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domingo, 15 de junho de 2014

Coisas sobre a Goleada

1. Um jogo, mesmo um que acaba tão desnivelado, tem história. E a história deste não se resume a dizer que a equipa que ganhou esmagou a outra. E não se resume a isso porque é falso. A Espanha foi claramente superior durante toda a primeira parte, podia ter praticamente acabado com o jogo no lance imediatamente anterior ao lance do empate holandês, e só quem for muito estúpido (como parece que é quase toda a gente que tem falado do jogo) é que pode achar que o resultado final diz alguma coisa acerca da verdadeira qualidade das duas equipas.

2. É especialmente embaraçoso verificar todos os elogios que se têm feito à equipa holandesa, por contraste a tudo o que se tem dito dos espanhóis, se nos lembrarmos de que os holandeses não marcaram um único golo em que se possa dizer que tenham tido, de facto, algum mérito (falo de mérito colectivo). Os 5 golos holandeses resultam integralmente de erros individuais: três de Sergio Ramos, um de Casillas e um do árbitro. É verdade que, às vezes, os erros são provocados pelo adversário, e é verdade que, às vezes, uma boa jogada pode preceder esse erro. Não foi, de todo, o caso. Os primeiros dois golos são cruzamentos do meio-campo, com Sergio Ramos a dormir, encostado a Jordi Alba quando devia estar a fechar no meio, a 5/6 metros de Piqué, no máximo; o terceiro é um lance de bola parada; o quarto nem vale a pena dizer nada; e mesmo o quinto, cuja transição os comentadores de serviço tanto gabaram, só é possível porque Sergio Ramos, além de estar mal colocado de início, não faz falta quando pode e perde em velocidade. De resto, dizer que um lance de contra-ataque que consiste num único passe representa uma transição notável, enfim, é chamar estúpido a quem percebe alguma coisa do assunto.

3. A comunicação social é composta - perdoe-se o latim - por uma cambada de energúmenos. É verdade que Casillas facilitou na final da Liga dos Campeões, e é verdade que facilitou ontem. Mas quando salvou o Real Madrid em Dortmund, só para dar um de muitos exemplos, onde estavam os que agora dizem, de peito feito e contentes por serem portuguesinhos, que José Mourinho é que sabia, quando o decidiu afastar da equipa? De resto, falar de Casillas num jogo em que Sergio Ramos foi o melhor em campo pelos holandeses faz-me alguma confusão. Casillas falhou no quarto golo, quando toda a equipa (e ele próprio, porque foi o principal injustiçado no lance do terceiro golo) estava completamente desnorteada, e a falha dele foi de natureza técnica, o que é muito mais perdoável que outro tipo de falhas.

4. Sergio Ramos falhou porque não sabe o que é defender à zona, uma linha defensiva ou, em suma, uma equipa de futebol. Veja-se onde anda Sergio Ramos antes de Daley Blind fazer o passe, em qualquer um dos lances dos dois primeiros golos, e percebe-se tudo o que há para perceber acerca desses golos. Piqué está onde deve estar, dado que o lance decorre junto a uma linha. Sergio Ramos está onde, na melhor das hipóteses, deveria estar o lateral do lado oposto. Ter no eixo da defesa quem cometa erros tão grosseiros como estes dois é meio caminho andado para criar a ilusão de que se tem uma equipa fraca.

