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domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Campeão Inglês

Ainda há alguém que acha que Claudio Ranieri é um génio, e que a conquista histórica do Leicester, o ano passado, implica necessariamente um óptimo trabalho do seu treinador? A equipa que este ano está a lutar para não descer é basicamente a mesma equipa que o ano passado surpreendeu tudo e todos. Como é que aqueles que insistiram em explicar o sucesso do Leicester através da competência do seu treinador explicam agora o que se está a passar este ano? Ranieri era genial o ano passado e banal este ano? Foi uma febre que lhe deu? O verdadeiro retrato do Leicester, do mesmo Leicester que o ano passado ganhou o campeonato inglês, é o que está abaixo. É o momento do passe de Mkhitaryan que isola Mata para o terceiro golo do Manchester United, hoje à tarde.



O Leicester de Ranieri é isto: jogadores ao monte, desorganização geral, referências ao homem, etc.. Muita fé e pouca ciência, em suma! Foi isto que foi campeão inglês o ano passado. Se querem elogiar o Leicester, muito bem. Mas o que estão a elogiar é isto. E isto é a Pré-História do jogo. Foi campeão porque o ano passado as únicas equipas que jogavam um jogo minimamente parecido com aquilo que o futebol é actualmente fizeram uma má época, porque os jogadores do Leicester se convenceram a dada altura de que eram melhores do que na verdade são e porque, em Inglaterra, o jogo continua a ser pré-histórico.

domingo, 27 de dezembro de 2015

O Retrato da Liga Inglesa num só Lance

Há imagens que valem por mil palavras. A Liga Inglesa é, pelo investimento que hoje envolve, a liga com mais potencial no mundo. Não obstante, o futebol praticado continua a ser, em larga medida, deplorável. A minha teoria - há muito que a defendo - é a de que a mentalidade desportiva não tem permitido que o jogo evolua. Apesar de a quantidade de grandes jogadores continuar a aumentar, apesar do investimento estrangeiro ser cada vez mais comum, e apesar de, finalmente, começarem a ser contratados treinadores estrangeiros não apenas para as principais equipas, o futebol inglês continua amarrado a um conceito de desporto que, no limite, é contraproducente. A predilecção pela velocidade ou pelo músculo em detrimento do cérebro, pelas qualidades atléticas dos jogadores e não pelas suas qualidades intelectuais, a insistência absurda em defender que o futebol é um jogo de contacto, cuja principal consequência é um modelo de arbitragem que, grosso modo, beneficia os toscos e prejudica os artistas, e, sobretudo, a cegueira a que a generalidade dos intervenientes são conduzidos pela emoção desmesurada com que o jogo é encarado continua a dificultar a evolução do futebol britânico.

É possível apresentar um bom retrato do que acabo de dizer. Num dos últimos lances do encontro que opôs o Liverpool de Klopp ao sensacional líder do campeonato, o Leicester City de Ranieri, a equipa visitante procura chegar ao empate, e Kasper Schmeichel sobe para a grande área. A bola acaba por ser sacudida pela defensiva do Liverpool e sobra para Kanté, penúltimo defensor do Leicester, que se prepara para a reenviar para a área. Tudo o que acontece de seguida é o espelho de um campeonato da idade da pedra. Embora absurdo, não me interessa muito nem a falta claríssima sobre o jogador do Leicester (um dos muitíssimos contactos faltosos que, ao longo do jogo, não foram punidos pelo árbitro da partida e que, ajudando a criar a ilusão de que o jogo foi muito disputado e intensíssimo de parte a parte, retiraram a meu ver todo o interesse à partida, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista táctico), nem o falhanço clamoroso de Benteke, que não soube aproveitar uma situação de clara vantagem numérica. Interessa-me, sim, o que acontece entre esses dois momentos. Refiro-me ao passe que faz a bola entrar em Benteke.



Que nenhum elemento, das três equipas que se encontravam em campo, tenha percebido a irregularidade do lance, nem no momento em que ele decorria, nem depois de ele ter terminado, diz tudo do futebol que se pratica em Inglaterra. Nem o árbitro, nem o fiscal de linha, nem o jogador do Liverpool que faz o passe, nem o jogador do Liverpool que o solicita, nem nenhum outro jogador do Liverpool, nem o defesa do Leicester que ficara para trás com a subida do guarda-redes, nem o guarda-redes que vem a correr desalmadamente, nem qualquer outro jogador do Leicester (ninguém protesta!), percebeu que um passe para um jogador que, estando à frente da linha de meio-campo, tem à sua frente apenas um defensor, é um passe irregular. Consigo admitir que um árbitro interprete mal um lance, sobretudo se esse lance não for muito vulgar (a invulgaridade, aqui, era o último defensor não ser o guarda-redes). Um fiscal de linha, contudo, já não deveria falhar, nesse tipo de coisas, pois tem menos tarefas nas quais se deve concentrar. De qualquer modo, não é do erro da equipa de arbitragem que é importante falar. Que ninguém dentro das quatro linhas (e aposto que nas bancadas também não houve muita gente a aperceber-se da irregularidade do lance) tenha percebido a posição de fora-de-jogo da qual Benteke tira proveito é, a meu ver, o melhor retrato possível do que vai mal no futebol inglês. Nos estádios ingleses, a inteligência fica nos balneários. Enquanto isso não mudar, dificilmente o futebol inglês atingirá o patamar qualitativo a que o potencial económico o promete alçar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Futebol do Tottenham de Pochettino

O treinador mais interessante da Premier League chama-se Mauricio Pochettino. O adepto normal, assim como o comentador enfebrecido, têm porém os escrúpulos domesticados pelas opiniões vulgares dos que acreditam que a diferença entre o futebol e o halterofilismo é haver uma bola. O tom depreciativo com que os comentadores da Benfica TV falam do Tottenham de Pochettino, por exemplo, é absurdo. No ano passado, quando as coisas não corriam bem, passavam os jogos a sugerir que o treinador argentino viera descaracterizar o futebol inglês. Convencidos de que o futebol inglês é genuíno e de que em terras de Sua Majestade é que se joga a sério, tais comentadores viam o estilo da equipa londrina como uma aberração. Não é preciso muito para mostrar o quão errados estão. O futebol inglês, no seu todo, leva uns 30 anos de atraso; as competências colectivas da maior parte das equipas são pouco mais do que rudimentares; o futebol praticado é horrível, do ponto de vista da criatividade e da inteligência, e só provoca emoções naqueles que não sabem que emoções devem ter; as equipas inglesas, como se demonstra pelos fraquíssimos resultados que continuam a averbar na Europa, não têm capacidade para ombrear com as equipas europeias. Ao contrário do que pensam tais comentadores, o futebol inglês precisa de ser descaracterizado. Precisa, portanto, de mais Pochettinos. Quando as coisas começaram a correr bem ao Tottenham, quando aquele mesmo futebol, que era motivo de escárnio apenas por não obter os resultados que depois veio a obter, passou a ser eficaz, os mesmos comentadores tiveram certamente de engolir alguns sapos.

A segunda época de Pochettino à frente dos londrinos começou, de novo, menos bem, e logo os mesmos comentadores voltaram a fazer-se ouvir. Durante a primeira parte do jogo deste fim-de-semana com o Sunderland, todos os elogios eram dirigidos para os contra-ataques adversários, para a velocidade imprimida por Lens e Defoe. O Tottenham jogava organizado, de pé para pé, com qualidade, procurando atrair para desmarcar, insistindo em desfazer as linhas adversárias com paciência, invadindo o espaço entre linhas e sem pressa de chegar a zonas de finalização. À medida que o tempo ia passado e o nulo inicial não se alterava, os comentadores iam sentindo cada vez mais necessidade de exprimir a sua repugnância por um futebol que não compreendem e julgam errado. Entre outras coisas, afirmavam com desdém que Pochettino tinha "alergia aos extremos" ou que a história e a tradição de uma equipa como o Tottenham impunha outro estilo de jogo. Ora, é muito difícil explicar a tartarugas que "alergia a extremos" é possivelmente o melhor sintoma que podiam verificar actualmente num treinador de futebol. Hoje em dia, convencionou-se que qualquer equipa tem de abrir o seu jogo atacante, que deve usar extremos velozes, fortes no um para um e úteis em momentos de transição. Para a maior parte das pessoas, ter dois extremos deste género em campo é a única forma de provocar desequilíbrios, no futebol moderno. Ora, a maioria das pessoas não percebe nada de futebol. Não sendo contra a utilização de extremos, sou contra a ideia de que os extremos servem para este género de tarefas. É por isso que considero que um treinador que tem orçamento para contratar alguns extremos capazes de desequilibrar e não o faz, um treinador que dispensa os seus extremos (Lennon) ou não os utiliza com regularidade (Towsend), é um treinador que percebe que, ofensivamente, a equipa deve privilegiar soluções colectivas em detrimento de soluções individuais. Ser alérgico a extremos é sintoma de quem percebe que uma equipa é muito mais do que as individualidades que a compõem, e é por isso que Pochettino, ao contrário do que pensam aqueles que não percebem nada de futebol, é muito melhor treinador do que a maioria dos treinadores ingleses.



