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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domingos e a Coragem

Não sabendo a melhor forma de iniciar este post, entre uma coisa boa e outra má opto pela boa: vou começar por falar da expulsão de Kompany no recente derby para a Taça de Inglaterra. A estupefacção que me assaltou ao dar conta da expulsão do jogador do Manchester City em nada se relaciona com um possível desacordo no que toca à medida sancionada pelo Sr. Chris Foy, mas sim com o facto de um árbitro em Inglaterra ter tido a coragem de expulsar um jogador nestas circunstâncias. A intenção do central do City foi jogar a bola, dizem uns; ele nem tocou no Nani, apregoam outros; e que dizer daqueles, mais dedicados ao ramo da psicologia e do comportamento humano, berrando a quem quer que deles discorde, a suprema prova do crime: o Nani nem sequer reclamou.

Não discuto nenhum destes factos: realmente, Kompany apenas tocou na bola; acredito que apenas quisesse jogar a bola, e não me pareceu encontrar na figura de Nani esboço de protesto. No entanto, não há uma conjugação possível destas premissas que, na forma de um argumento, possa colocar em causa a legitimidade da expulsão. Kompany entra a pés juntos numa bola dividida, não manifestando qualquer tipo de respeito pela integridade física de um colega de profissão (que, diga-se de passagem, escapou impune porque abdicou de dividir o lance, face à entrada do central belga). A ele apenas lhe importou ganhar o duelo, independentemente da abordagem e das consequências da mesma. Isto não é uma caça às bruxas, até porque é um central que aprecio. Daqui decorre que este comentário não tem um cariz pessoal, mas sim particular; e, se assim é, é-o porque este caso, e a respectiva sanção, tem tanto de correcto, como de raro. São poucos os árbitros que têm a coragem expulsar jogadores em lances semlhantes, o que muito agrada a Pepe, bem sei, embora nem tanto àqueles que realmente gostam de jogar futebol. Como tal, decerto que entradas como estas se propagarão pelos estádios, inibindo os artistas mas alegrando os cuteleiros. Mas, ainda assim, indignando meio-mundo, é bom que de quando em vez alguém alie bom-senso a coragem, e mande um tipo destes tomar um duche frio.

Passemos agora à coisa má. Renato Neto, ou talvez Domingos. Quem sabe se os dois. Renato Neto, pelo jogo horrível; Domingos, por lhe ter permitido fazer um jogo horrível. Vamos por partes. Apresenta o Sporting este ano um excelente plantel. Não sei se será o melhor dos últimos dez anos, mas é, sem qualquer dúvida, um dos melhores: Schaars, Elias, Matías Fernandez, Izmailov, André Martins, Pereirinha, Onyewu, Rinaudo, Carriço, Ínsua, Wolfswinkel, Rodriguez, Carrillo, Jeffrén, etc. (e um Patrício que finalmente se justifica como titular), são jogadores que conferem qualidade e quantidade a Domingos. Não me revejo nas escolhas que Domingos faz, nem tão pouco na maneira como a equipa evoluiu, principalmente no plano ofensivo: os ataques fazem-se quase sempre pelos corredores laterais, tornando-se uma equipa demasiado previsível, facto que, timidamente, é disfarçado pela qualidade dos jogadores à disposição do treinador. No entanto, mesmo tendo em conta a minha incredulidade em Domingos, nada me preparou para a opção que tomou para o embate frente aos dragões; e as consequências só não tomaram proporções desastrosas porque encontrou um Porto muito debilitado, sem imaginação, a anos-luz do Porto da época passada.

