De dois em dois anos, a turba anima-se com o pontapé na bola e, dando em correr melhor do que seria previsto, a participação portuguesa nos torneios de nações é motivo de batimentos cardíacos acelerados um pouco por todo o país. Junta-se a esse fenómeno, este verão, duas circunstâncias especialmente interessantes: 1) o facto de o desenho do torneio beneficiar a mediocridade (passarem 2 terços das selecções não só permite que equipas que nada façam na fase de grupos sigam em frente como aumenta a possibilidade de tais equipas avançarem na competição sem apanharem adversários dignos de respeito); e 2) o facto de aparecer em Portugal um miúdo de 18 anos que, não obstante a total banalidade e inconsequência do seu futebol, reúne todos os atributos que o povo gosta de ver num jogador (força, agressividade, rapidez, coragem, desinibição, etc.). A euforia em torno de Renato Sanches chegou ao ponto de termos um jornalista, no rescaldo do jogo com a Polónia, a descrever os acontecimentos do jogo do seguinte modo: "Primeiro a Polónia marcou; depois o Renato empatou!" Renato Sanches é hoje, portanto, sinónimo de Portugal.
Há quem já o considere, no presente, um dos melhores médios do mundo. E há outros, mais prudentes mas igualmente fanáticos, que consideram que, apesar de ainda ter muito que trabalhar, tem potencial para chegar ao patamar dos melhores. A minha opinião sobre Renato Sanches não se alterou minimamente: não tem o que é preciso para vingar ao mais alto nível, e nunca vai tê-lo. Nesta selecção, não dá nem metade do que dão João Mário, Adrien Silva, André Gomes e João Moutinho. E, ao contrário do que tem sido dito, não consigo ver que melhorias trouxe ao futebol nacional sempre que entrou. Não consigo mesmo. Contra a Polónia, por exemplo, estava a fazer um jogo miserável, até que Fernando Santos decidiu encostá-lo a uma faixa. Miserável! Posicionalmente, andava às aranhas. Não sabia onde nem como pressionar, nem sabia onde nem como pedir a bola aos colegas. Fernando Santos trouxe-o para a linha, para lhe tirar alguma responsabilidade táctica, e ele continuou sem saber muito bem o que fazer. Defensivamente e ofensivamente, o Renato andava completamente perdido. Mas depois marcou um golo, após um passe sem nexo nenhum (meteu em Nani numa zona em que o avançado português não iria conseguir fazer nada, mas teve a sorte de Nani inventar um passe de calcanhar, que o surpreendeu tanto a ele como aos polacos), e as pessoas, que não querem saber de mais nada, trataram de endeusá-lo. O Renato lá continuou perdido em campo, a errar posicionamentos e a errar decisões com bola, mas cheio de confiança. E a única coisa que as pessoas vêem é a bola nas redes e a confiança com que os jogadores andam em campo. Não vêem as distracções constantes do Renato, os maus passes sistemáticos, as decisões absurdas, a imaturidade táctica. Não vêem nada disso. Vêem um miúdo com força e desinibido, e acham que é a reencarnação do Eusébio. Ou a reencarnação de D. Afonso Henriques, à espadeirada aos mouros.
