terça-feira, 24 de março de 2020
Nummer 14
Escrito por Nuno às 16:25:00 0 bolas ao poste
Etiquetas: Ajax, Cruyff, Futebol Holandês, História do Futebol, Raciocínios Tácticos
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
A Jogada do Século
Se tivesse de escolher uma jogada que, de certo modo, definisse aquilo que foi a evolução do futebol no século XX, escolhia a primeira jogada da final do campeonato do mundo de 1974. O lance é, para os padrões actuais, uma aberração: a velocidade a que se troca a bola, a ausência de zonas de pressão, as marcações individuais dos alemães, a total anarquia da organização ofensiva holandesa, etc.. E, no entanto, o mesmo lance justifica toda a evolução que o futebol sofreu nos últimos 50 anos. É sobretudo por isso que me parece justo descrevê-la como a jogada do século. Nela estão contidas as sementes da revolução laranja, e de tudo aquilo que essa revolução proporcionaria depois, e é nela - precisamente nela - que identifico a fronteira entre o velho e o novo paradigma. Não é de todo irrazoável falar de um futebol antes de Cruyff e de um futebol depois de Cruyff, e muitos já o fizeram, mas normalmente situa-se a fronteira entre essas duas épocas um pouco mais tarde. Aquilo que Cruyff veio a ser como treinador, e o pensamento que depois criaria escola, não é indissociável, contudo, daquilo que foi como jogador. A revolução que as suas ideias protagonizaram tiveram expressão maior no seu 'Dream Team' e, posteriormente, no futebol praticado pelas equipas de Guardiola, mas tudo começou na Holanda, no final da década de 60 e início da década de 70. É nessa altura, com o sucesso do Ajax entre 1969 e 1973 (finalista vencido em 69, o Ajax venceria a Taça dos Campeões Europeus em 71, 72 e 73) e com o futebol apresentado pela selecção holandesa no Mundial de 74, que tudo começa. E a forma como a Holanda chega à vantagem na final dessa competição é o dealbar desse mundo novo. É nesse lance que a parceria entre Rinus Michels e Johan Cruyff encontra o seu expoente máximo. Mesmo que a selecção germânica tenha conseguido recuperar da desvantagem, e a Holanda não se tenha sagrado campeã do mundo, o futebol vergou-se nesse momento e nunca mais foi o mesmo.
Escrito por Nuno às 14:51:00 2 bolas ao poste
Etiquetas: Clássicos, Cruyff, História do Futebol, Holanda, Raciocínios Tácticos
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Um Problema de Sol
Enfim, não quero perder muito tempo a discutir o raciocínio de Diamantino Miranda, pois não me parece fácil tentar perceber lógica onde ela não existe. Mas a ideia de que o clima influencia as características de um atleta merece algum debate, e sobre isso gostaria de dizer algumas coisas. Há coisa de dois anos, lançou o Filipe no Jogo Directo uma discussão parecida, defendendo que "há indícios claros de que a temperatura mexe, e bem, com o calor do jogo". Tive a oportunidade de comentar esse texto, e de participar na discussão. Ainda hoje penso do mesmo modo, e o comentário de Diamantino Miranda veio apenas tornar presente algo que me faz de facto bastante confusão. Como é que alguém pode sequer conceber que o clima tem influência directa no tipo de futebol que se pratica em determinado sítio? Na verdade, talvez sem se aperceber, o Filipe defendia duas coisas diferentes: primeiro, que uma equipa não se consegue comportar como se comporta habitualmente, se a temperatura for consideravelmente mais alta; em segundo, que os brasileiros jogam de modo mais "acalorado" porque o clima assim o propicia. O primeiro caso não se insere sequer no mesmo tipo de discussão: qualquer equipa europeia que vá jogar a 2000 metros de altitude, com baixas concentrações de oxigénio, tem desempenhos inferiores, e não consegue manter o ritmo habitual. Não é propriamente a temperatura, mas sim qualquer condicionante externa que modifica o comportamento habitual dos jogadores, que estão preparados para responder em determinadas condições e têm dificuldades imediatas em adaptar-se a condições novas. O "calor" do jogo, nesse primeiro caso, é determinado pela habituação, ou falta dela, e não porque a temperatura desempenhe um papel providencial. Mas é o segundo caso que mais interessa, pois é sobre ele que as pessoas mais opiniões engraçadas têm.
Existe, aliás, a tendência para achar que não é só o futebol, mas todo o tecido social, que é reflectido pelo clima de um país. Acho tal conclusão, como deverão calcular, um profundo disparate. Para muita gente, os países mediterrânicos são menos produtivos, em geral, porque são países com climas temperados, e é o clima que se regista nesses países que faz com que as pessoas sejam mais preguiçosas, mais irresponsáveis, mais inconstantes, e mais emocionais. O raciocínio de quem pensa assim é mais ou menos o seguinte: as pessoas vivem debaixo de temperaturas altas toda a vida, e isso frita-lhes as ideias. Enfim, achar que a temperatura é responsável pela definição do carácter de um povo é tão ridículo que chega a ser difícil falar sobre isso. As características gerais de um povo - se é possível, de facto, traçá-las - são definidas ao longo de séculos de História, e influirá mais no tipo de pessoas que os portugueses são, para usar o exemplo de Portugal, o facto de termos uma tradição católica profundamente enraízada, ou o facto de termos sofrido certos acidentes históricos, do que o facto de vivermos à beira-mar, com um clima ameno. O ser humano é uma criatura de hábitos, e as pessoas comportam-se como vêem os outros comportar-se. Se o clima em Portugal mudasse subitamente, e passássemos a ter um clima nórdico, a geração seguinte seria exactamente igual à geração seguinte que viria, caso isso não acontecesse. Quem fala em portugueses, fala noutros povos quaisquer. Se a temperatura, ou a latitude, fossem determinantes, ingleses e irlandeses seriam praticamente iguais.
A ter alguma influência no carácter de um povo, o clima tem uma influência reduzidíssima. Se assim é, menor será ainda essa influência em qualquer manifestação cultural desse povo. O futebol, enquanto manifestação cultural, não foge à regra. O futebol praticado numa determinada região do globo difere do futebol praticado noutra região por várias razões. Primeiro, porque são manifestações culturais de povos diferentes, com culturas diferentes, com preocupações diferentes, com legados históricos diferentes, com estruturas morais diferentes. Depois, e sobretudo por isso, porque o próprio futebol cria uma determinada tradição. Por que é que os italianos são mais defensivos? Porque, enquanto povo, são mais conservadores, mais reservados, mais precavidos? Obviamente que não. Porque, a dada altura, os modelos defensivos italianos começaram a ter sucesso, e criaram escola. A tradição futebolística de um país é talvez o factor mais relevante na definição do tipo de futebol que se pratica num país. Que causa está por trás do futebol de toque da Espanha, nos últimos anos? Um trabalho de fundo que modificou radicalmente a identidade do futebol espanhol, o privilégio pela inteligência e pelo talento. E no Brasil, por que é que no Brasil o jogo é tão "acalorado", há tanta irresponsabilidade táctica, e há tanto jogador talentoso? Não é por causa do calor, que faz com que os jogadores tenham as emoções à flor da pele, assim como é o calor que leva os miúdos para a praia e para as ruas, onde aprendem a jogar? Claro que não. São as condições sociais, a cultura do país, o fundo católico, etc.. Será a irresponsabilidade táctica característica do futebol brasileiro assim tão diferente da irresponsabilidade táctica de outros países sul-americanos? Não é. E o que dizer da irresponsabilidade táctica dos britânicos? É uma irresponsabilidade diferente da dos brasileiros, mas ainda assim é irresponsabilidade. Como explicá-la, se o clima não é "acalorado"? Essencialmente, porque a tradição futebolística na Grã-Bretanha não conheceu praticamente evoluções, nos últimos 50 anos, e porque no futebol (e no desporto, em geral) britânico se tendem a privilegiar atributos atléticos.
Acreditar que a temperatura (e o sol, em particular) determina o tipo de futebol que se pratica num certo país é não perceber nada de futebol, e é não perceber nada de seres humanos. O futebol, como todas as expressões de um povo, reflectem em parte o tecido histórico, cultural, religioso, e social desse povo. Mas, em si, é uma prática isolada, que pode, a qualquer altura, seguir um trajecto completamente distinto, sem qualquer relação directa com esse tecido. Estes dois tipos de factores são aqueles que, a meu ver, melhor explicam as distinções entre os vários tipos de futebol que se praticam pelo mundo. O clima, ou qualquer factor ambiental, não entra em nenhum deles. Não é sequer um factor secundário; não influi sequer na personalidade dos indivíduos que compõem esse povo, quanto mais nas suas práticas. Pode, quando muito, num passado muito remoto, ter ajudado a que determinados povos se dedicassem mais a umas actividades do que a outras, optassem por um determinado estilo de vida e não por outro, e que a personalidade desse povo - que foi sendo criada paulatinamente, ao longo dos tempos - tenha então sofrido inflexões decisivas em determinado período da sua formação por força do clima em que se vivia. Mas isso nem uma influência indirecta é. Se, a partir de agora, começasse a nevar durante todo o ano na península ibérica, e fizesse sol na Islândia, seriam preciso inúmeras gerações, e vários séculos para que os islandeses passassem a ter tradição futebolística, e os portugueses e os espanhóis perdessem a deles. A influência dos factores ambientais é, na melhor das hipóteses, uma influência remota, e só com muita boa vontade é que se consegue aceitar que Diamantino Miranda e outros que, como ele, acreditam em tais disparates, não estejam ainda hospitalizados.
Escrito por Nuno às 11:16:00 27 bolas ao poste
Etiquetas: Cortesias, Diamantino Miranda, Filipe Vieira de Sá, História do Futebol, Raciocínios Tácticos
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Brolin
que se ri do arqueiro e afronta a tempestade;
exilado na terra e no meio dos apupos,
as asas de gigante impedem-no de andar."
Charles Baudelaire, "O Albatroz"
Quem se lembra dele, lembra-se de alegria, de fantasia, de pura habilidade e, sobretudo, de uma paixão avassaladora por este desporto. Brolin não era só mais um jogador talentoso; era muito mais que isso. Ainda assim, o seu talento foi ímpar naquele país, não obstante Henrik Larsson ter sido eleito, há poucos anos, o melhor jogador sueco de todos os tempos. Aliás, lembrar que Larsson ficará na História à frente de Brolin é até a maneira mais adequada de iniciar um texto sobre o prodígio nórdico. É que, se há alguém a quem o futebol traiu, esse alguém é Tomas Brolin. Larsson é apenas dois anos mais novo que Brolin e jogou na mesma altura que ele, sem nunca atingir o patamar de excelência do primeiro. Compará-los, além de ser impossível, pois o talento de um foi inegavelmente superior ao do outro, chega até a ser sacrílego.
