A afirmação é, para muitos, controversa e sensacionalista. Digo-o, no entanto, sem qualquer espécie de exagero propositado e sem qualquer intenção de rebaixar outros atletas: para mim, excluindo Ricardo Carvalho, o melhor defesa português da actualidade é Zé Castro. Para quem viu jogos do Deportivo esta época e esteve atento ao desempenho do central português, a recente chamada à selecção só peca por incompreensivelmente tardia. Esquecido em terras galegas, o português foi titular indiscutível (jogou 2536 minutos) de uma equipa que fez um campeonato bastante aceitável, terminando em sétimo lugar. O Deportivo foi mesmo a terceira melhor defesa da prova (o Barcelona sofreu 35 golos e o Sevilla 39), com 47 golos sofridos, menos 5 que, por exemplo, o Real Madrid. Estes dados, por si só, não revelam absolutamente nada, a não ser, provavelmente, para Queiroz, que terá decidido chamá-lo mais pelos resultados desta época do que por qualquer reconhecimento da sua qualidade. Evidentemente, há que juntar a estes dados a comprovação das exibições. E, nesse particular, a juntar à classe e à capacidade técnica que possuiu desde sempre, há agora uma maturidade que não pode deixar ninguém indiferente. Zé Castro é o patrão da defesa do Deportivo, um jogador seguríssimo, muito bom na leitura dos lances e no tempo de desarme, pouco impetuoso, como se aconselha a um jogador na sua posição, e rapidíssimo a reagir a mudanças de direcção ou a dobrar os colegas. Nada disto é novo, mas acontece agora com uma regularidade maior. Melhorou ainda no jogo aéreo, impondo-se mais frequentemente, e manteve a habitual boa relação com a bola. A facilidade que tem em sair a jogar, a importância que dá à manutenção da posse de bola, procurando entregar o melhor possível sempre que a recupera, fazem dele um central diferente da maioria.
Não queria compará-lo a Pepe ou a Bruno Alves, mas a opinião geral em Portugal sobre estes três jogadores, bem como a tendência para se preferirem defesas impetuosos, carniceiros e atleticamente muito dotados, impõe uma análise desse género. É errado pressupor que um defesa central deva ter determinados atributos físicos. Um defesa central deve ser um defesa central, nada mais. A pressuposição tem por base a ideia de que um defesa central é um jogador que encontra muitas situações de choque, que tem de ser capaz no jogo aéreo, uma vez que joga demasiado recuado para se dar ao luxo de não ganhar bolas de cabeça, que tem de ser duro para impor respeito aos atacantes adversários ou que tem de ser agressivo sobre a bola. Nada disto está correcto. Um central competente do ponto de vista intelectual ocupará melhor os espaços e não necessitará de ir tanto ao choque, conseguirá desarmar pela antecipação ou por ler melhor o lance, sem recorrer à agressividade ou à virilidade, será capaz de ganhar lances de cabeça sem ter de o fazer de uma forma impetuosa, etc. Ao contrário de centrais mais vigorosos, um central deste tipo tem várias vantagens: coloca menos risco em cada uma das suas acções, pois elas comportam mais segurança e mais certeza; está mais lúcido, uma vez que não faz tudo em esforço, para reagir a um percalço, como seja um ressalto ou uma combinação ofensiva rápida do ataque adversário; está mais compenetrado no jogo em si e não tanto na acção decisiva de cortar a bola, o que é o mesmo que dizer que está mais interessado na sua acção colectiva do que na sua acção individual. É esta última característica, que considero aqui vantajosa, que me faz dar clara preferência a centrais de um tipo em detrimento de outro. Um central mais vigoroso, mais aguerrido, está notoriamente focado na bola e na sua acção defensiva individual, no corte, no desarme, no acto de defender por si. Ora bem, um central não deveria servir para defender. É aqui que reside o problema. Este tipo de centrais está interessado em defender, porque consideram que o seu papel numa equipa, em situação defensiva, é defender. E é contra isto que reajo. Mesmo em situação defensiva, o central não deve ter um papel, muito menos um papel tão redutor como seja o de defender. Um central, como qualquer outro jogador, em situação defensiva ou não, deve estar preocupado em jogar, no sentido amplo de jogar. Recuperar a bola deve ser uma preocupação colectiva e não de um jogador em particular, esteja ele a jogar mais recuado ou não. Assim, um jogador que joga de forma mais impetuosa é, na grande maioria das vezes, um jogador que negligencia isto. Enquanto concentrado no seu desempenho defensivo, esquece os colegas, a sua relação com o resto da equipa, as necessidades do colectivo e afins. Quando vai a um lance, vai com o intuito de ganhar a bola por si, quando o acto de ganhar a bola não deve estar confinado a um jogador, mas a toda a equipa. Ao fazê-lo, terá talvez a vantagem de retirar tempo de reacção ao portador da bola, coisa que uma abordagem menos impetuosa não faria ou faria em menor escala, mas incorre em problemas que se sobrepõem claramente aos benefícios. Embora uma abordagem mais impetuosa tenha essa vantagem e, contra uma equipa que não tenha uma organização ofensiva relevante e não saiba jogar colectivamente, reduzindo-se a acções individuais, seja tão ou mais competente que outra abordagem, tem desvantagens óbvias, desvantagens essas potenciadas sempre que se defrontam equipas que privilegiem o colectivo. Exemplo disto foi o jogo entre o Real Madrid e o Barcelona, no qual a abordagem defensiva dos jogadores do Real Madrid foi excessivamente impetuosa, o que propiciou uma desorganização evidente que uma equipa como o Barcelona não poderia deixar de aproveitar. Entre outras coisas, um central que opte por abordagens mais impetuosas está menos apto a reagir a uma tabela (veja-se o golo da Albânia, frente a Portugal, fruto da resposta defensiva de Pepe, facilmente batido por uma simples tabela porque se aproximou impetuosamente do adversário que tinha a bola, sendo que este, ao soltá-la e indo buscá-la mais à frente, evitou, sem recorrer a uma grande perícia, o seu opositor); está menos apto a perceber como se altera, de instante para instante, a estrutura defensiva de que faz parte; está menos apto a travar a sua iniciativa caso haja o perigo de cometer uma falta; etc. Um central que opte por este tipo de jogo pode até ser mais forte do ponto de vista individual, pode até, estatisticamente, ser o responsável directo por mais recuperações de bola, pode até ser mais difícil de ultrapassar individualmente, mas é de certeza menos competente do ponto de vista colectivo e fará parte, portanto, de um colectivo defensivamente mais frágil e fracturado.
