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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Um Panegírico da Argentina

"A afeição por um país não é determinada por certidões de nascimento nem por laços de sangue. Nunca estive na Argentina, sei pouco sobre a História e a cultura do país, mas, quando a bola começa a rolar, sou muito mais argentino do que português."


Eis um texto para todos aqueles - e sabe Deus os muitos que há! - que consideram incompreensível e ultrajante que um português possa gostar mais da selecção da Argentina do que da Selecção Nacional.


domingo, 8 de setembro de 2013

Fala quem sabe

Os verdadeiros craques, os que de facto vivem o jogo a sério, não podiam pensar de outra maneira. Aimar foi, na opinião do Entre Dez, o maior craque de sempre em Portugal. Não admira que, nesta entrevista, sustente boa parte daquilo que se sustenta aqui. Eis os destaques:

Qual foi a sua melhor temporada no Benfica?
«Sempre adorei jogar com o Saviola. Os meus melhores momentos foram todos os que partilhei com ele entre 2009 e 2012».

Tem saudades de jogar com o Saviola?
«Sempre nos demos muito bem. Seria fantástico voltar a jogar com ele e depois retirávamo-nos juntos.

Dos muitos argentinos que têm passado em Portugal, Lucho Gonzalez será porventura o mais parecido consigo. É um jogador que admira?
«Tenho um carinho enorme por ele. Uma grande admiração, mesmo. É das melhores pessoas que conheci no mundo do futebol. Agradeço tudo o que vivemos no futebol. Nunca o vi como um rival». 

Há espaço no futebol moderno para o número dez puro? Um dez como Aimar?
«Tem de haver. O Barcelona joga com três números dez, no mínimo. Iniesta, Xavi e Messi são verdadeiros números dez, adaptados a funções diferentes. São jogadores que em qualquer outra equipa do mundo seriam um puro dez. Sabem, muito claramente, o que têm de fazer com e sem a bola. Inteligentíssimos».

Nos últimos anos apaixonou-se pelo futebol de alguma equipa?
«Sim, pelo Barcelona de Pep Guardiola. Sobretudo por ter demonstrado ao mundo o prazer que é possível ter com uma bola nos pés. Se tivermos a bola, o adversário não a tem. E não só por isso. Se perdem a posse, recuperam na perfeição a posição defensiva e recuperam a bola com facilidade. Além do Barcelona, tenho de elogiar o Borussia Dortmund. Seja como for, nos últimos anos todas as equipas ficaram muito longe desse Barcelona».

Os adeptos puristas do futebol querem mais equipas como esse Barcelona? Ou, se preferir, quem gosta de futebol gosta desse Barça?
«Eu creio que sim, mas todas as opiniões são válidas. Por um simples motivo: o futebol não é uma ciência exata e está aberto às mais variadas influências. Tudo é aceitável. Do meu ponto de vista, não há dúvidas: o Barcelona é a melhor equipa da última década».

Qual foi o treinador que melhor entendeu o futebol de Pablo Aimar?
«O melhor treinador que tive foi Marcelo Bielsa. Ramón Diaz, no River, até Jorge Jesus, no Benfica, também me aproveitaram bem e entenderam o meu futebol.

E no futebol atual, qual é o treinador que mais admira?
«Vejo o Bayern Munique a jogar e percebo que o Guardiola conseguiu impor muito rapidamente o que pretende: ter bola, pressionar, reduzir o espaço do campo. E fazer isto numa cultura radicalmente distinta não é para qualquer um. Para mim, Guardiola é o melhor treinador do mundo».

sábado, 24 de março de 2012

A Expulsão de Aimar e a Falta de Bom Senso

Não está em questão a relação entre o lance e o resultado final, nem sequer me parece que isso possa servir de justificação, quando haviam sido criadas tão poucas oportunidades de golo até ao momento. O empate penaliza a pouca imaginação da equipa de Jorge Jesus, e não creio que mereça, como talvez tenha merecido noutras ocasiões, referências ao trabalho do árbitro. Se o Benfica deixou pontos em Olhão, foi principalmente porque não conseguiu contrariar o bloco baixo e a agressividade defensiva do adversário. Uma vez mais, a importância de ter alguém em campo que sabe movimentar-se entre linhas, arrastar marcações, jogar ao primeiro toque, tabelar, e encontrar espaços rapidamente em zonas muito densas foi amplamente negligenciada por Jorge Jesus. Quando se preferem atributos individuais a atributos colectivos, a equipa fica mais refém das individualidades, e com menos capacidade para ultrapassar estratégias deste tipo. Não é novo, e um lance de bola parada até podia ter resolvido a coisa, mas é uma tendência que se acentua de jogo para jogo, fruto daquilo em que a equipa se tem gradualmente vindo a transformar.

Interessa, apesar de tudo isto, analisar a expulsão de Aimar, principalmente pela estupidez das opiniões acerca do lance. A menos que Aimar tenha músculos que um ser humano normal não tem, não consigo perceber como é que se pode acreditar que tenha pontapeado propositadamente o seu adversário. Eu gosto de acreditar que as pessoas, antes de falar, antes de emitirem opiniões, usam a cabecinha. Se calhar é ingenuidade minha. A verdade é que, para a grande maioria, como o pé de Aimar foi embater na coxa de Rui Duarte, só pode ter sido intencional. Não sei se as pessoas estão cientes de que, muitas vezes, o que acontece não é planeado mentalmente. Se calhar não estão. O lance explica-se facilmente. Aimar e Rui Duarte disputam uma bola com força, acertando nela praticamente ao mesmo tempo. Com a força do impacto, as pernas de cada um deles sofrem movimentos inesperados, que nenhum deles controla. Por força do embate, Rui Duarte, por exemplo, perfez praticamente 180º em torno do seu pé de apoio. O mesmo aconteceu à perna de Aimar, que acabou por ir tocar em Rui Duarte, valendo-lhe a expulsão. Vendo o lance calmamente na repetição, é perfeitamente claro que Aimar não estica a perna para lhe acertar, que o seu pé bate na coxa de Rui Duarte unicamente por força do impacto anterior. Francamente, acho até fisicamente impossível alguém conseguir pontapear outro após um impacto daqueles. João Capela, porém, não teve dúvidas, e achou que Aimar tentou deliberadamente agredir o seu adversário.



As opiniões dos que viram as repetições são estúpidas o suficiente, mas não são de alguém com responsabilidades. O árbitro da partida, porém, é um agente responsável. E a sua responsabilidade não termina com a responsabilidade de ter os olhos bem abertos. Um árbitro não deve apenas assinalar o que vê com os olhos. Deve interpretar. Jorge Jesus tocou, a meu ver, num ponto relevante: Aimar não é o tipo de jogador que agrida outros. Podia acontecer, mas a pouca frequência devia pelo menos fazer pensar João Capela. Não fez. Viu um pé na coxa e achou que só podia ser agressão. Mais uma vez, falta à grande maioria dos árbitros aquilo que me parece mais importante não só num árbitro, mas num ser humano: bom senso. Com um pouco de bom senso, facilmente suspeitaria de que aquilo que os seus olhos tinham visto tinha de ter outra explicação. Como não tem bom senso, João Capela (e a grande maioria dos árbitros) agiu maquinalmente, analisando o lance como o analisaria qualquer instrumento mecânico que para o efeito de analisar lances destes se criasse. E Aimar, num lance incrivelmente fortuito, sem maldade alguma, foi expulso como se tivesse cometido uma atrocidade. A reacção que se seguiu é a normal em quem se sente injustiçado.

O que me impressiona é que, por exemplo, Javi Garcia repita entradas maldosas e francamente arrojadas jogo após jogo, sem que seja punido por isso, e Aimar, ao primeiro lance em que o seu pé toca num adversário não mereça sequer o benefício da dúvida. O futebol continua a ser extraordinário a esse respeito. Basta lembrar como Bruno Alves raramente era expulso, ou basta até lembrar a indignação dos jogadores e treinadores do Real Madrid pela expulsão de Sérgio Ramos no último encontro (e até pelo amarelo a Pepe), frente ao Villareal, depois de uma entrada absurda do mesmo. Para mim, o que é claro é que jogadores maldosos, que entram à bola para aleijar ou intimidar adversários, continuam a ser estupidamente protegidos, enquanto outros, fortuitamente, continuam a ser injustiçados. A protecção e a injustiça não são deliberadas, claro. Resultam da falta de bom senso da grande maioria dos árbitros. Se tivessem bom senso, interpretariam melhor cada lance, perceberiam melhor as intenções dos jogadores em cada lance, etc. Os árbitros estão demasiado atentos ao que vêem, ao resultado de um choque, ao que acontece, e negligenciam invariavelmente o que motiva o que acontece. Em lances como o de ontem, há que analisar a intenção do jogador e não a sua acção. Isto porque a acção pode não ser intencional. O mesmo acontece com quedas na área, que muitas vezes podem não ser motivadas pela intenção de enganar o árbitro. Com um pouco de bom senso, João Capela facilmente perceberia que o lance de ontem foi normalíssimo, que o pé de Aimar ter tocado em Rui Duarte foi obra do acaso. Mas, já se sabe, bom senso é coisa que falta a muita gente, não apenas a um árbitro. Basta ver como a sua decisão foi considerada acertada por quase toda a gente. Assim se mede a estupidez de uma espécie.

sábado, 3 de março de 2012

A Lotaria dos Detalhes e o Ostracismo de Saviola

Num jogo com duas equipas pouco interessadas em arriscar muito, pressionantes, subidas, mas raramente querendo fazer da bola aquilo que ela deve ser, num jogo em que as preocupações em não perder a bola em construção, e em que o medo dos desequilíbrios defensivos superou a necessidade de promover a imaginação e a criatividade ofensiva, num jogo em que houve um equilíbrio de forças muito constante, a vitória poderia pender para qualquer um dos lados. Neste tipo de jogo, os detalhes fazem a diferença, e - pode de facto dizer-se - foram os detalhes que definiram a vitória do Porto na Luz: os comportamentos defensivos inadequados de Emerson nos dois primeiros golos, o fora-de-jogo no terceiro, as lesões de Aimar e Garay, a expulsão de Emerson, o único lance em que o Benfica não conseguiu impedir a transição do Porto ter dado golo, etc..

