cruzar para Alexis, que entretanto entrava no outro lado, ou para cruzar atrasado, para Messi ou Iniesta. Fosse qual fosse a decisão de Iniesta, a probabilidade de a jogada terminar com a bola dentro da baliza, após o passe de Messi para Iniesta, era gigantesca. Criatividade é isto, é conseguir criar condições colectivas para que se tenha sucesso, é ser capaz de fabricar espaços e contextos de decisão ideais. É nisto que esta equipa é inigualável, e foi isto que Guardiola ensinou estes jogadores a fazer. Se Tito Vilanova percebesse o que tem em mãos, perceberia talvez que, do ano passado para este, o que mudou essencialmente foi a capacidade de fabricar colectivamente estes momentos. Actualmente, ainda que o faça, a equipa fá-lo apenas esporadicamente, e provavelmente mais por auto-recreação do que por exigência do treinador. Como o faz menos vezes, encontra-se mais vezes à mercê do que a rodeia, aos erros individuais, aos detalhes imponderáveis, à própria necessidade de se motivarem, etc.. E, por isso, cria a ilusão, mesmo nos próprios jogadores, de que já não são superiores.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Desnorte

O futebol é um jogo peculiar. Uma das coisas que o torna tão distinto de outros jogos (da grande maioria, aliás), é ser um jogo em que, tipicamente, o número de golos, para cada um dos lados, é reduzido. Esse simples facto faz com que seja mais frequente que uma equipa teoricamente mais fraca consiga derrotar uma equipa teoricamente mais forte. Ou melhor, o facto de o futebol ser peculiar dessa maneira faz com que o resultado de um jogo dependa mais dos detalhes do que outros jogos, o que, por sua vez, faz com que, para que equipas teoricamente menos fortes consigam vencer ocasionalmente alguns jogos, por vezes basta serem felizes num ou noutro detalhe. Outro aspecto desta peculiaridade tem a ver com o modo como as equipas reagem emocionalmente a resultados adversos. Ao contrário de jogos em que há muitos golos ou a pontuação é alta, estar em desvantagem tem um peso emocional muito maior, em futebol. Isto porque, dependendo o futebol tanto dos detalhes, e sabendo a equipa que se encontra em desvantagem que, para recuperar, dispõe de uma quantidade reduzida de oportunidades, sentir o tempo a passar é francamente menos confortável do que noutras modalidades.

É muito frequente, a este respeito, que comentadores desportivos e analistas profissionais cheguem à conclusão, após o término de uma partida, que um resultado desnivelado espelha a supremacia do vencedor sobre o vencido, evidenciada desde o primeiro ao último minuto, negligenciando os diferentes momentos anímicos das equipas, e a forma como a marcha do marcador influenciou esse próprio resultado final. Não é raro, por exemplo, que um golo a uma determinada altura da partida modifique por inteiro o que estava a ser o jogo, e que, portanto, tudo aquilo que acontece depois desse golo mereça a consideração dos efeitos que esse golo produziu. Muitas equipas estão a jogar bem até ao momento em que fazem um golo e depois, relaxando, acabam por permitir ao adversário que melhore o seu futebol. E, ao contrário, acontece o mesmo. Que análise merece um jogo em que uma equipa domina os primeiros 80 minutos, mas que, por ficar reduzida a dez jogadores nessa altura, num lance em que o guarda-redes comete uma falta dentro da área sobre o avançado adversário, acaba por sofrer 3 golos nos últimos 10 minutos, perdendo sem apelo nem agravo? Perde bem? Merece o adversário todos os louros por 10 minutos caprichosos? Evidentemente que não. Em futebol, como disse um dia Jorge Jesus, é possível a uma treinador de uma equipa que acaba de ser goleada afirmar, sem estar a faltar à verdade, que a sua equipa foi superior.

Vem isto a propósito, claro está, da goleada imposta pelo Bayern de Munique ao Barcelona. Muitas coisas podem ser ditas sobre o jogo: sobre a apatia incompreensível de Tito Vilanova, sobre a força bávara, sobre a condição física de Messi, sobre o terreno de jogo, sobre a arbitragem, sobre o fim do projecto catalão, etc.. Pessoalmente, tenho algumas opiniões sobre cada uma dessas coisas, mas não é disso que quero falar. Prefiro falar sobre desnorte emocional e sobre resultados que não espelham o que se passa em campo. Já noutras ocasiões abordei, muito ao de leve, este assunto. Num dos casos, defendi que a única análise séria de uma partida que tinha tido, claramente, duas fases distintas, separadas por um momento crucial que modificou a forma como as equipas passaram a encarar os minutos que faltavam, era aquela que se focasse na primeira dessas fases. A grande maioria das pessoas achou que não podia separar fases, o que me faz, confesso, alguma confusão. O futebol, como disse anteriormente, é um jogo peculiar; o resultado final define-se, muitas vezes, num ou noutro lance; é natural, pois, que cada um dos lances decisivos tenha um impacto emocional enorme nos atletas. Sim, em futebol, nenhuma análise que negligencie isto, e nenhuma análise que não contemple a possibilidade de fases radicalmente distintas do jogo, é uma análise séria.

