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domingo, 14 de março de 2010

Como perder um jogo em 15 minutos...

Faltavam menos de vinte minutos para o fim da partida e o Inter vencia calmamente o Catania. Num jogo de pouca intensidade, com o Inter a reservar energias para o embate a meio da semana com o Chelsea, os pupilos de Mourinho, baseando-se numa estrutura colectiva relativamente forte e concentrada, iam conseguindo manter o adversário à distância. O jogo parecia caminhar calmamente para o seu final, com o Catania a mostrar pouca capacidade para furar as linhas defensivas dos de Milão. Nesta conjuntura, como perder então um desafio? Simples. Possuir jogadores que, do ponto de vista intelectual, deixem algo a desejar.



Três golos, três infantilidades inadmissíveis a este nível. No primeiro lance, é Lúcio, um central excessivamente valorizado ao longo da sua carreira por certos atributos que, além de não possuir, não eram os mais importantes para a sua posição, quem falha clamorosamente. A jogada nem sequer é muito rápida, mas o defesa do Inter ocupa uma posição incrivelmente baixa, mantendo-se afastado da linha defensiva em cerca de dois metros. O que esta desconcentração causou, neste lance, foi evidente, com Maxi López a entrar no espaço à sua frente e posto em jogo pelo seu erro posicional. Do nada, graças a uma desconcentração que é até frequente no defesa brasileiro, o Catania igualava a partida. Estava dado o mote para o que viria a seguir.

Tentando mexer no jogo, Mourinho colocou em campo Muntari. O médio esteve em campo cerca de dois minutos. No primeiro lance que teve, rasteirou um adversário à entrada da área, fazendo uma falta perfeitamente escusada, dado que tinha vários colegas a tapar o caminho da baliza. De seguida, na cobrança do livre, fazendo parte da barreira, salta para tentar impedir que a bola o sobrevoe. Esqueceu-se que estava dentro da área, que já tinha um amarelo e que o futebol não se joga com as mãos. Em dois minutos, viu dois amarelos e ofereceu de bandeja o segundo golo ao adversário. Converter a grande penalidade à Panenka, estando o jogo empatado, é merecedor de destaque. O autor foi Mascara.

Em poucos minutos, o Inter passara da condição de vencedor à de vencido e tinha agora um jogador a menos. Mas não era ainda tudo. Já a acabar, Lúcio volta a falhar uma abordagem a um lance, não conseguindo cabecear a bola, e Martinez fica com ela. A forma como o uruguaio do Catania conseguiu passar por Lúcio tem a ver também com a incapacidade que este sempre demonstrou, ao longo da carreira, para ficar em contenção. Procurando estar em cima do adversário, quando lhe deveria ter dado mais algum espaço, de modo a poder reagir condignamente, ficou demasiado perto deste e não foi capaz de lhe evitar o drible. Mas Lúcio não foi o pior defensor neste lance. Materazzi, que só tinha que fazer cobertura ao colega, veio à parva tentar ser ele a desarmar Martinez. Passara-lhe possivelmente pela cabeça até pontapear o adversário. O que os neurónios de Materazzi não previram, porém, foi que no momento exacto em que tenta ultrapassar Lúcio, pela esquerda, o uruguaio finta o colega pelo outro lado, ultrapassando assim, de uma assentada, dois opositores. Depois, ainda driblou Júlio César e fez o terceiro.

Resultado final: três golos oferecidos. É o que dá confiar em jogadores intelectualmente displicentes. Materazzi, Muntari e Lúcio podem ter certos atributos louváveis, mas são francamente medíocres do ponto de vista intelectual. E, hoje em dia, o intelecto é o requisito máximo de um atleta de alta competição. Jogadores de alto nível não podem cometer erros deste tipo e prejudicar um colectivo desta maneira. As grandes equipas, por definição, não se podem dar ao luxo de possuir nas suas fileiras jogadores que, a qualquer momento, por não estarem concentrados, oferecem brindes deste tipo aos adversários. Mourinho, em tempos, era um treinador que dava especial valor ao intelecto. Parece agora excessivamente acomodado ao que ganhou e à sua própria fama. As suas equipas são cada vez menos imaginativas, os seus jogadores cada vez menos inteligentes e cada vez mais brutos. Não sei se Mourinho terá capacidade para se reinventar e para perceber onde estão as suas principais falhas. Se a tiver, talvez consiga tirar deste desafio as ilações devidas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Previsões de Ano Novo

Em futebol, fazer previsões sem as justificar é algo que parece muito pouco interessante. Nem foi nunca algo que me cativasse. Fazer previsões é, desse ponto de vista, como dar palpites, como tirar à sorte. Interessa, sobretudo, saber que fundamentos levam alguém a predizer algo. Este espaço foi sempre um espaço de fundamentos, um espaço mais preocupado com os processos que conduzem a uma determinada conclusão do que com a conclusão em si. Ainda assim, porque esta é uma altura em que é costume fazer-se este tipo de coisas, farei as minhas previsões, anunciando de antemão que a elas, embora só por quatro ou cinco linhas justificadas, presidem razões e convicções profundas.

1. Vencedor do Campeonato Português: Benfica. Acredito que este é o ano dos encarnados e acredito nisto mais ou menos desde o início da prova. A boa prestação do Braga até aqui tem ensombrado, de alguma maneira, a boa prova da equipa de Jorge Jesus, com percalços aqui e ali justificados pelo facto de se ignorarem os melhores princípios da equipa, mas a segunda parte do campeonato será o derradeiro teste à turma da Luz. O embate com o Porto, além de mostrar que o Benfica não vinha em decréscimo de produção, terá mostrado finalmente que a equipa de Jorge Jesus é o mais sério candidato ao título.

2. Vencedor do Campeonato Espanhol: Barcelona. Está tudo em aberto e o Real Madrid conseguiu um início de campeonato muito bom. Não foi tão assertivo quanto o Barcelona, ganhando vários jogos com muito sofrimento, mas conseguiu, pelo menos, manter-se colado ao líder. O Barcelona, no entanto, tem sido igual a ele próprio e, com o regresso em pleno de Iniesta espera-se que volte a ser regular como antes. A equipa está a jogar ainda melhor do que o ano passado e se as lesões não perturbarem a segunda metade do campeonato, o principal problema deste Barcelona, o plantel pequeno que possui, não ficará manifesto.

3. Vencedor do Campeonato Italiano: Inter. Em Itália, antevi no início da época que a Juventus era a equipa que melhor poderia fazer frente ao Inter de José Mourinho. Percorrido que está metade do caminho, a Juventus parece estar mais próxima da qualidade do Milan do que da do Inter. Assim sendo, e não me parecendo que venham a ocorrer modificações exibicionais extraordinárias, o Inter continuará a ser o único candidato ao título. Será mais um êxito na carreira de Mourinho, ainda que não coroado do brilho de outrora.

4. Vencedor do Campeonato Inglês: Arsenal. Quando o Arsenal perdeu com o Chelsea, parecia irremediavelmente afastado da luta pelo título. As últimas jornadas, com os sucessivos empates do Chelsea, colocaram porém a equipa de Arséne Wenger novamente na rota do título. Se ganhar o jogo que tem em atraso, o Arsenal fica apenas a 1 ponto do Chelsea, com a equipa comandada por Carlo Ancelotti a ter de jogar em Janeiro sem Drogba e Kalou, e tendo ainda Anelka lesionado. Com esta conjectura e a jogar o que está jogar, o Arsenal tem tudo para se impor. É a equipa que melhor futebol pratica em terras de Sua Majestade. O Manchester também terá uma palavra a dizer, mas parece-me francamente debilitado e dependerá muito dos desempenhos dos outros dois candidatos.

