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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ricardo Carvalho: o Patriotismo e o Respeitinho

Estava à espera de alguém com uma opinião tão lúcida como esta dissesse alguma coisa para falar do assunto, mas pelo vistos estava difícil. Vamos por partes. Há duas razões para toda a histeria em torno do caso, e duas causas para que todos, ou quase todos, apontem agora o dedo ao jogador português: a falta de respeito enquanto membro de uma equipa, e essa coisa esquisita a que chamam patriotismo. Sobre a falta de respeito, falarei no final, até porque é sobre isso que há mais a dizer, e é sobre isso que todas as análises não-hipócritas ao caso devem incidir. Mas, para já, quero falar em patriotismo. Eu percebo por que razão é que um bolo, para saber bem, precisa de levar açúcar. Também percebo que, para cantar, é preciso ter boa voz. O que eu não percebo, e dificilmente virei a perceber, é por que razão é que a qualidade de uma pessoa depende, entre outras coisas, evidentemente, dessa virtude a que chamam patriotismo. Não sou, nem nunca fui, que me lembre, patriota. E acho, como Oscar Wilde achava, que o patriotismo é a virtude dos infames. Por que razão absurda é que uma pessoa tem de nutrir sentimentos pela nação em que, por mera contingência, nasceu? Não percebo, nem nunca percebi, o que é o amor à pátria. Honestamente. Nutro sentimentos por um ou outro sítio onde morei, por uma cidade, vá, pelas pessoas com quem me cruzei, etc. Mas pela pátria? Eu nem sei o que a pátria é! Sei que tem uma bandeira, que tem um "território", que tem oito ou nove séculos de História. Tirando isso, pouco ou nada sei. Ser, por outro lado, uma entidade abstracta, também não ajuda. Como é que se tem amor por coisas abstractas? Até consigo perceber que alguém possa ter amor por um escaravelho, por uma mesa de cabeceira, sei lá. Acho difícil é ter amor pela filosofia de Platão, ou pelo conceito de Infinito. A meu ver, o patriotismo não é senão uma parvoíce religiosa que, como todas as parvoíces religiosas, serve meramente para domesticar os impulsos anti-gregários das pessoas. Como já devem ter percebido, não acho que faça qualquer sentido o argumento de que o que Ricardo Carvalho fez foi errado porque faltou ao respeito à pátria, precisamente porque a pátria não é nada. Como é que se falta ao respeito a uma coisa que não existe? Aliás, ganharia o meu respeito o jogador que, em início de carreira, renunciasse à selecção por achar hipócrita representar algo pelo qual não nutrisse qualquer tipo de sentimentos. Isto tudo para dizer que as pessoas que acham que o Ricardo Carvalho desrespeitou os portugueses porque desrespeitou a selecção se enganam ao achar que há algum tipo de relação entre a selecção e o país. Pois não há. No fundo, isto não passa de um argumento puritano, um argumento que consiste em achar que existe sacralidade no mundo, um argumento de gente católica que, não sabendo muito bem porquê, acha condenável o comportamento do jogador.

Católico é também o "respeitinho" com que dizem que todos se devem comportar. É outra das ideias que nunca me entrou na cabeça, mas admito que faça ligeiramente mais sentido que o argumento do patriotismo. Para muitos, Ricardo Carvalho é um subordinado e, como todo o subordinado, deve respeitar os superiores. Pois é esta relação hierárquica que não faz sentido nenhum, a meu ver. O respeito não é do tipo de sentimentos que se tem sem qualquer espécie de reciprocidade. Não acredito mesmo que haja uma única pessoa que respeite quem não a respeita. Por isso, não é o tipo de coisa que se possa exigir numa relação hierárquica. Numa relação desse tipo, pode exigir-se obediência, nunca respeito. E é isso que está errado nesta história toda. Para mim, não se tratou de um problema de falta de respeito, nem do jogador para com a equipa técnica, nem da equipa técnica para com o jogador. Tratou-se, sim, de um conflito acerca de um ideal de liderança. Ao chegar a Inglaterra, disse Mourinho que os jogadores ingleses, por oposição aos latinos, que precisam de acreditar na competência do líder, são obedientes por natureza e aceitam a liderança com base numa relação hierárquica estipulada a priori. Significa isto que há, pelo menos, dois tipos de liderança bem distintos: uma liderança de tipo militar, com superiores hierárquicos e subordinados de quem se exige obediência absoluta e cumprimento de ordens, e uma liderança menos conservadora, cooperante, assente na ideia de que os liderados têm um papel a desempenhar na liderança. Conta ainda Mourinho que, desde cedo, percebeu que o fosso que se criava entre treinador e jogadores não era benéfico, que ao contrário de Van Gaal, que não se relacionava com os jogadores senão enquanto general das tropas, ele ia na parte de trás do autocarro com os jogadores, confraternizava com eles, partilhava problemas, etc.

É fácil de perceber que estou a distinguir o tipo de liderança de Paulo Bento do de Mourinho, e que considero que Paulo Bento lidera muito mais à Van Gaal. Para Mourinho, nada excede ou está acima do grupo, e nada importa mais que o grupo. Paulo Bento, pelo contrário, lidera pela força, pela exigência incondicional, pela imposição de regras. Mesmo que as regras, como o próprio já o disse, não sejam impostas ditatorialmente, mas confiando e responsabilizando. Garantiu Paulo Bento que não entra nos quartos dos jogadores, para ver se estão deitados às horas certas, que não controla o que comem, etc. Mas isso não faz dele um líder menos autoritário. Não são as regras que dita, mas a posição de superioridade em que se coloca que fazem dele o tipo de líder que é. Quero com isto dizer que o tipo de liderança de Paulo Bento sempre me pareceu deste género: tem pulso forte, exige acima de tudo respeito e profissionalismo, é contra vedetismos, etc. Não que isto seja mau por si, mas há jogadores que têm feitios que não são compatíveis com isto. E, muito sinceramente, acho que este tipo de liderança deixou de ser a mais adequada. O jogador de futebol não é hoje o que era há duas ou três décadas, tem uma exposição mediática, um orgulho e uma vaidade que não tinha antes. E, sobretudo, tem opiniões próprias, está muito mais informado, percebe muito melhor intenções e competências técnicas. Perante este cenário, o único tipo de liderança que, a meu ver, faz sentido, nos dias que correm, é uma liderança que se exerça pela competência. Os jogadores precisam de sentir que aquele que conduz o leme tem competência para o fazer, que não faz as coisas porque lhe apetece, porque tem autoridade para as fazer, porque tem "feelings", mas que dá satisfações, justifica decisões, pede conselhos, que exige dos jogadores que compreendam as suas opções, os seus exercícios, as suas estratégias; os jogadores precisam, actualmente, de um treinador que mantenha com eles uma relação horizontal, que se coloque ao nível deles e assuma que os próprios jogadores, porque são eles que têm de interpretar no campo o que lhes vai ser pedido, podem ter opiniões melhores, podem sentir coisas que o façam mudar de estratégia, etc.

