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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Defender o um para um

Muito se discutiram, após o clássico que opôs o Porto ao Benfica, as opções de Jorge Jesus e o rotundo falhanço estratégico da sua abordagem ao jogo. Corroboro grande parte dessas críticas, sobretudo a não-utilização de Saviola, a opção pelo 442 clássico, e o medo em relação a Hulk que levou à troca de Coentrão por David Luiz. Nenhuma crítica, porém, foi mais referida que a utilização de David Luiz à esquerda. Há, nessa aposta, dois erros primários: o primeiro - e também o mais óbvio - tem a ver com a opção por contrariar as qualidades individuais de um adversário utilizando as qualidades individuais de um atleta. Jesus falhou, neste particular, não só porque alterou uma estrutura enraízada, mas também porque não compreendeu que a melhor estratégia para contrariar qualidades individuais é necessariamente colectiva. Muito mais fácil do que procurar remediar um problema individual através da promoção de um duelo individual teria sido promover a criação de superioridade numérica, em momento defensivo, sempre que a bola chegasse aos flancos, por exemplo. Mas esse foi, como referi, apenas um de dois erros. O segundo, e que poucos certamente saberiam identificar, porque corroídos pela opinião pública convencionada, tem a ver com a escolha de David Luiz para essa função. Jorge Jesus escolheu-o porque o considera o mais capaz a defender duelos individuais. Poucos disputariam esta consideração. Afinal, para estas pessoas, a característica essencial para que um defesa seja forte no um para um é a velocidade. Afirmo frontalmente que estão equivocados.

David Luiz é rápido, é agressivo e, graças a estas duas características, tem uma boa capacidade de antecipação. Nada disto faz com que seja bom a defender o um para um. O objectivo deste texto é precisamente desmontar esta ideia, assim como argumentar que há coisas bem mais importantes que a velocidade para travar um adversário especialmente forte no um para um. David Luiz tem estas características muito desenvolvidas e é principalmente por elas que é tão apreciado. Acontece, contudo, também porque se deixa deslumbrar por elas, que tem outras características pouquíssimo desenvolvidas. Não evoluiu rigorosamente nada em termos de leitura dos lances e continua com uma péssima abordagem a jogadas que exigem que raciocine rapidamente, jogadas em que a defesa não está organizada, por exemplo. Já para não falar das faltas de concentração e das displicências com bola. O que pretendo demonstrar é que defender eficazmente o um para um não é necessariamente distinto de tudo o resto e que, portanto, é muito mais importante o defesa ter capacidade de concentração e boas abordagens ao lance do que propriamente rapidez para reagir à iniciativa do adversário.

Para muitos, defender o um para um é uma questão de capacidade de resposta àquilo que o adversário propuser. Isto é, se o adversário investe pela direita, o defesa tem de ter rins e pernas para o perseguir pela direita; se investe pela esquerda, o mesmo. Parece-me isto um modo fácil e antiquado de olhar para a coisa. É óbvio, porém, que quem pense assim tenha a pressa de afirmar que o melhor a defender o um para um é aquele que reage melhor à investida do adversário, vá ele por onde for. Discordo amplamente disto. Creio até que defender o um para um é uma técnica, idêntica a outras técnicas relacionadas com o jogo, e que, ainda hoje, é muitíssimo negligenciada. Deixando de fora, para já, as especificidades do adversário particular que se pretende defender, coisa que pertence ao plano estratégico e que deve ser interiorizado apenas mediante o confronto particular com esse jogador e que não tem necessariamente a ver com a técnica geral de defesa do um para um que aqui quero referir, acho que há, para quem defende, muitas outras coisas a fazer para além de esperar pela iniciativa do adversário e reagir o melhor que souber. É disso que quero falar em seguida.

A primeira coisa que quero contestar é que a iniciativa seja necessariamente do avançado que tem a bola. Não quero, com isto, afirmar que o defesa deve tentar a intercepção antes de o avançado optar por um dos lados. É possível tomar a iniciativa de outro modo. Como? Sugerindo um lado, por exemplo. Por definição, o defesa coloca-se entre o avançado com bola e a baliza, exactamente a meio, permitindo a quem tem a bola escapar por um de dois lados. Este posicionamento convencional garante iguais possibilidades ao defesa de chegar ao lance quer o avançado vá pela esquerda, quer vá pela direita. Mas tem a desvantagem de permitir a escolha a quem tem a bola. Optando por este tipo de posicionamento, a iniciativa é sempre de quem tem a bola. Basta que esse avançado seja especialmente rápido e forte para que o defesa esteja constantemente em desvantagem. Do meu ponto de vista, sobretudo contra avançados que não são imprevisíveis, isto é, que vão optar pelo lance individual, este posicionamento convencional não é o mais eficaz. Muito mais eficaz é retirar poder de escolha ao avançado e, assim, ter a iniciativa do lance. Por exemplo, no caso de David Luiz e Hulk, defender mais o lado direito, convidando a que a iniciativa individual se desenrolasse para a linha e para o pé direito do avançado portista, teria sido uma estratégia individual muito mais produtiva. Condicionava-se um jogador pouco capaz de responder a obstáculos imprevistos a optar sempre pelo mesmo caminho e a fazer uso do seu pior pé mais vezes; propiciavam-se situações de cruzamento com o pé direito de Hulk cuja resposta poderia até ser trabalhada em treino durante a semana; e, sobretudo, nunca se promoveria a possibilidade de Hulk ultrapassar individualmente o seu opositor directo, criando situações de superioridade numérica. Outra possibilidade seria a contrária, optar por fechar mais a linha e convidando Hulk a fintar para dentro. Fazendo depois uso de um bom jogo posicional de toda a equipa e juntando os jogadores no momento defensivo, obrigar-se-ia Hulk a voltar recorrentemente para trás ou a forçar lances individuais pelo meio em franca inferioridade numérica. A opção foi outra e passou por ter David Luiz sempre em cima de Hulk, à espera da iniciativa do avançado portista e sem qualquer plano previamente concebido. Como Hulk é fortíssimo quando lhe oferecessem a iniciativa e quando o adversário não se acautela colectivamente para responder às suas investidas, deu no que deu.