5. Vencedor do Campeonato Francês: Bordéus. Em França, o Bordéus não tem dado propriamente grandes hipóteses. Lyon e Marselha, os mais apresentáveis dos rivais, têm sido bastante irregulares e a equipa comandada por Laurent Blanc já leva uma vantagem considerável. Gourcuff e companhia são, também por isso, a minha aposta.

6. Vencedor do Campeonato Alemão: Bayern. O Bayern de Louis Van Gaal não começou bem, mas a recuperação é visível. Não só conseguiu o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, como está apenas a dois pontos da liderança do campeonato. A segunda volta deverá consolidar as ideias do controverso treinador holandês e o tempo tenderá a fortalecer esta equipa. Como a concorrência no campeonato alemão não é muito forte, o Bayern, ainda com alguns deslizes, é o grande favorito à vitória final.

7. Vencedor da Liga dos Campeões: Barcelona. A minha aposta é, uma vez mais, o Barcelona de Guardiola. Seria a consumação final daquela que é a melhor equipa de sempre e o lugar no Olimpo que tanto merece. Nunca uma equipa venceu por duas vezes seguidas a Liga dos Campeões, mas nenhuma também apresentou o futebol que esta equipa apresenta. Dependerá, como é óbvio, da fortuna das lesões e da sua capacidade para se superar continuamente. Ainda assim, acredito que é o candidato que reúne melhores condições.

8. Vencedor do Campeonato do Mundo: Espanha. A Espanha é a equipa que melhor colectivo apresenta. Neste tipo de provas, é sabido, isso não chega. Quando toca a eliminar, e ainda por cima a uma só mão, os melhores nem sempre se consagram. Ainda assim, e com as melhorias que a equipa teve em termos de competitividade sob o comando de Del Bosque, é a formação que me parece melhor preparada. Ainda estamos longe da prova e em seis meses muita coisa pode acontecer. Como acontece nestes torneios, dependerá muito da forma em que os jogadores chegarem à África do Sul.

9. Participação de Portugal no Campeonato do Mundo: Oitavos de final. A Espanha deverá passar em primeiro lugar, no seu grupo, e Portugal terá a difícil missão de se apurar à frente do Brasil ou da Costa do Marfim. Nenhum dos adversários será fácil, mas numa competição deste género é difícil fazer previsões acertadas no que diz respeito a um conjunto de três jogos. Ainda assim, os campeonatos recentes mostraram que a capacidade de superação da equipa lusitana neste tipo de competição é notável. É claro que isso era com Scolari e tudo pode ser diferente agora. Tendo em conta a dificuldade do grupo, a qualidade do futebol apresentado durante a fase de apuramento e a equipa técnica comandada por Carlos Queiroz, a eliminação logo na fase de grupos não seria de espantar. Mas admito que Portugal consiga superar essa primeira fase. A partir daí, já acho mais complicado.

10. João Pereira. É um dos nomes sonantes da reabertura do mercado. Ao contrário da maioria, acho que João Pereira está longe de ser um grande lateral direito. É um jogador rápido, muito agressivo, mas tem pouco mais que isso. Chega a um grande depois de ser um dos principais protagonistas, do ponto de vista do comum adepto, do Braga. Há alguns anos, morava em Braga um lateral direito em tudo idêntico ao que é hoje João Pereira: um jogador veloz, que participava muito nas investidas ofensivas da equipa, e que era tido como o melhor lateral direito a jogar num clube que não um grande. Alguém se lembra de quem era? Na altura, ao contrário do comum adepto, achei que a sua vinda para um grande lhe tornaria visíveis as debilidades. Assim foi. Entendo que João Pereira venha a ter um destino parecido. Os seus problemas posicionais, a má leitura dos lances, as más decisões com bola são coisas que no Braga não são tão importantes. No Braga, esse tipo de problemas é algo que mais jogadores possuem. Por isso mesmo, a exigência no Braga é mais baixa. No Sporting, não terá Alans, Vandinhos, Moisés, Evaldos ou Paulos Césares com quem se comparar. Terá jogadores de maior craveira, jogadores mais perfeitos, que cometem menos erros. Os problemas de João Pereira, no Sporting, serão por isso mais evidentes. É óbvio que pode corrigi-los, mas não é algo que consiga fazer de um dia para o outro. Pode até, porque a equipa está a atravessar um mau momento, conseguir destacar-se. Quando as coisas estão mal, normalmente jogadores vistosos como ele, jogadores que fazem das suas características físicas e técnicas as suas mais-valias, são mais apreciados. Mas dificilmente conseguirá construir uma carreira sólida, regular. João Pereira não é muito diferente de Nélson, por exemplo, se bem que não tão bom tecnicamente. É um lateral ofensivo, que pode causar desequilíbrios quando apoia o ataque, mas a qualidade das suas decisões e a sua capacidade defensiva não é brilhante. Nélson durou um ano, num ano em que a equipa do Benfica pouco ou nada jogava. Depois, quando foi preciso evoluir, estagnou, cometeu erros e foi-se embora. João Pereira será assim tão diferente? A minha previsão é que não trará ao Sporting a tão desejada qualidade para a lateral direita.

Antes de acabar o ano, gostaria ainda de fazer referência a um projecto em que eu e o Gonçalo estamos inseridos há aproximadamente três meses. Os mais atentos terão talvez estranhado a ausência, há já algum tempo, de textos sobre uma determinada jornada ou sobre a generalidade da actualidade futebolística. A ausência desses textos explica-se porque todas as semanas escrevemos um texto para o jornal online "Academia de Talentos" com esse tipo de conteúdos. Aqueles que nos quiserem seguir ainda mais podem sempre procurar os nossos textos na Área Técnica do respectivo jornal. A ligação encontra-se entre as várias ligações aqui ao lado. O "Academia de Talentos" é, possivelmente, o local com mais e melhor informação sobre a actividade futebolística a nível dos escalões de formação. Nesse aspecto, a sua relevância está para além de qualquer dúvida e qualquer pessoa que esteja interessada em acompanhar o que se passa na actualidade desportiva nos mais variados escalões de formação terá interesse em consultar com regularidade o jornal. Mais recentemente, o jornal tem procurado evoluir noutros sentidos e expandir os seus horizontes. O espaço designado por "Área Técnica" reúne, por isso, textos de outro carácter e com outros conteúdos. É precisamente nesse projecto que colaboramos e, além de nós, podem ser encontrados textos de outros bloggers que, normalmente, valem a pena ser lidos, como os do Pedro Bouças e do Rodrigo Rodrigues, do blogue "Lateral-Esquerdo" ou os do Paulo Santos, do "Apenas Futebol". Fica o anúncio e o convite, claro...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"A arte e beleza expulsam todo o mal do mundo"

Não consigo confirmar se esta frase é da escritora Agustina Bessa Luis, mas a verdade é que podíamos aplicar a mesma à peregrinação de Del Piero pelo campeonato Italiano.

A verdade é que, nos tempos que correm, ter o privilégio de ver actuar um jogador como Del Piero é um verdadeiro luxo. Não só pela classe que demonstra em cada lance, mas pela qualidade que coloca em cada decisão e movimento.

A inteligência do "Pinturicchio" não se manifesta só na qualidade das decisões que toma, mas na maneira como com consegue "comprar" espaço e tempo no futebol actual. Valendo-se "apenas" de uma técnica sublime, sem ser poderoso fisicamente ou velocista, o número dez da Juve não só consegue criar espaço para o seu futebol como ainda tem o desplante de cobrir os seus movimentos com a ilusão de que tudo o que faz é de uma naturalidade e com uma serenidade que ofende. Dá a ideia que ele ouve Beethoven enquanto joga - será Für Elise? - enquanto que o resto anda entretido a ouvir The Prodigy.

No entanto, o que mais supreende é a maneira como um jogador, por si só, consegue esconder e defender um sistema táctico tão desequilibrado como o da Juve (se bem que com a nova epidemia deste sistema as coisas fiquem mais fáceis).

