"Mourinho sempre disse que os seus jogadores têm que ser inteligentes e que têm que usar essa mesma inteligência." (Luis Lourenço, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.78)
"[Mourinho é um] treinador com uma inteligência superior, muito ambicioso, que exige que os jogadores também o sejam". (Deco, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.200)
Agora eu: Mourinho privilegia, acima de tudo, a inteligência.
Passemos aos treinadores, então:
1. Jesualdo Ferreira:
Aquando da recente vitória do Porto sobre o Arsenal, no Dragão, tendo a equipa londrina jogado com os reservas, visto já estar apurada, Jesualdo Ferreira afirmou que a vitória do Porto sobre o Arsenal não poderia ser minimizada pelo facto de o Arsenal ter jogado sem os habituais titulares e que a sua equipa era tão nova quanto a apresentada por Arséne Wenger. Francamente, desconhecia a faceta de comediante de Jesualdo...
2. Fabio Capello (La Repubblica, 24 de Julho de 2008):
Ha visto gli ultimi Europei, dal vivo e in tv. Hanno decretato la morte del 4-4-2: non lo fa più nessuno. Lei ci ha vinto molto, alla Juventus e al Real Madrid. E' un modello tattico da consegnare alla storia?
"Nel calcio non si consegna niente alla storia. Ci sono i revival, le rivisitazioni, le piccole modifiche sul modello B. Agli Europei, in realtà, si è giocato il famoso 9-1. Non prendeteci in giro, il calcio moderno è questo: nove che difendono e una punta centrale. Tutti rientrano nella loro metà campo, anche i quattro centrocampisti offensivi. Il calcio di questi tempi è il 9-1".
Han??? No Europeu, jogou-se em 9-1??? Capello no seu melhor. A explicação é que, no futebol moderno, 9 defendem e 1 ataca. Dá-me ideia que isso de moderno não tem nada... Se há algo de moderno no futebol é o facto de todos defenderem e de todos atacarem. Já dizia Cruijff que o seu primeiro defesa era o Romário e que, se ele não defendesse na zona certa, toda a equipa teria de defender mais atrás. E o Cruijff já não é de ontem. O senhor Capello continua a revelar que está há mais de uma década parado no tempo. Para ele, há jogadores para defender e jogadores para atacar. E, ainda por cima, 90% deles servem para defender. Com esta frase, Capello revelou praticamente toda a sua filosofia: é um treinador conservador, com ideias estagnadas e nada equilibradas, incapaz de compreender a evolução que o futebol foi tendo ao longo dos últimos anos. Além da escassez de ideias novas, Capello privilegia a defesa. Para ele, é mais importante defender do que atacar. Para atacar, espera-se pela sorte, ou então pela inspiração individual dos avançados. Boa...
3. Marcelo Bielsa:
"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."
O perfeito oposto da mentalidade de Capello é este comentário do ex-seleccionador argentino e actual seleccionador chileno, Marcelo Bielsa. Para Bielsa, aprender a defender é muito mais fácil que aprender a atacar, pois as possibilidades ofensivas são infinitas. Concordo totalmente com isto. Aquilo com que não concordo é com a aparente leviandade com que Bielsa trata a defesa. Defender não é só correr. Aliás, se Bielsa se preocupa com a forma como ataca, deveria preocupar-se com a forma de defender, que é sempre o princípio de qualquer ataque. O erro de Bielsa é separar tão drasticamente as duas coisas. Defender de forma correcta, isto é, com os elementos bem posicionados em campo, é a base essencial para a equipa poder passar da defesa para o ataque em pouco tempo. A ideia de Bielsa é compreensível: para defender, basta haver vontade, pelo que o trabalho a fazer é apenas motivacional, enquanto que para atacar é preciso cultivar a criatividade, o talento, a inspiração, etc. Mas o problema é que defender não é só uma coisa da vontade. Não basta apenas querer. É preciso cultura posicional, educação táctica, etc. É verdade que, para aprender a defender, não são necessários tantos esforços: basta corrigir posicionamentos defeituosos, limar vícios antigos, obrigar os jogadores a preocuparem-se com coberturas, etc. Para atacar, é preciso tudo isto e ainda apelar ao instinto criativo, à capacidade da equipa se tornar imprevisível. Isso é muito mais difícil. Tanto Capello como Bielsa parecem cair no erro de achar que defender e atacar são duas coisas distintas e intocáveis. Mas de entre os dois, privilegio claramente a mentalidade do argentino, pois compreende que o ataque é muito mais difícil de trabalhar do que a defesa.
4. Fabio Capello:
Mourinho sarà un allenatore rivoluzionario per il calcio italiano?
"Ai nostri allenatori Mourinho non ha da insegnare niente. In Italia il calcio tatticamente è una cosa molto, molto seria. Sotto l'aspetto calcistico siamo i più avanzati e ormai tutti conoscono tutto. Mourinho adesso ha in mano una macchina straordinaria e non credo farà rivoluzioni, gli sarà sufficiente portare quell'un per cento di novità".
