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terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Legado de Luis Enrique e outras coisas

1. O Fim de uma Era

Quando a época passada terminou, e o Barça de Luis Enrique conquistou os três principais títulos, tive o ensejo de escrever um texto que, por vários motivos, acabei por nunca escrever. O que queria ter dito na altura e não disse é o que, muito abreviadamente, direi agora. O Barça ganhou tudo e, para muitos, voltou ao domínio do futebol europeu. A minha opinião é ligeiramente diferente: o Barça ganhou tudo, e perdeu finalmente a hegemonia que teve na última década. Pode parecer um contrassenso, mas creio que as conquistas do ano passado são o ponto final de uma era que começou com a chegada de Guardiola ao clube. O futebol da equipa de Luis Enrique já não tinha muito a ver com aquele que Guardiola preconizava (e que Tito Villanova e Tata Martino, mal ou bem, mantiveram), e o sucesso desse futebol significa a ruptura decisiva com o passado. Correndo o risco de parecer incoerente, uma vez que defendo que esse futebol já não tinha muito a ver com a da grande equipa de há uns anos, acho que muito desse sucesso se deve ao que os jogadores aprenderam com Guardiola: muito do que seria o trabalho do treinador é dispensado pelo que os jogadores, em termos colectivos, ainda retêm dessa altura. O mérito de Luis Enrique nas conquistas da equipa é, aliás, muito reduzido. Além de um conjunto de jogadores que cresceram a fazer uma série de coisas que agora fazem de olhos fechados, contou com jogadores que, do ponto de vista individual, fizeram toda a diferença. Para dizer de outro modo, o Barcelona ganhou tudo como poderia ter perdido tudo e como várias equipas ganham tudo. Jupp Heynckes ganhou tudo pelo Bayern há uns anos, e não me parece que lhe deva ser dado um mérito especial. Há sempre alguém que tem de ganhar, e o ano passado calhou ao Barcelona. Ao ganhar desse modo, como ganharia qualquer outra equipa, o Barça voltou a ser uma equipa normal. E a hegemonia que teve, e que continuava a assustar toda a gente, acabou. Por outras palavras, foi a melhor equipa dos últimos dez anos, mas arrisco-me a dizer que não será a melhor dos próximos. Se o impacto de Guardiola se viu até ao ano que passou, culminando com o triplete de Luis Enrique, o impacto de Luis Enrique ver-se-á daqui a 5 anos, quando o Barça for uma equipa banal.

2. A Lesão de Messi

Há um pormenor que costuma ser negligenciado quando se fala nas conquistas europeias: as lesões. Os dois anos em que Guardiola não ganhou a Champions quando ao serviço do Barcelona foram pautados por lesões relativamente longas ou recorrentes de jogadores importantes: Ibrahimovic, Iniesta, Villa, etc.. A equipa de Luis Enrique teve um ano praticamente imaculado, a esse nível, e isso também foi decisivo. Foi-o, de modo evidente, na forma como pôde superar o Bayern de Guardiola, fustigado por lesões, mas foi-o também ao longo de toda a época. Não houve lesões de grande duração em nenhum jogador importante, e isso permitiu à equipa manter os seus índices de produtividade. Que o tenha sido não me parece, de modo nenhum, irrelevante. Repetir a sorte de uma época sem lesões é praticamente impossível, e creio que isso ditará um ano bem mais modesto em termos de conquistas. A primeira lesão importante aconteceu este fim-de-semana, e ainda não se sabem bem as consequências dela. Apesar de ser preferível perder Messi nesta altura, dois meses (mais um mês ou dois até recuperar o melhor ritmo) é tempo suficiente para que o Barça perca terreno, por exemplo, no campeonato. Messi, aliás, foi decisivo nos jogos decisivos da época passada, e o principal responsável pelo sucesso de Luis Enrique nas provas a eliminar (em vários jogos da Champions, concretamente contra o Bayern, e na final da Taça do Rei, por exemplo). Sem Messi, o Barça de Guardiola era só a mesma equipa menos o seu melhor jogador. Sem Messi, o Barça de Luis Enrique vale menos de metade.

3. Xavi e Iniesta

Apesar de ter perdido a titularidade a época passada, Xavi foi quase sempre utilizado por Luis Enrique. Quando jogava de início, o Barça era quase sempre melhor, apesar de praticamente ninguém conseguir ver isso. Quando entrava, a equipa passava automaticamente a jogar melhor. Ainda que em final de carreira, aquele que foi, muito possivelmente, o melhor jogador de sempre, no que diz respeito à tomada de decisão, mantinha uma influência incrível, e só aqueles que acham que o futebol requer os melhores atletas não eram capazes de percebê-lo. Como o futebol é dominado por essa gente, tornou-se praticamente consensual que a era de Xavi no Barça chegara ao fim. Tenho para mim que não foi só a era de Xavi que terminou. Com Xavi, foi-se também a melhor equipa de sempre. Aliás, restam dessa equipa poucos jogadores: Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Messi. Com a saída de Xavi (e a de Pedro), a somar-se às saídas em anos anteriores de Thiago Alcântara e Fabregas, por exemplo, o futebol de toque curto, mais pensado do que corrido, chegou ao fim. O próprio Iniesta, se virmos bem, é um autêntico órfão em campo. Messi tem capacidades atléticas (e idade) que lhe permitem adaptar-se a um estilo de jogo diferente, e o entendimento com jogadores mais vertiginosos torna-se fácil. Iniesta não as tem, e o seu futebol eclipsa-se a cada dia que passa. Não quero ser mal entendido: esse futebol não se eclipa por  Iniesta já não ter capacidades físicas para mantê-lo vivo, mas porque já não está rodeado de colegas a quem interessa jogar o mesmo jogo. Cada jogador é aquilo que o rodeia. E Iniesta deixou de estar rodeado dos mais inteligentes. O Barça de Luis Enrique já não é o Barça de Xavi e Iniesta. Em tempos, num lance que não consigo situar (imaginava, erradamente, ter sido o lance em Old Trafford que permitira a Paul Scholes fazer o golo que eliminou o Barça nas meias finais da Champions de 2007/2008), Xavi falhou um passe decisivo à entrada da área por tê-lo feito sem perceber antecipadamente se o colega a quem passava a bola estaria à espera de recebê-la. Ninguém me compreendeu, porque para quase toda a gente não se deve passar a bola antes de olhar a ver se lá está o colega. Xavi, ao falhar esse passe, antecipava o Barcelona de Guardiola. Antecipava-o na medida em que antecipava aquilo que o Barcelona de Guardiola permitia a todos os jogadores, e em especial ao próprio Xavi: jogar de olhos fechados e passar sem precisar de perceber se o colega vai estar onde deve estar. Xavi passou a bola, nesse dia, para onde devia estar o colega. Só que o colega não estava lá porque não tinha sido ensinado a perceber antecipadamente onde Xavi queria que ele estivesse. O Barcelona de Guardiola fez-se sobretudo disto: todos pareciam saber com antecedência suficiente as intenções dos colegas. Numa equipa assim, ninguém superava Xavi. Tinha sempre mais passes que toda a gente, percorria sempre mais metros do que os outros. Sem bola, dava mais opções ao portador do que qualquer outro colega. Com ela, era sempre o mais eficaz, optasse pelo passe curto ou pelo passe longo. Agora que a equipa de Xavi e Iniesta já não existe, a única boa notícia é que estão os dois (especialmente Xavi) mais próximos de se tornarem treinadores de futebol.

