Grupo A
Polónia e Grécia deram o pontapé de saída deste campeonato. Num jogo esquisito, em que os gregos defenderam mal os flancos, com a equipa a bascular horizontalmente muito mal, foram os movimentos do flanco direito polaco que começaram por criar dificuldades. À excepção destes movimentos, com Piszczek e Kuba em claro destaque, a Polónia foi uma equipa pouco interessante. Aliás, tirando as combinações pela direita, muito facilitadas pela forma deficiente como o meio-campo grego defendeu, pouco se viu. Quanto à Grécia, pouco também para dizer. Ao contrário de muita gente, para quem Samaras fez um mau jogo (o comentador de serviço, aliás, disse que estava a fazer um jogador horrível), acho que o avançado grego foi o melhor em campo. Tem isto a ver não apenas com um modo diferente de ver o jogo, mas sobretudo com o facto de valorizar todas as acções em campo de igual modo. Para aqueles que acham que Samaras esteve muito mal, só os lances vistosos é que importam. Como atirou duas bolas para as nuvens e chutou no chão num lance em que quis variar o flanco, acham que esteve especialmente desastrado. Acontece que, à excepção desses lances, Samaras esteve incrivelmente bem. Foi muitas vezes solicitado com pontapés longos, e deu quase sempre bom seguimento ao lance. Por vezes, mesmo rodeado por três adversários, recebia no peito, punha no chão, aguentava os adversários, esperava pelo apoio, e deixava a bola jogável. Um avançado também é isto. E, quando um avançado consegue isto tantas vezes, é preciso reconhecer-lhe mérito. Samaras foi a principal figura dos gregos porque foi o que permitiu aos gregos, muitas vezes, chegar à frente em ataque combinado. Depois, a procurar os espaços certos entre os defesas e os médios polacos também esteve acima da média. Incompreensível que não se lhe tenham percebido as qualidades. A República Checa acabou cilindrada pela Rússia, mas não partilho da euforia geral acerca dos russos. É verdade que a equipa tem qualidade individual de sobra, e deverá ser levada muito a sério, por isso. Mas, em termos colectivos propriamente ditos, esta selecção está a milhas daquela que, há quatros anos, Guus Hiddink comandava. A República Checa, aliás, teve uma postura bem mais interessante. Defendeu mal, e desleixadamente, é certo, mas trocou bem melhor a bola. Os russos concederam sempre a iniciativa ao adversário, e raramente fizeram outra coisa do que sair em contra-ataque. Apresentaram qualidade neste momento do jogo, é certo, mas beneficiaram quase sempre do mau posicionamento checo. Colectivamente, a única coisa que me pareceu verdadeiramente interessante na equipa russa foi a movimentação dos extremos, Arshavin e Dzagoev, percorrendo o espaço entre linhas com muita qualidade, e a movimentação de Kerzhakov. Quando não se apressaram, e trocaram a bola verticalmente, pelo chão, com passes curtos, os russos conseguiram apresentar argumentos colectivos relevantes. Mas esse pareceu sempre um plano alternativo. Contra equipas melhor preparadas para a perda de bola, terão de utilizá-lo mais recorrentemente, se quiserem manter a bitola.
Grupo B
Começou com a surpreendente derrota da Holanda frente à Dinamarca. Pelo que os holandeses fizeram no último mundial, no entanto, não deveria ser surpresa para ninguém. Para já, devo dizer que a Holanda é a equipa mais fraca, em termos estritamente colectivos, em prova. Em contrapartida, tem qualidade individual que nunca mais acaba. Depois de um começo em que os dinamarqueses concederam a iniciativa aos holandeses, depressa se percebeu que ter seis jogadores só para defender e quatro só para atacar criaria buracos fáceis de aproveitar. Acalmando-se, a Dinamarca começou a trocar a bola com tranquilidade, fazendo os holandeses correr atrás dela. Sem grandes pressas, nem correrias à parva, os dinamarqueses levavam a bola para o flanco e voltavam a trazê-la para o meio, sem que os holandeses a conseguissem roubar, e começaram a controlar o jogo. Ao intervalo, já a Dinamarca ia dando um banho à Holanda. A segunda parte arrancou com a Holanda disposta de modo diferente, com Afellay a vir mais dentro, e Sneijder a aparecer mais descaído para o flanco esquerdo, e, fruto unicamente da qualidade individual dos holandeses, criaram situações suficientes para empatar, e talvez até para ganhar. Mas nunca souberam controlar o jogo. A Dinamarca, sendo muitas vezes incapaz de suster o ímpeto holandês (principalmente por haver uma diferença na valia individual brutal), nunca perdeu a compostura. Saiu