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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Guardiola e a dupla herança de Cruyff

Em mais uma crónica na Tribuna Expresso, que de certo modo dá continuação à anterior, falo agora sobre o modo como a revolução protagonizada por Cruyff prosseguiu no trabalho de Guardiola. 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Equilíbrio Emocional

É impressionante que comentadores, treinadores e antigos jogadores nunca expliquem os resultados de um jogo recorrendo ao descontrolo emocional que se apodera dos jogadores em alguns momentos específicos de um jogo de futebol. Há um vício interpretativo absurdo, muito recorrente a partir do momento em que as análises tácticas começaram a ficar mais sofisticadas, que consiste em achar que todos os acontecimentos de um jogo se explicam tacticamente, que o sucesso de uma equipa e o insucesso da outra se devem apenas ao braço de ferro entre as tácticas a que os dois lados dão expressão. Um golo, sobretudo numa competição a eliminar e que continua a ser encarada como decisiva para aferir a verdadeira valia das equipas, pode ser suficiente para alterar o estado emocional dos jogadores, e pôr em causa toda uma táctica. Ninguém parece dar valor a isto, como se isto não prejudicasse a qualidade dos jogadores e os planos dos treinadores. Em competições como estas, muito mais do que em jogos de competições de regularidade, é muito comum vermos uma equipa a baixar os braços a partir do momento em que sente que já é difícil dar a volta a uma eliminatória. E, no final, diz-se que a outra equipa foi muito superior, e que isso se viu até na forma como os derrotados não conseguiram reagir animicamente. Mas uma coisa influencia a outra. Um golo, mesmo quando caído do céu, perturba emocionalmente os jogadores, e fá-los descrer das suas qualidades. O jogo é jogado por humanos, e é natural que um jogador se enerve quando as coisas não correm bem, se desmotive quando as expectativas são frustradas e que perca concentração quando as possibilidades de êxito diminuem. O jogo não é só táctico, e as suas incidências não podem ser explicadas apenas falando de táctica. Não é raro que a táctica não explique nada acerca de um resultado final. E, apesar disso, não há nenhum comentador que olhe para um jogo e que seja capaz de chegar à conclusão de que, naquele desafio em particular, a equipa vencedora não fez o suficiente para ganhar mas teve sorte, ou que tacticamente esteve mal mas beneficiou da intranquilidade da equipa adversária num momento específico do jogo.

Vem isto a propósito da primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões, entre Liverpool e Manchester City. A opinião é quase unânime: vitória táctica claríssima de Klopp, que soube explorar as fragilidades do City de Guardiola. Desculpem a frontalidade, mas quem acha que o resultado final foi mais obra de Klopp, e das ideias que tinha para o jogo, do que propriamente das incidências do jogo não percebeu nada do que se passou em Anfield. Nada! Em primeiro lugar, porque nenhum dos golos do Liverpool se deveu propriamente à tal estratégia de explorar as fragilidades do adversário. O primeiro golo é em contra-ataque, é verdade, mas além da irregularidade no momento do passe para Salah, só resulta em golo porque Kyle Walker deu os neurónios para caridade. Em segundo lugar, porque o verdadeiro ascendente do Liverpool só se consumou após o 2-0, quando os jogadores do City se intranquilizaram e nem sequer conseguiram condicionar o jogo de posse do adversário. E, além disso, esse ascendente materializou-se no exacto oposto do que seria a tal estratégia de explorar as fragilidades alheias. Quando o Liverpool foi melhor em campo e criou algum embaraço à defesa do City, foi em ataque organizado. O que é que isto tem a ver com a tal estratégia perfeita de Klopp? Em terceiro lugar, e mais importante do que tudo o resto, porque os golos modificaram de modo decisivo as emoções dos jogadores.