 4. As Inconsistências e os Estúpidos

Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que o rendimento do sueco tenha sido o problema. Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de... isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%. A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e  que Suarez tenha feito uma boa época. Mas - surpresa das surpresas - é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir. Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ibrahimovic

Foi publicado a semana passada, na Academia de Talentos, um artigo infame no qual se defendia que Ibrahimovic era um flop europeu. A infâmia do artigo está não só na forma absurdamente exagerada em que são postos os termos e nas coisas que são consideradas, mas também e sobretudo nos argumentos utilizados. As razões que presidiram a tal teoria foram, uma vez mais, os golos que o sueco faz (ou não faz). Dizer que o sueco faz poucos golos na Europa, que se mexe pouco e que, considerando o derradeiro teste o jogo atípico em Camp Nou frente ao Inter, o Barcelona só começou a criar perigo quando ele saiu é não perceber nada de Ibrahimovic nem de pontas-de-lança e é também mentir com quantos dentes se tem. Poderia lembrar o remate de Pedro ao lado ou o remate de Messi para excelente defesa de Júlio César, pois a movimentação de Ibrahimovic está na origem dos mesmos. Poderia lembrar a assistência de calcanhar para Messi, que o deixa na cara de Júlio César antes de Lúcio conseguir, à última, o corte. Poderia também lembrar a assistência de cabeça para Xavi, que fica igualmente em zona de finalização e que só não consegue o remate porque, uma vez mais, alguém corta "in extremis". Podia também lembrar o penalty que sofreu e que não foi assinalado. Tudo isto demonstra que Ibrahimovic não esteve propriamente apagado nesse desafio. O que é, no entanto, grave e que, provavelmente, tem origem na mesma cegueira em que se viu um jogo diferente do verdadeiro, é que se meça o valor do jogador, ou o valor de qualquer ponta-de-lança, pelos golos que marca. Ibrahimovic só é, por isso, um flop europeu para os que não sabem o que é um ponta-de-lança. Esses, como muitos outros, deveriam estar calados na hora de falar sobre coisas das quais não percebem.

Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.

As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.

Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.

Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:

"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."

Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:

"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."

Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O que é um Avançado?

O texto que se segue tem por objectivo esclarecer aquilo que é ou deve ser um avançado. Serão postuladas algumas teorias e denunciadas algumas falácias típicas. O texto estará dividido por secções, mas todo ele será atravessado pela tentativa de resposta à pergunta "O que é um avançado?"

Um Avançado Não serve para fazer Golos


A resposta à pergunta pode parecer intuitiva, mas estou certo de que pouca gente saberá, com exactidão, a relevância específica da posição. A teoria mais convencional consiste em afirmar que um avançado é ou deve ser o responsável pela conclusão dos lances de ataque da sua equipa. Essa teoria não só não faz sentido como também põe a nu as fracas competências analíticas de quem quer que a defenda. Segundo esta doutrina, um avançado serve para marcar golos, como se os golos - esse acontecimento tão especial e único - não devessem ser antes um objectivo geral da equipa. Os defensores desta teoria jamais se podem livrar da terrível concepção de que os jogadores de uma equipa têm funções específicas em campo. Ainda assim, há quem queira defender as duas coisas, não percebendo a incoerência do que defendem. Se um avançado serve para fazer golos, então um médio serve para construir jogadas de ataque, um defesa serve para defender e um médio-ala serve para ir à linha cruzar. Isto é rudimentar e está de tal modo ultrapassado que só um amigo de Jaime Pacheco pode defendê-lo e ainda assim achar que está certo. Mesmo assim, há quem ache que os jogadores não devem ter funções, mas que depois ceda à tentação de classificar um avançado pelos golos que marca. Além de incoerente, este é um comportamento estúpido.

Um avançado não só não serve para marcar golos como não pode, de maneira nenhuma, ser avaliado segundo a competência que denota nesse capítulo. Tudo porque as coisas têm de ser contextualizadas. Por exemplo, um avançado pode marcar muitos golos porque simplesmente não se preocupa com mais nada. Isto não faz nem pode fazer dele um jogador extraordinário. Do mesmo modo, um avançado pode fazer poucos golos porque passa maior parte do tempo a procurar servir a sua equipa de outra maneira. O seu registo pouco impressionante não pode, também, servir para caracterizar a sua qualidade geral. Um avançado que não marca golos pode ser o jogador mais influente da sua equipa. Tudo depende do seu desempenho geral e não de dois ou três lances numa partida. Aqueles que não são capazes de perceber isto devem interromper a leitura imediatamente. Certos saberes não podem ser adquiridos por toda a gente.

Saviola: o melhor Avançado da Liga Portuguesa

Falemos agora um pouco mais concretamente. Actualmente, poucos se atreverão, certamente, a dizer que Saviola não é o melhor avançado desta Liga. Falarão até, muito provavelmente, nas coisas certas, nos movimentos sem bola, na capacidade técnica, no improviso, na inteligência, na capacidade para se movimentar entre linhas e para tabelar com os companheiros. Tenho, porém, sérias dúvidas de que existisse tamanho consenso caso Saviola não tivesse marcado já bastantes golos, embora continuasse a ser extraordinário em tudo aquilo que se lhe reconhece. Por aqui, desde muito cedo que afirmámos que o avançado argentino era o melhor da Liga, numa altura em que Cardozo e Falcao se destacavam na liderança dos melhores marcadores e ele tinha ainda, apenas, dois golos obtidos. Não precisámos que Saviola marcasse a quantidade de golos que já marcou para lhe outorgarmos esse estatuto e continuaríamos a defender esta posição mesmo que o argentino continuasse sem marcar golos. Aquilo que Saviola faz em campo é tão extraordinário que, mesmo retirando os golos que tem marcado, não há ninguém ao seu nível. Saviola é avançado e não é pelos golos que marca que é o melhor avançado da Liga. Se, por azar, não tivesse nenhum golo obtido, continuaria a sê-lo.

