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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Oportunidades de Golo

Na mais recente crónica na Tribuna Expresso, explico por que motivo as oportunidades de golo não reflectem de modo algum a produção ofensiva de uma equipa num jogo, exponho todos os problemas inerentes à ilusão da ferramenta dos Expected Goals (xG) de medir a qualidade dessas oportunidades e arrelio a maravilhosa seita dos analistas de tabelas numéricas e graficozinhos coloridos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Futebol do Tottenham de Pochettino

O treinador mais interessante da Premier League chama-se Mauricio Pochettino. O adepto normal, assim como o comentador enfebrecido, têm porém os escrúpulos domesticados pelas opiniões vulgares dos que acreditam que a diferença entre o futebol e o halterofilismo é haver uma bola. O tom depreciativo com que os comentadores da Benfica TV falam do Tottenham de Pochettino, por exemplo, é absurdo. No ano passado, quando as coisas não corriam bem, passavam os jogos a sugerir que o treinador argentino viera descaracterizar o futebol inglês. Convencidos de que o futebol inglês é genuíno e de que em terras de Sua Majestade é que se joga a sério, tais comentadores viam o estilo da equipa londrina como uma aberração. Não é preciso muito para mostrar o quão errados estão. O futebol inglês, no seu todo, leva uns 30 anos de atraso; as competências colectivas da maior parte das equipas são pouco mais do que rudimentares; o futebol praticado é horrível, do ponto de vista da criatividade e da inteligência, e só provoca emoções naqueles que não sabem que emoções devem ter; as equipas inglesas, como se demonstra pelos fraquíssimos resultados que continuam a averbar na Europa, não têm capacidade para ombrear com as equipas europeias. Ao contrário do que pensam tais comentadores, o futebol inglês precisa de ser descaracterizado. Precisa, portanto, de mais Pochettinos. Quando as coisas começaram a correr bem ao Tottenham, quando aquele mesmo futebol, que era motivo de escárnio apenas por não obter os resultados que depois veio a obter, passou a ser eficaz, os mesmos comentadores tiveram certamente de engolir alguns sapos.

A segunda época de Pochettino à frente dos londrinos começou, de novo, menos bem, e logo os mesmos comentadores voltaram a fazer-se ouvir. Durante a primeira parte do jogo deste fim-de-semana com o Sunderland, todos os elogios eram dirigidos para os contra-ataques adversários, para a velocidade imprimida por Lens e Defoe. O Tottenham jogava organizado, de pé para pé, com qualidade, procurando atrair para desmarcar, insistindo em desfazer as linhas adversárias com paciência, invadindo o espaço entre linhas e sem pressa de chegar a zonas de finalização. À medida que o tempo ia passado e o nulo inicial não se alterava, os comentadores iam sentindo cada vez mais necessidade de exprimir a sua repugnância por um futebol que não compreendem e julgam errado. Entre outras coisas, afirmavam com desdém que Pochettino tinha "alergia aos extremos" ou que a história e a tradição de uma equipa como o Tottenham impunha outro estilo de jogo. Ora, é muito difícil explicar a tartarugas que "alergia a extremos" é possivelmente o melhor sintoma que podiam verificar actualmente num treinador de futebol. Hoje em dia, convencionou-se que qualquer equipa tem de abrir o seu jogo atacante, que deve usar extremos velozes, fortes no um para um e úteis em momentos de transição. Para a maior parte das pessoas, ter dois extremos deste género em campo é a única forma de provocar desequilíbrios, no futebol moderno. Ora, a maioria das pessoas não percebe nada de futebol. Não sendo contra a utilização de extremos, sou contra a ideia de que os extremos servem para este género de tarefas. É por isso que considero que um treinador que tem orçamento para contratar alguns extremos capazes de desequilibrar e não o faz, um treinador que dispensa os seus extremos (Lennon) ou não os utiliza com regularidade (Towsend), é um treinador que percebe que, ofensivamente, a equipa deve privilegiar soluções colectivas em detrimento de soluções individuais. Ser alérgico a extremos é sintoma de quem percebe que uma equipa é muito mais do que as individualidades que a compõem, e é por isso que Pochettino, ao contrário do que pensam aqueles que não percebem nada de futebol, é muito melhor treinador do que a maioria dos treinadores ingleses.