Disse que Brolin não foi apenas um jogador porque tinha, como poucos, uma paixão enorme pelo jogo. Isso via-se na forma alegre, jovial, pueril e desinibida com que jogava. Nenhum sueco para além dele - arrisco dizê-lo - manifestou tamanha alegria a jogar futebol. Os seus dribles, a facilidade de passe, a magia, a classe, foram únicos. Chegou a ser eleito o quarto melhor jogador de 1994 e, depois do brilhante Mundial de 94, o Barcelona pensou recrutá-lo. Tal não aconteceu e a carreira de Brolin teria uma viragem abrupta. Vítima de um desporto aviltante, da incompetência de treinadores e da estupidez vigente, Brolin não voltaria a ser o mesmo. O seu futebol, para sobreviver, precisava de se alimentar daquela paixão que sempre manifestara - essa era a sua motivação. E foi isso que Brolin perdeu.
Ao ingressar no Leeds United, Brolin encontrou um futebol onde o músculo se sobrepõe à técnica, onde o jogo estava castrado e era apenas um pretexto para medir capacidades atléticas. Em Inglaterra, a magia, a paixão, o prazer não existiam. O futebol, e tudo o que o envolvia, era em terras de Sua Majestade uma luta, um confronto, e não um jogo. Se Brolin quisesse evidenciar-se pelo seu poderio físico, teria sido pugilista. Se escolheu o futebol, foi porque o futebol é muito mais do que uma desculpa para se pôr em combate dois pares de hormonas. Em Inglaterra, encontrou uma cultura primitiva, bárbara no sentido lato de bárbaro, uma cultura para quem o futebol servia de estímulo a um espírito animalesco. Em Inglaterra, não se jogava futebol; mediam-se vontades, músculos e graus de irracionalidade. Sendo o futebol, para Brolin, precisamente o oposto, depressa se tornou desnecessário. A desmotivação foi causa e consequência do pouco uso que passou a ter. Ao mesmo tempo que ia deixando de ser opção, ia perdendo o amor que tinha ao jogo. A inteligência, a classe, e o prazer abandonaram-no, mas apenas porque o futebol, como ele o via, o abandonara primeiro.
Aos 28 anos, após mais alguns anos de pouca valia, agastado com a relação com o jogo, Brolin decidiu desistir. Não desistiu, como tantos outros, porque uma lesão o tinha incapacitado, mas sim porque o futebol o tinha enganado. Tornara-se de tal forma inteligente, de tal forma diferente daquilo que a esmagadora maioria que anda no futebol é, que não era compreendido. Sem capacidade para contrariar a incompreensão de que foi vítima, refém num mundo mesquinho, pequeno, desambicioso e estúpido, não tinha outra saída. Foi perdendo a paixão pelo jogo de forma gradual até que ela se extinguiu por completo. A 12 de Agosto de 1998, tornou oficial a decisão. Eis o canto do cisne:
"Estou aqui para dizer se vou ou não continuar a jogar futebol. Decidi desistir. Já andava a pensar desistir há muito tempo; pensava em desistir antes de assinar pelo Crystal Palace, mas eles convenceram-me a não o fazer. Estou muito contente por o Crystal Palace me ter dado a oportunidade de jogar futebol. Mas, depois da época terminar, estava ainda mais convencido a desistir. Gostaria de permanecer no Crystal Palace, mas não tinha qualquer motivação. Tentei assistir a alguns jogos do Campeonato do Mundo de França, mas não ajudou. Preferia, em vez disso, jogar golfe. Não tenho motivação para continuar a este nível."
Este foi, pois, muito mais que um texto de homenagem, um lamento. O futebol, infelizmente, continua a ser um desporto preferencialmente para selvagens e para bestas. Em futebol, ser civilizado, possuir uma inteligência acima da média, ser cordato, educado, puro, não é importante. E não o é porque, salvo raras excepções, é um desporto de gente sem escrúpulos, para incultos, para fanáticos, para cobardes, para hipócritas, um desporto que serve para libertar o ser irracional que há dentro de cada um. Dificilmente os génios teriam lugar no meio de tanto lixo...
Escrito por Nuno às 15:11:00 163 bolas ao poste
Etiquetas: Brolin, Destaques Individuais, História do Futebol
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Clássicos: (Espanha 82 - Itália vs Brasil)
Os brasileiros apresentaram-se num 352, com Valdir Peres na baliza, Leandro na direita, Luisinho na esquerda e Óscar no meio, Cerezo e Falcão como médios-defensivos, Sócrates, Júnior e Éder à frente destes, com liberdade, e Zico e Serginho na frente. Do lado da Itália, a mesma estratégia do jogo contra a Argentina: Gentile a marcar em cima Zico. Os italianos jogaram, portanto, em 541, com Zoff na baliza, Oriali à direita, Cabrini à esquerda, Scirea, Colovatti e Gentile no meio, Tardelli e Antognoni no meio-campo, Conti à direita, Graziani à esquerda, e Rossi na frente. Apesar do esquema aparentemente defensivo, a Itália nunca deixou de procurar o ataque e, na primeira parte, o jogo foi mesmo bastante equilibrado. Logo aos 5 minutos, um cruzamento do meio da rua encontrou Rossi na área que, de cabeça, concluiu sem dificuldades. Vítima do pouco rigor defensivo, o Brasil arrancava a perder. Entretanto, já Zico levara cacetada suficiente para que Gentile estivesse a ver o jogo pela televisão. Cartões, nem vê-los. Ou melhor, viu-o, sim, mas por protestos após mais uma falta. Aliás, os cartões naquela época serviam mais para que os jogadores estivessem calados do que para proteger os artistas e o espectáculo. Antes do golo do empate, destaque ainda para um falhanço inacreditável de um avançado inacreditável. Zico recupera uma bola e vai-se a isolar; para azar seu, Serginho, um matacão sem técnica, sem velocidade, sem agilidade e sem cérebro, chega primeiro à bola e finaliza de qualquer maneira; o resultado foi um pontapé estúpido, com a bola a sair francamente ao lado e aos trambolhões, digno de um troglodita. O golo do empate nasce de novo lance de Zico, que se liberta por momentos de Gentile e efectua um passe do outro mundo a isolar Sócrates, que não perdoou. E quando o Brasil tinha tudo para ir para cima dos italianos, eis mais um erro imperdoável. Ao estilo de Secretário para Acosta, Cerezo isola Paolo Rossi que, com um remate à entrada da área, não perdoa. Até final da primeira parte, o jogo foi repartido.
Na segunda parte, o Brasil surgiu mais determinado, com Júnior e Éder, principalmente, a tentarem pegar no jogo da equipa. Depois de muito tentarem e de Zoff ter negado tudo e mais alguma coisa, eis que Falcão, com todo o tempo do mundo à entrada da área, empata a partida com um remate potente. Com este resultado, era o Brasil quem seguia em frente. Faltando menos de 20 minutos para o final, havia que fazer alguma coisa. Mas Enzo Bearzot não mexeu na equipa. Quase do nada, num pontapé de canto que sobra para a entrada da área, um remate de primeira encontra Paolo Rossi, que desvia para o terceiro golo. A partir daqui, sim, a Itália remeteu-se à defesa e ofereceu toda a iniciativa de jogo aos comandados de Telê Santana, apostando apenas no contra-ataque. Mas a falta de inspiração dos brasileiros e a segurança de Zoff haveriam de estipular que o marcador não mais se alterasse.
A Itália seguia assim para as meias-finais da prova depois de ter passado a primeira fase de grupos sem conseguir vencer adversários como os Camarões, o Perú e a Polónia. Apesar da exibição paupérrima no início do torneio, conseguia - à custa de muita sorte e favorecimento, é certo - ultrapassar um grupo complicadíssimo e ia agora ter pela frente novamente a Polónia. Como até nem tinha tido muita sorte até aqui, Boniek, a estrela polaca, não pôde jogar. A Itália venceu e seguiu para a final, sagrando-se campeã frente à Alemanha. Ilustrativo do que foi a campanha italiana foi o facto de Paolo Rossi, o melhor marcador da prova, só ter marcado golos nos últimos três jogos do torneio, três ao Brasil, dois à Polónia e um à Alemanha. De entre os destaques individuais, há a realçar, do lado da Itália, Zoff (simplesmente imperial), Tardelli e Antognoni (excelentes a pautar o jogo italiano) e Rossi, com uma mobilidade refrescante e um sentido de baliza bastante apurado. No Brasil, Cerezo (com os seus movimentos verticais, a aparecer constantemente na área a finalizar), Júnior, Éder e Sócrates (pela responsabilidade de pôr a jogar toda a equipa) e Zico (o pequeno génio, de drible curto, rápido a pensar e a executar), criminosamente anulado nesta partida por um dos mais facínoras defesas de todos os tempos.
Escrito por Nuno às 01:15:00 10 bolas ao poste
Etiquetas: Clássicos, Gentile, História do Futebol, Zico
domingo, 1 de junho de 2008
Por que é que as coisas são como são? (2)
Gláucon: Ó Sócrates, este Kuyt é mesmo bom jogador.
Sócrates: É interessante. A escola holandesa é fértil em grandes avançados.
Gláucon: É verdade! Assim como a italiana. Por que será que assim é?
Sócrates: Esse problema tem explicação nas características de ambos os campeonatos. Embora por razões diferentes, está no carácter do futebol destes dois países a explicação para tamanha fecundidade em avançados.
Gláucon: Não sei se te entendo. Pretendes que é por causa do estilo de futebol que se pratica num determinado país que os jogadores que crescem nesse país são diferentes, de uma forma geral, dos jogadores que crescem noutro país?
Sócrates: Sim, é isso mesmo.
Gláucon: Não sei se concordo. Não terá antes a ver com questões culturais, históricas, económicas, político-sociais?
Sócrates: Evidentemente.
Gláucon: Então como concilias as duas coisas?
Sócrates: As duas coisas não se excluem. Os jogadores serão o resultado de um processo cultural, mas também o resultado de uma necessidade inerente ao próprio futebol em que estão incluídos.
Gláucon: No Brasil isso é assim?
Sócrates: No Brasil todos jogam à bola na rua. Os jogadores têm a sua aprendizagem nas ruas, por imitação dos mais velhos, e têm liberdades que outra aprendizagem não permitiria. Na rua, cada um quer ser o melhor; cada um pega na bola e tenta fazer coisas inigualáveis. Não interessa que a equipa seja a melhor. Quando chegam aos escalões mais velhos, estes jogadores têm por bagagem uma capacidade individual notável, mas pouca ou nenhuma cultura táctica. Além disso, psicologicamente, têm tendência a privilegiar as acções individuais às do colectivo. É por isso que o Brasil, apesar das grandes quantidades de jogadores, produz poucos guarda-redes ou defesas. Na rua, esses são apenas os "outros", aqueles que os virtuosos tendem a ultrapassar. Num futebol sem espírito colectivo, sem noção de colectivo, como é o futebol de rua, há tendência a formar jogadores de grande qualidade técnica, que conduzem bastante bem a bola, que fintam. Uma boa observação do futebol brasileiro permite perceber certas tendências...
Gláucon: E que tendências são essas?
Sócrates: Além de poucos defesas, de poucos guarda-redes de qualidade, o Brasil também não é fecundo em médios-defensivos. Os jogadores que se destacam pelos aspectos defensivos raramente se tornam jogadores de topo. Já em médios ofensivos, avançados (sobretudo avançados ágeis), abundam as opções.