Aquilo de que duvido é que a maioria das pessoas que reconhece valor ao argentino consiga ser isenta ao ponto de defender o mesmo nas circunstâncias em que apresentei, ou seja, no caso de ele não ter qualquer golo marcado. O que estou a dizer é que, consciente ou inconscientemente, maior parte das pessoas faz depender o valor que reconhecem em Saviola não de tudo o resto que falei mas dos golos que marca. Sem os golos, não teriam focado a atenção no argentino e não teriam reparado em tudo o resto e na relevância de tudo o resto. Isto não faz sentido. No fundo, é dizer que Saviola vale por tudo aquilo que foi referido, mas ter usado a bitola dos golos para lhe avaliar a competência. Estou certo que há pouquíssimas pessoas que entendem realmente o que é um avançado. Aquilo que vou fazer de seguida é tentar definir, com o grau de precisão que for possível, aquilo que deve ser um avançado.

Requisitos de um Bom Avançado

A única diferença entre um avançado e um defesa, ou entre um avançado e outro jogador qualquer, é a posição relativa em que joga. Por posição relativa entendo o posicionamento em campo em função dos restantes companheiros. Um avançado é, portanto, por definição, um jogador que joga numa posição mais avançada, em relação aos colegas. Isto em teoria, porque na prática, dependendo das situações do jogo, o seu posicionamento pode oscilar. Muita gente acha que, por ser o jogador que, teoricamente, joga mais avançado, deve ser aquele que deve ter por missão fazer golos, uma vez que está mais perto da baliza do que qualquer outro colega. Isso é, contudo, uma forma simplista de ver o jogo. O futebol é tudo menos um jogo simples e um avançado tem mais para fazer em campo do que ser o elemento mais avançado de uma equipa. O futebol, jogado como um todo, não pode estar refém de jogadores com funções específicas; uma equipa, para fazer golos, não pode estar refém do seu atleta mais adiantado. Tem de ser capaz de tornar complexo o seu jogar a ponto de ser absolutamente indiferente quem faz ou não faz os golos.

Um avançado serve para tudo o que outro jogador qualquer serve. Acontece, porém, que o estar numa determinada posição relativa em campo faz com que participe mais vezes numas situações e menos noutras. Deste modo, um avançado estará muito menos vezes de frente para a baliza adversária do que um defesa, pelo simples facto de que, na maior parte do tempo, o jogo está a ocorrer atrás de si. Assim, jogará muito mais vezes de costas para a baliza adversária e será quase sempre de costas para a baliza que será solicitado. Um avançado que se preze, numa equipa que jogue ao ataque, tem portanto de ser competente na maior parte das vezes em que é solicitado. Se maior parte das vezes em que é solicitado está de costas para a baliza e com adversários à ilharga, tanto mais competente será o avançado quanto melhor for a jogar de costas para a baliza, a servir de apoio vertical, a baixar no terreno para tabelar, sem se virar para o jogo. Ao avançado não se pede que seja capaz de ter uma visão periférica porque na maior parte das vezes deve estar preocupado, isso sim, em movimentos de aproximação, em perceber onde estão os colegas mais próximos e em proteger a bola. Ora bem, um bom avançado não é, portanto, um avançado que faça muitos golos. Quem pensar isto, está equivocado. Um bom avançado é alguém capaz de servir de apoio vertical, capaz de baixar no terreno para tabelar, capaz de proteger a bola, capaz de encontrar com celeridade um companheiro perto de si. Um avançado que recebe a bola de costas para a baliza e que a perde invariavelmente, que se vira mais vezes para o adversário do que procura jogar de frente, que não é capaz de encontrar soluções de passe com rapidez e que não sabe a importância de proteger uma bola, é um mau avançado pelo simples facto de, na maioria das situações, ser incompetente.

Numa equipa que joga ao ataque, as competências mais importantes num avançado são estas. A razão é simples e tem a ver com a quantidade de vezes em que as solicitações exigem essas competências. Naturalmente, um avançado não é só solicitado desta forma. Mas uma vez que esta é a forma geral em que mais vezes é solicitado, é um contrassenso imaginar que um avançado que não seja competente nesse aspecto possa ser um grande avançado. Um avançado que - imaginemos - é incompetente em 80% das situações em que é solicitado não pode nunca, por melhor que seja nos outros 20%, ser um grande avançado. Ainda assim, é talvez importante referir de que outras formas pode um avançado ser solicitado e de que outras formas pode ser competente. Sem bola, pode ser útil na forma como se movimenta de modo a arrastar marcações ou a desviar atenções, a esticar a equipa adversária ou a fazer diagonais para permitir linhas de passe aos colegas. Pode ainda ser solicitado através de cruzamentos e pode ser mais ou menos competente a atacar zonas de finalização. Há, no entanto, uma pequena ressalva a fazer em relação a isto.

O Melhor tipo de Avançado

Muita gente não percebe isto, mas penso que é algo que só a muito custo pode ser negado. Muitos dos avançados que passam maior parte do tempo preocupados em movimentos de aproximação, em servir de apoio vertical, em baixar para tabelar com um colega, não têm depois tempo para acorrerem ao cruzamento que toda a sua participação anterior tornou possível. Muitas vezes, quando um avançado baixa para que a equipa consiga desbloquear uma situação no meio-campo e a jogada prossegue e exige uma finalização, o avançado que antes baixara no terreno e possibilitou todo o desenho subsequente não é capaz de chegar à área em condições de atacar as melhores zonas de finalização. Isto é assim por definição. Como tal, é natural que um jogador que não tenha as preocupações anteriores, que não baixe no terreno e se mantenha bem posicionado e concentrado unicamente no ataque das zonas de finalização, seja capaz de marcar mais golos. O que é importante, porém, perceber, é o que é mais útil para a equipa: contar com um avançado que marque mais golos ou contar com um avançado que participa melhor na manobra ofensiva da equipa. Eu não tenho quaisquer dúvidas. Um avançado que esteja preocupado apenas em marcar golos, por mais competente que seja nesse aspecto, faz com que a equipa esteja permanentemente coxa, a jogar com um elemento que não se dá a mostrar, que não procura ser solicitado senão para finalizar.

Isto não é apenas uma questão de preferência. Não é só o facto de preferir um tipo de avançado em detrimento de outro. Trata-se de perceber que um tipo é melhor que o outro porque permite mais coisas à equipa do que o outro. Um avançado não serve para marcar golos e um avançado que só seja competente a marcar golos é um mau avançado. Ponto final. Pode ser melhor que um avançado que também só seja competente a marcar golos, embora não tão competente, mas é sempre inferior a um avançado que seja competente no resto, ainda que não seja tão competente a marcar golos ou, simplesmente, que a sua competência de goleador seja afectada pelo facto de estar mais interessado em outras competências.

