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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Mania da Objectividade

Uma das principais razões - talvez mesmo a principal - pelas quais a esmagadora maioria das equipas de futebol por esse mundo fora não joga bem é, a meu ver, a objectividade. Não é, aliás, infrequente ouvirmos dizer de uma equipa que mastiga muito o jogo no meio-campo que tem falta de objectividade. Comentadores, treinadores, jogadores, todos sem excepção reconhecem que, quando uma equipa não consegue criar perigo, quando joga demasiado para trás, quando perde tempo a encontrar boas soluções de passe, revela falta de objectividade. Para quase toda a gente, joga bem quem procura constantemente a baliza, quem vai para a frente, quem não perde tempo com inutilidades, quaisquer que elas sejam. Pessoalmente, aborrece-me que dois jogadores que põe quatro ou cinco adversários à rabia, desposicionando-os, desgastando-os, e mantendo a bola, sejam criticados por não serem objectivos. Aborrece-me porque esses jogadores fazem sozinhos o que uma equipa inteira não é capaz de fazer. E, invarialmente, são eles quem estão errados, na opinião de quase toda a gente.

Como sabe quem lê este blogue, considero haver pouquíssima gente que saiba realmente alguma coisa de futebol. Uma das razões pelas quais penso assim é precisamente a ideia praticamente consensual de que todas as acções em campo devem ser objectivas, sejam elas quais forem. Como também deve ser sabido, é costume não concordar com muitas das ideias praticamente consensuais acerca de futebol. Para mim, nenhuma acção em campo deve ser objectiva. Nenhuma! Não o deve porque, embora o jogo tenha um objectivo, cada uma das acções pode apenas ter um objectivo circunstancial. A ideia de que uma equipa deve ser sempre objectiva tem origem precisamente na falácia que consiste em achar que uma acção isolada tem de ser executada em função de um objectivo geral. Pois não tem. O futebol é essencialmente um jogo não-objectivo, nesse sentido. Não é esgrima, nem remo. Em esgrima, não se pode não ser objectivo. Todas as acções são ou para se defender, ou para atacar o adversário. Em remo, não se pode simplesmente não remar, ou remar em círculos. Mas futebol não é isto. É um jogo de tipo diferente. Quando uma equipa só tem em mente ser o mais objectiva possível não tem praticamente nada. Só volta para trás em casos extremos, quando encurralada junto a uma linha, ou quando lhe interessa queimar tempo; só sai a jogar quando o adversário não faz pressão alta; só faz um passe curto quando não tem ninguém na frente que possa correr feito parvo.

É talvez do feitio do que é moderno achar que tudo o que é objectivo é bom. E, por isso, acções cujo fim não seja claro são imediatamente consideradas acções erradas. Acontece em futebol, mas acontece também em muitas outras coisas. É essa a razão pela qual, por exemplo, se aceita geralmente que as Humanidades não merecem um investimento idêntico ao que merecem as Ciências ditas concretas. É também por isso, por exemplo, que se acha que crises económicas se combatem essencialmente com ideias económicas, como se a Economia não fosse influenciada senão por si mesma. Vivemos num tempo em que, habituados pela estupidez das opiniões públicas, achamos que tudo se resolve com um plano bem definido, com metas bem definidas, com continhas bem feitas. Achamos que, se tivermos um objectivo claro, se fizermos tudo o que está ao nosso alcance para atingir esse objectivo, e, se não nos desviarmos do plano e do objectivo do plano, acabamos por ser bem sucedidos. E ignoramos que, muitas vezes, desviarmo-nos de planos e de objectivos é a atitude mais correcta. É um vício científico, um vício que tem por modelo uma mentalidade matemática. Aprendemos a fazer contas quando somos pequenos, e não só nos julgamos imediatamente inteligentes como julgamos que todos os porblemas se resolvem matematicamente, ou seja, juntando parcelas, fazendo contas, e obtendo resultados. Pois nenhum problema complexo se resolve matematicamente, e nenhum problema humano, por assim dizer, pode ser solucionando com habilidades matemáticas. A atitude matemática que estou a atacar consiste em considerar que a execução de meia-dúzia de passos correctamente, e pela ordem correcta, conduz necessariamente ao resultado desejado. Nada no mundo que seja minimamente complexo se resolve assim, e uma das formas de estupidez, porventura a mais moderna das estupidezes, consiste em pensar que sim.