Gláucon: Mas então como explicas que o Brasil, com tantos talentos individuais, não produza extremos de craveira mundial, ó Sócrates?
Sócrates: Bem observado. A aprendizagem do jogador brasileiro, como referi, faz-se através do individualismo. Isso implica, além de querer fazer coisas extraordinárias com a bola, uma tentativa de participar constantemente no jogo. O jogador brasileiro, porque individualista, não percebe, durante toda a aprendizagem, que a construção ofensiva é feita em várias fases e que a cada jogador está destinada uma parcela dessa construção. Como tal, procura ser ele a fazer tudo, deslocando-se no terreno em função da posição da bola. Porque procuram sempre ter a bola, as suas movimentações são de aproximação a ela e não de afastamento. Assim, o jogador brasileiro gosta muito mais de ocupar espaços centrais, por onde a bola passa mais vezes, do que de se desmarcar pela linha, à espera de um passe longo de um colega. A actividade de extremo, meramente passiva em grande parte da construção ofensiva, não se coaduna com as raízes individualistas e egocêntricas do jogador brasileiro. Daí haver poucos jogadores de linha e muitos para o meio do terreno.
Gláucon: Mas o Brasil produz os melhores laterais do planeta. Como explicas isto, ó Sócrates?
Sócrates: Assim é. A abundância de jogadores habilidosos faz com que nem todos sejam médios de ataque. Os mais velozes e potentes terão de ocupar outras posições, preferencialmente nas alas porque mantêm características técnicas que lhes permitem subir com facilidade e integrar-se no ataque. O lateral brasileiro, porque a sua aprendizagem o cunhou com a vontade de participar no jogo atacante, é muito ofensivo e, por conseguinte, descuidado a nível defensivo.
Gláucon: E como explicas que raramente se encontre um jogador brasileiro cerebral, que paute o jogo da equipa, que não entre em dribles excessivos, que ocupe bem os espaços e que faça fluir o futebol ofensivo?
Sócrates: Pelas mesmas razões que não há extremos. O jogador brasileiro cresceu a fintar os outros; foi ensinado a tentar resolver as coisas sozinho. Um jogador com as características que referes é um jogador que privilegia o colectivo, que põe as suas características ao serviço da equipa e que faculta a outros mais dotados a possibilidade de desequilibrarem.
Gláucon: Não sei se estou convencido. De qualquer maneira, o futebol brasileiro de que falas é então um futebol que se explica por questões culturais. Em que medida é que um certo tipo de futebol, que se molda por necessidades inerentes ao seu estilo próprio, modela os jogadores consoante essas necessidades?
Sócrates: No Brasil, isso não parece acontecer, de facto. Aliás, na Argentina passa-se algo semelhante. Nos países em que a formação a nível dos clubes é negligenciada, os jogadores formam-se sozinhos. Sobressai, portanto, nestes países, a individualidade. Acontece, então, que ao nível sénior o futebol não assenta em bases estritamente colectivas. O futebol nestes países nunca deixa de ser um futebol de rua. É um jogo entre duas equipas apenas na medida em que onze jogadores têm missões opostas a outros onze. Mas raramente se joga em equipa. As equipas brasileiras são equipas apenas na medida em que cada um dos seus jogadores tem por objectivo colaborar para o sucesso do conjunto. Mas o futebol brasileiro é desconexo: cada um tem a liberdade de fazer o que bem lhe apetecer. Há espírito de entreajuda na medida em que querem todos o mesmo, mas sobressai uma vontade individual que não se pode conciliar com os objectivos da equipa. Nos países que formam jogadores deste tipo, os campeonatos são muito pouco racionais e ganha, geralmente, a equipa que tiver as melhores unidades. Neste tipo de campeonato, que assenta num futebol individualista (e por individualista entendo não o ser egoísta, mas sim não possuir um espírito colectivo relevante) o nível táctico tem pouca importância. Um futebol tacticamente pobre nunca pode moldar jogadores no sentido que refiro.
Gláucon: Aceitas então que o jogador brasileiro é consequência apenas de um processo cultural?
Sócrates: Sim e não. Digo que sim porque é esse mesmo processo cultural que impede que o futebol brasileiro se desenvolva ao ponto de necessitar de jogadores com características específicas. Mas também digo que não porque, como é pobre a nível táctico, impera a individualidade e os jogadores mais adequados são aqueles que tenham maior desenvoltura individual. Porque o futebol brasileiro aprecia sempre os que se desembaraçam melhor sozinhos, produz jogadores individualmente muito fortes. O futebol brasileiro, pela cultura em que se insere, necessita e molda jogadores que melhor se adequem à realidade brasileira, ou seja, jogadores individualistas, capazes de resolver jogos sozinhos, que conduzem bem a bola, mas tacticamente desinstruídos e sem um verdadeiro espírito colectivo. É assim o estilo de futebol do Brasil (fundado pelas condições culturais do país, como é óbvio) que faz com que os jogadores brasileiros tenham certas características.
Gláucon: Isso não me parece muito fácil de perceber. Mas ainda não explicaste, ó Sócrates, por que é que a Holanda produz tantos avançados.
Sócrates: Tens razão. Mas não preciso de muito tempo para o fazer.
Gláucon: Tenho para mim que o futebol holandês produz muitos avançados de qualidade porque, tacticamente, é um futebol de orientação ofensiva. Num futebol assim, destacam-se sempre os avançados. É assim, ó Sócrates?
Sócrates: Não inteiramente. Nesse caso, o futebol inglês, que também é um futebol ofensivo, também produziria atacantes de grande nível com a mesma frequência. E assim não é, pelo menos nos últimos tempos.
Gláucon: Creio que tens razão. Então como explicas isso? E, já agora, como explicas que, tanto o futebol holandês, virado para o ataque, como o futebol italiano, virado para a defesa, produzam grandes atacantes? Não é contraditório?
Sócrates: Não. Não é o facto de ser um futebol ofensivo ou defensivo que vai talhar os jogadores, mas aquilo que cada estilo de futebol exige deles. O futebol holandês, desde há várias décadas, privilegia não só um futebol iminentemente ofensivo, como a materialização dessa filosofia de ataque através de um jogo colectivo. Ao contrário de outros países em que se joga igualmente ao ataque, como nos países sul-americanos, por exemplo, ou em Inglaterra, na Holanda o ataque assenta não nos jogadores, não nas individualidades, mas no conjunto.
Gláucon: E que significa isso?
Sócrates: Significa isso que, na Holanda, os avançados tendem a trabalhar as situações ofensivas com uma ideia de colectivo sempre presente. Dessa forma, evoluem segundo rotinas de futebol apoiado, privilegiando situações como as tabelas, as triangulações, o passe curto. Porque o futebol holandês coloca bastantes homens no processo ofensivo, os avançados holandeses têm tendência a trabalhar aspectos como a rapidez de raciocínio. Porque num futebol ofensivo implica haver menos espaços para jogar nas zonas ofensivas, os avançados holandeses tendem a aprender, desde cedo, outras formas de contornar os colectivos adversários. Não havendo muito espaço, porque as transições não são rápidas, os avançados holandeses evoluem sem privilegiar as acções individuais, quase sempre infrutíferas. São, assim, verdadeiramente, jogadores de colectivo, que trabalham desde pequenos para encontrar soluções ofensivas enquanto inseridos num colectivo.
Gláucon: E é esse trabalho específico que os modela?
Sócrates: Com efeito. É por causa de trabalharem, desde muito novos, esses aspectos, que adquirem essas características.
Gláucon: E no futebol italiano? Como explicas então, ó Sócrates, que o futebol italiano também produza grandes avançados? Não é contraditório, uma vez que a orientação do seu futebol é muito mais defensiva do que na Holanda?
Sócrates: Como disse, caro Gláucon, não é por um futebol ter uma orientação ofensiva ou defensiva que terá mais ou menos avançados de qualidade. O futebol inglês tem uma orientação ofensiva e ainda assim não produz avançados de grande nomeada. Isso deve-se ao facto de o futebol inglês, embora assente num estilo directo, ser muito pouco equilibrado. Nas transições defesa-ataque, a equipa que ataca encontra sempre muitos espaços entre as linhas adversárias, que está invariavelmente descompensada. Por causa dessa deficiência táctica, os jogadores têm mais espaço para jogar, não necessitando de aperfeiçoar certos aspectos técnicos como o drible curto ou o raciocínio rápido. Porque o futebol em Inglaterra é jogado a muita velocidade e há sempre muito espaço para jogar, o avançado inglês não encontra, ao longo do seu processo de formação, necessidade de se modificar. O estilo inglês implica apenas que trabalhe a velocidade, o poder de choque e a agressividade, o que é evidentemente insuficiente perante estilos de futebol mais fechados. Como os processos ofensivos em Inglaterra são muito simples, os seus avançados não trabalham senão o mais simples possível, ficando aquém de avançados de outros países por isso mesmo.
Gláucon: Percebo. Mas ainda não explicaste por que razão, então, em Itália também se produzem grandes avançados. E, de acordo com o que pretendes do futebol inglês, não é também contraditório que em Itália, onde o estilo também é muito directo, como em Inglaterra, haja avançados de grande qualidade?
Sócrates: Compreendo a tua relutância, Gláucon. Mas creio que continuas sem me perceber. Não é nem o pendor ofensivo/defensivo de um futebol nem o modo como se definem as transições defesa-ataque que definem o estilo de um futebol e o tipo de jogador que se forma nesse futebol. Em Itália, de facto, as transições são relativamente semelhantes às de Inglaterra, muito directas, simples, procurando chegar à frente de forma rápida. As diferenças, contudo, são relevantes.
Gláucon: E que diferenças são essas?
Sócrates: Em Itália, embora a primeira transição seja, normalmente, a procura dos jogadores mais adiantados, não se coloca tanta gente no processo ofensivo. Daqui resulta que as equipas se desequilibram menos e que os ataques estejam, quase sempre, em inferioridade numérica perante as defesas.
Gláucon: É por causa disso que o futebol italiano é tão fechado?
Sócrates: Com certeza. Há a preocupação, em Itália, de as equipas nunca se exporem desnecessariamente. Isto implica que o futebol transalpino se divida em dois momentos claros: o defensivo e ofensivo. As equipas defendem para depois lançarem os seus avançados; há jogadores para defender (mais) e jogadores para atacar (menos). Isto faz com que, passando para o momento ofensivo, os atacantes necessitem de se desembaraçar sem uma rede de apoios. Por causa desta necessidade de resolverem as coisas sozinhos, sem o apoio colectivo, os avançados italianos desenvolvem características individuais relevantes, como seja a capacidade de segurar e proteger a bola, nalguns, ou o drible curto, noutros, ou a capacidade de desmarcação, noutros ainda. O avançado italiano, porque em inferioridade numérica perante defesas que nunca se desmontam, evolui por necessitar de arranjar soluções individuais com que resolver os seus problemas.
Gláucon: De facto, Sócrates, a tua explicação faz sentido. Segundo o teu argumento, tanto na Holanda como em Itália, produzem-se grandes avançados, mas por razões diferentes.
