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sexta-feira, 8 de março de 2019

Mão na bola

Num futuro muito próximo, o defesa ideal é um estropiado. Não sou eu que o digo; são as evidências. Dada a importância que as mãos dentro da área adquiriram nos últimos anos, não deve tardar muito para que as escolas de formação comecem a amputar braços a todo e qualquer aspirante a futebolista. Só assim conseguirão garantir que os futuros defesas não cometem infracções capazes de decidir campeonatos. Ter em campo jogadores com dois braços, hoje em dia, é quase tão perigoso como jogar sem guarda-redes. Prepara-se, pois, uma revolução no jogo. Os lançamentos laterais passarão a ter de ser efectuados pelos guarda-redes; os capitães passarão a usar a braçadeira nas meias; as camisolas de manga comprida cairão no esquecimento. Mas nem tudo é mau. Acabam-se as mãos na bola, claro, e acabam-se também os puxões de camisola. O futebol ganha duplamente. Pela pureza do jogo tudo se justifica. E a cerimónia de entrega da taça passará a ser hilariante, que é o que faltava. Outra coisa que é capaz de ser gira é ver os jogadores a pedir substituição rodando o pescoço. Vêm aí tempos auspiciosos! Os sindicatos dos talhantes devem estar a esfregar as mãos. Haja ao menos alguém que possa fazê-lo.

Na passada quarta-feira, o Vídeo-Árbitro foi pela primeira vez na História decisivo para o apuramento para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Teria muito para dizer sobre o VAR, e espero conseguir fazê-lo brevemente, mas queria centrar esta discussão no lance que acabou por ditar a passagem do Manchester United à fase seguinte da Liga dos Campeões. É um facto que, sem o VAR, a grande penalidade não teria sido assinalada. Mas não é sobre a decisão do VAR que quero falar agora. O que é que se passou ali? O jogo aproximava-se do fim, Diogo Dalot recebeu a bola, encheu-se de coragem e, aqui vai disto, que mal não há-de vir ao mundo. E não veio, de facto! O remate de Dalot, que daria um belíssimo pontapé de conversão se o desporto fosse outro, só não parou algures na bancada porque foi embater no braço de Kimpembe, que saltara e rodara no ar no momento do remate do português. Que a bola bate no braço e este não está junto ao corpo, aumentando assim o volume corporal, é inequívoco. De que esse desvio aconteceu dentro da grande área também não há dúvida. Então por que razão nos parece, a todos nós que somos capazes de distinguir ilegalidades de injustiças, que a grande penalidade não deveria ter sido assinalada? Por que motivo é que, apesar de legal, é injusto assinalar aquele penalty?

Não considero que a justificação de que Kimpembe não tenha tido a intenção de jogar a bola com o braço chegue. O argumento não é meu, mas é evidente que há muitas outras faltas, de outra natureza, em que o defesa comete uma infracção apesar de não ter a intenção de fazê-lo. Uma tentativa de desarme na qual a única intenção é desarmar o adversário pode por exemplo provocar o derrube involuntário do adversário. Se, nesse caso, a falta merece ser sancionada, uma mão não-intencional também deve dar lugar à marcação de falta. A intenção, ou a ausência dela, não pode servir de critério para aferir a legalidade de uma bola no braço. Desse ponto de vista, a lei parece-me sensata. Se a bola for embater no braço e o braço de algum modo aumentar o volume do corpo, então há lugar a sanção. O que me faz confusão não é natureza faltosa de um lance como o da passada quarta-feira em Paris, mas o porquê de essa falta ter necessariamente de ser sancionada com um livre directo. Já há muito tempo que me parece que a injustiça deste tipo de lances (uma mão inadvertida dentro da área que transforma um lance sem grande potencial numa grande penalidade) se resolveria facilmente se se passasse a punir este género de mãos na bola (mãos involuntárias e que não cortam uma bola de golo evidente) apenas com um livre indirecto. Haveria na mesma lugar a sanção, mas não se transformariam três pontos para o país de Gales num bilhete para os quartos de final da prova mais importante do futebol europeu.