Não vi a segunda parte do jogo, mas dava muita coisa para ter presenciado a reacção dos energúmenos que comentavam o jogo quando o Tottenham chegou ao golo, já perto do fim do jogo. É que o golo dos londrinos é fruto justamente da insistência no tipo de futebol que esses comentadores não compreendem, no tipo de futebol que dispensa a utilização de extremos velozes a quem entregar a bola assim que é recuperada para que estes forcem os desequilíbrios na defesa adversária. O Tottenham joga preferencialmente pelo centro do terreno, colocando muita gente no meio, e insistindo em passes verticais que servem para desmontar as linhas adversárias e para aproveitar o espaço entre elas. E este golo é o melhor exemplo da utilidade desse futebol. Um toque de Lamela para Mason, o passe vertical deste para Kane, que dá de primeira em Lamela, que entretanto tinha arranjado espaço, fruto do desinteresse em si que a bola motivou, e o passe de Lamela a solicitar Mason no espaço libertado pelo central que foi atrás de Kane foi tudo o que bastou. Três jogadores e quatro passes chegaram para desmontar as linhas defensivas do adversário. Com passes curtos, tabelas e triangulações, o futebol é muito mais eficaz do que com os tão elogiados extremos que correm a direito e provocam desequilíbrios individuais. Os comentadores desportivos, sem grandes excepções, continuam a não perceber isto e continuam, semana após semana, a dizer disparates. O jogo continua a evoluir, mas aqueles que ganham a vida à custa do futebol insistem em falar do jogo que os seus avós lhes ensinaram a ver. A inteligência é uma coisa bonita, mas é quando permite aos homens aprender que aquilo que aprenderam não é válido para sempre.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Tottenham de Villas-Boas

André Villas-Boas foi um dos treinadores que mais nos impressionou nos últimos anos. Em poucas semanas, quando chegou à Académica, revolucionou o estilo de jogo da equipa. Os seus jogadores, com poucos treinos, mostravam organização, qualidade de jogo e personalidade de equipa grande. Depois, ao longo da época, a qualidade foi aumentando; tirando os desafios contra os grandes, era sempre a sua Académica quem dominava os jogos pela posse. Ainda assim, faltava imaginação no meio-campo. Assumimos que faltasse por não haver qualidade individual suficiente. No Porto, a história foi obviamente outra. Um ano extraordinário, em que ganhou tudo, bateu records, e ainda fez de Hulk um jogador ligeiramente menos auto-centrado. Mas mesmo o seu Porto não convenceu totalmente. Era uma equipa muito bem organizada, com alguns mecanismos ofensivos muito bem trabalhados, mas excessivamente vertical. Assumimos, uma vez mais, que tal fosse consequência da presença de Hulk, em quem Villas-Boas sempre apostou incondicionalmente, e assumimos também que o ocaso de Belluchi, na segunda metade da época, fosse motivada pela lesão que sofreu em meados da mesma. No Chelsea, modificou as suas ideias assim que as coisas começaram a correr mal e, em abono da verdade, é difícil fazer uma análise justa ao seu desempenho não sabendo quanto do mesmo foi minado pela pressão do grupo de jogadores. No Tottenham, portanto, tinha Villas-Boas o seu derradeiro exame. Numa equipa de segunda linha, com um plantel interessantíssimo e um orçamento bastante apetecível, sem a pressão de ter de vencer nada, tinha Villas-Boas todas as condições para apresentar as suas ideias.