sempre tranquilamente, sem grande vontade de explorar a velocidade, privilegiando a manutenção da bola, e acabou por vencer muito justamente. A Holanda só ameaçou individualmente, quer fosse pelos rasgos de Robben ou Van Persie, quer fosse pelos passes teleguiados de Sneijder. Um apontamento, ainda, acerca do organizador holandês. Não é de agora, mas este jogo foi sintomático disso, e vale a pena falar no assunto. Nos últimos anos, Sneijder perdeu qualidades a nível da decisão. Sobretudo na segunda parte do desafio, com a Holanda pressionada para obter o empate, não faltaram elogios a Sneijder. No entanto, acho que as suas opções raramente ajudaram a equipa. É verdade que conseguiu colocar duas vezes o avançado na cara do guarda-redes, mas ofereceu diversas bolas à defesa dinamarquesa. O que critico em Sneijder é o que critico em alguns médios cuja melhor característica é a qualidade de passe. Sem critério na decisão, estivesse junto à área dinamarquesa, estivesse a meio-campo, Sneijder flectia para dentro e procurava sistematicamente o último passe. Houve raras excepções, mas que apenas confirmaram a regra. Tal decisão resultou as primeiras vezes, mas facilmente se tornou previsível. E cada bola que chegava à esquerda passava a ser um ataque inofensivo. Os elogios de que foi alvo ignoraram, portanto, o erro de decisão que esteve na base das acções elogiadas, e não consigo perceber como se ignora tal coisa. Sneijder, como Robben, de outra forma, quis resolver sistematicamente o jogo sozinho. E isso raramente é bom. Van der Vaart entrou para oferecer apoios horizontais pela esquerda, e praticamente nem tocou na bola. No outro jogo, pouco a dizer. Portugal só se pode queixar de si mesmo. É verdade que podia, e até talvez merecesse, empatar o jogo no final, mas passou demasiado tempo à espera de um erro alemão. É sabido que não gosto particularmente de equipas que jogam os 90 minutos no erro do adversário, e foi isso que Portugal fez. Não o fez sempre tão baixo como em alguns momentos do jogo, mas apostou essencialmente na capacidade de pressing e nas transições. Não quis nunca ter a bola durante demasiado tempo, e teve sempre medo de se expor. Se a Holanda ainda atacou com quatro jogadores, Portugal nunca usou mais do que os três da frente. A Alemanha também não fez um jogo excepcional, mas teve o mérito de ter procurado, pelo menos durante mais tempo, a sorte que acabou por ter. Resultados justos, neste grupo, e um nome a reter: Hummels.
Grupo C
Excelente novidade, o comportamento italiano frente à Espanha. Quando todos previam, até pelos três defesas centrais com que se apresentavam, que a Itália fosse defender os 90 minutos, e apostar na velocidade, eis que apareceram Pirlo e companhia a mostrar que os últimos trinta anos de futebol transalpino deviam começar a ser esquecidos. A Espanha foi melhor, como era de esperar, e até merecia ter ganho, pelo caudal ofensivo apresentado, mas a Itália deu a melhor réplica que poderia ter dado. Percebeu que a melhor forma de controlar o jogo espanhol não é defender com autocarros, mas ficando com a bola, circulando-a, fazendo os espanhóis provar um pouco do seu próprio veneno, e acabou por conseguir atacar com qualidade e não apenas através das acções de dois ou três jogadores. Calma, circulação de bola, e segurança no passe, foi tudo aquilo de que precisaram. Muito bem Cassano, a segurar e a esperar pelos apoios. Muito bem também Marchisio, e excelente Andrea Pirlo. Não sei se a Itália terá capacidade para dominar adversários mais fracos, mas contra um adversário mais forte provaram competência. Quanto à Espanha, apesar do empate, continua a ser a melhor equipa em prova. Mourinho disse que, sem avançado, a equipa foi inofensiva. A Espanha teve alguns problemas, mas nenhum que tenha a ver com a ausência de um avançado, ou com o que quer que Mourinho ache que significa ser inofensivo. Durante a primeira parte, a opinião geral foi de que a Itália teve as melhores oportunidades, o que é falso. Ter obrigado Casillas a mais defesas apertadas do que a Espanha obrigou Buffon não significa ter mais oportunidades. Os espanhóis apareceram em posição de finalização vezes sem conta, mesmo na primeira parte, e inúmeras foram as vezes que os remates já dentro da área embateram em italianos ou foram cortados in extremis. E ser capaz de, tantas e tantas vezes, conseguir invadir os espaços entre a linha defensiva e a linha de meio-campo do adversário é também uma forma de criar algum perigo, pois a partir daí um único