Mostrar mensagens com a etiqueta Vidic. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vidic. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os erros de Vidic

Nemanja Vidic, o central sérvio do Manchester United, é um jogador muito apreciado por muita gente. Entre esses, não haverá poucos abrangidos pela certeza de que ele é um dos melhores do mundo no seu posto. A minha opinião é completamente diferente e bastante desfavorável em relação ao jogador. As virtudes de Vidic não compensam os seus defeitos e está longe, para mim, dos dez melhores naquela posição. As críticas que lhe faço são as mesmas que faço, por exemplo, ao central luso-brasileiro Pepe: demasiado impetuoso, excessivamente agressivo, incapaz de perceber que nem sempre deve tentar a antecipação, etc. Graças ao seu modo de jogar, chama à atenção. Os cortes no limite, as antecipações, os desarmes arriscados são motivo de aplausos. O problema é que Vidic joga assim em todas as situações e não só naquelas em que o deveria fazer. A diferença entre um grande central e um central espalhafatoso é que o primeiro só faz coisas dessas em último recurso. O seu jogo viril, baseado na velocidade e na agressividade, embora suscite admiração, é o princípio errado pelo qual os erros se acumulam. Não é raro, como acontece com Pepe, que Vidic cometa erros. Muitos deles - é verdade - consegue compensá-los, pela forma como se entrega ao jogo. Mas a categoria de um jogador é directamente proporcional à sua capacidade de evitar meter-se em apuros. E nisso o central sérvio é francamente mau. Apostado em resolver todas as situações através da capacidade atlética, raramente está concentrado em algo mais para além da recuperação de bola. Não percebe, por isso, que muitas vezes deve ficar em contenção; não percebe, por isso, que muitas vezes deve entrar com mais cuidado para não provocar faltas em zonas perigosas. A sua capacidade de interpretação dos lances é reduzidíssima e quando se acabar o vigor físico será um central banal.

Serve este texto, além da exposição desta opinião, para iniciar uma nova rubrica no blogue. A discussão de lances concretos, sobretudo da parte de quem tem uma percepção tão genuína do fenómeno que é o futebol, é das coisas mais interessantes que se pode levar a debate. Até aqui, o Entre Dez rejeitou, por princípio, algo mais além das palavras. Não fazia sentido, num blogue com estas características, haver espaço para imagens ou para vídeos. E não fazia sentido porque o caractér teórico deste espaço foi sempre prioritário. Acontece, porém, que discutir lances concretos sem a ajuda de imagens é um pouco vago e pode dar azo a opiniões ambíguas. Ora bem, iniciando uma nova rubrica que consistirá em debater um ou mais lances concretos, tentando demonstrar um ponto de vista de acordo com factos, com evidências, imagens e vídeos passarão a ter espaço, consoante as necessidades. Assim, e não fugindo ao assunto do texto, gostaria de recuperar o já não tão recente confronto entre Manchester United e Liverpool, para a Liga Inglesa, no qual o defesa sérvio em questão foi a figura decisiva. O Liverpool venceu por 4-1 e Vidic foi o responsável directo pelo primeiro e pelo terceiro golo, lance que lhe valeu também a expulsão. São esses dois lances que destaco no vídeo que se segue.



No primeiro lance, um alívio de um defesa do Liverpool cai na zona de Vidic. Não querendo cabecear a bola de primeira, prefere deixá-la bater. A proximidade de Fernando Torres faz com que o central do Manchester tenha de ser, após esta primeira má decisão, agressivo sobre a bola. Chega primeiro a ela, mas em vez de cabeceá-la para o guarda-redes ou de aliviá-la, terá pensado em contornar o avançado do Liverpool. O excesso de confiança de Vidic acaba por se transformar num erro, com Torres a roubar a bola e a fazer golo. Esta incapacidade para perceber quando deve jogar de forma simples é comum em Vidic porque a confiança nas suas capacidades técnicas excede as mesmas capacidades técnicas. Lances como este não são pontuais, ainda que muitos acabem por não ser fatais como este acabou por ser.

No segundo lance, há um desvio que leva a bola na direcção de Vidic. Com a pressa de se aproximar de Gerrard, não consegue reagir a este desvio e a bola toca-lhe inadvertidamente no peito e depois na coxa, ficando à mercê de Gerrard, que fica isolado. Quando Gerrard está a passar por Vidic, este faz falta, agarrando-o na tentativa de corrigir o erro inicial, e é expulso (o livre consequente acabaria por dar o terceiro golo ao Liverpool). A falha consiste sobretudo na desarticulação com que reage ao lance. A incapacidade de dominar a bola que vem na sua direcção é resultado de uma acção excessivamente impetuosa na tentativa de encurtar, sem necessidade, o espaço para o avançado do Liverpool, quando se recomendaria que ficasse em contenção. A forma agressiva, em constante sobressalto, com que Vidic joga proporciona lances deste tipo, em que um simples desvio torna impossível uma reacção atempada. É graças ao movimento repentino que enceta para marcar ostensivamente Gerrard que depois não consegue estar bem colocado e, sobretudo, concentrado, para dominar a bola. Este lance evidencia, portanto, a principal falha do central sérvio, a incapacidade que ele demonstra em estar concentrado naquilo que importa. Estando essencialmente preocupado em ser rápido, agressivo, combativo, não consegue estar, ao mesmo tempo, bem posicionado, nem consegue ler, correctamente, a abordagem que o lance requer.