Ibrahimovic e a Ausência de relação causal entre Eficácia Colectiva e Avançados Goleadores

Não há, talvez, melhor exemplo para demonstrar a razão do que digo que o do melhor avançado do mundo. Na melhor equipa do mundo, o melhor avançado do mundo, Zlatan Ibrahimovic, não marcava há 2 meses e meio. Voltou a marcar esta semana. Repito: não marcava há 2 meses e meio! E é o melhor do mundo. E joga na melhor equipa do mundo. E o que é extraordinário é que o jejum de golos do sueco coincidiu com o melhor período do Barcelona esta época. Neste período, o Barcelona ganhou praticamente todos os jogos, goleou mais vezes do que o tinha feito até aqui e jogou muito bem. Mais extraordinário ainda é que Ibrahimovic foi quase sempre dos melhores em campo. Esteve excelente na forma como contribuiu para o jogo de posse da equipa e foi, sem dúvidas, dos principais responsáveis pelo esmagador caudal ofensivo apresentado. O Barcelona não precisou que Ibrahimovic fizesse golos para vencer e para jogar bem; precisou, isso sim, que Ibrahimovic contribuísse para a competência ofensiva da equipa, para que a equipa, enquanto equipa, fosse capaz de atacar bem e de criar situações de golo. Durante este período, Ibrahimovic não marcou golos, mas o futebol do Barça melhorou. Para quem esteve atento, as razões são simples. Ibrahimovic esteve excelente nos movimentos de aproximação, no abaixamento no terreno para funcionar como apoio vertical, nas tabelas. Com isto, o futebol atacante do Barcelona fluiu exemplarmente e a equipa conseguiu ser mais acutilante. Em termos individuais, este tipo de coisas talvez tenham prejudicado o pecúlio do sueco, pois acabou por sair das zonas de finalização mais vezes, mas a equipa agradeceu. Um grande avançado, como o é Zlatan Ibrahimovic, é por isso muito mais alguém que propicia tais coisas à equipa do que alguém que faz muitos golos. O Barcelona - repito - esteve imparável, e Ibrahimovic, o único avançado da equipa, não marcou golos. É até irónico que, precisamente no dia em que voltou a marcar golos, o Barça tenha sido finalmente parado no campeonato. Nada poderia ser mais conclusivo: não existe qualquer relação causal entre um avançado que marca muitos golos e uma equipa eficaz. Uma boa equipa, que pratique um bom futebol, não necessita de ninguém em específico que marque muitos golos. Pensar o contrário trata-se de uma falácia absurda que os tempos modernos e o advento de modelos de jogo sofisticados como o de Guardiola ou - por que não dizê-lo? - o de Mourinho, nos seus primeiros anos, já deveriam ter erradicado.

Postiga, Liedson e a Irrelevância de um Avançado que faça golos

O que aconselho, por isso, às pessoas que continuam a achar que um avançado serve para fazer golos é que parem de dizer asneiras. Um avançado é muito mais do que alguém que faz golos e mesmo um avançado que não marque um único golo, numa prova inteira, pode ser um avançado muito importante na manobra da equipa. Para quem não consegue ver mais do que golos, para os cegos que seguem cegamente o fenónemo futebolístico, Hélder Postiga, que não marca há não sei quanto tempo, é um mau avançado. Além de isto ser francamente estúpido, porque ignora que, noutras alturas, Postiga já fez bastantes golos, é uma forma simples de avaliar um atleta. Não conseguem perceber o quanto o futebol do Sporting ganha com um avançado que faz o tipo de coisas que Postiga faz e, como não marca golos, apressam-se a injuriá-lo. A mais mordaz das respostas a este tipo de palermice está bem à vista de todos. Apesar de haver ainda quem o queira ignorar, é um facto indesmentível que o futebol do Sporting, desde que Postiga foi afastado, perdeu muita qualidade. Em Janeiro, quando, por sorte, Liedson esteve parado, o Sporting apresentou invariavelmente Postiga e Saleiro na frente de ataque. O que a equipa ganha com este tipo de jogadores foi aqui, atempadamente, anunciado: melhor circulação de bola, apoios verticais constantes, capacidade para segurar e entregar de frente, aproveitamento do espaço entre linhas. No último terço do terreno, o Sporting tinha jogadores que eram capazes de dar continuidade à troca de bola da equipa, jogadores capazes de propiciar mais soluções de passe e capazes de tabelar com os colegas. É inegável, para quem viu o Sporting jogar nessa altura, que a equipa tenha melhorado significativamente de qualidade. Na altura, referimos a presença destes dois avançados como a principal das causas para a melhoria que se registou. Além de a qualidade ter melhorado em relação ao passado e de a equipa ter apresentado um futebol como já não apresentava há já cerca de dois anos, o Sporting venceu também todos os jogos, entre eles um desafio frente ao Braga. Desde que Liedson regressou, o Sporting soma 1 empate e 5 derrotas, entre elas duas humilhantes goleadas ante os rivais. Nada poderia ser mais conclusivo, de novo. Junte-se a isto o regresso à ausência de ideias, a esterilidade dos processos ofensivos e a má qualidade, em termos gerais, do futebol praticado. O que mudou foi que o Sporting deixou de ter na frente, entre os defesas, um jogador capaz de dar continuidade ao processo ofensivo e passou a ter um jogador que raramente consegue dar continuidade ao que quer que seja e que só é útil no último toque. Com isto, o Sporting passou a jogar pior. Passou a não conseguir entrar no último terço do terreno com a bola controlada, como o fazia com Postiga; passou a perder mais bolas quando tinha de a trocar em espaços mais reduzidos; passou a viver mais do acaso e do improviso. Sugeriu-se, na altura, que a melhoria do mês de Janeiro tinha a ver com os adversários que o Sporting tinha encontrado, com a chegada de João Pereira e até com a mecanização das ideias de Carvalhal. Nada disto é verdade. O Sporting voltou a perder com o Braga e já encontrou adversários acessíveis aos quais não conseguiu ganhar, João Pereira manteve-se na equipa e as ideias de Carvalhal não deixaram de estar mecanizadas de um momento para o outro. O que mudou foi que o avançado que agora joga é completamente diferente do anterior e é alguém que não permite o mesmo tipo de coisas que o anterior. Sem Postiga, o Sporting é menos competente ofensivamente, joga pior, tem menos capacidade para ter a bola e torna-se uma equipa mais frágil. Não há como não reconhecer isto. Pode ganhar um avançado que faz alguns golos, mas perde capacidade de construir jogadas para golo. Pouco interessa que Liedson faça muitos golos se, com ele, a equipa é mais fraca. Postiga poderia nunca mais marcar golos na vida. Desde que continuasse a ter a influência que tem na manobra ofensiva da equipa, o Sporting seria sempre melhor com ele do que com Liedson.

