Rúben Micael é tido, nos dias que correm, como um extraordinário médio-ofensivo. Cobiçado por equipas estrangeiras e por alguns dos grandes portugueses, e anunciada a sua chegada à selecção, o seu futuro parece prometedor. Não querendo esperar mais, o Porto abriu os cordões à bolsa e contratou o madeirense. Ao contrário da maioria da opinião pública, tenho algumas reservas quanto a Rúben Micael. Que é bom jogador, está fora de questão. Que é aquilo que todos dizem que ele é, já tenho mais dúvidas. Do que tenho a certeza é que Rúben Micael não tinha lugar nem no Sporting nem no Benfica e que não vem trazer ao Porto aquilo de que mais necessita a equipa de Jesualdo Ferreira.
Vamos por partes. Rúben Micael tem as características ideais para o modelo de Jesualdo. É um jogador que pensa e executa rápido e que, sem bola, é fortíssimo a procurar os espaços entre os defesas. Os seus movimentos verticais, a aparecer em zonas de finalização, fazem dele um médio-ofensivo bastante concretizador. Ao mesmo tempo, a bola nos seus pés não queima e o madeirense consegue encontrar com facilidade o seu próximo destino. Em termos de execução, é também suficientemente criterioso. Além disso, percebe com facilidade qual a melhor solução de passe. Depois de tantos elogios, parece quase absurdo voltar à ideia inicial de que Rúben Micael não vem trazer ao Porto aquilo de que a equipa mais precisa. Mas é exactamente isso que pretendo fazer. Apesar de todas as valências, Rúben Micael não é um jogador criativo, não tem imaginação assaz relevante e, constrangido, isto é, quando tem poucas soluções de passe, raramente descobre ou inventa algo de diferente. Não é, também, tecnicamente extraordinário, pelo que é pouco capaz de se desembaraçar sozinho em situações complicadas. O seu futebol é simples, geométrico, veloz. É uma mais-valia em transição, porque há espaço e várias soluções de passe, mas não é um jogador capaz de conferir ao Porto aquilo de que mais necessita o seu sistema, ou seja, de imaginação, criatividade, invenção. É um jogador inteligente, é certo, correcto e criterioso no passe, mas pouco espontâneo, pouco capaz de executar com perfeição em espaços curtos. É um jogador que precisa de espaço e, sobretudo, que precisa que haja espaço para onde endereçar a bola. No Nacional, que actuava preferencialmente em transição, tinha o seu habitat predilecto. O Porto de Jesualdo também potencia as situações de transição e Rúben Micael pode ser influente nesse tipo de jogo. Mas aquilo de que a equipa de Jesualdo Ferreira mais necessita é de jogadores capazes de pensar de maneira diferente, irreverentes em termos de raciocínio, jogadores que fabriquem espaços e não apenas os que sabem aproveitá-los. Rúben Micael é dos médios-ofensivos portugueses que melhor aproveita os espaços existentes, mas não os fabrica. Em espaços curtos, não é um jogador para inventar soluções de passe, para imaginar coisas extravagantes. Contra equipas que optem por baixar o bloco, Rúben Micael não é especialmente útil. Contra essas equipas, seria bem mais interessante um jogador que, além de tecnicamente mais evoluído, soubesse explorar melhor as tabelas e que soubesse interpretar melhor os poucos espaços que há.
Há um jogador no actual plantel do Porto que o sabe: Belluschi. O argentino é o único jogador verdadeiramente criativo ao dispor de Jesualdo e não goza de muito apreço. Aliás, com Rúben Micael, desconfio que o argentino passará bastante mais tempo no banco. Isto apesar de ser francamente superior ao jogador madeirense. O problema é que Belluschi é essencialmente forte em espaços curtos e o que tem de melhor para oferecer à equipa é precisamente aquilo que esta, assente num modelo específico, mais negligencia. O Porto de Jesualdo sente-se melhor em transição ou em ataques rápidos e raramente procura circular a bola de forma lateralizada. O excesso de verticalidade do próprio modelo faz com que a equipa passe menos tempo com a posse de bola contra um adversário arrumado defensivamente. Como tal, jogadores que se podem distinguir precisamente quando os espaços são mais curtos e quando é necessário ser mais veloz a pensar e ser capaz de imaginar coisas diferentes têm menos preponderância. O modelo de Jesualdo privilegia o músculo, a velocidade de execução e a verticalidade. Belluschi, nessas condições, é um jogador banal. Se o Porto fosse uma equipa mais competente com bola, uma equipa em que fosse requerida maior elaboração ofensiva, Belluschi não teria rival à sua altura.