O futebol é demasiado complexo para que possa ser jogado objectivamente, matematicamente, com sucesso. E é por ser tão complexo que um conceito como "objectividade" é absurdo. A maior parte dos treinadores treina a sua equipa, portanto, para fazer coisas absurdas. É por isso que o jogo é tão mal jogado por esse mundo fora; é por isso que os melhores jogadores, os criativos, os inteligentes, os que pensam por si, recebem pouca atenção. Os treinadores querem animais irracionais que repitam o lhes mandam fazer, que joguem sempre em função de um plano de jogo, que façam, em qualquer situação, aquilo que são treinados para fazer, quer a situação convide a isso, quer não. Tais treinadores não sabem o que é futebol. Um treinador a sério não tem um plano de jogo. Isto é, porventura, radical de mais para que alguém o perceba. Deixem-me remodelá-lo: um treinador a sério, um treinador que saiba o que é o jogo, que perceba que, como outras coisas, o futebol é um jogo demasiado complexo para que o conceito de "objectividade" faça sentido, um treinador que compreenda que o futebol é essencialmente um jogo de situações atípicas, irrepetíveis, e que os seus jogadores não são executantes de um plano, mas seres pensantes, agentes que têm de decidir o que é melhor em cada situação, está-se nas tintas para aquilo a que vulgarmente chamam "planos de jogo". Planos de jogo são coisas de gente idiota que acha que o futebol é um jogo de planos.

O futebol é um jogo em que o plano se elabora constantemente, a cada alteração das circunstâncias de jogo. Antes de uma equipa poder ser objectiva, ou seja, antes de poder materializar o seu futebol numa oportunidade de golo, tem de criar condições para que possa sê-lo.  E isso leva, na maioria das vezes (dependendo, claro está, da forma como o adversário defende), muito tempo. A maior parte das equipas salta este passo, ou ignora-lhe a importância. Se virem uma brecha na frente, não hesitam em tentar um passe de morte, por menores que sejam as probabilidades de sucesso de tal passe. Crê-se que todas as veleidades concedidas pelo adversário, todos os espaços, toda a liberdade ao atleta que conduz a bola deve ser encarada como uma oportunidade de criar imediatamente uma situação de golo. Poucas são as equipas que encaram o jogo como uma sucessão, por vezes muito numerosa, de micro-acções. E é por isso que, por exemplo, a criatividade é um atributo tão pouco procurado. Quando se acha que o jogo é essencialmente objectivo, jogadores que saibam pensar, que saibam imaginar melhor do que os outros, não são especialmente diferentes. Veja-se o caso de Modric, no Real Madrid. É um exemplo, mas haveria muitos outros. No Real, Mourinho pretende dele o que pretendia de Sneijder no Inter: últimos passes. É por isso que Modric não rende o que podia render. O mesmo acontece com Özil. Mourinho acredita na objectividade do jogo, e embora seja, porventura, o melhor treinador do mundo a preparar a sua equipa em função dessa objectividade, reduz dramaticamente o potencial dela ao acreditar nisso. Modric é um criativo. Estaria como peixe na água numa equipa que trabalhasse muito o jogo a meio-campo, com passes curtos, tabelas, movimentos entre linhas, apoios e coberturas próximas. Como o encarregam de uma função, como fazem dele alguém que, a todo o custo, tem de solicitar os atacantes em condições ideais, corta-se-lhe a imaginação. Pedem-lhe que execute meia-dúzia de coisas e que não faça outras tantas, quando ele estaria bem se não lhe dissessem coisa alguma. Em cada lance que intervém, tem de agir de acordo com as instruções que tem. É obrigado, por isso, a agir quase automaticamente, a repetir certos movimentos, a tentar sistematicamente coisas idênticas. Quando resulta (o que acontece devido à sua qualidade), corresponde ao que esperam dele. O problema é quando não resulta, o que acontece muitas vezes, pois o sucesso de tal futebol não depende só dele. Aí, acusam-no de estar pouco inspirado, e não pensam sequer na possibilidade de a falta de inspiração ter sido causada pelas instruções que tem.

