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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dois Defesas Australopitecos

São dois os casos, dois os jogos, dois os exemplos. O primeiro, na passada quarta-feira, no jogo que opôs o Shalke 04 ao Inter de Milão. A referência é ao primeiro golo e o ponto é sustentar a ideia antiga, já aqui expressa noutras ocasiões, de que Lúcio, apesar de um defesa muito agressivo e até rápido para a envergadura física que possui, é forte para jogar num bloco baixo, mas não tem condições nenhumas para fazer parte de uma defesa que pretenda jogar mais subida. É que, quando tem de ocupar bem os espaços, quando tem de fazer uso do cérebro e não dos músculos, Lúcio é francamente mau. O exemplo é o golo de Raúl. Já vi o lance várias vezes e ainda não consegui perceber o que se terá passado na cabeça de Lúcio. Jurado conduz a bola e Lúcio só tem que preencher a zona central. Maicon até vem a fechar por dentro e, como tal, não há qualquer possibilidade de a bola entrar por aquele lado. Mas Lúcio, talvez imaginando que Raúl se iria desmarcar por ali, flectiu para a direita e deixou o centro da defesa aberto. Raúl só teve depois que procurar aquele espaço e receber o passe fácil do compatriota. Mais uma vez, fica evidente que Lúcio, quando tem que decidir rápido, quando tem que reajustar o seu posicionamento às incidências de cada lance, falha rotundamente. A este nível, um falhanço deste tipo é patético. Quando não é para ir à bola e para atropelar adversários, Lúcio é demasiado fraco para que possa estar entre a elite dos centrais europeus. Talvez seja bom para salivar atrás de javalis, ou como macho dominante de um grupo de ursos, mas para jogar futebol faltam-lhe algumas capacidades perceptivas fundamentais.

O segundo caso diz respeito ao clássico espanhol, no fim-de-semana, e à exibição de Pepe. Gostava de ter uma compilação dos lances de Pepe, para melhor ilustrar a minha opiniao, mas não tenho. Por isso, fico-me pelas palavras. Há quem jure que Pepe fez um jogo enorme. Enorme, enorme, só o disparate. Em primeiro lugar, Mourinho preparou a exibição de Pepe antes do jogo, quando alertou para o facto de o Real não conseguir acabar o jogo com onze jogadores. Aliás, viu-se bem, após quinze ou vinte minutos de jogo, qual fora a intenção dessas declarações. Visavam condicionar o árbitro e permitir aos jogadores do Real entrar sistematicamente duro. O mais duro de todos, e aquele que manteve a dureza excessiva ao longo dos 90 minutos, foi Pepe. Para mim, que ainda há dias escrevi coisas sobre árbitros, este clássico espanhol representou bem o tipo de injustiças que esta modalidade preconiza. Como é que é possível que Piqué e Xavi vejam amarelos por esbracejar ou dizer coisas, e Pepe passe o jogo impune? Sem qualquer espécie de exagero, Pepe fez o suficiente para ser expulso, no mínimo dos mínimos, cinco vezes, tantas foram as entradas fora de tempo. Talvez não tenha feito uma entrada merecedora de vermelho, mas fez pelo menos dez merecedoras de amarelo. E nem pela repetição de faltas viu o cartão. O seu jogo consistiu basicamente em atropelar jogadores do Barcelona, em correr feito maluquinho direito ao portador da bola, em andar à rabia e a tentar intimidar os adversários sempre que podia. E só não andou de liana em liana porque não havia lianas. Quando um jogador se destaca essencialmente pelo temor que tenta provocar nos outros, muita coisa está mal. Há quem garanta, ainda assim, que foi o melhor jogador em campo. Sinceramente, achava que um critério necessário para se eleger o melhor jogador em campo fosse ser jogador. Pepe talvez tenha sido o melhor animal em campo. Como jogador, fez uma exibição horrível, correu excessivamente e sem nexo, andou feito barata-tonta atrás de tudo o que mexesse, e arriscou entradas duras vezes sem conta e sem qualquer necessidade. Após o jogo, Mourinho reforçou a ideia de não ser possível acabar um jogo contra o Barcelona com onze em campo, mas devia ter acabado com nove. E devia ter ficado sem Pepe, aliás, logo na primeira parte. Aquilo que me parece recomendável, portanto, para quem deseja terminar o jogo com onze mas queira, ainda assim, colocar animais ferozes em campo, é açaimá-los o melhor possível. Útil seria também que não houvesse idiotas a elogiar uma exibição que consistiu em tentar fazer o perfeito oposto de jogar futebol. É que ajudava muito que os homens das cavernas sentissem que passar por cima de colegas de profissão não é jogar futebol.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os erros de Pepe