Sócrates: Exactamente. Por razões diferentes, mas inerentes a cada um dos estilos de futebol.
Gláucon: E em que pé ficam as razões sócio-culturais?
Sócrates: As razões sócio-culturais podem interferir na evolução de um jogador e presidir ao estilo de futebol de um país. Desse modo, podem relacionar-se indirectamente com o tipo de jogadores que se formam nesse país. Mas as características desses jogadores serão sempre resultado de uma necessidade de adaptação ao estilo de futebol que se pratica nesse país. Nesse sentido, é unicamente o estilo de futebol praticado, influenciado, é certo, por razões sócio-culturais, que vai exigir a evolução dos jogadores.
Gláucon: De certa forma, então, tens para ti que os jogadores evoluem apenas por necessidade de adaptação?
Sócrates: Sim, sem dúvida.
Gláucon: É esse um ponto de vista darwiniano?
Sócrates: Creio que sim, embora de forma um pouco vaga. É o ambiente (estilo de futebol) que rodeia as espécies (jogadores) que vai determinar quais das espécies são mais aptas à sobrevivência. Aqueles que melhor se adaptarem às exigências do ambiente são os que sobrevivem. Esses vão evoluir no sentido de se adaptarem cada vez melhor às exigências, enquanto que os outros vão cair no esquecimento. Esta adaptação às exigências é o que os torna melhores, no fundo. Uma vez determinada esta qualidade, as gerações seguintes vão evoluir no mesmo sentido. Evidentemente, características como a qualidade futebolística não passam geneticamente de geração para geração, pelo que não se pode falar de selecção natural como Darwin. Mas o facto de a sobrevivência ser limitada apenas àqueles que souberem adaptar-se às exigências é, por si só, uma forma de selecção. Não sendo uma selecção natural, porque não é definida por características inatas, é ainda assim uma selecção com base na sobrevivência dos mais aptos. Nesse sentido, creio, os jogadores evoluem de um ponto de vista darwiniano, sendo que os ambientes mais agressivos, mais competitivos, são os que produzem melhores espécimes.
Gláucon: Para resumir o teu argumento, ó Sócrates, Itália e Holanda são então, por razões diferentes , é certo, os habitats mais exigentes para os avançados?
Sócrates: Sim, exactamente. E é essa exigência que vai fazer com que esses avançados sejam, por norma, os de melhor qualidade.
Gláucon: Gosto dessa explicação, ilustre Sócrates. Estou uma vez mais rendido...
Escrito por Nuno às 16:09:00 17 bolas ao poste
Etiquetas: Futebol Brasileiro, Futebol Holandês, Futebol Inglês, Futebol Italiano, História do Futebol, Por que é que as coisas são como são?, Raciocínios Tácticos
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Clássicos: (Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique)
No segundo tempo, Artur Jorge lançou Juary, tirando Quim. Puxou Sousa para a esquerda e o brasileiro passou a fazer companhia a Futre na frente. Isto teve o condão de soltar mais o 10 portista, que começou a pôr em água a cabeça aos alemães. Já na primeira parte fora travado em falta várias vezes, mas nesta segunda parte seria ainda mais castigado. O Bayern, apesar da maior audácia portista, nunca se enervou e continuou a controlar a partida. Os primeiros 25 minutos da segunda parte foram repartidos e nenhuma equipa se superiorizou à outra, acumulando-se jogadas de ataque nos dois meios-campos. De assinalar, nesta fase, um excelente remate de Madjer, após um ressalto, que levou a bola a sobrevoar a barra da baliza, bem como um lance na área portista, em que João Pinto derruba Kögl e o árbitro não vê. Logo após este lance, surge a melhor jogada de todo o encontro, iniciada numa tabela de Futre com Jaime Magalhães. O 10 do Porto, recebendo a bola de Jaime, entra então na área com ela dominada, ultrapassa dois adversárias, sentando-os, e remata a rasar ao poste direito da baliza de Pfaff: era o sinal do que viria a seguir. Antes ainda da reviravolta no marcador, nota para uma entrada assassina de Celso, que viu apenas amarelo; para um lance anedótico em que Celso trava Kögl e no qual o árbitro, em vez de dar o segundo amarelo ao central portista, assinala falta contra o Bayern por interpretar que o extremo alemão mergulhara; e para uma sucessão de faltas e de protestos de Jaime Magalhães que lhe poderiam ter valido o segundo amarelo. Artur Jorge faz então entrar Frasco e, minutos depois, numa altura em que o Bayern até já sacudira a maior pressão dos portugueses, um passe em profundidade encontra Juary, que toca pela segunda vez na bola durante os 30 minutos que já estava em campo; este dá para Frasco, que tira um adversário do caminho e cruza; a bola encontra novamente Juary, que remata; o remate vai encontrar Madjer que, de costas para a baliza, já sem Pfaff, utiliza o calcanhar para igualar a partida. Após este lance, Madjer saiu do terreno para ser assistido e, ao reentrar, cria um desequilíbrio na esquerda. Recebe um passe longo, dá um nó de todo o tamanho em Winklhofer e, já em esforço, cruza para Juary que, sem oposição, encosta para o 2-1: estava dada a volta no marcador. Até ao final, o Porto limitou-se a pontapear a bola para onde estava virado e a queimar tempo, sendo que os germânicos perderam todo o discernimento que tinham e não foram capazes de voltar a criar situações de real perigo.
Notas Finais:
1) O Porto venceu num jogo em que foi claramente inferior, aproveitando um lance fortuito e uma desconcentração germânica para marcar. Além de Futre, que conseguiu sempre, através da sua técnica e da sua velocidade, ameaçar as hostes alemãs, e de alguns pormenores de Madjer e Sousa, pouco ou nada o Porto fez para merecer igualar o marcador. Em termos tácticos, os alemães foram superiores até à altura em que sofreram dois golos de rajada, nunca perdendo o domínio dos acontecimentos, gerindo ritmos e conseguindo levar o jogo para longe da sua área. Foi, pois, em pequenos detalhes que o jogo se definiu. Poder-se-ia dizer que as opções de Artur Jorge foram acertadíssimas, mas nem isso é bem verdade. Até à altura do primeiro golo, o Porto da segunda parte limitou-se a chutar bolas para as costas da defesa do Bayern, a solicitar a velocidade de Juary, sendo que os lances raramente assustavam os germânicos. O brasileiro, que acabou por ser decisivo e esteve nos dois golos, tocou três vezes na bola em 33 minutos, o que revela que não teve muito a ver com a vitória. Os lances dos golos nada tiveram a ver com uma mudança de atitude ou com uma melhoria do futebol do Porto: foram lances isolados e o êxito dos mesmos deveu-se a um ou outro detalhe, como o facto de Madjer, no lance do segundo golo, não estar marcado por ter acabado de reentrar na partida.
2) O homem da partida foi Ludwig Kögl, que não parou um minuto e levou tanta ou mais porrada que Futre. Do lado dos germânicos, há ainda a destacar a excelente exibição de Matthäus e alguns pormenores de Rummenigge (irmão de Karl-Heinze Rummenigge), enquanto que no Porto os melhores foram Futre, Madjer e Sousa.
3) Nota negativa, do meu ponto de vista, para Jaime Magalhães, que passou o jogo a refilar e só não foi expulso porque o árbitro não quis, que teve uma entrada maldosa sobre Kögl, já com um amarelo, não tendo ido para a rua uma vez mais por caridade, e que, depois do 2-1, sempre que o árbitro interrompia o jogo, ia a correr e dava uma biqueirada na bola para o mais longe possível, sem sofrer as devidas consequências desse comportamento.
4) A estratégia inicial de Artur Jorge revelou-se perfeitamente errada e o Porto só não foi para o intervalo com uma desvantagem maior por manifesta incompetência dos avançados alemães na hora da finalização. Além disso, o lance do penalty na área do Porto poderia ter sentenciado o jogo.
5) Fica, pois, para a História, um Porto desconhecido que vergou e humilhou o arrogante colosso alemão. Fica para a História um Golias caído aos pés de um David. E o que a História nos deixou, aquilo que fica, é que o Porto foi um justo campeão. Ainda que a outra história, com "h" pequeno, a história do jogo, tenha sido um pouco diferente daquilo que a História com "H" grande preservou.
Escrito por Nuno às 17:00:00 21 bolas ao poste
Etiquetas: Clássicos, Competições Europeias, Futre, História do Futebol, Porto
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Sofismas à parte...
Quando hoje vejo as constelações de estrelas que se agrupam no céu da Premiership, é-me impossível não comparar a actualidade deste campeonato com o da Liga Italiana, há mais de uma década. Nessa altura, não hesitaria em eleger o futebol italiano como o meu predilecto. Era deste campeonato que emergiam as figuras que invadiam a minha imaginação, ou inspiração, quando dava os meus pontapés na bola. Mais do que no futebol português, era no futebol italiano que eu descobria as minhas referências: Del Piero, Baggio, Van Basten, Rijkaard, Gullit, Maldini, Savicevic, Sousa, Baresi, Brolin, entre outros.
Nos torneios internacionais, na ausência da nossa selecção, “sofria” sempre pela turma transalpina. Mesmo que aquela equipa recheada de talentos não jogasse a ponta de um corno, era sempre por eles que eu torcia. Sabe Deus o quanto eu amaldiçoei a selecção brasileira, depois do “fatídico” penalty de Baggio.
Entretanto, fui desenvolvendo um maior interesse pelo futebol e, assim que ia trilhando a minha formação, enquanto praticante deste desporto, fui perdendo encanto por aquele futebol que, outrora, me entusiasmara mais até do que os "raides" de Figo, as simulações de Balakov e Costa, a classe de Xavier e Valdo, a elegância desse “desprezado” do futebol nacional, Fernando Nelson, não esquecendo Barbosa, esse louco. Aborrecia-me tanta monotonia, tanta tristeza.
À medida que os desaires da Squadra Azurra se acumulavam, a assimetria de êxitos alcançados pelos clubes italianos e a selecção Italiana intrigava-me. Talento e espírito competitivo eram coisas que não faltavam, assim como a ideia de uma demarcada superioridade táctica. Olhando para trás, é fácil explicar este fenómeno. As equipas italianas tinham os melhores jogadores; qualquer jogador que desse dois pontapés na bola, desejava o Calcio, nada menos. A nível interno, a competitividade era ditada pelo poderio económico dos clubes: o que tivesse o maior número de bons jogadores e os mais adaptados, vencia.
O futebol inglês passa pela mesma fase. A diferença é que não é tão organizado, embora, por outro lado, os jogadores desfrutem de uma maior “alegria”, que lhes permite uma maior performance individual. Para além de ser, enquanto espectáculo, muito mais apelativo. Não será o futebol italiano muito mais rico, do ponto de vista técnico-táctico, e, por isso mesmo, mais interessante, para quem gosta de compreender os modelos e sistemas de cada equipa? A meu ver, a diferença entre as duas realidades, é exígua. Estará mais relacionada com questões culturais, do que com questões tácticas. O futebol italiano, baseado, acima de tudo, numa cultura de medo (até por questões sociais), procura o êxito através do menor risco possível, da forma mais pobre. Paulo Sousa alerta, no prefácio do livro de Luís Freitas Lobo, O Planeta do Futebol, para os efeitos nefastos de tal mentalidade. A obsessão em atingir resultados positivos a qualquer custo tornou-se um obstáculo demasiado elevado para a evolução do seu futebol.