Nunca fui o maior admirador de Sneijder, mas deixei de gostar definitivamente dele precisamente no ano em que muitos achavam que ele merecia a bola de ouro, isto é, no ano em que foi campeão europeu no Inter. Deixei de gostar dele exactamente porque o seu futebol era mecânico: recebia a bola, rodava e tentava um último passe. Falhava trinta passes por jogo, mas eventualmente acertava um ou outro. Evidentemente, com a mecanização da equipa, as acções de Sneijder até tinham alguma eficácia. Por outro lado, na sua selecção, a jogar da mesma maneira, só a prejudicou. Para Mourinho, o seu médio de ataque é uma espécie de quarter-back, e é essa ideia que não aceito. Nenhum jogador de futebol, pelas particularidades do próprio jogo, pode ter uma função específica como têm os jogadores de futebol americano. O futebol é um jogo de decisões, um jogo de criatividade, e é a criatividade, e só ela, que deve ser cultivada. Modric e Özil, em abono da verdade, são muito mais criativos do que Sneijder alguma vez foi. Sneijder era um executante extraordinário, mas nunca me pareceu o mais criativo dos jogadores. O croata e o alemão renderiam muito mais se estivessem numa equipa que preconizasse um modelo de jogo menos objectivo, se lhes fosse pedido não uma série de tarefas, mas apenas que criassem, consoante as circunstâncias, e de acordo com a posição relativa em que fossem colocados no campo. Hoje em dia, com a cientificidade a que se aproximou o futebol, vive-se uma autêntica mania da objectividade. E os melhores jogadores, aqueles que arranjam soluções de que ninguém estava à espera, aqueles que são capazes de criar a partir do nada, que solucionam problemas absolutamente inéditos, sem nunca terem sido preparados para solucioná-los, acabam ostracizados no meio de tanta objectividade. E nem sequer se percebe que, juntando meia-dúzia de jogadores criativos e deixando-os encarregues apenas de criar se fica, ainda que de forma menos óbvia, bem mais perto dos objectivos a que se propõe qualquer equipa de futebol do que cultivando um ideal de objectividade que apenas coarcta o potencial criativo de uma equipa.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Criatividade de Müller

A palavra "criatividade", no que diz respeito a futebol, tem frequentemente usos errados. Presume-se que um criativo é um jogador capaz de inventar maneiras requintadas de fintar os adversários, um jogador capaz de fazer passes de ruptura, um jogador, em suma, capaz de coisas que parecem difíceis. Isso não faz qualquer sentido. A criatividade não tem nada a ver com truques, malabarismos, recursos técnicos e artifícios excêntricos. A criatividade é um atributo mental, um atributo que permite solucionar problemas difíceis de maneiras inesperadas. O jogador criativo é aquele que descobre soluções inovadoras, que interpreta os dados de um lance de uma maneira imprevisível e que consegue ser mais espontâneo, mais rápido a pensar e mais eficiente a contornar os problemas que lhe são impostos.

Esse uso errado da palavra "criatividade" ocorre muitas vezes quando se pretende classificar um extremo. Raramente um extremo é um jogador criativo. Por norma, o extremo que as pessoas acham que é criativo é um jogador muito hábil, do ponto de vista técnico, e muito rápido. Só. Por exemplo, a criatividade de Cristiano Ronaldo é, quando comparada com outros jogadores, uma coisa quase ridícula. O mesmo se passa com Di Maria e Hulk, ou, noutra dimensão, com Robinho. São jogadores que, tecnicamente, possuem recursos muito interessantes, mas não são jogadores que, perante dificuldades imprevistas, saibam solucionar os seus problemas. É por isso que, em espaços curtos, não são jogadores extraordinários ou, pelo menos, não conseguem sê-lo de um modo regular. O paradigma do jogador criativo, na acepção de palavra que estou a defender, é o típico jogador espanhol da actualidade: Iniesta, Fabregas, David Silva, Mata, Bojan, etc. Tratam-se de jogadores que interpretam os lances de um modo mais abrangente, que conseguem, perante problemas difíceis, encontrar invariavelmente a melhor solução e que conseguem descobrir soluções inesperadas. São por isso mais imprevisíveis e, por conseguinte, mais difíceis de entender, por parte dos adversários. O jogador criativo é, por isso, aquele que percebe com mais facilidade para onde é que a bola deve seguir, aquele que percebe mais rapidamente se deve fazer um compasso de espera ou se deve jogar de primeira e aquele que, mesmo sem recursos técnicos assinaláveis, é capaz de se livrar individualmente de adversários directos, enganando-os com um drible, com uma simulação de passe, com uma tabela ou uma desmarcação no momento certo.