Antes de iniciar, gostaria de dizer, em jeito de preâmbulo, que este texto está preparado há já bastante tempo e que, reportando-se à temporada 2008/2009, deveria ter sido publicado no final da época anterior ou no início desta que agora terminou. Por força das circunstâncias, a sua publicação foi sendo adiada sucessivamente. Apesar de tudo, o texto acaba por conhecer a luz do dia numa altura apropriada, alguns dias apenas antes do Mundial da África do Sul, e no momento em que Pepe parece finalmente apto a dar o seu contributo à selecção nacional. Tendo em conta que, em mais de metade desta época, Pepe esteve parado, o texto acabou por não perder assim tanta relevância. Embora o seu conteúdo não seja actual, as conclusões que dele se podem tirar são-no. É com isso em vista que ele deve ser lido.

Já aqui, noutras ocasiões, ficou a minha opinião sobre defesas centrais e sobre que tipo de defesas me parecem mais competentes. Retomando, em traços gerais, as minhas denúncias em relação a centrais mais impetuosos, queria reforçar que, por norma, impetuosidade acarreta falta de atenção, desposicionamento desnecessário, precipitações, acumulação de erros, etc. O central luso-brasileiro Pepe foi sempre, para mim, um destes centrais. Nunca lhe reconheci o valor que lhe queriam imputar nem consigo incluí-lo, de maneira nenhuma, nos melhores centrais europeus da actualidade, como o quer muita gente. A sua abordagem aos lances, o seu excesso de agressividade, a forma irracional com que desempenha o seu papel dentro de campo foram sempre, na minha óptica, um problema. Mesmo quando esse comportamento não causava directamente problemas, fui sempre da opinião que era um sinal inequívoco de falta de qualidade. Lembro-me, por exemplo, de ser dos poucos a afirmar que a primeira fase do Euro 2008 de Pepe foi medíocre, quando a opinião pública defendia que estava a ser o melhor central do certame. A razão era óbvia: ainda que não tivesse sido o causador de nenhum golo sofrido ou não tivesse protagonizado qualquer fífia, a sua postura em campo denunciava um risco que, mais tarde ou mais cedo, iria ser pago. Lembro-me, por exemplo, de cometer três erros graves no primeiro jogo de Portugal, erros esses que ou não deram em nada ou que ele próprio conseguiu corrigir, graças à sua velocidade e à sua agressividade. Ora, não sou capaz de gabar um jogador que, mesmo quando não é o responsável directo pelo insucesso da sua equipa, comete erros que podem, em situações idênticas, comprometer esse mesmo sucesso. E Pepe comete-os com uma frequência assustadora. E sempre os cometeu. Não consigo elogiar um jogador deste tipo, mesmo reconhecendo que tem algumas características acima da média e que, em comparação com outros defesas centrais, faz coisas que nem toda a gente é capaz de fazer. Um central que não é seguro, que comete erros com frequência, mesmo que alguns desses erros não tenham consequências relevantes, jamais pode ser um central de eleição.

Muita gente achará, por certo, que estou a exagerar, que a frequência dos erros de Pepe não é assim tanta. Antes de passar ao conteúdo propriamente dito deste texto, gostaria de transcrever um artigo de Jorge Valdano, intitulado "O Erro", publicado no jornal A Bola, no dia 29 de Novembro de 2008, no qual o ilustre dirigente merengue refere precisamente o mesmo que eu, que Pepe dá erros atrás de erros:

"Pepe é um colosso. Um central rápido, poderoso, que faz sentir a sua presença na marcação, sempre pronto a auxiliar e que transmite segurança. Mas desconcerta-me que em cada partida cometa um erro decisivo: expulsão, penalty, uma prenda a um avançado... Uma fífia calamitosa no meio de uma montanha de acertos arruína a nota final de um jogo. Há jogadores que têm esta debilidade. Treinei um central a quem apelidámos de O erro, assim, no singular. Quando o cometia nos primeiros minutos do jogo, respirávamos de alívio: "Já está", dizíamos. Se tardava em cometê-lo, vivíamos angustiados, porque o erro nunca tem hora, e chegaria seguramente. Pepe é um defesa grande demais para gerar essa incerteza."