Não vi a segunda parte do jogo, mas dava muita coisa para ter presenciado a reacção dos energúmenos que comentavam o jogo quando o Tottenham chegou ao golo, já perto do fim do jogo. É que o golo dos londrinos é fruto justamente da insistência no tipo de futebol que esses comentadores não compreendem, no tipo de futebol que dispensa a utilização de extremos velozes a quem entregar a bola assim que é recuperada para que estes forcem os desequilíbrios na defesa adversária. O Tottenham joga preferencialmente pelo centro do terreno, colocando muita gente no meio, e insistindo em passes verticais que servem para desmontar as linhas adversárias e para aproveitar o espaço entre elas. E este golo é o melhor exemplo da utilidade desse futebol. Um toque de Lamela para Mason, o passe vertical deste para Kane, que dá de primeira em Lamela, que entretanto tinha arranjado espaço, fruto do desinteresse em si que a bola motivou, e o passe de Lamela a solicitar Mason no espaço libertado pelo central que foi atrás de Kane foi tudo o que bastou. Três jogadores e quatro passes chegaram para desmontar as linhas defensivas do adversário. Com passes curtos, tabelas e triangulações, o futebol é muito mais eficaz do que com os tão elogiados extremos que correm a direito e provocam desequilíbrios individuais. Os comentadores desportivos, sem grandes excepções, continuam a não perceber isto e continuam, semana após semana, a dizer disparates. O jogo continua a evoluir, mas aqueles que ganham a vida à custa do futebol insistem em falar do jogo que os seus avós lhes ensinaram a ver. A inteligência é uma coisa bonita, mas é quando permite aos homens aprender que aquilo que aprenderam não é válido para sempre.

sábado, 18 de abril de 2015

Notas Soltas sobre a Jornada Europeia

1. A primeira nota é sobre a surpresa do Dragão. O resultado é surpreendente, mesmo para um optimista e mesmo reconhecendo que faltaram ao Bayern vários jogadores importantes. Mais surpreendente será, talvez, a apatia dos alemães, sobretudo na segunda parte, e a incapacidade de condicionar o adversário, como habitualmente, pelo jogo de posse. A maior parte das pessoas teceu rasgados elogios à estratégia de Lopetegui e não se coibiu de traçar um nexo causal entre essa estratégia e o resultado do jogo. Não querendo de modo algum sugerir que a pressão portista não teve alguns efeitos desejados, parece-me um exagero, porém, atribuir a essa estratégia qualquer um dos golos com que o Porto construi a interessante vantagem que leva para a segunda mão. Sim, essa estratégia foi importante na forma como, na segunda parte, o Porto conseguiu evitar que o Bayern fizesse o seu jogo habitual de posse e fosse conseguindo as habituais penetrações frontais, mas não foi responsável por mais nada. Já não é de agora, mas sempre que um jogo corre mal a Guardiola, para a opinião pública, é porque o treinador contrário descobriu a pólvora. Enfim... Sobre o terceiro golo, não sei se é preciso dizer mais do que foi um pontapé para a frente, um erro de Boateng, que não percebeu onde é que a bola ia cair, e uma recepção fenomenal de Jackson. Quanto aos outros, são erros individuais não potenciados pela pressão portista, como se alegou. Pressão não é aquilo que Jackson e Quaresma fizeram nos dois primeiros golos, respectivamente. Aquilo é uma iniciativa individual que, quando muito, serve para atrasar a saída de bola do adversário. Pressão é um comportamento colectivo. Não foi a pressão do Porto que forçou aqueles erros e não foi a estratégia de Lopetegui que deu resultado. Foram erros individuais. E os erros individuais não são da responsabilidade dos treinadores. Não perceber isto é achar que, desde que o Porto consiga repetir a estratégia, tem a eliminatória garantida. Não tem.

2. Ainda sobre um aspecto do que disse acima, há a tendência absurda, hoje em dia, para elogiar treinadores cuja estratégia consiste em estabelecer zonas de pressão e em atacar rapidamente assim que se recupera a bola para aproveitar o espaço nas costas do adversário. O absurdo disto está no facto de não se ser capaz de ver estratégia em mais lado nenhum. Só há stratégia, para esta gente, quando uma equipa abdica propositadamente da bola para poder atacar com mais espaço depois. Não há paciência para estes miseráveis... Para esta gente, se uma equipa assume deliberadamente o jogo, é porque tem melhores jogadores; se não o assume deliberadamente, é porque o treinador é um estratega. E quando a estratégia defensiva, calculista, de esperar pelo erro do adversário, não tem sucesso, é porque os jogadores não a souberam cumprir. Para esta gente, a estratégia de defender atrás, pressionar nas zonas certas e sair rapidamente para o contra-ataque é infalível, desde que os jogadores se comportem como devem. Foi mais ou menos isto que Luís Freitas Lobo foi insinuando no jogo que opôs o PSG ao Barcelona. Se, por acaso, o PSG tivesse feito golo naquele contra-ataque conduzido por Lavezzi que terminou com Cavani a perder espaço e a permitir o corte de Mascherano, o que na altura daria o empate, assistiríamos decerto ao elogio da estratégia de Laurent Blanc. Como não resultou, e como o Barça continuou a mandar no jogo e ainda dilatou a vantagem, o insucesso explica-se ou pela apatia dos jogadores ou por o treinador não ter posto outro tipo de jogadores.

3. Foi só isto que se ouviu dizer pelos comentadores de serviço da Sporttv responsáveis pela cobertura da jornada da Liga Europa (Helena Costa e outro pateta). O Wolfsburgo perdeu por 4 a 1 em casa com o Nápoles porque Benitez é um estratega e porque os alemães não apresentaram agressividade, empenho e mobilidade suficiente. Para esta gente, só é possível contrariar aquela super-estratégia de ficar fechadinho atrás da linha da bola sendo mais agressivo, empenhado e mexido. 99% das pessoas que comentam futebol na televisão repetem ladainhas e ideias disseminadas que ou estão erradas ou não são bem aplicadas. Vêem um ou outro jogo e aplicam rótulos que ficam para sempre. Como ouviram dizer que Benitez é assim e como, se calhar, viram um jogo do Sevilha contra um adversário mais forte, decidiram que Unai Emery é como Benitez. E passaram o tempo todo a falar de como os dois são iguais, de como as equipas de ambos jogam defensivamente, esperando o momento certo para atacar, e de como, por essa razão, são mal amados num país em que a maior parte dos treinadores defende uma cultura de posse. Eu até aceito que em Espanha haja mais treinadores a defender uma cultura de posse do que noutros países. Daí a serem todos vai um salto enorme. E incluir Unai Emery entre os treinadores calculistas cujas equipas abdicam da bola é um disparate que não é possível qualificar.

4. Regressando ao jogo de Paris, Luís Freitas Lobo também repetiu alarvidades. As principais tiveram a ver com Matuidi e com Pastore. Para Freitas Lobo, Matuidi é o melhor médio a jogar pela meia esquerda do mundo, signifique isso o que significar. A única coisa que Matuidi fez, no jogo de quarta-feira, foi aparecer no flanco esquerdo, a ir buscar bolas perto da bandeirola de canto. Não fez mais nada senão piques para ir apanhar a bola onde ela dificilmente seria útil. Piques! Um jogador é o melhor do mundo a jogar ali pela meia esquerda porque faz piques! Ao que chegou o comentário futebolístico em Portugal! Só esta opinião seria suficiente para que Freitas Lobo merecesse o internamento, mas é preciso confrontá-la com a opinião sobre Pastore para se perceber exactamente o tipo de coisas de que gosta. Ao contrário do que disse de Matuidi, que elogiou ad nausea, e sempre que mexia uma das pernas, Freitas Lobo passou o jogo a dizer que Pastore gostava de fazer as coisas com classe, que tecnicamente era evoluído, mas que era lento para jogar a este nível. O que fazia falta, a meu ver, era um comentador que, quando Freitas Lobo dissesse estas coisas, lhe perguntasse rapidamente o que achava de Pirlo, de Kroos, de Busquets, de Iniesta, de Thiago Alcântara ou de Fabregas. Gostava de saber, embora já saiba, de que maneira para Freitas Lobo estes jogadores são diferentes de Pastore. A resposta é óbvia, apesar de Freitas Lobo não a saber dar: são jogadores conceituados e, como tal, o que fazem é bem feito. A lentidão é apenas um defeito, para Freitas Lobo e outros atrasados mentais, de jogadores que não sejam conceituados. Nesses, lentidão é contemporização, planeamento, cérebro. Sim, pode-se jogar a este nível sem pressas, senhor Freitas Lobo! E não só se pode como é aconselhável que se faça. Na opinião de Freitas Lobo, o que falta a Pastore é ser Matuidi. Na opinião de quem percebe alguma coisa do jogo, pelo contrário, não falta nada a Pastore e falta tudo a Matuidi.

5. Sobre o duelo madrileno, tenho pouco a dizer. Foi mal jogado, de parte a parte, e só os adeptos de outros desportos e os amantes do futebol inglês é que podem gostar de um jogo cujo único motivo de interesse é a disputa da bola. Sim, foi um jogo intenso, muito disputado, com os jogadores muito empenhados. Dito isto, foi um jogo paupérrimo. Quando as equipas se preocupam em demasia em disputar cada bola como se fosse a última, transferem a concentração para essa necessidade e o futebol perde qualidade. Aproveitando a dicotomia proposta por Freitas Lobo, foi um jogo de Matuidis quando podia ter sido um jogo de Pastores. Há, no entanto, um lance que merece o meu reparo. Passou-se na área do Atlético de Madrid, com Benzema a receber uma bola com algum espaço. Ao invés de se tentar virar para a baliza, enquadrando-se com ela, o francês tentou uma habilidade de calcanhar, deixando a bola, contra todas as previsões, à entrada da área, para Ronaldo finalizar. Como Ronaldo estava apertado, o remate acabou por ser obstruído, e a jogada não teve efeito. Para Pedro Martins, que comentava o jogo, o avançado do Real tomou uma má decisão, pois estava em boa posição quando recebeu a bola e devia ter tomado a decisão mais simples de tentar finalizar ele. Não só não é certo, contudo, que Benzema ficasse com espaço para finalizar depois de rodopiar sobre si próprio, como não me parece que ser o mais simples possível seja sempre o melhor que há a fazer. Por vezes, complicar é a melhor decisão. E o que é espantoso, a meu ver, é que se diga que esta foi uma má decisão quando, semanas antes, em Camp Nou, numa jogada muito parecida, o toque de calcanhar do francês permitiu a Ronaldo fazer o golo com que, na altura, o Real empatava. Mais uma vez, é o desfecho da jogada, não a decisão do jogador, que conta para esta gente. Benzema lembrou-se de fazer uma coisa que poucos estavam à espera e fê-la bem. Como é normal, ele não pode prever o comportamento de todos os adversários, assim como não pode prever o comportamento do colega a quem vai entregar a bola. Tem que confiar que as coisas vão correr bem. Em Camp Nou, bastava que alguém do Barcelona tivesse antecipado aquilo para que a jogada não tivesse efeito. Neste caso, como no outro, só posso gabar a iniciativa de Benzema. Arriscou fazer uma coisa diferente que, tendo a desvantagem de ser mais difícil de pôr em prática, acarretava a vantagem de ser menos previsível para os adversários. Não foi bem sucedido, mas tomou uma boa decisão. Não perceber isto é também não perceber bem a diferença entre quem é simples e quem sabe simplificar.