5. O que disse a respeito das goleadas impostas pelo Bayern de Munique o ano passado ao Barcelona, assim como o que disse a respeito da goleada imposta pelo Real Madrid este ano ao Bayern de Munique, vale para falar deste jogo. Em muitos casos, uma goleada não representa nem a verdadeira diferença entre as duas equipas nem a verdadeira diferença entre o que elas fizeram ao longo dos 90 minutos. Explica-se, essencialmente, falando de motivação e concentração. Alguém, no seu perfeito juízo, diria ao intervalo que o resultado justo era uma goleada a favor dos holandeses? Alguém diria, sequer, que os holandeses mereciam estar empatados? Por que raio é que, durante os primeiros 45 minutos, os comentadores se fartaram de elogiar a Espanha e de tecer considerações acerca da eventual vitória dos espanhóis, e terminaram o jogo a falar em escândalo? Que raio de estupidez é esta que consiste em dizer exactamente o contrário do que se dissera 45 minutos antes e, ainda assim, se achar que se está a formular um discurso coerente? Como é que se pode chegar ao final de uma partida em que se disseram coisas tão contraditórias e afirmar que o resultado final é perfeitamente ilustrativo do que se passou nos 90 minutos? Está tudo doido? O resultado desnivelado, como qualquer resultado, não espelha nada do que se passou nos 90 minutos. Explica-se por um ou dois detalhes, que mudaram inteiramente as coordenadas da partida. Silva falha o 2-0 e Van Persie empata no lance seguinte, quando a Holanda nada fizera para isso; a abrir a segunda parte, sem mérito algum, uma vez mais, Robben aparece em posição privilegiada e faz o 2-1. Quando os espanhóis começam a reagir, sofrem o terceiro, num lance ilegal. Ainda conseguem reagir, chegando mesmo a criar algumas situações, mas o desnorte apoderara-se deles, e Casillas oferece o quarto. Em poucos minutos, tinham passado de uma situação de vantagem para uma situação inesperada. Para além da desmotivação e do desnorte, cria-se naturalmente uma sensação de impotência que conduz à apatia. Dizer o que quer que seja a propósito do real valor destas duas equipas num jogo assim é, no mínimo, irresponsável. E fazer prognósticos a propósito do resto do campeonato com base num desafio destes é francamente estúpido.

6. É talvez importante pensar acerca dos motivos pelos quais, nos últimos tempos, tantas equipas que baseiam o seu jogo em posse têm sido goleadas. A meu ver, é relativamente simples percebê-lo. Em equipas que se arrumam de forma mais conservadora, o tipo de apatia que descrevi antes não faz tanta mossa. Em equipas que jogam como a Espanha, com muito espaço nas costas da defesa e muitos jogadores dentro do bloco adversário, essa apatia leva a que se concedam oportunidades de golo atrás de oportunidades de golo. Ser goleado como a Espanha foi não é, pois, tão grave como isso. É apenas sinal de que a apatia, em equipas que assumem o jogo como os espanhóis assumem, tende a conduzir a resultados desnivelados. Nestas circunstâncias, ser goleado parece-me tão normal como não sê-lo.

7. Esta equipa holandesa, não obstante a competência do seu treinador, é talvez a mais fraca, em termos individuais, de que tenho memória. Falar no regresso da Laranja Mecânica é, por isso, francamente insultuoso. É verdade que, por todas as razões, este não é o melhor jogo para tirar ilações acerca do que poderão os holandeses fazer daqui para a frente, mas de uma equipa em que se aproveitam apenas o lateral esquerdo, Daley Blind, e os dois atacantes, Robben e Van Persie, acho difícil esperar grandes feitos. Posso estar muito enganado - e Van Gaal é suficientemente astuto para esconder as debilidades da sua equipa - mas acho que a única convicção com que fiquei depois desta goleada, ao contrário de todas as convicções com que ficaram as outras pessoas, foi a de que a Holanda não é candidata ao título.

8. Quanto à candidatura da Espanha, mantenho a mesma opinião que tinha antes de começar o campeonato. São a equipa mais poderosa em prova e os seus principais adversário serão, como já eram antes, as condições climatéricas e o desgaste que vier a acumular devido a essas condições. É verdade que a goleada é perigosa, até porque não me parece que a Holanda venha a ter facilidades para vencer o Chile, mas as aspirações espanholas continuam intactas. De resto, é até possível que tal derrota (e pelos números que foi) fira suficientemente o orgulho dos jogadores para que os espevite para o que aí vem. Há 4 anos, quando sugeri que a Espanha, após ter perdido o primeiro jogo com a Suíça, continuava a ser o principal candidato à vitória final, baseie a minha convicção naquilo em que as convicções devem ser baseadas, ou seja, na razão. E a razão, ao contrário do resultado desnivelado com o qual tanta gente tem exultado, diz-me que é estúpido achar que uma goleada sofrida, ainda por cima pelos motivos acima aduzidos, altera o valor da equipa que a sofre.