Como devem saber, os que lêem este blogue, tal como não sou especial admirador de David Luiz, não sou especial admirador de Hulk. Tem duas ou três características extraordinárias e que podem fazer a diferença ocasionalmente, mas tem atributos subdesenvolvidos e que considero essenciais no futebol moderno. Quero com isto dizer que Hulk faz ou pode fazer a diferença quando se reúnem circunstâncias favoráveis à exploração das suas características, mas terá sempre dificuldades quando tiver de ser ele a procurar essas circunstâncias. Ou seja, a preponderância de Hulk dependerá sempre mais do contexto criado do que dele próprio. Villas-Boas tem tido o mérito de ser capaz de forçar o aparecimento dessas circunstâncias e, assim, de tornar produtivas ao máximo as capacidades do brasileiro, mas a criação dessas circunstâncias depende sempre em parte da proposta do adversário. O erro de Jesus, mais do que ter medo de Hulk, foi ter medo das coisas erradas. Receou o momento em que Hulk tinha a bola quando deveria era ter receado o momento anterior e o momento posterior a esse; receou Hulk quando deveria ter receado era o Porto enquanto colectivo capaz de criar as circunstâncias favoráveis às capacidades de Hulk; receou o drible de Hulk quando deveria era ter receado a explosão dele. É que Hulk com bola não é especialmente perigoso; Hulk com espaço sim. E foi precisamente o espaço que Jesus não acautelou. O medo de Jesus, portanto, para além de todas as consequências que daí resultaram, radicou ainda no equívoco magistral de ser infundando precisamente por ser um medo acerca das coisas erradas.

Regressando agora à generalidade do tema e utilizando Hulk como paradigma do jogador difícil de parar no um para um, por ser rápido e forte, devo dizer que o melhor modo de defender o um para um contra estes jogadores é precisamente como sugeri acima, tomando a iniciativa. Tomar a iniciativa, deste ponto de vista, implica modificar o padrão a que o adversário está habituado e, com isso, condicioná-lo e limitá-lo. Tratando-se de um jogador previsível - residindo a sua previsibilidade no facto de apostar invariavelmente no um para um - esta opção nunca constitui uma desvantagem e o próprio defesa saberá sempre, por antecipação, aquilo que o avançado vai fazer, porque o preparou para isso limitando-lhe as escolhas. Ao invés de se ficar a meio metro do adversário, deve-se ficar ligeiramente mais afastado e deve-se dar ostensivamente um dos lados, concedendo-lhe uma aparente liberdade que tem o condão de o condicionar. Há ainda truques defensivos eficazes, como 1) forjar um mau posicionamento aparente, convidando o adversário a atacar a zona aparentemente desprotegida, mas estando preparado para atacar essa zona e fazendo-o assim que o adversário dá o toque na bola, momento em que a capacidade de reacção do avançado é nula; 2) dar espaço e fingir esperar a iniciativa do adversário, atacando depois repentinamente a bola antes de essa iniciativa ser tomada; 3) simular um pequeno reajustamento de posição (como simular um pequeno passo para a frente ou para os lados, ou ameaçar atacar a bola), o que obriga o adversário a reajustar-se também ou a reagir mais decisivamente, atacando depois o lance no momento em que a reacção do adversário à simulação se efectiva. Todos estes truques servem para que o defesa tenha parte da iniciativa do lance do seu lado. São modos de tornar mais eficaz o seu desempenho em duelos individuais, modos de tornar menos relevantes possíveis diferenças de atributos físicos e modos de tornar menos determinantes jogadores que só o podem ser se tiverem a seu favor certas circunstâncias, como o sejam a possibilidade de tomar a iniciativa em duelos individuais e o espaço posterior propiciado por uma abordagem defensiva, individual e colectiva, deficiente.

Esta forma de defender o um para um é extraordinariamente negligenciada e constitui uma técnica pouquíssimo trabalhada, onde quer que seja. Há poucos jogadores que recorram a este tipo de coisas e maior parte deles fá-lo-ão de forma inconsciente, talvez como protecção involuntária contra a ausência de certos atributos físicos. Um defesa rápido, e que tenha orgulho na sua rapidez, nunca recorre a isto. Encara os adversários sempre de igual modo, concedendo-lhe a iniciativa para depois recuperar em velocidade e dar a impressão de um grande feito. Veja-se a diferença entre Ricardo Carvalho e Pepe, agora que jogam juntos, na forma como abordam este tipo de lances. Pepe aproxima-se muitíssimo do portador da bola e espera a sua iniciativa para reagir, fazendo uso da sua velocidade; Ricardo Carvalho espera, dá mais espaço, força um dos lados. E nunca é ultrapassado. Veja-se ainda Piqué ou Daniel Carriço. Raramente enfrentam este tipo de lances de frente; estão de perfil, concedendo um dos lados, diminuindo as possibilidades do adversário que tem a bola. Isto é cultura e inteligência. E é a forma mais eficaz de defender o um para um. David Luiz é só um defesa veloz. Não é especialmente inteligente nem tem cultura suficiente que o torne excepcional a defender o um para um. Contra um adversário poderoso em termos de velocidade, é facilmente ridicularizado. César Peixoto, o tal que agora os mentecaptos têm por passatempo assobiar, tem metade da velocidade de David Luiz e fez muito, mas muito melhor, no jogo da Supertaça. Passou essencialmente por reconhecer as suas limitações em termos atléticos e por procurar resolver os problemas de outro modo. O Benfica, Jorge Jesus e David Luiz quiseram vencer o Porto e Hulk nos termos destes, tentando contrariar velocidade com velocidade. Um duelista experiente saberia de antemão que teria mais hipóteses de vencer um pistoleiro excepcional se, tendo a possibilidade de escolher, escolhesse um duelo de espadas. É que raramente se vence um perito com as armas em que essa pessoa é perita.

P.S. Há quem diga que Hulk, por ser especialmente forte, nunca deve receber de frente e, portanto, que a marcação individual tem de ser sempre apertada e movida a todo o terreno. Isto é absurdo. Foi precisamente por isto que Villas-Boas venceu o jogo. Antecipou que Jesus iria mover uma perseguição individual a Hulk e que o jogador que o marcasse, fosse qual fosse, iria abandonar a sua zona para ir atrás do brasileiro. Com isto em mente, terá treinado durante a semana movimentos semelhantes ao do terceiro golo, com Hulk a baixar, levando David Luiz e criando um buraco, e a bola a ser metida nesse espaço, no qual entraria Belluschi. Aliás, o segundo golo não é muito diferente. As preocupações excessivas com Hulk fizeram com que a linha defensiva do Benfica nunca estivesse bem formada, com David Luiz sempre demasiado subido. Falou-se muito em Sidnei e na sua pretensa falta de rotina, mais foi o mais esclarecido de toda a linha defensiva. O terceiro golo é o exemplo perfeito disto e é inteiramente da responsabilidade de David Luiz (ou de quem lhe ordenou que se comportasse assim), que vai atrás de Hulk até ao meio-campo e propicia o espaço aproveitado por Belluschi. Sidnei chega em esforço e não pode cometer falta, sob pena de conceder penalty. Aliás, foi mais um jogo, entre tantos, penoso para David Luiz, com responsabilidades directas nos três primeiros golos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Atentados intelectuais

Como é hábito, nesta e noutras áreas, há entre quem fala de futebol gente incompetente, gente simplesmente ingénua e gente que age deliberadamente de má fé. Estas três categorias de pessoas constituem, a meu ver, um conjunto que faz do jogo falado uma coisa empobrecida e que influencia negativamente a opinião pública. São, por isso, atentados ao intelecto do comum adepto, intelecto esse que, como o de uma criança, recebe não-criticamente aquilo com que o educam. Queria, nesta base, falar de três casos evidentes e recentes em que aquilo que se escreve ou diz tem responsabilidades na condução das opiniões de quem lê.