Uma das razões pelas quais Mesut Özil tem sido amplamente elogiado e Thomas Müller ignorado prende-se precisamente com o facto de as pessoas terem tendência a reter com mais facilidade os atributos técnicos de um atleta do que os seus atributos intelectuais. Özil é tecnicamente mais vistoso que Müller e terá melhores capacidades a esse nível. Mas não é mais criativo que o jogador do Bayern. Isto porque criatividade não tem nada a ver com capacidade técnica. Aliás, uma das razões pelas quais o momento ofensivo da selecção alemã parece tão fluido tem a ver com a liberdade que Müller tem para vir para o meio, permutando com Özil, onde a sua capacidade de decisão e a sua criatividade têm mais influência no desempenho do colectivo. Se Müller ficasse amarrado ao flanco, como do outro lado acontece com Podolski, cujos movimentos são essencialmente verticais, a Alemanha seria muito mais estéril do ponto de vista ofensivo, pois a criatividade de Müller não estaria tanto em jogo. A jogada que - creio - melhor exemplifica as qualidades que estou a querer reconhecer em Müller é a jogada do segundo golo frente à Inglaterra.


Simão | Vídeo do MySpace

O lance começa na direita, com Kedhira a servir Müller, junto à linha, com Ashley Cole atrás dele. Sem preparação, de primeira, de modo a não permitir a aproximação dos defesas ingleses, Müller reenvia a bola para o meio, para o apoio de Mesut Özil ao centro. É nesta opção, invulgar na maior parte dos jogadores que jogam junto às linhas, que está a primeira e a mais decisiva acção do lance. Depois de soltar em Özil, Mülller desmarca-se de imediato. Özil joga de primeira em Klose, que está junto à linha, e este, também de primeira, faz a bola entrar nas costas da defesa inglesa, num espaço que Müller, ao desmarcar-se, atacara. O desequilíbrio está causado e Müller, com espaço para rematar, opta antes por servir Podolski, que fica sozinho porque Müller arrastou todas atenções para si. A capacidade de decisão de Müller, tanto no passe para Podolski, mas sobretudo no primeiro momento, quando joga no apoio e se desmarca de imediato, é que é aqui preciso notar. É que, embora pareça um movimento simples, isto denota uma capacidade criativa invulgar. Em primeiro lugar, Müller percebe a opção que tem ao meio de um modo notável e percebe também que, para fazer uso dessa opção, deve executar de primeira. Qualquer recepção tornaria inválido o apoio de Özil. Müller pôde usar a opção porque pensou rapidamente e a descobriu antes de receber a bola. Pouquíssimos jogadores têm esta capacidade. Depois disto, percebe rapidamente que, com Özil na posição em que estava e Klose à esquerda, o lateral-esquerdo e os dois centrais haviam sido puxados para ali e a defesa inglesa estava, portanto desorganizada. Como tal, imediatamente a seguir ao passe de primeira, desmarca-se e aproveita essa desorganização. Foi a criatividade de Müller, a sua capacidade de visualizar rapidamente o que rodeava e de perceber rapidamente os dividendos que poderia tirar dessa conjuntura, que permitiram que fosse criado tamanho desequílibrio. Depois, porque o seu pensamento exigia o passe de primeira e a desmarcação célere, tratou de pôr em prática aquilo que a sua mente idealizou com facilidade. É esta capacidade intelectual de antecipar com tanta precisão tudo aquilo que uma simples acção ou um simples movimento implica, assim como a capacidade de extrair dessa capacidade primeira todo o lucro possível, que faz de Müller um jogador extraordinariamente criativo. A criatividade é isto, é o atributo que permite ao jogador antecipar mais correctamente o futuro imediato.