Posso acrescentar, condescendendo um pouco, que talvez pudesse dar um avançado com alguma qualidade, ou um extremo interessante. Tem velocidade, segura e protege bem a bola, e podia servir de avançado em circunstâncias de contra-ataque, sobretudo, ou de extremo a quem se peça principalmente alguma competência na transição. Ou podia dar um defesa direito aguerrido, capaz de se projectar ofensivamente. Como médio-centro - perdoem-me os seus admiradores - não lhe auguro nada de bom. Não tem qualidade de passe, não é excepcional do ponto de vista técnico e, acima de qualquer outra coisa, não toma decisões condizentes com aquilo que deve ser um médio de ataque. Como disse há uns meses, as suas principais qualidades (a capacidade de condução em velocidade, a força, a entrega e a qualidade com que protege a bola) não são as competências que se exigem a um médio moderno. Isto não significa que não possa fazer carreira como médio, e que não possa ser titular indiscutível dos clubes por onde passar e da selecção nacional (o Maniche ou o Raúl Meireles também o foram). Significa, isso sim, que não o vejo a ser um médio capaz de dar a uma equipa aquilo de que precisa, sobretudo em organização ofensiva. Algumas das pessoas que, contagiadas pela euforia geral, sentem a necessidade de justificar a admiração que têm pelo Renato precisam, por isso, de demonstrar que o tipo de futebol que pratica é de algum modo benéfico. E, reconhecendo-lhe alguns defeitos (tomada de decisão, precipitação, irresponsabilidade táctica, imaturidade, etc.), tendem a acreditar que a força que tem, a intensidade com que joga e a irreverência que apresenta em campo, contrastando com a calma pachorrenta e a lentidão de processos por que se define, alegadamente, o futebol dos outros médios da selecção, são factores de desequilíbrio evidentes. Por exemplo, acha-se que o Renato, por conduzir endiabradamente, atrai adversários a toda a hora, desposicionando-os, e que, soltando a bola para um colega depois de fixar esse adversário, produz rupturas sistemáticas nas defesas contrárias. Na verdade, subjazem a esta ideia vários preconceitos: o de achar que é sempre útil conduzir para fixar, seja em que zona do terreno for, a que velocidade for e em que circunstâncias for; o de achar que quem privilegia a condução é mais competente a conduzir do que quem privilegia outras coisas; e o de achar que esse tipo de comportamento tem como consequência necessária esse tipo de desequilíbrios no adversário. O que se segue é uma análise às acções com bola (e a algumas acções sem bola) do Renato, no jogo contra o País de Gales. Como se verá, não só as iniciativas de condução do Renato não produzem os efeitos que se defende que produzem como o seu futebol não é tão incisivo como se acha que é.
1 mins: Mau passe. (Em vez de procurar dar uma linha de passe, dentro ou fora do bloco adversário, vai ter com José Fonte, tira-lhe a bola, conduz junto à linha e entrega na direcção do lateral galês.)
4 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Joga na linha em Cedric, aproxima-se, recebe dele, dá em Nani, volta a receber e devolve a Nani.)
5 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Aproxima-se do meio, recebe de Adrien, vira-se para a direita, roda sobre si mesmo e endereça o passe a Raphael Guerreiro, na esquerda).
7 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Toca a bola para Cedric, recebe dele e toca para trás.)
9 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Dá para Cedric, que se projecta na linha, e este cruza.)
12 mins: Má opção. (Recebe de Adrien numa zona central, conduz na direcção da linha, com Cedric à sua frente e Adrien a dar o apoio recuado, mas insiste em definir o lance e cruza contra o opositor directo.)
13 mins: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para trás, mas o central galês limpa.)
13 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe no meio de Danilo e dá para trás para Adrien.)
15 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de João Mário e dá para dentro, em João Mário de novo.)
17 mins: Mau passe. (Capta junta à linha, conduz enquanto Adrien se escapa ao seu lado, mas solta antes de fixar e na direcção de Joe Allen, que intercepta o passe.)
21 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe longo de Rui Patrício, protege a bola na recepção, vem para o meio, tabela com Adrien, tabela com Ronaldo, dá na linha em Cedric, dá o apoio recuado e recebe de Nani, a quem Cedric dera a bola, conduz lateralmente e abre na esquerda, em Raphael Guerreiro.)
22 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Adrien e devolve.)
25 mins: Má opção. (Apanha uma bola sacudida por Bruno Alves e, com um adversário à perna, e mais dois à sua frente, conduz para a linha sem dar importância ao apoio de Adrien, que chegava naquele momento, mete a cabeça no chão e tenta forçar a passagem, perdendo a bola. As bancadas exultam.)
27 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Vem ao meio, recebe de João Mário e toca curto em Adrien. Na mesma jogada, recebe de João Mário, conduz para a esquerda e deixa em Raphael Guerreiro.)