6. A última nota é sobre a melhor liga do mundo. Há anos a fio que se diz que a Liga Inglesa é o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo, aquele em que se joga melhor, etc.. Parece-me mais ou menos incontestável que é aquele que movimenta mais dinheiro e aquele que maior capacidade tem para atrair os melhores jogadores. Não se segue daqui que seja o melhor. Para dizer a verdade, é até discutível que esteja entre os cinco melhores campeonatos da Europa. O futebol em terras de Sua Majestade continua a ser primitivo e nem a chegada de treinadores continentais, contra os quais se levantam já algumas vozes, argumentando que estão a descaracterizar o futebol inglês, tem sido suficiente para que esse futebol se consiga manter ao nível dos melhores da Europa. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, há três equipas espanholas, duas francesas, uma italiana, uma alemã e uma portuguesa. Nos quartos de final da Liga Europa, há duas equipas italianas, duas ucranianas, uma russa, uma espanhola, uma alemã e uma belga. Nos quartos de final das duas provas europeias, não resta uma única equipa inglesa. Não explicando tudo, explica alguma coisa. As melhores equipas inglesas estão num nível inferior às melhores equipas do resto da Europa, e as restantes equipas com aspirações europeias estão num nível inferior às restantes equipas do resto da Europa. Como é que a alegada melhor liga do mundo é incapaz de pôr um único clube entre os dezasseis que ainda se encontram em prova? Enquanto se continuar a achar que jogar futebol é correr muito, lutar muito e transpirar muito, nada mudará. Os treinadores continentais podem ser capazes de introduzir novas ideias, mas precisarão de décadas para mudar mentalidades. E é essencialemente a mentalidade que distingue o futebol inglês que faz com que seja bem inferior ao futebol que se pratica noutros sítios.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Tottenham de Villas-Boas

André Villas-Boas foi um dos treinadores que mais nos impressionou nos últimos anos. Em poucas semanas, quando chegou à Académica, revolucionou o estilo de jogo da equipa. Os seus jogadores, com poucos treinos, mostravam organização, qualidade de jogo e personalidade de equipa grande. Depois, ao longo da época, a qualidade foi aumentando; tirando os desafios contra os grandes, era sempre a sua Académica quem dominava os jogos pela posse. Ainda assim, faltava imaginação no meio-campo. Assumimos que faltasse por não haver qualidade individual suficiente. No Porto, a história foi obviamente outra. Um ano extraordinário, em que ganhou tudo, bateu records, e ainda fez de Hulk um jogador ligeiramente menos auto-centrado. Mas mesmo o seu Porto não convenceu totalmente. Era uma equipa muito bem organizada, com alguns mecanismos ofensivos muito bem trabalhados, mas excessivamente vertical. Assumimos, uma vez mais, que tal fosse consequência da presença de Hulk, em quem Villas-Boas sempre apostou incondicionalmente, e assumimos também que o ocaso de Belluchi, na segunda metade da época, fosse motivada pela lesão que sofreu em meados da mesma. No Chelsea, modificou as suas ideias assim que as coisas começaram a correr mal e, em abono da verdade, é difícil fazer uma análise justa ao seu desempenho não sabendo quanto do mesmo foi minado pela pressão do grupo de jogadores. No Tottenham, portanto, tinha Villas-Boas o seu derradeiro exame. Numa equipa de segunda linha, com um plantel interessantíssimo e um orçamento bastante apetecível, sem a pressão de ter de vencer nada, tinha Villas-Boas todas as condições para apresentar as suas ideias.

A decepção não pode ser, por isso, maior. Interessa-me pouco que o Tottenham esteja à frente de equipas como o Arsenal e o Liverpool, por exemplo: o futebol praticado pela equipa é deprimente. Interessa-me pouco, também, que a equipa demonstre carácter e ambição, que discuta até ao fim o resultado com o campeão em título, que não baixe os braços, que denote uma enorme vontade. Só a qualidade do futebol me interessa. E essa é francamente má. Sim, há organização, há competência táctica, há trabalho de casa feito. O que não há é um pingo de imaginação. A equipa de Villas-Boas é cinzenta, joga mecanicamente. Não tem ideias, e não procurou cortar com nada do que se continua a fazer em Inglaterra. Villas-Boas tem provavelmente o plantel atleticamente mais refinado, das 6 equipas de topo do futebol inglês. Tem laterais que parecem cavalos, tem médios fortes do ponto de vista físico, e muito dinâmicos, tem talvez a dupla de extremos mais veloz da competição. Mas não tem um único jogador de futebol. No início da época, à inevitabilidade de perder Modric, o seu médio mais interessante, juntou Villas-Boas a dispensa de Van der Vaart e Kranjcar. Para o meio-campo, foi buscar Dembélé e Dempsey, dois bons jogadores, física, táctica e tecnicamente, mas a quem falta criatividade. Juntou a toda esta modificação a ostracização ainda de Scott Parker, o único médio com ideias diferentes. O único central de jeito que tem veio-lhe parar às mãos quase por acaso, uma vez que estava contratado antes de Villas-Boas ter assinado, e não é uma aposta clara, jogando até a defesa-esquerdo quando Assou-Ekotto não pode. Falo de Jan Verthongen, obviamente. De resto, André Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com o facto de ter uma dupla de centrais de estacas, joguem Dawson, Caulker, Kaboul ou Gallas. Na direita, Kyle Walker é o tipo de lateral vistoso, que corre muito, que é agressivo, que disputa todos os lances como se fossem o último da sua vida, mas que comete, pelo menos, cinco erros graves por jogo, e faz disparates atrás de disparates, quando tem a bola. Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com isso, e Kyle Walker continua o dono indiscutível da posição. Não sei se Villas-Boas teve ou não responsabilidades na dispensa de Corluka, mas o croata é vinte vezes melhor que Walker.

Na frente, Jermaine Defoe tem sido o dono do lugar de ponta-de-lança. É um jogador vertical, que serve apenas para solicitações nas costas da defesa e jogo de área. Não tem qualidade nos apoios, e é um avançado a quem falta qualidade para jogar numa equipa que procure um futebol interior, de posse, paciente. Aaron Lennon é um extremo velocíssimo, mas que não sabe o que é uma equipa. Nunca achei que pudesse vir algum dia a aprender a jogar com os colegas, e o seu jogo esta época parece-me ainda mais deficiente. Quando sai do drible na linha, já tem a jogada toda na cabeça; não há uma única ideia ali. Ou vai forçar o um para um para fora até cruzar, ou vai driblar para dentro até ter espaço para rematar. Ontem, frente ao Manchester United, há um lance que o define. Finta para dentro, arranja espaço na zona frontal, e a sua acção faz com que os defesas de Alex Ferguson ajustem o seu posicionamento, vedando a zona central, o que cria um buraco que deixa Dempsey completamente isolado. Ao chegar à zona de tiro, com dois adversários pela frente, bastava encostar no colega, que ficava com De Gea só pela frente. Lennon, porém, já tinha executado tudo na sua cabeça, e rematou, sem consequências. Para que serve toda aquela velocidade, toda aquela qualidade técnica, toda aquela explosão, aquela capacidade de drible, se não consegue adequar isso às necessidades da equipa? Lennon pode fintar o seu opositor directo vinte vezes por jogo, pode pôr as bancadas ao rubro, pode, sozinho, criar situações de perigo, que a equipa nada ganha com isso. O único jogador que me agrada no Tottenham é Gareth Bale, mas também ele parece embriagado pelo individualismo táctico em que se joga. Na verdade, em ataque organizado, este Tottenham parece uma equipa de miúdos a jogar na rua: o primeiro que apanha a bola tenta fuçar até conseguir alguma coisa. Fazem isto Lennon, Bale, Dembelé e Defoe, à vez. Se recebem de costas, tentam virar-se. Ninguém dobra o passe, ninguém joga nos apoios recuados, ninguém pára quieto um segundo, para perceber qual é a melhor solução, por que zonas deve a bola correr. Não admira que o Tottenham tenha especiais dificuldades contra equipas que se fecham lá atrás; a bola não circula, a equipa progride quase sempre através do transporte, quase não há jogo entre linhas.