9. Em que medida é que pessoas que exultam com a goleada sofrida pelos espanhóis ante os holandeses (e têm sido inúmeros, desde anónimos a pessoas que, de acordo com um determinado código, deviam ser um bocadinho mais isentas) são diferentes de pessoas para quem o mundo estaria melhor sem Shakespeare? E em que medida é que pessoas assim se distinguem das pessoas que, a dada altura, acharam que o mundo estaria melhor sem judeus? Não é exagero; exultar com o que se passou ontem é parecidíssimo com exultar com câmaras de gás. Ficar contente perante a perspectiva de a melhor coisa que já aconteceu ao futebol poder finalmente desaparecer é, deste ponto de vista, mais ou menos o mesmo que bater palmas a um genocídio. É de congratular a ignorância com que o faz quem o faz. A Humanidade está de certeza orgulhosa de vocês! 

sábado, 3 de novembro de 2012

Elasticidade

Não é escassa a discussão, um pouco por todo o lado, em torno de sistemas tácticos. Para muitos, o sistema táctico é apenas um pormenor, e o desempenho de uma equipa depende muito mais das dinâmicas a que ela obedece; para outros, pelo contrário, o sistema táctico é absolutamente determinante. Confesso que ambas as hipóteses me parecem redutoras. Como é evidente, o 433 de José Mota é muito diferente do 433 de Guardiola, embora o desenho táctico seja igual. Daí não se segue, todavia, que a essência do Barcelona de Guardiola não esteja intimamente ligada ao desenho do 433. Aquilo que estou a querer insinuar é que, sem esse desenho, nada daquilo seria assim, ou seja, que embora o desenho táctico não seja suficiente para que uma equipa tenha qualidade, é-lhe necessário.

Um 433 rígido não é bom só porque é um 433. Se há coisa que caracterizou o 433 de Guardiola foi a sua absoluta elasticidade. Os extremos não eram extremos. Raramente eram eles quem dava profundidade e raramente tinham movimentos verticais. Muitas vezes, eram até médios por vocação quem jogava na posição de extremo, precisamente por causa dos movimentos interiores. O avançado também não era avançado, e, se quisermos, os médios não eram médios. Do meio-campo para a frente, havendo referências para cobertura e apoios, havia uma elasticidade tal que a equipa não obedecia a padrões de comportamento convencionais. Por elasticidade não se deve entender, no entanto, liberdade. Os jogadores, não estando presos a posições rígidas, não tinham também liberdade para tudo e mais alguma coisa. Aquilo que tinham era liberdade para esticar o desenho, para lhe conferir elasticidade e imprevisibilidade. Se há coisa que Tito Vilanova flagrantemente decidiu não continuar foi essa elasticidade. Daí a sua recusa, por exemplo, em adoptar o 343 de Guardiola (um sistema ainda mais elástico que usou, até agora, apenas uma vez, se não estou em erro, durante 15 minutos, e que não retomou, apesar do sucesso que teve), e em jogar com médios na posição de extremos. O seu 433 é muitíssimo mais rígido do que era o de Guardiola, e ainda que os jogadores mantenham hábitos de apoios e coberturas semelhantes, a equipa funciona ligeiramente pior precisamente porque não parece existir vontade de forçar a sua elasticidade. Com Vilanova, Messi manteve a sua liberdade. Mas isso talvez apenas porque é Messi. Os extremos são mais extremos do que nunca (tanto ou mais do que na primeira época de Guardiola), e foi-lhes retirada a iniciativa de virem para dentro. A equipa é mais previsível por ser menos elástica, por fomentar menos as combinações interiores e por deixar menos a cargo dos laterais a profundidade de que precisa.

Um dos principais méritos de Guardiola foi precisamente ter conseguido, de ano para ano, aumentar o nível de elasticidade da equipa (culminando com aquele extraordinário 343), sem que se rompesse o seu tecido táctico. Nesse aspecto, superou amplamente dois dos seus mestres, Louis Van Gaal (sobretudo pelo seu 343 losango no Ajax) e Marcelo Bielsa, cujas equipas são, sem dúvida, das mais tacticamente elásticas da História do jogo. Outros há, mais conservadores, que preferem não arriscar tanta elasticidade, temendo rupturas em tal tecido. É o caso de Vilanova, que tem a sorte, porém, de ter herdado uma equipa com processos formidáveis. Um terceiro grupo de treinadores existe para quem a elasticidade parece ser importante, mas que não sabem de que modo a podem fomentar sem que arrisquem descompensações. São os casos, a meu ver, de Jorge Jesus e de Wenger. Se Wenger tem o problema de, pretendendo uma elasticidade acima de tudo horizontal, muito parecida com a do Barcelona, com as movimentações a serem essencialmente do exterior para o interior, e de dentro para fora, não perceber como é que tal ideia se deve suportar em termos de coberturas, apoios e compensações, Jesus tem o defeito de gostar de uma elasticidade de tipo diferente, mais vertical, de permutas entre jogadores de sectores diferentes, com movimentos essencialmente de trás para a frente, o que provoca uma vertigem difícil de controlar e buracos tácticos difíceis de preencher. Bielsa, por sua vez, é um misto dos dois, virtuoso como ambos, mas com os defeitos, não tão acentuados, é certo, e muitas vezes potenciados por alguma falta de qualidade individual dos seus jogadores, de ambos.