O posicionamento horrível de Renato Neto criou um enorme espaço entre o meio-campo e a defesa leonina. É verdade que o Porto nunca soube aproveitar esse mesmo espaço, mas isto não escamoteia a péssima opção de Domingos, assim como não dilui a fraquíssima exibição do novo 31 de Alvalade. Talvez dando conta disso, Domingos lançou Matías e Izmailov, na segunda parte, baixando Schaars e Elias para um duplo pivô, ganhando com esta opção mais qualidade no passe, e uma melhor gestão do espaço. Acredito, e por momentos cheguei mesmo a acreditar que tal fénomeno seria possível, que a melhor solução para o sábado passado passasse pelo recuo de Schaars para trinco, colocando Matías e Elias como médios-ofensivos. Mas também era pedir de mais, bem sei...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Clássico e os Detalhes

Não tenho muito a dizer do clássico do passado fim-de-semana, a não ser que, embora emotivo, embora bem disputado, não foi propriamente bem jogado. Ambas as equipas arriscaram o menos possível, e o que acabámos por ter foi um jogo dividido, com muitas disputas de bola, muita luta, muito choque, e pouco futebol. O número de passes acertados foi certamente baixo, e as duas equipas preferiram sempre jogar no erro adversário. Ainda assim, nenhuma delas se entregou às evidências, procurando condicionar a posse adversária o melhor possível. Num jogo com estas características, diria eu, os detalhes são importantes, claro. E foi num detalhe, num lance de bola parada, que tudo se decidiu. Mas os detalhes não ocorrem apenas porque sim. O Benfica venceu num detalhe, mas foi também a equipa que mais fez para contar com a benesse dos "detalhes".

É evidente que a vitória podia ter sorrido a qualquer uma das equipas, e que, mesmo estando onze para onze, não houve uma superioridade significativa, em termos da quantidade de oportunidades de golo, dos encarnados. O resultado mais justo, mesmo sem contar com o que o Sporting fez após a expulsão de Cardozo, talvez até fosse o empate. Mas o jogo do Benfica, ainda que sem a qualidade desejável, procurou o mínimo de racionalidade. Fosse por a bola ter chegado mais vezes a Aimar do que a Matías Fernandez, fosse porque Witsel, Aimar e Gaitan se entenderam melhor entre eles, fosse porque os hábitos encarnados são diferentes, a verdade é que o futebol do Benfica foi menos precipitado. O Sporting nunca se interessou por construir fosse o que fosse. Apostou numa pressão alta, excessivamente condicionada pelas referências ao homem, a meu ver, e por conduzir os seus ataques após recuperações de bola, o mais rapidamente possível. Tudo o que vimos, do lado dos leões, foram solicitações dos homens mais adiantados, cruzamentos largos para a área, correrias de Capel, movimentos verticais de Elias e Schaars, e pouquíssima imaginação. É verdade que conseguiu criar algumas oportunidades nestas condições, mas também é verdade que não foi capaz, precisamente por causa deste tipo de decisões, de criá-las em condições minimamente favoráveis.

Como disse anteriormente, a diferença entre as equipas não se traduziu em número de oportunidades de golo. As melhores oportunidades que o Benfica criou foram ou de bola parada, ou após recuperações ou perdas do adversário (lances de Cardozo e de Rodrigo, por exemplo). Mas sentiu-se sempre que o Benfica chegava às imediações da área leonina em melhores condições, que trabalhava melhor os lances, que era mais criterioso, que se preocupava mais em fazer as coisas de modo racional. A sofreguidão leonina podia ter conduzido a outro resultado, até porque a racionalidade dos encarnados não foi assim tão concludente, mas a verdade é que essa mesma sofreguidão condicionou a equipa, e tem de ser introduzida na conversa sobre detalhes. O jogo decidiu-se num detalhe, sim, mas a própria estratégia de Domingos implicava a aceitação de um jogo decidido pela "lotaria" dos detalhes e deixava a equipa menos preparada para os mesmos.

Fala-se demasiado em detalhes, como se os detalhes merecessem uma análise à parte do resto do jogo. Mas a verdade é que, para que uma partida se decida num detalhe, algo tem de acontecer para que esses detalhes se possam verificar. A meu ver, o principal mérito do Benfica na partida foi precisamente o modo racional como tirou partido da sofreguidão do Sporting. Nem sempre o fez bem, obviamente, e tenho até dúvidas de que o tenha feito conscientemente. Mas fê-lo, nem que tenha sido apenas pelas características dos seus jogadores. Jogando com isso, puxou convenientemente o jogo para o tipo de decisões que mais lhe eram favoráveis, e fez pender os pratos da balança para o seu lado. O jogo foi, de facto, repartido em termos de oportunidades de golos, em termos de emoção junto às balizas, mas foi melhor controlado pelo Benfica. A decisão do mesmo através de um detalhe não pode por isso ser demasiado restrita. Decidiu-se num detalhe, sim. Mas um detalhe que o resto do jogo e o comportamento das duas equipas em campo potenciou.