28 mins: Esforço. (Evita que a bola saia pela linha, após um mau passe de Bruno Alves.)
28 mins: Mau passe. (Apanha uma sobra, encara o médio e tenta jogar vertical, para dentro do bloco adversário, em Raphael Guerreiro, mas a bola sai para as costas do colega e a jogada perde-se.)
31 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Danilo no meio e joga em Cedric na linha. Ronaldo aproxima-se e fica com a bola.)
31 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Ronaldo, e lateraliza para Adrien.)
33 mins: Má decisão sem bola. (José Fonte conduz e Renato, como no lance do primeiro minuto, dirige-se ao portador da bola em vez de procurar dar uma linha de passe, o que leva José Fonte a desesperar, gesticulando para que o médio português saísse dali.)
34 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Perde em força para Bale, ao tentar disputar a bola com o galês, mas apanha o ressalto depois de Bale cruzar contra José Fonte, protege a bola e dá na linha em Nani.)
36 mins: Troca de bola rápida. (Aproveita uma sobra, depois de Cedric desarmar Bale, e dá rápido em Nani)
37 mins: Cruzamento. (Recebe junto à linha e cruza rasteiro, sem consequências)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Cedric e joga para trás, para Danilo)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Adrien, no meio, e dá na linha, em Cedric)
38 mins: Má opção. (Recebe de Cedric e, com várias opções verticais, dentro do bloco adversário, mete na área sem nexo.)
40 mins: Mau passe. (Recebe de José Fonte, conduz lentamente e, sem procurar fixar o defesa, tenta jogar em João Mário, mas o passe sai transviado.)
41 mins: Passe vertical. (Recebe de Cedric, conduz para o meio, e joga vertical em Nani, que dá o apoio entre linhas. Renato não dá, no entanto, opção de passe para que Nani pudesse devolver a bola.)
42 mins: Má decisão sem bola. (É ludibriado por uma simulação do defesa esquerdo galês, Taylor, quando fazia a cobertura desse flanco. Como Cedric perseguira individualmente o médio galês que ali aparecera, e que recuara, o lateral esquerdo fica com a linha escancarada.)
47 mins: Má opção. (Apanha uma sobra, depois de um corte de José Fonte, tenta fintar e perde.)
47 mins: Mau passe. (Apanha uma sobra e faz um passe rápido, sem direcção, que acaba nas pernas do árbitro. Se não batesse no árbitro, ia direito a um adversário.)
47 mins: Falta desnecessária não-assinalada. (Faz falta junto à área sobre Gareth Bale, mas o árbitro não assinala.)
47 mins: Mau passe. (Recebe de Nani, tenta entregar de primeira, mas a bola vai para Joe Allen.)
53 mins: Faz falta. (Depois de 6 minutos sem intervir, durante os quais Portugal marcou 2 golos, faz falta junto à linha.)
55 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de José Fonte e joga na linha, em Cedric.)
56 mins: Sofre falta. (Recebe de Cedric e, perante a chegada do adversário, desvia a bola e sofre falta. Estando Cedric a passar nas costas, se a finta sai mal, os galeses poderiam contra-atacar.)
59 mins: Má opção. (Apanha uma sobra, conduz, tenta passar por Gareth Bale e é desarmado.)
59 mins: Má opção. (Apanha uma sobra, conduz, tenta passar por Gareth Bale e é desarmado.)
60 mins: Mau passe. (Recebe de Cedric e tenta meter no espaço, onde Adrien aparece, mas mede mal o passe e a bola perde-se.)
64 mins: Má opção. (Recebe no meio, de João Mário e, podendo progredir, dá de imediato na direita, em Nani, que acaba por ir para o remate.)
67 mins: Sofre falta. (Recebe junto à linha esquerda, protege a bola, roda sobre si, na direcção da linha, e sofre falta.)
69 mins: Conduz e entrega. (Apanha uma sobra, depois da recuperação de Adrien, conduz pelo meio, tira Joe Allen da frente e lateraliza para João Mário.)
