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sábado, 9 de outubro de 2010

Postiga

Comecemos por onde se deve começar: há poucos jogadores que me enchem as medidas, jogadores que me fazem assistir a um jogo apenas para, de entre 22 atletas e um jogo de futebol, me deliciar com aquilo que fazem em campo. Sei reconhecer qualidade, mas nem sempre conservo a disposição para ver os melhores do mundo jogar. Muitas vezes porque a sua competência deriva das suas qualidades físicas e atléticas. O verdadeiro requinte está no único atributo que não me canso de contemplar: a classe. E classe não é coisa que todos tenham. Pedro Barbosa era um jogador fenomenal porque transbordava classe. Fazia as coisas com uma calma, um auto-controlo e uma vaidade quase divinos. Como um toureiro. Alguém se lembra de um bósnio que jogou no Estrela da Amadora na década de 90 chamado Velic? Mal se mexia durante 90 minutos. Quando a bola vinha ter com ele, era preciso um batalhão para lha tirar. Enquanto não o conseguiam, fazia maldades atrás de maldades, sempre com uma calma e uma classe inusitadas. Jogava com a gola da camisola levantada, à Cantona, e tinha o cabelo rapado. É à qualidade que fazia com que Velic valesse o preço do bilhete que me refiro. Riquelme é, nos tempos que correm, o paradigma dessa virtude. Quando estes jogadores estão dentro de campo, parece que gozam com o mundo inteiro. Os fãs da intensidade jamais serão capazes de percebê-los e de aceitar que façam parte de uma equipa ambiciosa. A classe não se coaduna, para eles, com a competitividade. Estão, evidentemente, equivocados.

Na passada sexta-feira, preparava-me para mudar de canal ainda não ia o jogo da selecção a meio da segunda parte. Estava a ser um jogo aborrecido, mal jogado, com a selecção portuguesa concentrada, mas pouco clarividente, incapaz de criar situações de golo a não ser aproveitando os erros do adversário. Não me apetecia perder mais tempo com tal banalidade. Ainda que estivessem a jogar vários jogadores que admiro, nenhum me encanta como me encantavam Figo, Rui Costa, João Pinto, Paulo Sousa ou Pedro Barbosa. O futebol português pode hoje estar mais competitivo. Mas o que ganhou em competitividade perdeu em classe. Faltam hoje à selecção jogadores de classe, jogadores com capacidade para deslindar problemas complicados, para resolver situações de modos inesperados. As principais carências da selecção são a criatividade, a espontaneidade, a imprevisibilidade. Ronaldo e Nani podem estar entre os melhores do mundo, mas não são capazes de momentos de requinte. Quando percebi que Hélder Postiga ia entrar, detive-me e decidi continuar a ver o jogo. De repente, percebi que é dos poucos jogadores portugueses que tem a capacidade para me entreter e dos poucos que, por mais chato que esteja a ser o jogo, me consegue manter cativado. A razão é simples: é o último herdeiro de uma geração em que a classe abundava.

A classe é a habilidade de resolver problemas da maneira mais imprevista, fazendo a resolução parecer simples. Ronaldo pode ser o melhor jogador português da actualidade. Jamais o verão a resolver um problema difícil. Falta-lhe génio para isso. A sua qualidade vem do facto de aproveitar as suas características ao máximo e de potenciar as situações em que essas características podem fazer a diferença. Não tem, no entanto, criatividade para solucionar situações difíceis, situações em que precisa de pensar rápido e em que precisa de encontrar uma solução imprevista. Hélder Postiga pode não ser um jogador de topo. É, porém, o jogador mais genial desta selecção. Tivesse ele a capacidade, como tem Ronaldo, para potenciar as suas melhores características, e seria um dos melhores do mundo. Não a tendo, resta-lhe a esperança de estar incluído num colectivo que lhe potencie essa genialidade. Nos últimos anos, não tem tido essa sorte e a opinião pública desvalorizou-o. Felizmente, há sempre momentos num jogo em que essa qualidade vem ao de cima. Pode não ter, em termos gerais, tanta categoria quanto poderia ter, caso juntasse ao seu génio atributos físicos que lhe permitissem resolver jogos sozinho, mas, sempre que é solicitado, empresta uma qualidade que poucos conseguem emprestar. Num colectivo que privilegiasse a ideia de colectivo, que privilegiasse, portanto, o intelecto dos jogadores, Postiga seria enorme. Na mediocridade que grassa, é um patinho feio.