A decepção não pode ser, por isso, maior. Interessa-me pouco que o Tottenham esteja à frente de equipas como o Arsenal e o Liverpool, por exemplo: o futebol praticado pela equipa é deprimente. Interessa-me pouco, também, que a equipa demonstre carácter e ambição, que discuta até ao fim o resultado com o campeão em título, que não baixe os braços, que denote uma enorme vontade. Só a qualidade do futebol me interessa. E essa é francamente má. Sim, há organização, há competência táctica, há trabalho de casa feito. O que não há é um pingo de imaginação. A equipa de Villas-Boas é cinzenta, joga mecanicamente. Não tem ideias, e não procurou cortar com nada do que se continua a fazer em Inglaterra. Villas-Boas tem provavelmente o plantel atleticamente mais refinado, das 6 equipas de topo do futebol inglês. Tem laterais que parecem cavalos, tem médios fortes do ponto de vista físico, e muito dinâmicos, tem talvez a dupla de extremos mais veloz da competição. Mas não tem um único jogador de futebol. No início da época, à inevitabilidade de perder Modric, o seu médio mais interessante, juntou Villas-Boas a dispensa de Van der Vaart e Kranjcar. Para o meio-campo, foi buscar Dembélé e Dempsey, dois bons jogadores, física, táctica e tecnicamente, mas a quem falta criatividade. Juntou a toda esta modificação a ostracização ainda de Scott Parker, o único médio com ideias diferentes. O único central de jeito que tem veio-lhe parar às mãos quase por acaso, uma vez que estava contratado antes de Villas-Boas ter assinado, e não é uma aposta clara, jogando até a defesa-esquerdo quando Assou-Ekotto não pode. Falo de Jan Verthongen, obviamente. De resto, André Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com o facto de ter uma dupla de centrais de estacas, joguem Dawson, Caulker, Kaboul ou Gallas. Na direita, Kyle Walker é o tipo de lateral vistoso, que corre muito, que é agressivo, que disputa todos os lances como se fossem o último da sua vida, mas que comete, pelo menos, cinco erros graves por jogo, e faz disparates atrás de disparates, quando tem a bola. Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com isso, e Kyle Walker continua o dono indiscutível da posição. Não sei se Villas-Boas teve ou não responsabilidades na dispensa de Corluka, mas o croata é vinte vezes melhor que Walker.

Na frente, Jermaine Defoe tem sido o dono do lugar de ponta-de-lança. É um jogador vertical, que serve apenas para solicitações nas costas da defesa e jogo de área. Não tem qualidade nos apoios, e é um avançado a quem falta qualidade para jogar numa equipa que procure um futebol interior, de posse, paciente. Aaron Lennon é um extremo velocíssimo, mas que não sabe o que é uma equipa. Nunca achei que pudesse vir algum dia a aprender a jogar com os colegas, e o seu jogo esta época parece-me ainda mais deficiente. Quando sai do drible na linha, já tem a jogada toda na cabeça; não há uma única ideia ali. Ou vai forçar o um para um para fora até cruzar, ou vai driblar para dentro até ter espaço para rematar. Ontem, frente ao Manchester United, há um lance que o define. Finta para dentro, arranja espaço na zona frontal, e a sua acção faz com que os defesas de Alex Ferguson ajustem o seu posicionamento, vedando a zona central, o que cria um buraco que deixa Dempsey completamente isolado. Ao chegar à zona de tiro, com dois adversários pela frente, bastava encostar no colega, que ficava com De Gea só pela frente. Lennon, porém, já tinha executado tudo na sua cabeça, e rematou, sem consequências. Para que serve toda aquela velocidade, toda aquela qualidade técnica, toda aquela explosão, aquela capacidade de drible, se não consegue adequar isso às necessidades da equipa? Lennon pode fintar o seu opositor directo vinte vezes por jogo, pode pôr as bancadas ao rubro, pode, sozinho, criar situações de perigo, que a equipa nada ganha com isso. O único jogador que me agrada no Tottenham é Gareth Bale, mas também ele parece embriagado pelo individualismo táctico em que se joga. Na verdade, em ataque organizado, este Tottenham parece uma equipa de miúdos a jogar na rua: o primeiro que apanha a bola tenta fuçar até conseguir alguma coisa. Fazem isto Lennon, Bale, Dembelé e Defoe, à vez. Se recebem de costas, tentam virar-se. Ninguém dobra o passe, ninguém joga nos apoios recuados, ninguém pára quieto um segundo, para perceber qual é a melhor solução, por que zonas deve a bola correr. Não admira que o Tottenham tenha especiais dificuldades contra equipas que se fecham lá atrás; a bola não circula, a equipa progride quase sempre através do transporte, quase não há jogo entre linhas.