Sousa fala da “ cultura do resultado” que se instalou, o que levanta a seguinte questão: se o resultado é o mais importante e se é em busca de resultados que todas as equipas definem as suas estratégias, e se durante um largo período o domínio italiano foi uma realidade, que falhou então? Como se poderá falar do futebol italiano como algo tão obsoleto, se enquadrarmos nesse futebol treinadores como Trapattoni, Capello, Lippi, etc? A resposta encontra-se na “mescla” entre os grandes talentos mundiais que durante muitos anos tinham como destino, na maioria das vezes, Itália, e uma mentalidade calculista e extremamente defensiva, que resultou numa excelente organização defensiva, deixando, todavia, os processos ofensivos numa posição muito menos cuidada, quase rudimentar. O facto de terem grandes talentos tapou, durante muitos anos, esta lacuna.
Das equipas italianas diz-se que são muito tácticas, o que eu discordo. São muito defensivas? Sim! Desequilibradas? Sim! Extremamente profissionais e minuciosos, na maneira como abordam o jogo? Sem dúvida! Não nego que, num passado, que já não é assim tão recente, se pudesse falar nalguma superioridade táctica, por parte do futebol italiano, mas na maneira como concebo o futebol, a maneira como se defende é tão importante como se ataca; mais, acredito que a forma mais evoluída de explorar tacticamente o potencial de uma equipa passa, inquestionavelmente, por não separar os vários momentos da equipa, sejam eles, especulativos, ofensivos, ou defensivos.
A evolução humana explica-se, substancialmente, pela necessidade. O futebol não é diferente. Os objectivos que se esgotam numa coisa tão fortuita como uma bola na trave, uma tarde desinspirada, arriscam-se a colocar em causa, e de forma rápida, toda uma época de trabalho, pois, retirando-se os resultados, estas equipas ficam sem nada. Por isso, defendo que a principal preocupação das equipas será sempre jogar bem, porque jogar bem (o meu jogar bem) implica que uma equipa seja equilibrada, que tenha uma atitude positiva de jogo, que não se alheie dos seus objectivos delineados, que queira progressivamente, jogo após jogo, ser mais “ dona” dos seus jogos. Só assim uma bola na trave não vai colocar uma semana, ou mês, ou época em causa, se eu souber que no fim, mesmo perdendo o jogo, estou mais perto dos objectivos da equipa, por mais utópicos que sejam.
Escrito por Gonçalo às 19:15:00 19 bolas ao poste
Etiquetas: Futebol Inglês, Futebol Italiano, História do Futebol, Raciocínios Tácticos
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Clássicos: (Itália 90 - Alemanha vs Argentina)
... proponho assim iniciar uma nova rubrica: os Clássicos da História do Futebol. Porque nunca é de mais relembrar o passado, eis a resenha histórica de alguns jogos que jamais deverão ser esquecidos. Como estreia, proponho a análise detalhada, tanto quanto possível, da final do Mundial de Itália, em 1990, que opôs a mítica Argentina de Maradona, campeã do mundo em 1986, e a fria Alemanha, capitaneada por aquele que, após duas finais perdidas, em 82 e 86, haveria finalmente de tirar a barriga de misérias: Lothar Matthaus.
Quatro anos depois da final do México, Argentina e Alemanha voltariam a degladiar-se na final de um mundial, desta feita em terras que Maradona tão bem conhecia, na sua segunda pátria, a Itália. Por ter eliminado a selecção italiana, Maradona e a Argentina haveriam de jogar esta final sob um coro de assobios. Reunindo o apoio do público e uma mentalidade mais ofensiva que a sua congénere das pampas, a selecção germânica dominou praticamente todo o desafio, à excepção dos últimos vinte minutos da primeira parte, altura em que a formação liderada por Carlos Bilardo conseguiu equilibrar a contenda.
A Alemanha dispôs-se num 442 clássico, com Bodo Ilgner na baliza, Thomas Berthold a defesa-direito e Andreas Brehme, aquele que viria a decidir o mundial, como defesa-esquerdo; os centrais eram Klaus Augenthaler e Jurgen Kohler, apoiados nas tarefas defensivas pelo impetuoso médio-defensivo Guido Buchwald; as restantes posições no meio-campo eram ocupadas por Thomas Hassler à direita, Pierre Littbarski à esquerda e Lothar Matthaus ao meio; na frente, jogavam em cunha Rudi Voeller e Jurgen Klinsmann. O estilo rectilíneo e de transições velozes, o futebol objectivo, centrado na baliza, ajudariam ao domínio da partida. Já a Argentina actuou de forma pouco organizada, retraída, raramente avançando as suas linhas e dando a iniciativa de jogo à formação germânica. Com Maradona, o jogador mais imprevisível, preso a posições demasiado avançadas, a formação sul-americana foi totalmente manietada pelo futebol mais adulto dos europeus. Sem organização táctica, com posições pouco definidas e demasiada leviandade permitida aos seus jogadores do meio-campo, a Argentina nunca teve consistência e as oportunidades junto da sua área foram-se acumulando. A equipa apresentou-se com um esquema de três defesas, mas a anarquia do meio-campo suscitou variações. O guarda-redes era Goycochea, os defesas Oscar Ruggeri, Simón e José Serrizuela; no meio-campo, Troglio incumbiu-se do lado direito, permutando não raras vezes com Sensini, que ocupava o centro com Basualdo; na esquerda, posicionou-se Lorenzo, que desceu muitas vezes para a defesa; Burruchaga era o vagabundo, aparecendo ora no centro, ora na esquerda, ora na direita, equanto Maradona fazia companhia no ataque a Dezotti.
O 352 da Argentina, pouco flexível, e com as linhas demasiado baixas, implicava 8 jogadores atrás da linha da bola. Isto deu a iniciativa de jogo à Alemanha, cujos centrais e Buchwald tinham demasiado espaço para manobrar. A pressão alta dos germânicos também foi eficiente e a Argentina raramente conseguiu sair a jogar com qualidade. O destaque, nas primeiras transições, vai para Basualdo, o mais criterioso e elegante dos médios. Burruchaga andou sempre perdido no campo e, apesar de tecnicamente muito dotado, foi sempre pouco lesto a desembaraçar-se da bola. Maradona, na frente, poucas bolas recebeu, apesar de todo o futebol dos argentinos passar por endossar a bola ao seu capitão. Insistindo em lançamentos longos para Maradona, que se encontrava preso entre os centrais e Buchwald, a Argentina raramente conseguiu chegar perto da baliza de Ilgner. Só a partir dos 25 minutos da primeira parte é que a equipa se soltou e Basualdo, juntamente com um ligeiro recuo de Maradona e a participação mais correcta de Burruchaga nos lances, comandaram as ofensivas. A formação alemã, ainda que menos dominadora neste período, continuou a ter um futebol sério, fiel aos seus princípios tácticos, e a sair para o ataque de forma veloz, maior parte das vezes por iniciativas de Hassler ou de Littbarski. Andreas Brehme integrou-se igualmente bem no ataque e, além de bons lances pela esquerda, apareceu em zona de remate, à entrada da área, várias vezes, causando situações de pânico para os sul-americanos.
A segunda parte foi inteiramente dominada pelos germânicos. Bilardo deixou nas cabines Ruggeri e fez avançar o gigante Monzon. O futebol da Argentina, cada vez mais medíocre, permitiu que a Alemanha dominasse o encontro. A segunda parte começou praticamente com um lance individual de Littbarski, que passou por dois argentinos e, à entrada da área, rematou forte a rasar o poste. Surgiu mais em jogo, neste período, o capitão Matthaus que, apesar de ser o maestro da equipa, raramente tinha comandado os ataques na primeira parte. Embora não construindo muitas oportunidades de golo, os germânicos encostavam cada vez mais os argentinos atrás, até que se deu o lance capital do encontro. Numa entrada completamente absurda, Monzon ceifou Klinsmann e o árbitro não hesitou em expulsá-lo. Com menos um elemento, a Argentina baixou ainda mais e Maradona passou a pisar terrenos mais recuados. Por esta altura, já o meio-campo alemão era um imenso deserto. Num lance em que, mais uma vez, o espaço na zona central do terreno era muito, Matthaus faz um passe a rasgar para Voeller, que cai na área em disputa com Sensini. O árbitro aponta para a marca de grande penalidade, mas equivoca-se. Andreas Brehme marca o único golo da partida e a selecção das pampas, se já não conseguia sair para o ataque com nexo, perde todo o norte. Poucos minutos depois, com o jogo interrompido, Dezotti tenta apressar a devolução da bola ao local de uma falta e puxa Kohler, que escondia a bola. O gesto ostensivo do argentino e a simulação do defesa alemão fizeram com que o árbitro expulsasse mais um jogador sul-americano. Irados, os argentinos rodearam o árbitro, empurrando-o e encostando-lhe a cabeça. Vindo por trás, Maradona pareceu, numa primeira instância, ter a mesma vontade que os seus companheiros, mas conteve-se, abriu os braços, afastou os colegas, dizendo que ele é que iria falar com árbitro, protegendo-o, e recebeu, imagine-se, um cartão amarelo. Até final, a Argentina limitou-se a ver os alemães a trocar a bola e a desperdiçar, pateticamente, duas ou três oportunidades de baliza aberta.
Mais tarde, Maradona viria a dizer que lhe tinham roubado o título. Não sei até que ponto o árbitro agiu ou não de má fé, mas a verdade é que a Alemanha foi claramente beneficiada. Sendo, apesar de tudo, a equipa que mais jogou e que mais fez por ganhar, o penalty é inexistente e a segunda expulsão é um equívoco. Mas, creio, o gesto mais suspeito do árbitro, foi aquele cartão amarelo para Maradona, quando o astro argentino fora o único de entre os sul-americanos que defendera a autoridade do árbitro. Além de tudo isto, Buchwald merecia ter sido expulso, pelo menos, três ou quatro vezes. A entrada dura de Monzon era, claramente, para vermelho, mas Buchwald teve entradas idênticas que nem amarelo lhe valeram e ainda deu uma cotovelada sem bola em Maradona. Apesar de todos estes episódios, a vitória ficou com quem praticou melhor futebol e com quem encarou o jogo de forma mais inteligente.