As necessidades do Porto, ao contrário do que se pensará, são necessidades inerentes ao modelo. O que está mal não são os intérpretes do modelo, mas o próprio modelo; as carências da equipa são colectivas e não individuais. Rúben Micael, por isso, não vem trazer nada de novo. É só mais um intérprete, capaz de corresponder às necessidades que o modelo de Jesualdo exige, mas incapaz de corresponder às verdadeiras necessidades da equipa. O que Lucho e Lisandro davam ao modelo de Jesualdo não era uma melhor interpretação; a sua contribuição ia para lá do modelo. A presença dos argentinos mascarava, isso sim, as carências do modelo. Com Lucho e Lisandro, o Porto não era apenas uma equipa rectilínea, capaz de responder a cada momento do jogo de uma forma mecânica. Com eles, o Porto possuía alguma criatividade, alguma invenção, alguma diferença. Belluschi é o único que pode contribuir com esse tipo de coisas. Penso, portanto, que a aquisição de Rúben Micael não vem trazer nada de novo e que a monotonia do futebol dos campeões nacionais tem tendência a perpetuar-se até final da temporada.
Há, para além disto, apenas uma outra coisa importante a reter: a possibilidade do 442 losango. Jesualdo experimentou essa hipótese nos minutos finais do desafio frente ao Nacional, com Mariano e Belluschi a posicionarem-se como médios interiores e Rúben Micael como médio-ofensivo. É uma hipótese interessante e a única, em meu entender, que poderá facilitar a coabitação de Belluschi e Rúben Micael. Com Raúl Meireles de regresso ao meio-campo, só neste sistema acredito que Jesualdo possa usar estes dois jogadores em simultâneo. Será, talvez, uma boa solução para o seu Porto, mantendo a criatividade de Belluschi e os movimentos verticais e a simplicidade de Rúben Micael. Mas não creio que Jesualdo recorra a este esquema senão de modo esporádico. Primeiro, porque não corresponde àquilo que idealiza; depois porque isso implicaria que os extremos ao dispor de Jesualdo teriam um papel pouco significativo neste desenho. Com a eventual chegada de Kléber, o 442 losango poderá até servir para fazer coabitar no ataque o brasileiro e Falcao. Mas Hulk, Varela e Rodriguez teriam certamente menos destaque. E não me parece, tendo em conta aquilo que, para Jesualdo, significam este tipo de jogadores, que isso venha a acontecer. O teste do 442 losango não terá passado, por isso mesmo, de um teste. E a hipótese de Belluschi e Rúben Micael jogarem juntos será, certamente, apenas uma hipótese remota.
Vamos por partes. Rúben Micael tem as características ideais para o modelo de Jesualdo. É um jogador que pensa e executa rápido e que, sem bola, é fortíssimo a procurar os espaços entre os defesas. Os seus movimentos verticais, a aparecer em zonas de finalização, fazem dele um médio-ofensivo bastante concretizador. Ao mesmo tempo, a bola nos seus pés não queima e o madeirense consegue encontrar com facilidade o seu próximo destino. Em termos de execução, é também suficientemente criterioso. Além disso, percebe com facilidade qual a melhor solução de passe. Depois de tantos elogios, parece quase absurdo voltar à ideia inicial de que Rúben Micael não vem trazer ao Porto aquilo de que a equipa mais precisa. Mas é exactamente isso que pretendo fazer. Apesar de todas as valências, Rúben Micael não é um jogador criativo, não tem imaginação assaz relevante e, constrangido, isto é, quando tem poucas soluções de passe, raramente descobre ou inventa algo de diferente. Não é, também, tecnicamente extraordinário, pelo que é pouco capaz de se desembaraçar sozinho em situações complicadas. O seu futebol é simples, geométrico, veloz. É uma mais-valia em transição, porque há espaço e várias soluções de passe, mas não é um jogador capaz de conferir ao Porto aquilo de que mais necessita o seu sistema, ou seja, de imaginação, criatividade, invenção. É um jogador inteligente, é certo, correcto e criterioso no passe, mas pouco espontâneo, pouco capaz de executar com perfeição em espaços curtos. É um jogador que precisa de espaço e, sobretudo, que precisa que haja espaço para onde endereçar a bola. No Nacional, que actuava preferencialmente em transição, tinha o seu habitat predilecto. O Porto de Jesualdo também potencia as situações de transição e Rúben Micael pode ser influente nesse tipo de jogo. Mas aquilo de que a equipa de Jesualdo Ferreira mais necessita é de jogadores capazes de pensar de maneira diferente, irreverentes em termos de raciocínio, jogadores que fabriquem espaços e não apenas os que sabem aproveitá-los. Rúben Micael é dos médios-ofensivos portugueses que melhor aproveita os espaços existentes, mas não os fabrica. Em espaços curtos, não é um jogador para inventar soluções de passe, para imaginar coisas extravagantes. Contra equipas que optem por baixar o bloco, Rúben Micael não é especialmente útil. Contra essas equipas, seria bem mais interessante um jogador que, além de tecnicamente mais evoluído, soubesse explorar melhor as tabelas e que soubesse interpretar melhor os poucos espaços que há.