Ora, dificilmente Guardiola conseguiria a agilidade táctica que conseguiu se não a tivesse fundado num sistema táctico como o 433 (ou mais tarde como o 343). Em 442 clássico, por exemplo, jamais conseguiria o jogo entre linhas que conseguiu, jamais conseguiria a quantidade de apoios centrais que conseguiu, jamais conseguiria ter sempre os jogadores juntos uns dos outros e juntos do local onde a bola está. O 433 permite, por definição, maior elasticidade do que um 442 clássico, embora haja equipas mais elásticas em 442 clássico do que em 433. O problema não está, pois, apenas nas dinâmicas da equipa, mas também, e muito significativamente, no sistema táctico que se adopta. Se o sistema de Wenger fosse o 433 (e não o 4231), se calhar não teria metade dos problemas que tem. Se Mourinho preferisse jogar com Modric ao lado de Kaká ou Ozil, e não ao lado de Xabi Alonso, se calhar o seu Real daria o salto qualitativo de que precisava. Em sentido contrário, parece-me ser, por exemplo, a grande mais-valia de Vítor Pereira. A elasticidade táctica de uma equipa depende muito das ideias do treinador, daquilo que é pedido aos jogadores, das características dos jogadores, e das dinâmicas treinadas. Mas, no limite, sistemas tácticos diferentes permitem níveis de elasticidade diferentes. Na minha opinião, o 433 (com um só médio-defensivo) e o 442 losango são das tácticas cujo potencial de elasticidade é maior, embora nenhuma delas supere o 343 losango. A equipa que não jogue em nenhum destes sistemas poderá ter processos de jogo interessantes (como a de Jorge Jesus ou de Arséne Wenger), poderá estar optimamente mecanizada (como o Real Madrid de Mourinho), poderá até ser extraordinariamente competitiva (como o Atlético de Madrid de Simeone), mas dificilmente atingirá a excelência. A consequência mais relevante dessa caraceterística a que estou a chamar "elasticidade" é a imprevisibilidade da equipa. Como é óbvio, elasticidade a mais pode provocar, para além de imprevisibilidade, caos e desorganização, pelo que o truque é perceber de que modo, em que condições, e em que medidas, deve ser desejada. Alguns sabem-no. E nenhum desses joga em 4231 ou em 442 clássico.

terça-feira, 29 de março de 2011

Robben e as Individualidades

Arjen Robben é um dos maiores desequilibradores do futebol mundial e, certamente, um dos melhores na sua posição. À margem das muitas lesões que tem sofrido ao longo da sua carreira, poucos não gostariam de contar com os seus serviços. O que pretendo defender, neste texto, é que, apesar de apreciar Robben e de lhe reconhecer capacidades individuais soberbas, dificilmente encaixaria a especificidade do seu futebol (pelo menos do futebol que, nos últimos anos, tem feito seu) numa equipa com um ideal colectivo como eu o concebo. Aliás, será objectivo deste texto argumentar que Robben, tal como joga no Bayern de Munique, apesar de temível individualmente, é nocivo à evolução da equipa enquanto colectivo. Por arrasto, será defendido que todo o jogador que tenha a tarefa específica de ser o principal desequilibrador da equipa é nocivo à desenvoltura colectiva dessa equipa.

O Bayern de Van Gaal, apesar de, muitas vezes, parecer uma equipa frágil a defender e não ter ideias ofensivas, é uma equipa muitíssimo responsável em termos posicionais, com fio de jogo como poucas e com bastantes princípios ofensivos. O 4231 implementado pelo técnico holandês é mais arrojado que um 4231 tradicional, nem que seja pelo facto de não jogar com um único médio de características tradicionalmente defensivas. À parte dos problemas que a equipa tem em fechar os espaços entre os defesas e os médios, o modelo é interessante. Ofensivamente, as movimentações de Müller, como eram as de Litmanen no Ajax de Van Gaal, são das mais interessantes naquela posição. O Bayern é também das equipas europeias que melhor joga com o espaço entre linhas, e das que melhor procura os espaços certos para atacar. O problema, a meu ver, está na especificidade de alguns dos seus atletas. O ano passado, sem Robben, que esteve grande parte da época lesionado, o Bayern teve de procurar resolver os seus problemas de variadíssimas maneiras e, com isso, evoluiu colectivamente. Ribery, por melhor que seja em termos individuais, não é Robben. Não é um chamariz como o holandês e não tem a influência do seu colega. Sem Robben, o Bayern jogava mais pelo meio, era mais vertical, solicitava menos as acções individuais dos seus extremos e envolvia mais atletas no processo ofensivo.