O City entrou em campo como sempre, a trocar a bola e a sair de zonas de pressão com qualidade. E, apesar da agressividade defensiva do Liverpool, e da competência nos momentos de pressão, a equipa de Guardiola conseguiu impor o seu estilo. Tudo mudou em poucos minutos, primeiro com aquele golo de Salah, com contribuição dupla de Walker (antes do erro final, já se tinha posicionado mal no início da jogada, e podia perfeitamente ter tornado o fora-de-jogo de Salah muito mais evidente), depois com o falhanço de Sané, logo a seguir, num lance de contra-ataque que podia ter reposto a igualdade no marcador, e finalmente com o segundo golo, também logo a seguir, num pontapé do meio da rua de Chamberlain tão espectacular quanto fortuito (além de um remate daqueles tanto poder entrar ali como ir parar à bancada, a bola vai direitinha aos pés de Chamberlain, que está entre três jogadores do City, depois de uma bola dividida entre Milner e Gundogan). Num momento o City dominava; no momento seguinte perdia por dois. E, mais do que isso, sem que se notasse que o adversário fizera muito por isso. Não há nada de especial na forma como se construíram os dois primeiros golos. E já nem vou falar do terceiro, que vem na sequência de quatro ou cinco ressaltos. De repente, uma equipa que tinha entrado calma em campo, que estava a jogar próximo da área adversária e a conseguir entrar no bloco do adversário, que estava a ser capaz de condicionar os movimentos desse bloco e a forçar as penetrações no mesmo, está a perder por dois sem conseguir identificar uma razão para tal. Em equipas mais maduras do ponto de vista mental, isto talvez não fizesse tantos estragos. Na verdade, um golo relançava completamente o jogo e a eliminatória, e por isso não era caso para tanto. Mas a verdade é que os jogadores se enervaram. Os minutos seguintes foram de descrença absoluta, e as perdas de concentração sucederam-se. Poucos foram os que conseguiram manter a lucidez, de tal modo que a equipa nem sequer conseguiu preservar a sua identidade. Mérito do Liverpool? Não. A explicação para o que se passa em campo não passa necessariamente por aquilo que de bom ou de mau as equipas fazem. Muitas vezes, são as próprias incidências do jogo que melhor o explicam.

A dada altura, era o Liverpool que geria a posse, e o City que andava atrás da bola. Melhorou quando Guardiola trouxe Silva para o lado de Fernandinho, e o espanhol deu clarividência àquela zona. Mas nessa altura já era tarde. Já o City tinha sofrido o terceiro e já podia ter sofrido o quarto. O Liverpool foi melhor entre o segundo golo e esse momento, e foi-o única e exclusivamente por questões emocionais. Nem sempre um resultado positivo implica que a equipa vencedora tenha sido melhor do ponto de vista táctico ao longo do jogo. Neste caso, o Liverpool adiantou-se no marcador sem ter feito grande coisa por isso, chegou ao segundo uma vez mais sem especial mérito do colectivo e aproveitou o desnorte que entretanto se vivia nas hostes do adversário para fazer o terceiro. Esta interpretação do resultado é completamente distinta da interpretação mais consensual, que diagnosticou uma superioridade evidente dos pupilos de Klopp na primeira parte. Reconheço superioridade, sim, mas não a consigo destrinçar do estado emocional dos citizens. E, aliás, só a reconheço no momento em que os citizens claudicaram do ponto de vista emocional, naqueles 15 ou 20 minutos de profunda desconcentração, em que os jogadores não sabiam o que fazer à bola, que espaços ocupar, se deviam acelerar o jogo ou pausá-lo, se deviam pressionar alto ou baixar linhas, etc.. Reconheço superioridade ao Liverpool na primeira parte, sim, mas não reconheço qualquer superioridade táctica. Não foi tacticamente que o Liverpool foi superior. Foi animicamente. E foi-o, não porque seja uma equipa mais bem preparada do ponto de vista anímico, mas porque os acontecimentos do jogo o propiciaram. As pessoas ignoram a importância dos golos na história de um resultado e depois acham que os resultados espelham necessariamente as qualidades individuais e as qualidades colectivas das equipas, as intenções dos treinadores e os planos de jogo. E eis que dão voz a todos os disparates em que acreditam.