Há um jogador no actual plantel do Porto que o sabe: Belluschi. O argentino é o único jogador verdadeiramente criativo ao dispor de Jesualdo e não goza de muito apreço. Aliás, com Rúben Micael, desconfio que o argentino passará bastante mais tempo no banco. Isto apesar de ser francamente superior ao jogador madeirense. O problema é que Belluschi é essencialmente forte em espaços curtos e o que tem de melhor para oferecer à equipa é precisamente aquilo que esta, assente num modelo específico, mais negligencia. O Porto de Jesualdo sente-se melhor em transição ou em ataques rápidos e raramente procura circular a bola de forma lateralizada. O excesso de verticalidade do próprio modelo faz com que a equipa passe menos tempo com a posse de bola contra um adversário arrumado defensivamente. Como tal, jogadores que se podem distinguir precisamente quando os espaços são mais curtos e quando é necessário ser mais veloz a pensar e ser capaz de imaginar coisas diferentes têm menos preponderância. O modelo de Jesualdo privilegia o músculo, a velocidade de execução e a verticalidade. Belluschi, nessas condições, é um jogador banal. Se o Porto fosse uma equipa mais competente com bola, uma equipa em que fosse requerida maior elaboração ofensiva, Belluschi não teria rival à sua altura.
As necessidades do Porto, ao contrário do que se pensará, são necessidades inerentes ao modelo. O que está mal não são os intérpretes do modelo, mas o próprio modelo; as carências da equipa são colectivas e não individuais. Rúben Micael, por isso, não vem trazer nada de novo. É só mais um intérprete, capaz de corresponder às necessidades que o modelo de Jesualdo exige, mas incapaz de corresponder às verdadeiras necessidades da equipa. O que Lucho e Lisandro davam ao modelo de Jesualdo não era uma melhor interpretação; a sua contribuição ia para lá do modelo. A presença dos argentinos mascarava, isso sim, as carências do modelo. Com Lucho e Lisandro, o Porto não era apenas uma equipa rectilínea, capaz de responder a cada momento do jogo de uma forma mecânica. Com eles, o Porto possuía alguma criatividade, alguma invenção, alguma diferença. Belluschi é o único que pode contribuir com esse tipo de coisas. Penso, portanto, que a aquisição de Rúben Micael não vem trazer nada de novo e que a monotonia do futebol dos campeões nacionais tem tendência a perpetuar-se até final da temporada.
Há, para além disto, apenas uma outra coisa importante a reter: a possibilidade do 442 losango. Jesualdo experimentou essa hipótese nos minutos finais do desafio frente ao Nacional, com Mariano e Belluschi a posicionarem-se como médios interiores e Rúben Micael como médio-ofensivo. É uma hipótese interessante e a única, em meu entender, que poderá facilitar a coabitação de Belluschi e Rúben Micael. Com Raúl Meireles de regresso ao meio-campo, só neste sistema acredito que Jesualdo possa usar estes dois jogadores em simultâneo. Será, talvez, uma boa solução para o seu Porto, mantendo a criatividade de Belluschi e os movimentos verticais e a simplicidade de Rúben Micael. Mas não creio que Jesualdo recorra a este esquema senão de modo esporádico. Primeiro, porque não corresponde àquilo que idealiza; depois porque isso implicaria que os extremos ao dispor de Jesualdo teriam um papel pouco significativo neste desenho. Com a eventual chegada de Kléber, o 442 losango poderá até servir para fazer coabitar no ataque o brasileiro e Falcao. Mas Hulk, Varela e Rodriguez teriam certamente menos destaque. E não me parece, tendo em conta aquilo que, para Jesualdo, significam este tipo de jogadores, que isso venha a acontecer. O teste do 442 losango não terá passado, por isso mesmo, de um teste. E a hipótese de Belluschi e Rúben Micael jogarem juntos será, certamente, apenas uma hipótese remota.