passe pode isolar um colega. Os espanhóis jogaram bem, foram superiores, e mereciam ter ganho, não obstante o bom jogo italiano. Dizer que foram inofensivos só se entende se ainda houver alguma azia relativamente ao tipo de futebol catalão que tantas insónias lhe causou. O verdadeiro problema da Espanha chamou-se Xabi Alonso. Ou a necessidade que Del Bosque viu em utilizá-lo. É que o jogador do Real Madrid não é deste filme, e não compreende bem o que há a fazer na grande maioria das situações. Não raras vezes, esticava o jogo quando se pedia calma; outras, simplesmente, parecia não perceber o que os colegas queriam dele. Del Bosque acha que ele tem de jogar, e então o meio-campo espanhol é uma confusão. Mesmo a defender, Xabi Alonso nunca soube cobrir Busquets, como este o cobria a ele, e a Espanha esteve desorganizada quando tentava recuperar a bola. Não era mais fácil, se a ideia é replicar o que o Barcelona faz, usar precisamente o modelo catalão, com Busquets, Xavi, e Fabregas, e soltar Iniesta, Silva e outro jogador na frente? Para quê inventar? De resto, nota negativa também para Arbeloa no lance do golo italiano, estando encostado a Cassano e permitindo o aproveitamento da profundidade entre ele e Piqué. Nota muito positiva, por outro lado, para Andrés Iniesta. Que jogo monstruoso! Alguém tem dúvidas de quem é o melhor da Europa? Eu não tenho. No outro jogo do grupo, a Irlanda é demasiado britânica para estar neste campeonato. Quando se junta a algo que está obsoleto há 40 anos um treinador cujas ideias estão obsoletas há 20, só se poderia esperar um futebol completamente obsoleto. Eis a Irlanda, a pior equipa em prova. As únicas armas que têm são a agressividade e os lances de bola parada. A Croácia, em 4132, apresentou-se sólida, e com alguma criatividade. No entanto, o jogo tornou-se demasiado fácil para que se possam tirar grandes ilações. É preciso ver o que faz contra adversários mais poderosos.
Grupo D
Dois jogos fracos. França e Inglaterra não têm argumentos, nem individuais, nem colectivos, para ombrearem com as melhores selecções da competição. A selecção francesa mandou no jogo, mas sempre de forma muito atabalhoada. É também curioso que Mourinho não tenha feito a mesma crítica aos franceses que fez aos espanhóis. É que a França também jogou sem avançado. E, neste caso, o jogador que jogou mais adiantado, Benzema, até é seu jogador. O avançado gaulês procurou sistematicamente movimentos interiores e de aproximação, e raramente sugeriu a solicitação em profundidade. Ribery não sabe o que é uma decisão, e Nasri é pouco para inventar lances de perigo. Há demasiado músculo a meio-campo, e pouca inteligência para contornar problemas bicudos. Quanto à Inglaterra, é provavelmente a pior selecção inglesa de que tenho memória. É verdade que faltam Rooney, Wilshere e Lampard, principalmente, mas a quantidade de jogadores absolutamente banais entre os titulares ingleses é indescritível. Tirando os dois centrais e os dois médios-centro, alguns deles praticamente em final de carreira, a equipa inglesa ou tem jovens promessas ou tem jogadores de baixíssima categoria. Welbeck? Milner? Glen Johnsson? Francamente. Juntando a isto o deserto de ideias colectivas que é esta equipa, só esperando um milagre como o do Chelsea este ano. Quanto ao outro jogo, duas equipas muito parecidas, em termos de desenho táctico, mas com intenções diferentes. Os ucranianos procuraram, desde o apito inicial, a baliza adversária, e sobretudo por isso mereceram a vitória. Só depois de se encontrar a perder é que a Suécia quis mandar no jogo (e até conseguiu duas ou três boas oportunidades) e não merecia, por isso, que a sorte lhe sorrisse. Tacticamente, são duas equipas muito pouco interessantes, e não creio que valha a pena perder muito tempo a falar delas.
Após a primeira ronda, mantenho a opinião, pouco convicta na altura, de que as principais candidatas à vitória final são a Espanha e a Alemanha. Modifica-se, sobretudo, o lote de segundas equipas, com a Itália e a Rússia a serem as minhas apostas. É evidente que o torneio se decide a eliminar, e que uma equipa fora destas quatro pode conseguir surpreender. Dependerá, por isso, também do que acontecer nesta fase de grupos. Dinamarca, Portugal, Holanda e França, principalmente, poderão, portanto, ter uma palavra a dizer. Os dinamarqueses pela sobriedade colectiva com que apareceram na prova; as restantes por terem categoria individual com que compensar as deficiências colectivas. Veremos o que se segue.