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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bruno Alves, Chygrynskiy e o que significa sair a jogar

Desde, pelo menos, o início do defeso que se falou, com insistência de pregador, que Bruno Alves interessava ao Barcelona. Confesso que esse interesse me pareceu, desde logo, estranho. Não que não fosse possível Bruno Alves sair para um grande clube europeu. A sua reputação, ainda que ache que esteja sobrevalorizada, faz com que os melhores clubes europeus possam olhar para ele como um possível reforço. O problema não estava em Bruno Alves, mas no Barcelona. Isto porque o Barcelona de Guardiola privilegia centrais que pouco ou nada têm a ver com Bruno Alves. É fulcral, nos centrais de Guardiola, uma capacidade para sair a jogar bem acima da média. Os centrais do Barcelona, por aquilo que Guardiola pretende, têm de ter, por principais características, uma capacidade técnica, um poder de decisão e uma segurança no passe notáveis. Isto porque interessa à equipa, numa primeira fase de construção, preservar a posse de bola e progredir no terreno de forma apoiada. Por exemplo, enquanto teve Rafa Marquez e Piqué, Guardiola não utilizou Puyol a central, deixando-o no banco ou fazendo-o alinhar a defesa esquerdo. Puyol é um excelente central, um líder em campo, o melhor representante da alma culé na formação do Barcelona, o mais experiente dos centrais, mas mesmo assim não é das primeiras opções para Guardiola. A razão está no facto de Puyol não ter certas características tão apuradas quanto as suas características defensivas. Piqué e Marquez são menos agressivos, menos rápidos sobre a bola, menos impetuosos, mas possuem atributos técnicos e, sobretudo, intelectuais que lhes permitem, com bola, oferecer algo à equipa quando em construção. A capacidade de passe à distância dos dois é notável, mas não é o único factor a ter em conta. Ambos sobem notavelmente bem com a bola e ambos conseguem encontrar com facilidade um companheiro a quem entregar a bola. Isto é importantíssimo na manobra ofensiva do Barcelona. Ora, em que medida é que Bruno Alves se encaixava nisto? Não se encaixava, de modo nenhum. Bruno Alves não é um defesa que saiba subir com a bola, que encontre soluções de passe com relativa facilidade ou que seja tecnicamente desenvolto. Melhorou substancialmente, ao longo dos últimos anos, a sua capacidade de colocar a bola à distância, mas isso é muito pouco para aquilo que é exigido a um central inserido num modelo de jogo como o do Barcelona. Quando se falava, por isso, do interesse do Barcelona em Bruno Alves, só poderia estar a especular-se. Ora, a especulação advém de certos factos que, por inferência, levam a certas ideias. Beguiristain ter-se-á encontrado com os representantes do jogador e do Porto e isso terá levado a crer a muita gente que o Barcelona estaria interessado em Bruno Alves. De facto, é possível que o Barcelona, na pessoa de Beguiristain, tenha manifestado vontade de contratar o português. O problema aqui é, porém, a pessoa Guardiola. Duvido seriamente que algum dia Guardiola tenha dado o aval para a contratação de Bruno Alves. Aliás, compreende-se facilmente a indefinição nas negociações pela discordância entre Beguiristain e Guardiola. O treinador catalão terá sempre preferido o ucraniano Chygrynskiy e recusado sempre Bruno Alves por via dessa preferência. A dada altura, disse-se que o principal entrave no negócio entre Porto e Barcelona eram os 25 milhões pretendidos pelos dragões, quantia demasiado alta para aquilo que o Barcelona estaria disposto a desembolsar por um central. A verdade, contudo, é que o Barcelona acabou por pagar exactamente isso pelo ucraniano, refutando portanto essa hipótese. Se Bruno Alves não foi para Barcelona, foi porque não interessou a Guardiola.