(Jornal A Bola, Sábado, 29 de Novembro de 2008)

A minha opinião em relação a Pepe não é tão lisonjeira quanto a de Valdano. Acho que não é "grande demais para gerar essa incerteza" precisamente porque ao gerá-la perde grandeza. E como a gera frequentemente, não tem grandeza frequentemente. Pepe é um central mediano, que tem algumas características muito boas, mas outras péssimas. E as que não são boas são precisamente as mais relevantes: a capacidade de se manter concentrado, o controlo emocional, o sentido posicional, a capacidade de leitura dos lances, etc. Pepe está sobrevalorizado porque no futebol dos dias que correm há tendência para se valorizar aquilo em que Pepe é bom, ignorando precisamente que o resto é que não deveria faltar. E por causa disso equivocam-se muitas vezes.

Depois disto, que já era conhecido, resta falar do processo de fabrico deste texto. Tive a ideia, no início da temporada correspondente a 2008/2009, de seguir com atenção os jogos do Real Madrid e de fazer um inventário dos erros de Pepe. A ideia consistia em arranjar argumentos sólidos - leia-se factos - com que demonstrar inequivocamente que Pepe cometia demasiados erros para a reputação que tinha. Não sabia, na altura, qual seria o prazo dessa investigação, nem que tipo de erros iria incorporar. Depressa me apercebi, porém, que muitos dos seus erros originavam golos dos adversários, pelo que limitei a investigação aos erros de Pepe que se relacionavam directamente com golos sofridos pelo Real. Para dar também um ar unificado à coisa, decidi prolongar a investigação até ao fim da temporada, fazendo um apanhado geral do comportamento do central português no decorrer da mesma. Assim, o que em seguida se mostrará é o conjunto de erros cometidos por Pepe que estiveram directamente relacionados com golos adversários (ainda que haja algumas excepções, como penaltys cometidos por Pepe, mas não sancionados pelo árbitro), ao longo da temporada de 2008/2009, bem como a análise das consequências desses erros. Não poderia ilustrar melhor cada um dos erros a que me refiro do que através de uma montagem com os lances em questão. A compilação dos erros de Pepe ao som da Marcha Eslava de Tchaikovsky dá um lado monumental à coisa. Fica a prendinha:



Depois do filme, importa fazer uma análise numérica dos erros de Pepe. Pepe esteve presente em 26 partidas da Liga Espanhola, tendo o Real Madrid, nesses 26 jogos, averbado 22 golos sofridos. Pepe teve responsabilidade directa nos dois golos frente ao Deportivo, na primeira jornada, nos dois golos frente ao Athletic de Bilbao, na oitava jornada, no golo frente ao Bétis, na vigésima quarta jornada, e nos dois golos frente ao Getafe, na trigésima segunda jornada. São 7 golos, em 22, da sua responsabilidade. Significa isto que 32% dos golos sofridos pelo Real Madrid, na temporada 2008/2009, tiveram o cunho do central luso-brasileiro. Foi ainda responsável pela derrota frente à Juventus, na fase de grupos da Liga dos Campeões, e pela derrota frente ao Liverpool, nos oitavos de final da mesma prova, e que ditou a eliminação do Real Madrid. Registaram-se ainda quatro penálties (só dois foram assinalados), absolutamente desnecessários e estúpidos, que contribuíram ou poderiam ter contribuído para maus resultados da sua equipa.

De acordo com estes números, parece-me pouco defensável a ideia de que Pepe é um dos melhores centrais da Europa. Foi culpado por um número excessivo de golos sofridos pelo Real Madrid na Liga e um dos principais responsáveis pela derrocada de Anfield, que afastou o Real da Liga dos Campeões. É certo que tem características que impressionam. Mas o futebol não é para os que mais impressionam, para os que têm mais músculos, para os que correm mais, para os que lutam mais. É para os que jogam melhor. A um central pede-se, entre outras coisas, sobriedade e segurança. Pepe pode dar agressividade, capacidade de luta, entrega, mas não é sóbrio nem seguro. Sozinho, foi responsável por um terço dos golos sofridos pela equipa. É um exagero. Todos os grandes centrais têm dias maus e falham ocasionalmente. Pepe, contudo, falha muito e com muita frequência. Na temporada de 2008/2009, parte dessas falhas resultaram em golos sofridos pela sua equipa. Faltaria observar as falhas que não tiveram consequências relevantes. Tal análise teria por conclusão, por certo, que o central comete demasiados erros e que a equipa, com ele em campo, permanece constantemente insegura.

