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quarta-feira, 4 de julho de 2007

Certezas (5)

Ao longe, o penteado e o passo pesado fazem lembrar Miccoli. Ao perto, não engana. Toque fino, elegância, suavidade e perfeição: é craque. Tecnicamente, um prodígio. Perfeito na recepção, é rápido a pensar e a executar. Embora extraordinário a nível técnico, não se envaidece em desfavor dos objectivos da equipa. Segura, entrega, desmarca com a mesma facilidade com que ultrapassaria, se assim fosse proveitoso, meia-dúzia de adversários. Cada movimento seu enfeitiça o apreciador de bom futebol: o seu jogo tem um perfume que nem todos podem ter. Destes brasileiros, poderiam vir às centenas para o nosso campeonato.

"É lento!", dirá quem o vir. Sim, parece. Mas é a aparente lentidão que lhe dá o encanto e que lhe permite a execução fina e o gesto perspicaz. "Se não é lento, pelo menos não é agressivo!", insistem. Não, não é agressivo. Mas desde quando é que a agressividade é critério? Laudrup, Bergkamp, Hagi eram agressivos? Zidane? Rui Costa? Quantos há que nunca precisaram de agressividade? Não tem o volume de jogo de Adrien Silva, de quem se fala excessivamente. Não aparece a dividir todas as bolas como este, nem reúne os aplausos babados do público por estar assim mais em jogo. Ofensivamente, contudo, além de suficientemente talentoso, é um trabalhador. Corre, dá espaços, cria linhas de passe, respeita apoios, entrega simples... Se defensivamente parece carecer de força e agressividade, compensa posicionalmente, sendo tacticamente irrepreensível. Se ofensivamente não se lhe notam rasgos individuais, compensa fazendo fluir de forma única o jogo. Não é ele quem dá nas vistas, mas é ele quem possibilita que os outros dêem nas vistas. Além de tudo, parece ainda ser extremamente humilde: qualidades daquelas seriam sempre uma tentação, mas parece não querer deslumbrar-se com todo o valor que tem.

Quero acreditar que um jogador destes vai ser aproveitado no futuro, mas temo que o não seja. Tem valor para estar ao mais alto nível dentro de poucos anos, mas a imbecilidade dos treinadores de futebol e, sobretudo, dos adeptos, pode fazer periclitar a sua promissora carreira. Jogadores como ele, que não deslumbram quem não percebe de futebol, têm sempre dificuldades em vingar neste mundo iníquo. O melhor que lhe poderia acontecer seria ficar este ano já no Sporting. A pré-época, vai fazê-la. Vejamos depois o que se segue, mas nada melhor que ser treinado por alguém que entende de futebol e que sabe potenciar os jogadores. Por tudo isto, boa sorte para o Yannick Pupo...