Há muito que venho criticando este sistema. Apesar de não ser um assunto isento de polémica, a minha opinião sobre este assunto não se tem alterado, não porque tenha mantido uma atitude autista em relaçao ao mesmo, mas porque quanto mais informação absorvo e cruzo, mais perto fico da conclusão que é uma táctica que coloca grandes dificuldades à proliferção, com sucesso, do modelo de jogo que idealizo. Todavia, Del Piero consegue, através do seu talento, "mascarar" as debilidades da equipa de Turim, de tal forma que muitos apelidam-na de inteligente. Nada mais errado. A equipa apresenta um futebol "primitivo", com os vários momentos do jogo bem separados, com transições simples e um bloco (muito) baixo. A opção por este modelo de jogo poderia comprometer de forma irremediável os objectivos de uma equipa como a Juve. Poderia, não fosse o número 10.

Com os seus golos (e a maneira como os alcança), a forma como compra tempo e espaço para o seu jogo, acrescentando tempo ao onze de Ranieri. Tempo de qualidade, através da magia de Del Piero, que intimida, e inspira. Porque na bola há de tudo: os que jogam; os que jogam e ensinam, etc. Mas Del Piero inspira. Obrigado.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Competitividade

Findos os campeonatos 2007/2008 e preparando-se já a época de 2008/2009, proponho um estudo comparativo entre as mais cotadas ligas europeias. A ideia é contrastar a diferença entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, de forma a tentar chegar a um coeficiente de competitividade que demonstre de que forma é mais fácil ou mais difícil ser bem sucedido num campeonato ou noutro.

Como fazer isto? Pensei em dividir cada tabela classificativa final em quatro, agrupando, por exemplo, num campeonato de 20 equipas, as primeiras 5 classificadas, depois do 6º ao 10º, do 11º ao 15º e do 16º ao 20º. Ao dividir a tabela em quatro, possibilita-se que se contrastem as melhores equipas com as piores, bem como a primeira metade da tabela com a segunda metade. Para cada um destes grupos, calculei a média de golos por jogo, a média de golos sofridos por jogo e, finalmente, a média da diferença entre golos marcados e sofridos por jogo (a média é calculada por equipa e não para o grupo). Com estes resultados, poder-se-á verificar, por exemplo, a diferença de golos marcados entre as primeiras classificadas e as últimas classificadas de um determinado campeonato. Com base no cálculo da diferença entre os golos marcados e os golos sofridos (Goal Average) dos diferentes grupos poder-se-á perceber quão desnivelados foram os resultados entre esses grupos e, em última análise, aferir do desnivelamento entre as melhores equipas e as piores desse campeonato. Comparando os diferentes desnivelamentos poder-se-á comparar a competitividade entre cada um dos campeonatos em análise, sendo que, quão maior for o desnivelamento, menor é a competitividade desse campeonato. Se fizer a média dos desnivelamentos e dividir esse valor por cada um dos desnivelamentos, obterei então um coeficiente de competitividade para cada um dos campeonatos. Multiplicando esse coeficiente de competitividade pela produção doméstica de uma equipa (média de pontos obtidos por jogo no seu campeonato), será possível comparar, com mais justiça, a produção a nível interno entre equipas de campeonatos completamente distintos.

Segundo o Ranking da UEFA, os dez países mais poderosos são: Inglaterra, Espanha, Itália, França, Alemanha, Rússia, Roménia, Portugal, Holanda e Escócia.

Inglaterra: 1002 golos marcados; 2,64 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,79) (6º a 10º: 1,35) (11º a 15º: 1,17) (16º a 20º: 0,95)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,74) (6º a 10º: 1,27) (11º a 15º: 1,52) (16º a 20º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 1,05) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,35) (16º a 20º: -0,79)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,97)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,40)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,84)

Espanha: 1021 golos marcados; 2,69 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,92) (6º a 10º: 1,30) (11º a 15º: 1,13) (16º a 20º: 1,03)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,13) (6º a 10º: 1,31) (11º a 15º: 1,33) (16º a 20º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,79) (6º a 10º: -0,01) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,58)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,80)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,99)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,37)

Itália: 970 golos marcados; 2,55 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,76) (6º a 10º: 1,32) (11º a 15º: 1,11) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,93) (6º a 10º: 1,37) (11º a 15º: 1,36) (16º a 20º: 1,45)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 10º: -0,05) (11º a 15º: -0,25) (16º a 20º: -0,52)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,88)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,35)

França: 868 golos marcados; 2,28 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,52) (6º a 10º: 1,08) (11º a 15º: 1,04) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,97) (6º a 10º: 1,00) (11º a 15º: 1,24) (16º a 20º: 1,36)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,55) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,43)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,47)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,75)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 0,98)

Alemanha: 860 golos marcados; 2,81 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,78) (6º a 9º: 1,55) (10º a 13º: 1,29) (14º a 18º: 1,01)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,00) (6º a 9º: 1,49) (10º a 13º: 1,57) (14º a 18º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 0,06) (10º a 13º: -0,28) (14º a 18º: -0,60)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,72)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,06)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,38)

Rússia: 562 golos marcados; 2,34 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,56) (5º a 8º: 1,17) (9º a 12º: 1,08) (13º a 16º: 0,88)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,98) (5º a 8º: 1,10) (9º a 12º: 1,21) (13º a 16º: 1,39)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,58) (5º a 8º: 0,07) (9º a 12º: -0,13) (13º a 16º: -0,51)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,51)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 0,71)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,09)

Roménia: 726 golos marcados; 2,37 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,48) (6º a 9º: 1,39) (10º a 13º: 0,97) (14º a 18º: 0,90)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 1,29) (10º a 13º: 1,19) (14º a 18º: 1,51)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,70) (6º a 9º: 0,10) (10º a 13º: -0,22) (14º a 18º: -0,61)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,60)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 0,92)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,31)

Portugal: 553 golos marcados; 2,30 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,55) (5º a 8º: 1,21) (9º a 12º: 0,92) (13º a 16º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,78) (5º a 8º: 1,05) (9º a 12º: 1,28) (13º a 16º: 1,50)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,77) (5º a 8º: 0,16) (9º a 12º: -0,36) (13º a 16º: -0,57)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,61)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 1,13)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,34)

Holanda: 956 golos marcados; 3,12 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,90) (6º a 9º: 1,80) (10º a 13º: 1,51) (14º a 18º: 1,08)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,07) (6º a 9º: 1,52) (10º a 13º: 1,76) (14º a 18º: 1,93)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 9º: 0,28) (10º a 13º: -0,25) (14º a 18º: -0,85)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,55)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,68)

Escócia: 541 golos marcados; 2,73 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 3º: 1,97) (4º a 6º: 1,39) (7º a 9º: 1,24) (10º a 12º: 0,86)
Sofridos p/ jogo: (1º a 3º: 0,91) (4º a 6º: 1,30) (7º a 9º: 1,52) (10º a 12º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 3º: 1,06) (4º a 6º: 0,09) (7º a 9º: -0,28) (10º a 12º: -0,88)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 3º e 4º a 6º: 0,97)
(Entre 1º a 3º e 7º a 9º: 1,34)
(Entre 1º a 3º e 10º a 12º: 1,94)

Resultados:

Média de Desnivelamentos entre as equipas de topo e as equipas de fundo da tabela: 1,43

Coeficientes de competitividade:
1º França: 1,33
2º Rússia: 1,31
3º Roménia: 1,09
4º Portugal: 1,07
5º Itália: 1,06
6º Espanha: 1,04
7º Alemanha: 1,04
8º Holanda: 0,85
9º Inglaterra: 0,78
10º Escócia: 0,74

Conclusões:

1) Os campeonatos mais competitivos, isto é, aqueles onde há menor desnivelamento entre equipas grandes e pequenas, são o francês e o russo. Estes dois campeonatos atingem mesmo coeficientes de competitividade muito mais altos que os que se seguem.