P.S. Não se tem falado muito da ausência de Saviola do onze encarnado, e tem-se gabado o Benfica desta temporada mais do que me parece razoável. De facto, o melhor Benfica da época foi o dos primeiros jogos, altura em que o argentino ainda fazia parte das primeiras opções de Jorge Jesus. Como sempre disse aqui, a principal arma encarnada no primeiro ano de Jesus, aquilo que introduzia diversidade na equipa, eram as combinações curtas entre Aimar e Saviola, assim como a liberdade de que os dois gozavam no modelo de jogo. No segundo ano, Jesus procurou potenciar em excesso aquilo que a equipa já fazia bem, e deu menos liberdade à criatividade dos dois argentinos, evitando até, o mais possível, que os dois jogassem em simultâneo. Esta época acentuou apenas essa tendência. O Benfica deste ano ganhou alguma inteligência e capacidade de gestão de ritmos com os reforços (sobretudo Witsel, Bruno César e Nolito), mas perdeu ainda mais criatividade no último terço do terreno. Parece uma equipa menos dependente das correrias de outrora, menos interessada em jogar a uma velocidade altíssima, mais competente a gerir a bola em zonas baixas do terreno, mas é uma equipa menos forte a penetrar em blocos mais densos, menos imaginativa. Privar as pessoas daquilo de que Aimar e Saviola, juntos, são capazes, é hoje o maior crime de Jorge Jesus.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Excessos Excessivamente Excessivos

Como o título indica, este será um texto sobre coisas excessivas, sobre asneiras que as pessoas repetem, sobre ideias demasiado consagradas, sobre acontecimentos exageradamente discutidos, etc..

1. Numa entrevista, quando ainda era treinador do Braga, Jorge Jesus disse que aprendera no mesmo sítio que Guardiola e que, por isso, o seu modelo, em termos de princípios de jogo, era idêntico ao do Barcelona. O excessivo, aqui, não é o exagero da coisa, mas a redução da ideia de modelo ao conjunto de princípios gerais: futebol ofensivo, pressão alta, linhas subidas, etc. Os princípios de jogo do Barcelona vão muito para além disto e é esse muito que o distingue. O modelo de jogo de Jesus, tendo virtudes, não é por isso sequer primo do modelo de Guardiola.

2. Outra coisa excessiva a respeito do modelo de Jesus é o entusiasmo que causa. O problema desta relação entre qualidade do modelo e entusiasmo que provoca é que é falaciosa. O melhor modelo não é o que galvaniza mais as bancadas, o que cria mais oportunidades de golo, o que motiva mais os jogadores. Não há relação de causalidade entre qualidade e efeitos exteriores na audiência, resultados práticos ou capacidade de motivação. O melhor modelo, e esta é a minha definição, é aquele que faz depender o colectivo o menos possível das individualidades. Nesse aspecto, o modelo de Jorge Jesus tem-se revelado cada vez mais banal. Depende excessivamente - e isto é algo que ando a dizer desde o início da época passada, embora se revele cada vez mais - da vertigem que as individualidades são capazes de colocar no jogo; depende das correrias dos laterais, da velocidade a que cada jogador reage à perda de bola, da espontaneidade de cada elemento, etc. Se é verdade que, jogando deste modo, impede os adversários de se organizar do melhor modo, impede também a própria equipa de jogar de modo organizado. O modelo de Jesus prepara a equipa para ser forte em momentos de desorganização, mas limita-a não a preparando para ser competente quando é preciso inventar essa desorganização.