Depois da análise do jogo em si, queria, à laia de nota de rodapé, fazer referência a alguns factos importantes. Comparando o futebol da final daquele que ficou conhecido como o mundial mais mal jogado de sempre com o futebol actual, são evidentes todas as evoluções que a modalidade teve. Os jogadores, de uma forma geral, são mais refinados a nível técnico, são mais inteligentes, são capazes de solucionar problemas mais difíceis. No fundo, estão mais preparados a todos os níveis e foram modelados segundo uma exigência muito maior. Porque tiveram necessidade de se adaptar a um futebol mais "difícil" (o futebol dos dias de hoje), os jogadores actuais são melhores, em termos comparativos: qualquer jogador de nível mediano hoje seria um grande jogador naquela altura. Ainda assim, há os casos extraordinários. Maradona era um fora-de-série, um jogador incomparável, dotado de uma capacidade técnica inigualável e de uma imaginação poderosíssima. Basualdo e Burruchaga são os outros nomes que me apraz salientar na Argentina daquela época. Mas, os restantes eram jogadores medíocres, visivelmente pior preparados do que os jogadores actuais. Na Alemanha, destaque para a maturidade de todo o conjunto e para a qualidade de Matthaus, cerebral e competente, Hassler, velocíssimo e tecnicamente muito forte, Littbarski, poderoso no um para um, e Brehme, um lateral de índole ofensiva com um remate espantosamente certeiro e potente. Destaque, pela negativa, para Voeller e Klinsmann. Muito disponíveis, a aparecerem muito bem em zonas de finalização, rápidos, móveis, mas pouco inteligentes. Eram jogadores unicamente para finalizar e, mesmo nesse capítulo, sobretudo Klinsmann, era pouco frio. Raramente tabelavam com os colegas, eram tecnicamente muito deficientes e tinham pouca imaginação. De salientar ainda, uma substituição francamente incompreensível: com mais um homem e o jogo ainda empatado, com a Argentina completamente remetida para a sua zona defensiva, Franz Beckenbauer substituiu o lateral-direito Berthold por outro lateral-direito, Reuter. Aquilo é que era correr riscos, naquela altura...
Outra coisa da qual gostaria de falar era da possibilidade de se atrasar a bola para o guarda-redes. Só ao rever um jogo desta altura me pude aperceber que consequências trouxe essa regra. Até aqui, pensei sempre que a principal consequência era a impossibilidade de se queimar tempo atrasando a bola para o guarda-redes, mas houve algo muito mais importante que passou a suceder. A pressão alta, feita nos últimos defesas, só ganhou verdadeira expressão após esta regra. Porquê? Porque antes não tinha a mesma eficácia que agora. Podendo o defesa atrasar a bola para o guarda-redes, pressionar alto era quase inútil, uma vez que os defesas, sentindo-se ameaçados, podiam sempre recorrer ao guarda-redes, enviando-lhe a bola. É também por esta regra que se explica que o "catennacio", que o futebol defensivo tenha perdido eficácia. Defender em bloco baixo, na altura, era quase a solução mais prática, pois não havia muito a ganhar em defender mais alto. Hoje em dia, há essa possibilidade e tudo passou a ser diferente.
Como último reparo, gostaria de deixar claro que, ao contrário do que alguns palermas me quiseram fazer crer, Matthaus não passou os 90 minutos a marcar individualmente Maradona. Quando confrontado com essa hipótese, a minha intuição e a minha memória disseram-me que Matthaus era, à época, o médio organizador da selecção, sendo por isso praticamente impossível que fosse sacrificado para marcar o astro argentino. Não tendo a certeza absoluta desta intuição, concedi a razão a quem, com tantas certezas, alardeava o contrário. Após ver o jogo, percebi que todas essas supostas certezas caíam em saco roto e que Maradona, além de não ter sido marcado em cima por Matthaus, não teve qualquer espécie de marcação especial. O jogador com quem mais se cruzou em campo foi o médio-defensivo Buchwald. Com Matthaus, Maradona apenas se cruzou uma vez, numa altura em que a Argentina jogava com menos um e que, por causa disso, recuara ainda mais, dando-se o lance no meio-campo. Matthaus jogou como médio-ofensivo, nunca pisando os mesmos terrenos que Maradona, mas havia quem mo jurasse a pés juntos. Essa pessoa não possuía, afinal, qualquer razão, o que me faz acreditar que vale mais a minha intuição que as certezas absolutas dela. Tendo em conta que se achou no direito de me mandar calar, crendo-se sabida, acho-me no direito, agora que estou ciente de ter razão, de lhe dizer que consulte um oftalmologista, que faça um transplante cerebral ou que resolva o seu problema de outra maneira mais simples: não dar opiniões sobre futebol, uma vez que não percebe nada disto. Da mesma maneira que não escrevo sobre política nem venho para aqui dizer que o Bacalhau à Lagareiro é bom é com alho picado, há pessoas que não deveriam ter opinião sobre futebol, ainda que muitas delas escrevam em locais conceituados e sujeitem aquilo que escrevem a muitos leitores. Essas pessoas, quais personagens flaubertianas, não têm consciência de que as suas opiniões, ou infundadas, ou erradas, ou pura e simplesmente insignificantes, não têm qualquer tipo de validade, e crêem-se dotadas de uma cultura e de uma inteligência superior à que na verdade possuem. Arrogam-se de poder falar de coisas das quais não percebem e não aceitam argumentos que comprovam a falsidade das suas suposições. Pessoas como essas, que não têm capacidade para entender mais do que vislumbram, que não têm uma capacidade de raciocínio suficientemente apurada para entender coisas ligeiramente mais complicadas, mas que pensam que são capazes de falar de tudo, de ter conversas interessantes e de se tornarem sábias a pouco custo, pessoas cujo mais profundo pensamento é a mais frívola e superficial ideia que se pode ter, pessoas que repetem as opiniões do povo e julgam arvorar a mais original das novidades, que falam aborrecidamente mas julgam interessante o discurso, que se enchem de clichés e advogam ideias que não são suas, que concordam com a chusma que balbucia disparates sem pensarem na coerência daquilo que dizem, pessoas como essas reúnem em si os valores burgueses (a pequenez, a insolência e a mediocridade) com que Gustave Flaubert dotou o filisteu Monsieur Homais...
Escrito por Nuno às 20:12:00 5 bolas ao poste
Etiquetas: Clássicos, Cortesias, História do Futebol, Maradona, Matthaus, Raciocínios Tácticos
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Por que é que as coisas são como são? (1)
Gláucon: Granda golo!!! Granda, golo, ó Sócrates! Viste aquilo? O gajo fez 60 metros com a bola; passou pela equipa toda...
Sócrates: Pois...
Gláucon: Não estás satisfeito, ó Sócrates? Não foi um grande golo?
Sócrates: Foi razoável.
Gláucon: Razoável? Mas porquê? Ele passou pela equipa toda.
Sócrates: Não tirou ninguém do caminho com arte. Fez tudo em velocidade e só pôde disfrutar de tanto espaço porque o adversário, tacticamente, era permissivo.
Gláucon: Queres explicar isso?
Sócrates: O futebol inglês, apesar de muito competitivo, não é tão bem jogado como se usa dizer. É um futebol essencialmente irracional, no qual é muito mais importante a agressividade, a intensidade, a constante movimentação, as transições rápidas, etc. O sistema táctico de quase todas as equipas é o 442 clássico. Nesse sistema, com uma filosofia de jogo iminentemente ofensiva e de transições rápidas, não é possível equilibrar defensivamente nenhuma equipa. Ao se balancearem para o ataque sem pensarem, concedem espaços inevitáveis. Num 442 clássico, não é possível atacar sem abrir espaços atrás. Em Inglaterra, quase todas as equipas jogam nesse sistema. Quando sobem no terreno, fazem-no com transições rápidas, o que estica a formação. Ao perderem a bola, só têm dois homens no meio-campo e um espaço enorme para preencher. É, por isso, natural que se abram corredores intermináveis por onde jogadores como o Belleti passam sem dificuldade. O golo de que falas, ó Gláucon, parece um grande golo, mas dificilmente aconteceria noutro campeonato. E não é por este ser o campeonato no qual estão os melhores jogadores; é por este ser o campeonato tacticamente mais ingénuo.
Gláucon: Tens razão, ó Sócrates. Vês as coisas com clareza. Eu é que sou um bocado sofista e não compreendo nada. Mas tens de considerar, apesar de tudo, que o campeonato é competitivo, que há emoção em cada lance, que os jogadores se entregam a 100% e que não dão nenhuma bola por perdida. E tens de considerar que essa atitude competitiva é louvável e que o espectáculo ganha muito com isso.
Sócrates: Assim não o considero, ó Gláucon. No campeonato inglês, há mais contacto físico do que noutros campeonatos, é verdade; os jogadores disputam as bolas com ferocidade, é verdade. Mas isso, ao contrário do que se pensa, não advém de uma mentalidade mais competitiva do que a mentalidade do jogador continental. Até, pelo contrário, advém da ingenuidade do próprio campeonato e dos próprios jogadores.
Gláucon: Que fundamentos tens para dizer tal coisa?
Sócrates: Quero que me escutes com atenção. Todas as vicissitudes do campeonato inglês radicam no sistema táctico e na filosofia de jogo das equipas britânicas e não numa suposta mentalidade diferente, excêntrica: a mentalidade do futebol inglês é consequência do sistema táctico utilizado e não o contrário. Vergado ao peso da tradição, o futebol inglês, em vez de se modificar estruturalmente, optou por se adaptar; em vez de transformar a filosofia de jogo, obsoleta há 20 anos, optou por tentar contornar o problema. Assim, manteve a mesma filosofia de jogo, mas, perante as necessidades modernas, teve de lhe acrescentar outras coisas. Para mascarar as lacunas de tal filosofia, havia que propor a cada jogador uma entrega a 100%. Assim, os problemas colectivos levantados pela utilização do 442 clássico foram supridos através do empenho individual. O problema, contudo, é óbvio: um sistema assim depende da eficácia de onze individualidades e, à mínima falha de um, tudo desaba.
Gláucon: Não sei se concordo contigo, ó Sócrates.
Sócrates: Continua a ouvir sem os preconceitos que formaste ao longo da vida. Um 442 clássico é um sistema rígido, de três linhas inflexíveis. Num sistema assim, há mais espaço entre linhas e entre jogadores. O futebol moderno, mais veloz, tacticamente mais adulto, veio pôr a nu tais espaços. Havia duas maneiras de contornar o problema: modificar o sistema, arranjando forma de, colectivamente, se ocuparem melhor os espaços, ou exigir uma entrega individual inexcedível, em que cada jogador corresse o mais possível. O futebol inglês optou pela segunda alternativa, o que faz dele um futebol essencialmente individual, uma vez que se baseia na conduta de cada um dos elementos do conjunto.
Gláucon: Sim, mas de onde vem tanta competitividade, tanta disponibilidade para disputar os lances? Tens de convir, ó Sócrates, que nisso o futebol inglês é diferente dos outros.
Sócrates: Assim o é, evidentemente. Mas aquilo que afirmo é que essa diferença não reside numa mentalidade diferente. Tudo deriva do sistema táctico e da filosofia de jogo. Ao se exigir a cada jogador que se entregue ao máximo para suprir lacunas colectivas, ele fá-lo defendendo homem a homem. Num esquema rígido, em que há muito espaço entre linhas, as equipas só podem conter o ímpeto ofensivo dos adversários defendendo homem a homem. Num 442 clássico, a defesa à zona é muito menos eficaz (porque muito mais difícil de pôr em prática) que uma defesa homem a homem, uma vez que se criam espaços que não é possível preencher. Assim, o campeonato inglês pauta-se por equipas que defendem ao homem e, nesse sentido, é natural que haja muito mais confrontos, muito mais bolas disputadas, muito mais agressividade, muito mais competitividade.
