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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Abidal, Fabregas, a Vaidade e o 343 Losango de Guardiola

Queria começar por dizer que este texto é uma fusão de dois outros, um sobre a vaidade de um jogador de futebol, outro sobre o sistema táctico testado por Guardiola no primeiro jogo do campeonato. Tendo em comum o serem sobre o Barcelona, aproveito para falar das duas coisas ao mesmo tempo. Começando pela questão da vaidade, creio que haveria bastante a dizer nesse sentido. Vou tentar ser o mais resumido possível. Para muitos, sobretudo para aqueles que têm predilecção por ideais católicos, a ideia de um jogador vaidoso é pouco agradável. A vaidade é, para a grande maioria destas pessoas, sinónimo de egocentrismo, de falta de humildade e de incapacidade de sacrifício. Não concordo com isto, embora ache que há certos tipos de vaidade que signifiquem exactamente isso. Para mim, a vaidade é das coisas mais importantes num futebolista, para não dizer em qualquer pessoa que tenha ambições de qualquer tipo. Não obstante, há jogadores que usam a vaidade como um fim em si mesmo, e nestes, de facto, o atributo não é minimamente saudável: um caso flagrante será o de Mario Balotelli.

Não é destes, porém, que pretendo falar. Podia falar do caso de Diogo Rosado, jovem jogador emprestado pelo Sporting ao Feirense, que ainda há pouco mais de uma semana deu um recital na Luz, mas creio que, também nisto, é em Barcelona que os exemplos melhor frutificam. Compare-se o futebol de Eric Abidal há dois anos com o seu futebol actual. Tirando as parecenças morfológicas, eu diria imediatamente que se trata de outro jogador. A "lavagem cerebral" a que foi sujeito modificou-o radicalmente. E estamos a falar de um jogador na fase final da sua carreira profissional, um jogador que acumulou hábitos e vícios ao longo de todo o seu percurso. Abidal era um lateral certinho, forte do ponto de vista atlético e muito concentrado. Subia pela certa, arriscava pouco, e garantia à equipa solidez. Nos primeiros dois anos de Guardiola, não se modificou significativamente, e cheguei a sugerir que Maxwell era melhor opção que o francês, sobretudo pelo jogo interior que possibilitava. No final da segunda época e, sobretudo, no início da terceira, Maxwell "ganhou" o lugar de lateral esquerdo, e Abidal passou a ser mais utilizado como central do que como lateral. Penso que essas duas coisas terão influenciado decisivamente a mente de Abidal. Primeiro, terá percebido por que razão um jogador francamente mais débil do ponto de vista físico e menos sólido defensivamente lhe tinha roubado o lugar; depois, forçado a jogar numa posição que não era a sua, obrigado a pensar de uma maneira diferente, uma vez que o Barcelona força a saída pelos seus centrais e exige que estes entreguem sempre jogável, Abidal terá começado a modificar os seus hábitos e as suas crenças. Sensivelmente a meio da época passada, e ainda a central, Abidal revolucionou-se. E, de lá para cá, tem sido sempre a melhorar. Agora, joga com uma classe que não tinha, tanto a central como a lateral, deixou de esticar o jogo no extremo ou de devolver ao central; agora, fica com ela, vem para dentro, joga no meio, provoca o adversário que o vem pressionar, arrisca dentro da área, faz "cabritos" no meio de uma multidão. Num ano, motivado pelas circunstâncias que referi acima, Abidal compreendeu que lhe faltava, para poder servir esta equipa ao máximo, adquirir uma vaidade que nunca tivera. E hoje é, de longe, o melhor lateral esquerdo do plantel (para não ir mais longe), porque percebeu que este modelo de jogo exige de cada uma das suas unidades um certo envaidecimento.

Outro bom exemplo é o de Cesc Fabregas. Quem via Fabregas a jogar o ano passado, e sobretudo se se tivesse deliciado com o seu futebol no passado, percebia nele uma tristeza qualquer. A sua enorme qualidade continuava lá, mas havia qualquer coisa em Fabregas que se atrofiara. A meu ver, o espanhol foi melhorando progressivamente o seu futebol precisamente até à época transacta. É verdade que foi fustigado por algumas lesões, e que a época não lhe correu da melhor maneira, mas a sua evolução estagnou, a meu ver, por outras razões. É sabido que Fabregas ambicionava voltar à Catalunha no início da época passada, e que ter permanecido em Londres não o terá deixado satisfeito. Mas o que perdeu, penso, foi uma certa alegria em jogar. E perdeu-a porque percebeu que o seu futebol só poderia evoluir verdadeiramente no ambiente que o Barcelona de Guardiola propiciava. O que desapareceu, na época anterior, foi a sua vaidade de jogar, a vaidade de ser cada vez melhor. E desapareceu, em meu entender, porque percebia que, para se tornar cada vez melhor, para poder potenciar ao máximo as suas qualidades, teria de mudar de ares. Ainda que o Arsenal seja das equipas que mais privilegia o tipo de futebol de que gosta, era na Catalunha que iria encontrar dez almas-gémeas, dez colegas dentro de campo que compreendem tudo o que faz. Sem a vaidade. que só jogando num modelo como o do Barcelona, poderia voltar a ter, Fabregas acomodou-se, e, não fosse a mudança para Espanha esta época, acredito que pararia de evoluir. Na Catalunha, ainda é cedo para perceber até onde pode chegar. Mas é certo que está no local mais propício para continuar a sua afirmação enquanto jogador.