3. Talvez o melhor exemplo de como o modelo tem graves problemas seja Saviola. O argentino - têm dito - não está na sua melhor forma. Isto é absolutamente falso. Tem tido menos preponderância neste Benfica porque este Benfica, pelo modo como joga, não procura valorizar aquilo em que Saviola pode fazer a diferença, sobretudo em ataque posicional. Ao jogar excessivamente em velocidade, o Benfica passa a focar o seu interesse em jogadores velozes e fortes fisicamente e perde de vista aquilo que os mais criativos, como Saviola, podem emprestar em criação de espaços curtos. Saviola, como aliás Pablo Aimar, foram os jogadores que, o ano passado, puderam permitir ao Benfica ser uma equipa com outras soluções que não as corridas desenfreadas. Este ano, Jesus tem gradualmente abdicado desse tipo de soluções e os dois argentinos foram perdendo protagonismo. Com essa perda de protagonismo, perdeu também o Benfica imprevisibilidade e passou a depender mais daquilo que cada jogador é capaz de dar, enquanto individualidade.

4. No final da época passada, quando elegemos André Villas Boas como o melhor treinador do campeonato, tínhamos em conta precisamente estes defeitos do modelo de Jesus. Um ano volvido, acreditamos ainda mais na diferença entre os dois. Não obstante um ou outro problema no modelo do Porto, é certo que é o modelo que, em Portugal, maior qualidade apresenta, pois é aquele que depende menos da soma das suas individualidades. O que é excessivo, neste ponto, é portanto a incompreensão de como o Porto deste ano, radicalmente diferente do do ano anterior, soube superiorizar-se ao Benfica de Jesus, tal como este, na época passada, se superiorizara ao Porto de Jesualdo.

5. O principal defeito do modelo portista, a meu ver, está na tarefa distinta dos extremos. Toda a equipa privilegia uma posse de bola curta e o passe ao drible, à excepção dos extremos, que parecem ter liberdade para individualizar os lances. É verdade que Hulk e Varela são fortes no um para um e é verdade que várias das suas acções individuais podem trazer benefícios ao colectivo. Também é verdade que há movimentações sem bola, sobretudo de abaixamento, que os extremos fazem e que se inserem na ideia colectiva. Mas existe, no meu entender, uma fé excessiva na capacidade individual destas unidades que pode ser prejudicial à equipa. Os extremos são jogadores essencialmente verticais e que têm a tarefa de definir os lances. Raramente são utilizados na gestão passiva e racional da bola, o que impossibilita que o Porto consiga ser ainda mais dominador do que é quando a tem. Assim sendo, o Porto é fortíssimo a controlar o jogo com bola nos dois primeiros terços do terreno, mas não o é nas imediações da área. Raramente consegue penetrar em defesas sólidas e densas sem utilizar a arma das individualidades: os remates de meia distância, o drible, o um para um, etc. Falta envolvência ofensiva em espaços curtos a esta equipa e muito por causa da excessiva verticalidade que é pedida ou autorizada ao trio da frente.

6. São excessivas também as previsões catastróficas do futuro sportinguista. Basta lembrar o que era o Benfica antes de Jorge Jesus para se perceber que tudo pode mudar de um ano para o outro, havendo a sorte de se contratar competência. É evidente que os recursos financeiros do Benfica são outros, mas a principal causa da mudança está no cargo de treinador. Tenha o Sporting a sapiência de contratar um treinador competente e a próxima época será certamente diferente. É também evidente que os rivais estão muitíssimo fortes e que ganhar o título poderá depender muito do que esses rivais forem capazes de fazer para o ano. Mas, com um treinador capaz, pelo menos a intromissão na luta pelo título é um horizonte mais do que realista. Do que me pude aperceber das eleições que se avizinham, o único candidato que poderia relançar imediatamente o Sporting é Dias Ferreira. Não por ter competências excepcionais como presidente ou como pessoa, mas porque foi o único que apresentou um treinador que me parece apropriado para as aspirações do Sporting. E o treinador deveria ser, sem dúvida, a principal preocupação eleitoral.