Mas a derrota no jogo (e quem sabe no campeonato) tem de começar a explicar-se muito antes. É que não é por acaso que a equipa encarnada acabou à mercê dos detalhes. Tudo começou há muito tempo, e culmina agora. Jesus tem vários méritos, mas teve sempre o defeito de ter como principal paixão a vertigem e a intensidade. Esse era o defeito principal do seu Benfica no primeiro ano, defeito que, por não ter corrigido no segundo, lhe valeu o desastre que valeu. Este ano, tentou corrigi-lo, mas não soube nunca como o fazer. Passou a não correr tantos riscos em construção, numa primeira fase, com uma circulação mais à largura e mais paciente nessa primeira fase, e tentou trazer densidade e argumentos físicos ao meio-campo. O problema, no entanto, é que Jesus, como em muitos outros casos, pareceu identificar o problema certo nos sítios errados, ou de modo errado. O problema da intensidade e da vertigem não está só nos desequilíbrios defensivos que provoca, não está só no risco que promove; está também, e talvez acima de tudo, na incerteza ofensiva que gera. E a verdade é que, se numa primeira fase, o Benfica actual parece mais calmo e maduro do que antes, se parece mais capaz de controlar a forma como se desequilibra quando ataca, no último terço continua a equipa febril e viciada em intensidade que sempre foi na era de Jesus. As competências ofensivas da equipa encarnada continuam assim demasiado dependentes da intensidade que a equipa conseguir impor ao jogo (levando o jogo para velocidades de execução que acentuem a desigualdade individual), da inspiração individual, e dos atributos técnicos e físicos dos seus atacantes. Continua a ser dada pouca importância à imaginação, à criatividade, à inteligência, e às combinações colectivas.

O problema mais curioso de Jesus, como disse, parece ser a incapacidade para perceber mais concretamente aquilo que até consegue intuir. Isso é extraordinariamente fácil de compreender no que diz respeito aos jogadores que aprecia. É que Jesus parece muitas vezes gostar dos jogadores certos, mas pelas razões erradas. E isso é determinante. Durante muito tempo, acreditei que Aimar só continuava a ser aclamado entre os adeptos porque Jesus o percebia como poucos treinadores em Portugal o perceberiam, e lhe dava bastante protagonismo no seu modelo por essas razões. Achava que um jogador com as suas debilidades físicas depressa seria ostracizado por qualquer outro treinador. Por aqui, o Gonçalo sempre discordou de mim, e sempre achou que a reputação de Aimar era a principal razão para Jesus lhe dar a atenção e o crédito que lhe dava. Sensivelmente a meio da época passada, comecei a torcer o nariz à minha crença, e hoje estou certo de que o Gonçalo tem razão. Jesus não gosta de Aimar pelo melhor que ele tem, por aquilo que de melhor pode oferecer à equipa; gosta dele porque tem qualidade e a qualquer altura pode inventar uma jogada soberba. Ou seja, o que Jesus espera que Aimar dê à equipa é um momento ou outro de génio, que é mais ou menos o que toda a gente acha que Aimar pode dar. A colocação do argentino preferencialmente mais perto das zonas de decisão assim o comprova. Eu, por outro lado, acredito que Aimar podia dar muitas outras coisas, nomeadamente a capacidade de circulação e progressão em zonas mais baixas, melhor capacidade para sair de zonas de pressão, competência em espaços curtos e entre linhas adversárias, etc.. Aimar é muito mais do que o último passe ou dois ou três apontamentos por jogo. E não perceber isso é determinante. É determinante porque implica não perceber o que falta verdadeiramente à equipa. Aliás, este problema de Jesus estende-se a muitos outros jogadores. Gosta de Nolito pela agressividade e pelo repentismo do espanhol, e não pela forma como antecipa os comportamentos dos colegas e como lê linhas de passe; gosta de Cardozo pelos golos que marca e pela estampa física do paraguaio, e não pela forma como se relaciona com os colegas, sobretudo quando serve de apoio vertical e referência para tabelas; gosta de Saviola pelo oportunismo do argentino e não pela inteligência na movimentação e na decisão. É também por isso que valoriza tanto jogadores que deixam muito a desejar, em alguns aspectos relevantes do jogo. O caso evidente é o de Emerson, mas poderia estender o argumento a Rodrigo, por exemplo, que anda por estes dias quase que criminosamente sobrevalorizado.

De resto, a melhor explicação possível para mais uma época falhada - a confirmar-se o falhanço - é a mesma que tenho dado há já muito tempo. Desde o primeiro ano de Jesus que defendia que os principais argumentos ofensivos do Benfica consistiam nas combinações curtas, que na altura ocorriam quase que exclusivamente quando Aimar e Saviola coabitavam. Aos poucos, Jesus foi abdicando disso. Também aqui não percebeu a importância vital de um argentino para a produção do outro. Aimar e Saviola passaram a estar em campo à vez, até que, finalmente, o segundo deixou de ser opção. O ostracismo de Saviola, tão simplesmente isto, é a principal causa da derrota de ontem. Evidentemente, nada mudaria se Saviola estivesse dentro de campo ontem. O que quero dizer é que há uma relação causal entre uma equipa ser incapaz de não ficar à mercê da lotaria dos detalhes e o processo de ostracismo a que o argentino foi votado. Ao conceder a Saviola o papel de quinta opção, quando necessariamente teria de ver nele a primeira solução para o seu ataque, Jesus pôs um ponto final na dúvida acerca da sua capacidade para perceber de que maneira a sua equipa poderia ser mais competente em termos ofensivos. Ao prescindir de vez de Saviola, mostrou que não é excepcionalmente diferente de vários outros treinadores de competências razoáveis. O seu Benfica é competente em muitas coisas em que outras equipas são competentes; o que não tem é aquela genialidade que só poderia ter (e que teve, ainda que acidentalmente, na primeira época) se tivesse em campo, em simultâneo, pelo menos dois ou três jogadores capazes de se entender entre si na perfeição. Ao contrário de outras competências colectivas, a criatividade do colectivo não resulta da soma da criatividade de que é capaz cada um dos seus elementos, mas da forma como eles se relacionam criativamente entre si. Ao ostracizar Saviola, Jesus ostracizou também a criatividade do seu Benfica. E ficou, por isso, à mercê daquilo de que todos os outros treinadores medianos ficam à mercê.

P.S. Não se fique com a impressão de que, por ter sido omitida, a opinião sobre Vítor Pereira e o futebol praticado pelo seu Porto foge ao crivo crítico desta análise. Nem se pense que essa opinião é especialmente mais moderada do que esta que fica. Haverá oportunidade para falar disso noutra altura, mas não é por ter ganho ontem, nem por se preparar para ser campeão, que Vítor Pereira passa a merecer mais que a mediania em que tento inserir Jorge Jesus. Aliás, talvez fosse até excessivamente prestigiante, se aí o inserisse. Aquele futebol chocho e fraco de ideias não merece, pelo menos da minha parte, especial homenagem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Clássico e os Detalhes

Não tenho muito a dizer do clássico do passado fim-de-semana, a não ser que, embora emotivo, embora bem disputado, não foi propriamente bem jogado. Ambas as equipas arriscaram o menos possível, e o que acabámos por ter foi um jogo dividido, com muitas disputas de bola, muita luta, muito choque, e pouco futebol. O número de passes acertados foi certamente baixo, e as duas equipas preferiram sempre jogar no erro adversário. Ainda assim, nenhuma delas se entregou às evidências, procurando condicionar a posse adversária o melhor possível. Num jogo com estas características, diria eu, os detalhes são importantes, claro. E foi num detalhe, num lance de bola parada, que tudo se decidiu. Mas os detalhes não ocorrem apenas porque sim. O Benfica venceu num detalhe, mas foi também a equipa que mais fez para contar com a benesse dos "detalhes".

É evidente que a vitória podia ter sorrido a qualquer uma das equipas, e que, mesmo estando onze para onze, não houve uma superioridade significativa, em termos da quantidade de oportunidades de golo, dos encarnados. O resultado mais justo, mesmo sem contar com o que o Sporting fez após a expulsão de Cardozo, talvez até fosse o empate. Mas o jogo do Benfica, ainda que sem a qualidade desejável, procurou o mínimo de racionalidade. Fosse por a bola ter chegado mais vezes a Aimar do que a Matías Fernandez, fosse porque Witsel, Aimar e Gaitan se entenderam melhor entre eles, fosse porque os hábitos encarnados são diferentes, a verdade é que o futebol do Benfica foi menos precipitado. O Sporting nunca se interessou por construir fosse o que fosse. Apostou numa pressão alta, excessivamente condicionada pelas referências ao homem, a meu ver, e por conduzir os seus ataques após recuperações de bola, o mais rapidamente possível. Tudo o que vimos, do lado dos leões, foram solicitações dos homens mais adiantados, cruzamentos largos para a área, correrias de Capel, movimentos verticais de Elias e Schaars, e pouquíssima imaginação. É verdade que conseguiu criar algumas oportunidades nestas condições, mas também é verdade que não foi capaz, precisamente por causa deste tipo de decisões, de criá-las em condições minimamente favoráveis.

