O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...
O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...
P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.
P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.