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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fabregas, Nasri e a Importância do Passe Vertical

A expressão "passe vertical", que encontra uso habitual neste blogue, não faz parte - ou não fazia, até há muito pouco tempo - do vocabulário futebolístico. Utilizei-a inicialmente para distinguir uma espécie de passe particular, um passe rasteiro com progressão, ou seja, um passe feito pelo chão que não se limita a fazer a bola circular à roda do bloco defensivo adversário, mas que penetra nele, ultrapassando algumas das suas linhas. Hoje em dia - penso - o rótulo fixou-se no imaginário de quem fala de futebol, e quando se fala de um "passe vertical" já não se confunde com um passe feito pelo ar, hábito, por exemplo, de uma equipa que faça muito jogo directo, nem com passes para as costas da defesa. O que, neste texto, procurarei demonstrar é a importância crescente que, no futebol moderno, este tipo de passe tem. É minha convicção que as melhores equipas em ataque organizado são também aquelas que mais e melhor procuram estas situações e, como tal, depressa será assunto de reflexão pelos grandes treinadores mundiais.

A equipa que, em todo o mundo, melhor usa este recurso é o Barcelona; a segunda o Arsenal. É precisamente recorrendo a um golo dos gunners em que se fez uso do passe vertical que procurarei sustentar o argumento. O lance é o do segundo golo frente ao Birmingham, este fim-de-semana. Cesc Fabregas apercebe-se da localização de Nasri à sua frente, entre linhas adversárias, e mesmo tendo atrás de si um adversário, direcciona-lhe a bola. Ao fazê-lo, ultrapassa imediatamente uma linha, composta por dois adversários. O facto de aquele que vai receber a bola estar marcado é pouco importante. Um passe vertical pelo chão torna a acção do defesa mais difícil e uma simples devolução ao colega que em primeiro lugar passara a bola permite à equipa preservar a posse de bola. Também por isto, um passe vertical não é um passe tão arriscado como, por exemplo, um passe para as costas da defesa, e só não é tão usado porque se convencionou que passar a bola para colegas que têm adversários por perto é errado. Ora bem, não é. Pode até ser muito útil, pois fará com que os adversários que ocupam esses espaços adquiram a ilusão de que podem capturar a bola e se desposicionem. O que aconteceu de seguida demonstra bem a utilidade que há em fazer um passe destes mesmo nas condições em que o colega se encontrava. Nasri, embora apertado, devolve de primeira a bola a Fabregas, que no momento imediatamente a seguir a ter feito o passe se dirigiu para Nasri, para fornecer um apoio curto. Com essa movimentação, pode receber a devolução de Nasri à frente de um dos dois adversários que o tinham apertado inicialmente. Nasri, ao devolver, desmarcou-se nas costas do seu marcador que, iludido pelo engodo da bola, acabou por ficar batido. Fabregas, por sua vez, deu de primeira novamente para Nasri, que ocupara agora um espaço frontal entre o homem que lhe saíra ao encalço e a linha defensiva do Birmingham. Estava criado o desequilíbrio. Um passe vertical e uma tabela foi tudo do que o Arsenal precisou para arranjar condições de remate à entrada da área. Parece simples. O problema é que os hábitos que se cultivam ao longo da carreira e as coisas em que esses mesmos hábitos fazem os jogadores acreditar impedem, muitas vezes, de perceber como se pode simplificar um lance.



Com um passe vertical e uma pequena combinação entre dois jogadores, o Arsenal ultrapassou todo o meio-campo do Birmingham. Este tipo de penetração é utilíssimo, em futebol, mas continua a ser pouco usado, ou usado inconscientemente. Há pouquíssimas equipas que procuram de modo sistemático estas acções e menos ainda as que trabalham de modo a potenciar esses lances, tendo preocupações não só em progredir desse modo, como também em criar movimentações que facilitem a acção aos jogadores envolvidos nessas situações. Creio, contudo, que o futuro tratará de corrigir isso. Tão importante como rotinar, por exemplo, uma transição ofensiva, será treinar o comportamento colectivo de modo a criar mais e mais condições para se efectuarem passes verticais. Aliás, a compreensão do modelo de Guardiola teria de passar, entre muitas outras coisas, por perceber como o passe vertical é, no seu Barcelona, um instrumento fundamental. Como acho que, em dez ou vinte anos, este Barcelona será um modelo a imitar por todos, creio também que o passe vertical virá a ser objecto de maior reflexão e dedicação.