1. Tem vindo a lume, nas últimas semanas, a notícia da possível saída de Pereirinha do Sporting. Não sei se há algum fundamento nestas notícias, mas desconfio que não, até porque é prematuro falar do que quer que seja em relação ao plantel antes de se saber quem é o treinador que o vai comandar. Ora, sendo assim, parece-me claro que a notícia é escrita de um modo absolutamente especulativo e tendo como fundamento o facto de o jogador estar há 3 anos para se afirmar e ainda não o ter conseguido. Trata-se de uma opinião de uma ou mais pessoas que, na urgência de produzir novidades jornalísticas, foi transformada em notícia. O que é cobarde e constitui um atentado intelectual é que este tipo de notícia condiciona opiniões e cola rótulos que, maior parte dos leitores, por não ter convicções fortes, aceita facilmente. Não é certamente o caso mais grave, mas é um exemplo perfeito de como, às vezes, uma opinião aparentemente inocente tem um lado criminoso.

2. O segundo caso tem a ver com David Luiz. Não conheço outro sítio que alerte, com tanta frequência, para a forma precipitada com que a opinião acerca de David Luiz tem crescido. Não está em causa o valor do jogador, que o tem. Está em causa a dimensão desse valor e a magnitude dos elogios que lhe são feitos. Analisemos, primeiramente, o golo com que a Naval se adiantou no marcador, esta segunda-feira. Alguém no seu perfeito juízo consegue desculpar um defesa central que defende daquela maneira primitiva um lance como aquele? O Benfica está equilibrado defensivamente, a bola entra num avançado que está descaído para um flanco, e mesmo assim David Luiz quer à força ganhar o lance em antecipação. Perde-o, como tantas vezes tem acontecido. Mas o pior do lance nem é isso, até porque perder a antecipação, naquela zona, deixava o jogador da Naval apenas com espaço no flanco. O que é grave é que, David Luiz, ao falhar o seu primeiro intuito, fica do lado de fora e continua a força a recuperação da bola. Ao fazê-lo, David Luiz está precisamente a ignorar o mais básico princípio defensivo: o defensor deve dar o lado de fora ao atacante, defendendo sempre por dentro, porque a baliza está por dentro. David Luiz acompanha o avançado da Naval por fora, como se estivesse a defender a bandeirola de canto. São poucos os defesas centrais profissionais que cometem este tipo de erros absurdos. O resultado foi o óbvio. O atacante da Naval protegeu a bola com o corpo e veio para dentro sem oposição. Depois fez o golo, mais um sofrido pelo Benfica às custas de David Luiz. Pode ser o defesa mais espectacular a jogar em Portugal, o mais espalhafatoso, o que faz mais cortes no limite, mas é responsável por praticamente 50% dos golos sofridos pelo Benfica esta temporada, só no campeonato. E não atender a este facto é minimamente grave. Quando se fala de David Luiz, ignora-se este pormenor. E fala-se dele esquecendo que isto lhe diminui drasticamente o valor. Toda a pessoa de bom senso deve ser alertada para este tipo de coisas. Porque a diferença entre uma opinião sensacionalista e uma opinião informada é, muitas vezes, uma coisa ténue.

3. O terceiro caso é, porém, aquele que me parece mais grave, aquele em que há, além de incompetência, verdadeira má fé. Deparei recentemente com uma notícia que dava conta de que Hulk era o rei das assistências do campeonato português. O anúncio deixou-me imediatamente desconfortável, pois a minha intuição dizia-me que algo de muito errado havia no mesmo. A notícia foi veiculada por um reputado diário desportivo e baseava-se numa estatística alegadamente séria. Segundo a teoria, Hulk, com duas assistências no Restelo e uma diante do Marítimo, tinha passado para o topo da lista dos jogadores com mais assistências no campeonato, com 5 assistências. A minha primeira reacção foi pensar que não se consideravam assistências provenientes da marcação de bolas paradas, mas duas destas assistências recentes de Hulk tinham sido obtidas desse modo, o que invalidava esta suposição. Fiz questão de rever todos os golos do Benfica, porque estava em crer que Aimar, só na primeira volta, tinha mais do que 5 assistências. Não me enganei. Pablo Aimar tem 8 assistências: duas ao Setúbal (para Javi e para Luisão, na transformação de livres), uma ao Belenenses (para Javi, na transformação de um canto), uma ao Leixões (para David Luiz, na transformação de um livre) uma ao Leiria (para Saviola, na transformação de um livre), uma ao Guimarães (num passe atrasado para Carlos Martins), uma ao Setúbal (para David Luiz, na transformação de um canto), e uma agora à Naval (para Weldon, na transformação de um canto). Desconfio ainda que as contas não batem certo em relação a Hugo Viana, Coentrão e Di Maria, pelo menos. Já se sabe que, para mim, uma tabela de assistências pouco ou nada significa, em relação aos méritos de um jogador. Mas não é assim que pensa maior parte das pessoas. E publicar uma notícia com este grau de irregularidade, ainda por cima eivada de preconceitos e claramente tendenciosa (referindo-se por exemplo com amargura em relação ao lance do golo anulado a Falcao no Restelo, que garantiria a Hulk mais uma assistência), é algo que condiciona fortemente quem lê e não tem espírito crítico para contestar o que lê. Este tipo de acção constitui, na verdade, um atentado intelectual e é uma das mais perigosas consequências da liberdade de imprensa. Assim se constroem mitos e se manipulam verdades. Assim se inflacionam ideias e se conquistam simpatias. É por causa de coisas como estas que as opiniões erradas abundam na praça pública. Se em parte a falta de espírito crítico dos leitores explica a situação, não deixa de haver culpas de quem escreve atrocidades como estas. Lamentavelmente, claro.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O Incrivelmente Ridículo Hulk

Tem vindo a crescer, com a importância dada a Hulk no Porto, a indignação contra a forma como o futebol do brasileiro não é protegido pela arbitragem. Começou com a frase importada de uma situação passada com Mantorras, "Deixem jogar o Hulk!", e culminou com a crítica à expulsão do brasileiro na primeira jornada da Liga. Não vi as imagens do primeiro amarelo, por isso não sei com que justiça o viu. Já o segundo é bem mostrado e o único culpado da sua exibição é o próprio Hulk. Não me vou deter, porém, neste jogo e nesta expulsão. Interessa-me, isso sim, debater os protestos de Hulk e de Jesualdo Ferreira, as alegações de que o futebol de Hulk deve ser protegido.