Por que preferia Guardiola Chygrynskiy a Bruno Alves? É possível que haja quem diga que eles são parecidos e que a idade do ucraniano acabou por ser o factor decisivo. Obviamente, Chygrynskiy tem nos seus 22 anos uma vantagem em relação ao portista, mas discordo totalmente da ideia de que sejam parecidos. A opção de Guardiola não teve a ver com factores extrínsecos como a idade e a margem de evolução, mas sim com características do próprio jogador. Embora tenham alturas parecidas, creio que Bruno Alves faz desse factor uma arma maior que o ucraniano. O problema é que a capacidade aérea dos seus defesas não é uma das coisas mais importantes para Guardiola. Chygrynskiy, apesar de grande, não foi contratado pela sua estatura. A obsessão de Guardiola por ele tem a ver com a sua capacidade técnica, com o facto de ser exímio no passe longo e com a facilidade que tem em sair a jogar, tudo características adequadas ao perfil dos defesas centrais pretendidos pelo treinador catalão. Chygrynskiy é muito mais "macio" que Bruno Alves, não é impetuoso, não é ríspido. No entanto, é muito seguro defensivamente, muito calmo a jogar, posicionando-se normalmente bem e contribuindo com bastante classe na construção ofensiva. Antes da Supertaça Europeia, Guardiola falou da sua obsessão por Chygrynskiy e disse que, além de um defesa central muito bom, como havia muitos, era um central com as características certas para o Barcelona, sendo raro encontrar defesas tão bons com essas características. Parece óbvio, portanto, que a obsessão de Guardiola se explica pelo facto de considerar que não havia grandes alternativas a Chygrynskiy, que os defesas de classe mundial que possuíam as características por ele pretendidas não eram assim tantos. Ou seja, para Guardiola, sempre terá sido Chygrynskiy ou ninguém. Não faria sentido, até, contratar um central se o mesmo não viesse trazer algo de diferente. O Barcelona tinha até, antes da contratação do ucraniano, um excesso de centrais: Marquez, Piqué, Puyol, Henrique e o jovem Muniesa, se não contarmos com Gabriel Milito para já. O problema é que, destes, só Piqué tem qualidade suficiente e é, ao mesmo tempo, o tipo de central que Guardiola prefere, tendo em conta que Marquez iniciaria a época lesionado. Contratar Bruno Alves seria apetrechar-se com algo que já existe, quer em Puyol, quer em Milito, quer até em Cáceres, que mais tarde viria a ser emprestado. Viria trazer apenas quantidade e não diversidade.

A discussão em torno das valências de Bruno Alves e Chygrynskiy pode ser transportada para o futebol português e é possível tentar comparar jogadores segundo as suas capacidades para sair a jogar. Antes, porém, é preciso definir com exactidão o que significa sair a jogar. Sair a jogar tem pouco a ver com correr com bola, com tentar driblar adversários ou com ser capaz de colocar a bola à distância com facilidade. Sair a jogar tem a ver com classe, com elegância, com certeza no passe, com inteligência. Um central bom a sair a jogar raramente tem de tirar adversários do caminho recorrendo ao drible. Faz-me por isso alguma confusão que se afirme que David Luiz é bom a sair a jogar porque de vez em quando galga trinta metros com a bola numa corrida desenfreada e enfrenta os adversários utilizando o seu drible. Um central que drible é um central pouco precavido. Sempre. Sair a jogar não tem a ver com isto. Tem a ver com o privilegiar um desarme em vez de um corte, de modo a que a equipa possa automaticamente reiniciar o ataque; tem a ver com o jogar de cabeça levantada, procurando o melhor colega a quem dar a bola; tem a ver com o perceber quando há espaço para progredir individualmente com a bola e quando não há; tem a ver com o saber pesar as vantagens e as desvantagens de uma subida no terreno; tem a ver com o entender qual a melhor solução para a equipa em cada momento. Quem é, segundo estes parâmetros, melhor a sair a jogar? David Luiz ou Sidnei? Pepe ou Zé Castro? John Terry ou Ricardo Carvalho? Miguel Vítor ou Daniel Carriço? As minhas escolhas ficam invariavelmente pelas segundas opções.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Um tal de Zé Castro