O que me agrada em Postiga é a sua cabeça, o seu modo de pensar. A forma como resolve os lances, encontrando invariavelmente não só a melhor solução, mas muitas vezes uma solução que poucos considerariam existir, é extraordinária. O "souplesse" com que o faz, a descontração com que executa, é que me deixa de boca aberta. E isto é o que ninguém vê, preocupados como estão em perceber se o rapaz transpira o suficiente, ou se marca muitos golos. Isto é que é formidável! Estivesse ele incluído numa estrutura que potenciasse esta virtude e todos lhe fariam largas vénias. Disse Mourinho dele, a propósito da final da Taça UEFA que não pôde jogar, que teria muitas finais na sua carreira. Enganou-se Mourinho! Não porque Postiga não tivesse a qualidade que Mourinho desde logo percebeu que tinha, mas porque as qualidades que Postiga desenvolveu não interessam à comum récua de treinadores e opinadores. A sua classe é assim arte apenas para os olhos de quem vê para além do que os números mostram. Lamento, portanto, a educação estética errada dos restantes.

Sobre ele há a teoria de que falha muitos golos. Por causa desta teoria, há a teoria de que falha muitos golos porque é mentalmente fraco e tem tendência para tremer nos momentos de decisão. É sobre isto que pretendo falar até ao fim. Não concordo com a teoria nem com a teoria sobre a teoria. E, se os próprios termos em que descrevo Postiga são verdadeiros, gera-se um paradoxo. Isto é, se Postiga é alguém com uma capacidade intelectual acima da média, se tem classe, se tem génio, se é capaz de fazer coisas difíceis e inesperadas, como é que pode ser também mentalmente instável? É um contrassenso. Significa isto que ou é falso que Postiga tenha a classe que digo ter, ou é falso que seja mentalmente fraco.

A teoria que defende que ele é mentalmente fraco procura justificar a sua pouca produção, no que diz respeito a golos, desse modo porque entende que a sua causa está na quantidade de golos falhados e não noutra coisa. O erro está em assumir que essa fraca produção advém do não aproveitamento de oportunidades de golo e não de outra causa diferente. Acontece que Postiga não falha assim tantos golos, não é perdulário ou displicente. como parecem crer. Por norma, é até muito frio na hora de finalizar. Vejam-se vários lances de finalização dele para se perceber isto. Veja-se o último jogo com o Beira-Mar e perceba-se que, em todos os lances em que não marcou golo, fez o que estava ao seu alcance para marcá-lo. Muitas vezes, o que acontece é que não goza de tantas oportunidades assim. Mas quando as tem, não treme. Dizer o contrário é simplesmente mentira. A sua fraca produção tem explicações diferentes. Tem a ver com as suas preocupações e não com problemas mentais. Postiga é fortíssimo, do ponto de vista mental. Tem um carácter fortíssimo, também. É vaidoso, fino, requintado. Gosta e consegue fazer coisas difíceis. À frente da baliza, raramente fecha os olhos e fuzila. Não é como Nuno Gomes, por exemplo, que tinha bastantes dificuldades, sobretudo a partir de uma dada altura na sua carreira, para finalizar lances fáceis. Postiga faz tudo com critério e é mais racional que a grande maioria dos jogadores de futebol. Como é que é possível alegar que é mentalmente fraco?

Aliás, esta moda de justificar o que não se consegue justificar recorrendo a factores emocionais já chateia. Sempre que não se consegue perceber oscilações de rendimento - e isto acontece sobretudo em avançados porque se associa o rendimento destes aos golos que marcam - justifica-se o mesmo com falta de confiança. Isso é um absurdo. A falta de confiança afecta os jogadores, obviamente, mas reduzir a produção de golos de um avançado à falta de confiança deste é uma patetice. Postiga não tem falta de confiança. Pode já tê-la tido, pontualmente, sobretudo quando sentiu que tinha de provar algo a alguém, mas não só isso não o afecta ou afectou sempre, de forma consistente, como jamais será a explicação mais correcta para marcar poucos golos. Postiga, para certas pessoas, tem um problema de finalização. Essas pessoas não só não sabem identificar causas de problemas e, por conseguinte, só são capazes de justificar essas coisas deste modo fácil, como não conseguem sequer perceber o próprio Postiga. Dizer tal coisa não faz o menor sentido. Postiga tem uma personalidade forte e não tem problema de finalização nenhum. Finaliza bem, tem critério, preocupa-se com o gesto técnico, preocupa-se em escolher um lado, em executar em conformidade com as necessidades do lance, etc. Simplesmente não é um avançado que goze de tantas oportunidades como um jogador clássico de área, e isto porque tem muitas outras preocupações para além das destes. Antes de teorizarem, certos teorizadores deviam, pois, perceber se as teorias em que se apoiam de modo a sustentarem os pilares da sua teoria serão, de facto, verdadeiras. É que, começando com uma premissa errada, como Descartes com o seu "cogito, ergo sum", toda a filosofia que dela procede não passa de uma torre de Babel de raciocínios viciados. E o resultado é uma asneira filosófica de todo o tamanho.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O Útimo...