Este Tottenham tem uma atitude competitiva interessante, tem jogadores abnegados, lutadores, tacticamente responsáveis. Falta-lhe, porém, aquilo a que quase ninguém dá valor: criatividade. Em tempos, julguei que Villas-Boas desse valor a isso. O seu discurso, e algumas das ideias que algumas das suas equipas apresentaram, levavam a crer que fosse diferente. Não é. É mais um treinador, de uma vaga de treinadores modernos, que tem métodos de trabalho interessantes, que é competente a organizar as suas equipas, mas que não é especialmente distinto de ninguém. O seu Tottenham é a prova clara disso. Villas-Boas preza a organização, a agressividade defensiva, a responsabilidade táctica, e a intensidade de jogo acima de coisas como a imaginação, a criatividade e as ideias. Pode ter agradecido a Guardiola quando ganhou a Liga Europa, mas não me parece que tenha aprendido nada com ele. Se houve coisa que Guardiola ensinou foi que a intensidade e a agressividade estavam sobrevalorizadas. Villas-Boas estava no sítio certo para mostrar que Guardiola tinha razão: o futebol inglês. Em Inglaterra, qualquer equipa que saiba pausar o jogo, que saiba trocar a bola calmamente, que saiba gerir o ritmo da partida, que saiba chamar o adversário e fazer a bola entrar no seu bloco, é rainha. Villas-Boas transformou a sua equipa para ser o oposto disto, para ser uma equipa que mordesse os calcanhares a todos os adversários. Com isso, pode bem causar problemas até aos candidatos ao título, mas jamais fará do Tottenham uma equipa grande. O quarto lugar que ocupa é o melhor que poderá almejar, e é já muito. Tal posição depende dos índices de concentração e da mentalidade competitiva da equipa, que tem sido alta. Mas está à mercê dos resultados. Uma equipa que suporta o seu futebol na mentalidade agressiva com que joga depende sempre dos resultados para ser capaz de manter a mentalidade. No dia em que as coisas começarem a correr mal, o futebol do Tottenham deixa de produzir resultados, e Villas-Boas falhará. É esse o triste fim daqueles que vendem a alma ao diabo ao trocar a qualidade pela competitividade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domingos e a Coragem

Não sabendo a melhor forma de iniciar este post, entre uma coisa boa e outra má opto pela boa: vou começar por falar da expulsão de Kompany no recente derby para a Taça de Inglaterra. A estupefacção que me assaltou ao dar conta da expulsão do jogador do Manchester City em nada se relaciona com um possível desacordo no que toca à medida sancionada pelo Sr. Chris Foy, mas sim com o facto de um árbitro em Inglaterra ter tido a coragem de expulsar um jogador nestas circunstâncias. A intenção do central do City foi jogar a bola, dizem uns; ele nem tocou no Nani, apregoam outros; e que dizer daqueles, mais dedicados ao ramo da psicologia e do comportamento humano, berrando a quem quer que deles discorde, a suprema prova do crime: o Nani nem sequer reclamou.

Não discuto nenhum destes factos: realmente, Kompany apenas tocou na bola; acredito que apenas quisesse jogar a bola, e não me pareceu encontrar na figura de Nani esboço de protesto. No entanto, não há uma conjugação possível destas premissas que, na forma de um argumento, possa colocar em causa a legitimidade da expulsão. Kompany entra a pés juntos numa bola dividida, não manifestando qualquer tipo de respeito pela integridade física de um colega de profissão (que, diga-se de passagem, escapou impune porque abdicou de dividir o lance, face à entrada do central belga). A ele apenas lhe importou ganhar o duelo, independentemente da abordagem e das consequências da mesma. Isto não é uma caça às bruxas, até porque é um central que aprecio. Daqui decorre que este comentário não tem um cariz pessoal, mas sim particular; e, se assim é, é-o porque este caso, e a respectiva sanção, tem tanto de correcto, como de raro. São poucos os árbitros que têm a coragem expulsar jogadores em lances semlhantes, o que muito agrada a Pepe, bem sei, embora nem tanto àqueles que realmente gostam de jogar futebol. Como tal, decerto que entradas como estas se propagarão pelos estádios, inibindo os artistas mas alegrando os cuteleiros. Mas, ainda assim, indignando meio-mundo, é bom que de quando em vez alguém alie bom-senso a coragem, e mande um tipo destes tomar um duche frio.

Passemos agora à coisa má. Renato Neto, ou talvez Domingos. Quem sabe se os dois. Renato Neto, pelo jogo horrível; Domingos, por lhe ter permitido fazer um jogo horrível. Vamos por partes. Apresenta o Sporting este ano um excelente plantel. Não sei se será o melhor dos últimos dez anos, mas é, sem qualquer dúvida, um dos melhores: Schaars, Elias, Matías Fernandez, Izmailov, André Martins, Pereirinha, Onyewu, Rinaudo, Carriço, Ínsua, Wolfswinkel, Rodriguez, Carrillo, Jeffrén, etc. (e um Patrício que finalmente se justifica como titular), são jogadores que conferem qualidade e quantidade a Domingos. Não me revejo nas escolhas que Domingos faz, nem tão pouco na maneira como a equipa evoluiu, principalmente no plano ofensivo: os ataques fazem-se quase sempre pelos corredores laterais, tornando-se uma equipa demasiado previsível, facto que, timidamente, é disfarçado pela qualidade dos jogadores à disposição do treinador. No entanto, mesmo tendo em conta a minha incredulidade em Domingos, nada me preparou para a opção que tomou para o embate frente aos dragões; e as consequências só não tomaram proporções desastrosas porque encontrou um Porto muito debilitado, sem imaginação, a anos-luz do Porto da época passada.

O posicionamento horrível de Renato Neto criou um enorme espaço entre o meio-campo e a defesa leonina. É verdade que o Porto nunca soube aproveitar esse mesmo espaço, mas isto não escamoteia a péssima opção de Domingos, assim como não dilui a fraquíssima exibição do novo 31 de Alvalade. Talvez dando conta disso, Domingos lançou Matías e Izmailov, na segunda parte, baixando Schaars e Elias para um duplo pivô, ganhando com esta opção mais qualidade no passe, e uma melhor gestão do espaço. Acredito, e por momentos cheguei mesmo a acreditar que tal fénomeno seria possível, que a melhor solução para o sábado passado passasse pelo recuo de Schaars para trinco, colocando Matías e Elias como médios-ofensivos. Mas também era pedir de mais, bem sei...

terça-feira, 2 de março de 2010

Lições de Mestre (3)

O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...




O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...

P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Previsões de Ano Novo

Em futebol, fazer previsões sem as justificar é algo que parece muito pouco interessante. Nem foi nunca algo que me cativasse. Fazer previsões é, desse ponto de vista, como dar palpites, como tirar à sorte. Interessa, sobretudo, saber que fundamentos levam alguém a predizer algo. Este espaço foi sempre um espaço de fundamentos, um espaço mais preocupado com os processos que conduzem a uma determinada conclusão do que com a conclusão em si. Ainda assim, porque esta é uma altura em que é costume fazer-se este tipo de coisas, farei as minhas previsões, anunciando de antemão que a elas, embora só por quatro ou cinco linhas justificadas, presidem razões e convicções profundas.

1. Vencedor do Campeonato Português: Benfica. Acredito que este é o ano dos encarnados e acredito nisto mais ou menos desde o início da prova. A boa prestação do Braga até aqui tem ensombrado, de alguma maneira, a boa prova da equipa de Jorge Jesus, com percalços aqui e ali justificados pelo facto de se ignorarem os melhores princípios da equipa, mas a segunda parte do campeonato será o derradeiro teste à turma da Luz. O embate com o Porto, além de mostrar que o Benfica não vinha em decréscimo de produção, terá mostrado finalmente que a equipa de Jorge Jesus é o mais sério candidato ao título.

2. Vencedor do Campeonato Espanhol: Barcelona. Está tudo em aberto e o Real Madrid conseguiu um início de campeonato muito bom. Não foi tão assertivo quanto o Barcelona, ganhando vários jogos com muito sofrimento, mas conseguiu, pelo menos, manter-se colado ao líder. O Barcelona, no entanto, tem sido igual a ele próprio e, com o regresso em pleno de Iniesta espera-se que volte a ser regular como antes. A equipa está a jogar ainda melhor do que o ano passado e se as lesões não perturbarem a segunda metade do campeonato, o principal problema deste Barcelona, o plantel pequeno que possui, não ficará manifesto.

3. Vencedor do Campeonato Italiano: Inter. Em Itália, antevi no início da época que a Juventus era a equipa que melhor poderia fazer frente ao Inter de José Mourinho. Percorrido que está metade do caminho, a Juventus parece estar mais próxima da qualidade do Milan do que da do Inter. Assim sendo, e não me parecendo que venham a ocorrer modificações exibicionais extraordinárias, o Inter continuará a ser o único candidato ao título. Será mais um êxito na carreira de Mourinho, ainda que não coroado do brilho de outrora.

4. Vencedor do Campeonato Inglês: Arsenal. Quando o Arsenal perdeu com o Chelsea, parecia irremediavelmente afastado da luta pelo título. As últimas jornadas, com os sucessivos empates do Chelsea, colocaram porém a equipa de Arséne Wenger novamente na rota do título. Se ganhar o jogo que tem em atraso, o Arsenal fica apenas a 1 ponto do Chelsea, com a equipa comandada por Carlo Ancelotti a ter de jogar em Janeiro sem Drogba e Kalou, e tendo ainda Anelka lesionado. Com esta conjectura e a jogar o que está jogar, o Arsenal tem tudo para se impor. É a equipa que melhor futebol pratica em terras de Sua Majestade. O Manchester também terá uma palavra a dizer, mas parece-me francamente debilitado e dependerá muito dos desempenhos dos outros dois candidatos.

5. Vencedor do Campeonato Francês: Bordéus. Em França, o Bordéus não tem dado propriamente grandes hipóteses. Lyon e Marselha, os mais apresentáveis dos rivais, têm sido bastante irregulares e a equipa comandada por Laurent Blanc já leva uma vantagem considerável. Gourcuff e companhia são, também por isso, a minha aposta.

6. Vencedor do Campeonato Alemão: Bayern. O Bayern de Louis Van Gaal não começou bem, mas a recuperação é visível. Não só conseguiu o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, como está apenas a dois pontos da liderança do campeonato. A segunda volta deverá consolidar as ideias do controverso treinador holandês e o tempo tenderá a fortalecer esta equipa. Como a concorrência no campeonato alemão não é muito forte, o Bayern, ainda com alguns deslizes, é o grande favorito à vitória final.

7. Vencedor da Liga dos Campeões: Barcelona. A minha aposta é, uma vez mais, o Barcelona de Guardiola. Seria a consumação final daquela que é a melhor equipa de sempre e o lugar no Olimpo que tanto merece. Nunca uma equipa venceu por duas vezes seguidas a Liga dos Campeões, mas nenhuma também apresentou o futebol que esta equipa apresenta. Dependerá, como é óbvio, da fortuna das lesões e da sua capacidade para se superar continuamente. Ainda assim, acredito que é o candidato que reúne melhores condições.