72 mins: Má opção. (Capta junto à linha, conduz pela esquerda e, não respeitando a movimentação de Ronaldo, que lhe permitia solicitar Nani, que aproveitara o espaço deixado livre pelo arrastamento do central galês, opta por ir para o remate, que faz já em desequilíbrio.)
Fica o video com os apontamentos individuais do Renato (excluem-se os lances sem bola a que dei destaque), ao longo do jogo, com o agradecimento ao PicaretaLeonina, que o deixou na caixa de comentários do texto anterior:
Conclusões:
Fica o video com os apontamentos individuais do Renato (excluem-se os lances sem bola a que dei destaque), ao longo do jogo, com o agradecimento ao PicaretaLeonina, que o deixou na caixa de comentários do texto anterior:
Conclusões:
1) Das 41 acções contempladas, 4 são acções sem bola (as faltas feitas aos minutos 47 e 53, e as acções dos minutos 33 e 42), 2 são acções espontâneas (o cabeceamento aos 13 minutos e o esforço para evitar que a bola saísse aos 28) e 2 terminam com faltas sofridas (aos minutos 56 e 67). Renato participou, portanto, em 32 acções com bola, em condições suficientes para a tomada de decisão. Dessas 33 acções, 7 terminaram com maus passes; 21% de passes errados.
2) Das 26 acções que não terminaram com maus passes, Renato tomou ainda 7 más opções, das quais 4 resultaram em perdas de bola directas. Assim, teve 14 acções negativas (42% de acções negativas) e foi o responsável por 11 perdas de bola (33% dos lances em que participou acabaram nos pés do adversário).
3) Das 19 acções positivas que teve, 15 foram trocas de bola fora do bloco adversário (lateralizações ou trocas curtas com um grau de risco baixo e sem quaisquer consequências em termos de ganhos territoriais ou em termos de desequilíbrios do bloco adversário). Das restantes 4, 1 consistiu em entregar rápido, para aproveitar o desequilíbrio momentâneo do adversário e 1 consistiu em conduzir a bola, num momento de transição. Das 17 acções positivas em momentos de organização, 15 foram acções simples de circulação (88% de acções de risco mínimo), 1 foi um cruzamento rasteiro, que acabou por não ter sucesso, e apenas 1 foi um passe vertical para um colega dentro do bloco adversário. Em organização ofensiva, Renato Sanches não conduziu com sucesso uma única vez.
4) Na verdade, Renato conduziu 10 vezes. Ao minuto 1, conduziu e entregou mal. Ao minuto 12, conduziu para a linha e optou por cruzar contra o adversário, quando tinha um apoio recuado. Ao minuto 17, capta a bola junta à linha esquerda, conduz e solta demasiado cedo, e na direcção do adversário. Ao minuto 25, conduz pela linha, com vários adversários à ilharga, não espera pelo apoio e perde a bola. Ao minuto 40, conduz lentamente e, não esperando que o adversário avançasse em direcção a ele, tenta soltar para João Mário, com um mau passe. Ao minuto 47, tenta fintar um adversário e perde a bola. Ao minuto 56, finta um adversário e sofre falta. Ao minuto 59, tenta passar por Bale, é desarmado e perde a bola. Ao minuto 69, finalmente, consegue ter espaço para conduzir, em transição, tira um adversário do caminho e lateraliza para João Mário. Ao minuto 72, goza novamente de espaço, conduz pela esquerda e opta por ir para a finalização, não respeitando o bom trabalho sem bola de Ronaldo, que deixa espaço nas suas costas para Nani. E, ao minuto 64, não conduz quando tinha espaço para isso e quando se exigia que o fizesse, preferindo lateralizar para Nani. Das 10 vezes que conduziu, 6 acabaram com a perda da bola (60% de perdas de bola em acções de condução), 1 acabou com um cruzamento contra 1 adversário, 1 acabou com uma má decisão e um remate por cima (80% de acções de condução absolutamente inconsequentes), 1 acabou em falta e 1 acabou num passe lateralizado para um colega.