P.S. A sensação que todos tiveram, no final do jogo em Turim, foi que o Real Madrid se superiorizou de forma clara à Juventus. Mas a história do jogo seria a mesma sem aquele erro forçadíssimo de Chiellini, aquele golo extraordinário de Ronaldo e a expulsão logo a seguir de Dybala? A Juventus acabou de cabeça baixa e braços caídos, aparentemente vergada ao poderio dos espanhóis, mas antes de tudo isso estava muito mais próxima do empate do que propriamente do descalabro.

sábado, 19 de março de 2016

Apontamentos para uma Estética não-Allegriana

1. O Bayern-Juventus da passada quarta-feira não foi um grande jogo de futebol, ao contrário do que tinha acontecido na primeira mão em Turim, mas serve bem para mostrar de que modo os golos monopolizam as descrições do que foi uma partida de futebol e de que modo a marcha do marcador pode não espelhar nada do que se passou nas quatro linhas. O jogo teve quatro momentos distintos, a meu ver: 1) a primeira parte, em que o Bayern, mesmo com alguns problemas de criatividade numa segunda fase de construção, foi melhor, não obstante os dois golos da Juventus; 2) os primeiros 20/25 minutos da segunda parte, em que a Juventus foi melhor, não obstante não ter marcado nas várias ocasiões que soube criar; 3) o resto da segunda parte, em que o Bayern, sem jogar bem, forçou as iniciativas individuais dos seus jogadores mais habilidosos, colocou muita gente na área, encostou a Juventus nos últimos 15 metros e conseguiu chegar ao empate; 4) o prolongamento, em que o Bayern voltou a ser a equipa que é e acabou por criar as situações de golo que lhe valeram o apuramento. 

2. Para quase toda a gente, a Juventus justificou a vantagem ao intervalo, defendendo bem e aproveitando o balanceamento ofensivo do Bayern para lançar os seus contra-ataques. Luís Freitas Lobo, por exemplo, fartou-se de criticar os riscos que a equipa de Guardiola ia correndo, apesar de a Juventus não conseguir produzir um (um único!!) contra-ataque perigoso. E não se coibiu de justificar o segundo golo dos italianos com a incapacidade da transição defensiva dos alemães. A sério? Num lance que começa com 3 avançados contra 5 defesas, no qual o portador da bola só tem um colega à frente da linha da bola contra quatro defesas adversários, no qual Morata inventa praticamente sozinho a situação de golo, passando por três adversários e deixando Cuadrado isolado, no qual tanto Alaba como Benatia podiam ter resolvido o lance, parando o espanhol em falta, é a transição defensiva dos alemães que merece censura?

3. À excepção desse lance prodigioso de Morata, do qual não há estratégia com que o treinador adversário se possa precaver, a Juventus teve um lance de contra-ataque digno de nota: aquele em que Pogba se conseguiu soltar pela esquerda, já perto do final da primeira parte, e acabou por cruzar rasteiro, com Cuadrado a aparecer ao segundo poste e Neuer a fazer uma excelente defesa. Um único lance, já a acabar a primeira parte, com o resultado a favor a ajudar à desconcentração dos bávaros, é motivo para se dizer que a Juventus fez mais do que defender, nessa primeira parte? Não, não é. A Juventus teve a sorte do jogo, apanhando-se a ganhar após um erro não-forçado de Alaba (e Neuer também não fica isento de culpas), num passe de Khedira para Lichtsteiner que, em condições normais, originaria uma recuperação de bola dos alemães, e dilatando depois a vantagem no lance de Morata já comentado. Não fez mais nada de relevante, em termos ofensivos, nessa primeira parte, até ao lance de Pogba pela esquerda. Mentira: quase que aproveitava um erro de Neuer, a sair a jogar, que deixava Morata isolado. É mesmo isto que as pessoas consideram uma boa primeira parte?