Paulo Bento não é nada disto. Acha, porque era assim que as coisas funcionavam há uns anos, porque foi assim que foi educado enquanto jogador, que um treinador não tem que dar satisfações, que um treinador está numa posição hierárquica superior, que a relação entre jogadores e treinador é uma relação vertical. Creio que esse tipo de liderança pode ter efeitos positivos sobretudo em jogadores humildes, em jogadores a quem lhes interesse ver um líder forte, um líder inabalável, um líder em quem possam sentir fé. Não creio, porém, que tenha o mesmo efeito em jogadores mais inteligentes, em jogadores menos conservadores, em jogadores com opiniões mais bem formadas e personalidades mais fortes, em jogadores que creiam mais na competência do que na fé. Neste tipo de jogadores, mais irreverentes por natureza, não creio que o tipo de liderança que Paulo Bento preconiza funcione bem. Não foi por acaso que se incompatibilizou com quem se incompatibilizou no passado, precisamente os jogadores do Sporting menos capazes de aceitar a sua liderança incondicional: Beto, não por irreverência, mas por ser o capitão e estar acostumado a certas regalias, mas essencialmente Carlos Martins e Vukcevic, jogadores mais irreverentes, com feitios especiais, que precisam de estímulos de outro tipo. Paulo Bento "premiou" frequentemente excelentes exibições de Vukcevic sentando-o no banco no jogo seguinte. Não querendo discutir opções técnicas (e terá sido por uma questão de opção técnica), isso só pode funcionar com alguém que aceita servilmente as ordens de um superior. Com jogadores de personalidades tão vincadas, é natural que não desse bom resultado. E é aqui que é importante chegar: nem sempre a opção técnica deve ser o primeiro critério de um treinador. Quando a opção técnica põe em causa a integridade do grupo e a confiança no líder, então talvez não seja a melhor opção técnica. Nesta situação concreta, Paulo Bento teria de "mostrar" ao jogador que tinha gostado do que ele tinha feito pondo-o a jogar. Compare-se com o exemplo de Benzema, no Real Madrid. Mourinho teve de recorrer ao francês na segunda metade da época passada, por força da lesão de Higuaín. O francês demorou a justificar a aposta, mas acabou por ser importante para a equipa, sobretudo na fase final da temporada. Este ano, voltou a começar bem a época. Mourinho não pode, simplesmente, tirá-lo sem mais nem menos da equipa, apesar de Higuaín, no passado, lhe ter dado garantias de um rendimento superior. Estaria a minar a confiança que o jogador deposita em si, e até a confiança do grupo.

Quando Paulo Bento fala em responsabilidade, esquece-se que a responsabilidade não é unilateral, que têm tantas resposabilidades os jogadores como os treinadores. O seu tipo de liderança é mais autoritário do que imagina precisamente porque "exige" responsabilidade incondicional, ou exige-a a troco de uma alegada "confiança" no atleta. O problema é este, é não perceber que os atletas se estão borrifando para a gratuidade da "confiança". Aquilo por que deveria trocar a responsabilidade deles não era pela liberdade que lhes concede, mas sim pela sua própria responsabilidade. Para exigir que os jogadores lhe devam responsabilidade, precisaria de lhes demonstrar que ele próprio é responsável. E isso faz-se com pequenas coisas, todas elas intimamente relacionadas com competências de treinador: reconhecendo de que modo pode estimular cada atleta, percebendo particularidades de feitios, tratando cada jogador de forma diferente, consoante a sua personalidade, conversando, justificando as suas decisões, pedindo opiniões, dando satisfações, aproximando-se dos jogadores, entrando na sua intimidade, falando acerca dos seus problemas, etc. Com Ricardo Carvalho, por exemplo, talvez tivesse bastado conversar, talvez tivesse bastado informá-lo previamente acerca das intenções da equipa técnica, talvez tivesse bastado explicar-lhe quais as razões técnicas pelas quais se achava melhor jogarem Pepe e Bruno Alves. Negligenciou-se a personalidade individual de um atleta e deu no que deu. E não foi por acaso que aconteceu com Ricardo Carvalho: tratava-se de um jogador inteligentíssimo, com uma personalidade muito forte, e certamente com opiniões muito claras acerca do jogo; tratava-se de um jogador habituadíssimo (cresceu assim) à liderança de Mourinho, que é o completo oposto da de Paulo Bento. Eu não advinharia isto, mas agora que aconteceu, parece-me absolutamente natural que tenha acontecido. Há um conflito evidente de gerações, e um conflito acerca de ideias de liderança. A falta de respeito de que Ricardo Carvalho se disse vítima não foi originada por não ser opção para o Chipre; foi por essa decisão ter sido tomada arbitrariamente, sem que se lhe dessem satisfações, e principalmente por perceber que o treinador acha, por princípio, que os jogadores têm de respeitar as suas decisões e não merecem saber as razões dessas decisões. Mais do que uma questão de falta de respeito (quer do treinador para com o jogador, quer do jogador para com o treinador) creio que este episódio foi resultado de uma incompatibilidade acerca de um ideal de liderança.

Muito resumidamente, usar o patriotismo e o respeitinho para argumentar que Ricardo Carvalho se comportou indevidamente é um equívoco. E a mim irrita-me que a opinião pública seja tão favorável, neste caso, mas também na grande maioria destes casos, ao treinador e não ao jogador. Sempre que há episódios de insubordinação, o réu é invariavelmente o jogador. Eu, que nunca fui treinador, mas que tenho uma experiência, enquanto jogador, suficientemente consolidada, fico normalmente do lado dos jogadores, neste tipo de casos. E isso não por me conseguir colocar no papel de uns e não de outros, mas porque percebo a frustração que existe em de ter de reconhecer liderança a alguém só porque sim. De um treinador um jogador inteligente espera competência, ideias, e muita responsabilidade. Se, em vez disso, percebe autoritarismo, caprichos e obsolescência, é natural e absolutamente legítimo que lhe perca o respeito. Este caso explica-se muito mais por estas coisas do que propriamente por um acto irreflectido e por uma atitude injustificável.

P.S. Para a opinião pública que, apressadamente, se colocou do lado de Paulo Bento, tenho uma pergunta que talvez incomode: e se, em vez de Ricardo Carvalho, a coisa tivesse sucedido com Cristiano Ronaldo? Eu sei que a probabilidade de o Ronaldo ir para o banco é menor, mas imaginem a possibilidade. Imagine-se que passava pela cabeça de Paulo Bento deixar Ronaldo no banco porque achava que era melhor opção ele não jogar, e imagine-se que Ronaldo, não gostando da ideia, até porque o treinador não a justificara, decidia abandonar o estágio. Muito sinceramente, gostava de ver se, nessa altura, vinham com patriotismos e respeitinhos. Aliás, actos de insubordinação de Ronaldo foram coisas que não faltaram na era de Queiroz. E não me lembro de alguém se colocar do lado de Queiroz nessa altura.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Improvisação e Aleatoriedade

Quando pensamos em jogadores imprevisíveis, partimos do princípio que o são devido à sua natureza, ou seja, que é algo inato. Nada mais errado. A imprevisibilidade é algo que se adquire, é algo que se forma através da aquisição de determinados padrões de jogo.

Grande parte dos jogadores que temos como imprevisíveis, desenvolveram essa característica em jogos de rua, entre amigos, onde acima de tudo são obrigados a melhorar competências individuais. Concluímos assim que esta noção de imprevisibilidade se adquire através da necessidade de ultrapassar as dificuldades que vamos encontrando. Somos obrigados a procurar soluções que possam surpreender os nossos adversários, as mesmas que, por sua vez, não só são influenciadas pelos nossos heróis, aqueles com os quais nos identificamos mais, mas também pelas limitações físicas que possuímos.

Por outras palavras, até uma certa altura da formação de um atleta, a imprevisibilidade é algo que pode ser desenvolvido só a partir de premissas individuais: as nossas influências, a nossa fisionomia, tudo isto é importante e perfeitamente legítimo na nossa formação. Daqui deduzimos que a espontaneidade não é aleatória, responde à maneira como a diferente informação que recebemos é processada por cada um de nós.

Todavia, assim que começamos a interiorizar os conceitos colectivos do jogo, a necessidade de adaptarmos as nossas características aos requisitos que o jogo impõe obriga a que se altere a nossa forma de jogar. E é aqui que entram em campo as competências dos técnicos que vamos encontrando. Neste caso, vou sobretudo debruçar-me sobre técnicos que trabalhem com jogadores já formados e que, como tal, têm sobretudo a preocupação de formar uma equipa cada vez mais forte. A questão será principalmente esta: como tornar a imprevisibilidade dos seus jogadores um factor positivo para a equipa? Como retirar tudo o que esta característica pode oferecer, sem sofrer o reverso da medalha, os desequilíbrios que estas movimentações aparentemente aleatórias podem provocar?