7. A valorização de Domingos é outra das coisas que me faz alguma confusão. É interessante que o diga agora, um dia depois de um apuramento histórico do Braga. Campanhas europeias históricas ou alguns resultados surpreendentes não chegam para qualificar um treinador. Se chegasse, Jaime Pacheco teria de ser recorrentemente uma das cogitações para treinar um grande. É verdade que, na Europa, o Braga está a fazer mais do que se esperaria. Mas internamente está a fazer menos. Num ano em que o Sporting está tão mal e em que o Guimarães não tem pedalada para mais, um treinador de grande qualidade teria de deixar o Braga em terceiro lugar. Concordo que Domingos tem qualidades, sobretudo ao nível da preparação estratégica dos jogos e da implementação de certos conceitos defensivos. Mas o seu Braga não é, nem nunca foi, uma equipa capaz de dominar jogos. Trata-se de uma equipa organizada, sim, mas ofensivamente medíocre. E já o ano passado o era, fazendo a campanha interna que fez por questões mentais, por se ter adiantado na classificação num momento precoce da época e, por isso, ter adquirido forças extra para superar os obstáculos. Numa equipa grande, Domingos teria, a meu ver, enormes dificuldades para se impor.

8. Muitos terão visto o jogo da segunda mão entre Barcelona e Arsenal e muitos terão opiniões sobre esse jogo. Não vou falar do jogo, mas de um pormenor que não sei até que ponto terá passado despercebido. Os noventa minutos foram todos praticamente jogados em 30 metros. Quando assim acontece, por norma, esses são os trinta metros mais próximos da baliza de quem defende. Não foi isso que se passou neste jogo. O jogo foi jogado apenas em trinta metros, mas praticamente no meio-campo. Deveu-se esse facto a duas razões: à atitude defensiva do Arsenal, por um lado, e à opção, invulgar em quem opta apenas por defender, por uma linha defensiva muito subida. O Arsenal jogou basicamente com duas linhas, uma de seis jogadores e outra com quatro, mas tentou fazê-lo na zona de meio-campo e não à frente da sua baliza. A intenção era evitar que o Barcelona jogasse entre linhas, mas sem recuar em demasia. Com isso, o jogo foi de tendência unicamente catalã, como tantas vezes acontece, mas disputado numa zona do terreno pouco comum. Quem viu o desafio com atenção viu por isso um jogo altamente atípico, jogo esse que, na minha opinião, é representativo de um tipo de futebol que se jogará no futuro.

9. Já se falou muito de treinadores; fale-se agora de jogadores. Um dos mais criticados, no início da época, em Espanha, era o francês Karim Benzema. Benzema pode não ser um jogador extraordinário de costas para a baliza, como apoio vertical, mas não é, também, dos piores. Depois, é tecnicamente muito evoluído e é capaz de se desembaraçar com alguma facilidade em espaços curtos. Sempre achei as críticas que faziam ao francês, que eram unicamente baseadas no facto de não marcar golos, incrivelmente desajustadas. A mobilidade de Benzema e a facilidade com que combinava com os colegas emprestaram ao Real Madrid, nessa fase, algo de muito positivo. A arrastar marcações, então, foi determinante. Ninguém foi capaz de ver isso e, agora que voltou a marcar, acham que evoluiu e que está mais confiante. Nada mais falso. Karim Benzema está igual. Mas, como marca golos, as pessoas mudaram a opinião. É um bom exemplo de como a imbecilidade se pode propagar.

10. Em Portugal, dois jogadores de quem se tem falado recentemente e em relação aos quais não consigo compreender o entusiasmo: Djalma e Rúben Brígido. O primeiro é um extremo veloz e habilidoso. Só. Poderá crescer, eventualmente, até a um nível aceitável, mas duvido que venha a ser um jogador de topo. Falta-lhe, sobretudo, compreender e pôr em prática ideias colectivas, e carece de imaginação. A menos que se torne muito forte no um para um, coisa que ainda não é, nem de perto nem de longe, poderá ter alguma utilidade, e ainda assim apenas num modelo que privilegie tais características. Quanto a Rúben Brígido, o melhor que se pode dizer dele é que é atrevido. Sim, arrisca ir para cima dos defesas e não tem medo de falhar. Nunca percebi por que razão tais características são coisas positivas. É demasiado vertical, procura sempre o desequilíbrio, e não é capaz de perceber as necessidades da equipa em cada situação. Tem boa técnica, embora não seja especialmente forte no um para um, mas raramente toma boas decisões. É um jogador agressivo com bola, espontâneo, objectivo, como dizem, mas pouco imprevisível. Tenho também sérias dúvidas que algum dia tenha capacidade para singrar ao mais alto nível.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Agonia Leonina...