O futebol de Pepe é vertiginoso: é um central que vai a todas, que disputa todas as bolas como se não houvesse amanhã, que consegue cortes no limite, que faz recuperações fantásticas. Mas essa vertigem, que tantas vantagens traz, acarreta igualmente desvantagens que este texto elucida categoricamente. Por ser como é, Pepe comete erros atrás de erros. E prejudica regularmente a equipa em que joga. Se as consequências positivas da natureza vertiginosa do seu futebol o tornam um central como poucos, as consequências negativas tratam de colocá-lo bem mais abaixo, na mediania. Ao chegar ao Real Madrid, Pellegrini disse-se impressionado com Pepe. Dizia o técnico chileno que Pepe tinha imponência a sair com a bola e era uma voz de comando. A apreciação do ex-treinador, porém, negligenciava o quão nefastas podem ser tais características. A imponência pode ser uma virtude, com efeito, mas nunca às custas da concentração, da sobriedade, da lucidez, da segurança, da frieza. A um central pede-se essencialmente regularidade e é preferível que não faça um único corte arriscado durante uma temporada do que arrisque constantemente, sendo bem sucedido nuns, mas provocando consequências ruinosas para a equipa noutros.

Há quem diga ainda que Pepe é o melhor central do mundo a jogar alto. O exagero da convicção só não é mais absurdo que o erro de lógica que lhe subjaz. Tal erro consiste em presumir que, para jogar alto, basta possuir velocidade e impetuosidade, coisas em que Pepe, de facto, é dos melhores do mundo no seu posto. Para cobrir com eficácia todo o terreno que fica nas costas de uma defesa que se posiciona muito alto não basta, porém, ser-se rápido e reagir rápida e agressivamente à perda de bola. É preciso, e é até mais importante, estar-se bem posicionado, perceber e ler convenientemente as jogadas e antecipar, mentalmente, as possibilidades das mesmas. Pepe é rapidíssimo em termos musculares. Não o é, de maneira nenhuma, em termos mentais. A interpretação que faz dos lances é, invulgarmente, se não errada, lenta. Além disso, tem problemas posicionais óbvios e, quanto mais veloz o jogo, menos correcto é o seu posicionamento instantâneo. Procura muitas vezes antecipar, porque é rápido a deslocar-se, as investidas dos adversários, mas raramente acautela possibilidades alternativas e, sempre que o adversário opta por uma solução que não a mais previsível, as suas tentativas de antecipação são frustradas e adquirem um carácter pernicioso. A jogar alto, Pepe é útil para contornar a possibilidade de bolas lançadas pelos defesas contrários para as costas da defesa, mas é também nocivo sempre que o jogo do adversário não se reduz à esterilidade de tais lançamentos longos e evolui de modo mais curto e certeiro. Aí, Pepe é uma barata-tonta, querendo tapar buracos a toda a hora e descuidando invariavelmente o seu posicionamento e a estrutura colectiva da sua defesa.

Resumindo, este texto procura demonstrar - e creio que o consegue - que as falhas de Pepe não são ocasionais e, sobretudo, acidentais. Acontecem com excessiva frequência e resultam daquilo que são as suas principais características. Para quem prefere um jogador pelas características individuais e por aquilo que, individualmente, pode oferecer, Pepe tem, de facto, boas qualidades. Quem prefere jogadores por aquilo que podem dar à equipa, pelas suas características colectivas, jamais pode apreciar Pepe. O que este texto demonstra é que, em termos colectivos, Pepe é um jogador vulgar. Resolverá, por certo, uma taxa de problemas individuais superior à da maioria, mas a resolução de problemas individuais é apenas uma parte ínfima das tarefas de um central. Pepe pode ser fortíssimo em lances de um para um, em lances em profundidade, em antecipações, pode ser dos centrais que mais bolas recupera num jogo e que mais activo está durante uma partida de futebol. Mas isso é apenas uma parte quase insignificante do seu papel enquanto central. Se o futebol fosse um jogo de pares e, durante um jogo, um jogador se medisse pelo duelo individual com o adversário que apanhasse, Pepe seria certamente dos melhores centrais do mundo. Mas o futebol não é nada disto. Pepe é fraco em situações de dois para dois, é pouco rigoroso a manter a linha defensiva ou a fazer a cobertura devida a um colega, está frequentemente desconcentrado e mal posicionado, não consegue distinguir situações em que deve arriscar desarmes difíceis de situações em que não deve, não percebe a importância de ficar em contenção, em determinadas situações, não é capaz de interpretar com qualidade as necessidades da equipa a cada instante, etc. Por tudo isto, não pode pertencer a uma elite de jogadores que possuem estes predicados.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Um tal de Zé Castro