4. Dirão que, mesmo que não tenha atacado bem, a Juventus defendeu bem, e isso precipitou o resto. Deixem-me ser frontal: defensivamente, a Juventus foi miserável. Se calhar, é preciso repetir: miserável! Podia dar vários exemplos, aliás recorrentes em todo o jogo. Veja-se o lance do primeiro golo do Bayern. Antes de a bola chegar a Douglas Costa, que fez o cruzamento para o golo de Lewandowski, a jogada desenvolveu-se da direita para a esquerda, no meio-campo defensivo da Juventus, até que um passe longo descobriu Coman, que atrasou para o brasileiro. Durante todo esse tempo, a Juventus tem 8 (8!) jogadores dentro da área, formando mais ou menos, sem grande critério, uma linha defensiva. A sério que acham que amontoar jogadores ao pé da baliza, sem estarem devidamente alinhados e sem um critério de espaço entre eles devidamente uniforme, é defender bem?

5. Dirão que isso aconteceu na fase final do jogo, quando as forças começaram a faltar e o Bayern estava a começar a recorrer às acções individuais de Ribery, Coman e Douglas Costa, e aos cruzamentos para a área. Posso dar exemplos de coisas parecidas na primeira parte. A Juventus apresentou-se em 541 não para ocupar melhor certos espaços defensivos, mas porque o Bayern, ao colocar Müller muitas vezes perto de Lewandowski, fazia com que a arrumação dos defesas italianos, que se organizavam em função dos adversários que perseguiam individualmente, criasse a ilusão de que se formava uma defesa a cinco. Alex Sandro entrou em campo com uma única missão: vigiar Douglas Costa. Não fez mais nada. Andou atrás dele. E, como o brasileiro passou muito tempo aberto no flanco, houve momentos em que a Juventus jogou literalmente com dois defesas-esquerdos. Atenção, não jogou com dois jogadores que são defesas esquerdos de origem, um à frente do outro ou um ao lado do outro. Jogou com dois defesas esquerdos no mesmo espaço, um às cavalitas do outro. As perseguições individuais eram tão flagrantes, entre os defesas italianos, que não foram poucas as vezes que Barzagli e Evra saíram da linha defensiva para virem perseguir o avançado alemão que lhes calhava marcar. Há um momento, a meio da primeira parte, em que Ribery decide soltar-se do flanco e ir até ao lado direito, até muito perto de Lahm. Como, no início do lance, Barzagli definiu a marcação ao francês, foi atrás dele. Sim, houve um momento, com a bola no meio-campo, em que o Barzagli, que era supostamente o central do lado direito, estava ao pé do Pogba, na ala esquerda. Isto é organização defensiva de excelência em que parte do mundo?

6. Durante os primeiros 70 minutos, Luís Freitas Lobo repetiu um dos seus chavões preferidos: que Allegri é o melhor treinador italiano da actualidade. Ainda que tenha mudado o discurso depois de o Bayern marcar, como bom cata-vento que é, Freitas Lobo cometeu a atrocidade de dizer que um treinador cuja equipa se comporta como descrito acima é o melhor treinador italiano da actualidade. Não terá sido por acaso, aliás, que Arrigo Sacchi tenha dito, há poucos dias, tão mal de Allegri. Para Freitas Lobo, porém, apinhar jogadores dentro da área e à frente dela, sem outro critério que não a referência dos adversários, é arte (sim, também disse que defender assim era arte). Freitas Lobo é só um idiota a quem deram tempo de antena. Que as mesmas ideias se registem em quase toda a gente que viu o jogo é que é grave. A Juventus não defendeu bem; defendeu com muitos. Embora as duas coisas possam produzir resultados parecidos, a diferença entre uma coisa e outra é incomensurável. Chamar "treinador" a Allegri é, de resto, uma hipérbole.