Em primeiro lugar, o árbitro não tem que proteger ninguém. Um árbitro deve ser isento e não a Madre Teresa de Calcutá. A única coisa que tem de fazer é aplicar leis. A aplicação correcta das leis encarregar-se-á de proteger quem tem de ser protegido. Assim, os jogadores mais imaginativos, tecnicamente mais dotados, de drible curto, capazes de esconder melhor a bola, serão sempre mais protegidos, porque serão inevitavelmente travados pela força ou pela transgressão das leis. Uma boa arbitragem protegerá assim, por consequência da aplicação das regras de futebol e não por qualquer diligência de índole caridosa, aqueles que merecem ser protegidos, aqueles que não têm outros argumentos além dos futebolísticos. Ora, não é, de todo, o caso de Hulk. É aqui que começa o ridículo da questão.

Ao contrário do que se pensa e do que se afirma em praça pública, com pompa e orgulho de gente pobre, o futebol não é um jogo de contacto. Muitos dirão que futebol não é basquetebol e que pode haver contacto. A resposta a estes é simples: vão às leis! A única carga permitida é a carga de ombro. E porquê? Porque é uma carga em condições iguais, assente numa superfície de corpo idêntica e em condições de equilíbrio semelhantes. Tirando a carga de ombro, todo o contacto que, de algum modo, perturbe o equilíbrio do jogador em posse da bola deve ser punido. Quem disser o contrário, não sabe o que é futebol. Não implica isto que não possa haver contactos, que um defesa não possa tocar no avançado, que não se possa encostar nele. Pode, evidentemente. O que não pode é usar esse contacto para ganhar vantagem na discussão pela bola; não pode desequilibrar minimamente o adversário para que este execute deficientemente; não pode agarrá-lo minimamente para que perca tempo de execução; não pode, em suma, fazer nada que não seja tentar recuperar a bola. Os melhores defesas são precisamente aqueles que não fazem uso do choque, são os que têm melhor tempo de desarme, os que são mais velozes e perspicazes a ganhar posição, os que percebem mais rapidamente as intenções do adversário, os que se conseguem antecipar melhor, os que lêem melhor as possibilidades de êxito das suas acções.

Aquilo que não se percebe em relação ao contacto é que ele não é uma possibilidade em futebol; é tão-somente uma consequência. Não é permitido usar o contacto físico para ganhar posição ou para ganhar qualquer tipo de vantagem. No entanto, há e deve haver contacto. Mas apenas como uma consequência natural de uma luta saudável pela melhor posição. Para dar um exemplo concreto, dois adversários acorrem a uma bola e um deles acaba por ocupar a melhor posição em primeiro lugar. É natural que, dada a proximidade dos dois, aconteça um contacto entre eles, mas esse contacto é consequência dessa disputa de bola. Em momento algum o contacto deve ser utilizado para ganhar vantagem na disputa da bola. É - repito - apenas uma consequência natural dessa disputa. Logo, todo o contacto que não seja resultado de uma consequência natural deve ser punido.

Isto não vale apenas para os defesas. É também para os atacantes. Em diversos momentos, numa disputa entre um atacante e um defesa, o defesa consegue ocupar a melhor posição face à bola. Se o atacante usar o contacto para recuperar essa posição e manter a posse de bola, deve ser punido tal como um defesa que use o contacto para ganhar posição o deve. É aqui que entra o futebol de Hulk. Hulk, pelas suas características, não é um jogador de drible curto e não tem uma capacidade extraordinária para proteger e esconder a bola. As suas virtudes são a velocidade e a força física. Consegue evitar os adversários muito mais graças às suas capacidades atléticas do que à sua capacidade técnica. Não é, por isso, um jogador que evite o choque. Ele é até uma das suas maiores armas. Assim sendo, a principal razão para que as suas lamentações não façam qualquer sentido é que aquilo de que se queixa é precisamente aquilo que lhe permite ser o que é.

Hulk queixa-se que os defesas não o deixam jogar quando é ele quem, pelo seu estilo de jogo, promove o contacto, quando é ele quem precisa dos duelos físicos para impor o seu futebol. Queria o quê? Que saíssem da frente e não o perturbassem? O futebol é um jogo para futebolistas, não para camiões TIR. Para progredir individualmente com a bola não basta metê-la para a frente e passar por cima de quem se coloca no meio do caminho. Hulk queixa-se também que os árbitros lhe assinalam muitas faltas. Maior parte delas são, de facto, falta. Mais uma vez, parece que queria que fossem criadas leis especiais em que só era falta quando fosse cometida sobre ele. Resulta disto que Hulk me parece não ter noção de quão ridículo é. O seu futebol vive da força e não me parece que o consiga perceber. Julga-se Maradona, certamente. Mas tem pouco a ver com o astro argentino. É que esse levava porrada porque saía do meio de três adversários com a bola controlada sem lhes tocar. Hulk sai do meio de três adversários pondo a bola para o lado e correndo ou deitando-os abaixo. O seu futebol vive da força e precisa até dela. Como tal, maior parte dos lances são disputados no máximo, sendo por isso muitas vezes impossível fugir ao contacto. É natural, por isso, que cometa muitas faltas, porque joga no limite, e que muitas vezes vá ao chão, porque tenta furar, sem arte, por onde nem Maradona se atreveria a passar. A única protecção de que Hulk necessita, portanto, é a de poder passar a entrar em campo conduzindo um carro blindado. Seria certamente mais difícil derrubá-lo.

Se o incrível Hulk me parece incrivelmente ridículo ao julgar que não o deixam jogar, já Jesualdo me parece desonesto. Fala em "falta de coragem para aplicar as leis" e imagina que Hulk esteja mesmo a ser prejudicado. O que queria Jesualdo? Que os adversários se pusessem em fila e abrissem o mais possível a defesa para não incomodar o brasileiro. O futebol não é um jogo de contacto, mas um jogo de posição. Os defesas têm por competência ocupar, a cada instante, a melhor posição possível de modo a vedar o caminho da baliza ao adversário. Se, por acaso, o adversário tem um tipo de futebol que consiste em tentar passar por cima dos outros, os defesas não têm a culpa. Ainda não vi nenhuma entrada à margem das leis sobre Hulk que não tivesse sido punida condignamente, ainda não vi entradas para aleijar sobre o brasileiro, ainda não vi nada que não fosse a normal função de um defesa. Hulk é que julga que é um comboio. E Jesualdo ajuda, fazendo "Puh-puh, pouca terra, pouca terra..."

segunda-feira, 9 de março de 2009

Hulk: um estudo

O jogo em questão foi o Atlético de Madrid - F.C. Porto; em análise, o avançado brasileiro Hulk. Esta análise não vem no imediato seguimento do jogo, o que acaba por ser interessante, visto que houve muitas opiniões favoráveis à exibição de Hulk, nomeadamente em Espanha.