Como disse anteriormente, a diferença entre as equipas não se traduziu em número de oportunidades de golo. As melhores oportunidades que o Benfica criou foram ou de bola parada, ou após recuperações ou perdas do adversário (lances de Cardozo e de Rodrigo, por exemplo). Mas sentiu-se sempre que o Benfica chegava às imediações da área leonina em melhores condições, que trabalhava melhor os lances, que era mais criterioso, que se preocupava mais em fazer as coisas de modo racional. A sofreguidão leonina podia ter conduzido a outro resultado, até porque a racionalidade dos encarnados não foi assim tão concludente, mas a verdade é que essa mesma sofreguidão condicionou a equipa, e tem de ser introduzida na conversa sobre detalhes. O jogo decidiu-se num detalhe, sim, mas a própria estratégia de Domingos implicava a aceitação de um jogo decidido pela "lotaria" dos detalhes e deixava a equipa menos preparada para os mesmos.

Fala-se demasiado em detalhes, como se os detalhes merecessem uma análise à parte do resto do jogo. Mas a verdade é que, para que uma partida se decida num detalhe, algo tem de acontecer para que esses detalhes se possam verificar. A meu ver, o principal mérito do Benfica na partida foi precisamente o modo racional como tirou partido da sofreguidão do Sporting. Nem sempre o fez bem, obviamente, e tenho até dúvidas de que o tenha feito conscientemente. Mas fê-lo, nem que tenha sido apenas pelas características dos seus jogadores. Jogando com isso, puxou convenientemente o jogo para o tipo de decisões que mais lhe eram favoráveis, e fez pender os pratos da balança para o seu lado. O jogo foi, de facto, repartido em termos de oportunidades de golos, em termos de emoção junto às balizas, mas foi melhor controlado pelo Benfica. A decisão do mesmo através de um detalhe não pode por isso ser demasiado restrita. Decidiu-se num detalhe, sim. Mas um detalhe que o resto do jogo e o comportamento das duas equipas em campo potenciou.

P.S. Não se tem falado muito da ausência de Saviola do onze encarnado, e tem-se gabado o Benfica desta temporada mais do que me parece razoável. De facto, o melhor Benfica da época foi o dos primeiros jogos, altura em que o argentino ainda fazia parte das primeiras opções de Jorge Jesus. Como sempre disse aqui, a principal arma encarnada no primeiro ano de Jesus, aquilo que introduzia diversidade na equipa, eram as combinações curtas entre Aimar e Saviola, assim como a liberdade de que os dois gozavam no modelo de jogo. No segundo ano, Jesus procurou potenciar em excesso aquilo que a equipa já fazia bem, e deu menos liberdade à criatividade dos dois argentinos, evitando até, o mais possível, que os dois jogassem em simultâneo. Esta época acentuou apenas essa tendência. O Benfica deste ano ganhou alguma inteligência e capacidade de gestão de ritmos com os reforços (sobretudo Witsel, Bruno César e Nolito), mas perdeu ainda mais criatividade no último terço do terreno. Parece uma equipa menos dependente das correrias de outrora, menos interessada em jogar a uma velocidade altíssima, mais competente a gerir a bola em zonas baixas do terreno, mas é uma equipa menos forte a penetrar em blocos mais densos, menos imaginativa. Privar as pessoas daquilo de que Aimar e Saviola, juntos, são capazes, é hoje o maior crime de Jorge Jesus.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lições de Mestre (7)

Para muita gente, o lance capital do jogo de ontem da Luz foi o segundo golo do Benfica, da autoria de Gaitán. Com efeito, o remate é extraordinário, a bola entra na gaveta, e parece ter propiciado maior espectacularidade do que qualquer outro lance do jogo. Não estou de acordo, porém, que esse tenha sido o lance mais interessante da partida. A meu ver, há no primeiro golo um momento francamente superior a esse, um momento que passou praticamente despercebido, o que muito me espanta. O remate de Nolito, de facto, não é tão vistoso como o de Gaitán, mas não é pela finalização do lance que creio que ele mereça verdadeiro destaque. Já o passe de Aimar é das coisas mais sublimes que já se fizeram nos relvados portugueses. Numa altura em que parece que cada vez mais se gosta de arrancadas de pessoas incríveis, de lances individuais extraordinários, de grandes aberturas, de gente que corre feita doida, de malabarismos e excentricidades de putos de rua, as pessoas deviam pôr os olhos neste lance aparentemente trivial. Quando se diz que há poucos que conseguem resolver os jogos sozinhos, esquecem-se de quem consegue fazer coisas destas. Sem exagero algum, aquele passe equivale a uma arrancada em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente e se deixa um colega isolado frente ao guarda-redes. Aquele passe é puro génio. Em tudo, na execução, que é dificílima, mas sobretudo na concepção, transformando um lance totalmente inócuo numa ocasião clara de golo. Não é para todos.



O Benfica não jogou bem e só justificou a vitória após o primeiro golo. Até aí, além de dar muitíssimo espaço e de ter os sectores excessivamente separados, em momento ofensivo, e em momento defensivo, mostrou poucas ideias colectivas. Talvez isso se deva à fase da época em que se encontra, e que por isso seja injusta a acusação. Talvez. Mas pouco importa. O Benfica não fez um bom jogo, mas Aimar apareceu no momento certo. Não é também exagero dizer que resolveu o desafio, e provavelmente a eliminatória. E ninguém parece ter dado por isso. Tal como ninguém parece ter dado por ele na primeira parte, repetindo as alarvidades que António Tadeia ia proferindo no comentário ao jogo, dizendo que estava desinspirado e desaparecido da partida, só porque não o via fazer coisas perto da área adversária. Aimar fez uma boa primeira parte, ao contrário do que essas parvoíces todas fizeram crer, e fez também o que mais ninguém em Portugal tem competência para fazer: resolveu um jogo sem que percebessem que o fez. Sem que nada o fizesse prever, sobretudo porque Nolito fora desarmado e a jogada parecia condenada a voltar ao início, Aimar sacou um coelho da cartola e isolou o espanhol. Com um passe inesperado, com a parte de fora do pé e sem o equilíbrio mais adequado para o fazer, num gesto técnico ao alcance apenas dos predestinados, concebeu a melhor ocasião de golo dos encarnados até à altura. Mas, mais do que essa execução soberba, fenomenal foi a percepção que teve do lance. Nolito iniciou a desmarcação, sim, mas era de todo improvável que se criasse um espaço tão favorável no seio da defesa turca. O problema é que os turcos não esperavam que alguém, na posição em que Aimar estava e virado como estava para a linha lateral, fosse capaz de colocar a bola com tanta facilidade, e de primeira, no coração da área. Relaxaram, imaginando o cenário mais provável de Aimar rodar para trás, reiniciando a construção ofensiva, e não previram a possibilidade oposta, a de que, com um só passe, um jogador transformasse um lance perdido numa ocasião soberana.

Repito, este lance devia ser colocado na mesma prateleira de jogadas individuais em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente. Isto porque, na verdade, Aimar ultrapassou sozinho quatro jogadores, aqueles que ficaram batidos pelo passe maravilhoso do argentino. Para muitos, ser criativo é ter um leque de fintas vasto, ser capaz de se desembaraçar individualmente de vários adversários, fazer macacadas com os pés, etc.. Agora pergunto: há alguma coisa que demonstre melhor o que é verdadeiramente a criatividade do que inventar uma jogada com um só gesto técnico, como foi o caso? Criatividade é isto, é ser capaz de imaginar uma coisa que mais ninguém imaginou. Termino com uma afirmação controversa, sobretudo para os que gostam de músculos e remates de meio-campo: Aimar é o melhor jogador a jogar em Portugal. E não estou certo de me lembrar de outro que, no passado, tenha sido tão bom quanto ele.

P.S.: No final da partida, Jorge Jesus justificou a timidez em apostar em Nolito, neste início de temporada, dizendo que o espanhol opta excessivamente pelos lances individuais, e que precisa de perceber melhor o jogar da equipa. Francamente, não me parece que Jesus esteja a avaliar bem as competências de Nolito. Sim, tem facilidade de drible e até procura bastante o um para um. Mas não o faz mais do que Gaitán, por exemplo, e sobretudo não o faz em ocasiões em que não deve necessariamente fazê-lo, como o argentino. Mas nem é por aí. Ninguém, à excepção de Aimar e Saviola, que são de outra galáxia, a esse respeito, é tão forte sem bola, em momento ofensivo, como Nolito. A forma como percebe o momento certo em que deve procurar a desmarcação e a forma como tem a preocupação constante de fornecer uma linha de passe ao portador da bola, coisas que certamente o modelo catalão em que jogava potenciou, dão-lhe competências colectivas que poucos jogadores no plantel possuem. Ao dizer o que disse, Jesus parece estar unicamente preocupado com acções com bola. Se é verdade que, nas suas acções com bola, Nolito pode ainda melhorar as suas competências colectivas, embora não me pareça que, para já, elas sejam excessivamente erráticas, aquilo que faz sem bola justifica amplamente a sua titularidade. O que me leva para outra questão, com que termino: por que ordem de ideias é que se começa a gerar o consenso de que Alex Witsel será titular desta equipa? Acredito que venha a ser muito útil, sim, mas titular? No lugar de quem? Aimar? Gaitán? Nolito? Isto sem contar com Carlos Martins, Bruno César e Enzo Pérez. A época é longa e o belga terá certamente muitos minutos de utilização, mas não me parece, pelo menos para já, apesar de lhe reconhecer qualidades, que seja imprescindível no Benfica mais forte.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Três notas sobre Hipocrisia

Não é importante, mas gosto especialmente de pessoas que tentam passar uma imagem de seriedade e idoneidade que, na verdade, não possuem. É sobre essas pessoas, e sobre a mesquinhez dos seus comportamentos, que este texto essencialmente versa, pessoas que, em vez de sustentarem as suas teorias com argumentos, procuram imbecilizar ideias bem argumentadas, pessoas que terminam conversas quando lhes dá jeito, pessoas que lembram apenas a metade das razões que lhes interessa, pessoas que vêem coisas que não existem, construindo-lhes a existência, pessoas que denunciam comportamentos moralmente condenáveis quando, moralmente também, a sua conduta é francamente duvidosa.