7. Dirão que as duas coisas (defender bem e defender com muitos) não são assim tão diferentes, pois o Bayern não soube tirar partido dessa eventual desorganização. Soube, soube. As pessoas é que não sabem ver um jogo de futebol. A primeira oportunidade de golo é do Bayern. Quase ninguém se lembra desse lance porque Arturo Vidal falhou a recepção (é o primeiro lance neste vídeo). Se a tivesse acertado, ficava dentro da área, sozinho com Buffon pela frente, e possivelmente faria o primeiro golo do jogo, mudando toda a história do mesmo. Esse lance é todo potenciado pela desorganização defensiva da Juventus. Douglas Costa recebe na linha, e flecte para o meio. À sua volta, num raio de 5 metros, tem Alex Sandro, Evra, Hernanes, Khedira e Pogba (este à frente da linha da bola), completamente desinteressados do espaço que os separa da linha defensiva. Além dos dois defesas esquerdos, um em cima do outro (no início da jogada, Evra está a dois metros de Alex Sandro, completamente alheado de tudo), não há linha de meio-campo, não há cobertura recuada ao médio que fecha a esquerda (Khedira está à frente de Hernanes e não alguns metros atrás, como devia), o médio direito não acompanha o restante posicionamento defensivo do meio-campo (Cuadrado está interessado em perseguir Vidal e fica a cerca de 15 metros de Khedira), e o buraco entre o último central e o lateral é absurdo (Lichtsteiner, preocupado com Ribery, que está aberto no flanco, está a cerca de 20 metros de Barzagli, que está perto de Bonucci, o qual descaíra para a esquerda para fazer a cobertura correcta ao lateral). Foi por esse buraco que Vidal entrou e foi aí que o passe de Douglas Costa o descobriu. Estava criada a primeira situação clara de golo. Ninguém fala dela, e é a jogada que melhor explica o que foi a primeira parte do jogo: uma equipa a tentar jogar e a outra a amontoar jogadores.

8. As pessoas falam da estratégia defensiva da Juventus (como se viu, foi miserável), falam do contra-ataque (como se viu, praticamente não existiu) e falam da pressão que conseguiu impor, evitando que o Bayern saísse a jogar como gosta. Também aqui não devem ter visto bem o jogo. O Bayern conseguiu sair a jogar quase sempre. Teve falhas, sim, mas recusou-se a sair de outra forma e, de um modo geral, conseguiu impor o seu jogo habitual. E, tirando a falha de Neuer (precipitada pelo mau posicionamento de Xabi Alonso, que se esconde atrás de Morata e não dá a linha de passe que devia) a qual deixa Morata isolado, nenhuma das iniciativas de pressão alta dos italianos lhes foi particularmente útil. Umas vezes com mais qualidade do que outras, o Bayern saiu a jogar e obrigou invariavelmente a Juventus a baixar as linhas. Onde o Bayern não esteve bem foi na segunda fase de criação. Depois de sair, impunha-se que soubesse construir melhor no meio-campo adversário, e isso não conseguiu fazer. Convenha-se que, sem Thiago ou Lahm nessa zona do terreno, a equipa não o consegue fazer bem. É, a meu ver, a principal fragilidade da equipa de Guardiola neste momento, muito potenciada pelas lesões que têm afectado o plantel (Lahm está a jogar na defesa por isso, e Thiago não está propriamente com o melhor dos ritmos competitivos). Não obstante, construiu mais uma excelente ocasião de golo na primeira parte, que acabou com uma boa defesa de Buffon. Achar que o resultado ao intervalo espelhava o que as duas equipas tinham feito em campo é não saber distinguir o futebol praticado dos golos marcados pelas duas equipas.

9. A Juventus só foi a melhor equipa em campo no arranque da segunda parte. Por intranquilidade dos bávaros, que pareciam pressionados pela necessidade de fazer o primeiro golo rapidamente, falharam muito ao nível do passe e permitiram aos italianos algumas jogadas interessantes. Aí, sim, a Juventus conseguiu alguns lances minimamente decentes e - diga-se - podia mesmo ter sentenciado a eliminatória. Guardiola esperou o máximo que podia (viu-se o desagrado na sua cara num lance em que Neuer pontapeia a bola para a frente sem nexo) e acabou por decidir abdicar de alguns dos seus princípios para tentar incomodar os italianos, agora muito mais confortáveis, de outro modo. A partir do momento em que Coman entrou, o Bayern colocou ainda mais jogadores na frente e entregou a criação quer aos dois alas (Ribery e Coman), quer a Douglas Costa, que passou a jogar por fora do bloco defensivo da Juventus, quase como único médio. A mudança teve duas intenções: 1) forçar os italianos a recuar ao máximo para dentro da sua área, pois havia agora ainda mais jogadores bávaros em posições avançadas; 2) forçar situações de cruzamento para a molhada que se criara como consequência desse recuo. Ainda que tenha perdido discernimento, e tenha acumulado muitas acções sem nexo, a equipa de Guardiola conseguiu exactamente aquilo que a mudança pressupunha. E, dada a desorganização defensiva dos italianos, era uma questão de tempo até que os golos surgissem. Surgiram na sequência de dois cruzamentos, mas podiam ter surgido na sequência de remates à entrada da área (a Juventus permitiu esse espaço) ou por penetrações pelo solo (há pelo menos um passe de Douglas Costa que deixa Lahm em excelente posição dentro da área, mas a recepção trai o alemão). 