Este Tottenham tem uma atitude competitiva interessante, tem jogadores abnegados, lutadores, tacticamente responsáveis. Falta-lhe, porém, aquilo a que quase ninguém dá valor: criatividade. Em tempos, julguei que Villas-Boas desse valor a isso. O seu discurso, e algumas das ideias que algumas das suas equipas apresentaram, levavam a crer que fosse diferente. Não é. É mais um treinador, de uma vaga de treinadores modernos, que tem métodos de trabalho interessantes, que é competente a organizar as suas equipas, mas que não é especialmente distinto de ninguém. O seu Tottenham é a prova clara disso. Villas-Boas preza a organização, a agressividade defensiva, a responsabilidade táctica, e a intensidade de jogo acima de coisas como a imaginação, a criatividade e as ideias. Pode ter agradecido a Guardiola quando ganhou a Liga Europa, mas não me parece que tenha aprendido nada com ele. Se houve coisa que Guardiola ensinou foi que a intensidade e a agressividade estavam sobrevalorizadas. Villas-Boas estava no sítio certo para mostrar que Guardiola tinha razão: o futebol inglês. Em Inglaterra, qualquer equipa que saiba pausar o jogo, que saiba trocar a bola calmamente, que saiba gerir o ritmo da partida, que saiba chamar o adversário e fazer a bola entrar no seu bloco, é rainha. Villas-Boas transformou a sua equipa para ser o oposto disto, para ser uma equipa que mordesse os calcanhares a todos os adversários. Com isso, pode bem causar problemas até aos candidatos ao título, mas jamais fará do Tottenham uma equipa grande. O quarto lugar que ocupa é o melhor que poderá almejar, e é já muito. Tal posição depende dos índices de concentração e da mentalidade competitiva da equipa, que tem sido alta. Mas está à mercê dos resultados. Uma equipa que suporta o seu futebol na mentalidade agressiva com que joga depende sempre dos resultados para ser capaz de manter a mentalidade. No dia em que as coisas começarem a correr mal, o futebol do Tottenham deixa de produzir resultados, e Villas-Boas falhará. É esse o triste fim daqueles que vendem a alma ao diabo ao trocar a qualidade pela competitividade.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Kyle Walker e o que Não é um Lateral

A primeira vez que vi Kyle Walker a jogar, pela selecção sub-21 inglesa, pensei imediatamente: "este tipo, em poucos anos, vai ser adorado por uma grande falange de mentecaptos, e vai ser considerado dos melhores laterais da Europa". É claro que Kyle Walker, na minha opinião, não é nada disto. Mas não me enganei. Em pouco tempo, começavam a babar-se por ele aqui, e hoje ninguém lhe discute a qualidade, como por exemplo aqui. A razão pela qual adivinhei a reputação futura de Kyle Walker é a mesma razão pela qual ninguém lhe discute o valor: a grande maioria das pessoas acha que o lateral é uma coisa que facilmente se percebia que Kyle Walker viria a ser. A saber, o jovem inglês é um prodígio em termos de força, é rápido, é muitíssimo agressivo, compenetrado, e tem técnica suficiente para fazer o corredor sem problemas. Além disso, tem uma mentalidade competitiva invejável. Este conjunto de atributos, num lateral, é hoje em dia inquestionável. Noutras posições do terreno, é mais difícil adivinhar quando um jogador vai ser apreciado ou não, mas um lateral com estas características não podia dar errado. E é este o problema. Como estas pessoas acham que um lateral tem um conjunto de tarefas para desempenhar, aquele que tiver este tipo de atributos será sempre preferido a outro tipo de jogador. Sabem que, aconteça o que acontecer, seja contra quem for, Kyle Walker vai conseguir sempre fazer o corredor com a mesma pujança, entregar-se-á sempre de maneira total ao jogo, e perderá poucos duelos individuais. Esquecem-se do principal, de que um jogador de futebol, seja lateral ou não, não é nada disto.