Não é fácil escrever sobre esta personagem, para mim a maior, do futebol português. Porque não se limita a ser mais um jogador que espalhou classe pelos campos de futebol. Quem me conhece sabe bem de quem falo. É desprepositado; fora de tempo. Sim, mas também ninguém é obrigado a ler estas linhas.

Talvez comece pelo primeiro momento de magia que presenciei deste mago. Lembro-me, com a distância de 13/14 anos, dos movimentos que me enfeitiçaram. Através de uma cassete de video, dessas que o jornal O Jogo publicava no final de campeonato. Época 93/94, Benfica Campeão. E fiquei apaixonado por aquele estilo. Quem era aquele Pedro?

Entretanto ganhou espaço no futebol português. Na época seguinte explodiu.
Quinito, um romântico - infelizmente, o último? - , compreendeu a magnitude do génio que se lhe deparava. Uma época belíssima, com chamadas à selecção. Numa dessas chamadas dissipou todas as dúvidas. Um golo que estava para o futebol, como a água para a vida; são momentos como aquele que nos fazem sonhar, e rever jogos e jogadas, cujo o fim já não oferece surpresa.
Ele era diferente. O último jogador à antiga portuguesa, chamaram-lhe os românticos. Como deveria ser Belo o futebol desse antigamente.
Foi para Alvalade. E, a partir dai, demonstrou todas as idiossincrasias que acompanham os génios.
É impossível fugir ao cliché : Amado por uns, odiado por outros. Nem todos conseguimos entender, e apreciar, arte. A Arte.

Dele disseram que comia demasiados croissants. Era bom que fosse assim tão simples. Infelizmente, por mais croissants que o Joao Alves, Paulo Jorge, ou Adriano comam...
Poderia falar dos três golos com que brindou uma equipa israelita na taça Uefa. À excepção do primeiro golo, foram momentos geniais. Os dribles que se sucediam, num bailado que não se ensina, e a parte interior do seu pé esquerdo, deixaram o país da Estrela-de-David assombrado.
Coerente e consequente, não se deixou enganar por quem lhe tentou roubar o que dele era por direito próprio. Não devemos renegar o nosso destino. Nunca deixou de arriscar, de procurar sempre a mais bela e arriscada opção... E que momentos! Marcou a dois, dos três melhores guarda-redes que por Portugal passaram nos últimos 15/20 anos, - ao outro de certo que também o fez, mas apenas em treinos - com requintes de malvadez...
Os golos nunca foram muitos, mas sim geniais. Porém, para os pragmáticos ( sim apesar de tudo, na minha generosidade imensa, encontrei um momento de comiseração por vocês) tenho um doce: na primeira época, apesar de toda a contestação que sofreu - e que o acompanhou até ao fim da sua (demasiado) breve carreira, sim, porque os grande abandonam sempre cedo demais - foi o terceiro melhor marcador da equipa de Alvalade.
Golos... São o sal do futebol... Isso seria, e será decerto, um assunto para abordarmos com mais tempo; mas os dele foram muito mais do que isso. Fosse um remate impossível, de primeira, que colocava por entre as pernas de um qualquer guarda redes, fosse a maneira como levantava um estádio, depois de concluir um cruzamento com um remate que, na sua elegância, mascarava de fácil. Mas não era só isso. Até quando falhava, algo de divino, e gracioso, o acompanhava. As bolas que enviava ao poste, sempre o segundo, faziam a delícia de qualquer adepto, dos bons.

Frontal, até na maneira como se dava a conhecer demonstrava que estava só. Não digo a mais pois jogadores como ele serão sempre de menos . O discurso inteligente, e responsável, distanciava-o de seus pares. Uma vez um treinador pediu aos sócios leoninos que o "acarinhassem", que não o assobiassem mal o speaker anunciasse o seu nome para o onze inicial. Quando confrontado com o pedido feito pelo seu treinador não se refugiou no mesmo. Assumiu as críticas, não condenou, mas sim assumiu que quem joga num grande tem de estar preparado para lidar com essas situações. À imagem do que fazia no campo não se escondia, dando antes o peito às balas.

Foi sempre incompreendido. Os génios não o seriam, se por todos fossem compreendidos. Essa assunção seria, aliás, contraditória. Tinha carisma, ao que aliava a uma nobreza cada vez mais rara nos tempos que correm. Tornou-se uma figura incontornável no futebol nacional. Capitão de um dos grandes de Portugal, foi fundamental nas últimas grandes conquistas do seu clube. No primeiro campeonato que venceu, quadros como o que pintou no Bessa revelaram-se decisivos. Mas mesmo que não o fossem... Numa eliminatória da taça de Portugal, em pleno estádio das Antas, marcou um belíssimo golo, a passe do seu homónimo, de apelido Martins, à entrada da área sentou P. Santos e quando Erickson deu um passo em frente, preparando-se para fazer a mancha, picou-lhe a bola fazendo um golo fabuloso... Vi e revi o lance inúmeras vezes... Arte, sublime, perfeita... Magia para outros...
Na mesma eliminatória, num segundo jogo entre as mesmas equipas, lesionou-se depois de uma arrancada, em que nem os bichos o conseguiram deter... E durante meses o futebol voltou a ser vulgar...