Gláucon: Insinuas então que a competitividade do futebol inglês resulta do facto das equipas defenderem homem a homem?
Sócrates: Efectivamente. E essa defesa homem a homem resulta do sistema táctico e da necessidade de suprir as lacunas do mesmo. A teimosia histórica do 442 clássico obriga então os jogadores, conscientes da necessidade de defender, a procurar a melhor forma de o fazer. Nesse sistema, a melhor forma (ou a forma mais fácil) é fazê-lo homem a homem, o que gera necessariamente mais bolas divididas, mais ressaltos, mais agressividade, etc. O futebol inglês só é competitivo porque assenta numa perseguição individual a cada adversário; as equipas defendem encaixando as suas pedras nas pedras adversárias. Emparelhados, os jogadores disputam as bolas sempre com o seu opositor directo em cima, o que faz com que o futebol aparente muita entrega. Aliás, todas as equipas que defendam homem a homem criarão, por certo, a mesma ilusão que as equipas inglesas criam e parecerá que os seus jogadores são muito mais competitivos que os demais. Nada mais falso. A competitividade é, não raro, resultado de uma necessidade. Um jogador que corra menos não significa que seja mais preguiçoso ou que seja menos competitivo que outro; normalmente, ou significa que é mais inteligente, ou significa que a sua equipa defende de uma forma em que não necessita que ele corra tanto. O problema da defesa homem a homem, ainda que seja a melhor num esquema como o 442 clássico, é que um jogador que se desembarace com facilidade do seu opositor cria desequilíbrios muito maiores do que um jogador do mesmo tipo contra uma defesa à zona. Ao se desembaraçar do seu adversário directo, obriga a que outro adversário lhe saia ao encalço, desprendendo outra marcação. Num sistema assim, é óbvio que as equipas que tiverem individualidades que provoquem melhor este tipo de situações são as equipas mais bem sucedidas; num sistema assim, quem tiver as melhores individualidades tem as melhores equipas; num sistema assim, o colectivo não tem força rigorosamente nenhuma e a cultura táctica ocupa um papel secundário. Assim se demonstra que a competitividade do futebol inglês é resultado do sistema táctico que se privilegia e que essa mesma competitividade, além de meramente ilusória, é sintoma também da ingenuidade geral do futebol em solo britânico.
Gláucon: Estou rendido, ó Sócrates. Fazes chacota de todos os sofismas...
Escrito por Nuno às 12:09:00 9 bolas ao poste
Etiquetas: Futebol Inglês, História do Futebol, Por que é que as coisas são como são?, Raciocínios Tácticos
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
"Pinturicchio"
Nunca será reconhecido como o melhor do mundo, não que não lhe reconhecesse qualidade para isso, apenas sinto que o tempo dele para essas glórias já terá passado, mas nem precisa de tal epíteto.
É daqueles jogadores que teimam em emprestar graça e romantismo a um futebol cada vez mais frio e impessoal. No seu futebol a eficácia é apenas um adorno, é o ladrilho dos quadros que insiste em pintar com a graça que lhe é muito peculiar. Nele, o simples respirar tem classe, debutando charme nem que seja numa simples recepção de bola. Durante muito tempo aparecia de uma forma sisuda, talvez ressentido com a reconhecimento absoluto que o futebol insiste em não lhe conceder, menos ainda no seu lar...
Mas dele recordarei sempre o seu ar de menino, na iminência de mais uma das suas traquinices.
Em 93 deu-se a conhecer ao mundo do futebol. Continuando a tradição dessa velha senhora em acolher apenas os mais charmosos. Se a memória não me atraiçoa o destino numa demonstração inequívoca de sentido de humor e ironia, decidiu que seria um dos mais negros treinadores que o revelaria – convém explicar que me refiro unicamente à competência deste senhor enquanto treinador, nunca enquanto homem -.
“ Acreditar naquilo que fazemos é o mais importante”. E Del Piero sabia que o que fazia não era apenas mais um passe, mais um remate, mais um drible, apenas mais um golo. Não! Ele pintava um quadro, dos mais belos que podemos encontrar no futebol. Muitos dirão que preferiam que fosse menos vaidoso, que se preocupasse menos com a estética do seu futebol, mas como disse uma vez um famoso pintor inglês do século XIX “ take away a painter´s vanity, and he will never touch a pencil again “.
O futebol de Del Piero é vaidoso, mas o motivo para tal, é o mesmo que lhe permite ser um dos melhores do mundo: A paixão pelo futebol. Sem ela o seu talento não teria a mesma expressão, os seus movimentos não seriam tão perfeitos, e o seu estilo tão romântico.
Conquistou quase tudo o que havia para conquistar a nível colectivo, mas isto não interessa nada para o caso. Interessa sim, falar do inatingível. Enquanto muitos jogadores vem certos dribles associados a si, este conquistou uma zona. A famosa “Zona Del Piero” .À entrada da área adversária, descaído para lado esquerdo, este artista ofereceu ao futebol das mais belas homenagens de sempre.
Mencionar “Pinturicchio” não é articular realidade, nem sofrimento, nem resultados. Os muitos golos que marca, são apenas mais um detalhe, como os atilhos nas meias. Falar de Del Piero é sinónimo de sonhos, imaginação, criatividade, de arte! Do prazer que podemos encontrar no futebol. Quando desfila pelos relvados, parece que o faz em câmara lenta num gesto de generosidade. A sua personalidade, de tão nobre e clássica, não lhe permitiu ser irreverente o suficiente para ser Imortal, para ser um Deus, tão pouco um génio. Um génio a sério, não como aqueles que aparecem todos os dias...
Mas permitiu ao futebol se tornar um lugar mais belo...
Escrito por Gonçalo às 19:24:00 1 bolas ao poste
Etiquetas: Del Piero, Destaques Individuais, História do Futebol
terça-feira, 2 de outubro de 2007
A Primeira Vaga
O que é certo é que o futebol italiano está no início de uma nova vida. Ainda encolhido, começa a desabrochar e os primeiros títulos já apareceram. Carlo Ancelotti terá sido o pioneiro. A aposta que o Milan fez num treinador de uma geração mais nova teve e continua a ter os seus frutos. Livre dos vícios do Catennacio, Ancelotti implementou um 442 losango baseando o seu jogo numa mentalidade mais ofensiva e em transições mais pausadas do que era normal no futebol italiano. Ao contrário do estilo italiano clássico, com dois blocos bem distintos, um composto por 7 ou 8 jogadores, com preocupações meramente defensivas, outro por 2 ou 3 com preocupações meramente ofensivas, Ancelotti construiu uma equipa que joga em bloco, que pressiona altíssimo e que oscila entre um futebol de passe curto e certo, contido, e transições rápidas. A própria filosofia italiana implicava que as equipas não jogassem de outro modo que não num futebol excessivamente directo, tendo o bloco defensivo a missão de recuperar a bola e de lançar o bloco ofensivo o mais rápido e cirurgicamente possível. Perante os tempos modernos, em que as equipas de topo da Europa já defendem e atacam como um todo, um sistema como este, em que uns servem para defender e outros para atacar, só poderia estar caducado. Ancelotti, em Itália, terá sido o primeiro a perceber isso e o esquema táctico que preferiu não deixa de ser revelador. Um 442 losango nunca seria uma táctica para jogar à "italiana". Um esquema como este é sempre um esquema de toque curto. Quem o utiliza, privilegia a segurança no passe, a posse de bola, o ataque pensado e trabalhado, etc. Mesmo quando a equipa precisa de esticar o jogo, não o faz de qualquer maneira. O único jogador que tem ordem para alongar o modo de jogar do Milan é Pirlo. Não se vê nenhum dos defesas a fazer lançamentos para os avançados; não se vêm nenhum dos interiores a procurar passes de ruptura. Isso fica a cargo de Pirlo. É dele a responsabilidade de gerir a velocidade das transições.
Embora no Milan já não se jogue à "italiana" há alguns anos, noutros clubes essa mentalidade manteve-se até há bem pouco tempo. Relembro sem saudades como Capello na Juventus foi eliminado nos quartos-de-final da Liga dos Campeões pelo Liverpool em 2004/2005. Depois de perder em Anfield por 2-1, precisava apenas de marcar um golo e não sofrer. Demasiado preocupado em não modificar os princípios que afinal lhe tinham valido um currículo invejável, apostou num futebol directo, de teor defensivo, que colhe os principais frutos através do aproveitamento dos erros dos adversários. A precisar de ganhar, Capello insistiu num futebol que só pode ser proveitoso se a equipa adversária quiser atacar, coisa que o Liverpool não queria, pois estava em vantagem. Foi sofrível ver o pobre Ibrahimovic a ser solicitado com passes de 50 metros a toda a hora. E nem nos minutos finais Capello mudou a sua forma de jogar. Isso custou-lhe a eliminatória e foi para mim o retrato perfeito daquilo em que o futebol italiano se tinha tornado: uma míriade de princípios inflexíveis completamente obsoletos. Nem a precisar urgentemente de marcar um golo as equipas italianas abdicavam da sua organização defensiva!
O futebol italiano, aquele que tinha por corolário defender e esperar que a sorte lhe sorrisse, só poderia ter os dias contados. Para minha grande satisfação, esse futebol italiano está em declínio e surge agora um novo futebol italiano. Alheio a esse facto não será, certamente, a juventude dos treinadores das principais equipas italianas. À excepção de Claudio Ranieri, os outros são treinadores jovens, da geração de Ancelotti. Luciano Spalletti e Mancini, como Ancelotti, tendo ainda crescido à sombra do Catennacio, estão numa fase ainda de maturação de ideias enquanto treinadores. E desse processo constará evidentemente a necessidade de fugir ao estilo italiano clássico, por tudo o que foi aqui explicado. É a juventude destes treinadores que lhes permite perceber que o futebol em Itália precisa de novo fôlego e que os princípios cimentados nos últimos trinta anos não chegam para fazer frente às necessidades modernas. Como tal, nem o futebol de Mancini, nem o futebol de Spalletti radicam no esquema dos dois blocos bem definidos e com funções distintas. As suas equipas jogam em bloco, atacam de forma organizada e através de um futebol curto, de triangulações, tabelas, etc. Nenhuma destas equipas aposta num futebol directo, a explorar a inspiração dos avançados. Mesmo em contra-ataque, as transições são faseadas. Raramente se vê um passe vertical de 50 metros. Em situações de aperto defensivo, há sempre a preocupação de sair a jogar, de não perder a posse de bola com pontapés disparatados. Apesar de ter havido apenas um golo de penalty, foram os melhores 45 minutos de futebol italiano que vi nos últimos anos.