2) Roménia, Portugal, Itália, Espanha e Alemanha têm coeficientes de competitividade semelhantes, sendo que o nosso campeonato é mesmo o 4º mais competitivo.

3) Na cauda, surgem a Holanda, a Inglaterra e a Escócia, com o futebol britânico a ocupar os dois últimos lugares da lista.

4) Quanto aos golos marcados, a Holanda é o país onde se marcam mais golos (3,12 p/j); depois a Alemanha (2,81 p/j); Escócia (2,73 p/j); Espanha (2,69 p/j); Inglaterra (2,64 p/j); Itália (2,55 p/j); Roménia (2,37 p/j); Rússia (2,34 p/j); Portugal (2,30 p/j); e França (2,28 p/j).

5) O campeonato mais nivelado, o francês, é também aquele onde se marcam menos golos, podendo por isso presumir-se que muitos resultados serão empates a 0 ou vitórias por 1-0.

6) O campeonato holandês é o que tem mais golos marcados, o escocês é o terceiro e o inglês o quinto, o que indica que, sendo os três campeonatos mais desnivelados, as equipas de topo marcam muito mais golos às equipas do fundo da tabela do que noutros sítios.

7) O campeonato português é o segundo onde se marcam menos golos, o que indica que é nivelado muito por baixo.

8) Entre os três campeonatos maiores, o inglês é, de longe, o mais desnivelado, mantendo-se Itália e Espanha bem próximas. Se por um lado a supremacia das equipas de topo inglesas na Europa foi evidente e pode explicar algum do desfasamento em relação às ditas menores do seu campeonato, não deixa de ser também verdade que as equipas menores de Inglaterra são claramente inferiores às equipas menores de Espanha e de Itália.

9) De uma maneira geral, os campeonatos onde se marcam mais golos são os campeonatos onde há maior desnível entre grandes e pequenos. A excepção será a Alemanha, que mantém um coeficiente de competitividade elevado, ao nível médio, e que é o segundo campeonato onde se marcam mais golos.

10) Com estas contas, demonstra-se que é mais difícil uma equipa ser bem sucedida em Espanha, por exemplo, do que em Inglaterra. Isto implica que, um jogador de ataque numa equipa grande inglesa vai ter sempre a vida mais facilitada do que um jogador de ataque numa equipa grande espanhola. Assim, é de todo injusto comparar os golos marcados por um jogador que jogue numa equipa de topo em Inglaterra com outro que jogue numa equipa de topo em Espanha, uma vez que o primeiro terá mais facilidades em marcar.

11) Em Inglaterra, Escócia, Espanha e Itália registaram-se os maiores desnivelamentos entre as primeiras quatro ou cinco equipas e as equipas seguintes. Isto significa que, nestes 4 países, o poder das primeiras equipas encontra-se bem acima do das restantes. Creio que Portugal, com uma prestação normal de Benfica e Sporting, se incluiria neste lote, o que aumentaria o desnível competitivo do nosso campeonato.

12) Fazendo a média de pontos por jogo e multiplicando-a pelo coeficiente de competitividade, podemos aferir da produção doméstica das equipas e concluir, por exemplo, que há mais mérito no 3º lugar do Barcelona (1,76 pontos p/j x 1,04 (CCE) = 1,83) do que no 1º lugar do Manchester United (2,29 pontos p/j x 0,78 (CCI) = 1,79). Ou, por outras palavras, é mais difícil fazer 67 pontos em Espanha do que 87 em Inglaterra.

13) Como é óbvio, se reduzirmos o espectro e, em vez de calcularmos o coeficiente de competitividade com base no desnivelamento entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, o calculássemos com base no desnivelamento entre a primeira metade da tabela e a segunda, as diferenças entre os coeficientes de competitividade de cada campeonato seriam menores, mas as conclusões seriam, essencialmente, as mesmas.

14) Utilizando os 5 campeonatos onde se marcam mais golos, podemos concluir que em Espanha e na Alemanha, a existência de golos é razoavelmente racionada entre todas as equipas do campeonato, ao passo que na Holanda, na Inglaterra e na Escócia isso não acontece. Isto significa que na Espanha e na Alemanha a ineficácia defensiva dos adversários não é tão responsável pela eficácia ofensiva de uma equipa quanto o é na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. Podemos então presumir que, em Espanha e na Alemanha, a relação entre atacar bem/defender mal não é tão evidente como na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. O mesmo é dizer que em Espanha e na Alemanha as equipas são mais equilibradas na sua propensão ataque/defesa e que no futebol britânico e holandês as equipas são mais desequilibradas tacticamente.

domingo, 1 de junho de 2008

Por que é que as coisas são como são? (2)

Voltei, há umas semanas, a ouvir o meu amigo imaginário e achei importante referir a conversa que então se desenrolou. Enquanto dava o Liverpool, Gláucon comentou:

Gláucon: Ó Sócrates, este Kuyt é mesmo bom jogador.

Sócrates: É interessante. A escola holandesa é fértil em grandes avançados.

Gláucon: É verdade! Assim como a italiana. Por que será que assim é?

Sócrates: Esse problema tem explicação nas características de ambos os campeonatos. Embora por razões diferentes, está no carácter do futebol destes dois países a explicação para tamanha fecundidade em avançados.

Gláucon: Não sei se te entendo. Pretendes que é por causa do estilo de futebol que se pratica num determinado país que os jogadores que crescem nesse país são diferentes, de uma forma geral, dos jogadores que crescem noutro país?

Sócrates: Sim, é isso mesmo.

Gláucon: Não sei se concordo. Não terá antes a ver com questões culturais, históricas, económicas, político-sociais?

Sócrates: Evidentemente.

Gláucon: Então como concilias as duas coisas?

Sócrates: As duas coisas não se excluem. Os jogadores serão o resultado de um processo cultural, mas também o resultado de uma necessidade inerente ao próprio futebol em que estão incluídos.

Gláucon: No Brasil isso é assim?

Sócrates: No Brasil todos jogam à bola na rua. Os jogadores têm a sua aprendizagem nas ruas, por imitação dos mais velhos, e têm liberdades que outra aprendizagem não permitiria. Na rua, cada um quer ser o melhor; cada um pega na bola e tenta fazer coisas inigualáveis. Não interessa que a equipa seja a melhor. Quando chegam aos escalões mais velhos, estes jogadores têm por bagagem uma capacidade individual notável, mas pouca ou nenhuma cultura táctica. Além disso, psicologicamente, têm tendência a privilegiar as acções individuais às do colectivo. É por isso que o Brasil, apesar das grandes quantidades de jogadores, produz poucos guarda-redes ou defesas. Na rua, esses são apenas os "outros", aqueles que os virtuosos tendem a ultrapassar. Num futebol sem espírito colectivo, sem noção de colectivo, como é o futebol de rua, há tendência a formar jogadores de grande qualidade técnica, que conduzem bastante bem a bola, que fintam. Uma boa observação do futebol brasileiro permite perceber certas tendências...

Gláucon: E que tendências são essas?

Sócrates: Além de poucos defesas, de poucos guarda-redes de qualidade, o Brasil também não é fecundo em médios-defensivos. Os jogadores que se destacam pelos aspectos defensivos raramente se tornam jogadores de topo. Já em médios ofensivos, avançados (sobretudo avançados ágeis), abundam as opções.

Gláucon: Mas então como explicas que o Brasil, com tantos talentos individuais, não produza extremos de craveira mundial, ó Sócrates?