Não posso falar de todos os momentos em que ele homenageou o futebol com o seu perfume. Vou terminar com uma referência, que poderia ser uma metáfora da sua carreira.
No último grande jogo que o vi realizar, curiosamente jogou apenas alguns minutos, deu a sensação que se tomasse a bola na sua área seria capaz de driblar todos os compatriotas de Vincent van Gogh a passo. A maneira como expulsava quem quer que lhe surgisse à sua frente com um movimento suave... Genial... O problema é que não teria tempo suficiente para o fazer. Neste jogo, como na sua carreira, - e partindo do princípio que o futebol, como tudo na vida, irá evoluir de forma postiva - o tempo foi o seu maior inimigo.
Falo de Barbosa. Pedro Barbosa.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Génios

Sexta feira, 23 de Fevereiro. Um jogo entre duas equipas distintas, tais como os seus objectivos, mas que comungaram os mesmos pontos. Nesta altura o mais facíl será dizer o que faz falta ao Sporting; mas não é isso que vou apresentar, não, nada disso. O clube de alvalade apenas aproveita os prejuízos de ter um plantel bastante jovem. Uma grande parte da culpa está imíscuida nos comportamentos dos adeptos, uma vez que, ao invés de se apresentarem como apoiantes, mais parecem procurar na equipa o escape de todas as sua frustrações, dando assim enfâse ás dificuldades, inerentes à idade, resultantes da pressão de jogar num clube com grandes objectivos, mas, não só; um dos predicados das equipas jovens, é a sua irreverência, a sua imprevisibilidade, o seu arrojo e tendência para fantasiar. Porém, refém de uma disciplina rigída, a equipa não consegue explorar os seus valores na sua plenitude. O caso mais gritante passa por Carlos Martins. O seu talento ímpar para ser aproveitado, temos que o deixar ser rei no campo. Deixá-lo sentir os ritmos da equipa, e, então com alguma anarquia, produzir os desiquilibrios que fazem dele um dos maiores talentos da sua geração. Não podemos circunscrver o seu talento com rigidez táctica, tão pouco com um altruismo exagerado. Os génios são individualistas, e serão sempre dotados de temperamento muito sensível, oscilando, sempre em função do momento em que vivem. Por outras palavras, o génio, nunca irá ter a consciência das necessidades dos vulgares, por isso são mais verdadeiros nas suas demonstrações de insatisfação, não se preocupando com as consequências de tais actos.
Não tendo a consciência da correlação entre um talento criativo descomum, e um desajustamento social, que neste caso se refere à equipa, somos levados, muitas vezes, a crucificar estes jogadores por não manifestarem a mesma predisposição para sofrer como os demais. Porém, esta expectativa, por si só, é uma contradição. Num génio o seu intelecto, ou sentido criativo, prevalece de uma forma clara, sobre a sua vontade, ou espírito de sacrifício. Ao Carlos Martins, temos que deixar de pedir que se integre nesta sociedade, cada vez mais triste, e que seja cada vez mais um desajustado. Só assim, não o obrigando a ser igual aos outros, e a ter a consciência das limitações da mediocridade, poderemos comtemplar o talento dos grandes. Teria Zidane sido quem foi, se, por ventura, não fosse o rebelde que sempre se mostrou em campo? Não basta ser diferente com a bola nos pés. É preciso arrojo, coragem de pensar diferente, fazer o inesperado, quando o mais aconselhável, é seguir o convencional. E são esses momentos, em que uma aparente loucura toma conta dos predestinados, que ficam para sempre. Em alkmar, contra o Az, muitos daqui a uns anos, para além do golo do Miguel Garcia, poucas coisas serão recordadas. E uma dessas poucas coisas que surgirão, será o passe em plena pequena área da sua própia equipa, do P. Barbosa para Ricardo, quando à ilharga do primeiro se avistavam dois adversários. Ou, então, quando contra o Feyenoord, depois de um canto contra a sua equipa, em vez de aliviar a bola, fazendo o que qualquer comum jogador faria, e que, muito provavelmente, iria dar origem a um segunda vaga de ataque da equipa holandesa, saiu em drible, tirando do caminho quem quer que lhe aparecesse pela frente. Louco e arriscado? Não!, Superior! Não basta ser brilhante, é preciso a coragem para assumir esse futebol diferente.