A Mentalidade

Há quem ache ainda que, sobretudo num avançado, não fazer golos implica uma perda de confiança que afecta o seu desempenho geral. Isto não é verdade, como o comprova o exemplo de Ibrahimovic. Sobre a importância da mentalidade num jogador de futebol falarei brevemente. Para já, queria concentrar-me nesta ideia, que não faz sentido nenhum. Um avançado que valha pelos golos pode, de facto, sentir-se afectado se fica muito tempo sem marcar golos. Com o tempo, a ansiedade de voltar a marcar pode ser um factor emocional negativo, na hora de atirar à baliza. Mas achar que a ansiedade de não marcar golos implica um desempenho geral negativo é ridícula. O jogador pode sentir ansiedade quando confrontado com uma situação de finalização, mas dificilmente isso prejudicará o resto do seu jogo se tiver consciência de que, no resto, as coisas lhe têm saído bem. Basta olhar para os casos de Postiga e de Ibrahimovic. Talvez tenham denotado alguma ansiedade na hora de finalizar - sobretudo Postiga - mas continuaram excelentes em tudo o resto. A razão é simples. Ambos percebem a importância do resto das suas acções e não misturam as coisas. Aliás, estou plenamente convencido de que a reacção de Postiga ao facto de não marcar golos há tanto tempo passa por uma tentativa de se concentrar ainda mais naquilo em que é mesmo bom e que pode controlar, a sua inteligência, a sua capacidade para tabelar, para encontrar rapidamente soluções de passe, para jogar de costas para a baliza. Um jogador como Postiga, que sabe que é bom em determinadas acções e que não tem tido a felicidade de marcar, reage tentando estar mais concentrado naquilo em que se sente mais confortável. Talvez também por isso, por estar tão concentrado e preocupado com outras coisas, esteja tantas vezes longe das zonas de finalização. Postiga, ao contrário do que se pensa, não é mentalmente fraco. Se o fosse, todo o seu jogo se teria ressentido. Isso não aconteceu. Postiga tem reagido mentalmente bem, tal como Ibrahimovic o fez durante este período.

Uma coisa que demonstra que esta teoria não está certa é o facto de Postiga praticamente não usufruir de oportunidades de golo. É verdade que, as que teve, não conseguiu aproveitar. Mas não é um avançado que usufrua de muitas. Significa isto que Postiga não se mexe bem dentro da área? Não. Mexe-se bem. O problema é que não está tantas vezes em posição de atacar convenientemente as zonas de finalização porque passa mais tempo preocupado com outras coisas. A ausência de golos não provoca um abaixamento da confiança do jogador, como se pensa. Provoca, isso sim, que o jogador procure melhorar naquilo em que sabe que é bom, de modo a compensar a ausência de golos. Ao fazê-lo, acaba por, consequentemente, ter ainda menos oportunidades para marcar golos. Isto funciona sempre assim, em grandes avançados, em avançados com uma personalidade forte como Postiga. Funcionou assim com Ibrahimovic, também. Esta questão da mentalidade, portanto, é mais uma falácia que não tem qualquer fundamento.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Técnica: um Atributo Mental

Serve o presente texto de argumento contra a ideia de que é possível perder técnicas. Nele tentarei expor aquilo que entendo por técnica e rebater a ideia, aparentemente querida de muita gente, de que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, perdeu atributos técnicos. A extensão do mesmo resulta da complexidade do assunto e da dimensão filosófica pela qual decidi enveredar.

Coisas que não se esquecem


Por que razão, depois de aprendermos a andar de bicicleta, nunca mais desaprendemos? Por que é que, depois de se aprender a fazer malabarismo com três bolas, nunca mais se desaprende? Como é que conseguimos falar ao telefone e conduzir ao mesmo tempo? Por que é um canhoto consegue escrever tão bem com a mão esquerda e parece um deficiente mental com a direita? A resposta a estas perguntas tem um denominador comum: a técnica. Aprendemos uma técnica e, ao contrário do que querem crer algumas pessoas, nunca mais a voltamos a perder. Ter uma técnica ou ser capaz de uma habilidade consiste num processo de aprendizagem mental, processo esse que, uma vez concluído, fica "gravado" em nós, muito possivelmente na parte subconsciente do nosso cérebro. O acesso a essa "gravação", nestes casos, será imediato e instintivo. Executamos todas estas técnicas sem raciocinar, sem pensar se o estamos a fazer bem, mas de uma maneira natural. Isto ainda que, numa determinada altura da vida, não fôssemos capazes de fazê-lo. Noutros casos mais complexos, o acesso à "gravação" pode ser mais demorado e pode requerer, por falta de prática, uma determinada afinação.

No caso do futebol, a aquisição da técnica é um processo gradual, de constante modificação e aperfeiçoamento da relação entre indivíduo e bola, que é obviamente influenciado pelo crescimento do corpo. Durante o crescimento, a relação com os objectos tem de ser constantemente reavivada, pois o corpo, conforme vai crescendo, vai alterando a forma como reage aos estímulos. Ao contrário do que muita gente pensa, ser alto não é sinónimo de ser tosco. É verdade que o facto de ter um centro de gravidade mais baixo permite outras coisas aos jogadores, mas permite sobretudo agilidade, velocidade de reacção. É perfeitamente possível que um jogador alto seja tão dotado tecnicamente quanto um jogador baixo e há inúmeros casos de jogadores prodigiosos a nível técnico que não tinham um centro de gravidade baixo: Zidane, Riquelme, Ibrahimovic. Assim, a técnica não depende de uma certa estrutura morfológica, mas sim de um processo aquisicional. O facto de os jogadores altos, de uma maneira geral, terem menores competências técnicas não se explica pelo seu corpo, mas sim pela forma como o seu corpo cresceu. É portanto uma questão do foro da história do crescimento e da relação que se mantém, ao longo do crescimento, com o corpo. Maior parte dos jogadores grandes que são toscos terão tido, por certo, um crescimento gradual. Uma vez que o seu corpo cresceu de forma progressiva, não se estabelecia durante muito tempo de maneira a que desse tempo ao atleta para perceber exactamente como o seu corpo funcionava, o que, por fim, gerou um futebolista com competências técnicas abaixo do desejado. Por outro lado, os atletas cujo crescimento foi mais abrupto, tiveram mais tempo, em cada uma das fases de crescimento, para se relacionar com o seu corpo e para adquirir uma técnica aceitável. Por exemplo, dificilmente o crescimento de Ibrahimovic terá sido uma coisa gradual. O mais certo é ter crescido por etapas, muito de cada vez, o que lhe deu tempo para se aperceber das faculdades motoras ao seu dispor e para desenvolver uma competência técnica que, de outro modo, não poderia desenvolver.