A afirmação é, para muitos, controversa e sensacionalista. Digo-o, no entanto, sem qualquer espécie de exagero propositado e sem qualquer intenção de rebaixar outros atletas: para mim, excluindo Ricardo Carvalho, o melhor defesa português da actualidade é Zé Castro. Para quem viu jogos do Deportivo esta época e esteve atento ao desempenho do central português, a recente chamada à selecção só peca por incompreensivelmente tardia. Esquecido em terras galegas, o português foi titular indiscutível (jogou 2536 minutos) de uma equipa que fez um campeonato bastante aceitável, terminando em sétimo lugar. O Deportivo foi mesmo a terceira melhor defesa da prova (o Barcelona sofreu 35 golos e o Sevilla 39), com 47 golos sofridos, menos 5 que, por exemplo, o Real Madrid. Estes dados, por si só, não revelam absolutamente nada, a não ser, provavelmente, para Queiroz, que terá decidido chamá-lo mais pelos resultados desta época do que por qualquer reconhecimento da sua qualidade. Evidentemente, há que juntar a estes dados a comprovação das exibições. E, nesse particular, a juntar à classe e à capacidade técnica que possuiu desde sempre, há agora uma maturidade que não pode deixar ninguém indiferente. Zé Castro é o patrão da defesa do Deportivo, um jogador seguríssimo, muito bom na leitura dos lances e no tempo de desarme, pouco impetuoso, como se aconselha a um jogador na sua posição, e rapidíssimo a reagir a mudanças de direcção ou a dobrar os colegas. Nada disto é novo, mas acontece agora com uma regularidade maior. Melhorou ainda no jogo aéreo, impondo-se mais frequentemente, e manteve a habitual boa relação com a bola. A facilidade que tem em sair a jogar, a importância que dá à manutenção da posse de bola, procurando entregar o melhor possível sempre que a recupera, fazem dele um central diferente da maioria.

Não queria compará-lo a Pepe ou a Bruno Alves, mas a opinião geral em Portugal sobre estes três jogadores, bem como a tendência para se preferirem defesas impetuosos, carniceiros e atleticamente muito dotados, impõe uma análise desse género. É errado pressupor que um defesa central deva ter determinados atributos físicos. Um defesa central deve ser um defesa central, nada mais. A pressuposição tem por base a ideia de que um defesa central é um jogador que encontra muitas situações de choque, que tem de ser capaz no jogo aéreo, uma vez que joga demasiado recuado para se dar ao luxo de não ganhar bolas de cabeça, que tem de ser duro para impor respeito aos atacantes adversários ou que tem de ser agressivo sobre a bola. Nada disto está correcto. Um central competente do ponto de vista intelectual ocupará melhor os espaços e não necessitará de ir tanto ao choque, conseguirá desarmar pela antecipação ou por ler melhor o lance, sem recorrer à agressividade ou à virilidade, será capaz de ganhar lances de cabeça sem ter de o fazer de uma forma impetuosa, etc. Ao contrário de centrais mais vigorosos, um central deste tipo tem várias vantagens: coloca menos risco em cada uma das suas acções, pois elas comportam mais segurança e mais certeza; está mais lúcido, uma vez que não faz tudo em esforço, para reagir a um percalço, como seja um ressalto ou uma combinação ofensiva rápida do ataque adversário; está mais compenetrado no jogo em si e não tanto na acção decisiva de cortar a bola, o que é o mesmo que dizer que está mais interessado na sua acção colectiva do que na sua acção individual. É esta última característica, que considero aqui vantajosa, que me faz dar clara preferência a centrais de um tipo em detrimento de outro. Um central mais vigoroso, mais aguerrido, está notoriamente focado na bola e na sua acção defensiva individual, no corte, no desarme, no acto de defender por si. Ora bem, um central não deveria servir para defender. É aqui que reside o problema. Este tipo de centrais está interessado em defender, porque consideram que o seu papel numa equipa, em situação defensiva, é defender. E é contra isto que reajo. Mesmo em situação defensiva, o central não deve ter um papel, muito menos um papel tão redutor como seja o de defender. Um central, como qualquer outro jogador, em situação defensiva ou não, deve estar preocupado em jogar, no sentido amplo de jogar. Recuperar a bola deve ser uma preocupação colectiva e não de um jogador em particular, esteja ele a jogar mais recuado ou não. Assim, um jogador que joga de forma mais impetuosa é, na grande maioria das vezes, um jogador que negligencia isto. Enquanto concentrado no seu desempenho defensivo, esquece os colegas, a sua relação com o resto da equipa, as necessidades do colectivo e afins. Quando vai a um lance, vai com o intuito de ganhar a bola por si, quando o acto de ganhar a bola não deve estar confinado a um jogador, mas a toda a equipa. Ao fazê-lo, terá talvez a vantagem de retirar tempo de reacção ao portador da bola, coisa que uma abordagem menos impetuosa não faria ou faria em menor escala, mas incorre em problemas que se sobrepõem claramente aos benefícios. Embora uma abordagem mais impetuosa tenha essa vantagem e, contra uma equipa que não tenha uma organização ofensiva relevante e não saiba jogar colectivamente, reduzindo-se a acções individuais, seja tão ou mais competente que outra abordagem, tem desvantagens óbvias, desvantagens essas potenciadas sempre que se defrontam equipas que privilegiem o colectivo. Exemplo disto foi o jogo entre o Real Madrid e o Barcelona, no qual a abordagem defensiva dos jogadores do Real Madrid foi excessivamente impetuosa, o que propiciou uma desorganização evidente que uma equipa como o Barcelona não poderia deixar de aproveitar. Entre outras coisas, um central que opte por abordagens mais impetuosas está menos apto a reagir a uma tabela (veja-se o golo da Albânia, frente a Portugal, fruto da resposta defensiva de Pepe, facilmente batido por uma simples tabela porque se aproximou impetuosamente do adversário que tinha a bola, sendo que este, ao soltá-la e indo buscá-la mais à frente, evitou, sem recorrer a uma grande perícia, o seu opositor); está menos apto a perceber como se altera, de instante para instante, a estrutura defensiva de que faz parte; está menos apto a travar a sua iniciativa caso haja o perigo de cometer uma falta; etc. Um central que opte por este tipo de jogo pode até ser mais forte do ponto de vista individual, pode até, estatisticamente, ser o responsável directo por mais recuperações de bola, pode até ser mais difícil de ultrapassar individualmente, mas é de certeza menos competente do ponto de vista colectivo e fará parte, portanto, de um colectivo defensivamente mais frágil e fracturado.