1 mins: Cruzamento. (Arrancada pela direita; passa por dois adversários e cruza para Christian Rodriguez, que remata à meia-volta contra o guarda-redes adversário.)

8 mins: Boa opção. (Ganha o lance e dá em Raúl Meireles.)

8 mins: Remate. (Recebe de Raúl Meireles, vai à linha, tem tempo para assistir Lisandro, mas pára e opta por rematar por cima.)

10 minutos: Má opção. (Ganha o lance e finta; perde e ganha lançamento.)

12 minutos: Boa opção. (Recebe um passe vertical de Fernando e dá de frente em Lucho.)

14 minutos: Perda de bola. (Toque de calcanhar inconsequente e respectiva perda de bola.)

15 minutos: Faz falta. (Comete falta na frente.)

19 minutos: Cabeceamento. (Ganha lance de cabeça.)

20 minutos: Mau passe. (Ganha a bola no meio, roda para a esquerda e executa um passe que é interceptado; apesar disso, a bola sobe e acaba por chegar a Rodriguez.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Raúl Meireles.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Rodriguez.)

23 minutos: Mau tempo de salto. (Faz-se ao lance, mas calcula mal o tempo de salto e a bola passa-lhe por cima.)

27 minutos: Perda de bola. (Passa em velocidade por Paulo Assunção, mas insiste na jogada individual, tentando furar entre dois adversários e fica sem a bola.)

28 minutos: Golo falhado. (Boa desmarcação; fica isolado, mas tenta picar a bola e falha.)

30 minutos: Perda de bola. (Recebe de costas e perde a bola.)

33 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

34 minutos: Má opção. (Recebe a bola, demora a soltá-la e acaba por entregá-la mal.)

35 minutos: Boa opção. (Ganha uma bola no meio-campo em falta, levando os jogadores do Atlético a parar; como o árbitro não apita, solicita Lisandro, que é desarmado.)

38 minutos: Faz falta. (Recebe a bola com a ajuda do braço.)

40 minutos: Faz falta. (Empurra, alegadamente, o defensor junto à linha de fundo.)

42 minutos: Remate. (Com espaço na esquerda, dribla Seitaridis e remata cruzado ao lado.)

42 minutos: Perda de bola. (Tenta fintar no meio de muita gente e perde a bola.)

45 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta rodar e ir em velocidade, mas é desarmado.)

47 minutos: Boa opção. (Recebe na esquerda e dá em Lisandro, que passa junto à linha.)

50 minutos: Sofre falta. (Tenta fintar no meio-campo e acaba por sofrer falta.)

51 minutos: Má opção. (Tenta fintar e ganha lançamento.)

53 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola na direita e cruza, sem consequências.)

53 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

58 minutos: Faz falta. (Recebe a bola, mas faz falta ao tentar protegê-la.)

58 minutos: Perda de bola. (Recebe a bola, vira-se, tenta o drible e perde.)

59 minutos: Sofre falta. (Recebe, segura e sofre falta.)

60 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola, roda e cruza contra um defesa.)

63 minutos: Faz falta. (Comete falta sobre Paulo Assunção.)

64 minutos: Remate. (Responde a um cruzamento de Lucho, mas acerta com o ombro na bola.)

68 minutos: Má opção. (Recebe a bola, roda e perde; a bola sobra, porém, para Sapunaru.)

68 minutos: Má opção. (Recebe, roda e perde; ganha o lançamento.)

70 minutos: Perda de bola. (Recebe, tira um adversário do caminho e faz um passe em esforço, que é interceptado.)

71 minutos: Boa opção. (Recebe a bola, roda para a esquerda e dá na linha em Christian Rodriguez; na sequência da jogada, Lisandro faz golo.)

73 minutos: Má opção. (Recebe no meio-campo, vira-se e dá vertical em Lisandro, não respeitando o movimento do colega; a bola acaba no entanto por passar e Lucho vai apanhá-la.)

74 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um ressalto, demora demasiado tempo a fazer malabarismos, mas acaba por decidir bem e dar recuado em Raúl Meireles que cruza.)

80 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta virar o flanco sem necessidade. O passe acaba por sair mal e é interceptado.)

80 minutos: Boa opção. (Dá a bola de frente.)

81 minutos: Perda de bola. (Recebe na linha, tenta vir para o meio e perde; ganha o primeiro ressalto, insiste no drible e volta a perder; ganha ainda mais dois ressaltos, mas acaba por perder a bola.)

87 minutos: Má opção. (Ganha o lance em falta, tenta o drible no meio de três adversários; é desarmado, mas ganha um canto.)

87 minutos: Má opção. (Bate o canto curto e recebe novamente a bola, entregando-a a Lisandro, que vem numa diagonal, no meio de dois adversários, num local onde não iria tirar qualquer proveito.)

90 minutos: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para Lucho, desmarca-se para receber a bola à frente, mas não aguenta o ombro a ombro com o defesa espanhol.)

Coloquei em negrito aquilo que de positivo Hulk fez ao longo da partida. Vamos às conclusões:

1) 46 acções durante todo o jogo; 17 acções positivas; 37% de acções positivas.
2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 13 boas opções contra 22 más opções; 37% de boas opções.
3) Destas 22 más opções resultaram 14 perdas de bola para a sua equipa.
4) Fez 7 faltas (sendo que apenas numa se pode dizer que é duvidosa) e sofreu 2.
5) Fez 3 cruzamentos, sendo que apenas 1 deles levou perigo.
5) Fez 4 remates, sendo que apenas dois deles constituíram verdadeiro perigo.
6) Apostou em 16 acções individuais, sendo que foi mal sucedido por 12 vezes. Das 4 vezes em que conseguiu tirar alguma coisa desses lances, em 2 deles sofreu faltas, ambos estando muito recuado no terreno, e em apenas 2 lances a sua capacidade individual teve consequências positivas. As suas acções individuais tiveram, portanto, um aproveitamento de 12,5% e todas elas ocorreram junto às faixas.
7) Recebeu 15 bolas estando de costas e entregou apenas 4 de frente; em 73% das vezes, optou pelo mais difícil. Optando pelo mais difícil, perdeu 3 bolas na recepção, perdeu 7 ao tentar virar-se para o adversário, e apenas ganhou 1 apostando em rodar sobre si; teve 12,5% de sucesso em lances em que se tentou virar para o adversário.