A afirmação é, para muitos, controversa e sensacionalista. Digo-o, no entanto, sem qualquer espécie de exagero propositado e sem qualquer intenção de rebaixar outros atletas: para mim, excluindo Ricardo Carvalho, o melhor defesa português da actualidade é Zé Castro. Para quem viu jogos do Deportivo esta época e esteve atento ao desempenho do central português, a recente chamada à selecção só peca por incompreensivelmente tardia. Esquecido em terras galegas, o português foi titular indiscutível (jogou 2536 minutos) de uma equipa que fez um campeonato bastante aceitável, terminando em sétimo lugar. O Deportivo foi mesmo a terceira melhor defesa da prova (o Barcelona sofreu 35 golos e o Sevilla 39), com 47 golos sofridos, menos 5 que, por exemplo, o Real Madrid. Estes dados, por si só, não revelam absolutamente nada, a não ser, provavelmente, para Queiroz, que terá decidido chamá-lo mais pelos resultados desta época do que por qualquer reconhecimento da sua qualidade. Evidentemente, há que juntar a estes dados a comprovação das exibições. E, nesse particular, a juntar à classe e à capacidade técnica que possuiu desde sempre, há agora uma maturidade que não pode deixar ninguém indiferente. Zé Castro é o patrão da defesa do Deportivo, um jogador seguríssimo, muito bom na leitura dos lances e no tempo de desarme, pouco impetuoso, como se aconselha a um jogador na sua posição, e rapidíssimo a reagir a mudanças de direcção ou a dobrar os colegas. Nada disto é novo, mas acontece agora com uma regularidade maior. Melhorou ainda no jogo aéreo, impondo-se mais frequentemente, e manteve a habitual boa relação com a bola. A facilidade que tem em sair a jogar, a importância que dá à manutenção da posse de bola, procurando entregar o melhor possível sempre que a recupera, fazem dele um central diferente da maioria.

Não queria compará-lo a Pepe ou a Bruno Alves, mas a opinião geral em Portugal sobre estes três jogadores, bem como a tendência para se preferirem defesas impetuosos, carniceiros e atleticamente muito dotados, impõe uma análise desse género. É errado pressupor que um defesa central deva ter determinados atributos físicos. Um defesa central deve ser um defesa central, nada mais. A pressuposição tem por base a ideia de que um defesa central é um jogador que encontra muitas situações de choque, que tem de ser capaz no jogo aéreo, uma vez que joga demasiado recuado para se dar ao luxo de não ganhar bolas de cabeça, que tem de ser duro para impor respeito aos atacantes adversários ou que tem de ser agressivo sobre a bola. Nada disto está correcto. Um central competente do ponto de vista intelectual ocupará melhor os espaços e não necessitará de ir tanto ao choque, conseguirá desarmar pela antecipação ou por ler melhor o lance, sem recorrer à agressividade ou à virilidade, será capaz de ganhar lances de cabeça sem ter de o fazer de uma forma impetuosa, etc. Ao contrário de centrais mais vigorosos, um central deste tipo tem várias vantagens: coloca menos risco em cada uma das suas acções, pois elas comportam mais segurança e mais certeza; está mais lúcido, uma vez que não faz tudo em esforço, para reagir a um percalço, como seja um ressalto ou uma combinação ofensiva rápida do ataque adversário; está mais compenetrado no jogo em si e não tanto na acção decisiva de cortar a bola, o que é o mesmo que dizer que está mais interessado na sua acção colectiva do que na sua acção individual. É esta última característica, que considero aqui vantajosa, que me faz dar clara preferência a centrais de um tipo em detrimento de outro. Um central mais vigoroso, mais aguerrido, está notoriamente focado na bola e na sua acção defensiva individual, no corte, no desarme, no acto de defender por si. Ora bem, um central não deveria servir para defender. É aqui que reside o problema. Este tipo de centrais está interessado em defender, porque consideram que o seu papel numa equipa, em situação defensiva, é defender. E é contra isto que reajo. Mesmo em situação defensiva, o central não deve ter um papel, muito menos um papel tão redutor como seja o de defender. Um central, como qualquer outro jogador, em situação defensiva ou não, deve estar preocupado em jogar, no sentido amplo de jogar. Recuperar a bola deve ser uma preocupação colectiva e não de um jogador em particular, esteja ele a jogar mais recuado ou não. Assim, um jogador que joga de forma mais impetuosa é, na grande maioria das vezes, um jogador que negligencia isto. Enquanto concentrado no seu desempenho defensivo, esquece os colegas, a sua relação com o resto da equipa, as necessidades do colectivo e afins. Quando vai a um lance, vai com o intuito de ganhar a bola por si, quando o acto de ganhar a bola não deve estar confinado a um jogador, mas a toda a equipa. Ao fazê-lo, terá talvez a vantagem de retirar tempo de reacção ao portador da bola, coisa que uma abordagem menos impetuosa não faria ou faria em menor escala, mas incorre em problemas que se sobrepõem claramente aos benefícios. Embora uma abordagem mais impetuosa tenha essa vantagem e, contra uma equipa que não tenha uma organização ofensiva relevante e não saiba jogar colectivamente, reduzindo-se a acções individuais, seja tão ou mais competente que outra abordagem, tem desvantagens óbvias, desvantagens essas potenciadas sempre que se defrontam equipas que privilegiem o colectivo. Exemplo disto foi o jogo entre o Real Madrid e o Barcelona, no qual a abordagem defensiva dos jogadores do Real Madrid foi excessivamente impetuosa, o que propiciou uma desorganização evidente que uma equipa como o Barcelona não poderia deixar de aproveitar. Entre outras coisas, um central que opte por abordagens mais impetuosas está menos apto a reagir a uma tabela (veja-se o golo da Albânia, frente a Portugal, fruto da resposta defensiva de Pepe, facilmente batido por uma simples tabela porque se aproximou impetuosamente do adversário que tinha a bola, sendo que este, ao soltá-la e indo buscá-la mais à frente, evitou, sem recorrer a uma grande perícia, o seu opositor); está menos apto a perceber como se altera, de instante para instante, a estrutura defensiva de que faz parte; está menos apto a travar a sua iniciativa caso haja o perigo de cometer uma falta; etc. Um central que opte por este tipo de jogo pode até ser mais forte do ponto de vista individual, pode até, estatisticamente, ser o responsável directo por mais recuperações de bola, pode até ser mais difícil de ultrapassar individualmente, mas é de certeza menos competente do ponto de vista colectivo e fará parte, portanto, de um colectivo defensivamente mais frágil e fracturado.