Uma questão importante na imprevisibilidade das várias partes do todo está relacionada com a concordância entre as mesmas. E muitas vezes atinge-se este ideal de uma forma quase fortuita. Muito por isto se encontram treinadores que, defendendo as mesmas ideias, por vezes nos mesmos clubes, acabam na maioria das vezes por apresentar equipas tão diferentes entre si, ainda que em alguns casos nem um ano de intervalo exista entre elas. Em Portugal, o caso mais paradigmático do que acabei de defender é o Sporting, na época 2006/2007. Bento, na altura, até conseguiu criar a ilusão de que poderia estar ali um enorme treinador. O acaso proporcionou a Bento um lote de jogadores que, na sua maioria, eram criativos e dotados de imprevisibilidade suficiente para tornar complicada a acção defensiva dos seus adversários, sem que com isso o colectivo actuasse de forma desagregada. Nesse ano uma das coisas que mais me agradava era a maneira como a equipa jogava com os sectores muito próximos, com enorme posse de bola, e sempre com bastante equilíbrio, independentemente do adversário que defrontavam. Foi, muito provavelmente, o melhor Sporting da última década. Jogadores como Romagnoli, Nani, Veloso, Custódio, Martins, Deivid, Moutinho, Tello, Farnerud, etc., apesar de criativos e imprevisíveis, relacionavam-se de forma positiva dentro de campo. As suas acções individuais respondiam a uma visão do jogo semelhante entre eles. Se efectuássemos uma abordagem holística ao Sporting, facilmente conseguiríamos encontrar um padrão no seu jogo. Era previsível que eles jogassem de uma certa forma, curto, através da criação de inúmeros apoios ao portador da bola, mas era muito complicado perceber de que forma é que esse estilo de jogo se manifestaria. Seria através de uma combinação directa simples, ou seria através de uma combinação indirecta envolvendo um terceiro elemento? Era portanto, uma equipa que a cada momento sugeria aleatoriedade, mas que, quando observávamos uma porção maior do jogo, existia a sugestão de um comportamento colectivo premeditado. Nada mais errado. O padrão não era consciente, a intuição não era treinada para deliberadamente padronizar a criatividade, enfim, a movimentação colectiva estava despida de um significado consciente. O resultado foi o que se viu: a destruição e descaracterização do colectivo. Este foi um caso claro em que as ideias do treinador foram prejudiciais para o colectivo, pois destruiu o padrão que a co-habitação daquele grupo de jogadores, por si só, garantia. Bento teve a sorte de, sem qualquer tipo de critério, conseguir juntar uma equipa com um elevado padrão de qualidade porque as características dos seus jogadores eram concordantes.

Este ano, os casos mais flagrantes de jogadores imprevisíveis que retiram proveito da concordância da sua interpretação pessoal do jogo jogam de águia ao peito: Aimar e Saviola. No entanto, só uma estrutura muito sólida, com um modelo de muita qualidade, é que pode sustentar um jogador imprevisível como Di Maria. E escolho estes jogadores porque fazem parte da melhor equipa a actuar em Portugal. A diferença é que a imprevisibilidade de Aimar e Saviola permite à equipa ficar mais forte nos processos ofensivos sem que, com isso, a estabilidade da equipa seja colocada em causa, enquanto, no caso de Di Maria, é o argentino que se serve da estabilidade da equipa para seu benefício. Neste caso, a imprevisibilidade deste jogador apenas serve as movimentações individuais do mesmo, funcionando muitas vezes como um bloqueio ao desempenho colectivo da sua equipa.

Nesta época, o melhor Porto foi o que defrontou o Sporting para a Taça de Portugal. E isso está relacionado com os jogadores que Jesualdo resolveu utilizar nesse encontro. Mais uma vez, o facto de utilizar 4/5 jogadores que se enquadram no mesmo paradigma, que “obedecem” a determinado estilo futebolístico. Jogadores como Mariano, Belluschi, Falcao, Fucile, Fernando, ou até mesmo Ruben Micael, apresentam e emprestam à equipa mais qualidade quando jogam juntos, ou com jogadores que respondam às várias circunstâncias de forma semelhante à deles, do que quando jogam com Meireles, Hulk, e companhia limitada. Nesse jogo, a equipa portista aliou imaginação colectiva a um equilíbrio impressionante, permitindo-lhe cilindrar por completo o conjunto de Carvalhal. E isto só é possível quando os jogadores da própria equipa não são surpreendidos pela movimentação dos seus colegas. Evitar os equívocos inerentes aos próprios jogadores da mesma equipa é meio caminho para um equilíbrio fundamental para o desenvolvimento do futebol de cada equipa. Há uma necessidade imperial de que os jogadores conheçam e compreendam o futebol, e as suas razões, de cada colega. Só assim poderão prever e incorporar nos seus movimentos as movimentações do colega que conduz a bola. Se isto pode ser trabalhado de forma a aumentar, à medida do pretendido pelo treinador, a concordância entre jogadores? Pode, mas isso fica para um outro post.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Elogio a Paulo Bento

Nos primeiros anos como técnico leonino, Paulo Bento iludiu como treinador: personalidade, coragem e uma primeira época (de raiz) em que, para além de ter vencido a Taça e lutado pelo campeonato até ao último minuto, a equipa jogava bem (não dava "show" como o Sporting de 2004/2005, mas apresentava um futebol mais equilibrado, que lhe permitiu, aliás, bater-se de igual com os grandes da Europa). Na Champions, o único resultado verdadeiramente decepcionante foi a derrota, em casa, num jogo em que tudo correu mal aos leões, contra o Spartak; nos confrontos com o Bayern e o Inter, cujos resultados, nos quais saiu derrotado pela margem miníma, não espelharam a qualidade demonstrada pelo conjunto leonino (sendo que, contra os bávaros, o conjunto orientado por Bento só não saiu vitorioso de um desses jogos por manifesta infelicidade).

No entanto, existiam alguns pormenores que, para o Entre Dez, eram incompreensíveis: a insistência num jogador como Liedson, o "abrir mão" de um jogador como Deivid, a aposta (demasiado) tímida em Pontus Farnerud, o esquecimento a que vetou um talento como Diogo Tavares, etc. Tudo isto eram pontos negativos mas, tendo em conta os outros factores, aparentemente positivos, o saldo da balança na apreciação ao treinador era, à partida, extremamente positivo.

Na segunda época, os equívocos continuaram, se bem que misturados com opções que eram, aparentemente, sinónimo de estarmos perante a solução ideal para um clube como o Sporting: se a opção por Gladstone não dizia nada de bom deste treinador, já a chamada de Paulo Renato e Pereirinha, a meio da época, parecia uma demonstração de que Bento prentendia tirar todo o proveito dos produtos da academia de Alcochete. Já a opção por Purovic e a justificação para a mesma, a necessidade de ter um jogador diferente para poder abordar de uma forma mais directa alguns adversários durante os jogos, até se poderia entender, com alguma boa vontade, como um raciocínio inteligente, uma forma dinâmica de ler as várias dificuldades com que uma equipa como o Sporting, muito provavelmente, se iria deparar. Mas nada disso fazia sentido. Mais do que isso, demonstrava de forma dissimulada, é certo, uma tendência para abdicar de uma das maiores virtudes do Sporting2006/2007: a qualidade (e quantidade) na posse e circulação da bola. O Sporting, na época 2007/2008, passou a jogar com uma maior ansiedade na procura do golo, tentando chegar mais rápido à baliza adversária, e isto à custa de um posicionamento mais largo da equipa no campo. O Sporting apresentou-se com os sectores mais afastados tanto em largura como em profundidade. Este facto veio promover uma maior dependência das acções individuais por parte dos seus jogadores. Com um futebol mais partido, a formação leonina passou a sentir, progressivamente, grandes dificuldades perante equipas que optassem por dividir o jogo contra os comandados de Bento: por não se remeterem a uma estratégia essencialmente defensiva (em alguns casa até acontecia exactamente o contrário) conseguiam exponenciar as debilidades que o "novo" modelo de Bento apresentava. Esta época foi ainda uma época que ficou marcada pelo reforço da equipa sportinguista por uma das maiores promessas dos ultimos anos: Bruno Pereirinha. As primeiras aparições de Bruno Pereirinha não me desiludiram em nada. Antes pelo contrário, apresentou maturidade e concentração, virtudes que, aliadas à inteligência que possuía e aos atributos físicos e técnicos que já havia demonstrado ao serviço quer dos juniores, quer do Olivais e Moscavide, indicava que a breve prazo o mundo se iria surpreender com mais um grande talento leonino. No entanto, nada disto se confirmou. A época leonina não confirmou tudo o que de bom a anterior tinha prometido e nem o facto de a equipa se cruzar perante adversários de inesquestionável menor valia lhe permitiu alcançar resultados de destaque nas competições europeias. Nas competições internas, salvou-se a conquista (de mais uma) Taça de Portugal, com o mais improvável dos heróis, visto que no campeonato as reais hipóteses de o Sporting lutar pelo título ficaram afastadas muito antes do térmito deste.