Sócrates: Bem observado. A aprendizagem do jogador brasileiro, como referi, faz-se através do individualismo. Isso implica, além de querer fazer coisas extraordinárias com a bola, uma tentativa de participar constantemente no jogo. O jogador brasileiro, porque individualista, não percebe, durante toda a aprendizagem, que a construção ofensiva é feita em várias fases e que a cada jogador está destinada uma parcela dessa construção. Como tal, procura ser ele a fazer tudo, deslocando-se no terreno em função da posição da bola. Porque procuram sempre ter a bola, as suas movimentações são de aproximação a ela e não de afastamento. Assim, o jogador brasileiro gosta muito mais de ocupar espaços centrais, por onde a bola passa mais vezes, do que de se desmarcar pela linha, à espera de um passe longo de um colega. A actividade de extremo, meramente passiva em grande parte da construção ofensiva, não se coaduna com as raízes individualistas e egocêntricas do jogador brasileiro. Daí haver poucos jogadores de linha e muitos para o meio do terreno.

Gláucon: Mas o Brasil produz os melhores laterais do planeta. Como explicas isto, ó Sócrates?

Sócrates: Assim é. A abundância de jogadores habilidosos faz com que nem todos sejam médios de ataque. Os mais velozes e potentes terão de ocupar outras posições, preferencialmente nas alas porque mantêm características técnicas que lhes permitem subir com facilidade e integrar-se no ataque. O lateral brasileiro, porque a sua aprendizagem o cunhou com a vontade de participar no jogo atacante, é muito ofensivo e, por conseguinte, descuidado a nível defensivo.

Gláucon: E como explicas que raramente se encontre um jogador brasileiro cerebral, que paute o jogo da equipa, que não entre em dribles excessivos, que ocupe bem os espaços e que faça fluir o futebol ofensivo?

Sócrates: Pelas mesmas razões que não há extremos. O jogador brasileiro cresceu a fintar os outros; foi ensinado a tentar resolver as coisas sozinho. Um jogador com as características que referes é um jogador que privilegia o colectivo, que põe as suas características ao serviço da equipa e que faculta a outros mais dotados a possibilidade de desequilibrarem.

Gláucon: Não sei se estou convencido. De qualquer maneira, o futebol brasileiro de que falas é então um futebol que se explica por questões culturais. Em que medida é que um certo tipo de futebol, que se molda por necessidades inerentes ao seu estilo próprio, modela os jogadores consoante essas necessidades?

Sócrates: No Brasil, isso não parece acontecer, de facto. Aliás, na Argentina passa-se algo semelhante. Nos países em que a formação a nível dos clubes é negligenciada, os jogadores formam-se sozinhos. Sobressai, portanto, nestes países, a individualidade. Acontece, então, que ao nível sénior o futebol não assenta em bases estritamente colectivas. O futebol nestes países nunca deixa de ser um futebol de rua. É um jogo entre duas equipas apenas na medida em que onze jogadores têm missões opostas a outros onze. Mas raramente se joga em equipa. As equipas brasileiras são equipas apenas na medida em que cada um dos seus jogadores tem por objectivo colaborar para o sucesso do conjunto. Mas o futebol brasileiro é desconexo: cada um tem a liberdade de fazer o que bem lhe apetecer. Há espírito de entreajuda na medida em que querem todos o mesmo, mas sobressai uma vontade individual que não se pode conciliar com os objectivos da equipa. Nos países que formam jogadores deste tipo, os campeonatos são muito pouco racionais e ganha, geralmente, a equipa que tiver as melhores unidades. Neste tipo de campeonato, que assenta num futebol individualista (e por individualista entendo não o ser egoísta, mas sim não possuir um espírito colectivo relevante) o nível táctico tem pouca importância. Um futebol tacticamente pobre nunca pode moldar jogadores no sentido que refiro.

Gláucon: Aceitas então que o jogador brasileiro é consequência apenas de um processo cultural?

Sócrates: Sim e não. Digo que sim porque é esse mesmo processo cultural que impede que o futebol brasileiro se desenvolva ao ponto de necessitar de jogadores com características específicas. Mas também digo que não porque, como é pobre a nível táctico, impera a individualidade e os jogadores mais adequados são aqueles que tenham maior desenvoltura individual. Porque o futebol brasileiro aprecia sempre os que se desembaraçam melhor sozinhos, produz jogadores individualmente muito fortes. O futebol brasileiro, pela cultura em que se insere, necessita e molda jogadores que melhor se adequem à realidade brasileira, ou seja, jogadores individualistas, capazes de resolver jogos sozinhos, que conduzem bem a bola, mas tacticamente desinstruídos e sem um verdadeiro espírito colectivo. É assim o estilo de futebol do Brasil (fundado pelas condições culturais do país, como é óbvio) que faz com que os jogadores brasileiros tenham certas características.

Gláucon: Isso não me parece muito fácil de perceber. Mas ainda não explicaste, ó Sócrates, por que é que a Holanda produz tantos avançados.

Sócrates: Tens razão. Mas não preciso de muito tempo para o fazer.

Gláucon: Tenho para mim que o futebol holandês produz muitos avançados de qualidade porque, tacticamente, é um futebol de orientação ofensiva. Num futebol assim, destacam-se sempre os avançados. É assim, ó Sócrates?

Sócrates: Não inteiramente. Nesse caso, o futebol inglês, que também é um futebol ofensivo, também produziria atacantes de grande nível com a mesma frequência. E assim não é, pelo menos nos últimos tempos.

Gláucon: Creio que tens razão. Então como explicas isso? E, já agora, como explicas que, tanto o futebol holandês, virado para o ataque, como o futebol italiano, virado para a defesa, produzam grandes atacantes? Não é contraditório?

Sócrates: Não. Não é o facto de ser um futebol ofensivo ou defensivo que vai talhar os jogadores, mas aquilo que cada estilo de futebol exige deles. O futebol holandês, desde há várias décadas, privilegia não só um futebol iminentemente ofensivo, como a materialização dessa filosofia de ataque através de um jogo colectivo. Ao contrário de outros países em que se joga igualmente ao ataque, como nos países sul-americanos, por exemplo, ou em Inglaterra, na Holanda o ataque assenta não nos jogadores, não nas individualidades, mas no conjunto.

Gláucon: E que significa isso?

Sócrates: Significa isso que, na Holanda, os avançados tendem a trabalhar as situações ofensivas com uma ideia de colectivo sempre presente. Dessa forma, evoluem segundo rotinas de futebol apoiado, privilegiando situações como as tabelas, as triangulações, o passe curto. Porque o futebol holandês coloca bastantes homens no processo ofensivo, os avançados holandeses têm tendência a trabalhar aspectos como a rapidez de raciocínio. Porque num futebol ofensivo implica haver menos espaços para jogar nas zonas ofensivas, os avançados holandeses tendem a aprender, desde cedo, outras formas de contornar os colectivos adversários. Não havendo muito espaço, porque as transições não são rápidas, os avançados holandeses evoluem sem privilegiar as acções individuais, quase sempre infrutíferas. São, assim, verdadeiramente, jogadores de colectivo, que trabalham desde pequenos para encontrar soluções ofensivas enquanto inseridos num colectivo.

Gláucon: E é esse trabalho específico que os modela?

Sócrates: Com efeito. É por causa de trabalharem, desde muito novos, esses aspectos, que adquirem essas características.

Gláucon: E no futebol italiano? Como explicas então, ó Sócrates, que o futebol italiano também produza grandes avançados? Não é contraditório, uma vez que a orientação do seu futebol é muito mais defensiva do que na Holanda?