Esta é, portanto, uma defesa do central Zé Castro, mas, principalmente, uma defesa de um certo tipo de defesas centrais. Não é, portanto, por capricho que ela é feita, mas com base na repetida ideia de um futebol enquanto um todo que este blogue sempre defendeu. O problema não está na impetuosidade em si, mas nas consequências que, por norma, a impetuosidade acarreta, como sejam a falta de lucidez, a irresponsabilidade colectiva ou o risco de cada iniciativa. É por isso que já se denunciou aqui alguma falta de qualidade a Vidic, central que se baseia na impetuosidade; é por isso também que existe tanta diferença, na nossa opinião, entre Daniel Carriço e Miguel Vítor. Admito que, numa equipa que se fundamente em predicados individuais, que dê mais valor aos elementos que compõem o seu todo, como o são mais de 90% das equipas mundiais, do que às relações entre esses elementos, os jogadores com mais competências individuais sejam mais valorizados. Mas isto acontece porque se tem uma ideia demasiado primitiva do jogo. Apesar de toda a modernidade, há pouquíssima gente que compreende o jogo como ele deveria ser compreendido. Neste sentido, é natural que os jogadores que dão mais nas vistas, ou seja, os jogadores com atributos individuais mais relevantes, tenham mais mercado e sejam preferidos em vez de outros. No caso específico dos centrais, é natural que os centrais mais agressivos, mais impetuosos, mais fortes, capazes de recuperar mais bolas individualmente ou de efectuar mais cortes, ou de ganhar mais duelos físicos, sejam preferidos ao invés de centrais que privilegiam o posicionamento, a fineza, a capacidade técnica e a leitura acertada dos lances. O jogo, no entanto, tem evoluído e centrais matacões, como ainda há dez anos os havia, já não têm lugar nas grandes equipas. Nos dias que correm, porque a competitividade já tornou evidente que não bastam argumentos físicos para se ser jogador, os centrais já têm de possuir alguma inteligência. Falta, contudo, ao jogo continuar a evoluir. E a evolução passará inevitavelmente por entender que os factores intelectuais são mais importantes que os restantes. Nessa altura, entender-se-á que, mesmo aqueles jogadores que jogam mais perto da sua própria baliza devem ser jogadores mais inteligentes do que atleticamente dotados e que aqueles que primam por iniciativas do foro atlético disfarçam nessas iniciativas a escassez de argumentos intelectuais que, nessa altura, se considerarão fundamentais. Enquanto, todavia, a evolução do jogo, lenta como toda a evolução, não torna evidente tudo isto, cá estará o Entre Dez para o afirmar.