A terceira época de Bento foi apenas o corolário de todos os erros que o caminho pelo qual optara necessariamente implicaria: 442 clássico, sectores ainda mais afastados, a opção por jogadores que privilegiam o jogo directo, decréscimo acentuado da qualidade de jogo e das reais hipóteses de o Sporting se assumir candidato ao que quer que seja. Uma época patética sem nível, de constantes humilhações, em que até os seus jogadores entraram numa fase de regressão. Moutinho estagnou, e quem o viu no primeiro ano, com Peseiro, decerto não imaginava que continuasse, por esta altura, a um nível semelhante; Veloso, entre conflitos, e um modelo de jogo que não lhe permite evoluir na compreensão do jogo, perdeu todo o brilho que ostentava na sua época de estreia ao mais alto nível; Djálo, um jogador que se apresentou como um jogador com mais do que apenas velocidade, na companhia de um jogador como Liedson, que pretende resolver tudo sozinho em vez de procurar o colectivo, está cada vez mais parecido com o Levezinho, mas sem o capital de confiança que este tem; Pereirinha é o pior caso: ultimamente até na capacidade de decisão parece ter regredido, ja para não falar na gritante falta de confiança de que padece; Adrien, apesar da forte personalidade e de toda a qualidade que possui, vê-se privado de oportunidades devido a uma anedota como é o caso de Rochemback; Patrício será o único que se poderá sentir grato a Bento: apesar de se poder discutir se, por esta altura, Patrício beneficiaria se tivesse sido emprestado nos seus primeiros anos como sénior, a verdade é que a aposta de Bento, lentamente, começa a surtir efeito; Daniel Carriço, apesar de a grande generalidade das pessoas lhe reconhecerem muita qualidade e uma enorme importância na defesa leonina, não vê ser "explorada" toda a sua qualidade, nomeadamente no que toca à sua competência a sair a jogar; André Marques é talvez o que menos se ressente, mas a época ainda agora começou, por isso, ou algo de extraordinário altera a perspectiva de Bento, ou ainda vamos ver um André bem pior do que já vimos.

Finalizando: o caminho de Bento vai de encontro à maioria dos adeptos do futebol em geral e do Sporting em particular. Admito que, pela perspectiva que eles têm do futebol, vendo-o como um desporto que depende de uma série de desempenhos individuais que se vão somando aleatoriamente, o clube de Alvalade até nem está assim tão bem como isso. Mas se o enfoque do treinador se colocasse sobre a capacidade de os seus jogadores se relacionarem e combinarem a sua interpretação do jogo de forma una e colectiva, aí o clube de Alvalade seria dos mais fortes a nível Europeu. Não teríamos Liedson, Rochemback, etc., e teríamos de ter Farnerud, Romagnoli, Custódio, Hugo Viana, etc., o que para o adepto comum seria motivo de um tristeza inefável. O Sporting, porém, encontrar-se-ia neste momento perante um futuro (e provavelmente um passado recente) bem mais próspero.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Romagnoli, Matías Fernandez e o Colectivo do Sporting

O Sporting arranca para a nova temporada com apenas duas ou três caras novas. No onze inicial, aparece apenas Matías Fernandez, que rende Romagnoli. O chileno tem classe que nunca mais acaba, é inteligente, rapidíssimo a executar, raramente complica e, mesmo assim, o Sporting é ofensivamente uma nulidade. O que é que está mal? Aqueles que insistem em encontrar bodes expiatórios nas individualidades e não nas relações que as individualidades mantém com o colectivo jamais chegarão a conclusões plausíveis. Pessoalmente, o mau futebol deste início de temporada da equipa leonina não me surpreende minimamente, pois radica num problema que não é novo e que é de natureza exclusivamente colectiva. Mudar argentinos por chilenos, por isso, é como mudar, na confecção de um bolo, ovos podres por leite estragado. O resultado será sempre uma dor de barriga.

O objectivo deste texto é, pois, afirmar que o problema do passado do Sporting não foi a falta de qualidade individual, pois ela abunda, mas sim a falta de qualidade colectiva, e afirmar ainda que, não tendo havido modificações na filosofia de jogo, o Sporting deste ano padecerá do mesmo mal e que, apesar de ser mais forte no drible do que Romagnoli, Matías Fernandez sofrerá o mesmo tipo de problemas que o argentino, pois estará à mercê da mediocridade do colectivo. Individualmente, o plantel do Sporting é mais rico que o do Porto. Já o era no ano passado. No entanto, no plano colectivo, a equipa comandada por Jesualdo Ferreira é muito superior. E isso faz toda a diferença.

Mas quais são, afinal, os problemas colectivos do Sporting e de que maneira é que esses problemas afectam o desempenho individual dos jogadores? Há quem ache que o losango serve essencialmente fins defensivos, ou seja, que serve para preencher melhor os espaços centrais, ajudando a que a equipa tenha uma maior concentração de jogadores no meio. Isso não é verdade. O losango é das tácticas que melhor se adequa a quem pretende jogar de forma apoiada, a quem privilegia a circulação de bola e o passe curto, a quem pretende progredir no terreno de forma faseada, calmamente, com segurança. Porquê? Porque gera uma maior quantidade de apoios próximos, porque tem os seus elementos mais juntos, capazes de fornecer apoios curtos mais rapidamente. Bem explorado, o losango, porque cria três linhas diferentes só no meio-campo, permite, em posse, um melhor preenchimento dos espaços entre as linhas do adversário, o que possibilita que a qualidade da posse de bola seja melhor e mais eficaz. Essa potencialidade, contudo, não é explorada pelo losango de Paulo Bento. Aliás, o discurso recorrente do treinador leonino detém-se sobre a importância da exploração dos corredores laterais, quando toda e qualquer boa circulação de bola tem de fugir o mais possível dos corredores laterais.

É aqui que reside o primeiro problema, problema esse que não é só de Paulo Bento, mas da grande maioria das pessoas que falam de futebol. Convencionou-se dizer que toda e qualquer equipa que queira atacar bem tem de fazê-lo pelos corredores laterais. Isto é das coisas mais estúpidas que há. É sempre mais fácil asfixiar o ataque adversário quando este é conduzido pelas linhas do que pelo meio. Porquê? Porque a linha lateral funciona como um defesa. Ora, Paulo Bento, quer pelo discurso, quer pelas suas ideias, não percebe isto. É por isso que, de ano para ano, pretendeu do seu losango mais amplitude; é por isso que o sistema alternativo é um 442 clássico, com alas abertos; é por isso que a única coisa verdadeiramente colectiva que o Sporting teve consigo foram aquelas movimentações horizontais de Romagnoli, a criar superioridade numérica num flanco de forma a que a equipa conseguisse chegar à linha de fundo forçando a passagem pelo corredor lateral. O primeiro problema do Sporting é não perceber que não se deve atacar pelos corredores laterais. Os corredores laterais servem para chamar o adversário e para depois, desbloqueando a situação e voltando ao meio, rodar rapidamente o jogo levando a bola para zonas de menor densidade; servem para ir lá e voltar. Sempre. É por isso que não interessa muito que os defesas laterais sejam, do ponto de vista individual, muito fortes. Porque os laterais devem ser sobretudo competentes a jogar para dentro, quando o jogo está do seu lado, de modo a fazer a bola regressar ao meio, e inteligentes a ocupar os espaços vazios quando o jogo está do outro lado, de modo a permitir à equipa largura e profundidade.