5) Renato recuperou 0 bolas e fez 0 cortes.
Comentários a cada uma das conclusões:
1) Já se sabia que falta maturidade a Renato Sanches, e que perde demasiadas bolas para a posição que ocupa. Para aqueles que, apesar de lhe reconhecerem talento, não ignoram os defeitos que tem, não é decerto surpreendente que falhe mais de 1 passe a cada 5 que efectua. Num jogo de exigência tão baixa, em que a maior parte das acções em que participou foram fora do bloco adversário, é muito. E é incompatível, a meu ver, com as obrigações de um médio moderno. As pessoas que gostam das renatices ou não prestam atenção a isto, ou desconsideram esta realidade por acharem que o Renato compensa com outras coisas. Como explicarei a seguir, não há nada no seu futebol que possa indicar tal compensação.
2) Se juntarmos as decisões erradas aos maus passes, a taxa de insucesso do seu futebol duplica: em cada 5 acções, 2 são erradas. E em cada 3 bolas que passam pelos seus pés, 1 acaba nos dos adversários. É muito. Nem sequer é preciso comparar estes números com os dos médios excepcionais: eles são incompatíveis com qualquer médio de qualquer equipa mediana. Aliás, sempre que o grau de dificuldade dos lances aumenta, as más decisões de Renato Sanches aumentam também. A falta de criatividade, a pouca qualidade de passe e o desconforto técnico em situações de decisão rápida não lhe permitem solucionar problemas muito complicados, e o seu futebol só não é prejudicial à equipa quando, jogando fora do bloco adversário, se dedica à simples gestão e circulação da bola. Sempre que se impõe uma acção de penetração, ou sempre que Renato decide que é tempo de procurar acções de penetração, a taxa de insucesso do seu futebol sobe desgovernadamente.
3) Se os números acima não são surpreendentes, pelo menos para aqueles que não acham que o Renato seja o Messi da Musgueira (o que é para aí um décimo da população portuguesa), as conclusões que se seguem talvez sejam. A maioria das coisas bem feitas são acções de risco reduzido, ao alcance de qualquer médio, em qualquer parte do mundo. Se contarmos apenas as situações de ataque organizado, 9 em cada 10 dessas acções positivas são passes para o lado, fora do bloco adversário, sem consequências práticas relevantes que não a mera circulação da bola. A verticalidade que, de acordo com a maioria das pessoas, supostamente oferece ao jogo não se verifica de todo: em 72 minutos, Renato Sanches fez apenas um passe vertical, a explorar o espaço interior, e não conduziu com sucesso uma única vez. Seja através do passe, seja através da condução, as acções com bola de Renato Sanches em nada contribuem para que a equipa consiga penetrar ou para criar desequilíbrios momentâneos na organização defensiva adversária.
4) A ideia, mais ou menos consensual, de que Renato Sanches agita naturalmente o jogo e tem a coragem de conduzir mesmo em situações de dificuldade elevada também não se confirma. Aos 64 minutos, num lance em que tem espaço para progredir em condução e em que se exigia que o fizesse, até para permitir aos colegas o tempo suficiente para efectuarem as suas desmarcações, Renato opta por entregar de imediato na direita, em Nani. O privilégio da condução, percebe-se assim, não advém da coragem ou da confiança que tem ao fazê-lo; advém da absoluta irracionalidade com que joga. Tanto conduz quando deve como quando não deve; tanto arrisca em condução quando se justifica que arrisque como quando não se justifica; e tanto decide não conduzir quando não há condições para o fazer como quando as há. Não são as circunstâncias que determinam as acções de condução de Renato Sanches; são os seus caprichos. E, como qualquer jogador que toma decisões em função de caprichos, é natural que o sucesso das suas acções seja limitado. Note-se, de resto, o pouco que a equipa ganhou (e o muito que perdeu) com as acções de condução em que se envolveu. Das 10 acções de condução, 6 produziram malefícios, 2 não produziram qualquer benefício e 2 produziram pequenos benefícios (a cobrança de um livre e a manutenção da posse de bola). Não, Renato Sanches não é extraordinário em acções de condução. É só alguém que o faz com frequência e à bruta. Como aquilo de que as pessoas que vêem futebol gostam mesmo é de touradas, gostam de ver o touro a investir contra os cavaleiros, de preferência muitas vezes e com toda a força. Enquanto não perceberem que o futebol não é tourada, não perceberão que aquilo que tanto admiram no futebol de Renato Sanches é tão entusiasmante quanto improdutivo. A exultação colectiva com a jogada de Renato Sanches aos 25 minutos representa fidedignamente a taurofilia dos adeptos portugueses: Renato leva para a linha, tenta passar por onde era praticamente impossível que o fizesse, perde a bola e, mesmo assim, as pessoas gritam de emoção e arrancam cabelos.