Grande parte dos jogadores, mesmo os muito dotados tecnicamente, agem essencialmente por reacção e não são capazes de antecipar, quais xadrezistas vulgares, senão os milésimos de segundo que se seguem à sua acção. O jogador verdadeiramente criativo é aquele que consegue desenhar na sua cabeça toda a jogada, que consegue perceber, com um grau de precisão muito elevado, tudo o que vai acontecer em seguida. Esse, porque tem essa capacidade, está sempre um passo à frente dos outros, mesmo que não possua argumentos técnicos e físicos tão elevados como os melhores. É por isso que a criatividade, ainda que dependa sempre da acção dos outros para se fazer valer, é um atributo tão importante. Numa equipa que jogue como equipa, que se faça valer mais da relação entre os diferentes elementos da equipa do que das individualidades que a compõem, a criatividade é, portanto, o atributo mais importante num jogador. Müller é mais criativo que Özil porque tem esta capacidade de ler as jogadas muito mais apurada que o jogador do Werder Bremen, ainda que não seja tão evoluído, do ponto de vista técnico, quanto o seu compatriota, nem seja tão competente quando entregue a duelos individuais. Como tal, só quem entende o futebol como um jogo de individualidades é que pode ficar mais entusiasmado com Özil do que com Müller. Estas pessoas acham igualmente que o primeiro é mais criativo porque nem sequer concebem a existência de atributos essencialmente colectivos, que só têm real valor se o jogo for entendido para além desse choque entre onze indivíduos de cada lado. Para esses, Özil é mais influente na equipa porque as qualidades da equipa são apenas a soma das qualidades individuais de cada elemento que forma a equipa. Ignoram, porque incapazes de não ignorar, que as qualidades da equipa são, isso sim, muito mais do que essa soma, a soma das relações que cada individualidade tem com as outras individualidades, e que, portanto, é mais influente aquele cujas capacidades de se relacionar com os outros é melhor. No fundo, Müller é mais influente porque a sua relação com os outros e com o colectivo em geral é mais valiosa, independentemente de, quando entregue a si, não ter tanta facilidade para resolver problemas quanto tem Özil.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ballack, Schweinsteiger, Müller e Özil

Começou o mundial e estas são as primeiras notas acerca da competição. Devo adiantar, em primeiro lugar, que o blogue não procurará acompanhar exaustiva e regularmente o campeonato do mundo. Considerações pontuais, como esta, deverão surgir de tempos a tempos, durante a prova, mas análises a jogos, perspectivas mais profundas e considerações mais atentas ficarão para os nossos artigos semanais na Academia de Talentos. Assim, para os mais interessados, após cada uma das três rondas desta primeira fase e após cada eliminatória, será possível ler as nossas considerações acerca da prova no respectivo site.

Antes de passar ao assunto alemão, gostaria de referir que, para já, a prova não tem suscitado grandes surpresas. A França é medíocre, mas ninguém, por mais ingénuo que fosse, poderia esperar muito mais. O principal problema da equipa é a incapacidade para formar apoios próximos. A equipa tenta não jogar comprido, mas os jogadores parecem sempre o mais afastados possível uns dos outros. Gourcuff, coitado, parecia ter peçonha, tal era a separação para o duplo pivot e para os extremos, demasiado agarrados às posições. Dizer ainda que, apesar da qualidade, há jogadores na selecção francesa incrivelmente sobrevalorizados: Toulalan, Anelka e, sobretudo, Govou. É quase criminoso não ter levado Nasri. Da Inglaterra, não se esperava muito mais. Mas é uma das principais favoritas. Isto porque as equipas de Capello são geneticamente assim. Pouco criativas, mal arrumadas em termos ofensivos, incapazes de criar apoios com facilidade, com poucas ideias, mas com argumentos individuais óptimos e uma consistência defensiva suficientemente boa. Contra adversários menos cotados, dão sempre a impressão de não serem capazes de exercer um domínio claro. Mas são difíceis de bater, mesmo pelas principais potências, e têm atletas que podem resolver a qualquer instante. Já a Argentina de Maradona vive de Messi. E cairá quando Messi não chegar para compensar todos os problemas tácticos desta selecção.