Comentários: Já aqui o disse e reafirmo-o: Hulk tem capacidades individuais fantásticas. Mas tê-las, por si só, não é nada. Há que saber aproveitá-las e que saber pô-las ao serviço do colectivo. E Hulk não faz nenhuma das duas coisas. A sua capacidade de decisão, como se comprova, é bastante baixa. Deste modo, a sua colaboração, em termos colectivos, deixa muito a desejar e Hulk é, não raras vezes, prejudicial ao processo ofensivo da sua equipa. Aproximadamente, duas em cada três bolas que lhe chegam não têm o melhor destino. É muito. Deste modo, e reconhecendo que as capacidades individuais de Hulk podem ajudar o colectivo, há que tentar explorá-las o melhor possível e de forma a que essas capacidades prejudiquem o menos possível o colectivo. Como se comprova também pelo estudo, a sua capacidade de desequilibrar é especialmente útil nas faixas, com espaço, e quando não tem de rodar sobre si próprio para progredir. As duas vezes em que o seu poder de arranque conseguiu criar estragos na defesa contrária foi junto às linhas (se exceptuarmos o lance do golo falhado, em que há uma clara desatenção da defesa adversária e em que Hulk é lançado em profundidade). Deste modo, vemos que não só as suas qualidades são potenciadas junto às linhas como é nesse local que a sua fraca capacidade de decisão poderá prejudicar menos a equipa. Se há coisa que este estudo veio demonstrar é que Hulk deve participar o menos possível na manobra ofensiva da equipa, procurando isolar-se do colectivo o mais possível de modo a ter, quando receber a bola, espaço e margem de erro para tentar desequilíbrios individuais. Era isto que, por exemplo, fazia Quaresma, em tudo idêntico ao brasileiro (ainda que menos mau a decidir), quando ficava aparentemente perdido encostado a um flanco. Às vezes, podia passar ao lado do jogo, mas não só não era um elemento nocivo no ataque da equipa como também constituía uma opção constante para as transições ofensivas da mesma. Ora, um jogador deste tipo não pode jogar enfiado entre os centrais; um jogador que em 73% das bolas que recebe de costas não a dá de frente não pode jogar como ponta-de-lança, sob pena de a equipa não poder contar com o apoio vertical que um jogador na sua posição normalmente oferece. Outra coisa que o estudo vem comprovar é que Hulk não está, como se vinha dizendo, melhor em termos de compreensão de jogo. A insistência em virar-se para a baliza adversária, sempre que recebe a bola de costas, sabendo que a probabilidade de ter um adversário à ilharga é grande, chega a ser de principiante; a quantidade de bolas que perde é assustadora; a quantidade de faltas desnecessárias um abuso. Hulk não melhorou em nada desde que chegou ao nosso campeonato a não ser em confiança. Está hoje um jogador mais confiante e com muito mais liberdade para errar. Mas a sua capacidade de decisão permanece imutável. E permanecerá sempre, ao contrário do que se pensa. Isto porque uma coisa é melhorar a nível táctico, em termos de compreensão de jogo, de experiência, de confiança, outra coisa muito diferente é melhorar em termos intelectuais. E essa mudança é tão lenta quanto uma mudança ao nível técnico, por exemplo. E a razão é simples. São coisas que se aprendem vagarosamente, com o decorrer dos anos. Hulk é isto e será só isto. Agora, é possível retirar algum proveito disto, reconhecendo-se as limitações que isto tem. Hulk está longe de ser o melhor jogador do campeonato, como parecem querer fazer dele, à força, porque embora, de facto, seja fortíssimo quando arranca com a bola, não só não executa estas iniciativas com conta, peso e medida, como, na grande maioria das vezes as mesmas acabam por significar perdas de bola ou ataques inconsequentes. Correndo o risco de tecer uma afirmação aparentemente paradoxal, para que Hulk seja o mais útil possível ao colectivo tem de colaborar o menos possível com ele, ocupando uma posição expectante na grande maioria do tempo. Nessa altura, poder-se-á tirar todo o proveito dele e, aí sim, falar dele como um jogador ao nível de Lucho ou Lisandro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Coisas do estúpido futebol que temos

1. António Tadeia, no Domingo Desportivo desta semana, quando inquirido sobre se a equipa apresentada por Paulo Bento, na última jornada, era a melhor do Sporting, respondeu que tinha dúvidas sobre o companheiro de Liedson. Segundo o douto senhor, Postiga deveria ser mais utilizado nos jogos em casa do que nos jogos fora (até porque toda a gente sabe que fora o Sporting joga contra 13 adversários e em casa apenas contra 11) e o seu argumento é - e agora vem o momento "Por que é que eu falo quando deveria estar caladinho? - Postiga "estraga muito jogo ao Sporting". Para António Tadeia, Hélder Postiga - e parafraseio - "é muitas vezes apanhado em fora-de-jogo", "enrola demasiado o jogo da equipa" e "mexe-se muito de um lado para o outro e retira, com isso, espaço a Liedson". Tenho uma palavra para o senhor António Tadeia: "Óculos". Ou isso ou Liedson é de tal maneira perfeito que quando é apanhado em fora-de-jogo ou a enrolar o jogo tem a capacidade de se metamorfosear em Hélder Postiga. Mas brilhante, brilhante, é o facto de Hélder Postiga "estragar" jogo por se mexer muito e cair em zonas do Liedson. Tenho impressão que, também aqui, António Tadeia confundiu Liedson com Postiga - o que é normal, visto que eles são parecidos -, mas mesmo que assim não seja, que raio de Deus é que Liedson é para que todos os espaços do campo lhe pertençam? Queres ver que o segredo do Sporting seria passar a jogar só com Liedson, de modo a que os colegas não lhe retirem espaço? E que mais tem o Postiga de mal? Mau hálito? Problemas de gaguez? Não ser igualzinho a São Liedson? Ai, ai, os mentecaptos...

2. O Sporting fez um jogo razoável, embora Moutinho tenha estado acima dos companheiros, e depressa voltaram as antigas vozes irritantes que afirmam que a melhor posição de Moutinho, no losango, é a 10. Sempre que se disse isto, no passado, as seguintes exibições de Moutinho trataram de refutá-lo. Mas elas insistem. Embora Moutinho possa jogar ali, e o faça com relativa facilidade, não é ali que mais pode render, nem é o melhor jogador do plantel naquela posição. Uma das razões para se dizer isto é porque Moutinho fica mais livre de tarefas defensivas e ocupa zonas mais centrais, onde pode fazer uso da sua visão de jogo. Além disso, com isto, possibilita-se que se jogue com Izmailov e Vukcevic nas alas do losango, o que para esta gente é sinónimo de maior largura. Desmistificando coisinhas: 1) num 442 losango, os alas do losango são médios interiores, devem ser jogadores capazes de ocupar espaços centrais e não flanqueadores; 2) Moutinho é um jogador extraordinário, com uma inteligência invulgar, com boa visão de jogo, mas falta-lhe alguma criatividade (nesse sentido, Romagnoli é um jogador que desequilibra com muito mais facilidade naquela posição); 3) o facto de jogar a 10 não iliba Moutinho de tarefas defensivas (tem tantas como na outra posição, ainda que em posições diferentes); 4) jogar com Moutinho numa ala só pode ser danoso para as características do jogador se se entender que os alas de um losango têm mais tarefas exteriores que interiores, o que não é verdade. 5) Jogar com um jogador mais agressivo a 10 para compensar o facto de se jogar com outro menos culto tacticamente noutra posição do losango é uma forma de pensar uma equipa em termos individuais, como uma balança, levando-se a fantasia de um prato da balança para o outro e compensando movendo a cultura táctica no sentido inverso, para equilibrar os pratos.