1. Veja-se o que diz Miguel Lourenço Pereira, xenófobo radical, acerca das acusações de racismo que chocaram o futebol francês. Em larga medida, Miguel Lourenço Pereira representa a grande maioria dos tipos de pessoas que referi acima, e tudo à volta de um só umbigo, o que é extraordinário. Não só é hipócrita por atacar um tipo de comportamento que em tantas outras ocasiões o fascina, como constrói um texto em que omite informações (omite, por exemplo, as explicações de Laurent Blanc, o que tornaria muito mais compreensível a posição do técnico francês) para favorecer a sua intenção denunciadora. Por outras palavras, inventa a notícia. E depois disto ainda passa o texto todo a falar de moralidade. Haja lata! Bom, em primeiro lugar, como este espaço gosta de ensinar as pessoas, se Miguel Lourenço Pereira queria denunciar a falta de moral dos franceses, deveria ter usado o substantivo "imoralidade" e não "amoralidade", que significa outra coisa. Um bom dicionário talvez seja a prenda de Natal indicada a oferecer a esta pessoa. Embora o português não seja o forte deste sujeito, não é o pior dos seus males. Muito sucintamente, condena Miguel Lourenço Pereira aquilo que acha ser uma medida racista, que visa quantificar o acesso de miúdos não-nativos a escolas de formação em França, ignorando a explicação alternativa; condena, por definição, o modelo teórico do sistema de quotas, ignorando talvez o quão intimamente democrático esse tipo de sistema pode ser; e condena, por fim, uma sociedade francesa que, embora não me pareça que conheça, apelida de racista. Tenho a vantagem, em relação a Miguel Lourenço Pereira, de não ser hipócrita. Isso faz com que seja capaz de perceber melhor a lógica do assunto. O problema não era de natureza rácica, como podia parecer, mas futebolística. O que estava em jogo não era a diversidade étnica nos escalões de formação, mas a ausência específica de jogadores que se possam distinguir pela técnica e pela capacidade de drible. O problema, nomeadamente em relação aos miúdos de ascendência africana, é que atingem uma maturação física precoce, quando comparados com outros miúdos, o que os deixa em vantagem num processo de selecção não regularizado. A introdução de quotas visaria assim suportar essa "injustiça" e assegurar que o potencial é o principal critério a privilegiar. Pode-se discutir, evidentemente, a aplicação prática de um sistema deste género, pelo tipo de injustiças e discriminação que pode possibilitar, mas a ideia, em termos teóricos, além de profundamente democrática, é futebolísticamente sensata. A formação, em futebol, deve ter em conta uma única coisa: o talento. E a selecção do talento, por não ser um atributo tão visível quanto isso, deve ser impermeável às restantes características dos atletas, características que muitas vezes, em determinadas idades, os favorecem "injustamente". Não conhecendo a fundo a realidade francesa, arriscaria ainda assim a dizer que, num país com tanta diversidade social e cultural, a não-introdução de um sistema de quotas é que é uma injustiça. Havendo tanta diversidade, são os pequenos, os menos dotados atleticamente, mas talvez os que escondem melhores talentos, quem certamente saem mais prejudicados. E isso é, diria eu, bem mais discriminatório do que o contrário.

2. Aimar desmentiu as alegadas agressões de que teria sido vítima, por parte de um adepto encarnado, e explicou que a desavença teve origem na acusação de que ele só passaria a bola a Saviola. Mais do que insólito, o caso demonstra a inequívoca estupidez do adepto comum, que é hipócrita por definição. É que este adepto, caso os resultados tivessem sido diferentes, estaria agora a beijar os pés de Aimar, mesmo que tivesse passado o campeonato inteiro a passar a bola a Saviola. Mais do que a hipocrisia, porém, interessa-me falar daquilo que há de estúpido na situação. Aimar afirmou que disse a tal adepto que não percebia nada de futebol. E disse bem. Aliás, devo confessar, é a melhor resposta possível que um jogador pode dar a uma crítica deste género. Os adeptos são, na sua essência, gente estúpida e alertá-los para isso parece-me mais honesto do que tentar explicar-lhes o que evidentemente não podem perceber. Ao contrário , no entanto, do que seria talvez de esperar, o argumento com que quero sustentar esta posição não é o mais consensual. Esta pessoa não percebe nada de futebol, mas não por as bases da acusação serem falsas, não por se ter equivocado quanto à questão de Aimar passar muitas vezes a bola a Saviola, mas por achar que isso é censurável. Aliás, a verdadeira crítica a fazer seria acusá-lo de não passar a bola vezes suficientes ao colega argentino. É que, se ao longo destas duas épocas, o futebol do Benfica conseguiu alguma vez ser imprevisível e diversificado, isso deveu-se ao entendimento entre Aimar e Saviola. O futebol do Benfica peca é por não promover mais situações em que possam jogar entre os dois, é por não promover a tabela curta a que os dois dão expressão, é por não promover o entendimento e o pensamento gémeo que os dois tão bem revelam. Aimar e Saviola foram os únicos que contrariaram a febre da velocidade a que o modelo de Jesus prestou vassalagem, foram os únicos a oferecer alternativas a uma ideia de jogo geral, perante a qual o comum atleta não é capaz de adicionar nada de original. Aimar e Saviola não se limitaram à ideia geral: procuraram sempre, entre os dois, fazer algo de diferente, modificar as coordenadas do jogo. Nestes dois anos, nenhuma sociedade entre jogadores foi tão determinante dentro do plantel benfiquista como esta. Acusá-los do que quer que seja é não entender nada do que se passou dentro de campo.

3. Por fim, a questão mais badalada. No final dos quatro desafios que puseram frente a frente Barcelona e Real Madrid, Guardiola levou evidente vantagem. Noutras alturas, só num manicómio é que o mérito dos catalães poderia ser discutível. Como se trata de uma questão cara aos portugueses, como interessa aos pobres de espírito derrubar o monstro que é o Barcelona, como Mourinho montou o circo que montou, parece aceitável que se discuta o que quer que seja em relação ao conjunto dos quatro jogos. Todas as acusações de roubo, todas as denúncias de anti-jogo, todas as desculpas de mau perdedor são, como disse Xavi, patéticas. Sou talvez capaz de entender as acusações que foram feitas há dois anos, em relação ao jogo de Stamford Bridge, porque houve de facto três lances mal assinalados, um dos quais a prejudicar o Barcelona (embora se esqueçam convenientemente da primeira mão, em que o escândalo foi tão ou mais grave que o desse jogo), mas não entendo o que se passou agora. Alertei, após os primeiros dois jogos, para a insustentabilidade do modelo apresentado por Mourinho. Dependia de muita coisa, nomeadamente da desinspiração catalã e da leviandade dos árbitros. Assim que um árbitro teve coragem de proteger quem se preocupa apenas em jogar futebol, o Real ficou reduzido a dez. Mourinho queixou-se da arbitragem, mas a responsabilidade do sucedido foi sua. Pepe é bem expulso, ainda que, não sei bem com que audácia, se diga que não tocou no adversário, mas só o risco em que o Real estava a jogar há quase trezentos minutos anunciava a probabilidade de tal desfecho. Pepe foi expulso nessa altura, sim, mas Xabi Alonso, Khedira, Arbeloa, Marcelo, e o próprio Pepe mereciam ter sido expulsos bem antes, noutros jogos, até. Queixar-se o Real do que quer que seja, quando em quatro jogos conseguiu apenas uma boa primeira parte, no jogo da Taça, ficando sucessivamente à mercê do futebol do Barcelona no tempo restante, é má-fé. O Real perdeu bem, mereceu perder e a única injustiça foi não ter sofrido perdas mais categóricas. Aliás, após os quatro jogos, Mourinho deveria dar graças pela conquista de um troféu, pois só com muito boa vontade alguém com juízo pode aceitar que tenha feito o suficiente sequer para merecê-lo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um Argumento Político Contra a Arbitragem Portuguesa

É costume a contestação a uma qualquer arbitragem sustentar os seus argumentos nos lances capitais do jogo, em lances de golos anulados, de penálties mal marcados, de ordens de expulsão mal dadas, etc.. Já aqui foi defendido que a avaliação de uma arbitragem não pode, nem deve, conceder maior importância aos lances capitais. A razão é simples: são lances como outros quaisquer e os árbitros estão sujeitos a errá-los como erram outros quaisquer. Nenhum árbitro, por o lance se estar a disputar junto a uma das balizas ou por ter maior importância para o desfecho do jogo, adquire uma competência ou certa capacidade de concentração que não tem ao analisar outros lances. Os árbitros erram, e erram tanto no meio-campo quanto nas áreas. Nenhum árbitro abre mais os olhos ou activa a sua capacidade de concentração só por sentir que o lance merece maior atenção. Por isso, não faz sentido exigir que os erros mais decisivos sejam mais penalizadores que os restantes. Um árbitro que cometa um único erro durante os 90 minutos, e esse erro seja assinalar uma grande penalidade em que, descaradamente, o avançado tenha simulado a falta, faz uma exibição óptima. Em sentido contrário, um árbitro que não comprometa em lances capitais, mas que erre sistematicamente em lances de meio-campo, faz uma exibição miserável. E isto apenas no capítulo técnico.