Ao contrário, portanto, do que deveria ser, o princípio ofensivo de base do Sporting passa por insistir nos corredores laterais, quer através de combinações entre o lateral e o interior desse lado, quer através de pontapés ao longo da linha a explorar a entrada de um dos avançados, quer através da insistência pelo lado fechado do jogo, quando a bola vem ao trinco ou a um central e, em vez de ir para o outro lado, regressa ao sítio de onde viera, princípio básico que o Sporting não cumpre, certamente por instrução técnica. Assim, a equipa fica refém de duas ou três movimentações típicas, fáceis de anular, com os jogadores que recebem a bola sempre de costas para a baliza e asfixiados contra as linhas laterais. Atrevo-me a dizer que, com bola, o Sporting de Paulo Bento é das equipas que pior ocupa os espaços ofensivos, insistindo em entrar por onde há mais gente e tornando o jogo muito pouco fluido. Acresce a este problema, relacionado inteiramente com ele, tudo o resto. Por causa disto, o Sporting não troca bem a bola; não consegue explorar as zonas onde há mais espaços; não utiliza passes verticais a solicitar os avançados ou o médio-ofensivo, que poderiam funcionar como "pivot", jogando de costas e servindo de frente; tem o losango sempre muito aberto, para ocupar o melhor possível os espaços laterais, o que descuida o centro e não propicia apoios curtos; cai num excesso de objectividade absurdo que tem como principais evidências os pontapés longos dos centrais, a incapacidade de lateralizar o jogo ou de trocar calmamente a bola e a pressa de chegar à frente. A melhor maneira de demonstrar isto é recorrer à memória. Quantas vezes os avançados do Sporting aparecem isolados frente aos guarda-redes adversários? Quantas vezes aparecem em zona de finalização os médios? Quantas vezes se desbloqueiam situações ofensivas pelo meio recorrendo a uma simples tabela? As oportunidades de golo do Sporting resumem-se a remates de longe ou a cruzamentos, quer de fora, quer da linha final para trás. E isso é muito pouco. E é, sobretudo, previsível. Contra equipas que se fecham bem atrás, então, é estupidamente ineficaz.

Estes são os problemas colectivos do Sporting. Falta então explicar como é que estes problemas condicionam as individualidades. Alguns desses condicionamentos já foram referidos. Resumindo-se o jogo do Sporting a procurar as faixas, os processos ofensivos envolvem menos participantes, o que deixa inevitavelmente alguns elementos da equipa esquecidos nas zonas onde a bola não chega. É por isso que, aparentemente, há jogadores a "esconderem-se" do jogo. De igual modo, explorando as linhas laterais a todo o comprimento, os jogadores que recebem a bola raramente estão de frente para o jogo e, por norma, estão pressionados contra essa mesma linha lateral. Isso dificulta a manobra individual. Indo agora a cada uma das posições em campo, vemos que os jogadores que mais facilmente se destacam, por terem mais bola, são os centrais e o médio-defensivo. Os laterais, por exemplo, e falando apenas no plano ofensivo, dificilmente podem ter protagonismo porque actuam numa zona sobrepovoada, numa zona que deveria ser explorada quando não tem ninguém, mas que o é sistematicamente. Os interiores, que deveriam ser jogadores de equilíbrios, de apoios, têm um papel que depois entra em conflito com as necessidades defensivas da equipa. Supostamente, são eles que devem dar profundidade e largura ao meio-campo, são eles que são incumbidos do trabalho exterior e de povoar as alas. Isso torna-se excessivo e desgastante tendo em conta que, depois, defensivamente, o que lhes é pedido é que fechem no meio. Sofrem portanto um desgaste desnecessário e ocupam zonas, em termos ofensivos, que não os beneficia. Quanto aos avançados, têm a dupla missão de se movimentarem horizontalmente para servirem de referência mais avançada junto a uma linha, recebendo a bola sempre de costas e contra a linha, e de estarem na área para finalizar. Isto é de tal maneira redutor que passam maior parte do tempo sem bola ou recebem-na sempre em condições muito difíceis. Não havendo passes verticais centrais, a explorar o posicionamento ofensivo do avançado de costas para a baliza, os avançados estão sistematicamente fora do jogo ou são solicitados de uma forma que lhes dificulta a acção. É por isso que Liedson parece que é melhor que os outros, porque acrescenta às tarefas que lhe são dadas (e que o deixariam, certamente, menos em jogo) uma auto-iniciativa que, para muita gente, é louvável, tentando estar mais em jogo correndo para tudo o que é sítio e desdobrando-se em tarefas que não deveriam ser as dele. Quanto ao médio-ofensivo, e aqui reside a razão para Romagnoli e Matías Fernandez renderem menos do que poderiam, é a maior vítima desta forma de jogar. Não havendo exploração do espaço central e estando os interiores tão abertos para possibilitar superioridade numérica junto às linhas, a bola não só não entra no médio-ofensivo regularmente, o que poderia facilitar a progressão da equipa por entre as linhas defensivas do adversário, como, mesmo quando entra, não há apoios próximos dele de modo a que este possa jogar de frente e não seja obrigado a rodar. Assim, o médio-ofensivo, supostamente o jogador mais imaginativo da equipa, torna-se uma referência meramente ocasional e que, quando solicitado, fica invariavelmente entregue a si próprio. Sendo este um jogador que, pela natureza da posição que ocupa, recebe maior parte das bolas de costas para o jogo, só se tornaria rentável se tivesse , com frequência, companheiros perto de si com quem tabelar. Isso não acontece e, mesmo sendo possuidor de uma técnica acima da média, de nada adianta. A Matías Fernandez, por isso, antevejo a mesma queda na banalidade que ostracizou Romagnoli. O problema, obviamente, não é dele, como não o era de Romagnoli. Aliás, o argentino, sempre que a equipa jogou bem, foi fundamental. O problema é, isso sim, de um colectivo cujo tipo de preocupações condena quem quer que jogue ali. O médio-ofensivo, bem como boa parte dos elementos que actuem do meio-campo para a frente, será sempre, dentro desta filosofia de jogo, um jogador abaixo das suas potencialidades. O Sporting de Paulo Bento é, pois, um caso claro de como o colectivo ofusca as individualidades, um caso de como as amarras tácticas prejudicam ostensivamente cada um dos jogadores e também um caso exemplar de obsessão excessiva com coisas erradas.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Semana de Decisões

1. O Porto sagrou-se campeão nacional pela quarta vez consecutiva. E foi outra vez um justo vencedor. Apesar das dificuldades, dos contratempos, foi o conjunto mais conjunto, por assim dizer. E isso é o suficiente, quando os rivais se revelam tão fracos. Para mim, Jesualdo só não merecia ter sido campeão no seu primeiro ano. De lá para cá, tem sido capaz de construir uma equipa competitiva, assente numa ideia colectiva clara. A defender, os seus processos estão ao nível dos melhores da Europa e nem sequer tem comparação com o que se faz cá dentro. A atacar, tem algumas limitações, necessitando e muito da capacidade de explosão dos seus jogadores mais ofensivos e, no fundo, das individualidades que um clube grande consegue colocar ao seu dispor. Não sendo perfeito a esse nível, esteve uma vez mais melhor que os treinadores rivais e pode mesmo gabar-se de ser campeão tendo um plantel inferior ao do Benfica e ao do Sporting.