Na passada quarta-feira, o Manchester United não criou uma única ocasião de golo, mas marcou três golos. Se os primeiros dois resultaram de ofertas dos parisienses, o último foi uma prenda dos céus. Equipas que nada fazem para merecer o sucesso não deveriam poder continuar a beneficiar deste tipo de regalias celestes. Mas o mais provável, até por aquilo que o VAR vem permitir, é que este tipo de benesses divinas não só continue a definir eliminatórias como venha mesmo a aumentar. As leis do jogo foram evoluindo de modo a tornar o sucesso cada vez mais difícil aos medíocres. Mas nem todas as leis do jogo evoluíram respeitando esse princípio progressista. Que todas as mãos na bola continuem a ser punidas de igual modo, e que uma tentativa desesperada de pôr a bola na área possa dar lugar à grande penalidade que define o campeão do mundo, é um apelo claríssimo à mediocridade. Os braços não devem constituir uma vantagem defensiva, e as bolas na mão devem continuar a ser penalizadas. Mas um garrote bem apertado, um pau para trincar e uma serra acima do cotovelo também não é solução. Futebol sem braços não é futebol; é matraquilhos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Imponderabilidade dos Detalhes

Para muitos, o futebol distingue-se de outros desportos por ser um jogo de detalhes, isto é, porque os detalhes, ao contrário do que acontece em outras modalidades, podem ajudar a definir um vencedor. É verdade que, sendo o jogo de futebol um jogo com poucos golos, com "pontuações" baixas, quando comparado com outros jogos, tal distinção faz algum sentido. Mas não faz menos sentido pensar que são precisamente as equipas que mais fazem para depender menos dos detalhes que melhor estão preparadas para o sucesso. Parece haver, portanto, duas maneiras de reagir a esta crença: acreditar na fatalidade de que os jogos se definem pelos detalhes e trabalhar de modo a que a equipa esteja o melhor preparada para lhes responder, ou acreditar que os detalhes, podendo definir um vencedor, dificilmente o definem a longo prazo, e trabalhar de modo a que a imprevisibilidade dos detalhes tenha a menor relevância possível.

Por cá, como deve ser sabido, acreditamos mais na segunda solução. Que muitas vezes, sobretudo ao mais alto nível, os jogos se definem por um erro circunstancial, um mero acaso, uma má decisão do árbitro, uma precipitação, ou um golpe de génio, é evidente. Que a melhor maneira, porém, de responder a isso passe pela preocupação em estar o melhor preparado para esses momentos é que já não me parece tão evidente. Ninguém, no seu mais perfeito juízo, pode acreditar que consegue controlar todos os detalhes do jogo, e muito menos pode um treinador achar que, por mais que treine certas situações, os seus jogadores não vão falhar nesse mesmo aspecto. Sempre me pareceu cobarde condenar um golo falhado com a baliza aberta, ou um penalty mal batido. Erros acontecem, e todos os jogadores, por melhores que sejam, erram. Alguns acreditam que, se trabalharem muito, os jogadores erram menos. Tenho as maiores dúvidas de que muito treino implique melhorias a esse nível. Os lances são, sistematicamente, diferentes; as situações de jogo sistematicamente atípicas. Na minha opinião, treinar o detalhe é absolutamente inútil. Treinar a equipa, então, para que faça a diferença nos poucos momentos em que se define o jogo, negligenciando tudo o resto, parece-me francamente retrógado.

Dito isto, não acredito que seja assim que José Mourinho trabalha. O seu Real Madrid, no entanto, é talvez das equipas que mais parece depender da lotaria do detalhes, actualmente. Foi assim nas últimas semanas, sobretudo na eliminatória da taça do Rei frente ao Barcelona, e na eliminatória contra o Manchester United, mas tem sido assim também desde que chegou a Espanha. Não acreditei, por isso, no final da primeira época, que pudesse ganhar uma competição de regularidade, como o campeonato interno, em que os detalhes acabam por não ser tão determinantes quanto numa competição a eliminar, mas a verdade é que a equipa se conseguiu superar, encarando cada jogo como uma final, mantendo índices de concentração sempre elevados. Como disse também atempadamente, tal só foi possível porque a motivação de bater o Barcelona para a Liga era enorme. Sem isso, não teriam sido capazes de vencê-la, precisamente porque não são uma equipa para ganhar regularmente, como o exige um campeonato interno. Conseguiram superar-se no ano passado, mas não demoraria para que voltassem ao que verdadeiramente são: uma equipa de grandes jogos, de competições a eliminar. O fraco campeonato do Real Madrid não é, por isso, minimamente surpreendente. Este é que é o verdadeiro Real Madrid, não o do ano passado. É um Real Madrid banal numa competição de regularidade, que perde pontos e joga mal com adversários acessíveis, mas um Real Madrid muito competitivo sempre que o desafio é maior. Foi assim que Mourinho preparou a equipa desde que chegou, e é agora, ao final de três anos, que ela melhor espelha o trabalho a que foi sujeita.

