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sexta-feira, 9 de maio de 2008

Clássicos: (Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique)

A equipa de Artur Jorge actuou num 451, mostrando desde logo respeito e receio dos germânicos. Mlynarczyk na baliza, João Pinto à direita e Inácio à esquerda, Celso e Eduardo Luís no centro da defesa. No meio-campo, Jaime Magalhães à direita e Quim à esquerda eram quase segundos laterais. André, Sousa e Madjer ajudavam a fechar o meio, ficando o ataque entregue única e exclusivamente a Paulo Futre. O Bayern tomou, por isso mesmo, conta do jogo logo de início e só em fugazes contra-ataques, normalmente lançamentos para a velocidade de Futre, o Porto conseguia sacudir a pressão germânica. Em largura, a equipa defendeu muito mal, sendo os alemães capazes de chegar à linha para cruzar com muita frequência. As figuras em maior evidência, nesta fase, foram o lateral direito Winklhofer e o extremo-esquerdo Ludwig Kögl, um jogador velocíssimo e dotado de uma requintada técnica. Os alemães iam causando cada vez mais perigo até que, num lance esquisito, após um lançamento lateral, a bola sobra para Kögl, que, na área, mergulha e faz, de cabeça, o primeiro golo. Não fica, contudo, isento de culpas o guardião portista, que saíra dos postes sem necessidade. A partir desta altura, sensivelmente a meio da primeira parte, o Porto não mais foi capaz de lançar os seus contra-ataques, apesar de Madjer ter avançado no terreno, para o lado de Futre. A equipa enervou-se e perdeu bastantes bolas, coisa que os alemães aproveitaram. Apareceu nesta fase Lothar Matthäus, com vários passes de morte, não aproveitados pelos seus companheiros. Entretanto, Kögl continuava a fazer o que queria de João Pinto, rubricando uma exibição fantástica. O resultado de 1-0 ao intervalo era lisonjeiro para aquilo que o Porto tinha feito.

No segundo tempo, Artur Jorge lançou Juary, tirando Quim. Puxou Sousa para a esquerda e o brasileiro passou a fazer companhia a Futre na frente. Isto teve o condão de soltar mais o 10 portista, que começou a pôr em água a cabeça aos alemães. Já na primeira parte fora travado em falta várias vezes, mas nesta segunda parte seria ainda mais castigado. O Bayern, apesar da maior audácia portista, nunca se enervou e continuou a controlar a partida. Os primeiros 25 minutos da segunda parte foram repartidos e nenhuma equipa se superiorizou à outra, acumulando-se jogadas de ataque nos dois meios-campos. De assinalar, nesta fase, um excelente remate de Madjer, após um ressalto, que levou a bola a sobrevoar a barra da baliza, bem como um lance na área portista, em que João Pinto derruba Kögl e o árbitro não vê. Logo após este lance, surge a melhor jogada de todo o encontro, iniciada numa tabela de Futre com Jaime Magalhães. O 10 do Porto, recebendo a bola de Jaime, entra então na área com ela dominada, ultrapassa dois adversárias, sentando-os, e remata a rasar ao poste direito da baliza de Pfaff: era o sinal do que viria a seguir. Antes ainda da reviravolta no marcador, nota para uma entrada assassina de Celso, que viu apenas amarelo; para um lance anedótico em que Celso trava Kögl e no qual o árbitro, em vez de dar o segundo amarelo ao central portista, assinala falta contra o Bayern por interpretar que o extremo alemão mergulhara; e para uma sucessão de faltas e de protestos de Jaime Magalhães que lhe poderiam ter valido o segundo amarelo. Artur Jorge faz então entrar Frasco e, minutos depois, numa altura em que o Bayern até já sacudira a maior pressão dos portugueses, um passe em profundidade encontra Juary, que toca pela segunda vez na bola durante os 30 minutos que já estava em campo; este dá para Frasco, que tira um adversário do caminho e cruza; a bola encontra novamente Juary, que remata; o remate vai encontrar Madjer que, de costas para a baliza, já sem Pfaff, utiliza o calcanhar para igualar a partida. Após este lance, Madjer saiu do terreno para ser assistido e, ao reentrar, cria um desequilíbrio na esquerda. Recebe um passe longo, dá um nó de todo o tamanho em Winklhofer e, já em esforço, cruza para Juary que, sem oposição, encosta para o 2-1: estava dada a volta no marcador. Até ao final, o Porto limitou-se a pontapear a bola para onde estava virado e a queimar tempo, sendo que os germânicos perderam todo o discernimento que tinham e não foram capazes de voltar a criar situações de real perigo.

Notas Finais:

1) O Porto venceu num jogo em que foi claramente inferior, aproveitando um lance fortuito e uma desconcentração germânica para marcar. Além de Futre, que conseguiu sempre, através da sua técnica e da sua velocidade, ameaçar as hostes alemãs, e de alguns pormenores de Madjer e Sousa, pouco ou nada o Porto fez para merecer igualar o marcador. Em termos tácticos, os alemães foram superiores até à altura em que sofreram dois golos de rajada, nunca perdendo o domínio dos acontecimentos, gerindo ritmos e conseguindo levar o jogo para longe da sua área. Foi, pois, em pequenos detalhes que o jogo se definiu. Poder-se-ia dizer que as opções de Artur Jorge foram acertadíssimas, mas nem isso é bem verdade. Até à altura do primeiro golo, o Porto da segunda parte limitou-se a chutar bolas para as costas da defesa do Bayern, a solicitar a velocidade de Juary, sendo que os lances raramente assustavam os germânicos. O brasileiro, que acabou por ser decisivo e esteve nos dois golos, tocou três vezes na bola em 33 minutos, o que revela que não teve muito a ver com a vitória. Os lances dos golos nada tiveram a ver com uma mudança de atitude ou com uma melhoria do futebol do Porto: foram lances isolados e o êxito dos mesmos deveu-se a um ou outro detalhe, como o facto de Madjer, no lance do segundo golo, não estar marcado por ter acabado de reentrar na partida.

2) O homem da partida foi Ludwig Kögl, que não parou um minuto e levou tanta ou mais porrada que Futre. Do lado dos germânicos, há ainda a destacar a excelente exibição de Matthäus e alguns pormenores de Rummenigge (irmão de Karl-Heinze Rummenigge), enquanto que no Porto os melhores foram Futre, Madjer e Sousa.

3) Nota negativa, do meu ponto de vista, para Jaime Magalhães, que passou o jogo a refilar e só não foi expulso porque o árbitro não quis, que teve uma entrada maldosa sobre Kögl, já com um amarelo, não tendo ido para a rua uma vez mais por caridade, e que, depois do 2-1, sempre que o árbitro interrompia o jogo, ia a correr e dava uma biqueirada na bola para o mais longe possível, sem sofrer as devidas consequências desse comportamento.

4) A estratégia inicial de Artur Jorge revelou-se perfeitamente errada e o Porto só não foi para o intervalo com uma desvantagem maior por manifesta incompetência dos avançados alemães na hora da finalização. Além disso, o lance do penalty na área do Porto poderia ter sentenciado o jogo.

5) Fica, pois, para a História, um Porto desconhecido que vergou e humilhou o arrogante colosso alemão. Fica para a História um Golias caído aos pés de um David. E o que a História nos deixou, aquilo que fica, é que o Porto foi um justo campeão. Ainda que a outra história, com "h" pequeno, a história do jogo, tenha sido um pouco diferente daquilo que a História com "H" grande preservou.