5) Não creio que precise de dizer grande coisa em relação à quinta conclusão. É verdade que, jogando numa ala e não no meio, a taxa de recuperação de bolas tende a diminuir, e é verdade que, por si só, este tipo de números não espelha o comportamento defensivo de um jogador. De qualquer forma, não ter recuperado qualquer bola nem ter feito qualquer corte, em 72 minutos, permite pelo menos mostrar que a agressividade e a intensidade com que Renato Sanches joga não se traduz, em termos defensivos, em nenhum daqueles factores em que as pessoas julgam que o médio português se destaca. Ao contrário do que se pensa, Renato Sanches não compensa os posicionamentos desastrosos, portanto, nem com recuperações de bola, nem com cortes, nem com desarmes.
Notas finais:
1) É aceitável argumentar, contra a pretensão deste texto, que este jogo não reproduz a real valia de Renato Sanches, e que um jogo mau não deve servir de balança da qualidade geral de um atleta. Aceito o argumento, e não tenho modo de refutá-lo que não através da convicção de que, pelo contrário, as incidências deste jogo retratam fielmente aquilo que Renato é, enquanto jogador de futebol. Estou absolutamente convencido, por exemplo, de que as percentagens de passes errados e de decisões erradas é mais ou menos idêntica a estas. Assim como estou absolutamente convencido de que a esmagadora maioria das coisas que faz bem feitas, como neste jogo, são coisas de baixo grau de dificuldade e, por conseguinte, coisas que qualquer jogador consegue fazer. Mais importante do que isso, estou ainda absolutamente convencido de que a taxa de sucesso em acções de condução (aquilo que tanto parece fascinar os portugueses) não é significativamente diferente daquela que se registou neste jogo, ou seja, praticamente nula. Na verdade, consigo perceber o fascínio Renato Sanches: é desinibido, respeita a exortação predilecta dos estultos, o famoso "Vamos para cima deles!" que amiúde se ouve nas bancadas, tem capacidades atléticas excepcionais e, além disso, é jovem, o que, para muita gente, significa que tem muita margem de progressão. O que não percebo, ou o que não aceito, é que esse fascínio impeça as pessoas de ver que aquilo que faz em campo não produz efeitos dignos de registo. Este não foi um mau jogo de Renato Sanches. Foi um jogo normal. Se tivesse marcado um golo, como contra a Polónia, provavelmente teria sido eleito o homem do jogo, e provavelmente haveria pouca gente a achar que tinha sido um jogo modesto. E esse é que é o problema. Se formos a olhar friamente para cada lance, e para os benefícios e os prejuízos que cada uma das suas acções acarreta, chegaríamos a conclusões como aquelas que este texto defende. Mas olhar friamente para alguma coisa é algo que um adepto de futebol não gosta de fazer. É precisamente por isso que o futebol de Renato Sanches é tão apreciado.
