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domingo, 21 de outubro de 2007

Os mal-amados

Já todos sabemos que o futebol português é pródigo em esbanjar talentos. Não preciso, por isso, de recordar nomes como Diego, Roger, Mostovoi, etc. Hoje em dia, como noutros tempos, há jogadores que, muito injustamente, são mais criticados do que aplaudidos. Para mim, os cinco casos mais gritantes são os que se seguem:

5) Custódio.

Foi o melhor médio-defensivo português a nível posicional desde Paulo Sousa e, nem por isso, lhe guardam saudades os adeptos leoninos. Ocupava os espaços como ninguém; dava apoios perfeitos; jogava sempre, sempre simples, não tentando fazer nada que não fosse para ele; sabia sempre quando travar os contra-ataques adversários em falta. Era correctíssimo e inteligente, embora não fosse extraordinário a nível técnico nem muito agressivo a tentar recuperar a bola. Para a sua posição, antes de Miguel Veloso, não havia ninguém com a sua qualidade. Preferiu-se sempre jogadores com mais sangue, com mais vigor, com mais músculos. E perdeu-se alguém que sabia muito melhor quais os verdadeiros deveres de um médio-defensivo.

4) Hélder Postiga.

Mourinho, quando o seu jovem ponta-de-lança ficou impossibilitado de jogar a final da UEFA, disse dele que não se deveria preocupar, pois teria ainda muitas finais para jogar ao longo da sua promissora carreira. Enganou-se o "Special One" e Postiga não evoluiu enquanto jogador? Definitivamente, não. A opção pelo futebol inglês não terá sido a melhor, pois as suas características são pouco apreciadas por quem aprecia um futebol mais físico, mais intenso e menos pensado. Voltou a Portugal e, melhor que toda a concorrência, acabou por ser afastado da equipa pelo punho ditatorial de Co Adrianse. Voltou no ano seguinte, marcou mais golos que toda a gente e jogou que se fartou. Mesmo assim, não convenceu. Ao fim de algumas jornadas sem marcar, numa altura em que ainda liderava a tabela dos melhores marcadores, fruto de um arranque de campeonato fantástico, começou a ser criticado. Na pré-época, este ano, foi o melhor marcador da equipa. Não deixa de ser estranho que, depois disso, tenha voltado a ser afastado. Muito mais do que os golos que Postiga marca, vale por tudo o que pode dar à equipa. Não reconhecer que não há em Portugal, por esta altura, ninguém melhor que ele para a sua posição é, no mínimo, ingenuidade.

3) Nuno Gomes.

É um pouco como Postiga. É um avançado inteligentíssimo. Sabe que não é muito dotado tecnicamente, que não é forte e que não é rápido. Compensa tudo isso pensando, a cada instante, qual é a melhor opção. Seja a desmarcar-se, seja a adivinhar onde a bola vai cair, seja a tabelar com os colegas, seja a abrir espaços para que outros possam entrar, Nuno Gomes é um avançado como há poucos. É verdade que não é frio na hora de finalizar, que se precipita e falha golos fáceis. Mas também marca outros quase impossíveis e ninguém fala disso. O que é certo é que, muito do bom futebol que o Benfica pratica está ligado às acções de Nuno Gomes. Dizem que é desastrado, que é efeminado, que cai no chão com facilidade, que não vai ao choque. Talvez. Mas as suas decisões são melhores que as da generalidade. E boas decisões é quase tudo em futebol. Ah, e ainda é o melhor marcador em actividade no campeonato e, se tivesse tantos minutos como outros na selecção, estaria a lutar pela posição de melhor marcador de sempre.

2) Pontus Farnerud.

Achar que este sueco não tem qualidade é a melhor ilustração possível da falta de inteligência de quem fala de futebol. O mais parvo é que, embora não hesitem em falar mal dele, se lhes perguntarem que atributos maus tem ele para que não seja bom jogador, não sabem responder. Não é um jogador de choque; não é agressivo; o seu futebol não tem muita intensidade. Tudo isto é verdade. Mas nada disto é importante. Quase não falha um passe. E muitos deles verticais. Compensa defensivamente como poucos; é inteligentíssimo a posicionar-se; circula a bola com toda a segurança do mundo. A qualidade de passe é excelente; as opções, as melhores em cada lance. Dá à equipa um equilíbrio inigualável, gere os ritmos como mais ninguém, mas como não arrisca no um para um, como não faz passes a rasgar, como não disputa os lances como um rapaz esfomeado, acham que ele é mau. Esquecem-se, contudo, que em muitas fases de construção, é muito melhor ter jogadores que passam curto, que são discretos mas cumpridores, etc. Na primeira fase de construção, aquela que lhe compete, é excelente. Não perceber isto não é só estúpido; é criminoso.

1) Nuno Assis.

Falou-se, durante algum tempo, que Portugal não tinha opções válidas para fazer face a possíveis ausências de Deco. Não acreditando que Moutinho ou Hugo Viana façam a mesma posição de Deco, poderia sugerir o nome de Nuno Assis. Muitos se levantariam em fúria. Diriam alarvidades do 25 do Benfica. Não consigo perceber como é que não se gosta de um jogador do talento de Nuno Assis. Não falha um passe; é óptimo a nível técnico; sabe quais as necessidades da equipa em todos os momentos de jogo e conserva a posse de bola ou fá-la girar com tranquilidade. Joga quase sempre curto; não arrisca passes de difícil execução ou que não facilitem a recepção dos colegas. Executa e pensa mais rápido que qualquer outro jogador em Portugal. Faz-me lembrar, e muito, Pablo Aimar, outro mal-amado, mas a nível internacional. Como o argentino, que deveria ser considerado dos maiores astros da actualidade, Nuno Assis deveria ser considerado dos melhores da sua posição. Uma das maiores críticas que lhe poderão fazer é o não arriscar muito. Nem sempre o faz, é certo, embora não o faça porque sabe que a equipa ganha muito mais com outras opções, mas o jogo da Taça da Liga deste Sábado serve para calar toda a gente que lhe teça esta crítica. Nuno Assis assumiu o jogo ofensivo da equipa; driblou adversários, sentando alguns; foi, juntamente com Katsouranis e, a espaços, Di Maria, tudo o que de bom o Benfica construiu. A sério, não percebo e nem sequer aceito que digam que o rapaz é banal.