Serviu este preâmbulo para introduzir uma conversa sobre árbitros que me interessa hoje ter. Sobre, por exemplo, o Benfica-Porto da semana passada, falou-se demasiado na arbitragem de Duarte Gomes. Sim, o penalty contra o Porto é mal marcado. A expulsão de Otamendi resulta de um erro no primeiro cartão amarelo, sim. Também há um lance em que Falcao se isola após cortar com a mão um alívio de Sidnei. Também haverá outros lances relevantes em que Duarte Gomes tenha errado. Nada disso pode servir de argumento para justificar uma arbitragem tendenciosa. Pessoalmente, acho Duarte Gomes um dos melhores árbitros portugueses. Infelizmente, não me pareceu nada tranquilo e acho que fez uma má arbitragem no passado fim-de-semana, mas não por esses lances que tanto têm discutido. Na minha opinião, o lance em que Duarte Gomes mostrou mais essa intranquilidade e que melhor espelha a falta de qualidade da sua arbitragem aconteceu logo nos minutos iniciais. Após uma tentativa de desarme perfeitamente normal de Otamendi, em que apesar do derrube involuntário do jogador do Benfica, não houve intenção nenhuma além de tentar acertar no esférico, a bola seguiu para Aimar e o Benfica poderia desenvolver um contra-ataque perigoso. Duarte Gomes decidiu parar o lance para chamar à atenção o defesa do Porto, o que deixou enervado Aimar, muito compreensivelmente. Ora, se nem quando é para mostrar amarelo se deve parar um lance em benefício do infractor, mais ridículo é pará-lo apenas para apelar à calma, ainda por cima num lance em que Otamendi não tem outra intenção além de jogar a bola. Aimar contestou a decisão e viu ele o amarelo. E aqui se espalhou ao comprido Duarte Gomes. É sobre isto, e sobre as consequências disto, que quero falar.

É quase unânime dizer-se que os jogadores estão lá para jogar e não para protestar, que todo aquele que protesta merece o amarelo, que os árbitros são soberanos e as suas decisões não devem ser contestadas. Sinceramente, acho que esta unanimidade é das coisas que, em futebol, melhor reflecte o que sociologicamente o povo português é. Não sou admirador das arbitragens inglesas, porque são demasiado permissivas e não protegem o talento. Mas admiro uma coisa nos árbitros ingleses: a facilidade do diálogo. Não é raro assistirmos a discussões acesas entre um jogador e um árbitro, o que, a meu ver, é extraordinariamente saudável. Isto pode ser muito chocante para alguns, sobretudo para portugueses, mas tem a ver com democracia. Em Portugal, tal é impossível de suceder não porque os árbitros tenham directrizes diferentes, mas porque a mentalidade das massas é outra. Somos um povo mais conservador, damos demasiada importância ao "respeitinho" e temos ainda o vício salazarento de achar que há agentes soberanos, nas mais diversas áreas, que estão acima do diálogo e não precisam de justificar as suas decisões de modo racional. Obedecer caladinho e servilmente a um árbitro só porque é árbitro não faz sentido nenhum. O diálogo, a argumentação, a contestação, o protesto, fazem parte da vida pública e deveriam, a bem daquilo que é o jogo que melhor representa, nos dias que correm, a nossa sociedade, fazer parte desse jogo. Não é isso que se vê. Mais depressa um árbitro penaliza um jogador por discordar dele do que por ter uma entrada em que põe em risco a integridade física de um adversário. Isto não faz sentido nenhum. Esse árbitro parece preferir ser juiz de carácter do que juiz do jogo, ou seja, parece ter mais facilidade em exercer o poder que o estatuto de árbitro lhe concede quando esse exercício não depende de uma decisão técnica, o que é - convenhamos - absurdo. Isto é autoritário e politicamente primitivo. Faz parte de uma mentalidade ancestral que deveria estar arrumada nos livros de História, mas que sobrevive pela transmissão, de geração para geração, dos mais enraízados valores patriarcais.

O futebol português, como aliás o rochedo à beira-mar plantado que é o país, continua a resistir à invasão da modernidade como pode, com um instinto de auto-preservação cuja natureza consiste em manter uma distinção hierárquica bem definida, dentro da qual aquele que tem o poder deve exercê-lo sem prestar contas do seu exercício. As nossas principais características, enquanto povo, continuam a ser o "bairrismo", a defesa da paróquia de cada um, a família enquanto pilar social. Não somos uma nação moderna, nem existe em Portugal um sentido democrático assaz relevante. Aliás, somos uma democracia apenas institucionalmente, apenas porque temos a liberdade de eleger, por sufrágio universal, aqueles que queremos que nos representem. No que diz respeito a valores morais e a competências políticas, continuamos uma nação feudal; cada um tem por interesse único o modo como os interesses alheios beneficiam ou prejudicam os seus interesses privados. A população sente-se insatisfeita com o estado de coisas a que o país chegou e vai a correr às urnas votar em massa na conservação e na austeridade, de modo a poder preservar o feudo de cada um. Não está em causa, obviamente, a opção de voto de cada pessoa, mas a tendência das massas e a incompreensão colectiva do que é exigido, na verdade, pela responsabilidade democrática. As pessoas revoltam-se hoje contra a classe política como se revoltariam contra o monárquico que nos regesse, caso isto fosse uma monarquia; revoltam-se contra os soberanos quando se deveriam revoltar contra a ideia de soberania. O que está mal não é a classe política, nem os políticos; o que está mal e deveria ser combatido é a relação de soberania, subordinativa e hierárquica, entre quem representa e quem é representado. No actual sistema político, exercemos praticamente um único direito democrático, o de ir, de quatro em quatro anos, conceder poderes de decisão sobre tudo o que nos diz respeito a meia-dúzia de pessoas cujas ideias mal conhecemos. O nosso único sentido democrático, no intervalo que é cada legislatura, é insurgirmo-nos contra aqueles que elegemos anteriormente, é manifestarmo-nos contra a classe que nos governa, é fazer greves, é falar mal por falar mal. Tudo isso são idiotices sindicais e disparates das barata-tontas que somos. No fundo, somos como jogadores de futebol que não aceitam uma decisão do árbitro, mas com a agravante de que, ao contrário do jogador de futebol, que joga um jogo que não tem regulação democrática, estando por isso sujeito à arbitrariedade das regras que elementos exteriores ao jogo estipulam, nós estamos a jogar um jogo em cuja regulação podemos exercer um determinado papel.

O argumento deste texto é ostensivamente político. Consiste em afirmar que a relação de subordinação entre jogador e árbitro ilustra a relação de subordinação a que o povo português está habituado e preza, ainda que pareça não prezar, como aliás ninguém preza nenhum árbitro, nenhum dos indíviduos a que está subordinado. A meu ver, é precisamente essa relação de subordinação entre jogador e árbitro, que quase todos aceitam sem questionar - porque é assim que está estatuído e tudo o que está estatuído parece não merecer reflexão -, que está errada. Como o que está errado no país é a relação de subordinação entre classe representante e representados. Portugal é um país com excesso de moralidade, com um legado católico do qual demorará a libertar-se, no qual vigoraram sistemas anti-democráticos durante demasiado tempo. Sentem-se confortáveis, por isso, os portugueses com aquilo a que estão habituados, com o servilismo, com a vidinha calma, com o "respeitinho pelos mais velhos", com todos os valores, em suma, do país que historicamente é. O que é criticável não são os políticos, de quem se diz que são todos gatunos, não são as fortunas desmesuradas dos milionários, não é a desigualdade económica entre classes. O que é criticável é a mentalidade dos portugueses, é a falta de consciência política das massas, é a aceitação incondicional, ainda que inconsciente, de um sistema que depois cada um se apressa a contestar. O problema do país é só um: temos um conceito de democracia demasiado fraco. Não existe debate público lógico; a troca de argumentos, em qualquer área, é geralmente pobre e vaga; as ideias políticas apresentadas são, por norma, demagogias inconcretas e manipuladoras; as crianças são educadas a obedecer arbitrariamente em vez de serem educadas a obeder ao que faz sentido.

Regressemos ao futebol. Dos jogadores, em Portugal, espera-se que joguem à bola e que aceitem tudo o que o árbitro - versão do tirano de apito na boca - lhes ordene que façam. Acontece que a generalidade dos árbitros, para os quais reservei as palavras finais, representa sublimemente os valores antiquados da nação a que me referi acima e ilustra a falta de competência democrática de que o país padece. Aliás - e agora refiro-me sobretudo a árbitros de futebol distrital, ou seja, a pessoas que optam pela arbitragem apenas como hobby subsidiado (às custas precisamente dos clubes que apitam) e não como carreira - atrever-me-ia mesmo a conjecturar que a grande maioria destes árbitros tem preferências políticas consentâneas com o exercício arbitrário de poder que o apito lhe autoriza. São pessoas que gostam da sensação de poder ou que gostam da relação arbitrária entre quem ordena e quem respeita ordens; são pessoas que não gostam particularmente de discutir as decisões que tomam, embora gostem de tomá-las, ou seja, pessoas que não gostam particularmente de justificar opiniões, que é outra definição para estupidez; são pessoas a quem lhes apraz a irracionalidade da autoridade absoluta e que, por isso, aceitam críticas com muito menos facilidade do que um jogador aceita uma má decisão de um árbitro.