Confesso que ainda não vi a selecção de Donadoni a jogar, mas o facto de se tratar de outro treinador da mesma geração deixa-me confiante. O futebol italiano está assim numa primeira fase de reconstrução. É importante, nesta fase, perceber principalmente quais as necessidades do mesmo. Spalletti e Mancini, como Ancelotti primeiro, parecem já tê-las percebido e sintoma disso é a filosofia de jogo das suas equipas. Apesar de tudo, e porque afinal foram educados à "italiana", estes treinadores ainda guardam vícios residuais. As preocupações defensivas ainda são excessivas e enquanto o forem o espectáculo, conquanto melhor, nunca será óptimo. Tanto Spaletti como Mancini não abdicam de uma dupla de médios defensivos, deixando a cargo apenas de um homem o meio-campo ofensivo. No caso de Spalletti, a coisa é ainda mais gritante: ainda que a sua filosofia seja mais condizente com o futebol actual, as suas opções são por jogadores que lhe dêem garantias defensivas. No meio-campo, o organizador de jogo é Perrotta, um médio de características mais defensivas. O avançado é Totti, que por natureza é um médio ofensivo. Spalletti, como Mancini, não abdica de alguma segurança defensiva em excesso, o que, em abono da verdade, é contraditório com a filosofia atacante que perceberam necessária. Mesmo Ancelotti, apesar de utilizar apenas um médio defensivo, opta por dois médios interiores que lhe garantam sobretudo uma correcta ocupação de espaços defensivos e muita dedicação na recuperação da bola, o que acaba por impedir que o Milan, em muitas fases do jogo, e sobretudo se pressionado, tenha qualidade para sair correctamente para o ataque.
Diga-se, pois, como conclusão, que o futebol italiano está no início de uma nova era. Não é alheio a esse facto a jovem geração de treinadores que comanda as equipas de topo em Itália. Mas esta é ainda uma primeira vaga. Espera-se que esta evolução não fique por aqui e que a próxima geração de treinadores tenha ainda mais coragem do que esta. Há todo um caminho ainda a percorrer e só ainda foram dados os primeiros passos. É necessário continuar a acreditar que o que nos foi ensinado ao longo da vida não é certo e que há que experimentar novas propostas. O futebol agradece!
Escrito por Nuno às 08:24:00 0 bolas ao poste
Etiquetas: Futebol Italiano, História do Futebol, Raciocínios Tácticos, Treinadores
domingo, 1 de julho de 2007
"Patinho Feio"
Não é preciso perceber muito de futebol para reparar na ironia. Falo de Beckham.
Decerto que todos concordarão com a ideia que a sua carreira terá ficado aquém das suas possibilidades. E eu não sou excepção, mas encontro razões diferentes das que tenho lido, e ouvido.
Não ignoro o facto de muitas vezes o inglês se ter "distraído" no seu trajecto futebolístico. Mas penso que esta não é a principal razão. Acho até que o jogador é, neste caso, vítima, e não réu.
Por saber muito bem quais a suas principais qualidades, explorou-as sempre ao máximo. Por isso criou-se o mito de que era um jogador limitado no um para um, que não era muito activo nas transições, que se limitava a tocar a bola, e que apenas desiquilibrava nas bolas paradas.
Porque não era daqueles que corria e depois pensava, dava a sensação que não corria muito, que não era muito disponível fisicamente. Nada mais errado! Inteligente, e elegante, disputava sempre os lances em situação priveligiada, dando, por isso, a ideia que não se esforçava. O tal aforismo que o futebol é sobre esforço físico, relegando para segundo plano o intelecto. Tecnicamente evoluído, soberbo na recepção, e no passe, foi sempre de uma tremenda importância para as equipas que representou. Porém, a verdade é que não houve um treinador que soubesse "espremer" todo o talento deste jogador.
Tivesse sido proporcionado a Beckam a possibilidade de fazer parte de um projecto coerente e organizado, e teria sido enorme. Não deixa de ser irónico que talvez o principal defeito que lhe possam apontar é ter sido, durante toda a sua carreira, um jogador que se ocupava mais das necessidades desportivas da equipa, do que do seu ego futebolístico.
Assim, o facto de muitas vezes optar efectuar um passe curto, respeitando a movimentação, e dinâmica da equipa, evitando efectuar um cruzamento, ou um remate, que, não deixando de ter boas possibilidades de fracassar, iriam resultar, algumas vezes, em momentos fantásticos. Tenho a certeza que esta sua maneira de entender o jogo, trouxe mais benefícios do que prejuízos às equipas que defendeu. Mas se ele tivesse optado pela via menos "altruísta", decerto que a meia dúzia de momentos com que seria recompensado o elevariam, junto da crítica, e do comum adepto, a um nível fantástico. É verdade que para essa meia dúzia de momentos surgir, muitos ataques seriam sacrificados, e no fim, provavelmente, as suas equipas teriam acumulado menos alguns pontos, mas também ninguém estaria a contar, certo? Perguntem ao levezinho...
"Não há deus que se digne, que não sacrifique uns quantos carneiros ao povo que passa fome..."
Escrito por Gonçalo às 20:11:00 3 bolas ao poste
Etiquetas: Beckham, Destaques Individuais, História do Futebol
quinta-feira, 8 de março de 2007
O Útimo...
Não é fácil escrever sobre esta personagem, para mim a maior, do futebol português. Porque não se limita a ser mais um jogador que espalhou classe pelos campos de futebol. Quem me conhece sabe bem de quem falo. É desprepositado; fora de tempo. Sim, mas também ninguém é obrigado a ler estas linhas.
Talvez comece pelo primeiro momento de magia que presenciei deste mago. Lembro-me, com a distância de 13/14 anos, dos movimentos que me enfeitiçaram. Através de uma cassete de video, dessas que o jornal O Jogo publicava no final de campeonato. Época 93/94, Benfica Campeão. E fiquei apaixonado por aquele estilo. Quem era aquele Pedro?
Entretanto ganhou espaço no futebol português. Na época seguinte explodiu.
Quinito, um romântico - infelizmente, o último? - , compreendeu a magnitude do génio que se lhe deparava. Uma época belíssima, com chamadas à selecção. Numa dessas chamadas dissipou todas as dúvidas. Um golo que estava para o futebol, como a água para a vida; são momentos como aquele que nos fazem sonhar, e rever jogos e jogadas, cujo o fim já não oferece surpresa.
Ele era diferente. O último jogador à antiga portuguesa, chamaram-lhe os românticos. Como deveria ser Belo o futebol desse antigamente.
Foi para Alvalade. E, a partir dai, demonstrou todas as idiossincrasias que acompanham os génios.
É impossível fugir ao cliché : Amado por uns, odiado por outros. Nem todos conseguimos entender, e apreciar, arte. A Arte.
Dele disseram que comia demasiados croissants. Era bom que fosse assim tão simples. Infelizmente, por mais croissants que o Joao Alves, Paulo Jorge, ou Adriano comam...
Poderia falar dos três golos com que brindou uma equipa israelita na taça Uefa. À excepção do primeiro golo, foram momentos geniais. Os dribles que se sucediam, num bailado que não se ensina, e a parte interior do seu pé esquerdo, deixaram o país da Estrela-de-David assombrado.
Coerente e consequente, não se deixou enganar por quem lhe tentou roubar o que dele era por direito próprio. Não devemos renegar o nosso destino. Nunca deixou de arriscar, de procurar sempre a mais bela e arriscada opção... E que momentos! Marcou a dois, dos três melhores guarda-redes que por Portugal passaram nos últimos 15/20 anos, - ao outro de certo que também o fez, mas apenas em treinos - com requintes de malvadez...
Os golos nunca foram muitos, mas sim geniais. Porém, para os pragmáticos ( sim apesar de tudo, na minha generosidade imensa, encontrei um momento de comiseração por vocês) tenho um doce: na primeira época, apesar de toda a contestação que sofreu - e que o acompanhou até ao fim da sua (demasiado) breve carreira, sim, porque os grande abandonam sempre cedo demais - foi o terceiro melhor marcador da equipa de Alvalade.
Golos... São o sal do futebol... Isso seria, e será decerto, um assunto para abordarmos com mais tempo; mas os dele foram muito mais do que isso. Fosse um remate impossível, de primeira, que colocava por entre as pernas de um qualquer guarda redes, fosse a maneira como levantava um estádio, depois de concluir um cruzamento com um remate que, na sua elegância, mascarava de fácil. Mas não era só isso. Até quando falhava, algo de divino, e gracioso, o acompanhava. As bolas que enviava ao poste, sempre o segundo, faziam a delícia de qualquer adepto, dos bons.
Frontal, até na maneira como se dava a conhecer demonstrava que estava só. Não digo a mais pois jogadores como ele serão sempre de menos . O discurso inteligente, e responsável, distanciava-o de seus pares. Uma vez um treinador pediu aos sócios leoninos que o "acarinhassem", que não o assobiassem mal o speaker anunciasse o seu nome para o onze inicial. Quando confrontado com o pedido feito pelo seu treinador não se refugiou no mesmo. Assumiu as críticas, não condenou, mas sim assumiu que quem joga num grande tem de estar preparado para lidar com essas situações. À imagem do que fazia no campo não se escondia, dando antes o peito às balas.
Foi sempre incompreendido. Os génios não o seriam, se por todos fossem compreendidos. Essa assunção seria, aliás, contraditória. Tinha carisma, ao que aliava a uma nobreza cada vez mais rara nos tempos que correm. Tornou-se uma figura incontornável no futebol nacional. Capitão de um dos grandes de Portugal, foi fundamental nas últimas grandes conquistas do seu clube. No primeiro campeonato que venceu, quadros como o que pintou no Bessa revelaram-se decisivos. Mas mesmo que não o fossem... Numa eliminatória da taça de Portugal, em pleno estádio das Antas, marcou um belíssimo golo, a passe do seu homónimo, de apelido Martins, à entrada da área sentou P. Santos e quando Erickson deu um passo em frente, preparando-se para fazer a mancha, picou-lhe a bola fazendo um golo fabuloso... Vi e revi o lance inúmeras vezes... Arte, sublime, perfeita... Magia para outros...
Na mesma eliminatória, num segundo jogo entre as mesmas equipas, lesionou-se depois de uma arrancada, em que nem os bichos o conseguiram deter... E durante meses o futebol voltou a ser vulgar...
Não posso falar de todos os momentos em que ele homenageou o futebol com o seu perfume. Vou terminar com uma referência, que poderia ser uma metáfora da sua carreira.
No último grande jogo que o vi realizar, curiosamente jogou apenas alguns minutos, deu a sensação que se tomasse a bola na sua área seria capaz de driblar todos os compatriotas de Vincent van Gogh a passo. A maneira como expulsava quem quer que lhe surgisse à sua frente com um movimento suave... Genial... O problema é que não teria tempo suficiente para o fazer. Neste jogo, como na sua carreira, - e partindo do princípio que o futebol, como tudo na vida, irá evoluir de forma postiva - o tempo foi o seu maior inimigo.
Falo de Barbosa. Pedro Barbosa.
Escrito por Gonçalo às 18:54:00 4 bolas ao poste
Etiquetas: Destaques Individuais, História do Futebol, Pedro Barbosa, Sporting