P.S: E o que dizer do terceiro golo do Arsenal? Novamente, Fabregas e Nasri no lance. Desta vez, recreando-se como se não tivessem mais colegas em campo, trocando a bola apenas entre os dois, pondo à rabia todos os adversários que lhes saíram ao caminho. Este tipo de entendimento entre dois atletas, estendido depois ao resto da equipa, deveria ser uma das maiores preocupações de um treinador. Mais sobre isto noutra altura, quem sabe se brevemente.

P.S. 2: E o jogo de Dani Parejo, esta noite, coroado com um golo magnífico? O rapaz tem classe até a andar, mas continua relativamente esquecido numa equipa do meio da tabela em Espanha. Há poucos, porém, com a qualidade que ele tem. Pouquíssimos, mesmo. Se se pensar, então, que, no início da temporada passada, foi trocado por Granero, dá quase vontade de cortar os pulsos...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Certezas (12)

Classe. É a palavra que melhor o define. O que não deixa de ser notável, tendo em conta que tem apenas 19 anos. Possuidor de uma técnica absolutamente notável, o que impressiona mais neste miúdo é a maturidade, a frieza, a racionalidade. É, também, a aparente facilidade com que executa cada lance. Alia, portanto, aos atributos técnicos invejáveis uma velocidade de raciocínio ímpar. Ao chegar aos seus pés, a bola já tem um destino, previamente estudado e decidido com uma destreza invulgar. Apesar de muito talentoso, não parece cair nas vaidades de outros e muito menos abusar nos truques e na fantasia improfícua. Sabe, por isso, guardar o seu arsenal de recursos para quando necessita deles, não usando cada bola que lhe chega para demonstrar as coisas extraordinárias de que os seus pés são capazes. Essa é, aliás, uma das características da escola espanhola de que faz parte. Aqui abro um parêntesis. É certo que esta rubrica, até ao momento, se deteve apenas em jogadores portugueses, em jovens promessas do nosso futebol, e que foram escapando a esta distinção alguns jogadores estrangeiros que, inegavelmente, tinham valor para ser referidos. Lembro-me, assim de repente, pelo menos de Bojan Krkic, o fenómeno espanhol, de Carlos Vela, o avançado mexicano que entretanto já vai fazendo alguns jogos pelo Arsenal, e de Stevan Jovetic, o avançado montenegrino que no princípio da presente temporada rumou à Fiorentina. Embora, por razões óbvias, não nos seja possível acompanhar a evolução de jovens menos conhecidos do grande público que não sejam portugueses, queremos contudo, a partir de agora, sempre que faça sentido, referenciar valores oriundos de outros países e que sejam pouco falados. Afinal, é disso que esta rubrica se alimenta. Como tal, começamos, nas nossas "Certezas" internacionais, por apresentar este médio-ofensivo espanhol, formado no Real Madrid. No início desta época, foi emprestado ao Queens Park Rangers (apesar dos esforços, sobretudo do Arsenal, em contratá-lo) e treinado por Paulo Sousa. Ao fim de meio ano, porém, este campeão europeu de sub-19 volta à casa mãe, talvez fruto da inegável capacidade futebolística que possui. Será curioso ver como Juande Ramos conseguirá gerir um meio-campo com tantas unidades de ataque de grande qualidade como sejam os holandeses Van der Vaart e Sneijder e os espanhóis Ruben de la Red, Guti e este miúdo, sendo que, à partida, não terá regressado a Espanha a meio da temporada apenas para fazer número. Será, por isso, interessante, acompanhar nos próximos meses a evolução de Daniel Parejo...