É usual fazer-se o argumento de que, enquanto o árbitro está lá para decidir, o jogador está lá para jogar e não para criticar decisões, e que, portanto, todo o protesto deve ser punível. Não obstante a estupidez, a hipocrisia e a obsolescência do argumento, faço agora o argumento contrário, que refuta o anterior de maneira implacável, com a mesma lógica argumentativa prepotente: se os jogadores, enquanto agentes de um jogo, têm uma missão específica dentro desse jogo que lhes veda a liberdade de se intrometerem nas opiniões sobre a missão que estão desempenhar, então os árbitros, enquanto agentes de um jogo, têm de ter igualmente uma missão específica dentro desse jogo que lhes veda a liberdade de se intrometerem nas opiniões sobre a missão que estão a desempenhar. Por outras palavras, sendo ambos agentes de um jogo com responsabilidades próprias, se o jogador não tem direito a manifestar a sua opinião acerca da decisão do árbitro acerca de um lance, então o árbitro não tem direito a manifestar a opinião acerca da opinião do jogador acerca de um lance. Se o jogador está lá apenas para jogar e o árbitro apenas para decidir, nem o jogador tem direito a protestar nem o árbitro tem direito a punir o protesto. Isto porque, sendo ambos agentes independentes de um jogo, não há razão nenhuma para que uns tenham mais direitos que outros. Declarei acima que o argumento contra a liberdade do protesto do jogador era estúpido, hipócrita e obsoleto. Se a sua estupidez ficou demonstrada pelo meu contra-argumento, a hipocrisia tem que ver com o facto de se esquecer sistematicamente que os jogadores não são máquinas, mas seres humanos, com emoções, com noções de justiça e moral, sujeitos pelo jogo a um desgaste mental e a níveis de adrenalina que condicionam as suas reacções. Achar que devem estar caladinhos e obedecer àquilo de que discordam é não perceber nada de seres humanos. Quanto à obsolescência do argumento, que é, no fundo, aquilo que mais me interessa, tem que ver com o argumento político desenhado acima. Esta é uma defesa do espírito crítico e do ideal democrático, aplicado a um caso concreto do futebol. Se o principal problema da sociedade portuguesa está intimamente relacionado com o conceito de democracia que a mesma cultiva, a prepotência da grande maioria dos árbitros nos campos de futebol do país, sendo um caso particular desse mesmo problema social mais amplo, resulta do facto de não se permitir, por estipulação e tiques de despotismo, que as decisões do árbitro possam ser alvo de discussão e crítica. A este respeito, o que falta ao futebol, como o que falta ao país, é tornar-se mais democrático.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lições de Mestre (2)

A jornada tinha, por jogo grande, a recepção do Porto ao Braga. Maior parte dos iluminados não conseguiu perceber que o resultado esteve muito longe de expressar uma supremacia do Porto e que o Porto foi, essencialmente, uma equipa eficaz a aproveitar os espaços em transição. À margem disto, voltou a ser um Porto pouco imaginativo, pouco capaz em organização ofensiva, excessivamente vertical, com os dois médios, Rúben Micael e Raúl Meireles muito precipitados, a tornar o jogo sistematicamente numa vertigem de velocidade. Resultou, é certo, mas porque o Braga não esteve bem onde era importante estar contra este Porto. Duvido seriamente, porém, que isto não seja o primeiro capítulo do afundamento deste Porto. Desde que Belluschi saiu da equipa, o Porto voltou a ser uma formação demasiado preocupada com a velocidade e, contra adversários fechados lá atrás, que optem por blocos baixos, voltará a sentir dificuldades.

Não é, contudo, sobre este jogo que pretendo falar. A análise ao mesmo está no nosso artigo desta semana no Academia de Talentos. Pretendo antes recuperar o lance do primeiro golo do Benfica frente à União de Leiria, num jogo disputado há já algumas semanas, mas correspondente a esta jornada. O lance é genial e merece, por isso, a inclusão nesta rubrica. A tabela entre Saviola e Aimar parece simples, mas não é. Quantos jogadores, na mesma situação, fariam o mesmo? Com um simples toque, Saviola e Aimar ultrapassaram 4 defesas e o cruzamento para Cardozo tornou-se possível. É isto que uma simples tabela permite. Nenhum lance individual, nenhum talento requintado, nenhuma invenção sobre-humana seria capaz de tornar uma jogada aparentemente inofensiva num lance iminente de golo. Saviola e Aimar, em pezinhos de lã, com um movimento aparentemente simples, conseguiram-no. Eis o que, no futebol actual, faz dos processos ofensivos algo mais do que a soma da inspiração de cada jogador.



Há quem ache que, no que diz respeito a processos ofensivos, os treinadores têm responsabilidade essencialmente na transição defesa-ataque e nas primeiras fases de construção. Segundo esta teoria, no último terço do terreno, com o adversário organizado defensivamente, prevalece sobretudo o talento individual, a inspiração, a qualidade de cada jogador da equipa. E, segundo ainda esta teoria, a definição dos processos ofensivos no último terço do terreno não é treinável. Se não bastasse, para contradizer esta teoria, o modelo de Guardiola, eis que dois pequenos argentinos, com um passo de tango, a destroem por completo. Entre vários adversários, Saviola procurou Aimar não porque o seu talento o impeliu nessa direcção, mas porque percebeu que, combinando com o colega, se desembaraçaria muito mais facilmente da situação em que estava. Que isto aconteça mais frequentemente entre estes dois jogadores é explicado pelo facto de ambos terem mais consciência daquilo que isso lhes permite. Mas o movimento é colectivo e pode ser replicado por outros jogadores. Assenta essencialmente na ideia de que, fazendo a bola circular rapidamente entre dois ou três companheiros, o adversário tem menos possibilidades de inviabilizar o lance, e ainda em coisas como movimentos de aproximação, em apoios constantes, em passe e devolução, etc. O que Saviola e Aimar fizeram foi genial e é a prova de que, em organização ofensiva, mesmo com pouco espaço para jogar, o futebol deve ser essencialmente colectivo e que há mais probabilidades de êxito sempre que se procura resolver as coisas colectivamente, isto é, fazendo participar mais do que um elemento da equipa, do que recorrendo às individualidades. O envolvimento colectivo oferece possibilidades ofensivas que a soma das individualidades jamais oferecerá. Esta é a lição de Saviola e Aimar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Os Pequenotes

Num desporto em que cada vez mais as pessoas se apaixonam pelos Raúis Meireles do momento, eis que surgem dois pequenotes, desprovidos de velocidade ou força especialmente distinta, mas extraordinários do ponto de vista técnico e, sobretudo, do ponto de vista intelectual, a fazerem as delícias dos verdadeiros amantes da modalidade.

De um deles, disse há pouco mais de um ano que era o meu maior ídolo na actualidade e que seria um prazer poder vê-lo em Portugal, mas que temia que o seu futebol não fosse apreciado e valorizado no contexto nacional e no contexto particular da equipa para onde vinha. A época transacta deu razão às minhas reservas, mas, felizmente, tudo mudou desde Agosto. Do outro, sempre fui fã incondicional e não tinha dúvidas do seu valor. Como em relação ao primeiro, cheguei a temer que a mentalidade retrógrada do país não soubesse retribuir-lhe a qualidade. Felizmente, uma vez mais, encontrou o espaço ideal e a mentalidade ideal na equipa para a qual veio habitar.

Por esta altura, qualquer pessoa sensata saberá já que estas palavras de apreço não poderiam ser dirigidas senão a Pablo Aimar e a Javier Saviola. Os dois argentinos são, a uma distância que não consigo sequer qualificar, de tão vasta, os melhores jogadores deste campeonato. Com eles, o Benfica não é só um candidato ao título normal; é uma equipa mentalmente saudável, imaginativa como muito poucas no mundo. O futebol encarnado tem, colectivamente, uma qualidade considerável e Jesus está, por isso, de parabéns. Mas a principal virtude deste conjunto são estes dois pequenotes. E não estes dois, cada um por si; estes dois, sim, mas quando relacionados um com o outro. O Benfica torna-se especialmente poderoso quando estes dois conseguem combinar entre si, quando se conseguem entender. A relação entre eles é que é formidável. As suas qualidades mais interessantes, por isso, são aquelas que lhes permitem perceber-se um ao outro e não aquelas através das quais conseguem, ocasionalmente, resolver situações individuais.

O principal mérito de Jorge Jesus, de entre os muitos que tem, é ter confiado incondicionalmente o seu Benfica à arte destes dois enormes jogadores. Ao contrário de Paulo Bento, que parece desenhar a sua equipa sempre em função de Liedson, o mérito de Jesus consistiu em perceber em função de quem é que vale a pena desenhar equipas. Se uma equipa de futebol deve ser pensada em função de alguma coisa, deve sê-lo em função do talento. E é de talento que tem de se falar quando se fala nos nomes de Aimar e de Saviola. Estes dois artistas não têm muitos dos atributos que, hoje em dia, muita gente considera essenciais a um jogador de topo. Não são extraordinariamente velozes, não são agressivos, não são capazes de jogar intensamente durante 90 minutos, não são fortes fisicamente, não são altos. No fundo, são dois pequenotes. Acontece que, ao contrário do que muita gente pensa, o futebol é essencialmente para os pequenotes. E Aimar e Saviola encontraram na Luz quem percebesse isso.