Hoje, em Old Trafford, jogou-se o jogo para o qual o Real Madrid de Mourinho foi preparado desde o princípio, um jogo tacticamente fechado, que desde cedo se percebeu que penderia para o lado dos que falhassem menos, e que se resolveria pelos detalhes. O Manchester nunca pareceu muito incomodado em conceder a iniciativa ao adversário, até porque tinha a vantagem na eliminatória, e o Real ia tentando, com pouquíssimo engenho, e mais preocupado em aproveitar uma distracção de um adversário, uma bola parada, um lance de génio de algum dos seus jogadores. Até à expulsão de Nani, o Real Madrid nunca conseguiu criar as suas próprias situações de golo. Nunca conseguiu modificar as coordenadas do jogo estabelecidas pela equipa inglesa. Nunca conseguiu transformar um jogo fechado, que só se modificaria naturalmente na sequência de um detalhe, num jogo que se pudesse decidir por outra coisa que não por um detalhe. É este, aliás, o código genético desta equipa. Foi assim que foi eliminada o ano passado pelo Bayern, e era assim que, muito provavelmente, ia ser eliminada este ano nos oitavos de final, não fosse precisamente o detalhe de uma expulsão absurda a modificar a partida.

Há boas probabilidades de, nos próximos dois anos, José Mourinho não dizer uma única palavra acerca de um certo escândalo num certo estádio inglês, como tantas vezes disse acerca de um outro escândalo num outro estádio inglês, mas hoje o seu Real apurou-se porque foi feliz nos detalhes. Era, aliás, a única forma de se ter apurado, tivesse sido um detalhe externo ao jogo, como uma decisão de um árbitro, tivesse sido, pura e simplesmente, um lance de bola parada, uma escorregadela de um defesa, um erro infantil de alguém que não costuma errar. Foi assim que eliminou o Barcelona da taça do Rei, e foi assim que eliminou hoje o Manchester. Foi feliz nos detalhes. Isto porque, nesta história dos detalhes, tem mais sucesso quem é mais feliz, não quem é verdadeiramente melhor. O Real Madrid, hoje, foi feliz. O ano passado, diante do Bayern, não o foi. Como de resto, raramente o foi, desde que Mourinho chegou a Espanha, com o Barcelona. Mourinho preparou a equipa para ser competitiva, e é-o. Mas não a preparou para saber contornar a imponderabilidade dos detalhes. Se hoje foi feliz, amanhã pode não sê-lo, como não o foi no passado. É tudo uma questão de felicidade, e isso é pouco, numa equipa como aquela. Pode, com certeza, chegar para ganhar a Champions, mas uma competição como esta, como o Chelsea demonstrou o ano passado, é tão imponderável que isso não significa nada. O jogo medíocre da equipa hoje em Old Trafford, incapaz de tomar as rédeas da partida, de obrigar o adversário a desmontar a defesa, pode, pelo resultado final, ter deixado os merengues muito felizes, mas demonstrou também, muito claramente, a vulgaridade de que é feita: tirando a qualidade do plantel, que não tem comparação com nenhum outro plantel no mundo, à excepção, talvez, do plantel catalão, o Real de Mourinho é uma equipa como tantas outras. E é pena que o seja.