Cada vez que vejo a Académica jogar reconheço algo de diferente nesta equipa: a qualidade colectiva, nada condizente com a capacidade individual de grande parte dos seus jogadores, impressiona não só pela organização defensiva, mas principalmente pela qualidade que a equipa demonstra em posse. E isto ainda impressiona mais se tivermos em conta as características dos jogadores que compõem o plantel da Académica, que em nada (à excepção de um ou dois jogadores) ajudam a este estilo de jogo.

Vemos vários treinadores que demonstram qualidade na maneira como organizam a equipa nas situações defensivas, optando por restringir os seus processos ofensivos a transições rápidas, revelando alguma desorientação e dificuldade em confrontos com equipas que possuam a mesma filosofia. Outros aparentam revelar qualidade nos processos ofensivos sem que, no entanto, se consiga destrinçar as ideias do treinador das características dos seus jogadores. É o caso do Vitória de Guimarães. A equipa orientada por Paulo Sérgio revela qualidade com bola. O que não se percebe é se este aspecto é resultado do modelo pretendido pelo técnico ou se é, acima de tudo, uma manifestação inequívoca das características dos seus jogadores. E a mesma questão se pode colocar quando analisamos a equipa orientada por Domingos, o Braga. Nesta parte final do campeonato, entre jogos ganhos de uma forma um pouco esquisita (este esquisito nada tem a ver com arbitragens, mas sim com a forma feliz com que alcançou os resultados positivos, caso da vitória sobre o Guimarães, ou sobre o Leiria) e vitórias muito sofridas, as suas exibições têm estado abaixo do demonstrado no inicio da época, relegando para segundo plano a posse de bola, preocupando-se apenas com as transições rápidas e deixando o processo ofensivo entregue a 4 jogadores, essencialmente rápidos e com propensão para procurar duelos individuais (Alan, Paulo Sérgio, Renteria, Luís Aguiar, etc.).

Não é inocente a chamada destes três treinadores a este texto. E nem dá para disfarçar a minha costela sportinguista no mesmo. Numa altura em que se especula bastante sobre o novo treinador da equipa leonina, a certeza de que esse treinador não será Villas Boas deixa-me algo céptico em relação ao futuro do Sporting. Não estou a dizer que Villas Boas seja único treinador capaz de garantir um futuro recheado de sucessos ao clube de Alvalade, ou que os outros dois não sejam capazes de alcançar títulos em Alvalade. No entanto, o técnico da Briosa demonstra acreditar no modelo que melhor se adequa à matéria humana que, por enquanto, predomina no clube de Alvalade. Pelas referências constantes à posse de bola, pela preocupação em demonstrar qualidade, pela personalidade que incute na equipa, nunca abdicando dos princípios que regem o conjunto por si orientado, por tudo isto aliado à perspicácia que vem ostentando, permitindo-lhe entre outras coisas perceber que Hugo Viana era o jogador que transformava o futebol do Braga em algo de interessante. Por tudo isto, e porque o Benfica de Jesus será cada vez mais forte, Villas Boas parece-me a única solução capaz de permitir ao Sporting ombrear com o clube da Luz num futuro próximo. Já não vem. Espero, assim como todos os sportinguistas, que Costinha e Bettencourt tenham uma solução ao nível de Villas Boas, até porque, como já antes disse, o Sporting encontra-se num momento de viragem. Para ou bem ou para o mal. Por isso mesmo, seria óptimo que, na hora de decidir, se baseassem nas qualidades e características de jogo que as equipas do técnico eleito manifestam, e não na experiência ou nas declarações que proferem. Mourinho e Guardiola são apenas os maiores exemplos do que defendo.