O sintoma que mais fielmente denota a saúde desta equipa não é a capacidade de pressionar alto durante 90 minutos, não é a resistência física dos seus jogadores, não é a organização táctica da equipa, não é a quantidade absurda de golos marcados, não é a capacidade de criar jogadas de perigo a toda a hora. Tudo isto são, de facto, indícios positivos. Mas aquilo que melhor espelha o potencial desta equipa não é nenhuma destas coisas. Aquilo que faz pensar que, de facto, o Benfica poderá fazer uma época extraordinária e medir forças com quase todas as equipas do mundo é um pormenor que tem passado despercebido a quase toda a gente. Falo de Aimar e de Saviola, claro. Mas falo deles não por tudo o que é normal dizer deles, mas por outra coisa. Vejam como trocam a bola entre eles descomplexadamente, como jogam para trás quando podiam progredir, como parecem divertir-se ao mesmo tempo que decorre a competição, como se procuram um ao outro em campo, como tabelam com uma destreza inigualável, como confiam um no outro e endossam a bola ao outro mesmo quando este se encontra rodeado de adversários, como jogam à rabia entre adversários, como iludem tudo e todos negligenciando a ideia de progressão e preferindo repetir o passe para trás. Parecem almas gémeas. Entendem-se na perfeição e podem dar-se ao luxo de levar esse entendimento para patamares de complexidade incompreensíveis para a maior parte dos adversários. Ao fazê-lo, tornam-se muito difíceis de parar. Quando se pensa que Aimar vai definir a jogada, com um passe para as costas da defesa, eis que procura Saviola; quando se pensa que este se vai virar para o adversário e forçar a verticalidade, eis que devolve em Aimar; quando se pensa que, agora sim, Aimar vai dar profundidade, eis um passe para o lado para o amigo Javier; quando se pensa que Saviola, após tanta cerimónia, vai finalmente procurar ser objectivo, eis mais um toque curto para o amigo Pablito. E estão nisto o tempo que for preciso. E os adversários à roda, à procura da bola, com a língua de fora e já sem discernimento para perceber que, com tudo isto, se desorganizaram por completo. A consequência deste tipo de futebol é precisamente esta: desorganizar, pela imprevisibilidade, pela estranheza da coisa, toda uma defesa. O futebol curto de Aimar e Saviola, as tabelas e as contra-tabelas, o exagero de passes e devoluções entre eles, tudo isto corresponde ao maior trunfo deste Benfica. Ser capaz de fazer isto é ser capaz de fazer o que há de mais difícil e eficaz em futebol. Há pouquíssimas duplas que o conseguem. Neste momento, só me ocorrem os nomes de Xavi e Iniesta.

domingo, 9 de novembro de 2008

Professor...

No futebol actual, são cada vez menos os jogadores que nos apaixonam. Menos ainda são aqueles que nos "ensinam" futebol.

Aimar é um desses (poucos) exemplos.

O número 10 benfiquista tem-nos presenteado com verdadeiras lições de futebol, tanto a nível interpretativo como no aspecto técnico.

Na memória de todos ainda está aquela pequena maravilhosa "rabona" do argentino. A dificuldade, neste caso, consiste em determinar o maior mérito: se o do gesto técnico, se o da leitura rápida e correcta do lance. Porque estes movimentos, muitas vezes, funcionam apenas como artifícios e, como tal, seriam à partida dispensáveis. Direi mesmo que serão contrários à essência do futebol enquanto jogo. Porque muitas vezes são executados à margem de qualquer estratégia de jogo, em que cada movimento encerra sobre si mesmo a própria finalidade. Aimar, no entanto, utiliza a sua capacidade de execução como desbloqueador de situações complexas. As exibições de Pablito confundem-se entre os truques e a inteligência do seu futebol.
Digo "confunde-se" porque manda a razão que se jogue futebol de forma simples, que se coloque em campo os meios e esforços necessários para o sucesso da nossa forma de jogar (enquanto equipa), e que evitemos as palhaçadas frívolas.

A essência do futebol de Aimar não tem nada a ver com qualquer gesto técnico vistoso. A substância presente em cada movimento de Aimar, do mais complexo ao mais banal, é em função do que o jogo lhe requisita em dado momento para alcançar um objectivo que encerra muito mais do que esse simples momento. Ou seja, os seus movimentos não são desconectados entre si. Daí ele perceber quando deve lançar um jogador para um contra-ataque mortífero, ou por outro lado, quando é que deve entregar a bola a um colega que não se encontra a mais de um/dois metros de distância. A qualidade do futebol revelada em ambos os momentos é a mesma. A sua manifestação, porém, é que é diferente. Mas a presença activa do argentino no jogo e a importância deste jogador para a equipa alcançar os objectivos do jogar a que se propõe não oscila em função da estética dos seus movimentos.

A faculdade de Aimar conseguir concretizar o seu Futebol através de execuções fantásticas não seria suficiente para fazer dele um jogador de eleição... ou um Artista. Não se o Futebol dele, a essência do mesmo, não fosse por si só extraordinária. Aimar, o futebolista, não precisaria de recorrer a gestos técnicos deslumbrantes para ser um fantástico jogador porque o futebol que "nasce" dentro do argentino é soberbo. O facto de o argentino conseguir materializar essa interpretação e entendimento do jogo através de uma (a do próprio) visão estética, coloca-o no mesmo pedestal dos Artistas. Daqueles a sério.

E é aqui que Aimar assume, de forma inconsciente, um papel determinante para as gerações de futebolistas num futuro próximo. Com as suas pequenas lições, vai ensinando, entre meia-dúzia de truques, o que é jogar BOM FUTEBOL.
Porque na incapacidade de se perceber, por si só, algo tão profundo como o jogar bem, de forma racional (grande parte dos jovens jogadores apenas atribui importância a aspectos técnicos, descurando a sua interpretação do jogo), é importante que as gerações mais jovens cresçam a admirar um jogador que trata tão bem o jogo, ainda que o admirem por tratar bem a bola.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pouca coisa...

1. Aimar não presta. Passes de letra são coisas para gajos que vieram passar férias a Portugal, de certeza.

2. Nuno Assis é outro que não vale nada. O facto de ter sido o jogador vimaranense mais esclarecido em campo foi coincidência.

3. Andrezinho, esse sim, é um jogador e tanto. Aquela assistência para Aimar, que permitiu ao argentino solicitar a corrida de Suazo, é de uma classe extraordinária. Melhor, só o pontapé no queixo do hondurenho ou aquela dança esquisita à frente de Reyes, durante quase um minuto, sem sair do mesmo sítio.

4. No golo do Guimarães, pode falar-se em erros de Maxi Pereira, que deveria estar mais metido para dentro, ou de Luisão, que não deveria ter tentado interceptar a bola, mantendo-se na corrida com Douglas, mas o lance só acontece porque o sistema do Benfica a isso convida. Com apenas dois passes rasteiros, o Guimarães ultrapassou 8 jogadores do Benfica. Roberto veio buscar a bola ao espaço vazio e o passe do médio minhoto para ele ultrapassou toda a linha do meio-campo do Benfica. A partir desse momento, está criado o desequilíbrio. O resto é mais ou menos fácil. A chave do lance é esse passe e não os erros posicionais dos defesas. É por estas e por outras razões que não consigo perceber como é que o 442 clássico continua a ser o modelo táctico mais utilizado. E não me venham falar de dinâmicas. Aquilo acontece com qualquer equipa que jogue com uma linha de 4 homens no meio-campo. Não há dinâmicas que o impeçam.

5. Muitos afirmam que Aimar não foi atropelado por Danilo dentro da área e que, portanto, não haveria lugar à marcação de um penalty que, para mim, foi claríssimo. O argumento é que já ia em queda quando se dá o contacto. Se um camião TIR vier direito a mim, de certeza que também não vou ficar quietinho à espera que ele me acerte. Aimar encolheu-se, prevendo o choque. Mas nada disso importa. Deixando-se ou não cair, a verdade é que há um contacto evidente que derruba o argentino.

6. Liedson continua a facturar, dizem alguns. O que eu gostava mesmo de saber era quanto é que Liedson paga aos defesas adversários para que estes façam disparates e o deixem isolado. Ou então, quando é que Liedson volta a marcar um golo cujo mérito seja mesmo dele. Aposto que vai vir muito palerma dizer que há mérito na forma como ele pressiona. Sinceramente, isso dá-lhe quase tanto mérito como a mim, que, sentado no meu sofá, estava a torcer para que aquele defesa dominasse mal a bola e depois inventasse daquela forma.

7. O Porto perdeu novamente e fala-se em crise. O que é certo é que Jesualdo, em 2 anos, não conseguiu lançar na equipa principal do Porto praticamente nenhum jogador de relevo. Foi vivendo daquilo que já vinha de trás e quase todas as suas contratações foram fracassos: Kazmierczak, Bollatti, Guarín, Farías, Lino, Stepanov, Benitez, etc. Agora que escasseia a qualidade trazida em tempos, a qualidade do plantel portista já não disfarça a pouca qualidade de Jesualdo nesse âmbito. A palavra "qualidade", três vezes referida na frase anterior, parece-me aquela que, pela sua ausência, melhor define o que se está a passar no Dragão.