terça-feira, 26 de maio de 2009

David e Golias

"[...] Saiu do acampamento dos filisteus um guerreiro chamado Golias, de Gat, cuja estatura era de seis côncavos e um palmo. Cobria-lhe a cabeça um capacete de bronze, e o corpo, uma couraça de escamas, cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Tinha perneiras de bronze, e um escudo de bronze defendia os seus ombros. O cabo da lança era como um cilindro de tear, e a ponta pesava seiscentos siclos de ferro. Precedia-o um escudeiro. Apresentou-se diante dos filhos de Israel e gritou-lhes: «Por que é que vos colocastes em ordem de batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei entre vós um homem que combata comigo, em duelo. Se me vencer e me matar, seremos vossos escravos; mas se eu o vencer e o matar, então vós sereis nossos escravos e servir-nos-eis.» [...] O filisteu apresentava-se pela manhã e pela tarde, e isto durante quarenta dias. Um dia, Jessé disse ao seu filho David: «Toma para os teus irmãos um efá de grão torrado e estes dez pães e leva-os sem demora ao acampamento. Entrega estes dez queijos ao comandante e pergunta se os teus irmãos vão bem ou se têm necessidade de alguma coisa.» Eles estavam com Saul, juntamente com todos os homens de Israel, no vale do Terebinto, em guerra com os filisteus. [...] eis que o guerreiro filisteu Golias, de Gat, avançou das fileiras do seu exército, proferindo os mesmos insultos que nos dias precedentes. E David ouviu-os. Todo o Israel, à vista de Golias, fugiu, tremendo de medo. E diziam: «Vedes esse homem que avança? Ele vem insultar Israel. O rei cumulará de grandes riquezas aquele que o matar, dar-lhe-á a sua filha e há-de isentar de impostos, em Israel, a casa de seu pai. [...] David disse a Saul: «Ninguém desanime por causa desse filisteu! O teu servo irá combatê-lo.» Disse-lhe Saul: «Não poderás ir lutar contra esse filisteu. Não passas de uma criança, e ele é um homem de guerra desde a sua mocidade.» [...] O rei revestiu David com a sua armadura, pôs-lhe na cabeça um capacete de bronze e armou-o de uma couraça. Cingiu-o com a sua espada sobre a armadura. David tentou ver se podia andar com aquelas armas, às quais não estava habituado, e disse a Saul: «Não posso caminhar com esta armadura, pois não estou habituado!» E tirou a armadura. Tomou o seu cajado e escolheu no regato cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a funda na mão, avançou contra o filisteu. Este, precedido do escudeiro, aproximou-se de David, mediu-o com os olhos e, vendo que era jovem, louro e de aspecto delicado, desprezou-o. Disse-lhe: «Sou eu, porventura, um cão, para vires contra mim de pau na mão?» [...] Levantou-se o filisteu e avançou contra David. Este também correu para as linhas inimigas ao encontro do filisteu. Meteu a mão no alforge, tomou uma pedra e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na fronte. A pedra penetrou-lhe na cabeça, e o gigante tombou com o rosto por terra. Assim venceu David o filisteu, ferindo-o de morte com uma funda e uma pedra. [...]" (1 Sm 17)

A final da Liga dos Campeões deste ano está aí e o episódio bíblico que serve de tema a este texto é aquilo que, a meu ver, melhor espelha o confronto que se aproxima. De um lado, com uma "estatura de seis côncavos e um palmo", com armas e armaduras pomposas, teremos um Golias inglês, o maior guerreiro entre o seu povo, campeão em título e representante de um futebol em que o músculo e a transpiração são os emblemas maiores. Do outro lado das fileiras, ao contrário do guerreiro filisteu, armado até aos dentes, arrogante e invencível, teremos um David minúsculo e semi-nu, "jovem, louro e de aspecto delicado", sem armadura porque não é seu hábito vesti-la e armado apenas com uma funda e uma pedra. Um gigante se precipitará contra um infante; a força bruta contra o intelecto. Nada mais a propósito. E a diferença acentua-se, se pensarmos nas ausências de Dani Alves, Abidal, Rafa Márquez e ainda na possibilidade das ausências de Henry e Iniesta. Amanhã veremos se haverá razões para Donatello e Michelangelo esculpirem novas obras-primas.