Sócrates: Como disse, caro Gláucon, não é por um futebol ter uma orientação ofensiva ou defensiva que terá mais ou menos avançados de qualidade. O futebol inglês tem uma orientação ofensiva e ainda assim não produz avançados de grande nomeada. Isso deve-se ao facto de o futebol inglês, embora assente num estilo directo, ser muito pouco equilibrado. Nas transições defesa-ataque, a equipa que ataca encontra sempre muitos espaços entre as linhas adversárias, que está invariavelmente descompensada. Por causa dessa deficiência táctica, os jogadores têm mais espaço para jogar, não necessitando de aperfeiçoar certos aspectos técnicos como o drible curto ou o raciocínio rápido. Porque o futebol em Inglaterra é jogado a muita velocidade e há sempre muito espaço para jogar, o avançado inglês não encontra, ao longo do seu processo de formação, necessidade de se modificar. O estilo inglês implica apenas que trabalhe a velocidade, o poder de choque e a agressividade, o que é evidentemente insuficiente perante estilos de futebol mais fechados. Como os processos ofensivos em Inglaterra são muito simples, os seus avançados não trabalham senão o mais simples possível, ficando aquém de avançados de outros países por isso mesmo.

Gláucon: Percebo. Mas ainda não explicaste por que razão, então, em Itália também se produzem grandes avançados. E, de acordo com o que pretendes do futebol inglês, não é também contraditório que em Itália, onde o estilo também é muito directo, como em Inglaterra, haja avançados de grande qualidade?

Sócrates: Compreendo a tua relutância, Gláucon. Mas creio que continuas sem me perceber. Não é nem o pendor ofensivo/defensivo de um futebol nem o modo como se definem as transições defesa-ataque que definem o estilo de um futebol e o tipo de jogador que se forma nesse futebol. Em Itália, de facto, as transições são relativamente semelhantes às de Inglaterra, muito directas, simples, procurando chegar à frente de forma rápida. As diferenças, contudo, são relevantes.

Gláucon: E que diferenças são essas?

Sócrates: Em Itália, embora a primeira transição seja, normalmente, a procura dos jogadores mais adiantados, não se coloca tanta gente no processo ofensivo. Daqui resulta que as equipas se desequilibram menos e que os ataques estejam, quase sempre, em inferioridade numérica perante as defesas.

Gláucon: É por causa disso que o futebol italiano é tão fechado?

Sócrates: Com certeza. Há a preocupação, em Itália, de as equipas nunca se exporem desnecessariamente. Isto implica que o futebol transalpino se divida em dois momentos claros: o defensivo e ofensivo. As equipas defendem para depois lançarem os seus avançados; há jogadores para defender (mais) e jogadores para atacar (menos). Isto faz com que, passando para o momento ofensivo, os atacantes necessitem de se desembaraçar sem uma rede de apoios. Por causa desta necessidade de resolverem as coisas sozinhos, sem o apoio colectivo, os avançados italianos desenvolvem características individuais relevantes, como seja a capacidade de segurar e proteger a bola, nalguns, ou o drible curto, noutros, ou a capacidade de desmarcação, noutros ainda. O avançado italiano, porque em inferioridade numérica perante defesas que nunca se desmontam, evolui por necessitar de arranjar soluções individuais com que resolver os seus problemas.

Gláucon: De facto, Sócrates, a tua explicação faz sentido. Segundo o teu argumento, tanto na Holanda como em Itália, produzem-se grandes avançados, mas por razões diferentes.

Sócrates: Exactamente. Por razões diferentes, mas inerentes a cada um dos estilos de futebol.

Gláucon: E em que pé ficam as razões sócio-culturais?

Sócrates: As razões sócio-culturais podem interferir na evolução de um jogador e presidir ao estilo de futebol de um país. Desse modo, podem relacionar-se indirectamente com o tipo de jogadores que se formam nesse país. Mas as características desses jogadores serão sempre resultado de uma necessidade de adaptação ao estilo de futebol que se pratica nesse país. Nesse sentido, é unicamente o estilo de futebol praticado, influenciado, é certo, por razões sócio-culturais, que vai exigir a evolução dos jogadores.

Gláucon: De certa forma, então, tens para ti que os jogadores evoluem apenas por necessidade de adaptação?

Sócrates: Sim, sem dúvida.

Gláucon: É esse um ponto de vista darwiniano?

Sócrates: Creio que sim, embora de forma um pouco vaga. É o ambiente (estilo de futebol) que rodeia as espécies (jogadores) que vai determinar quais das espécies são mais aptas à sobrevivência. Aqueles que melhor se adaptarem às exigências do ambiente são os que sobrevivem. Esses vão evoluir no sentido de se adaptarem cada vez melhor às exigências, enquanto que os outros vão cair no esquecimento. Esta adaptação às exigências é o que os torna melhores, no fundo. Uma vez determinada esta qualidade, as gerações seguintes vão evoluir no mesmo sentido. Evidentemente, características como a qualidade futebolística não passam geneticamente de geração para geração, pelo que não se pode falar de selecção natural como Darwin. Mas o facto de a sobrevivência ser limitada apenas àqueles que souberem adaptar-se às exigências é, por si só, uma forma de selecção. Não sendo uma selecção natural, porque não é definida por características inatas, é ainda assim uma selecção com base na sobrevivência dos mais aptos. Nesse sentido, creio, os jogadores evoluem de um ponto de vista darwiniano, sendo que os ambientes mais agressivos, mais competitivos, são os que produzem melhores espécimes.

Gláucon: Para resumir o teu argumento, ó Sócrates, Itália e Holanda são então, por razões diferentes , é certo, os habitats mais exigentes para os avançados?

Sócrates: Sim, exactamente. E é essa exigência que vai fazer com que esses avançados sejam, por norma, os de melhor qualidade.

Gláucon: Gosto dessa explicação, ilustre Sócrates. Estou uma vez mais rendido...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sofismas à parte...

Quando hoje vejo as constelações de estrelas que se agrupam no céu da Premiership, é-me impossível não comparar a actualidade deste campeonato com o da Liga Italiana, há mais de uma década. Nessa altura, não hesitaria em eleger o futebol italiano como o meu predilecto. Era deste campeonato que emergiam as figuras que invadiam a minha imaginação, ou inspiração, quando dava os meus pontapés na bola. Mais do que no futebol português, era no futebol italiano que eu descobria as minhas referências: Del Piero, Baggio, Van Basten, Rijkaard, Gullit, Maldini, Savicevic, Sousa, Baresi, Brolin, entre outros.

Nos torneios internacionais, na ausência da nossa selecção, “sofria” sempre pela turma transalpina. Mesmo que aquela equipa recheada de talentos não jogasse a ponta de um corno, era sempre por eles que eu torcia. Sabe Deus o quanto eu amaldiçoei a selecção brasileira, depois do “fatídico” penalty de Baggio.

Entretanto, fui desenvolvendo um maior interesse pelo futebol e, assim que ia trilhando a minha formação, enquanto praticante deste desporto, fui perdendo encanto por aquele futebol que, outrora, me entusiasmara mais até do que os "raides" de Figo, as simulações de Balakov e Costa, a classe de Xavier e Valdo, a elegância desse “desprezado” do futebol nacional, Fernando Nelson, não esquecendo Barbosa, esse louco. Aborrecia-me tanta monotonia, tanta tristeza.

À medida que os desaires da Squadra Azurra se acumulavam, a assimetria de êxitos alcançados pelos clubes italianos e a selecção Italiana intrigava-me. Talento e espírito competitivo eram coisas que não faltavam, assim como a ideia de uma demarcada superioridade táctica. Olhando para trás, é fácil explicar este fenómeno. As equipas italianas tinham os melhores jogadores; qualquer jogador que desse dois pontapés na bola, desejava o Calcio, nada menos. A nível interno, a competitividade era ditada pelo poderio económico dos clubes: o que tivesse o maior número de bons jogadores e os mais adaptados, vencia.