8. Vencedor do Campeonato do Mundo: Espanha. A Espanha é a equipa que melhor colectivo apresenta. Neste tipo de provas, é sabido, isso não chega. Quando toca a eliminar, e ainda por cima a uma só mão, os melhores nem sempre se consagram. Ainda assim, e com as melhorias que a equipa teve em termos de competitividade sob o comando de Del Bosque, é a formação que me parece melhor preparada. Ainda estamos longe da prova e em seis meses muita coisa pode acontecer. Como acontece nestes torneios, dependerá muito da forma em que os jogadores chegarem à África do Sul.

9. Participação de Portugal no Campeonato do Mundo: Oitavos de final. A Espanha deverá passar em primeiro lugar, no seu grupo, e Portugal terá a difícil missão de se apurar à frente do Brasil ou da Costa do Marfim. Nenhum dos adversários será fácil, mas numa competição deste género é difícil fazer previsões acertadas no que diz respeito a um conjunto de três jogos. Ainda assim, os campeonatos recentes mostraram que a capacidade de superação da equipa lusitana neste tipo de competição é notável. É claro que isso era com Scolari e tudo pode ser diferente agora. Tendo em conta a dificuldade do grupo, a qualidade do futebol apresentado durante a fase de apuramento e a equipa técnica comandada por Carlos Queiroz, a eliminação logo na fase de grupos não seria de espantar. Mas admito que Portugal consiga superar essa primeira fase. A partir daí, já acho mais complicado.

10. João Pereira. É um dos nomes sonantes da reabertura do mercado. Ao contrário da maioria, acho que João Pereira está longe de ser um grande lateral direito. É um jogador rápido, muito agressivo, mas tem pouco mais que isso. Chega a um grande depois de ser um dos principais protagonistas, do ponto de vista do comum adepto, do Braga. Há alguns anos, morava em Braga um lateral direito em tudo idêntico ao que é hoje João Pereira: um jogador veloz, que participava muito nas investidas ofensivas da equipa, e que era tido como o melhor lateral direito a jogar num clube que não um grande. Alguém se lembra de quem era? Na altura, ao contrário do comum adepto, achei que a sua vinda para um grande lhe tornaria visíveis as debilidades. Assim foi. Entendo que João Pereira venha a ter um destino parecido. Os seus problemas posicionais, a má leitura dos lances, as más decisões com bola são coisas que no Braga não são tão importantes. No Braga, esse tipo de problemas é algo que mais jogadores possuem. Por isso mesmo, a exigência no Braga é mais baixa. No Sporting, não terá Alans, Vandinhos, Moisés, Evaldos ou Paulos Césares com quem se comparar. Terá jogadores de maior craveira, jogadores mais perfeitos, que cometem menos erros. Os problemas de João Pereira, no Sporting, serão por isso mais evidentes. É óbvio que pode corrigi-los, mas não é algo que consiga fazer de um dia para o outro. Pode até, porque a equipa está a atravessar um mau momento, conseguir destacar-se. Quando as coisas estão mal, normalmente jogadores vistosos como ele, jogadores que fazem das suas características físicas e técnicas as suas mais-valias, são mais apreciados. Mas dificilmente conseguirá construir uma carreira sólida, regular. João Pereira não é muito diferente de Nélson, por exemplo, se bem que não tão bom tecnicamente. É um lateral ofensivo, que pode causar desequilíbrios quando apoia o ataque, mas a qualidade das suas decisões e a sua capacidade defensiva não é brilhante. Nélson durou um ano, num ano em que a equipa do Benfica pouco ou nada jogava. Depois, quando foi preciso evoluir, estagnou, cometeu erros e foi-se embora. João Pereira será assim tão diferente? A minha previsão é que não trará ao Sporting a tão desejada qualidade para a lateral direita.

Antes de acabar o ano, gostaria ainda de fazer referência a um projecto em que eu e o Gonçalo estamos inseridos há aproximadamente três meses. Os mais atentos terão talvez estranhado a ausência, há já algum tempo, de textos sobre uma determinada jornada ou sobre a generalidade da actualidade futebolística. A ausência desses textos explica-se porque todas as semanas escrevemos um texto para o jornal online "Academia de Talentos" com esse tipo de conteúdos. Aqueles que nos quiserem seguir ainda mais podem sempre procurar os nossos textos na Área Técnica do respectivo jornal. A ligação encontra-se entre as várias ligações aqui ao lado. O "Academia de Talentos" é, possivelmente, o local com mais e melhor informação sobre a actividade futebolística a nível dos escalões de formação. Nesse aspecto, a sua relevância está para além de qualquer dúvida e qualquer pessoa que esteja interessada em acompanhar o que se passa na actualidade desportiva nos mais variados escalões de formação terá interesse em consultar com regularidade o jornal. Mais recentemente, o jornal tem procurado evoluir noutros sentidos e expandir os seus horizontes. O espaço designado por "Área Técnica" reúne, por isso, textos de outro carácter e com outros conteúdos. É precisamente nesse projecto que colaboramos e, além de nós, podem ser encontrados textos de outros bloggers que, normalmente, valem a pena ser lidos, como os do Pedro Bouças e do Rodrigo Rodrigues, do blogue "Lateral-Esquerdo" ou os do Paulo Santos, do "Apenas Futebol". Fica o anúncio e o convite, claro...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os erros de Vidic

Nemanja Vidic, o central sérvio do Manchester United, é um jogador muito apreciado por muita gente. Entre esses, não haverá poucos abrangidos pela certeza de que ele é um dos melhores do mundo no seu posto. A minha opinião é completamente diferente e bastante desfavorável em relação ao jogador. As virtudes de Vidic não compensam os seus defeitos e está longe, para mim, dos dez melhores naquela posição. As críticas que lhe faço são as mesmas que faço, por exemplo, ao central luso-brasileiro Pepe: demasiado impetuoso, excessivamente agressivo, incapaz de perceber que nem sempre deve tentar a antecipação, etc. Graças ao seu modo de jogar, chama à atenção. Os cortes no limite, as antecipações, os desarmes arriscados são motivo de aplausos. O problema é que Vidic joga assim em todas as situações e não só naquelas em que o deveria fazer. A diferença entre um grande central e um central espalhafatoso é que o primeiro só faz coisas dessas em último recurso. O seu jogo viril, baseado na velocidade e na agressividade, embora suscite admiração, é o princípio errado pelo qual os erros se acumulam. Não é raro, como acontece com Pepe, que Vidic cometa erros. Muitos deles - é verdade - consegue compensá-los, pela forma como se entrega ao jogo. Mas a categoria de um jogador é directamente proporcional à sua capacidade de evitar meter-se em apuros. E nisso o central sérvio é francamente mau. Apostado em resolver todas as situações através da capacidade atlética, raramente está concentrado em algo mais para além da recuperação de bola. Não percebe, por isso, que muitas vezes deve ficar em contenção; não percebe, por isso, que muitas vezes deve entrar com mais cuidado para não provocar faltas em zonas perigosas. A sua capacidade de interpretação dos lances é reduzidíssima e quando se acabar o vigor físico será um central banal.

Serve este texto, além da exposição desta opinião, para iniciar uma nova rubrica no blogue. A discussão de lances concretos, sobretudo da parte de quem tem uma percepção tão genuína do fenómeno que é o futebol, é das coisas mais interessantes que se pode levar a debate. Até aqui, o Entre Dez rejeitou, por princípio, algo mais além das palavras. Não fazia sentido, num blogue com estas características, haver espaço para imagens ou para vídeos. E não fazia sentido porque o caractér teórico deste espaço foi sempre prioritário. Acontece, porém, que discutir lances concretos sem a ajuda de imagens é um pouco vago e pode dar azo a opiniões ambíguas. Ora bem, iniciando uma nova rubrica que consistirá em debater um ou mais lances concretos, tentando demonstrar um ponto de vista de acordo com factos, com evidências, imagens e vídeos passarão a ter espaço, consoante as necessidades. Assim, e não fugindo ao assunto do texto, gostaria de recuperar o já não tão recente confronto entre Manchester United e Liverpool, para a Liga Inglesa, no qual o defesa sérvio em questão foi a figura decisiva. O Liverpool venceu por 4-1 e Vidic foi o responsável directo pelo primeiro e pelo terceiro golo, lance que lhe valeu também a expulsão. São esses dois lances que destaco no vídeo que se segue.



No primeiro lance, um alívio de um defesa do Liverpool cai na zona de Vidic. Não querendo cabecear a bola de primeira, prefere deixá-la bater. A proximidade de Fernando Torres faz com que o central do Manchester tenha de ser, após esta primeira má decisão, agressivo sobre a bola. Chega primeiro a ela, mas em vez de cabeceá-la para o guarda-redes ou de aliviá-la, terá pensado em contornar o avançado do Liverpool. O excesso de confiança de Vidic acaba por se transformar num erro, com Torres a roubar a bola e a fazer golo. Esta incapacidade para perceber quando deve jogar de forma simples é comum em Vidic porque a confiança nas suas capacidades técnicas excede as mesmas capacidades técnicas. Lances como este não são pontuais, ainda que muitos acabem por não ser fatais como este acabou por ser.