Esta é, portanto, uma defesa do central Zé Castro, mas, principalmente, uma defesa de um certo tipo de defesas centrais. Não é, portanto, por capricho que ela é feita, mas com base na repetida ideia de um futebol enquanto um todo que este blogue sempre defendeu. O problema não está na impetuosidade em si, mas nas consequências que, por norma, a impetuosidade acarreta, como sejam a falta de lucidez, a irresponsabilidade colectiva ou o risco de cada iniciativa. É por isso que já se denunciou aqui alguma falta de qualidade a Vidic, central que se baseia na impetuosidade; é por isso também que existe tanta diferença, na nossa opinião, entre Daniel Carriço e Miguel Vítor. Admito que, numa equipa que se fundamente em predicados individuais, que dê mais valor aos elementos que compõem o seu todo, como o são mais de 90% das equipas mundiais, do que às relações entre esses elementos, os jogadores com mais competências individuais sejam mais valorizados. Mas isto acontece porque se tem uma ideia demasiado primitiva do jogo. Apesar de toda a modernidade, há pouquíssima gente que compreende o jogo como ele deveria ser compreendido. Neste sentido, é natural que os jogadores que dão mais nas vistas, ou seja, os jogadores com atributos individuais mais relevantes, tenham mais mercado e sejam preferidos em vez de outros. No caso específico dos centrais, é natural que os centrais mais agressivos, mais impetuosos, mais fortes, capazes de recuperar mais bolas individualmente ou de efectuar mais cortes, ou de ganhar mais duelos físicos, sejam preferidos ao invés de centrais que privilegiam o posicionamento, a fineza, a capacidade técnica e a leitura acertada dos lances. O jogo, no entanto, tem evoluído e centrais matacões, como ainda há dez anos os havia, já não têm lugar nas grandes equipas. Nos dias que correm, porque a competitividade já tornou evidente que não bastam argumentos físicos para se ser jogador, os centrais já têm de possuir alguma inteligência. Falta, contudo, ao jogo continuar a evoluir. E a evolução passará inevitavelmente por entender que os factores intelectuais são mais importantes que os restantes. Nessa altura, entender-se-á que, mesmo aqueles jogadores que jogam mais perto da sua própria baliza devem ser jogadores mais inteligentes do que atleticamente dotados e que aqueles que primam por iniciativas do foro atlético disfarçam nessas iniciativas a escassez de argumentos intelectuais que, nessa altura, se considerarão fundamentais. Enquanto, todavia, a evolução do jogo, lenta como toda a evolução, não torna evidente tudo isto, cá estará o Entre Dez para o afirmar.