Sobre vaidade, é tudo. Ou quase tudo. Podia acrescentar, fazendo a ponte do tema anterior para o que se segue, que só com onze jogadores a quem foi incutido um certo tipo de vaidade era possível uma equipa jogar, com sucesso, num esquema táctico tão arrojado como o 343 losango. À demonstração de força do Real Madrid no sábado, com uma vitória categórica por 6-0 no terreno do Saragoça (e foram 6, mas podiam ter sido 10), uma demonstração de força que, apesar de tudo, carece de consolidação, uma vez que o adversário facilitou em demasia o trabalho dos merengues, respondeu o Barcelona com uma das maiores lições tácticas dos últimos 20 anos. Pela frente, não tinha um adversário desorganizado, que defendia apenas com cinco jogadores, que não formava uma linha defensiva, que não tinha preocupações com coberturas, que não juntava os sectores, como o teve o Real Madrid no dia anterior. Tinha, sim, o quarto classificado do ano passado, uma equipa muito bem organizada, com excelentes princípios de jogo, com os sectores bem juntos, colectivamente forte. E o que fez Guardiola? Aproveitou as ausências forçadas de alguns titulares do sector defensivo para testar o seu 343, com que jogará certamente muitas vezes esta época. Os resultados do teste, adiante-se, não poderiam ter sido melhores.

O sistema não é um 343 vulgar, ou seja, um 343 em linha, nem o 343 utilizado por Marcelo Bielsa na selecção chilena, que, embora em losango, utilizava alas. É um 343 losango à Cruyff, no Barcelona, e à Van Gaal, no Ajax, um sistema que caiu em desuso nos últimos 15 anos, principalmente, a meu ver, pelos excessivos riscos de uma linha de 3 defesas, e pela natural evolução táctica do jogo. Hoje em dia, com a evolução que o jogo teve, só uma equipa muito competente a pressionar pode dar-se ao luxo de jogar neste esquema sem correr sistematicamente o risco de ver os avançados adversários enfrentar os seus 3 defesas. Por essa razão, desapareceram praticamente os sistemas tácticos com 3 defesas. Mas, se há equipa em que isso parece poder ser uma realidade, essa equipa é o Barcelona. Mas quais são as vantagens deste sistema táctico, em relação ao habitual 433, ou 442 losango? A meu ver, são vários. Não falando da saída de bola, aquando do pontapé de baliza, que passa a ter pontos de referência diferentes, creio que é a nível de pressing e a nível de formação de apoios em zonas mais ofensivas que se encontram as principais vantagens. Neste esquema, a pressão é mais alta, feita com mais homens na zona da bola, e é mais eficaz a constranger toda e qualquer circulação baixa. Contra equipas que preferem sair a jogar, que gostam de trabalhar o jogo, como o Villareal, penso que os resultados só podem ser positivos, como foram. Falta testar contra equipas que joguem mais directo, contra adversários que não tenham a preocupação de construir desde trás. Mas mesmo aí, penso, a profundidade não fica mais desguarnecida por se jogar com uma linha defensiva de três jogadores e não com uma linha de quatro, desde que a equipa recupere toda em bloco. Além disso, e porque as coisas estão ligadas, ao jogar assim o Barcelona "arrasta" sistematicamente mais adversários para zonas recuadas, tornando menos eficaz a resposta destes quando recuperam a bola. No que diz respeito aos apoios, em situação ofensiva (e aqui parece-me, de facto, a grande virtude do sistema), o Barcelona passa a jogar não só com um jogador a entrar nos espaços entre linhas, como até aqui, mas com dois. Formando um losango no meio-campo, ganha uma estrutura de apoios de maior densidade, e torna ainda mais fácil o futebol de toque curto da equipa, em organização ofensiva, e a tendência para fazer da bola um engodo. Contra o Villareal, foi assustador o modo como a equipa encostou literalmente o adversário à sua área, mesmo tendo este o desígnio de não fazer descer a linha defensiva abaixo de um determinado ponto. O Barcelona só jogou 60 minutos (a partir daí descansou com bola), acumulou uns impressionantes 71% de posse de bola contra a melhor equipa espanhola, a seguir aos catalães, a trabalhar a bola, venceu por 5-0, mas, mais do que isso, empurrou ostensivamente uma das equipas mais bem preparadas em termos tácticos para onde bem lhe apeteceu. O domínio foi, por isso mesmo, avassalador. Mais até do que esta equipa já nos tinha habituado. É uma demonstração inequívoca de força, sim, mas, mais do que isso, é mais uma lição táctica, mais uns quantos preconceitos quebrados, mais uma manifestação de como há ainda caminhos por desbravar, em termos conceptuais, no que diz respeito ao jogo.