Da mesma forma que se defendeu que o futebol do Barcelona de Guardiola veio demonstrar que a evolução do jogo exigia coisas diferentes daquelas que se pensava e que esse futebol era, de algum modo, o futebol do futuro (a propósito, Ibrahimovic disse que o futebol do Barcelona era tão diferente que representava o futebol que se iria jogar em 2015), defende-se também que os centrais com capacidades intelectuais relevantes estão mais aptos às necessidades correntes do jogo do que os outros, isto, como é óbvio, se inseridos numa equipa evoluída, revolucionária, verdadeiramente moderna. Como este blogue nunca foi dado a mediocridades, e apesar de reconhecer que jogadores como Bruno Alves ou Pepe podem dar mais, no contexto actual, a uma equipa de futebol, visto que individualmente têm mais trunfos, defende-se que Zé Castro é melhor jogador, pois que ser melhor implica estar mais apto a jogar numa equipa mais exigente. Numa equipa a sério, cujo conceito de colectivo fosse rigorosamente aplicado, não tenho dúvidas que Zé Castro é francamente melhor jogador que qualquer um destes dois, pelo que, em termos absolutos, a minha preferência tem obrigatoriamente de ir para ele.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Coisas que se passaram

1. A agressão de Pepe foi a notícia da semana. Em poucas palavras, 10 jogos para alguém que não tem antecedentes parece-me um castigo pesado, ainda que a paragem cerebral de Pepe tenha tido consequências pouco desculpáveis. No entanto, o que é importante tentar perceber são os motivos que levaram àquilo. Há quem diga que Casquero, o agredido, terá dito alguma coisa a Pepe, pois só assim se justificaria tal coisa. Mas se isso fosse verdade, não teria o internacional português mencionado o facto, em sua defesa? Para mim, Pepe perdeu a cabeça por frustração. Tivera responsabilidades directas nos dois primeiros golos do Getafe e, a três minutos do fim, cometia um penalty que daria boas hipóteses de derrota ao Real. Ao contrário da posição de Luis Sobral, que opta por não tentar explicar o que não sabe, a reacção de Pepe - parece-me - é apenas consequência da frustração de mais um mau jogo. E consequência também do jogador que é: irreflectido, imponderado, incapaz de conter os ímpetos. Foi a cereja no topo do bolo de uma época absolutamente desastrosa, época esse que o Entre Dez lembrará em breve e que coloca Pepe no seu devido lugar, bem longe dos melhores centrais europeus da actualidade.

2. Por cá, lesionou-se Lucho González e depois Hulk. Na minha óptica, a Providência fez troça do Sporting, como quem dá um chupa-chupa a uma criança e depois o tira quando esta está pronta a pô-la na boca. Se a lesão de Lucho deixou antever um final de época atribulado para o conjunto nortenho, estando o Sporting à espreita de uma escorregadela dos campeões nacionais, já a de Hulk veio permitir que a equipa não jogue manca. Assim, mesmo sem o jogador mais criativo da equipa (como é óbvio, não estou a falar do Hulk), o Porto continuará coeso, a jogar como equipa, com jogadores adultos como Mariano e Farias, e continua o mais sério candidato ao título.

3. Entretanto, Lisandro resolveu com classe e Fernando já é comparado a Paulo Assunção. O Entre Dez, como é hábito, resolveu antecipar-se às modas e disse, há coisa de seis ou sete meses, basicamente o mesmo. Não podem ouvir nada...

4. O Sporting, sem nenhum dos habituais titulares do meio-campo, rubricou uma exibição como há muito não se via. Pereirinha, o tal que não tinha talento, agora já tem muito potencial. Romagnoli joga demasiado para a equipa e no futebol, como todos sabemos, pensar primeiro no colectivo e depois em si não leva a lado nenhum. Postiga é outro que é fraquinho... Que paciência para isto. O Sporting, jogando desde o início da época com Patrício, Abel, Grimi, Carriço, Tonel, Moutinho, Izmailov, Pereirinha, Romagnoli, Vukcevic e Postiga já era campeão por esta altura.