Esta é, portanto, uma defesa do central Zé Castro, mas, principalmente, uma defesa de um certo tipo de defesas centrais. Não é, portanto, por capricho que ela é feita, mas com base na repetida ideia de um futebol enquanto um todo que este blogue sempre defendeu. O problema não está na impetuosidade em si, mas nas consequências que, por norma, a impetuosidade acarreta, como sejam a falta de lucidez, a irresponsabilidade colectiva ou o risco de cada iniciativa. É por isso que já se denunciou aqui alguma falta de qualidade a Vidic, central que se baseia na impetuosidade; é por isso também que existe tanta diferença, na nossa opinião, entre Daniel Carriço e Miguel Vítor. Admito que, numa equipa que se fundamente em predicados individuais, que dê mais valor aos elementos que compõem o seu todo, como o são mais de 90% das equipas mundiais, do que às relações entre esses elementos, os jogadores com mais competências individuais sejam mais valorizados. Mas isto acontece porque se tem uma ideia demasiado primitiva do jogo. Apesar de toda a modernidade, há pouquíssima gente que compreende o jogo como ele deveria ser compreendido. Neste sentido, é natural que os jogadores que dão mais nas vistas, ou seja, os jogadores com atributos individuais mais relevantes, tenham mais mercado e sejam preferidos em vez de outros. No caso específico dos centrais, é natural que os centrais mais agressivos, mais impetuosos, mais fortes, capazes de recuperar mais bolas individualmente ou de efectuar mais cortes, ou de ganhar mais duelos físicos, sejam preferidos ao invés de centrais que privilegiam o posicionamento, a fineza, a capacidade técnica e a leitura acertada dos lances. O jogo, no entanto, tem evoluído e centrais matacões, como ainda há dez anos os havia, já não têm lugar nas grandes equipas. Nos dias que correm, porque a competitividade já tornou evidente que não bastam argumentos físicos para se ser jogador, os centrais já têm de possuir alguma inteligência. Falta, contudo, ao jogo continuar a evoluir. E a evolução passará inevitavelmente por entender que os factores intelectuais são mais importantes que os restantes. Nessa altura, entender-se-á que, mesmo aqueles jogadores que jogam mais perto da sua própria baliza devem ser jogadores mais inteligentes do que atleticamente dotados e que aqueles que primam por iniciativas do foro atlético disfarçam nessas iniciativas a escassez de argumentos intelectuais que, nessa altura, se considerarão fundamentais. Enquanto, todavia, a evolução do jogo, lenta como toda a evolução, não torna evidente tudo isto, cá estará o Entre Dez para o afirmar.
Da mesma forma que se defendeu que o futebol do Barcelona de Guardiola veio demonstrar que a evolução do jogo exigia coisas diferentes daquelas que se pensava e que esse futebol era, de algum modo, o futebol do futuro (a propósito, Ibrahimovic disse que o futebol do Barcelona era tão diferente que representava o futebol que se iria jogar em 2015), defende-se também que os centrais com capacidades intelectuais relevantes estão mais aptos às necessidades correntes do jogo do que os outros, isto, como é óbvio, se inseridos numa equipa evoluída, revolucionária, verdadeiramente moderna. Como este blogue nunca foi dado a mediocridades, e apesar de reconhecer que jogadores como Bruno Alves ou Pepe podem dar mais, no contexto actual, a uma equipa de futebol, visto que individualmente têm mais trunfos, defende-se que Zé Castro é melhor jogador, pois que ser melhor implica estar mais apto a jogar numa equipa mais exigente. Numa equipa a sério, cujo conceito de colectivo fosse rigorosamente aplicado, não tenho dúvidas que Zé Castro é francamente melhor jogador que qualquer um destes dois, pelo que, em termos absolutos, a minha preferência tem obrigatoriamente de ir para ele.