Para a grande maioria das pessoas, um lateral, nos dias que correm, tem de ser alguém que, para além de competente defensivamente, tem de ser capaz de fazer o corredor todo. De acordo com isto, avaliam a qualidade de um lateral recorrendo apenas a duas análises: se é forte nos duelos defensivos, e se é capaz de subir, combinar, e cruzar para área. Sem grandes rodeios, nada disto é importante num lateral, a meu ver. As competências defensivas vão muito para além da competência nos duelos de um para um, e as competências ofensivas são muito mais do que simples movimentos verticais e qualidade técnica no cruzamento. Um lateral que não se saiba relacionar com os seus colegas da defesa, que não saiba o que é uma cobertura, que não saiba fazer contenção, que pareça uma barata-tonta atrás do atacante que lhe aparecer por perto, que não saiba tomar uma boa decisão sem bola, pode ser um prodígio em termos de força, pode nunca ser ultrapassado em velocidade, pode ganhar muitas bolas divididas, mas não será um bom lateral em termos defensivos. Do mesmo modo, um lateral que não saiba jogar para dentro, que não saiba dar um apoio no momento certo, que não seja capaz de escolher a melhor opção de passe, que não tenha critério no momento de tomar uma decisão, pode ter um pulmão invejável, pode fazer o corredor milhares de vezes por jogo, e pode ser tecnicamente exemplar a cruzar, que não será um bom lateral em termos ofensivos. Sem cérebro, confesso que não consigo perceber como é que alguém possa ser jogador de futebol. Mas a grande maioria das pessoas continua a negligenciar os atributos intelectuais de um jogador, e é por isso que Kyle Walker tem o estatuto que tem, estatuto esse que há-de até tornar-se maior.


Para exemplificar o que digo, podia trazer lances de Cédric Soares. Felizmente, o próprio Kyle Walker poupa-me a ter de usar o jovem leão, cujo estatuto adquirido é em tudo idêntico ao caso do inglês, embora seja um jogador com características diferentes. Apesar de o inglês ter acumulado variadíssimas asneiras, só consegui encontrar o lance do segundo golo do Manchester, na vitória suadíssima dos pupilos de Villas-Boas em Old Trafford no passado sábado, e é dele apenas que falarei. Ainda a bola vem no meio-campo e já se percebe, embora a imagem não abra, que o posicionamento do lateral direito é já defeituoso: parando-se o filme no sétimo segundo, vêem-se 3 defesas em linha, do lado da bola, e um lateral direito que não está onde devia, que nem sequer aparece, que está demasiado aberto, porventura colado ao extremo que lá anda. Mas é quando Van Persie vem para a esquerda, com a bola controlada, e Kagawa flecte para o meio, que o comportamento inacreditável do lateral do Tottenham mais deve ser destacado. Kagawa invade precisamente o espaço entre Walker e o central do seu lado, aproveitando o erro inicial, e o lateral vai atrás dele, até ficar vários metros atrás da linha defensiva. No momento em que Van Persie dribla o seu opositor, Walker perde a fixação pelo japonês, mas mantém o seu posicionamento atrás da linha defensiva, e longe do central. Como se não bastasse, e apesar de o holandês conduzir agora a bola para a zona central, Kyle Walker abre na direita, cavando um fosso ainda maior entre o central e ele próprio. Kagawa não precisa agora sequer de se desmarcar para receber um passe pelo meio e ficar isolado frente ao guarda-redes dos londrinos: um golo fácil, resultante de um erro primário. Ao longo deste jogo, e ao longo de outros jogos, Kyle Walker cometeu vários erros básicos deste tipo. Está preocupado com as coisas erradas, não tem capacidade para perceber e ler o jogo, momento a momento, não é capaz de decidir bem, e não percebe sequer o que faz em campo, a maioria das vezes. A incapacidade para reajustar o seu posicionamento consoante as coordenadas do ataque adversário mudam é assustadora. Mas como tem pulmão, é forte fisicamente, e até dá uns toques, fizeram-no acreditar que podia ser jogador. E pode, de facto. Isto porque no futebol há mediocridade suficiente para que alguém assim possa chegar a ser um jogador de topo.