Este ano, com Robben em condições, uma grande fatia das soluções ofensivas da equipa passa por circular a bola até ao holandês, normalmente na extrema direita, em afastar todos os colegas dele, de modo a arrastar adversários e a conceder-lhe espaço, e a deixar entregue ao seu talento a solução individual de cada ataque. É estratégico, neste Bayern, levar a bola até Robben e depois autorizar-lhe e fornecer-lhe as condições ideais para que desequilibre. O problema desta estratégia é que, por mais que desequilibre individualmente, é previsível. A previsibilidade do futebol dos bávaros, este ano, é inacreditável. Ainda que Robben, por si, não seja normalmente previsível, o simples conhecimento desta estratégia por parte dos adversários prepara-os para a mesma. E, por a estratégia ser previsível, as acções de Robben têm também muito menos consequências. Por norma, os adversários obrigam-no a vir para o meio, a procurar cruzamentos largos pouco eficazes. Por Robben ter tanto destaque, o Bayern, enquanto equipa, tornou-se mais fácil de parar. Bastou, para isso, que os adversários se preparassem para os momentos em que a bola entrasse no holandês.

O grande problema do Bayern, segundo esta análise, foi por isso aquilo que era, aparentemente, a sua melhor solução. É um caso ímpar de como o peso excessivo de uma unidade numa equipa, ainda que uma unidade individualmente muito útil, pode comprometer o colectivo. O que Van Gaal fez foi o contrário do que se deve fazer: submeteu as características do modelo à especificidade de Robben, quando deveria ter encaixado o holandês na estrutura colectiva. O que este exemplo, no fundo, ilustra é aquela velha teoria que sempre se defendeu aqui de que o modelo tem de estar acima da especificidade dos jogadores. Pouquíssimos defenderão o mesmo que nós. Para a grande maioria, o modelo ideal deve aproveitar e adaptar-se à especificidade dos atletas, tirando desse modo o melhor de cada um. Para nós, o modelo ideal está acima de qualquer individualidade e compete ao treinador não adaptar a sua ideia de jogo aos jogadores que possui, mas o contrário, adaptar os jogadores que possui à ideia de jogo, que lhes é anterior. Arjen Robben é fortíssimo no um para um, mas o Bayern não precisava de focar-se estrategicamente nessa capacidade para ser bem sucedido. Pelo contrário, seria bem mais sucedido se preconizasse um modelo estrategicamente diferente, em que todas as individualidades obedecessem a uma ideia homogénea. Incluído num conjunto com uma ideia estritamente colectiva do jogo, sem estar presa à tarefa de desequilibrar individualmente, a especificidade de Robben acabaria por ser eficaz quando tivesse que ser. Nessas condições, nem o Bayern estaria dependente da inspiração de Robben, procurando o êxito por outros caminhos e tornando-se menos previsível, nem Robben estaria dependente de si mesmo. Os grandes jogadores só adquirem a excelência se não dependerem exclusivamente de si mesmos, o que é o mesmo que dizer que só podem valorizar-se quando integrados em conjuntos em que não têm a missão hercúlea de resolver tudo e mais alguma coisa. Nada disto é uma crítica a Robben. Nem tão-pouco a Louis Van Gaal. Trata-se de um vício muitíssimo abrangente de cuja natureza tóxica só um treinador do mundo me parece ter consciência clara.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Esquemas tácticos racionais

Há dias, surgiu a debate a questão sobre a racionalidade dos esquemas tácticos. Devo dizer, em primeiro lugar, que cada treinador ou cada entendido terá, certamente, uma ideia de quais são os esquemas tácticos que considera mais racionais. Para chegar a essa conclusão terá certos critérios. Aquilo que penso defender aqui é o meu critério para chegar a esses esquemas, critério esse que, julgo, é o único que confere racionalidade a um sistema táctico.