Ter técnica é, pois, ter adquirido uma determinada competência mental. Aceder a essa competência mental, porém, não é um processo automático e depende muito da natureza da própria competência. No caso de andar de bicicleta, provavelmente porque envolve menos coisas e porque o aperfeiçoamento é menos exigente, temos poucos problemas, mesmo que o nosso corpo sofra modificações significativas. No caso do futebol, porque envolve muito mais coisas, porque implica não só a relação com o próprio corpo como a relação com uma bola e com um jogo muito específico e complexo, o acesso à técnica pode ser mais complicado. Mas detenhamo-nos, para já, em dois exemplos: bater livres e fazer truques com a bola. Estes dois exemplos são peculiares porque eliminam boa parte das variáveis que tornam o futebol um jogo cuja competência técnica depende de muita coisa. No caso dos livres, um jogador aperfeiçoa a sua técnica ao longo da carreira. Aperfeiçoar a técnica de bater livres é aperceber-se, gradualmente, das melhores condições para ter êxito nessa actividade. Ao longo do processo de aprendizagem, o jogador vai retendo as condições ideais de equilíbrio, a posição do corpo no momento de tocar na bola, o ponto específico da bola no qual deve acertar, a potência que deve dar ao remate, etc. Essa retenção nunca mais desaparece, embora o seu acesso possa não ser imediato. A interrupção da prática constante de bater livres pode tornar o acesso às condições ideais para o fazer mais complicado. Mas, nesse caso, é uma questão de retomar a prática constante, que "aviva" de certo modo a "gravação" do processo técnico. É por isso que, mesmo em idades avançadas, em idades em que já perderam grande parte das faculdades físicas, maior parte dos exímios marcadores de livres continuam exímios marcadores de livres. Lembremo-nos de André Cruz, por exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém, certamente, que David Beckham algum dia deixe de ser periogoso a bater livres, sofra o seu corpo as alterações que sofrer (desde que essas alterações não impeçam que continue apto para praticar futebol ao mais alto nível). De igual modo, fazer truques com uma bola depende de uma aquisição técnica que não se volta a perder. Fazer a chamada "volta ao mundo" só custa antes de sabermos fazê-la. Depois de aprendermos a técnica, sai naturalmente, porque "gravamos" as condições ideais para a sua execução. Nestes dois casos específicos, a execução perfeita pode ser afectada pela ausência de prática, mas nunca existe um esquecimento do que foi adquirido mentalmente.

A aquisição de uma técnica é, por isso, segundo esta defesa, um processo irreversível. Uma vez adquirida, temo-la para sempre. O que pode mudar é o acesso a essa técnica, sendo que este pode ser influenciado pela regularidade do acto de aceder a essa técnica, ou seja, a prática dessa técnica, ou pela modificação dos estímulos que nos fazem aceder à técnica. Um atleta, ao modificar o seu corpo, modifica a relação que tem com ele. Por outras palavras, modificará a forma como capta os estímulos exteriores. Ora bem, era aqui que pretendia chegar. Um jogador, ao modificar o seu corpo, não perde faculdades técnicas. O que acontece é que põe em conflito uma determinada "gravação", ajustada para responder de determinada maneira em função de um conjunto de estímulos específico, com um corpo que, por estar diferente, é estimulado de forma diferente. O novo conjunto de estímulos, uma vez que é diferente, não conduz à mesma "gravação" e tem de haver, nesta altura, uma readaptação da "gravação" ao novo conjunto de estímulos. Essa readaptação não constitui necessariamente, todavia, uma perda da "gravação" anterior. Trata-se somente de um ajuste.

Terá Cristiano Ronaldo perdido Técnica?

Dito isto, há quem defenda, muito seriamente, que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, tornando-o mais potente, perdeu faculdades técnicas. Por tudo o que foi dito acima, não concordo com isto. Perdeu, certamente, alguma coisa, mas nada do que perdeu é técnica. Terá perdido agilidade, capacidade de reacção, reflexos. Nada disto é técnica. São coisas, é certo, que podem participar do acesso à técnica. Mas não são a técnica em si. Podem facilitar a sua execução, mas não são, em concreto, a técnica. Aliás, no caso de Cristiano Ronaldo, a importância destas faculdades na sua técnica era até diminuta. A sua técnica nunca foi apurada ao ponto de necessitar do máximo de agilidade ou do máximo da capacidade de reacção imediata. Nunca foi forte, por isso, em espaços curtos; o seu drible curto estava pouquíssimo trabalhado, a sua capacidade para proteger a bola em condições espaciais reduzidas nunca foi relevante, etc. Assim, a perda necessária de algumas dessas características terá até tido uma participação diminuta na readaptação dos novos estímulos corporais à técnica pré-existente.

Ronaldo não perdeu a técnica que tinha, nem sequer perdeu capacidade individual, o que é muitas vezes confundido com "técnica". E isto por uma razão simples: aquilo que perdeu não era, já antes, predicado necessário na capacidade individual que tinha. A sua capacidade individual era manifestada mais pela potência do que pela agilidade ou pela velocidade de reacção. A competência individual de Ronaldo sempre dependeu da sua potência muscular e não dos seus atributos técnicos. Há, de facto, diferenças, mas elas não têm necessariamente a ver com técnica. O Ronaldo de antes fazia meia-dúzia de truques quando encarava os adversários no um para um, mas o factor que desequilibrava era sempre a sua explosão, a velocidade com que saía do drible. E isto ele não perdeu. Pelo contrário, a sua potência muscular actual permite-lhe ser mais forte até neste pormenor. A única diferença é que agora, antes de fazer valer a sua potência muscular, já não recorre a tantos malabarismos. E não porque não seja capaz de fazê-los (ainda que, muito provavelmente, a velocidade com que os executava não possa ser a mesma), mas antes porque percebeu a pouca importância dos mesmos no desfecho do duelo individual. Aquilo que mudou em Ronaldo foi o seu comportamento perante as situações. Ao ganhar experiência, percebeu que o recurso determinante era a forma como saía do drible e não tudo o que antecedia esse momento. Por isso, passou a conceder cada vez menos espaço aos artifícios técnicos e a dar prioridade ao arranque, à explosão, à mudança de velocidade, à velocidade de ponta. Nada disto implica que tenha perdido técnica.

Tem sido usada, para reforçar a tese de que que Cristiano Ronaldo perdeu competências técnicas, a entrevista de Nuno Amieiro a Vítor Frade, publicada no blogue Falemos de Futebol. Não tenho quaisquer problemas com as concepções teóricas veiculadas nessa entrevista e concordo que a aquisição de algumas coisas implica a perda de outras. Mas não considero que isso se passe ao nível da técnica porque simplesmente considero a técnica como um atributo próprio (ainda que, na sua formação, possa ser influenciado por um conjunto de atributos) e não uma soma de atributos. Tentando ser o mais analítico possível, aqueles que defendem que a alteração de atributos como a agilidade, a força, a velocidade, a potência muscular, os reflexos e a capacidade de resposta a estímulos, só para dar alguns exemplos, alteram a competência técnica do atleta não podem crer que exista uma coisa chamada "técnica". Essas pessoas acham que a "técnica" é uma substância predicada pela soma dos seus atributos, sendo esses atributos os acima mencionados. Neste sentido, a técnica seria uma entidade abstracta e o atleta mais competente a nível técnico seria aquele que reunisse o melhor equilíbrio entre os diferentes atributos mencionados. Ao contrário desta hipótese, considero a técnica um atributo em si e não uma substância. Isto é, para mim, a técnica é um atributo como os outros, conquanto de natureza diferente. É esta diferença de natureza que é necessário investigar.