O futebol inglês passa pela mesma fase. A diferença é que não é tão organizado, embora, por outro lado, os jogadores desfrutem de uma maior “alegria”, que lhes permite uma maior performance individual. Para além de ser, enquanto espectáculo, muito mais apelativo. Não será o futebol italiano muito mais rico, do ponto de vista técnico-táctico, e, por isso mesmo, mais interessante, para quem gosta de compreender os modelos e sistemas de cada equipa? A meu ver, a diferença entre as duas realidades, é exígua. Estará mais relacionada com questões culturais, do que com questões tácticas. O futebol italiano, baseado, acima de tudo, numa cultura de medo (até por questões sociais), procura o êxito através do menor risco possível, da forma mais pobre. Paulo Sousa alerta, no prefácio do livro de Luís Freitas Lobo, O Planeta do Futebol, para os efeitos nefastos de tal mentalidade. A obsessão em atingir resultados positivos a qualquer custo tornou-se um obstáculo demasiado elevado para a evolução do seu futebol.

Sousa fala da “ cultura do resultado” que se instalou, o que levanta a seguinte questão: se o resultado é o mais importante e se é em busca de resultados que todas as equipas definem as suas estratégias, e se durante um largo período o domínio italiano foi uma realidade, que falhou então? Como se poderá falar do futebol italiano como algo tão obsoleto, se enquadrarmos nesse futebol treinadores como Trapattoni, Capello, Lippi, etc? A resposta encontra-se na “mescla” entre os grandes talentos mundiais que durante muitos anos tinham como destino, na maioria das vezes, Itália, e uma mentalidade calculista e extremamente defensiva, que resultou numa excelente organização defensiva, deixando, todavia, os processos ofensivos numa posição muito menos cuidada, quase rudimentar. O facto de terem grandes talentos tapou, durante muitos anos, esta lacuna.

Das equipas italianas diz-se que são muito tácticas, o que eu discordo. São muito defensivas? Sim! Desequilibradas? Sim! Extremamente profissionais e minuciosos, na maneira como abordam o jogo? Sem dúvida! Não nego que, num passado, que já não é assim tão recente, se pudesse falar nalguma superioridade táctica, por parte do futebol italiano, mas na maneira como concebo o futebol, a maneira como se defende é tão importante como se ataca; mais, acredito que a forma mais evoluída de explorar tacticamente o potencial de uma equipa passa, inquestionavelmente, por não separar os vários momentos da equipa, sejam eles, especulativos, ofensivos, ou defensivos.

A evolução humana explica-se, substancialmente, pela necessidade. O futebol não é diferente. Os objectivos que se esgotam numa coisa tão fortuita como uma bola na trave, uma tarde desinspirada, arriscam-se a colocar em causa, e de forma rápida, toda uma época de trabalho, pois, retirando-se os resultados, estas equipas ficam sem nada. Por isso, defendo que a principal preocupação das equipas será sempre jogar bem, porque jogar bem (o meu jogar bem) implica que uma equipa seja equilibrada, que tenha uma atitude positiva de jogo, que não se alheie dos seus objectivos delineados, que queira progressivamente, jogo após jogo, ser mais “ dona” dos seus jogos. Só assim uma bola na trave não vai colocar uma semana, ou mês, ou época em causa, se eu souber que no fim, mesmo perdendo o jogo, estou mais perto dos objectivos da equipa, por mais utópicos que sejam.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Primeira Vaga

Assisti este Sábado à primeira parte do Roma-Inter e o pensamento de que não me consegui livrar até agora foi: o futebol italiano está vivo! Finalmente, creio que é possível dizer que se respira outra vez em Itália. Terão sido inúmeras as razões, mas a verdade é que o futebol em terras transalpinas está no início de um novo ciclo. Terá sido os muitos anos que a selecção italiana passou sem ganhar nada; terá sido o gradual decréscimo de qualidade do campeonato italiano em comparação com o inglês e com o espanhol; terá sido a escassez de títulos europeus das equipas italianas nos último dez anos; terá sido o desânimo causado pela pobreza do jogo; terá sido um conjunto de reflexões e tomadas de consciência dos quais a conquista do último campeonato do mundo e o escândalo do "Calciocaos" foram a confirmação; terá sido, enfim, a própria evolução normal das coisas, que sempre impõe mudanças.

O que é certo é que o futebol italiano está no início de uma nova vida. Ainda encolhido, começa a desabrochar e os primeiros títulos já apareceram. Carlo Ancelotti terá sido o pioneiro. A aposta que o Milan fez num treinador de uma geração mais nova teve e continua a ter os seus frutos. Livre dos vícios do Catennacio, Ancelotti implementou um 442 losango baseando o seu jogo numa mentalidade mais ofensiva e em transições mais pausadas do que era normal no futebol italiano. Ao contrário do estilo italiano clássico, com dois blocos bem distintos, um composto por 7 ou 8 jogadores, com preocupações meramente defensivas, outro por 2 ou 3 com preocupações meramente ofensivas, Ancelotti construiu uma equipa que joga em bloco, que pressiona altíssimo e que oscila entre um futebol de passe curto e certo, contido, e transições rápidas. A própria filosofia italiana implicava que as equipas não jogassem de outro modo que não num futebol excessivamente directo, tendo o bloco defensivo a missão de recuperar a bola e de lançar o bloco ofensivo o mais rápido e cirurgicamente possível. Perante os tempos modernos, em que as equipas de topo da Europa já defendem e atacam como um todo, um sistema como este, em que uns servem para defender e outros para atacar, só poderia estar caducado. Ancelotti, em Itália, terá sido o primeiro a perceber isso e o esquema táctico que preferiu não deixa de ser revelador. Um 442 losango nunca seria uma táctica para jogar à "italiana". Um esquema como este é sempre um esquema de toque curto. Quem o utiliza, privilegia a segurança no passe, a posse de bola, o ataque pensado e trabalhado, etc. Mesmo quando a equipa precisa de esticar o jogo, não o faz de qualquer maneira. O único jogador que tem ordem para alongar o modo de jogar do Milan é Pirlo. Não se vê nenhum dos defesas a fazer lançamentos para os avançados; não se vêm nenhum dos interiores a procurar passes de ruptura. Isso fica a cargo de Pirlo. É dele a responsabilidade de gerir a velocidade das transições.

Embora no Milan já não se jogue à "italiana" há alguns anos, noutros clubes essa mentalidade manteve-se até há bem pouco tempo. Relembro sem saudades como Capello na Juventus foi eliminado nos quartos-de-final da Liga dos Campeões pelo Liverpool em 2004/2005. Depois de perder em Anfield por 2-1, precisava apenas de marcar um golo e não sofrer. Demasiado preocupado em não modificar os princípios que afinal lhe tinham valido um currículo invejável, apostou num futebol directo, de teor defensivo, que colhe os principais frutos através do aproveitamento dos erros dos adversários. A precisar de ganhar, Capello insistiu num futebol que só pode ser proveitoso se a equipa adversária quiser atacar, coisa que o Liverpool não queria, pois estava em vantagem. Foi sofrível ver o pobre Ibrahimovic a ser solicitado com passes de 50 metros a toda a hora. E nem nos minutos finais Capello mudou a sua forma de jogar. Isso custou-lhe a eliminatória e foi para mim o retrato perfeito daquilo em que o futebol italiano se tinha tornado: uma míriade de princípios inflexíveis completamente obsoletos. Nem a precisar urgentemente de marcar um golo as equipas italianas abdicavam da sua organização defensiva!

