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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O admirável mundo novo de Quique Flores

Quique Flores, o treinador do Valência, talvez ainda dorido pelo falhanço da contratação de Lucho Gonzalez ao Porto, decidiu ignorar as virtudes do argentino, preferindo elogiar aquele que acabou por ser o seu substituto, isto é, a segunda opção. A sério, não percebo certas coisas. O que é que custa admitir que queria um jogador, mas que isso não foi possível? Por que é que tem que tentar rebaixá-lo?

Segundo Quique Flores, Lucho Gonzalez não era o jogador com o perfil certo para o Valência. Aqui há várias coisas que se podem dizer. 1) Não estou a ver muitos médios-centro da categoria do argentino do Porto que sejam tão completos e conciliem tão bem o desempenho ofensivo com o defensivo, coisa essencial no 442 clássico de Quique. 2) Se Lucho não tem o perfil certo, é Kallstrom que o tem? Em que medida? É isso que ficamos a saber quando Quique diz que pretendia um jogador com personalidade e que fizesse a equipa jogar. Ora, Lucho é dos jogadores com personalidade mais forte que conheço. Além disso, é extraordinariamente abnegado e põe os interesses da equipa sempre à frente dos seus.

Continuo sem entender onde quer chegar Quique Flores com as suas explicações esfarrapadas. Segundo Quique, Lucho era um jogador que não tinha bem posição, que era um pouco de tudo, e que perderia tempo a adaptá-lo. Adaptá-lo? A quê? Guarda-redes? Lucho é um pouco de tudo? Como assim? É polivalente? Não. É um médio-centro extraordinariamente completo. Quando Quique diz que Lucho é um pouco de tudo, só pode querer dizer que Lucho é um médio que ataca bem e defende bem, que é o jogador que, numas jogadas, faz o último passe e que, noutras, é o jogador que se desmarca para receber o último passe. Isso é mau? Em que sentido? E no 442 clássico, em que se querem dois médios de consistência defensiva, não é óptimo arranjar um que além disso consegue oferecer boas garantias a atacar? E o que significa afirmar que Lucho não tem bem posição? Será que Quique não consegue enxergar que há três tipos essenciais de médios-centro, uns mais vocacionados para médios defensivos, outros para médios ofensivos, e outros para uma posição intermédia, que acarreta responsabilidades defensivas e ofensivas? Será que não percebe que Lucho não é nem médio defensivo nem médio ofensivo, mas sim um misto dos dois? E será que não sabe que, para o seu sistema, os melhores médios são os deste terceiro tipo?

Basicamente, Quique queria Lucho, mas achava que Lucho não era bem Lucho. Então, preferiu Kallstrom, alegando que Kallstrom é mais Lucho que Lucho. Aprecio bastante o sueco e não está em causa a qualidade da contratação. O que está em causa é que Quique pretendia um jogador com as características de Lucho, mas preferiu contratar Kallstrom, que não é bem o mesmo. Kallstrom não tem as capacidades defensivas de Lucho, a disciplina táctica, o rigor, a frieza. É um jogador muito dotado tecnicamente, extraordinário no passe longo e desenrascado no um par um. Mas no futebol do Valência encaixaria sempre melhor alguém capaz de conciliar estas capacidades com o rigor táctico e com a abnegação do argentino. Não tenho quaisquer dúvidas: Lucho era muito mais o jogador que interessava à filosofia de Quique Flores.

Se isto não é argumento suficiente, gostaria ainda de lembrar que Kallstrom, em termos de características, é em tudo idêntico a Hugo Viana. E em categoria também não anda longe. E todos sabemos a utilidade que o português teve na época passada. Se Lucho ia para Valência para, provavelmente, ser titular, Kallstrom irá, certamente, para fazer as vezes de Hugo Viana. Quique Flores, frustrado por não ter conseguido Lucho Gonzalez, preferiu ser orgulhoso e não revelar a dor de cotovelo que sentiu. Preferiu manter a dignidade, mas, acrescento eu, perder nobreza.