A natureza relacional da Técnica

Atributos como a agilidade, a força, a potência muscular e afins são atributos que podem ser treináveis não-especificamente. Isto é, dependem apenas do indivíduo. Por outro lado, uma técnica, qualquer que seja, depende sempre da relação entre um indivíduo e um objecto. Equilibrar pratos no nariz, andar de bicicleta ou dançar requerem técnicas que só podem ser treinadas com o objecto sobre o qual se debruçam, respectivamente pratos, bicicletas e ritmos musicais, e também sob uma determinada forma de usar esses objectos. Nesse sentido, enquanto os outros atributos são especificamente atributos corporais, uma técnica é um atributo mental cuja execução é mediada pelo corpo. Adquirir uma técnica é, por isso, diferente de adquirir agilidade ou velocidade. Fica, portanto, evidente que a natureza de uma técnica é diferente da natureza de outro tipo de atributos. Falta explicar por que razão considero que essa diferença de natureza não faz da técnica uma substância predicada por vários atributos, mas sim um atributo como tantos outros. Se a técnica fosse uma substância, isto é, uma entidade abstracta que mais não é que um conjunto de vários atributos arranjado de uma forma específica, teria de poder ser treinável de forma descontextualizada, isto é, sem a presença do objecto sobre o qual essa técnica se debruça. Mas ninguém aprende uma técnica sem prática. Para aprender a técnica de andar de bicicleta é preciso andar de bicicleta. Logo, se aprender uma técnica depende do contacto com o objecto sobre o qual essa técnica se debruça, é impossível que ela seja apenas a soma de determinados atributos que não têm uma relação específica com esse objecto. Pelo contrário, a técnica é um atributo mental que se origina pela prática, isto é, que radica unicamente na relação entre indivíduo e objecto. Todo o ser humano adulto aprendeu, em determinada altura da vida, a andar. Andar é uma técnica porque consiste unicamente na relação entre um indivíduo e uma superfície. E é nessa relação e não nos dois pólos (indivíduo e objecto) que jaz a competência técnica.

Ao contrário, portanto, de muitos outros atributos, a técnica é essencialmente um atributo mental, um atributo cuja natureza é relacional e não intrínseca. Para que tudo isto seja coerente, tenho de defender que nenhuns dos atributos mentais são perecíveis. É o que pretendo. A técnica é um atributo semelhante à memória. Quando dizemos que memorizamos algo estamos a mentir. Memorizamos, isso sim, uma impressão de algo. E uma impressão é a relação entre um indivíduo e o algo que impressiona. A natureza da memória é, pois, igualmente relacional. Será que as memórias se perdem? Não creio. Acredito que retemos toda a experiência que acumulamos, (ou grande parte dela, pelo menos) ainda que não tenhamos consciência disso e ainda que certas coisas sejam mais difíceis de relembrar do que outras. Quando achamos que algumas das nossas memórias são pouco claras, não será apenas o acesso a elas que é deficiente? Há técnicas, como a hipnose, que nos permitem aceder a lembranças a que, de outra forma, nunca conseguiríamos aceder. Será, por isso, pelo menos legítimo afirmar que o que se modifica com o tempo é o acesso à memória e não a memória em si. E o mesmo se poderia passar com uma técnica: aquilo que se altera ou danifica é o acesso à técnica e não a técnica em si. O funcionamento de uma memória é assim muito semelhante ao funcionamento de uma técnica. Se exercitarmos recorrentemente uma memória, mantemos intacta a relação entre indivíduo e objecto. Da mesma maneira se mantém intacta essa relação, se exercitarmos recorrentemente uma técnica. Indo mais longe, possuir uma técnica consiste em possuir uma memória de uma relação entre o indivíduo e o objecto sobre o qual se debruça a técnica. Possuiremos sempre essa técnica, embora seja possível que nem sempre a tenhamos afinada, pelas mais variadas razões.

Há, porém, uma diferença relevante entre memórias e técnicas. Ao contrário do que acontece com uma memória, exercitar uma técnica depende daquilo que medeia a relação entre indivíduo e objecto, ou seja, o corpo. Seria possível, portanto, defender que, sendo o corpo precisamente o instrumento pelo qual se estabelece a relação entre indivíduo e objecto, relação essa que é a própria essência da técnica, qualquer alteração nesse instrumento resultaria numa necessária alteração da técnica. Discordo. A técnica mantém-se intacta. O que se modifica são os estímulos. Pensemos no exemplo de um pintor que tem por hábito pintar ora com os dedos ora usando pincéis. Se, por questões profissionais, estiver um ano a pintar com pincéis, perderá o jeito, a habilidade, a técnica de pintar só com os dedos? É óbvio que não. Poderá a sua prática estar enferrujada, mas a técnica não a perde, seguramente. E não consistirão, porventura, pintar com pincéis e pintar com os dedos duas técnicas diferentes, podendo o pintor dominar as duas? Penso que não. E penso que não porque o objecto sobre o qual se debruça a técnica de pintar não é nem o lápis, nem o pincel, nem os dedos. A técnica de pintar consiste na relação entre pintor (indivíduo) e tela (objecto). Os dedos e os pincéis são o corpo, isto é, aquilo que medeia a relação entre pintor e tela, sendo que o pincel é uma extensão do corpo na mesma medida em que uma caneta é uma extensão do corpo na técnica de escrever. Dito isto, é evidente que pintar com os dedos produz efeitos diferentes de pintar com pincéis. Mas o que produz esses efeitos diferentes é tão-somente a execução da técnica, que tem logicamente de ser diferente, pois é mediada de forma diferente. Assim, uma mesma técnica pode ter diferentes execuções, consoante o instrumento (e as potencialidades desse instrumento) através do qual se materializa a sua execução, mas não se modifica. Isto não implica que quem domina uma técnica seja capaz de executá-la das mais variadas formas. Como já ficou dito acima, uma técnica não se aperfeiçoa descontextualizadamente, mas pela prática. E praticar é executar a técnica, dependendo a execução do instrumento que se usa.