2. No rescaldo da conquista do campeonato, insiste-se num erro que não faz sentido. Os méritos de Jesualdo são evidentes e a justiça não poderia consagrar outra equipa. Mas se há coisa em que o professor continua a mostrar ser pouco dotado é na apreciação de jogadores. No entanto, a douta sabedoria da populaça afirma com galhardia que Jesualdo sabe, melhor que ninguém, explorar o potencial dos jogadores e fazê-los crescer. Isso não é verdade. As contratações falhadas voltaram a ser bastantes: Sapunaru, Benitez, Pelé e Guarín vieram juntar-se a Kazmierczak, Bollati e Stepanov, de anos anteriores. E para o ano já estão anunciados pelo menos mais dois jogadores que não terão vida fácil no Dragão: Varela e Miguel Lopes. O Porto continua a depender muito de alguns jogadores fulcrais como Helton, Lucho, Meireles e Lisandro. Fala-se em renovação do plantel, mas esquece-se que, à excepção de Hulk, todos os jogadores que entraram este ano na equipa fizeram-no por não haver outras soluções. Rolando e Cissokho são jogadores medianos, ao nível do que há nos rivais, de Tonel e Grimi, de David Luiz e Jorge Ribeiro. Daí até serem uma mais-valia individual vai um bocado. São melhores que as alternativas, mas não foram nunca jogadores determinantes. Fernando veio fazer a pré-época e acabou por agarrar o lugar, não sem antes o professor experimentar várias outras opções. A qualidade de Fernando veio logo ao de cima e a única coisa que foi melhorando ao longo da época foi a sua confiança. Não houve mão de Jesualdo, também aqui. Teve a sorte de lhe aparecer ali aquele fulano e de não ter uma opção para o lugar que reunisse consenso. Quanto a Rodriguez, o seu valor ficara já evidente a época passada. Pelo que resta Hulk, o único em quem Jesualdo apostou continuamente, em que demonstrou depositar uma confiança inexcedível. Resumindo, os jogadores que despontaram neste Porto, à excepção de um ou outro, despontaram não porque Jesualdo tenha olho para a coisa, mas porque alguém tinha de agarrar o lugar. E o que dizer de Tarik, praticamente ostracizado depois de ser uma das peças fundamentais na época passada? E a não aposta deliberada em nenhum jovem da casa, chegando ao cúmulo de mandar vir Hélder Barbosa a época passada para logo o preterir? Jesualdo continua a demonstrar não ser muito competente na hora de escolher jogadores. Os seus méritos existem, são o motivo pelo qual o Porto é um justo vencedor, mas estão noutro lado.

3. No Benfica, antecipa-se o cenário mais lógico: a demissão de Quique. O treinador espanhol tem coisas boas, mas a incapacidade para perceber como é que isso pode ser exponenciado chega a ser bizarra. A persistência num sistema que nunca funcionou e que, aos poucos, todos foram percebendo que não podia dar mais não deixaria antever uma segunda época brilhante. Há quem seja contra trocas constantes de treinadores e que queira dar mais tempo a Quique. O problema, para mim, não está nos resultados. Era admissível, num primeiro ano em Portugal, com uma equipa completamente nova, não se conseguir bons resultados. O que não é admissível é não haver evolução, não haver planos alternativos, não se perceber coisas básicas acerca da forma como se trabalha e, em última instância, não se perceber o que se está a fazer mal para poder melhorar. Perante tudo isto, Quique não pode continuar. Seria prolongar o vínculo com a mediocridade.

4. Por falar em mediocridade, o que dizer do futebol actual do Sporting? A era Paulo Bento terá chegado ao fim. Para bem do Sporting, é o melhor que pode acontecer. O futebol praticado foi perdendo riqueza à medida que a era de Paulo Bento avançava. Nos primeiros tempos, o Sporting jogava de forma fluida e alegre. Hoje, é tudo em esforço, sem imaginação, apelando às individualidades em vez de apelar ao colectivo. Em tempos, cheguei a pensar que Paulo Bento conseguiria impor um futebol suficientemente competente para ser campeão, ainda que com parcos recursos financeiros, quando comparados com os dos rivais. Hoje, repetidos até à exaustão os muitos erros que foi cometendo, já não possuo essa crença. Não perceber que o mal de Romagnoli é causado pelo mal da equipa, não perceber que certos jogadores precisam de certos mimos, não perceber que não pode gerir um balneário com indiscutíveis de qualidade discutível, não perceber que os atributos colectivos dos jogadores devem ser preferidos aos atributos individuais, não perceber que Liedson é nocivo a qualquer estratégia que pretenda dos avançados algo mais do que competência individual, tudo isto são pequenas falhas que, juntas, condicionam a capacidade da equipa. E o futebol ressente-se; e torna-se medíocre.

5. Jaime Pacheco foi finalmente despedido a duas jornadas do fim. O Belenenses está com um pé na segunda divisão e Rui Jorge deverá assumir a liderança do barco. Talvez fosse uma boa aposta para manter na próxima época, aconteça o que acontecer. Rui Jorge é daqueles para com quem o futebol ainda está em dívida.

6. Lá por fora, o Barça empatou mas acrescentou um ponto à diferença para o segundo classificado, o que o deixa ainda mais perto do título. Mas a notícia é mesmo a lesão de Iniesta. A sua ausência da final da Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real e pode ser um duro revés nas ambições blaugranas. O médio-espanhol confere à equipa algo que, além dele, só Xavi consegue dar, doses abundantes de imaginação. A sua ausência não torna o Barcelona menos forte em termos atléticos ou técnicos, mas sim mais previsível, menos capaz de furar em espaços curtos. No futebol de toque curto da equipa catalã, Iniesta é o seu melhor intérprete e isso pode ser decisivo.

7. Entretanto, veio a final da Taça do Rei e o Barcelona venceu o primeiro troféu da época. Expressivos 4-1 frente ao Atlético de Bilbao, pelo menos mais 6 ou 7 oportunidades de golo, e uma segunda parte jogada unicamente num dos meios-campos. O futebol do Barça é demolidor e a quantidade de goleadas esta época uma coisa sem par. Falta a Liga dos Campeões para ser uma época inesquecível.

8. Depois da polémica meia-final entre Barcelona e Chelsea, a Sporttv não transmitir, em três canais possíveis, a final da Taça do Rei, optando por transmitir, à mesma hora, a interessantíssima final da taça de Itália entre Lazio e Sampdoria, ou um interessantíssimo Wigan vs Manchester United, não cheira nada bem. A mim, em particular, cheira-me a ressabiamento. Ou a malta que tinha apostado bom dinheiro no Chelsea e ficou a ver navios. O que é interessante tentar perceber é o que vai dentro da cabeça de quem escolhe transmitir um jogo do campeonato inglês, e a final da taça de Itália, e também outro jogo do campeonato francês, em vez de uma final da taça que, além de muito aguardada em Espanha, colocaria em campo a melhor equipa da época e o futebol mais espectacular da década. A mim, isto parece-me propaganda nazi. Virada para Cristiano, não para Adolfo, claro está.

9. Por falar em finais, Diego vai estar ausente da final da UEFA. Tudo por causa de um amarelo daqueles que dá vontade de perguntar ao árbitro se ele gosta mesmo de futebol. A UEFA já deveria ter intervindo, há muito, sobre estes casos. A hipótese de os melhores jogadores ficarem excluídos de uma final devido a um amarelo é absurda. Diego carregou literalmente o Bremen às costas e é inequivocamente a figura da edição deste ano da prova. Sem ele, a final nem sequer vale a pena ser vista. Restar-lhe-á o consolo de ter voltado à ribalta do futebol mundial e de lhe ser finalmente reconhecido todo o talento que tem e do qual certas pessoas não foram capazes de se aperceber.

10. De resto, em Itália é praticamente certo que o "scudetto" é de Mourinho, naquela que terá sido a pior época da carreira do técnico português. Em Inglaterra, o Manchester também já poderá encomendar as faixas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Misterioso Problema do Sporting e os Indiscutíveis

Como muitos dos textos que escrevo, este é uma resposta imediata a uma determinada opinião generalizada entre quem fala de futebol. Muito se escreveu, ao longo da época passada, sobretudo quando o Sporting começava a ficar afastado do título, sobre o que ia mal para os lados de Alvalade. A teoria que então surgiu, e sobre a qual não me pronunciei até hoje, é de que o compromisso que o Sporting tem para com a banca, que o impossibilita de gastar tanto como os rivais, está directamente relacionado com o mau desempenho desportivo recente e é mesmo a principal causa do mesmo. Não concordo nem nunca concordei com isto.