8. Bruno Alves deu mais um beliscão num adversário, desta vez Davide. Beliscar com o cotovelo não é uma arte para qualquer um, mas Bruno Alves também não é qualquer um. Continuo é sem perceber por que é que os tipos que ele belisca fazem fita para tentar expulsá-lo, quando é evidente que esse tipo de truques mesquinhos não resulta.

9. José Mota lidera. No campeonato e nas loas que os estultos lhe tecem.

10. Lá fora, o Barça continua sem ganhar... por diferenças pequenas.

11. Em Itália, grande campeonato. 3 pontos separam os 5 primeiros; 6 pontos separam os 9 primeiros. Só para comparar, em Inglaterra, os primeiros 5 já estão separados por 6 pontos e os primeiros 9 por 12.

12. Del Piero marcou mais um golo espantoso. Quero distingui-lo com dois prémios. 1) É o melhor marcador de livres de que me recordo, à excepção de David Beckham; 2) É, para mim, provavelmente, o melhor jogador de sempre que nunca ganhou o prémio de melhor do mundo.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pablo Aimar: prazer e frustração...

Pablo Aimar no Benfica: a melhor notícia dos últimos anos para o nosso campeonato! Arrisco a dizer que é, desde Diego, pelo Porto, a contratação de maior luxo do futebol português. Uso o substantivo "luxo" de propósito, pois acho Lucho González, embora já tivesse algum estatuto quando o Porto o foi buscar, nunca teve o impacto que Aimar chegou a ter na Argentina ou que Diego chegou a ter no Brasil.

Maradona disse dele e de Saviola: "Adoro estes dois. É pena que joguem no River. São rapidíssimos." Não é uma designação muito concreta, mas o facto de, entre 100 jogadores, Maradona ter escolhido falar de Aimar tem de ser relevante. Para além dele e de Saviola, entre jovens jogadores que na altura despontavam na Argentina, Maradona só falou de Riquelme e de Romagnoli. Isto demonstra muito daquilo que se esperava de Aimar. Quanto a mim, vi-o no último ano de River fazer coisas que, desde Maradona, não via: slaloons impressionantes desde o meio-campo, a ultrapassar com fintas curtas todos os opositores que lhe saíam ao encalço, concluindo depois a jogada com um passe de morte, com uma cueca e um remate colocado, etc. Antes de vir para a Europa, já eu suspirava pelo futebol de Aimar. Foi por isso que, ao transferir-se para o Valência de Cúper, me deixou em êxtase. Agora, podia vê-lo com a regularidade com que antes não podia.

Os primeiros jogos no Valência deixaram-me, porém, alguma estupefacção. Aimar raramente jogava de outra forma que não ao primeiro toque. Não entendi como, numa equipa tão parca em talento, o astro argentino não pegava na bola e não fazia coisas como as que lhe tinha visto fazer nas pampas. Julguei que fosse por timidez, mas não. Algum tempo depois percebi o que se passava e, mais uma vez, Aimar surpreendia-me. Ao contrário do que seria de esperar, jovem como era, Aimar percebeu imediatamente que o futebol na Europa não era o futebol da sua Argentina. Aqui, tinha que se moldar, tinha que lapidar o seu talento para que o mesmo pudesse servir as necessidades de um futebol mais exigente. O que era verdadeiramente espantoso era que um jovem com a qualidade dele não cedesse à tentação de ir no um para um mais vezes. Aos poucos, o jovem rapidíssimo de que Maradona falava transformou-se no jovem inteligentíssimo. O seu futebol de primeiro toque permitia coisas em termos colectivos muito mais relevantes que qualquer das suas fantásticas jogadas individuais. Foi, na verdade, um dos primeiros jogadores que me fez perceber que, em futebol, é muito mais importante aquilo que um jogador faz em função do colectivo do que as jogadas individuais mirabolantes. E o seu Valência ganhou muito mais com o seu futebol discreto mas inteligente do que alguma vez ganharia com as suas arrancadas fenomenais. O jogador "rapídissimo" tornou-se "rapidíssimo a pensar".

Na altura, cheguei a pensar que Aimar era o jogador ideal para jogar no meio dos galácticos do Real. Entre tantos jogadores que gostavam de ter a bola e de se recrear com ela, Aimar seria o ponto de apoio, o jogador de toque simples que serviria de pêndulo ofensivo para os outros. Tenho a certeza que Aimar, numa equipa como o Real, teria sido de uma importância enorme. E tinha qualidade mais do que suficiente para isso, na altura. Entretanto, o mundial de 2002: Aimar era um jovem, uma fraca figura no meio dos outros jogadores de meio-campo, mas foi eleito por Bielsa para comandar o meio-campo no jogo decisivo contra a Suécia. Nos outros, já havia entrado, tendo sido, para mim, a grande figura da selecção das pampas nesse mundial. O seu futebol prometia um sucesso futuro que, no entanto, nunca se chegou a realizar. Com Ranieri e com Quique, Aimar nunca mais teve o que tinha com Cúper e o que chegou a ter com Benitez. No sistema do agora treinador do Benfica, por exemplo, Aimar era um jogador amarrado, longe dos espaços onde poderia ser genial. Ainda assim, continuou a evoluir como jogador até que, inexplicavelmente, Quique deixou de contar com ele. O percurso que se previa ascensional e que, do Valência, o deveria ter levado para um grande europeu, sofreu uma reviravolta e Aimar acabou esquecido em Saragoça. Aliás, Aimar e outro argentino de enormíssimo talento que chegou a ser falado para o Benfica: Andrés D'Alessandro.

As lesões, mas, principalmente, a coabitação num esquema táctico senil, fez com que a carreira de Aimar não fosse mais longe. Como ele, há e houve outros que, sobretudo nos últimos anos, foram preteridos por jogadores com outras qualidades. Diego, Van der Vaart e Rosicky (este entretanto acabou por ser repescado por um treinador que, no que toca a avaliar jogadores, deixa os outros a milhas) são exemplos de jogadores com características semelhantes a Aimar que, nos dias que correm, parecem não ser muito apreciados. Não tenho dúvidas, contudo, que qualquer um destes tem lugar num grande europeu e que só a teimosia em se achar que o tamanho e a agressividade são factores relevantes na apreciação de um jogador os tem mantido afastados de tal destino. Se é verdade que, no que diz respeito a Diego e Van der Vaart, há ainda possibilidades de salvarem as suas carreiras, para Aimar o tempo começa a escassear. Para mim, não ter chegado a um grande europeu explica-se sobretudo pela deficiência mental de grande parte dos treinadores mundiais, cuja competência futebolística parece teimar em não melhorar. Cheguei já a comparar Aimar com Nuno Assis, salvo as devidas proporções. São jogadores muito idênticos, com características técnicas, físicas e intelectuais muito semelhantes e que representam, para mim, o mesmo em dois panoramas diferentes: Nuno Assis é um jogador de selecção nacional que não teve o sucesso em Portugal que merecia, ao passo que Aimar é um jogador de topo mundial, que merecia ter chegado a um grande europeu e ser bem sucedido. Ambos entendem o jogo de uma forma inteligente e, por isso mesmo, são mais discretos do que as suas reais capacidades. São jogadores que oferecem ao colectivo muito mais do que o colectivo lhes oferece a eles. E, por causa de não serem recompensados por isso, ficaram aquém das suas possibilidades. Ambos abdicaram da sua capacidade individual para servirem um grupo, mas sabe-se que, em futebol, continua a dar-se maior importância a quem faz números de circo do que a quem faz as coisas correctamente. Jogadores como estes, só inseridos numa equipa colectivamente forte (como há poucas), que jogue verdadeiramente em colectivo, é que poderiam ver as suas preocupações colectivas recompensadas. Assim não aconteceu e foram sendo esquecidos.

Além disso, parece-se preferir-se, hoje em dia, jogadores com outros atributos, como a capacidade de choque ou o tamanho, a jogadores de talento puro, que é um atributo intelectual. E em vez de Aimar, de Diego, de Van der Vaart, vemos Ballacks, Andersons, Stankovics nos grandes clubes mundiais. Não quero tirar o mérito de cada um destes, mas em talento ficam a anos de luz dos primeiros três. Isto demonstra que, actualmente, o talento é cada vez menos importante para os treinadores. Prefere-se a força, a velocidade, a agressividade, à inteligência, à classe, à criatividade. Aimar foi vítima disto e teve no esquema de Quique Flores a sua Torre de Babel. Num esquema que não privilegia o talento, de pouca flexibilidade, Aimar era um jogador banal. O seu talento, aí, não poderia abrir as asas. Num esquema como o de Quique, queriam-se jogadores rápidos, incisivos, objectivos. Aimar precisa de não ser nada disto para ser o verdadeiro Aimar. Assim, a vinda para o Benfica é, por um lado, a melhor coisa que um adepto de bom futebol poderia desejar, mas, por outro, para quem tem consciência das amarras a que vai estar sujeito, um grito mudo de revolta. No Benfica, vou poder apreciar aquele que é, para mim, o jogador que a nível mundial mais rapidamente executa aquilo que pensa, mas ao mesmo tempo vou ter um nó na garganta, pois sei que vai estar a jogar menos do que aquilo que poderia e que a sua carreira estará, certamente, condenada a pouco mais do que isto. Assim, a par da satisfação enorme que é ter em Portugal um dos meus maiores ídolos, vou sentir-me constantemente frustrado quando vir que não é a camisola do Real, do Barcelona, do Milan, da Juventus, do Manchester ou do Liverpool que ele está a envergar...

Apesar de tudo, porque gosto demasiado de futebol, bem-vindo, Pablo Aimar!