No segundo lance, há um desvio que leva a bola na direcção de Vidic. Com a pressa de se aproximar de Gerrard, não consegue reagir a este desvio e a bola toca-lhe inadvertidamente no peito e depois na coxa, ficando à mercê de Gerrard, que fica isolado. Quando Gerrard está a passar por Vidic, este faz falta, agarrando-o na tentativa de corrigir o erro inicial, e é expulso (o livre consequente acabaria por dar o terceiro golo ao Liverpool). A falha consiste sobretudo na desarticulação com que reage ao lance. A incapacidade de dominar a bola que vem na sua direcção é resultado de uma acção excessivamente impetuosa na tentativa de encurtar, sem necessidade, o espaço para o avançado do Liverpool, quando se recomendaria que ficasse em contenção. A forma agressiva, em constante sobressalto, com que Vidic joga proporciona lances deste tipo, em que um simples desvio torna impossível uma reacção atempada. É graças ao movimento repentino que enceta para marcar ostensivamente Gerrard que depois não consegue estar bem colocado e, sobretudo, concentrado, para dominar a bola. Este lance evidencia, portanto, a principal falha do central sérvio, a incapacidade que ele demonstra em estar concentrado naquilo que importa. Estando essencialmente preocupado em ser rápido, agressivo, combativo, não consegue estar, ao mesmo tempo, bem posicionado, nem consegue ler, correctamente, a abordagem que o lance requer.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Andar de Carroça

O Tottenham, desde que Juande Ramos foi despedido e Redknapp assumiu as rédeas da equipa, tem ganho quase sempre. Para muitos, está melhor. Para mim, não. A principal diferença é que, antes, a equipa tinha um automóvel topo de gama, mas os jogadores não sabiam conduzi-lo. Agora, tem uma carroça que vai, de socalco em socalco, vencendo os obstáculos que lhe aparecem pela frente. Mas isto apenas até ficar atascada numa poça de lama. Os jogadores, acostumados ao que aprenderam, habituados às leis em que foram formados, só sabem jogar de uma maneira. Estão formatados para jogar à inglesa e, qualquer que seja a alteração, reagem mal. Talvez Juande Ramos não tenha sido suficientemente competente para ensinar os seus pupilos a conduzir um automóvel tão bom, mas a verdade é que, assim que lhes facilitaram as coisas, assim que chegou um treinador inglês, igual a todos os outros treinadores ingleses, começaram a ter resultados. E começaram a tê-los porque voltaram a jogar do mesmo modo que jogaram toda a vida, de um modo fácil que, por estarem habituados, lhes permite pôr o seu valor individual em destaque.

Mas, deste modo, o futebol do Tottenham nunca passará disto, nunca será mais do que essas individualidades. No fundo, a saída de Juande Ramos, embora tenha feito com que os resultados começassem a surgir, representa a estagnação evolutiva da equipa. A partir de agora, o Tottenham será só isto. É verdade que tem valores fantásticos, mas como colectivo jamais chegará onde poderia chegar com o treinador espanhol. Em Inglaterra, prefere-se andar de carroça. Quando se pega num automóvel, não se sabe conduzi-lo. A máquina que Juande Ramos poderia criar era claramente superior à que Redknapp algum dia poderá vir a construir, mas os jogadores, acostumados a conceitos simples e a jogar essencialmente com o coração, não souberam fazer parte dela. Provavelmente, estarão até mais felizes agora, que começaram a ganhar. Infelizmente, estar feliz significa, por norma, não ter consciência do quão pequeno se é. Estes jogadores, ainda que sorridentes pelas vitórias recentes, não têm consciência do que perderam. Com Juande Ramos, o potencial a que cada um deles poderia chegar seria, por certo, muito maior do que alguma vez virá a ser. Lá está, é o hábito de andar de carroça, o hábito de ser pequeno.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Competitividade

Findos os campeonatos 2007/2008 e preparando-se já a época de 2008/2009, proponho um estudo comparativo entre as mais cotadas ligas europeias. A ideia é contrastar a diferença entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, de forma a tentar chegar a um coeficiente de competitividade que demonstre de que forma é mais fácil ou mais difícil ser bem sucedido num campeonato ou noutro.

Como fazer isto? Pensei em dividir cada tabela classificativa final em quatro, agrupando, por exemplo, num campeonato de 20 equipas, as primeiras 5 classificadas, depois do 6º ao 10º, do 11º ao 15º e do 16º ao 20º. Ao dividir a tabela em quatro, possibilita-se que se contrastem as melhores equipas com as piores, bem como a primeira metade da tabela com a segunda metade. Para cada um destes grupos, calculei a média de golos por jogo, a média de golos sofridos por jogo e, finalmente, a média da diferença entre golos marcados e sofridos por jogo (a média é calculada por equipa e não para o grupo). Com estes resultados, poder-se-á verificar, por exemplo, a diferença de golos marcados entre as primeiras classificadas e as últimas classificadas de um determinado campeonato. Com base no cálculo da diferença entre os golos marcados e os golos sofridos (Goal Average) dos diferentes grupos poder-se-á perceber quão desnivelados foram os resultados entre esses grupos e, em última análise, aferir do desnivelamento entre as melhores equipas e as piores desse campeonato. Comparando os diferentes desnivelamentos poder-se-á comparar a competitividade entre cada um dos campeonatos em análise, sendo que, quão maior for o desnivelamento, menor é a competitividade desse campeonato. Se fizer a média dos desnivelamentos e dividir esse valor por cada um dos desnivelamentos, obterei então um coeficiente de competitividade para cada um dos campeonatos. Multiplicando esse coeficiente de competitividade pela produção doméstica de uma equipa (média de pontos obtidos por jogo no seu campeonato), será possível comparar, com mais justiça, a produção a nível interno entre equipas de campeonatos completamente distintos.

Segundo o Ranking da UEFA, os dez países mais poderosos são: Inglaterra, Espanha, Itália, França, Alemanha, Rússia, Roménia, Portugal, Holanda e Escócia.

Inglaterra: 1002 golos marcados; 2,64 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,79) (6º a 10º: 1,35) (11º a 15º: 1,17) (16º a 20º: 0,95)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,74) (6º a 10º: 1,27) (11º a 15º: 1,52) (16º a 20º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 1,05) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,35) (16º a 20º: -0,79)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,97)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,40)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,84)

Espanha: 1021 golos marcados; 2,69 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,92) (6º a 10º: 1,30) (11º a 15º: 1,13) (16º a 20º: 1,03)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,13) (6º a 10º: 1,31) (11º a 15º: 1,33) (16º a 20º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,79) (6º a 10º: -0,01) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,58)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,80)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,99)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,37)

Itália: 970 golos marcados; 2,55 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,76) (6º a 10º: 1,32) (11º a 15º: 1,11) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,93) (6º a 10º: 1,37) (11º a 15º: 1,36) (16º a 20º: 1,45)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 10º: -0,05) (11º a 15º: -0,25) (16º a 20º: -0,52)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,88)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,35)

França: 868 golos marcados; 2,28 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,52) (6º a 10º: 1,08) (11º a 15º: 1,04) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,97) (6º a 10º: 1,00) (11º a 15º: 1,24) (16º a 20º: 1,36)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,55) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,43)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,47)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,75)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 0,98)

Alemanha: 860 golos marcados; 2,81 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,78) (6º a 9º: 1,55) (10º a 13º: 1,29) (14º a 18º: 1,01)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,00) (6º a 9º: 1,49) (10º a 13º: 1,57) (14º a 18º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 0,06) (10º a 13º: -0,28) (14º a 18º: -0,60)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,72)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,06)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,38)

Rússia: 562 golos marcados; 2,34 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,56) (5º a 8º: 1,17) (9º a 12º: 1,08) (13º a 16º: 0,88)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,98) (5º a 8º: 1,10) (9º a 12º: 1,21) (13º a 16º: 1,39)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,58) (5º a 8º: 0,07) (9º a 12º: -0,13) (13º a 16º: -0,51)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,51)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 0,71)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,09)

Roménia: 726 golos marcados; 2,37 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,48) (6º a 9º: 1,39) (10º a 13º: 0,97) (14º a 18º: 0,90)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 1,29) (10º a 13º: 1,19) (14º a 18º: 1,51)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,70) (6º a 9º: 0,10) (10º a 13º: -0,22) (14º a 18º: -0,61)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,60)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 0,92)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,31)

Portugal: 553 golos marcados; 2,30 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,55) (5º a 8º: 1,21) (9º a 12º: 0,92) (13º a 16º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,78) (5º a 8º: 1,05) (9º a 12º: 1,28) (13º a 16º: 1,50)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,77) (5º a 8º: 0,16) (9º a 12º: -0,36) (13º a 16º: -0,57)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,61)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 1,13)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,34)

Holanda: 956 golos marcados; 3,12 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,90) (6º a 9º: 1,80) (10º a 13º: 1,51) (14º a 18º: 1,08)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,07) (6º a 9º: 1,52) (10º a 13º: 1,76) (14º a 18º: 1,93)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 9º: 0,28) (10º a 13º: -0,25) (14º a 18º: -0,85)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,55)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,68)

Escócia: 541 golos marcados; 2,73 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 3º: 1,97) (4º a 6º: 1,39) (7º a 9º: 1,24) (10º a 12º: 0,86)
Sofridos p/ jogo: (1º a 3º: 0,91) (4º a 6º: 1,30) (7º a 9º: 1,52) (10º a 12º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 3º: 1,06) (4º a 6º: 0,09) (7º a 9º: -0,28) (10º a 12º: -0,88)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 3º e 4º a 6º: 0,97)
(Entre 1º a 3º e 7º a 9º: 1,34)
(Entre 1º a 3º e 10º a 12º: 1,94)

Resultados:

Média de Desnivelamentos entre as equipas de topo e as equipas de fundo da tabela: 1,43

Coeficientes de competitividade:
1º França: 1,33
2º Rússia: 1,31
3º Roménia: 1,09
4º Portugal: 1,07
5º Itália: 1,06
6º Espanha: 1,04
7º Alemanha: 1,04
8º Holanda: 0,85
9º Inglaterra: 0,78
10º Escócia: 0,74

Conclusões:

1) Os campeonatos mais competitivos, isto é, aqueles onde há menor desnivelamento entre equipas grandes e pequenas, são o francês e o russo. Estes dois campeonatos atingem mesmo coeficientes de competitividade muito mais altos que os que se seguem.

2) Roménia, Portugal, Itália, Espanha e Alemanha têm coeficientes de competitividade semelhantes, sendo que o nosso campeonato é mesmo o 4º mais competitivo.

3) Na cauda, surgem a Holanda, a Inglaterra e a Escócia, com o futebol britânico a ocupar os dois últimos lugares da lista.

4) Quanto aos golos marcados, a Holanda é o país onde se marcam mais golos (3,12 p/j); depois a Alemanha (2,81 p/j); Escócia (2,73 p/j); Espanha (2,69 p/j); Inglaterra (2,64 p/j); Itália (2,55 p/j); Roménia (2,37 p/j); Rússia (2,34 p/j); Portugal (2,30 p/j); e França (2,28 p/j).