Segundo esta teoria, que entretanto parece ter caído novamente em desuso (provavelmente porque depois o Sporting ainda conseguiu ficar em segundo lugar e arrecadar novamente a Taça de Portugal), o Sporting caminha para um processo de "belenensização", segundo palavras de um certo sábio. Ou seja, com o compromisso para com a banca, o Sporting não pode investir na melhoria do plantel; não o fazendo, perde gradualmente valor, o que faz com que conquiste cada vez menos coisas; conquistando menos coisas, os jovens jogadores formados na Academia valorizam-se cada vez menos; sendo a venda de activos do clube a maior fonte de receitas do mesmo, essa valorização cada vez menor implica receitas cada vez menores e, por conseguinte, cada vez menos capacidade para investir. Segundo esta teoria, o Sporting do ano passado, arredado da luta pelo título logo muito cedo, manifestou já um decréscimo de qualidade evidente e foi o prenúncio dessa gradual perda de capacidade de investir. Ou seja, para certos iluminados, os resultados menos positivos de uma época foram suficientes para provar uma teoria que só poderia ficar provada ao fim de muitas épocas. Se esta teoria estivesse correcta, como explicar a boa campanha da equipa de Paulo Bento no ano imediatamente anterior? Há dois anos, o Sporting fora uma equipa forte, ficando em segundo e lutando pelo título até ao fim, além de ter ganho a Taça de Portugal. De repente, já era uma equipa fraca? Não faz sentido.

O insucesso da época anterior, sobretudo na prova de resistência (uma vez que venceu a Taça, foi eliminado da Taça UEFA pelo finalista vencido e chegou à final da Taça da Liga), tem outras explicações. Antes de me deter nelas, gostaria de dizer que a teoria anterior não tem pés nem cabeça. A estratégia desportiva do Sporting é diferente da dos seus rivais e passa por uma contenção financeira muito maior. Em contrapartida, a aposta na prata da casa acaba por, de certo modo, compensar o menor investimento e tem sido, ao longo dos últimos anos, suficiente para manter o Sporting a um nível idêntico ao do Benfica e ao do Porto. Ao contrário dos rivais, que investem muito e esperam obter retorno desse investimento com a valorização desportiva dos jogadores em que investem, o Sporting investe consideravelmente menos e aposta de forma mais clara na valorização de jovens formados no clube. Em termos financeiros, não se pode dizer que tem sido uma má política, uma vez que, à excepção deste último defeso, o Sporting tem conseguido encaixar sempre algum dinheiro. Mas a teoria não rejeita isto. O que diz é que o problema do Sporting é a nível desportivo. Apostando em jovens que acabam por valorizar, pode ser capaz de vendê-los mais tarde, mas vai subsistindo com uma equipa constantemente formada por jogadores inexperientes, o que em termos desportivos pode ser prejudicial. A minha discordância com esta teoria não tem a ver com isto, embora considere falso o facto de o Sporting ser desportivamente menos competitivo que os rivais por causa desta estratégia. Aquilo de que discordo veementente é da consequência disto. É que, segundo esta teoria, uma equipa formada deste modo não só não é desportivamente competitiva como, por causa de não o ser, também não será, a longo prazo, financeiramente competitiva. Segundo os defensores desta teoria, o Sporting, por causa desta estratégia, ganhará cada vez menos coisas, será cada vez mais fraco a nível desportivo, o que fará com os seus jogadores sejam cada vez menos valiosos, o que, por sua vez, implica menos encaixe financeiro e, gradualmente, menos capacidade para se apetrechar com bons jogadores. Como tem sido visível, a estratégia continua a dar alguns frutos, logo a especulação em torno dela não parece plausível. O Sporting, gastando perto de três vezes menos que os seus rivais (se não for mais), continua a ser uma equipa competitiva; foi a equipa que mais coisas ganhou nos últimos anos e que melhor réplica conseguiu dar ao Porto, que ainda continua a usufruir das conquistas de Mourinho e de toda a valorização que essas conquistas possibilitaram. A estratégia do Sporting não só não tem revelado um decréscimo de qualidade desportiva, como não implica uma capacidade de investimento cada vez mais inferior, como ficou comprovado por este defeso, em que se gastou mais e não se recebeu nada. Os defensores desta teoria continuam a não ter qualquer testemunho substancial que a ateste.

Isto leva-nos para outra questão: se o problema do Sporting não é a capacidade cada vez menor para investir, qual é? Por que razão correu tão mal a época passada? A minha resposta é: por questões meramente desportivas. Não considero, como muita gente, que o Sporting tivesse um plantel mais fraco que o Porto. Considero, isso sim, que as opções iniciais de Paulo Bento eram inferiores às de Jesualdo. Mas nisto há também muita culpa do treinador leonino. Os erros de Paulo Bento não são circunstanciais. Isto é, Paulo Bento não é um treinador que umas vezes acerta, mas outras erra. Não. Paulo Bento tem boas coisas, enquanto treinador, mas tem certos caprichos, certas ideias predeterminadas que têm sido e continuam a ser, ao fim de três anos, a fonte maior dos seus erros. Isto faz com que as coisas corram, certas vezes, bem, outras vezes mal. Daí os problemas acentuarem-se numa prova de regularidade e ficarem disfarçados em provas a eliminar. É, portanto, dos erros de Paulo Bento que irei falar em seguida.

Há essencialmente dois tipos de erros: os erros tácticos, que afectam o colectivo, enquanto colectivo, e erros de apreciação e selecção de elementos do colectivo. Do primeiro tipo, consigo apontar essencialmente dois erros graves a Paulo Bento: a preferência constante (foi assim em todos os três anos) por um pressing menos alto do que seria desejável, tendo em conta as características do nosso campeonato, e a cada vez mais frequente opção pelo jogo directo (o futebol da sua equipa foi sendo cada vez mais objectivo, perdendo com isso lucidez, capacidade de mandar no jogo, de ter a bola, etc.). No que toca, porém, a jogadores e a opções técnicas - e é aqui que considero importante chegar - é que considero que reside o maior problema de Paulo Bento. Desde a opção, quase sempre falhada, de utilizar um avançado como vértice ofensivo do losango (principalmente Djaló), à insistência em certas pedras que, a dada altura, se percebia que eram nocivas ao desempenho da equipa, muitos têm sido os erros de Paulo Bento. É neles que me vou deter em seguida.

Começo por Romagnoli. Depois de uns primeiros bons seis meses, Romagnoli começou a época 2006/2007 em grande, mas quando a equipa começou a produzir pouco, foi imediatamente feito bode expiatório. O que Paulo Bento não percebeu foi que a equipa não produziu pouco porque Romagnoli produziu pouco, mas sim que Romagnoli produziu pouco porque a equipa produziu pouco. A relação causal existiu, mas Paulo Bento percebeu-a ao contrário. Aliás, a pouca produção individual de Romagnoli é quase sempre sinal de que a equipa está mal. Romagnoli precisa, não raro, de que a equipa seja capaz de ter bola, de circulá-la com segurança até que ela chegue a si. Paulo Bento não percebeu isto. Aliás, continua a não perceber: sempre que a equipa está mal, sacrifica o argentino. O que é certo é que Romagnoli esteve então algum tempo afastado da equipa, altura em que o Sporting perdeu o comboio do título. Quando se percebeu que o argentino era fundamental na equipa, já era tarde de mais. A presença de Romagnoli no onze esteve ligada à recuperação da segunda volta e veio provar que o pequeno craque tinha, obrigatoriamente, de jogar.