10. No prolongamento, o Bayern voltou a jogar como sabe e como o fizera na primeira parte. Convicto de que aquilo que acontecera nessa primeira parte foi uma anormalidade, voltou ao que sabe fazer e controlou o jogo como quis. É assim que se joga futebol, seja contra que equipa for. Que isso só tenha sido eficaz no prolongamento é uma contingência da natureza aleatória que caracteriza o jogo. O golo de Thiago é o exemplo perfeito do que poderia ter acontecido a qualquer altura, na primeira parte, mas que não aconteceu por acaso (e talvez porque Thiago não estava em campo).

11. A defesa do Bayern, na segunda parte, era constituída por Lahm (1,70m), Kimmich (1,76m), Alaba (1,80m) e Bernat (1,70m). Sim, é possível jogar futebol ao mais alto nível com uma defesa composta por jogadores pequenos, pouco intensos e pouco agressivos. De resto, é um privilégio poder ver o que um miúdo de 21 anos consegue fazer com a bola, numa posição na qual nunca jogou, constantemente exposto ao risco. A qualidade das decisões de Kimmich, sempre à procura de um colega atrás da primeira linha de pressão do adversário, é qualquer coisa de extraordinário. Kimmich é médio de origem, e será decerto como médio que fará carreira. Para aqueles que adoram o Renato Sanches, um médio a sério é alguém que joga como Kimmich. É por jogar como joga, de cabeça levantada, à procura de colegas, e por ser tão criterioso no passe como é, que tem a facilidade que tem para jogar como central. De resto, é possível não admirar o futebol praticado pelas equipas de Guardiola. Mas é preciso ser realmente muito tacanho para não admirar a sua coragem... 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Legado de Luis Enrique e outras coisas

1. O Fim de uma Era

Quando a época passada terminou, e o Barça de Luis Enrique conquistou os três principais títulos, tive o ensejo de escrever um texto que, por vários motivos, acabei por nunca escrever. O que queria ter dito na altura e não disse é o que, muito abreviadamente, direi agora. O Barça ganhou tudo e, para muitos, voltou ao domínio do futebol europeu. A minha opinião é ligeiramente diferente: o Barça ganhou tudo, e perdeu finalmente a hegemonia que teve na última década. Pode parecer um contrassenso, mas creio que as conquistas do ano passado são o ponto final de uma era que começou com a chegada de Guardiola ao clube. O futebol da equipa de Luis Enrique já não tinha muito a ver com aquele que Guardiola preconizava (e que Tito Villanova e Tata Martino, mal ou bem, mantiveram), e o sucesso desse futebol significa a ruptura decisiva com o passado. Correndo o risco de parecer incoerente, uma vez que defendo que esse futebol já não tinha muito a ver com a da grande equipa de há uns anos, acho que muito desse sucesso se deve ao que os jogadores aprenderam com Guardiola: muito do que seria o trabalho do treinador é dispensado pelo que os jogadores, em termos colectivos, ainda retêm dessa altura. O mérito de Luis Enrique nas conquistas da equipa é, aliás, muito reduzido. Além de um conjunto de jogadores que cresceram a fazer uma série de coisas que agora fazem de olhos fechados, contou com jogadores que, do ponto de vista individual, fizeram toda a diferença. Para dizer de outro modo, o Barcelona ganhou tudo como poderia ter perdido tudo e como várias equipas ganham tudo. Jupp Heynckes ganhou tudo pelo Bayern há uns anos, e não me parece que lhe deva ser dado um mérito especial. Há sempre alguém que tem de ganhar, e o ano passado calhou ao Barcelona. Ao ganhar desse modo, como ganharia qualquer outra equipa, o Barça voltou a ser uma equipa normal. E a hegemonia que teve, e que continuava a assustar toda a gente, acabou. Por outras palavras, foi a melhor equipa dos últimos dez anos, mas arrisco-me a dizer que não será a melhor dos próximos. Se o impacto de Guardiola se viu até ao ano que passou, culminando com o triplete de Luis Enrique, o impacto de Luis Enrique ver-se-á daqui a 5 anos, quando o Barça for uma equipa banal.