3. Liedson fez uma primeira parte notável, frente ao Setúbal. Sem ironias. A sério. Quase sempre que tinha a bola, decidia bem; raramente tentou resolver as coisas sozinho, ainda que estivesse a quilómetros da baliza, como é hábito; a sua prioridade foi sempre procurar um colega e não driblar; soube perceber o momento certo para soltar a bola, etc. Muito bem. Com isso, participou activamente nos dois golos da equipa. E tê-lo-ia feito mesmo que não tivesse sido ele a finalizar o lance do primeiro, porque o momento chave do lance é o seu passe para Abel. Ou seja, Liedson teve uma participação positiva em dois lances de golo, coisa raríssima nele, se exceptuarmos a finalização dos lances. Além disso, teve em muitos outros lances de ataque da equipa, permitindo desenvoltura ofensiva à mesma. Não emperrou, como habitualmente faz, o ataque do Sporting. Infelizmente, este Liedson dura pouco. Na segunda parte, voltou ao mesmo de sempre, voltou à banalidade sofrível de um jogador com poucos argumentos para rivalizar com os melhores avançados do nosso campeonato.

4. Bruno Gama - dizem - fez uma boa exibição e começa a mostrar sinais de evolução. Sim, talvez tenha feito uma boa exibição. Mas sinais de evolução não os vejo. Foi dos jogadores mais inconformados, é verdade. Foi aquele que se calhar mais remates tentou. Mas não é um jogador extraordinário. Teve o mérito de não tentar passar tantas vezes no um para um (as que tentou, falhou), como tentava, mas pouco mais. O único movimento individual digno de registo são as suas diagonais para o meio, pouco eficazes, porém. Esteve menos individualista do que é costume, mas continua a não revelar um talento invulgar. É um jogador veloz, com uma capacidade técnica razoável, mas não creio que tenha capacidades para algum dia jogar num grande ou chegar à selecção nacional. Nesse capítulo, continua a ficar a anos de luz de Hélder Barbosa, que fez mais um magnífico jogo contra o Benfica; continua a não ser muito diferente de Vieirinha, Ivanildo, Diogo Valente, etc. E, como disse Luís Freitas Lobo durante o jogo, começa a ser tarde para Bruno Gama explodir.

5. Olegário Benquerença foi o árbitro do Setúbal-Sporting e, uma vez mais, mostrou uma falta de classe absolutamente contraditória com a distinção de melhor árbitro português com que o estatuto europeu o define. A expulsão de Daniel Carriço é uma barbaridade. São duas faltas no meio-campo, derrubes ou rasteiras, sem intenção de aleijar, e que não constituíam jogadas de perigo. É verdade que aceito que se mostre amarelo nessas situações. Mas, para fazê-lo, os árbitros teriam de fazê-lo sempre. Com esse critério, aos quinze minutos de jogo, em qualquer jogo, já havia três expulsões para cada lado. É uma estupidez. Ainda bem que este primo do Quim Barreiros é considerado o melhor árbitro português. Duarte Gomes e Pedro Proença, claramente os dois árbitros mais competentes a actuar em solo português, devem estar satisfeitíssimos.

6. O Benfica perdeu na Trofa e, de repente, Quique já não é assim tão bom e já toda a gente afiança que o 442 clássico é um erro. É impressionante como, para se aferir o valor das coisas, se depende dos resultados. Agora que o Benfica está mal é fácil dizer que o treinador é obtuso e que o sistema é permeável. O Entredez fez isso há 6 ou 7 meses. E da mesma forma que achava que Quique não era assim tão bom, agora afirma que Quique não é assim tão mau. Falta-lhe perceber que o 442 clássico não é uma boa opção e que os problemas ofensivos de uma equipa não podem ser resolvidos pela inspiração individual dos seus executantes. Ah, e falta-lhe perceber que Bynia não é jogador de futebol. De resto, continua a ter o mesmo valor de antes.

7. Mais uma coisa gira e contraditória é dizerem que o problema do Benfica não tem a ver directamente com o sistema de jogo (ou seja, com o facto de jogar em 442 clássico), mas depois criticar-se o facto de a equipa não formar apoios próximos do portador da bola, obrigando este a executar, invariavelmente, passes de risco. Ora, é precisamente por o Benfica jogar em 442 clássico que o espaço entre os diferentes jogadores é tão grande. E não há forma de modificar isto drasticamente. Jogar em 442 clássico significa jogar com os alas a dar largura, abertos, e com os avançados a dar profundidade. Alterar isto para permitir uma melhor rede de apoios ao portador da bola (por exemplo, aproximar um avançado ou um ala do homem do meio-campo que tem a bola) é já não jogar em 442 clássico.

8. Hugo Leal está de volta.

9. Que terá passado na cabeça do defensor do Nacional para pôr a mão à bola naquele remate de longe que, provavelmente, iria para fora ou para as mãos do guarda-redes madeirense? Um cesto de fruta?

10. Mais dois golos de Hulk cujo mérito é todo de Lisandro. É por estas e por outras que contabilizar golos e assistências não serve, rigorosamente, para nada. Então o segundo golo de Hulk, o quarto do Porto, é o cúmulo da contradição. Era só encostar para Rodriguez finalizar, mas ele quis fintar o defesa e finalizar ele. Acabou por ter sorte, pois a bola roçou no pé do defesa do Nacional e ganhou altura, tornando-se indefensável. Num lance tão fácil de resolver, Hulk tomou a pior das decisões e, só por acaso, averbou mais um golo. Significa isso que está melhor? Não, não significa. Pelo contrário. É por isso que os golos marcados servem tanto para perceber a qualidade de um avançado quanto o tamanho do nariz de uma pessoa serve para conhecer o QI da mesma.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Hulk, o Sistema de Jesualdo e a Zona do Porto