2) Além da jogada do minuto 25, que serve para demonstrar que aquilo que as pessoas mais admiram no futebol de Renato Sanches não acarreta benefícios colectivos, devo ainda destacar a primeira e a última jogada em que o médio português se viu envolvido. A primeira porque é perfeita para mostrar o quão inconsequente é a sua irreverência e a sua hiperactividade: ir buscar a bola aos pés de um central e conduzi-la a toda a velocidade apenas para a deixar nos pés do lateral adversário é a melhor ilustração daquilo que vale. A última porque é perfeita para mostrar o quão irracionais são as suas cavalgadas com bola e o quão mal define, ao contrário do que se julga, em lances de condução: se não consegue respeitar o trabalho sem bola dos colegas, de nada serve que consiga acelerar o jogo.
3) Desde que o europeu começou que me parece o mais fraco de que tenho memória. É pelo menos tão fraco quanto o de 2004. Salvava-se a Alemanha, que acabou por não ter sorte nas meias-finais, a Espanha, que insiste em vir para estas provas sem treinador, a Itália, à qual falta a qualidade individual de outros tempos, e em certa medida a criatividade isolada de certos grupos jogadores croatas (Modric e Rakitic) e galeses (Allen e Ramsey). Na final, estará a equipa anfitriã, que teve muitas dificuldades para superar as poderosíssimas selecções da Roménia e da Albânia, nos dois primeiros jogos (o que conseguiu apenas porque tem individualidades notáveis), e estará também uma equipa que passou o seu grupo em terceiro, com três empates contra equipas dificílimas como a Islândia, a Áustria e a Hungria, e que se foi apurando, eliminatória após eliminatória, quase que por milagre (ou porque teve uma sorte inacreditável no sorteio, ou porque tem o melhor cabeceador de todos os tempos, ou através das grandes penalidades, ou num lance de contra-ataque depois de levar uma bola no poste). Num europeu medíocre, cujo desenho favorece os medíocres, ganhará, portanto, uma equipa medíocre. Para bem do futebol, era bom, ainda assim, que ganhasse a menos medíocre das duas.
2) Além da jogada do minuto 25, que serve para demonstrar que aquilo que as pessoas mais admiram no futebol de Renato Sanches não acarreta benefícios colectivos, devo ainda destacar a primeira e a última jogada em que o médio português se viu envolvido. A primeira porque é perfeita para mostrar o quão inconsequente é a sua irreverência e a sua hiperactividade: ir buscar a bola aos pés de um central e conduzi-la a toda a velocidade apenas para a deixar nos pés do lateral adversário é a melhor ilustração daquilo que vale. A última porque é perfeita para mostrar o quão irracionais são as suas cavalgadas com bola e o quão mal define, ao contrário do que se julga, em lances de condução: se não consegue respeitar o trabalho sem bola dos colegas, de nada serve que consiga acelerar o jogo.
3) Desde que o europeu começou que me parece o mais fraco de que tenho memória. É pelo menos tão fraco quanto o de 2004. Salvava-se a Alemanha, que acabou por não ter sorte nas meias-finais, a Espanha, que insiste em vir para estas provas sem treinador, a Itália, à qual falta a qualidade individual de outros tempos, e em certa medida a criatividade isolada de certos grupos jogadores croatas (Modric e Rakitic) e galeses (Allen e Ramsey). Na final, estará a equipa anfitriã, que teve muitas dificuldades para superar as poderosíssimas selecções da Roménia e da Albânia, nos dois primeiros jogos (o que conseguiu apenas porque tem individualidades notáveis), e estará também uma equipa que passou o seu grupo em terceiro, com três empates contra equipas dificílimas como a Islândia, a Áustria e a Hungria, e que se foi apurando, eliminatória após eliminatória, quase que por milagre (ou porque teve uma sorte inacreditável no sorteio, ou porque tem o melhor cabeceador de todos os tempos, ou através das grandes penalidades, ou num lance de contra-ataque depois de levar uma bola no poste). Num europeu medíocre, cujo desenho favorece os medíocres, ganhará, portanto, uma equipa medíocre. Para bem do futebol, era bom, ainda assim, que ganhasse a menos medíocre das duas.