5) O campeonato mais nivelado, o francês, é também aquele onde se marcam menos golos, podendo por isso presumir-se que muitos resultados serão empates a 0 ou vitórias por 1-0.

6) O campeonato holandês é o que tem mais golos marcados, o escocês é o terceiro e o inglês o quinto, o que indica que, sendo os três campeonatos mais desnivelados, as equipas de topo marcam muito mais golos às equipas do fundo da tabela do que noutros sítios.

7) O campeonato português é o segundo onde se marcam menos golos, o que indica que é nivelado muito por baixo.

8) Entre os três campeonatos maiores, o inglês é, de longe, o mais desnivelado, mantendo-se Itália e Espanha bem próximas. Se por um lado a supremacia das equipas de topo inglesas na Europa foi evidente e pode explicar algum do desfasamento em relação às ditas menores do seu campeonato, não deixa de ser também verdade que as equipas menores de Inglaterra são claramente inferiores às equipas menores de Espanha e de Itália.

9) De uma maneira geral, os campeonatos onde se marcam mais golos são os campeonatos onde há maior desnível entre grandes e pequenos. A excepção será a Alemanha, que mantém um coeficiente de competitividade elevado, ao nível médio, e que é o segundo campeonato onde se marcam mais golos.

10) Com estas contas, demonstra-se que é mais difícil uma equipa ser bem sucedida em Espanha, por exemplo, do que em Inglaterra. Isto implica que, um jogador de ataque numa equipa grande inglesa vai ter sempre a vida mais facilitada do que um jogador de ataque numa equipa grande espanhola. Assim, é de todo injusto comparar os golos marcados por um jogador que jogue numa equipa de topo em Inglaterra com outro que jogue numa equipa de topo em Espanha, uma vez que o primeiro terá mais facilidades em marcar.

11) Em Inglaterra, Escócia, Espanha e Itália registaram-se os maiores desnivelamentos entre as primeiras quatro ou cinco equipas e as equipas seguintes. Isto significa que, nestes 4 países, o poder das primeiras equipas encontra-se bem acima do das restantes. Creio que Portugal, com uma prestação normal de Benfica e Sporting, se incluiria neste lote, o que aumentaria o desnível competitivo do nosso campeonato.

12) Fazendo a média de pontos por jogo e multiplicando-a pelo coeficiente de competitividade, podemos aferir da produção doméstica das equipas e concluir, por exemplo, que há mais mérito no 3º lugar do Barcelona (1,76 pontos p/j x 1,04 (CCE) = 1,83) do que no 1º lugar do Manchester United (2,29 pontos p/j x 0,78 (CCI) = 1,79). Ou, por outras palavras, é mais difícil fazer 67 pontos em Espanha do que 87 em Inglaterra.

13) Como é óbvio, se reduzirmos o espectro e, em vez de calcularmos o coeficiente de competitividade com base no desnivelamento entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, o calculássemos com base no desnivelamento entre a primeira metade da tabela e a segunda, as diferenças entre os coeficientes de competitividade de cada campeonato seriam menores, mas as conclusões seriam, essencialmente, as mesmas.

14) Utilizando os 5 campeonatos onde se marcam mais golos, podemos concluir que em Espanha e na Alemanha, a existência de golos é razoavelmente racionada entre todas as equipas do campeonato, ao passo que na Holanda, na Inglaterra e na Escócia isso não acontece. Isto significa que na Espanha e na Alemanha a ineficácia defensiva dos adversários não é tão responsável pela eficácia ofensiva de uma equipa quanto o é na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. Podemos então presumir que, em Espanha e na Alemanha, a relação entre atacar bem/defender mal não é tão evidente como na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. O mesmo é dizer que em Espanha e na Alemanha as equipas são mais equilibradas na sua propensão ataque/defesa e que no futebol britânico e holandês as equipas são mais desequilibradas tacticamente.

domingo, 1 de junho de 2008

Por que é que as coisas são como são? (2)

Voltei, há umas semanas, a ouvir o meu amigo imaginário e achei importante referir a conversa que então se desenrolou. Enquanto dava o Liverpool, Gláucon comentou:

Gláucon: Ó Sócrates, este Kuyt é mesmo bom jogador.

Sócrates: É interessante. A escola holandesa é fértil em grandes avançados.

Gláucon: É verdade! Assim como a italiana. Por que será que assim é?

Sócrates: Esse problema tem explicação nas características de ambos os campeonatos. Embora por razões diferentes, está no carácter do futebol destes dois países a explicação para tamanha fecundidade em avançados.

Gláucon: Não sei se te entendo. Pretendes que é por causa do estilo de futebol que se pratica num determinado país que os jogadores que crescem nesse país são diferentes, de uma forma geral, dos jogadores que crescem noutro país?

Sócrates: Sim, é isso mesmo.

Gláucon: Não sei se concordo. Não terá antes a ver com questões culturais, históricas, económicas, político-sociais?

Sócrates: Evidentemente.

Gláucon: Então como concilias as duas coisas?

Sócrates: As duas coisas não se excluem. Os jogadores serão o resultado de um processo cultural, mas também o resultado de uma necessidade inerente ao próprio futebol em que estão incluídos.

Gláucon: No Brasil isso é assim?

Sócrates: No Brasil todos jogam à bola na rua. Os jogadores têm a sua aprendizagem nas ruas, por imitação dos mais velhos, e têm liberdades que outra aprendizagem não permitiria. Na rua, cada um quer ser o melhor; cada um pega na bola e tenta fazer coisas inigualáveis. Não interessa que a equipa seja a melhor. Quando chegam aos escalões mais velhos, estes jogadores têm por bagagem uma capacidade individual notável, mas pouca ou nenhuma cultura táctica. Além disso, psicologicamente, têm tendência a privilegiar as acções individuais às do colectivo. É por isso que o Brasil, apesar das grandes quantidades de jogadores, produz poucos guarda-redes ou defesas. Na rua, esses são apenas os "outros", aqueles que os virtuosos tendem a ultrapassar. Num futebol sem espírito colectivo, sem noção de colectivo, como é o futebol de rua, há tendência a formar jogadores de grande qualidade técnica, que conduzem bastante bem a bola, que fintam. Uma boa observação do futebol brasileiro permite perceber certas tendências...

Gláucon: E que tendências são essas?

Sócrates: Além de poucos defesas, de poucos guarda-redes de qualidade, o Brasil também não é fecundo em médios-defensivos. Os jogadores que se destacam pelos aspectos defensivos raramente se tornam jogadores de topo. Já em médios ofensivos, avançados (sobretudo avançados ágeis), abundam as opções.

Gláucon: Mas então como explicas que o Brasil, com tantos talentos individuais, não produza extremos de craveira mundial, ó Sócrates?

Sócrates: Bem observado. A aprendizagem do jogador brasileiro, como referi, faz-se através do individualismo. Isso implica, além de querer fazer coisas extraordinárias com a bola, uma tentativa de participar constantemente no jogo. O jogador brasileiro, porque individualista, não percebe, durante toda a aprendizagem, que a construção ofensiva é feita em várias fases e que a cada jogador está destinada uma parcela dessa construção. Como tal, procura ser ele a fazer tudo, deslocando-se no terreno em função da posição da bola. Porque procuram sempre ter a bola, as suas movimentações são de aproximação a ela e não de afastamento. Assim, o jogador brasileiro gosta muito mais de ocupar espaços centrais, por onde a bola passa mais vezes, do que de se desmarcar pela linha, à espera de um passe longo de um colega. A actividade de extremo, meramente passiva em grande parte da construção ofensiva, não se coaduna com as raízes individualistas e egocêntricas do jogador brasileiro. Daí haver poucos jogadores de linha e muitos para o meio do terreno.

Gláucon: Mas o Brasil produz os melhores laterais do planeta. Como explicas isto, ó Sócrates?

Sócrates: Assim é. A abundância de jogadores habilidosos faz com que nem todos sejam médios de ataque. Os mais velozes e potentes terão de ocupar outras posições, preferencialmente nas alas porque mantêm características técnicas que lhes permitem subir com facilidade e integrar-se no ataque. O lateral brasileiro, porque a sua aprendizagem o cunhou com a vontade de participar no jogo atacante, é muito ofensivo e, por conseguinte, descuidado a nível defensivo.

Gláucon: E como explicas que raramente se encontre um jogador brasileiro cerebral, que paute o jogo da equipa, que não entre em dribles excessivos, que ocupe bem os espaços e que faça fluir o futebol ofensivo?

Sócrates: Pelas mesmas razões que não há extremos. O jogador brasileiro cresceu a fintar os outros; foi ensinado a tentar resolver as coisas sozinho. Um jogador com as características que referes é um jogador que privilegia o colectivo, que põe as suas características ao serviço da equipa e que faculta a outros mais dotados a possibilidade de desequilibrarem.

Gláucon: Não sei se estou convencido. De qualquer maneira, o futebol brasileiro de que falas é então um futebol que se explica por questões culturais. Em que medida é que um certo tipo de futebol, que se molda por necessidades inerentes ao seu estilo próprio, modela os jogadores consoante essas necessidades?

Sócrates: No Brasil, isso não parece acontecer, de facto. Aliás, na Argentina passa-se algo semelhante. Nos países em que a formação a nível dos clubes é negligenciada, os jogadores formam-se sozinhos. Sobressai, portanto, nestes países, a individualidade. Acontece, então, que ao nível sénior o futebol não assenta em bases estritamente colectivas. O futebol nestes países nunca deixa de ser um futebol de rua. É um jogo entre duas equipas apenas na medida em que onze jogadores têm missões opostas a outros onze. Mas raramente se joga em equipa. As equipas brasileiras são equipas apenas na medida em que cada um dos seus jogadores tem por objectivo colaborar para o sucesso do conjunto. Mas o futebol brasileiro é desconexo: cada um tem a liberdade de fazer o que bem lhe apetecer. Há espírito de entreajuda na medida em que querem todos o mesmo, mas sobressai uma vontade individual que não se pode conciliar com os objectivos da equipa. Nos países que formam jogadores deste tipo, os campeonatos são muito pouco racionais e ganha, geralmente, a equipa que tiver as melhores unidades. Neste tipo de campeonato, que assenta num futebol individualista (e por individualista entendo não o ser egoísta, mas sim não possuir um espírito colectivo relevante) o nível táctico tem pouca importância. Um futebol tacticamente pobre nunca pode moldar jogadores no sentido que refiro.