5. Diz-se que Liedson fez um jogão, que continua a levar o Sporting às costas e que vai ficar mais uns anos em Alvalade. Em relação à última destas notícias, tenho a dizer que lamento, mas até 2012 (ano do termo do novo contrato do Levezinho, segundo consta), haverá apenas dois candidatos ao título: Benfica e Porto. Quanto ao jogo em si, ao contrário do que se disse, Liedson fez um jogo medíocre, mais um. Destaco dois lances que ilustram o modo primitivo com que se vê futebol em Portugal e que está na base do facto de se continuar a idolatrar um jogador absolutamente banal como ele: primeiro, aquela bicicleta na área, quando Postiga estava atrás de si, em muito melhores condições para finalizar; depois, aquela bola que recupera a meio do meio-campo adversário e com a qual tenta fazer um chapéu a um guarda-redes que já tinha voltado para a baliza há meia-hora. Além de o remate nunca poder dar em golo, foi um balão tão grande que mesmo que o guarda-redes ainda não tivesse regressado, podia ir tomar café, limpar o pó à casa, voltar e apanhar a bola. Mas o público aplaudiu. Mesmo tendo Liedson feito um disparate quando poderia ter iniciado uma jogada de perigo, face ao desposicionamento da defesa do Estrela. Depois, fala-se na assistência para Postiga como se fosse uma coisa extraordinária. Mas alguém viu o lance como deve ser? A movimentação é horrível, aproximando-se de Pedro Silva quando este tem a bola e obrigando-o a desenvencilhar-se sozinho. Por sorte, Pedro Silva conseguiu vir para dentro, o que soltou Liedson. Depois, um cruzamento com a bola a saltitar é uma coisa dificílima de efectuar. É isso e fazer um ovo estrelado. E então quando comparam essa assistência à do Postiga, na segunda parte, para o mesmo Liedson (que falha vergonhosamente), só podem estara gozar. A exibição de Liedson salda-se por um golo, num lance em que a defesa do Estrela está muito mal colocada. O resto são disparates, burrices e a alcateia das bancadas a uivar cerimoniosamente.

6. Ainda Liedson. Há quem diga que ele faz a diferença. Vamos ver. Tem esta época uma média de 0,64 golos por jogo, o que até é melhor do que a sua média desde que está em Portugal. Comparemo-lo com outros avançados do nosso campeonato. Cardozo tem o mesmo número de golos, mas a sua média é bem superior: 0,76 golos por jogo. Farias tem 7 golos e uma média de 0,90 golos por jogo. Nuno Gomes tem 7 golos e uma média de 0,58 golos por jogo. De facto, Liedson faz uma diferença do caraças.

7. Lá por fora, Arshavin marcou 4 ao Liverpool. Isto depois de os pupilos de Benitez terem encaixado 7 golos numa eliminatória da Champions. Mas há quem defenda que o Liverpool é a equipa que melhor defende na Europa. Está certo. Quer-me parecer que eles até são certinhos a defender quando jogam enfiados lá atrás. Mas quando têm que ir para cima do adversário, dão quilómetros de espaço. Isso não é defender bem. Isso é defender muito. E é sobretudo abdicar de lançar muitos elementos na frente para os ter cá atrás. O Liverpool não é a melhor equipa europeia a defender, porque defender também é atacar. E, quando ataca, o Liverpool defende francamente mal.

8. Chocante, chocante, era eu dizer que a melhor equipa europeia a defender é o Barcelona. Mas digo-o. Por várias razões. Primeiro, porque percebe que a melhor maneira de defender é ter a bola. Segundo, porque é das poucas equipas que, balanceadas para o ataque, se mantém posicionalmente equilibrada. Terceiro, porque não separa o acto de defender do de atacar. Quarto, porque em situação defensiva, mesmo pressionando alto, mesmo utilizando um bloco alto, ocupa na perfeição os espaços e mantém os sectores unidos.

9. Sobre futebol, há poucas coisas que vale a pena ler. Uma delas é a crónica semanal de Johan Cruijff. Na da semana passada, diz o seguinte: "La gente puede pensar que, jugando así, gastas muchas energías. No es verdad. Jugar el balón rápido, con las líneas juntas, requiere más un esfuerzo mental que físico. Si consigues jugar siempre en campo contrario, te cansas menos. Y robar muchos balones en campo del rival no es sinónimo de correr a lo loco, sino de correr lo justo hacia atrás para luego tener que correr poco hacia delante porque ya estás adelantado. Otra vez es el Barça, con su estilo, el que te lleva al engaño. Por su manera de jugar, corre menos de lo que parece. Por eso los jugadores parecen más frescos que el rival. Porque mientras unos sufren sin el balón, los otros se divierten." A melhor maneira de jogar futebol é divertindo-se, diz, entre outras coisas, Cruijff. Este Barcelona diverte-se tanto que no primeiro golo frente ao Valência, esta semana, parecia mesmo que estavam a gozar com os outros. De resto, nada a acrescentar ao que diz Cruijff: o Barcelona, a jogar como joga, despende menos energias que os adversários. Não será por falta de frescura...

10. Entretanto, o Real, aos trambolhões, vai encurtando terreno para o Barça. Sem jogar bem, mais com o coração e com Raúl do que com ciência, a equipa de Juande Ramos chega à fase derradeira do campeonato, em vésperas de clássico no Bernabéu, apenas a quatro pontos dos catalães e com a vantagem de não jogar a meio da semana. Vou-me armar em vidente e fazer um previsãozinha: só por azar é que a remontada não acaba já para a semana.