O segundo nome que pretendo frisar é o do inevitável Liedson. O brasileiro é e continuará a ser nocivo ao colectivo. Não é coincidência que o Sporting tenha começado a jogar menos à bola desde que Liedson voltou aos relvados. A produção ofensiva do Sporting liga-se, em grande medida, ao tipo de avançados que tem na frente. Com Liedson, o Sporting está claramente mais fraco, tem menos bola em zonas ofensivas, tem um avançado a menos a servir de apoio vertical e, como tal, está obrigado a um jogo muito menos pausado, a um jogo mais rápido, mais rectilíneo, com solicitações recorrentemente para as costas da defesa. Com Liedson, o futebol do Sporting é muito mais previsível e, contra equipas que defendem com um bloco muito baixo, menos eficaz. Em Portugal e em qualquer jogo em que o adversário defende muito fechado, os avançados têm de saber tabelar, têm de saber baixar para dar um apoio vertical; não podem ser só baratas tontas que se mexem erraticamente. Liedson faz do Sporting uma equipa pequena. É o típico jogador que, porque é rápido, ágil, e sabe aproveitar os espaços nas costas da defesa e dentro da área, serve os interesses de uma equipa que joga em contra-ataque ou com um futebol simples, de jogo mais directo. Para uma equipa grande, que precisa que um avançado seja alguém capaz de aparecer entre linhas a tabelar uma bola e capaz de intervir em várias das fases de construção de jogo, Liedson não serve. E poderão até alegar que, nos últimos jogos, o Sporting ganhou invariavelmente pela margem mínima e que o golo foi marcado por Liedson. A minha resposta a isso é igualmente factual. Sem Liedson, se exceptuarmos os jogos com Barcelona, Benfica e Porto, que são sempre jogos especiais, o Sporting tinha três vitórias no campeonato em outros tantos jogos e uma vitória na Liga dos Campeões num único jogo. Ou seja, sem Liedson, o Sporting ganhara sempre os jogos que tinha obrigação de ganhar. Em termos de golos, Postiga, Djaló e Derlei tinham, até à altura, dado conta do recado. Com Liedson, o Sporting tem produzido claramente menos e perdido pontos que não deveria perder. Coincidência? Não me parece. O facto de marcar alguns golos não pode fazer presumir que, sem Liedson, esses golos não existiriam, já que, sem Liedson, havia golos. O que se pode presumir, isso sim, é que com Liedson, o Sporting joga menos à bola. A quantidade de ataques que a falta de inteligência dele destrói é enorme. Ora bem, Paulo Bento é apaixonado por Liedson. Esse é outro dos problemas, um dos mais graves, a meu ver. A equipa produz claramente pouco com o Levezinho em campo e, numa prova de regularidade, isso é determinante. Há quem diga que Liedson é o abono de família do Sporting. Eu atrevo-me a dizer que, com Liedson, o Sporting só ganhará um campeonato se Porto e Benfica facilitarem.

Se pensarmos, então, na forma como Liedson entrou na equipa agora, ao voltar de lesão, podemos então perceber muita coisa sobre os erros de Paulo Bento e sobre a má gestão desportiva do treinador do Sporting. Djaló, Postiga e Derlei, sobretudo os dois primeiros, estavam em momentos de forma muito bons e, assim que Liedson pôde jogar, Paulo Bento não hesitou em relegá-los para o banco. Ou seja, dos dois lugares para avançados, um deles está reservado. Ora, que espécie de motivação é que um jogador que sabe que tem que lutar com três companheiros por um lugar no onze pode ter, quando um outro tem o seu cantinho reservado, ainda por cima sem o justificar? Djaló terá mesmo, a dada altura, perdido a paciência e ficou fora de uma convocatória. Há quem considere que Paulo Bento tem razão e que o jogador tem que acatar a decisão do treinador. Mas isso é falso. Djaló não tem que acatar coisíssima nenhuma. E não tem que acatar porque não há razão para tal. Ele merecia jogar e um amor imbecil do treinador por um jogador não é justificação para não jogar. Djaló só teria que aceitar esta situação se por acaso o jogador em causa entrasse e justificasse (não é com um golo por jogo que se justifica nada) essa entrada. Tal não aconteceu. O Sporting era muito mais equipa com Djaló do que com Liedson. E o mesmo se passará com Postiga. Postiga ainda não perdeu as estribeiras, mas tem toda a legitimidade para perdê-las, quando for o caso. E isto por uma razão simples. Porque a indiscutibilidade de um jogador justifica-se em campo e nos treinos. O problema é que, para Paulo Bento, há indiscutíveis por haver, porque lhe apetece que haja.

Está, finalmente, lançado o segundo tema deste texto: os indiscutíveis. Um dos grandes problemas de Paulo Bento é o ter indiscutíveis. E tê-los à priori, isto é, sem basear essa indiscutibilidade na justificação da mesma. Este tema prende-se com a forma de liderar de Paulo Bento e com o porquê de jogadores mais temperamentais acabarem por ser proscritos pelo técnico leonino. Liderar não é só mandar. Aquele que é liderado deve sentir que tem tantos direitos e deveres quanto o colega. Por isso, um bom líder não pode ter indiscutíveis. Mas Paulo Bento tem-nos. Tem Polga, tem Moutinho, tem Liedson e tem Rochemback, agora. Nenhum destes, por pior que esteja, sai da equipa. Isto é um erro. E é um erro porque confere a estes um estatuto de intocável que faz com que os outros saibam que todo o esforço para os substituir é inglório. Se Djaló não aguentou a injustiça de Liedson voltar à equipa sem qualquer espécie de justificação, Miguel Veloso também não aguentou o facto de, de um momento para o outro, Rochemback passar a ter de jogar no seu lugar, relegando-o para a posição de lateral-esquerdo. E, tal como Liedson, Rochemback ainda não justificou a sua utilização. Mas, entretanto, continua a jogar. Paulo Bento cria fetiches com determinados jogadores e imagina que, por pior que eles estejam, devem continuar a jogar. Liedson e Rochemback não só não têm dado nada à equipa como, por terem o estatuto que têm, têm ajudado a dividir um grupo que deveria estar coeso. Ao ter indiscutíveis, Paulo Bento passa uma mensagem negativa ao seu grupo. Daí à desmotivação vai um pequeno passo e os primeiros a quebrar são precisamente os mais temperamentais, aqueles que se apercebem da injustiça e que não são capazes de continuar a ser humilhados, enquanto outros vivem como lordes, gordos e apaparicados. Vukcevic foi só o caso mais grave.

Diz Mourinho, sobre a forma de motivar o jogador latino, o seguinte:

"O jogador latino não é especialmente obediente à hierarquia. É obediente à competência. Não sou obediente porque tu és treinador; sou obediente porque sabes mais disto que eu, porque és bom, porque treinas bem, porque tens razão." (Luís Lourenço e Fernando Ilharco, Liderança: As Lições de Mourinho, pp.186)

Ora, Vukcevic, assim como Veloso e Djaló, em menor escala, perceberam e insurgiram-se contra a incoerência de tratamentos dentro do balneário leonino. Enquanto Moutinho pode dizer o que quiser, que não sai da equipa, para outros uma palavra despropositada é logo motivo de processo disciplinar. Enquanto Rochemback e Liedson, estando aptos a jogar, jogam, para outros todo o esforço do mundo é insuficiente. Assim, não valerá a pena. Vukcevic terá, por certo, consciência de que tem mais valor que Rochemback e Liedson e que pode ajudar a equipa muito mais do que estes dois. Percebendo que, por mais que fizesse, nunca atingiria o estatuto destes dois, perdeu a cabeça, desmotivou-se. Nada mais normal. Como diz Mourinho, precisava de ter visto em Paulo Bento competência, mas viu apenas um superior hierárquico, caprichoso, intolerante, intransigente e incoerente. Percebeu que Paulo Bento tinha indiscutíveis por ter, porque lhe apetecia tê-los; percebeu que Paulo Bento não justificava a existência desses indiscutíveis com competência, mas sim por capricho. Um jogador talentoso, cheio de vontade de mostrar o seu valor, consciente da sua qualidade, jamais poderá acatar uma liderança tão inábil quanto a de Paulo Bento. Para Bento, há intocáveis porque ele decidiu haver; para um treinador competente, esse estatuto ganha-se. Vukcevic tem toda a razão para ter agido como agiu: nunca foi respeitado como outros o são, muitos deles sem o merecerem. Quem faltou primeiro ao respeito nesta história toda foi o treinador, ao não tratar todos da mesma maneira. O resto é conversa...

P.S. Queria pedir desculpa pela extensão exagerada do texto. Juntei dois assuntos que há muito queria abordar e acabou por ficar deste tamanho estúpido. Mas estava mesmo na hora de falar disto tudo...