Uma vez mais, Capello demonstra a paralisia temporal que possui. Desta vez, alia à mesma uma pitada de arrogância. Até há uns anos, isto de a Itália ser o país mais evoluído tacticamente era um mito. Confundia-se evolução táctica com jogar à defesa. E confundia-se aglomeração de jogadores atrás da linha da bola com organização defensiva. Nos últimos 5 anos, principalmente, isto foi corrigido. A Itália já não é o país do "catenaccio" e no campeonato italiano até se marcam tantos ou mais golos do que em Inglaterra, por exemplo. O campeonato, este ano, é provavelmente o mais atraente, com partidas fenomenais entre equipas de segunda linha, coisa sem igual noutros campeonatos europeus, e a grande maioria das equipas é bastante evoluída tacticamente. Aliás, é o campeonato no qual se vislumbra uma maior variedade táctica, desde o 442 clássico da Juventus ao 442 losango do Inter de Mourinho, do 4231 da Roma de Spalletti ao 433 da Fiorentina de Prandelli, do 352 ao 343, etc. Concordo, por isso, que em Itália abunde o saber táctico. Mas a frase de Capello é um frase feita. E uma frase que recorda um saber táctico de uma altura em que não havia assim tanto saber táctico. Quando Capello se refere ao saber táctico dos italianos, está a referir-se a um tempo em que isso era um mito, está a referir-se ao seu tempo e a si. E o saber táctico de Capello é como o de Ranieri: está um pouco obsoleto, no meio de tanta variedade e tanta novidade. Além disto, Capello ainda diz que Mourinho trará, no máximo, um por cento de novidade. Dizer isto é não conhecer a realidade, bem como não conhecer Mourinho. Só ao nível da metodologia de treino, Mourinho rompeu com todo o cânone. Basta lembrar que, ao chegar a Itália com este método de trabalho, suscitou imediatamente a curiosidade alheia. Carlo Ancelloti, um dos que não acha que não tem nada a aprender com Mourinho, disse imediatamente que gostaria de ir assistir a um treino do Inter, tal era o interesse que lhe despertava uma nova maneira de trabalhar. Capello, uma vez mais, revela toda a sua pouca modéstia e toda a sua parca sabedoria.
5. Mourinho:
Prefere Stankovic em posições mais centrais ou encostado à esquerda?
"Muitos pensam que o jogador mais posicional à frente da linha defensiva deve ser um jogador muito defensivo. Eu não penso assim. Penso que esse jogador deve ser um jogador com boa capacidade para jogar a bola, com qualidade, com visão, com tranquilidade, para ser quase como o homem que inicia a construção de jogo nessa zona. E o Stankovic é um jogador com experiência que pode jogar aí. Se tivermos Cambiasso para jogar na sua posição normal, obviamente que Stankovic será uma opção para jogar um pouco mais à frente, mas penso que ele pode jogar nessa posição, sim."
Um jogador como Pirlo?
"Não conheço a ideia de Carlo Ancelloti com Pirlo. Não, agrada-me um jogador de futebol, não me agrada um jogador que destrói o jogo do adversário. Gosto, nesta posição, de um jogador que joga e o Cambiasso joga e Stankovic joga e temos alguns outros que podem jogar nesta posição."
Para muitos, isto já não é novidade. Para outros, talvez não seja assim. Ficam, contudo, as palavras de Mourinho (traduzidas por mim) acerca do assunto. Para ele, um médio-defensivo não deve ser um jogador de características defensivas; deve ser alguém que saiba jogar à bola e não alguém para destruir jogo. Em 2008, essa realidade não é propriamente nova, mas, até ao aparecimento de Mourinho, tirando os holandeses, poucos ou nenhuns treinadores tinham ousado pensar desta forma. É uma das muitas revoluções que Mourinho ajudou a realizar. Num futebol a sério, verdadeiramente colectivo, como poucos o preconizam, jogadores como o típico médio-defensivo "carraça" não fazem sentido.
6. Mourinho (Conferência de Imprensa a seguir ao jogo da Supertaça contra a Roma):
[Sobre a questão de Ibrahimovic não marcar muitos golos.]
"Poderá melhorar, mas penso que, numa equipa, para jogar um futebol de controlo e um futebol com posse de bola, é sempre mais importante um super-jogador do ponto de vista técnico que um jogador que marca golos. Se uma equipa está dependente de um jogador que marca 20 ou 30 golos numa época e se o jogador se encontra num momento difícil, as coisas não serão fáceis."
Para Mourinho, o seu ponta-de-lança não tem de ser um exímio finalizador. Isto, se repararmos nas suas equipas e nos números das mesmas, não é nada de novo. Tirando Drogba, no último ano do Chelsea, e McCarthy, no último ano do Porto e após um final de época em que a equipa tudo fez para que o avançado sul-africano aumentasse o seu pecúlio, as equipas de Mourinho, sendo em conjunto o melhor ataque da prova, não têm normalmente o melhor marcador da mesma. Isto porque, nas suas equipas, marcar golo é uma coisa colectiva, da competência da equipa e não do seu avançado. Para Mourinho, para jogar ao ataque, para jogar em posse, é sempre mais importante um jogador que o possibilite do que um jogador capaz de marcar muitos golos. Assim, numa equipa que queira exercer o domínio de jogo, um jogador que valha apenas pela extraordinária capacidade finalizadora que possui não é um jogador útil. Veja-se o erro (assumido por Mourinho no final da época) que foi a contratação de Mateja Kezman. Para Mourinho, incorporar numa equipa sua um jogador que depende da sua capacidade individual de finalizador é desvirtuar o princípio absolutamente colectivo da sua maneira de pensar. Se quer uma equipa que troque a bola e consiga dominar o jogo, todos os seus elementos têm de ser benéficos para isso. Um jogador que não o seja, ainda que depois seja capaz de finalizar melhor do que outros, é sempre um corpo estranho no interior de um colectivo afinado por atributos colectivos. Sim, estou a insinuar que a Mourinho jamais lhe interessaria um jogador como Liedson...