Sobre Hulk haveria bastante a dizer. Reconheço-lhe enormes capacidades individuais. Tecnicamente, é um dos jogadores mais dotados da Liga Sagres. Atleticamente é soberbo. Tem um remate extraordinário. E é velocíssimo. Falta-lhe, contudo, aquilo que considero mais importante num jogador de futebol: as capacidades colectivas. Falta-lhe a capacidade de perceber quando é que as suas características podem servir a equipa; falta-lhe saber esperar pela bola junto a uma linha, para ter espaço para explorar o um para um; falta-lhe ter por prioridade os colegas e não a finta; etc. Nesse sentido, sendo um jogador que tem por vocação o drible, sendo um jogador que, ao receber a bola de costas para a baliza, nunca dá de frente, procurando sempre virar-se para rematar ou para fintar, a sua posição deveria ser extremo. É esta a principal razão pela qual não consigo apreciar o brasileiro. O extremo é aquele jogador que, no meu entender, dentro de uma equipa, maior liberdade pode ter para experimentar lances individuais. Um avançado, entre outras coisas, deve ser capaz de servir de apoio vertical, deve ser capaz de jogar de costas para a baliza, deve saber tabelar, de modo a permitir um jogo curto em zonas centrais, deve servir de referência para a equipa progredir com a bola controlada no terreno. Hulk não tem essa capacidade. É por isso que, como avançado, não lhe auguro um grande futuro. Já como extremo a conversa talvez fosse outra. Isto porque, como é óbvio, tudo aquilo que disse que um avançado deveria ter, um extremo não tem obrigatoriamente que ter. Um extremo raramente recebe a bola de costas e a capacidade de segurar a bola junto à linha não constitui um ganho significativo para uma equipa.

Acontece, porém, que Hulk não joga numa equipa qualquer. Joga no Porto. E no Porto de Jesualdo. O Porto de Jesualdo, bem como o seu Braga, é uma equipa extraordinariamente objectiva, arrumada atrás e promovendo transições rápidas. Não sabe jogar de outra maneira. É uma equipa que aproveita bem os espaços em transição, mas que não é tão boa a encontrar soluções em ataque organizado, com o adversário bem fechado lá atrás. Uma das coisas que considero essenciais (cada vez mais essenciais), numa equipa que jogue em ataque organizado contra equipas bem fechadas, é a capacidade de fazer passes verticais. Por passes verticais entendo passes rasteiros, não muito longos, que quebrem linhas defensivas, passes entre dois adversários, solicitando um colega que recua para, jogando de costas, saltar etapas de construção. Em equipas que defendem bem, sobretudo em largura, a verticalidade, neste sentido, é essencial. Nas últimas fases de construção, então, é obrigatória. Este tipo de passes pode parecer trivial, mas além de constituir um ganho enorme para qualquer equipa, não são de execução nada fácil, nem para quem o executa (que tem de ter em conta muitas coisas, sobretudo os apoios que terá o colega que vai receber a bola), nem para quem recebe. Ora, o Porto de Jesualdo é uma equipa que ignora esta necessidade. O ano passado, no entanto, soube contrariar esta negligência de duas formas. Primeiro, porque Lisandro tem essa capacidade e o seu entendimento com Lucho resultava, muitas vezes, em passes verticais do último a solicitar o primeiro que, recebendo de costas, conseguia entregar num colega que entretanto se desmarcara. Segundo, porque tinha a arma de Bosingwa. Muitas vezes, o ataque organizado do Porto obrigava o adversário a concentrar os seus números do lado esquerdo e depois, saindo rapidamente da zona de pressão à esquerda, a equipa lançava Bosingwa, que subia pela direita e recebia a bola com possibilidades de apostar, invariavelmente, no um para um. Este ano, sem essas possibilidades, uma vez que não há Bosingwa nem Lisandro tem jogado ao meio, o Porto tem-se ressentido.

Ora bem, é aqui que pretendo chegar. Uma vez que Jesualdo não define como prioritário, no ataque, a formação de apoios verticais, os seus avançados não necessitam de ter as características que identifiquei como essenciais. Como o Porto joga sistematicamente em velocidade, os seus avançados querem-se velozes e individualmente dotados. Nos últimos jogos, tem jogado Rodriguez, Lisandro e Hulk, com o último no centro apenas no desenho, uma vez que há liberdade para todos eles se movimentarem ao longo de toda a linha da frente. O Porto não utiliza um avançado de referência, mas sim três jogadores de quem se espera muita espontaneidade e desequilíbrios. Se é verdade que, em transição, a equipa pode estar melhor apetrechada (ainda que não pareça existir, como no passado, uma referência como era Quaresma, sempre encostado à linha para dar início à transição), os problemas que vêm das épocas anteriores têm tendência a agravar-se. O jogo com o Shalke 04, da segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões da época transacta ilustra bem a incapacidade que o Porto de Jesualdo tem para jogar contra equipas bem fechadas lá atrás. Essa incapacidade advém, essencialmente, de a equipa não ter, em muitas ocasiões, uma referência que possa servir de apoio vertical nas imediações da área. Com Lisandro ainda mais longe do centro do terreno, maiores dificuldades terá o Porto nesses jogos.

Resumindo, vejo em Hulk muito mais um jogador de linha ou um segundo avançado, para jogar solto ao lado de um avançado mais fixo, do que um ponta-de-lança. Como avançado num 433, não penso que seja uma boa opção. Apesar de tudo, e porque Jesualdo privilegia, nos seus homens da frente, a profundidade e a capacidade de acelerar o jogo, Hulk pode ser o avançado do seu 433. Agora, não se espere que o Porto seja uma equipa competente a jogar contra equipas bem organizadas lá atrás e que seja capaz, sem recorrer à inspiração individual dos seus atletas (esse argumento tão incerto), de resolver partidas difíceis.

Antes de terminar, gostaria ainda de falar do modo como o Porto de Jesualdo defende. Há que dar mérito a quem merece e Jesualdo, não sendo um treinador que aprecio em demasia, soube evoluir. Instruiu-se e melhorou bastante os seus conhecimentos ao longo da sua carreira. Ainda que o seu Porto seja um pouco autista e só saiba jogar de uma forma, tem competências extraordinárias. Uma delas é a forma como efectua a sua pressão, assente em princípios zonais. Neste momento, com Rodriguez, Hulk e Lisandro, é bem visível como o Porto inicia o seu processo defensivo. Os três atacantes reúnem-se em zonas centrais, pressionando em profundidade, o que obriga os adversários a procurarem as linhas. Ao acontecer isto, a equipa efectua uma pressão à zona quase perfeita, procurando asfixiar o portador da bola contra a linha lateral. Nenhuma equipa, em Portugal, o faz melhor que o Porto. Os seus adversários são, não raro, obrigados a jogar longo ou para trás, de modo a iniciar o processo ofensivo. A ocupação das zonas é do melhor que se vê em Portugal e tem sido, para mim, um dos segredos da capacidade competitiva desta equipa ao longo dos últimos anos. Aliás, creio, tem sido talvez a característica que melhor distingue a regularidade do Porto de Jesualdo da irregularidade do Sporting de Paulo Bento, que não é, nem por sombras, capaz de uma pressão tão alta e tão eficaz quanto a dos campeões nacionais.