Da mesma forma que se defendeu que o futebol do Barcelona de Guardiola veio demonstrar que a evolução do jogo exigia coisas diferentes daquelas que se pensava e que esse futebol era, de algum modo, o futebol do futuro (a propósito, Ibrahimovic disse que o futebol do Barcelona era tão diferente que representava o futebol que se iria jogar em 2015), defende-se também que os centrais com capacidades intelectuais relevantes estão mais aptos às necessidades correntes do jogo do que os outros, isto, como é óbvio, se inseridos numa equipa evoluída, revolucionária, verdadeiramente moderna. Como este blogue nunca foi dado a mediocridades, e apesar de reconhecer que jogadores como Bruno Alves ou Pepe podem dar mais, no contexto actual, a uma equipa de futebol, visto que individualmente têm mais trunfos, defende-se que Zé Castro é melhor jogador, pois que ser melhor implica estar mais apto a jogar numa equipa mais exigente. Numa equipa a sério, cujo conceito de colectivo fosse rigorosamente aplicado, não tenho dúvidas que Zé Castro é francamente melhor jogador que qualquer um destes dois, pelo que, em termos absolutos, a minha preferência tem obrigatoriamente de ir para ele.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pouca coisa...

1. Aimar não presta. Passes de letra são coisas para gajos que vieram passar férias a Portugal, de certeza.

2. Nuno Assis é outro que não vale nada. O facto de ter sido o jogador vimaranense mais esclarecido em campo foi coincidência.

3. Andrezinho, esse sim, é um jogador e tanto. Aquela assistência para Aimar, que permitiu ao argentino solicitar a corrida de Suazo, é de uma classe extraordinária. Melhor, só o pontapé no queixo do hondurenho ou aquela dança esquisita à frente de Reyes, durante quase um minuto, sem sair do mesmo sítio.

4. No golo do Guimarães, pode falar-se em erros de Maxi Pereira, que deveria estar mais metido para dentro, ou de Luisão, que não deveria ter tentado interceptar a bola, mantendo-se na corrida com Douglas, mas o lance só acontece porque o sistema do Benfica a isso convida. Com apenas dois passes rasteiros, o Guimarães ultrapassou 8 jogadores do Benfica. Roberto veio buscar a bola ao espaço vazio e o passe do médio minhoto para ele ultrapassou toda a linha do meio-campo do Benfica. A partir desse momento, está criado o desequilíbrio. O resto é mais ou menos fácil. A chave do lance é esse passe e não os erros posicionais dos defesas. É por estas e por outras razões que não consigo perceber como é que o 442 clássico continua a ser o modelo táctico mais utilizado. E não me venham falar de dinâmicas. Aquilo acontece com qualquer equipa que jogue com uma linha de 4 homens no meio-campo. Não há dinâmicas que o impeçam.

5. Muitos afirmam que Aimar não foi atropelado por Danilo dentro da área e que, portanto, não haveria lugar à marcação de um penalty que, para mim, foi claríssimo. O argumento é que já ia em queda quando se dá o contacto. Se um camião TIR vier direito a mim, de certeza que também não vou ficar quietinho à espera que ele me acerte. Aimar encolheu-se, prevendo o choque. Mas nada disso importa. Deixando-se ou não cair, a verdade é que há um contacto evidente que derruba o argentino.

6. Liedson continua a facturar, dizem alguns. O que eu gostava mesmo de saber era quanto é que Liedson paga aos defesas adversários para que estes façam disparates e o deixem isolado. Ou então, quando é que Liedson volta a marcar um golo cujo mérito seja mesmo dele. Aposto que vai vir muito palerma dizer que há mérito na forma como ele pressiona. Sinceramente, isso dá-lhe quase tanto mérito como a mim, que, sentado no meu sofá, estava a torcer para que aquele defesa dominasse mal a bola e depois inventasse daquela forma.

7. O Porto perdeu novamente e fala-se em crise. O que é certo é que Jesualdo, em 2 anos, não conseguiu lançar na equipa principal do Porto praticamente nenhum jogador de relevo. Foi vivendo daquilo que já vinha de trás e quase todas as suas contratações foram fracassos: Kazmierczak, Bollatti, Guarín, Farías, Lino, Stepanov, Benitez, etc. Agora que escasseia a qualidade trazida em tempos, a qualidade do plantel portista já não disfarça a pouca qualidade de Jesualdo nesse âmbito. A palavra "qualidade", três vezes referida na frase anterior, parece-me aquela que, pela sua ausência, melhor define o que se está a passar no Dragão.

8. Bruno Alves deu mais um beliscão num adversário, desta vez Davide. Beliscar com o cotovelo não é uma arte para qualquer um, mas Bruno Alves também não é qualquer um. Continuo é sem perceber por que é que os tipos que ele belisca fazem fita para tentar expulsá-lo, quando é evidente que esse tipo de truques mesquinhos não resulta.