Para muitos, um esquema táctico tem de se adequar aos recursos humanos ao dispor de um treinador. Isto é, o modo como a equipa se dispõe em campo deve ser influenciado pelos jogadores do plantel. Ou seja, no caso de haver 2 avançados muitos bons, a equipa tem de jogar de modo a que esses dois avançados joguem. Ou, caso a equipa tenha dois trincos de qualidade, deve jogar com um duplo-pivot defensivo. Considero isto errado. Em primeiro lugar, porque os jogadores podem adaptar-se a posições cujas movimentações e espaços a ocupar não sejam muito diferentes. Por exemplo, um desses médios-defensivos pode conseguir jogar como médio interior, ou um dos avançados pode jogar a partir de uma ala, flectindo para o meio. Mas, de qualquer forma, querendo manter os melhores jogadores nas suas posições de origem, isso nunca deve influenciar aquilo que se considera mais importante. O que pretendo é que haja vários modelos aceitáveis e que, de acordo com os jogadores disponíveis, encontrar qual desses modelos se adequa melhor aos mesmos. Mas nunca a existência de dois avançados absolutamente imprescindíveis deve pôr em causa os critérios de avaliação de racionalidade de um modelo. Ou seja, esses dois avançados só vão poder jogar como avançados em modelos em que a existência de dois avançados não constitua uma irresponsabilidade táctica. Antes, por exemplo, jogar em 352, para manter os dois avançados, do que abdicar de um homem de meio-campo e jogar em 442 clássico.

Outros há que confundem racionalidade com equilíbrio. Há modelos mais ofensivos, mais defensivos e mais equilibrados. Mas nada disto tem a ver com racionalidade. Ou seja, o que quero dizer é que um sistema mais virado para o ataque ou mais virado para a defesa, que arrisque mais ou que arrisque menos, não é critério para definir a racionalidade de nada. Um sistema com três defesas, nesse sentido, pode ser tão racional quanto um com quatro, independentemente de estar menos povoado atrás. O que estas pessoas pretendem é que um sistema que arrisque jogar com três defesas é uma coisa, nos dias de hoje, muito ousada. E confundem ousadia com irracionalidade. Não concordo com isto. Considero possível que um esquema com 3 defesas seja perfeitamente racional. E considero isto porque os critérios que, para mim, conferem racionalidade a um esquema não se prendem com a zona do campo que pretendem ocupar ou com a orientação ofensiva ou defensiva do mesmo. E que critérios são esses, então?

Na minha opinião, a única coisa que pode servir para definir a racionalidade de um sistema é a forma como cada componente se relaciona com outro, dentro desse sistema. Aqueles sistemas que tiverem uma relação adequada entre os seus componentes serão, certamente, os sistemas mais unidos, mais coesos e, consequentemente, os mais racionais. Uma equipa deve jogar compacta, unida, com apoios sucessivos. Penso que isto seja evidente. Logo, por sistema racional entendo aquele que permitir um melhor estabelecimento de apoios. É por isso que, para mim, um sistema com poucas linhas é um sistema inadequado. Um 442 clássico, por exemplo, ao definir três linhas horizontais claras, não contempla os espaços entre as mesmas e não é um sistema para transições lentas. Não o é porque um médio-centro, por exemplo, só terá como apoio avançado um dos avançados. Isto implica que, imaginando uma jogada rectilínea, a bola passa do médio para o avançado. Nos dias que correm, processos ofensivos tão simples são pouco eficazes. Daí a necessidade de se colocar gente entre estas três linhas, de modo a fazerem a união entre meio-campo e ataque e permitir um jogo de passe mais curto e, consequente, menos arriscado. Entendo, portanto, que a importância de haver apoios constantes (quer avançados, quer recuados, quer laterais) ao portador da bola é o que confere racionalidade a um sistema. Nesse sentido, são, para mim, racionais todos os sistemas que permitam isto e irracionais aqueles para os quais a obtenção destes apoios exija maiores deslocações dos jogadores. Os sistemas que, pelo posicionamento original dos jogadores, mais facilmente contemplam esta necessidade são, para mim, o 433 com um só pivot-defensivo, o 442 losango, o 352, o 343 losango e o 334 com duplo-pivot defensivo.