O futebol italiano, aquele que tinha por corolário defender e esperar que a sorte lhe sorrisse, só poderia ter os dias contados. Para minha grande satisfação, esse futebol italiano está em declínio e surge agora um novo futebol italiano. Alheio a esse facto não será, certamente, a juventude dos treinadores das principais equipas italianas. À excepção de Claudio Ranieri, os outros são treinadores jovens, da geração de Ancelotti. Luciano Spalletti e Mancini, como Ancelotti, tendo ainda crescido à sombra do Catennacio, estão numa fase ainda de maturação de ideias enquanto treinadores. E desse processo constará evidentemente a necessidade de fugir ao estilo italiano clássico, por tudo o que foi aqui explicado. É a juventude destes treinadores que lhes permite perceber que o futebol em Itália precisa de novo fôlego e que os princípios cimentados nos últimos trinta anos não chegam para fazer frente às necessidades modernas. Como tal, nem o futebol de Mancini, nem o futebol de Spalletti radicam no esquema dos dois blocos bem definidos e com funções distintas. As suas equipas jogam em bloco, atacam de forma organizada e através de um futebol curto, de triangulações, tabelas, etc. Nenhuma destas equipas aposta num futebol directo, a explorar a inspiração dos avançados. Mesmo em contra-ataque, as transições são faseadas. Raramente se vê um passe vertical de 50 metros. Em situações de aperto defensivo, há sempre a preocupação de sair a jogar, de não perder a posse de bola com pontapés disparatados. Apesar de ter havido apenas um golo de penalty, foram os melhores 45 minutos de futebol italiano que vi nos últimos anos.

Confesso que ainda não vi a selecção de Donadoni a jogar, mas o facto de se tratar de outro treinador da mesma geração deixa-me confiante. O futebol italiano está assim numa primeira fase de reconstrução. É importante, nesta fase, perceber principalmente quais as necessidades do mesmo. Spalletti e Mancini, como Ancelotti primeiro, parecem já tê-las percebido e sintoma disso é a filosofia de jogo das suas equipas. Apesar de tudo, e porque afinal foram educados à "italiana", estes treinadores ainda guardam vícios residuais. As preocupações defensivas ainda são excessivas e enquanto o forem o espectáculo, conquanto melhor, nunca será óptimo. Tanto Spaletti como Mancini não abdicam de uma dupla de médios defensivos, deixando a cargo apenas de um homem o meio-campo ofensivo. No caso de Spalletti, a coisa é ainda mais gritante: ainda que a sua filosofia seja mais condizente com o futebol actual, as suas opções são por jogadores que lhe dêem garantias defensivas. No meio-campo, o organizador de jogo é Perrotta, um médio de características mais defensivas. O avançado é Totti, que por natureza é um médio ofensivo. Spalletti, como Mancini, não abdica de alguma segurança defensiva em excesso, o que, em abono da verdade, é contraditório com a filosofia atacante que perceberam necessária. Mesmo Ancelotti, apesar de utilizar apenas um médio defensivo, opta por dois médios interiores que lhe garantam sobretudo uma correcta ocupação de espaços defensivos e muita dedicação na recuperação da bola, o que acaba por impedir que o Milan, em muitas fases do jogo, e sobretudo se pressionado, tenha qualidade para sair correctamente para o ataque.

Diga-se, pois, como conclusão, que o futebol italiano está no início de uma nova era. Não é alheio a esse facto a jovem geração de treinadores que comanda as equipas de topo em Itália. Mas esta é ainda uma primeira vaga. Espera-se que esta evolução não fique por aqui e que a próxima geração de treinadores tenha ainda mais coragem do que esta. Há todo um caminho ainda a percorrer e só ainda foram dados os primeiros passos. É necessário continuar a acreditar que o que nos foi ensinado ao longo da vida não é certo e que há que experimentar novas propostas. O futebol agradece!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Papa-Açorda

Não sei de onde veio, mas foi sugerido por um repórter, há uns dias, uma possível saída de Liedson para o estrangeiro. Queria saber o repórter o que achava Liedson dessa hipótese, caso surgisse. A resposta do "levezinho" foi pronta. Gostaria muito, como qualquer jogador, de representar um grande clube europeu, mas para já estava de corpo e alma no Sporting. Fiquei a pensar nisto e cruzei esta informação com a de há uns anos, quando se dizia que Liedson sairia para Itália. Ficou-me na cabeça a possibilidade de Liedson ir jogar para a Juventus. Sorri ante a possibilidade e imaginei as maiores contradições possíveis. Se o futebol italiano fosse comida, era uma pizza, com as diferentes camadas bem distintas, a massa, o tomate e o queijo dispostos com exactidão, desenhada com a arte de um grande chefe. Podia também ser uma lasanha, com uma camada de carne e outra de massa, uma de carne e outra de massa. Tudo organizadinho. O futebol de Liedson, quando muito, é uma açorda. E, desculpem o cepticismo, não estou a ver italianos a comer açorda. Naquele rigor militar, naquela febre posicional em que são obrigados a viver, a estroinice táctica de Liedson impacientaria-os logo no primeiro jogo. Aliás, que tipo de diálogo poderia ter um Del Piero para com Liedson? "Pá, ó saltitão, pára lá quieto! Para que é que vens ter comigo quando estamos três para um e tens espaço para te desmarcares?" Ou então: "Ó saguim, para fazer coisas giras com a bola estou cá eu e o Nedved e para defender temos... como é que se chamam aqueles gajos?... ah, os defesas, é isso... Por isso, vai lá para a tua posição, que esta merda joga-se com 11 jogadores e que eu saiba o Buffon ainda não se aleijou." Ao que Liedson responderia: "Oi? Cê não pode falar em brasileiro? Não estou entendendo! Está muita gente no estádio gritando e só estou ouvindo isso: "Va fancullo! Va fancullo!"

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Avé Catennacio!

As equipas italianas estão de parabéns. Ou talvez não estejam. Tudo bem, reconheço que a Itália foi campeã do mundo. Mas não ignoremos que foi orientada pelo menos defensivo dos treinadores italianos das últimas duas décadas e que um dos supostos médios defensivos, Pirlo, era um dos mais talentosos jogadores italianos dos últimos tempos. A Itália de Lippi, até pelo que demonstrou durante o mundial, foi a menos italiana das selecções italianas. Mereceu o campeonato? Não sei responder. Mas mereceu, por certo, mais que qualquer uma desde a Itália de Baggio. Voltando às equipas italianas. Começo pelo Parma. É verdade que, para o vulgar português, a passagem do Braga deve ser motivo de orgulho. Mas dá pena, a um espectador de futebol que não esteja inflamado pelo vício do patriotismo, ver um Parma tão débil. Quanta diferença, desde os tempos de Brolin e Asprilla... Agora, resta uma equipa medíocre, que joga demasiado à italiana. Além de ser uma equipa tacticamente infértil, como de resto o são quase todas as equipas italianas, não possui jogadores de qualidade aceitável (salvo raras excepções, como Gasbarroni) que possam desiquilibrar individualmente. Este Parma é uma nulidade, quer colectivamente, quer individualmente. Passo agora para a Roma. Confesso que não acompanho o campeonato italiano há algum tempo, mas a disposição táctica dos romanos a meio da semana, frente ao Lyon, foi das coisas mais absurdas dos últimos tempos. Conseguiram empatar 0-0, é verdade. Mas foi pura sorte. Quem se lembraria, além de um treinador italiano, de jogar de forma tão defensiva? A equipa actuou num 4-5-1. Mas vejamos quem eram os elementos mais adiantados. Comecemos pelo trio de meio-campo. Perrotta, De Rossi e Pizarro. Pizarro era o jogador com características mais ofensivas, mas, pelo que percebi, nem actuou propriamente como médio ofensivo. Em suma, a Roma jogou com 3 trincos. Depois, os alas: Taddei e Mancini. Confesso que não vi o jogo. Não sei como foi o comportamento destes jogadores, mas sei que nenhum deles é, por natureza, extremo. Em 5 elementos de meio-campo, nenhum com vocações verdadeiramente ofensivas. Mas falta o ponta-de lança, ou qualquer coisa assim parecida. Isolado na frente, jogou - pasmem-se - Totti... Percebo agora com mais facilidade por que razão o Inter, a única equipa italiana que pratica um futebol de teor ofensivo, domina o campeonato a seu bel-prazer. Palmas para o Catennacio...