Agora, a Alemanha. A primeira goleada da prova dirá muito mais dos australianos do que propriamente dos alemães. Foi um teste demasiado fácil e nenhuma consideração optimista poderá ser mais do que uma precipitação. Ainda assim, não percebo o espanto de grande parte das pessoas. Tirando a Espanha, cujo futebol é de uma qualidade inigualável, os alemães tinham de vir no segundo grupo de favoritos. A qualidade da selecção germânica tem vindo a melhorar gradualmente e este ano, com alguns jovens com um futuro muito promissor, está ainda mais forte. Persistem, porém, os problemas colectivos que Joachim Löw parece não compreender. O espaço entre os dois médios e a defesa, se bem explorado, será uma vulnerabilidade demasiado grande e o sistema táctico, ainda que alimentado por alguns talentos indiscutíveis, é excessivamente rígido. Contra a Austrália, os alemães tiveram sempre espaço para trocar a bola e até para se recriarem, mas contra uma equipa que pressione condignamente terão mais dificuldades, pois não são extraordinariamente competentes a criar apoios ao portador da bola. O calcanhar de Aquiles, contudo, parece-me ser claramente a transição defensiva. Sempre que é necessário baixar rapidamente, aparece espaço para jogar. Os dois médios, já sendo poucos, tornam-se ainda mais vulneráveis por ambos parecerem ter liberdade para aparecer em zonas de finalização, e o meio-campo germânico demora bastante a reorganizar-se sempre que perde a bola.

Quanto a nomes, muito se falou de Ballack e da sua ausência. Discordo de que o carismático capitão faça alguma falta a esta equipa. Aliás, Ballack nunca foi um jogador que apreciasse muito. Trata-se de um jogador cerebral, competente na distribuição de jogo, mas com índices de criatividade banalíssimos. Emprestaria experiência à selecção, mas subtrair-lhe-ia certamente alguma da criatividade que, deste modo, possui. Schweinsteiger é quem aparece ao meio, tal como fez ao longo da época no Bayern. Há quem considere que o irreverente alemão terá encontrado finalmente a vocação certa. No meu entender, como médio, Schweinsteiger é um jogador vulgar. Além de relativamente fraco a nível táctico, com graves problemas em termos posicionais, por exemplo, não é também um jogador imaginativo. Será ele quem substituirá Ballack, nesta competição e, porventura, no futuro, mas não lhe auguro muito melhor que o antigo capitão germânico, tendo até ainda muito que trabalhar para se tornar no jogador cerebral que o médio do Chelsea é. Com Thomas Müller e Mesut Özil a história é outra. O criativo do Werder Bremen não me entusiasma tanto como à generalidade dos adeptos, sobretudo porque precisa de ser mais consistente e um jogo contra um adversário tão insignificante não é um teste suficientemente exigente, mas trata-se de um jogador imaginativo, com excelentes pés e capaz de coisas muito boas. Para muitos, foi o melhor em campo, por tudo o que fez. Mas misturou fintas e assistências interessantes com alguns momentos de irreflexão e má decisão. Müller, embora mais discreto, fez um jogo perfeito. Ainda assim, com estes dois jovens, a selecção germânica deixa de ser aquela selecção apenas forte fisicamente, reputada, com experiência e carisma, mas pouco imaginativa.

Ballack e Schweinsteiger são médios que dão continuidade à tradição alemã: experientes, seguros a distribuir, cerebrais, até, mas pouco imaginativos, pouco capazes de modificar, de súbito, as coordenadas de uma partida, não necessariamente com uma arrancada fulminante, mas com um passe menos previsível, com uma qualquer invenção de génio. Müller e Özil são muito mais talentosos. E embora ainda tenham de crescer, para o confirmar, constituem as principais referências para o futuro. A principal diferença entre um e outro, por sua vez, está essencialmente no facto de Özil ser muito mais espalhafatoso, de apostar muito mais vezes nos lances individuais, de arriscar mais no passe, etc. Por essa razão, nem sempre opta pela melhor decisão. Müller é mais inteligente, percebe melhor as necessidades da equipa a cada momento. E isto sem que signifique que não tem a capacidade adequada para fazer um passe deslumbrante, para descobrir uma solução imprevista. É por isso que a opinião foi tão favorável em relação a Özil. As pessoas não valorizam adequadamente a discrição, atributo que pode dizer muito de um atleta. Contra adversários mais competentes, Müller manterá certamente o nível exibicional. A sua inteligência e a sua maturidade assim o permitem. Já Özil, embora se possam sempre esperar dele rasgos formidáveis, estará muito mais vulnerável a oscilações de exibição e desaparecerá do jogo com muito mais facilidade, sempre que não for capaz de deslumbrar como deslumbrou neste primeiro desafio.