Gláucon: Aceitas então que o jogador brasileiro é consequência apenas de um processo cultural?

Sócrates: Sim e não. Digo que sim porque é esse mesmo processo cultural que impede que o futebol brasileiro se desenvolva ao ponto de necessitar de jogadores com características específicas. Mas também digo que não porque, como é pobre a nível táctico, impera a individualidade e os jogadores mais adequados são aqueles que tenham maior desenvoltura individual. Porque o futebol brasileiro aprecia sempre os que se desembaraçam melhor sozinhos, produz jogadores individualmente muito fortes. O futebol brasileiro, pela cultura em que se insere, necessita e molda jogadores que melhor se adequem à realidade brasileira, ou seja, jogadores individualistas, capazes de resolver jogos sozinhos, que conduzem bem a bola, mas tacticamente desinstruídos e sem um verdadeiro espírito colectivo. É assim o estilo de futebol do Brasil (fundado pelas condições culturais do país, como é óbvio) que faz com que os jogadores brasileiros tenham certas características.

Gláucon: Isso não me parece muito fácil de perceber. Mas ainda não explicaste, ó Sócrates, por que é que a Holanda produz tantos avançados.

Sócrates: Tens razão. Mas não preciso de muito tempo para o fazer.

Gláucon: Tenho para mim que o futebol holandês produz muitos avançados de qualidade porque, tacticamente, é um futebol de orientação ofensiva. Num futebol assim, destacam-se sempre os avançados. É assim, ó Sócrates?

Sócrates: Não inteiramente. Nesse caso, o futebol inglês, que também é um futebol ofensivo, também produziria atacantes de grande nível com a mesma frequência. E assim não é, pelo menos nos últimos tempos.

Gláucon: Creio que tens razão. Então como explicas isso? E, já agora, como explicas que, tanto o futebol holandês, virado para o ataque, como o futebol italiano, virado para a defesa, produzam grandes atacantes? Não é contraditório?

Sócrates: Não. Não é o facto de ser um futebol ofensivo ou defensivo que vai talhar os jogadores, mas aquilo que cada estilo de futebol exige deles. O futebol holandês, desde há várias décadas, privilegia não só um futebol iminentemente ofensivo, como a materialização dessa filosofia de ataque através de um jogo colectivo. Ao contrário de outros países em que se joga igualmente ao ataque, como nos países sul-americanos, por exemplo, ou em Inglaterra, na Holanda o ataque assenta não nos jogadores, não nas individualidades, mas no conjunto.

Gláucon: E que significa isso?

Sócrates: Significa isso que, na Holanda, os avançados tendem a trabalhar as situações ofensivas com uma ideia de colectivo sempre presente. Dessa forma, evoluem segundo rotinas de futebol apoiado, privilegiando situações como as tabelas, as triangulações, o passe curto. Porque o futebol holandês coloca bastantes homens no processo ofensivo, os avançados holandeses têm tendência a trabalhar aspectos como a rapidez de raciocínio. Porque num futebol ofensivo implica haver menos espaços para jogar nas zonas ofensivas, os avançados holandeses tendem a aprender, desde cedo, outras formas de contornar os colectivos adversários. Não havendo muito espaço, porque as transições não são rápidas, os avançados holandeses evoluem sem privilegiar as acções individuais, quase sempre infrutíferas. São, assim, verdadeiramente, jogadores de colectivo, que trabalham desde pequenos para encontrar soluções ofensivas enquanto inseridos num colectivo.

Gláucon: E é esse trabalho específico que os modela?

Sócrates: Com efeito. É por causa de trabalharem, desde muito novos, esses aspectos, que adquirem essas características.

Gláucon: E no futebol italiano? Como explicas então, ó Sócrates, que o futebol italiano também produza grandes avançados? Não é contraditório, uma vez que a orientação do seu futebol é muito mais defensiva do que na Holanda?

Sócrates: Como disse, caro Gláucon, não é por um futebol ter uma orientação ofensiva ou defensiva que terá mais ou menos avançados de qualidade. O futebol inglês tem uma orientação ofensiva e ainda assim não produz avançados de grande nomeada. Isso deve-se ao facto de o futebol inglês, embora assente num estilo directo, ser muito pouco equilibrado. Nas transições defesa-ataque, a equipa que ataca encontra sempre muitos espaços entre as linhas adversárias, que está invariavelmente descompensada. Por causa dessa deficiência táctica, os jogadores têm mais espaço para jogar, não necessitando de aperfeiçoar certos aspectos técnicos como o drible curto ou o raciocínio rápido. Porque o futebol em Inglaterra é jogado a muita velocidade e há sempre muito espaço para jogar, o avançado inglês não encontra, ao longo do seu processo de formação, necessidade de se modificar. O estilo inglês implica apenas que trabalhe a velocidade, o poder de choque e a agressividade, o que é evidentemente insuficiente perante estilos de futebol mais fechados. Como os processos ofensivos em Inglaterra são muito simples, os seus avançados não trabalham senão o mais simples possível, ficando aquém de avançados de outros países por isso mesmo.

Gláucon: Percebo. Mas ainda não explicaste por que razão, então, em Itália também se produzem grandes avançados. E, de acordo com o que pretendes do futebol inglês, não é também contraditório que em Itália, onde o estilo também é muito directo, como em Inglaterra, haja avançados de grande qualidade?

Sócrates: Compreendo a tua relutância, Gláucon. Mas creio que continuas sem me perceber. Não é nem o pendor ofensivo/defensivo de um futebol nem o modo como se definem as transições defesa-ataque que definem o estilo de um futebol e o tipo de jogador que se forma nesse futebol. Em Itália, de facto, as transições são relativamente semelhantes às de Inglaterra, muito directas, simples, procurando chegar à frente de forma rápida. As diferenças, contudo, são relevantes.

Gláucon: E que diferenças são essas?

Sócrates: Em Itália, embora a primeira transição seja, normalmente, a procura dos jogadores mais adiantados, não se coloca tanta gente no processo ofensivo. Daqui resulta que as equipas se desequilibram menos e que os ataques estejam, quase sempre, em inferioridade numérica perante as defesas.

Gláucon: É por causa disso que o futebol italiano é tão fechado?

Sócrates: Com certeza. Há a preocupação, em Itália, de as equipas nunca se exporem desnecessariamente. Isto implica que o futebol transalpino se divida em dois momentos claros: o defensivo e ofensivo. As equipas defendem para depois lançarem os seus avançados; há jogadores para defender (mais) e jogadores para atacar (menos). Isto faz com que, passando para o momento ofensivo, os atacantes necessitem de se desembaraçar sem uma rede de apoios. Por causa desta necessidade de resolverem as coisas sozinhos, sem o apoio colectivo, os avançados italianos desenvolvem características individuais relevantes, como seja a capacidade de segurar e proteger a bola, nalguns, ou o drible curto, noutros, ou a capacidade de desmarcação, noutros ainda. O avançado italiano, porque em inferioridade numérica perante defesas que nunca se desmontam, evolui por necessitar de arranjar soluções individuais com que resolver os seus problemas.

Gláucon: De facto, Sócrates, a tua explicação faz sentido. Segundo o teu argumento, tanto na Holanda como em Itália, produzem-se grandes avançados, mas por razões diferentes.

Sócrates: Exactamente. Por razões diferentes, mas inerentes a cada um dos estilos de futebol.

Gláucon: E em que pé ficam as razões sócio-culturais?

Sócrates: As razões sócio-culturais podem interferir na evolução de um jogador e presidir ao estilo de futebol de um país. Desse modo, podem relacionar-se indirectamente com o tipo de jogadores que se formam nesse país. Mas as características desses jogadores serão sempre resultado de uma necessidade de adaptação ao estilo de futebol que se pratica nesse país. Nesse sentido, é unicamente o estilo de futebol praticado, influenciado, é certo, por razões sócio-culturais, que vai exigir a evolução dos jogadores.

Gláucon: De certa forma, então, tens para ti que os jogadores evoluem apenas por necessidade de adaptação?

Sócrates: Sim, sem dúvida.

Gláucon: É esse um ponto de vista darwiniano?

Sócrates: Creio que sim, embora de forma um pouco vaga. É o ambiente (estilo de futebol) que rodeia as espécies (jogadores) que vai determinar quais das espécies são mais aptas à sobrevivência. Aqueles que melhor se adaptarem às exigências do ambiente são os que sobrevivem. Esses vão evoluir no sentido de se adaptarem cada vez melhor às exigências, enquanto que os outros vão cair no esquecimento. Esta adaptação às exigências é o que os torna melhores, no fundo. Uma vez determinada esta qualidade, as gerações seguintes vão evoluir no mesmo sentido. Evidentemente, características como a qualidade futebolística não passam geneticamente de geração para geração, pelo que não se pode falar de selecção natural como Darwin. Mas o facto de a sobrevivência ser limitada apenas àqueles que souberem adaptar-se às exigências é, por si só, uma forma de selecção. Não sendo uma selecção natural, porque não é definida por características inatas, é ainda assim uma selecção com base na sobrevivência dos mais aptos. Nesse sentido, creio, os jogadores evoluem de um ponto de vista darwiniano, sendo que os ambientes mais agressivos, mais competitivos, são os que produzem melhores espécimes.

Gláucon: Para resumir o teu argumento, ó Sócrates, Itália e Holanda são então, por razões diferentes , é certo, os habitats mais exigentes para os avançados?

Sócrates: Sim, exactamente. E é essa exigência que vai fazer com que esses avançados sejam, por norma, os de melhor qualidade.

Gláucon: Gosto dessa explicação, ilustre Sócrates. Estou uma vez mais rendido...