Para muitos, hoje, na Baviera, o Barcelona foi atropelado pelo Bayern. Para mim, que não modifico as minhas leituras constantemente, esteja o resultado favorável a uma equipa ou a outra, a única coisa que foi atropelada hoje foi o bom senso. Até ao minuto 50, altura em que o Bayern fez o segundo golo, que ocasiões de golo houvera realmente? O que fizera o Bayern até então, para além de defender? De que modo incomodara o Barcelona, em contra-ataque, ou no que quer que fosse? Até ao segundo golo, a melhor equipa em campo foi o Barcelona. Teve dificuldades no último terço do terreno, é certo, não conseguindo tantas combinações como habitualmente, mas estava a fazer o seu jogo e estava a conseguir precaver-se das investidas do adversário. Fortuitamente, até porque a regularidade dos dois primeiros golos (já para não falar da do terceiro, que é escandalosa) é bastante duvidosa, viu-se a perder por dois golos e começou a perder a concentração. Ainda assim, os minutos que se seguiram não foram necessariamente maus. É verdade que a equipa passou a jogar menos pacientemente e que passou a esticar, ocasionalmente, o jogo, e também é verdade que passou a não ser capaz de controlar as investidas germânicas, sucedendo-se alguns lances de relativo perigo, coisa que até então não tinha acontecido. Mas o momento decisivo foi o do terceiro golo, numa altura em que o Barça crescia e acabara de ter duas oportunidades claríssimas de golo, ambas pelo jovem Marc Bartra. Com o terceiro golo dos alemães, o Barça perdeu finalmente o norte e, a partir daí, sim, o Bayern foi claramente superior. Aconteceu isto ao minuto 73. Significa isto que, dos 90 minutos que uma partida tem, as descrições megalómanas que por aí fora se têm repetido apenas contemplam 17 minutos, mais ou menos 20% de toda a partida. A imagem que fica é a última, e as pessoas têm facilidade em descrever 90 minutos de acordo com o que viram nos últimos minutos da partida. São mentirosos, ou simplesmente estúpidos, mas é assim que são, para infelicidade dos que o não são.

Os últimos minutos da partida, sim, foram penosos para o Barça. Foram-no porque a equipa perdeu toda a concentração, porque Tito Vilanova não soube segurar emocionalmente a equipa, porque não mexeu tacticamente com o jogo, nem sequer trocou unidades, à excepção da entrada de David Villa no final, porque os jogadores sentiram que a eliminatória começava a escapar-lhes definitivamente das mãos. Mas, tirando esses minutos de desnorte e, aceite-se, aquilo que se passou depois do 2-0, foi o Barcelona assim tão inferior ao Bayern? Em quê? Não o foi, como não o tinha sido frente ao Milan, quando perdeu por 2-0 em San Siro. Simplesmente, os resultados não espelham o que se passa em campo. Muitas vezes, são fruto de um conjunto de factores. Hoje, o Bayern goleou o Barcelona por várias razões, e nenhuma delas implica que tenha sido, em termos gerais, superior ao seu adversário. Goleou o Barcelona por 4-0 porque marcou nas duas primeiras ocasiões que teve, e em lances, no mínimo, duvidosos; goleou porque, quando o jogo já estava mais equilibrado, teve a felicidade de fazer o terceiro, logo após 2 oportunidades claríssimas do Barcelona, e, uma vez mais, após beneficiar de um erro crasso da equipa de arbitragem. E fez o quarto e deu a imagem de superioridade que deu, nos últimos minutos, porque tudo o que se passou antes condicionou emocionalmente a equipa catalã. Tão simples quanto isto. Hoje, o Barcelona foi superior até ao momento em que se desnorteou, precisamente por essa superioridade não estar a ser traduzida numericamente. Não invalida isto que o Bayern não tenha feito um bom jogo, e que não seja a melhor equipa europeia a seguir aos catalães, e que não pudesse ganhar na mesma uma partida que, afinal, não dominou, mas que soube disputar. Não me falem é em superioridade, porque isso é, além de falso, absurdo.

P.S. Sim, o desnorte e a falta de motivação, no final da partida, era tal que era Xavi quem andava a pressionar lá à frente; sim, David Villa evidenciou algum mau ambiente no balneário catalão, ao entrar contrariado; sim, Messi não deveria ter jogado só porque é Messi; sim, Valdez facilitou muito, para não variar; sim, Alexis é horrível e já há muito que o clube deveria ter tentado encaixar dinheiro com ele; sim, Tito Vilanova não tem ideias nenhumas; tudo isto foi mau, e pede reflexão. Mas, num jogo desta importância, ainda por cima quando não tem sido opção senão em jogos em que é preciso fazer descansar titulares, e perante um resultado final tão adverso, que Marc Bartra tenha feito a exibição personalizada que fez só pode ser bom sinal. É também por isto que o projecto catalão não acaba aqui. Aliás, numa época em que aconteceram tantas coisas imprevistas, em que há uma mudança de treinador, em que o novo treinador atravessa uma doença complicada, em que a cada eliminatória europeia e a cada clássico caseiro se falava do fim da hegemonia, muito conseguiu esta equipa. Nem sempre se pode ganhar, e este ano reuniram-se muitas condições para que tal não fosse possível, inclusivamente a lesão de Messi nesta fase da época. Que sobreviva a isto tudo o aparecimento de mais um talento para o futuro, um talento que, havendo coragem, já há muito que deveria ter assumido um lugar no eixo da defesa, parece-me bom. Oxalá não seja feito bode expiatório, e oxalá se perceba que a pequena revolução que é preciso executar no plantel (e na equipa técnica, já agora) passa por dispensar alguns jogadores que não têm condições para continuar (Adriano, Mascherano, Alexis) e permitir a dois ou três jovens (Bartra, Sergi Robert e Cuenca) uma utilização mais sistemática.