Mais irritante do que a cacofonia do nome é a histeria em torno das qualidades futebolísticas de André André, estrondosa nas últimas semanas e após o clássico deste fim-de-semana. Para Luís Freitas Lobo, por exemplo, André André é um jogador extraordinário. Mas pronto, para Freitas Lobo o Benfica de Rui Vitória também é uma equipa com as linhas muito mais juntas do que o Benfica de Jesus e Gonçalo Guedes também é um jogador que pensa o jogo a cada instante. Há que dar a condescendência devida aos parvos, e Freitas Lobo não é excepção. Quanto a André André, enfim, pode apenas dizer-se que é o exemplo mais recente da estupidez com que se olha para um campo de futebol. De tempos a tempos, surgem estes casos absurdos de jogadores sem o mínimo de talento que entusiasmam plateias inteiras. Tem tudo aquilo de que as bancadas gostam: é raçudo, vai a todas, corre que se farta, é voluntarioso, joga com amor à camisola e, ainda por cima, é filho de uma antiga glória do clube. No meio disto tudo, uma pessoa até se esquece de que o que era realmente giro era se tivesse talento. André André não tem talento. É um médio de combate, razoável do ponto de vista técnico, e útil em alguns momentos de um jogo. Não é nem médio para jogar entre linhas, que é como acreditam que deve jogar, nem médio para acrescentar alguma coisa à equipa em organização ofensiva, nem médio para jogar em zonas com pouco espaço. André André não tem um pingo de criatividade. Executa rápido, é verdade, mas apenas considera uma possibilidade. A sua decisão é sempre a mais óbvia, e pode apenas ter alguma utilidade, no passe, em momentos do jogo em que há muito espaço e pouca coisa a considerar. Os treinadores continuam a teimar em médios deste género, e continuam a acreditar que este tipo de jogador tem espaço em equipas que passam a maior parte do tempo em organização ofensiva. É pena, porque o futebol moderno, dados os bons exemplos que se foram acumulando nos últimos anos, já mostrou que não é com músculo, vontade e entrega ao jogo que se constroem equipas competentes. André André é uma espécie de Raúl Meireles. Se este já apanhou uma fase da evolução do jogo em que já não deviam apostar nele, dado aquilo que se começava então a exigir a um médio de ataque, André André aparece numa altura em que só por estupidez se pode achar que a organização defensiva adversária se desfaz com gente que corre muito, toma decisões muito rápidas e disputa cada lance como se fosse a coisa mais importante do mundo. André André é o típico médio de que se gostava muito há 15 anos. Sempre que aparecem jogadores deste tipo, fico com a sensação de que não se percebe o quanto o jogo evoluiu entretanto.
Quanto a Lopetegui, sempre me pareceu o típico treinador que, tendo sido educado, enquanto treinador, numa escola futebolística que o conduz à posse e ao futebol apoiado, possui a tentação secreta de ser um treinador à antiga. Este início de campeonato desfez finalmente todas as dúvidas. As suas equipas só não são equipas dos anos 80 porque o talento o vai disfarçando. Este ano, porém, parece realmente apostado em recuar às origens. Não é só os extremos sistematicamente abertos, as variações de flanco cada vez mais constantes, o privilégio pelas alas, a distância absurda entre jogadores e a previsibilidade com que a equipa ataca; é também o tipo de meio-campo que está a tentar construir. O ano passado, o meio-campo ofensivo do Porto era muito criativo. Quando não jogavam Oliver ou Herrera, os dois titulares, jogava Evandro, que tem bastante qualidade. E Brahimi tinha liberdade suficiente para vir para terrenos interiores, sem bola, para criar superioridade numérica por dentro e para deixar a largura e a profunidade a cargo do lateral. Este ano, além de ter saído Oliver e ter entrado Imbula, que não tem nem um terço da qualidade do espanhol e vem claramente sobrevalorizado, Herrera saiu do onze e Evandro nem conta. E Bueno, onde anda? O meio-campo do Porto, com Imbula e André André (já para não falar de Danilo), não sabe pausar o jogo, não sabe assumir a posse e não tem capacidade para desmontar linhas defensivas através de trocas de bola e penetrações frontais. Com este meio-campo, o futebol do Porto consiste sobretudo em fazer a bola chegar à linha, para que Brahimi, Corona, Varela e Tello desequilibrem individualmente, e em meter muita gente na área (os médios correm a direito, tendo por missão aparecer o mais possível junto ao ponta de lança, essencialmente a pensar em cruzamentos, em passes em profundidade para as costas da defesa e em segundas bolas). Apesar da qualidade individual do Porto, que me parece ser superior à de qualquer um dos rivais, este género de ideologia será fatal a Lopetegui.