9. José Mota lidera. No campeonato e nas loas que os estultos lhe tecem.

10. Lá fora, o Barça continua sem ganhar... por diferenças pequenas.

11. Em Itália, grande campeonato. 3 pontos separam os 5 primeiros; 6 pontos separam os 9 primeiros. Só para comparar, em Inglaterra, os primeiros 5 já estão separados por 6 pontos e os primeiros 9 por 12.

12. Del Piero marcou mais um golo espantoso. Quero distingui-lo com dois prémios. 1) É o melhor marcador de livres de que me recordo, à excepção de David Beckham; 2) É, para mim, provavelmente, o melhor jogador de sempre que nunca ganhou o prémio de melhor do mundo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Um jogador leal

Jesualdo já tinha dito que nunca viu Bruno Alves a agredir ninguém. Se no caso do professor a idade pode justificar a existência de cataratas, no pai de Bruno Alves parece-me que o caso deve ser clínico. Segundo este artigo, Washington Alves, pai de Bruno Alves, veio defender o filho, dizendo, entre outras coisas, o seguinte:

"Bruno é um jogador leal e limpo a jogar".

Leal tipo como quem tem lealdade? E as cotoveladas, os pontapés nas costas, os pisões, o que são? Demonstrações de carinho? E limpo tipo como quem arranca a cabeça a outro de forma limpinha?

"O Bruno está preparado para tudo, mas é natural que acabe por se retrair se as punições se repetirem..."

De facto, também me parecem exagerados os dois cartões amarelos da época passada. Afinal, não há nenhuma lei que diga que costelas partidas, ombros deslocados e olhos arrancados seja passível de punição. Agora, ia era jurar que a intenção das punições é retrair ímpetos violentos. Mas se calhar estou errado...

"é natural que acabe por se retrair se as punições se repetirem e procure jogar de acordo com os critérios dos árbitros."

Pois, isso agora era lixado, se ele tivesse que começar a jogar de acordo com as regras. Eu quando jogo xadrez também me sinto um bocado prejudicado por os meus peões não poderem andar mais do que uma casa ou por a minha rainha não poder jogar três vezes seguidas.

"O que não é bom para o jogador, nem para o FC Porto."

Obviamente que não é bom para o jogador. Tem toda a razão. Sem o taco de baseball, o Bruno Alves fica claramente mais fraco. E o Porto, impossibilitado de alinhar com 11 tanques de guerra, também fica mais débil. Onde é que já se viu ter de jogar com onze seres humanos?

"Um defesa-central tem de ser viril."

Eu diria que um defesa-central tem de ser defesa-central, mas eu também tenho a mania que sei tudo.

"ninguém contrata uma bailarina para jogar na área, onde é preciso agir e decidir em fracção de segundos."

Bailarinas para jogar na área, segundo o senhor Washington, é mau. Já gorilas, como o filho, faz todo o sentido. Mas o argumento do senhor Washington é claro: Bruno Alves tem de ser viril porque é preciso agir e decidir em fracção de segundos. Para este senhor, a velocidade de raciocínio depende exclusivamente da virilidade. O homem mais rápido é aquele que bate mais nos outros. Parece-me um raciocínio um bocado arriscado, mas talvez faça sentido. E na escola, quando tinha que fazer contas de cabeça, o Bruno Alves espancava os colegas para pensar mais rápido? Ouvi dizer que se pensa com o cérebro e não com os cotovelos ou com a sola da bota. Mas deve ser mentira. Por isso, faz sentido que ele seja viril. Se espernear de maneira a acertar em tudo o que mexe, é provável que consiga chegar primeiro à bola que os adversários, logo, pensa e executa mais rápido.

Nota final: Estas declarações explicam muita coisa. A educação de Bruno Alves e de Geraldo, seu irmão e também um defesa central amigo das pernas adversárias, deve ter sido complicada. Quais terão sido as suas primeiras palavras? "Estropiar"? "Sarrafada"? "Uga Uga"? No Natal, enquanto os amigos deles recebiam bonecos, bolas de futebol e consolas de vídeo, Bruno Alves e Geraldo recebiam o quê? Ringues de boxe? Paredes de tijolos para praticarem a joelhada rotativa? E qual seria a actividade que fariam em conjunto com o pai? Caça do javali à cabeçada? Quando chegavam da escola com uma negativa, será que o castigo eram duzentas placagens à mãe? E nas férias, será que iam para a praia como as outras famílias, ou iriam antes partir pedra com os cotovelos? Não deve ter sido fácil, não...