Ora bem, um pintor que tenha passado toda a vida a pintar com os dedos terá dificuldades, no imediato, em exprimir a sua técnica através do uso de um pincel. Mas aprender a usar um pincel não é o mesmo que aprender uma técnica. É uma questão meramente instrumental e requer apenas uma ligeira habituação. É certo que as potencialidades de pintar com pincéis são diferentes das potencialidades de pintar com os dedos, mas a técnica de desenho será igual nos dois casos. O que varia é a forma como essa técnica é colocada em prática e não a técnica em si. Um jogador de futebol, ao "engrossar", modifica a relação que tem com o corpo. Perde agilidade, reflexos, rapidez de execução. Ou seja, altera o instrumento através do qual executa a técnica que possui. Mas nada disto é técnica. A perda destas coisas pode implicar uma execução deficiente da técnica que possui, já que essa técnica está programada para reagir a estímulos diferentes daqueles que agora são captados. Mas da perda dessas coisas não se segue uma perda de técnica. O que ocorre é um conflito, um desajuste entre um conjunto de estímulos desconhecido e uma técnica conhecida e preparada para um determinado conjunto de estímulos específico. Este novo conjunto de estímulos, embora desconhecido, não irá requerer uma nova aprendizagem e não irá produzir uma nova técnica. Isso seria admitir que a mais pequena transformação corporal destruiria por completo a técnica pré-existente. O que vai acontecer é que este novo conjunto de estímulos irá ter de aprender a aceder à técnica já existente. Dessa aprendizagem, dessa habituação, não resultam perdas de técnica, pese embora as potencialidades não sejam as mesmas. Tal como um pintor, ao pintar com os dedos, não tem ao seu dispor as mesmas potencialidades que tem ao pintar com pincéis, um jogador de futebol, ao "engrossar", tem potencialidades diferentes. Provavelmente, não conseguirá executar aquilo que tem em mente com tanta rapidez, pois possuirá menos flexibilidade. Mas também é provável que consiga executar aquilo que tem em mente com mais potência. Assim, não é a técnica que se perde ou se altera; o que sofre modificações é a forma como essa técnica é executada. A execução de uma técnica corresponde àquilo a que chamei "acesso" a uma técnica. Esse acesso pode ser dificultado por ausência de prática, que no fundo é tornar menos presente a relação entre indivíduo e objecto, ou por alterações no indivíduo ou no objecto, o que implica alterações na relação entre os dois. Ultrapassar esta última dificuldade implica, como tentei demonstrar, um ajuste. "Engrossar" não implica, portanto, uma perda de competência técnica, mas um ajuste dessa competência técnica, ajuste esse que só pode ser conseguido pela prática da técnica. Ajustar uma determinada competência técnica passa então por aplicar a técnica pré-existente aos novos estímulos propiciados pela nova relação entre indivíduo e objecto.

Técnica e Talento

Falta dedicar, por fim, algumas palavras em relação à diferença entre técnica e talento. Por técnica entendo, como penso ter ficado claro, a relação de um indivíduo com um objecto, relação essa que é orientada para uma determinada finalidade. Assim, o mesmo indivíduo e o mesmo objecto podem originar técnicas diferentes, mediante a finalidade a que se proponha a própria técnica: um homem pode relacionar-se de diferentes maneiras com uma caneta, consoante o fim a que se proponha, e desenvolver a técnica da escrita, a técnica do desenho, a técnica de equilibrar canetas no nariz, etc. Uma vez que a essência de qualquer técnica é precisamente o ser uma relação específica e contextualizada entre um indivíduo e um objecto, possuir uma técnica é possuir um atributo diferente de atributos como a velocidade, a agilidade, a força, etc. Estes atributos são treináveis por si, podendo ser adquiridos através de um treino analítico, descontextualizado. Como defendi, uma técnica, por ser essencialmente uma relação entre coisas, é um atributo mental, atributo esse cujo aperfeiçoamento não está, de maneira nenhuma, dependente da quantidade existente dos outros atributos. Pode ser que, por esta altura, para muita gente, a noção de talento entre em conflito com a noção de técnica. Não creio que exista problema algum. Uma técnica consiste numa relação simples entre um indivíduo e um objecto; um talento consiste numa relação complexa entre um indivíduo e um objecto e uma situação. Assim, o talento será igualmente um atributo mental, ou seja, será um atributo da mesma natureza que a técnica. Mas será um atributo mental de natureza complexa, que envolverá, mais do que a relação entre um indivíduo e um objecto, a relação entre estes dois e uma situação complexa. Assim, de uma pessoa que sabe andar de bicicleta diz-se que tem técnica para tal, mas não se diz que tem talento. Andar de bicicleta requer técnica, não talento. Andar sobre uma corda, equilibrar pratos, fazer malabarismo são técnicas, não talentos. Aliás, nenhuma arte circense requer talento. É por isso que são artes menores, quando comparadas com as grandes artes. O mesmo se aplica a um guitarrista. É perfeitamente possível que consiga desenvolver uma técnica perfeita e que consiga tocar guitarra de uma forma exemplar. Mas isso não basta para ser talentoso. Através do uso dessa técnica será capaz de imitar os grandes guitarristas, mas é possível que não consiga criar nada de verdadeiramente grandioso. Isto porque o talento para a música é muito mais do que o domínio perfeito da relação entre o indivíduo e uma guitarra.

Contribuem para o desenvolvimento de um talento não só a técnica, mas também outros atributos mentais, como a inteligência, a criatividade, o conhecimento, a intuição, etc. Há inúmeros casos de pessoas que possuem uma técnica perfeita mas que não são minimamente talentosas. Um exímio falsificador de quadros tem de ser alguém possuidor de uma técnica perfeita, mas não é, se não for capaz de produzir arte sua com relativo valor, um artista talentoso. Também no desporto há exemplos destes. Os Globetrotters são tecnicamente perfeitos e conseguem fazer coisas em basquetebol que não está ao alcance de todos. Mas terão talento para jogar basquetebol? Isto é, conseguiriam ser tão competitivos como os melhores jogadores de basquetebol? Em futebol, são incontáveis as pessoas que são capazes de fazer truques com a bola e que dominam com perfeição a relação com a bola. Mas para serem talentosos teriam de saber jogar futebol, e muitas destas pessoas não o sabem. Falcão, o mais reputado jogador de futsal do planeta, é tecnicamente perfeito, domina a relação com a bola como poucos. No entanto, o seu talento para jogar futebol de 11 é diminuto, não obstante ser um muito talentoso jogador de futsal. É possível concluir, portanto, que ao contrário da técnica, o talento não depende apenas de uma relação específica, orientada para uma determinada finalidade, entre indivíduo e objecto, mas de uma relação entre essa relação e uma situação complexa que exige uma competência diferente de uma competência técnica. Adquirir um talento depende por isso, muito mais do que do domínio da relação com um objecto, de uma determinada percepção de uma situação complexa. Nesta percepção intervem, muito mais do que quaisquer competências técnicas, todo o intelecto. É por isso que um talento é uma capacidade complexa, passível de ser adquirida apenas pela experiência da situação complexa em questão, e nunca uma predisposição inata. Na sua aquisição influem muitas coisas, nenhuma delas possível de desenvolver na ausência da situação complexa que o determina. Há, para finalizar, ainda outra diferença importante entre uma técnica e um talento. Uma técnica, sendo a relação entre um indivíduo e um objecto, é mediada por um corpo, ou seja, a sua execução depende de um corpo que a concretize. Um talento não tem esta dimensão; não se executam talentos. A execução tem um papel relevante numa técnica, mas não o tem num talento. O xadrez é tipicamente um desporto para o qual não existe uma técnica relevante, mas para o qual é necessário talento, ou seja, formas eficazes de perceber coisas. Assim, ao contrário da técnica, que é um atributo mental que se concretiza pela acção de um corpo num objecto, o talento é um atributo mental puro, desenvolvido independentemente do corpo e do objecto e em função de uma situação complexa.