O que é comum a todos estes sistemas não é apenas, como se possa pensar, um maior número de linhas horizontais, o que permite pressionar mais em profundidade. Isso é importante, sim, mas não é tudo. Acho que uma equipa deve posicionar-se em campo de forma a conseguir um elevado número de linhas horizontais, mas isso não é suficiente. Por exemplo, um duplo-pivot defensivo num meio-campo com três homens é radicalmente diferente, em termos de dinâmica colectiva, de um sistema que opte apenas por um homem nessa zona. E a diferença está, essencialmente, na forma como os apoios são fornecidos. Aliás, num esquema com quatro defesas, assumo, é profundamente errada a adopção de dois médios em cunha à frente deles. Penso assim porque o espaço que deveria ser privilegiado era o espaço que fica à frente do espaço entre os dois centrais. Com dois médios-defensivos, os espaços cobertos estão na mesma linha vertical que os espaços cobertos pelos defesas. Isso faz com que se forme um quadrado dentro do qual o espaço não está coberto. Aquilo que pretendo dizer é que um esquema racional deve contemplar, sim, a multiplicação de linhas horizontais, mas nunca esquecer as linhas verticais. Se formos aos desenhos, um esquema como o 442 losango assenta em triângulos sucessivos. Isto é essencial para se poder cobrir com exactidão todos os espaços de terreno. E cobrir todos os espaços da melhor maneira possível e com menos esforço possível é a forma mais racional de montar uma equipa.

Falar em linhas horizontais e em linhas verticais pode parecer vago, mas é precisamente a formação dessas linhas, se virmos bem, que confere união aos sectores. E essas linhas têm de estar definidas alternadamente. Por exemplo, num sistema com 4 defesas, cada um deles está numa linha vertical. É absolutamente crucial que haja, imediatamente a seguir aos defesas, a formação de uma quinta linha vertical (normalmente dada pelo pivot-defensivo). Um duplo-pivot, aqui, não conferiria uma quinta linha nesta zona. Essa só seria formada pela posição do médio-ofensivo e do avançado, ou seja, em zonas muito avançadas do terreno. Ao mesmo tempo, horizontalmente, estariam definidas apenas 4 linhas, contra 5 no 433. Em zonas recuadas, estariam formadas duas linhas horizontais no 4231, contra três no 433. A conjugação entre linhas verticais e horizontais é aquilo que permite, em cada zona, a existência de triângulos de apoios, absolutamente fundamentais. Um sistema que não contemple essa rede de apoios não é um sistema racional.

Quando Louis Van Gaal afirma que a sua filosofia era preparar a equipa de maneira a que cada um dos elementos da mesma corresse o menos possível, isto não é só da boca para fora. A melhor maneira de fazer com que os jogadores corram menos é obter uma rede de apoios que o permita. Quanto melhor um jogador estiver apoiado, menos terá de correr para preencher os seus espaços. Se a equipa estiver montada de maneira a que todos os jogadores tenham apoios que permitam que cada um deles tenha de ser preocupar com menos espaço, a equipa, de um modo geral, correrá menos. E isso significa que ocupará melhor os espaços. Agora, para tal coisa não servem todos os sistemas. Aqueles que são mais racionais são então aqueles que, pela forma como conjugam as suas onze pedras, fazem com que cada um dos elementos, a cada momento, tenha menos espaço com que se preocupar. Um 442 clássico, por exemplo, tem inúmeros momentos em que os dois médios-centro têm espaços enormes para cobrir. Isto não pode ser um sistema racional. É um sistema pouco coeso, que só pode ter sucesso através de transições directas, que não contempla um jogo em apoios nem ocupa bem os espaços defensivos (a não ser num bloco baixíssimo), que vive de dinâmicas anárquicas e da ideia mais primitiva de todas, a de que no futebol há jogadores para defender e jogadores para atacar, de que há uma altura para defender que não tem que se preocupar com o ataque e que há um momento para atacar durante o qual não se deve pensar na defesa.

Assim, ao contrário do que seria de esperar, um sistema não é mais ou menos racional pela utilização de mais ou menos defesas, mas sim pela união ou desunião que proporciona. Porque uma equipa deve atacar a defender e defender a atacar, é a existência permanente de apoios que a torna mais racional. Um sistema racional será, por isso, aquele que, nos diferentes momentos de jogo, mantiver a equipa mais preparada para o próximo momento. Há sistemas, nesse sentido, que permitem que a equipa se adapte à alteração de momentos mais rapidamente que outros. Esses são os sistemas racionais, os outros, os irracionais.