2. A Lesão de Messi

Há um pormenor que costuma ser negligenciado quando se fala nas conquistas europeias: as lesões. Os dois anos em que Guardiola não ganhou a Champions quando ao serviço do Barcelona foram pautados por lesões relativamente longas ou recorrentes de jogadores importantes: Ibrahimovic, Iniesta, Villa, etc.. A equipa de Luis Enrique teve um ano praticamente imaculado, a esse nível, e isso também foi decisivo. Foi-o, de modo evidente, na forma como pôde superar o Bayern de Guardiola, fustigado por lesões, mas foi-o também ao longo de toda a época. Não houve lesões de grande duração em nenhum jogador importante, e isso permitiu à equipa manter os seus índices de produtividade. Que o tenha sido não me parece, de modo nenhum, irrelevante. Repetir a sorte de uma época sem lesões é praticamente impossível, e creio que isso ditará um ano bem mais modesto em termos de conquistas. A primeira lesão importante aconteceu este fim-de-semana, e ainda não se sabem bem as consequências dela. Apesar de ser preferível perder Messi nesta altura, dois meses (mais um mês ou dois até recuperar o melhor ritmo) é tempo suficiente para que o Barça perca terreno, por exemplo, no campeonato. Messi, aliás, foi decisivo nos jogos decisivos da época passada, e o principal responsável pelo sucesso de Luis Enrique nas provas a eliminar (em vários jogos da Champions, concretamente contra o Bayern, e na final da Taça do Rei, por exemplo). Sem Messi, o Barça de Guardiola era só a mesma equipa menos o seu melhor jogador. Sem Messi, o Barça de Luis Enrique vale menos de metade.

3. Xavi e Iniesta

Apesar de ter perdido a titularidade a época passada, Xavi foi quase sempre utilizado por Luis Enrique. Quando jogava de início, o Barça era quase sempre melhor, apesar de praticamente ninguém conseguir ver isso. Quando entrava, a equipa passava automaticamente a jogar melhor. Ainda que em final de carreira, aquele que foi, muito possivelmente, o melhor jogador de sempre, no que diz respeito à tomada de decisão, mantinha uma influência incrível, e só aqueles que acham que o futebol requer os melhores atletas não eram capazes de percebê-lo. Como o futebol é dominado por essa gente, tornou-se praticamente consensual que a era de Xavi no Barça chegara ao fim. Tenho para mim que não foi só a era de Xavi que terminou. Com Xavi, foi-se também a melhor equipa de sempre. Aliás, restam dessa equipa poucos jogadores: Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Messi. Com a saída de Xavi (e a de Pedro), a somar-se às saídas em anos anteriores de Thiago Alcântara e Fabregas, por exemplo, o futebol de toque curto, mais pensado do que corrido, chegou ao fim. O próprio Iniesta, se virmos bem, é um autêntico órfão em campo. Messi tem capacidades atléticas (e idade) que lhe permitem adaptar-se a um estilo de jogo diferente, e o entendimento com jogadores mais vertiginosos torna-se fácil. Iniesta não as tem, e o seu futebol eclipsa-se a cada dia que passa. Não quero ser mal entendido: esse futebol não se eclipa por  Iniesta já não ter capacidades físicas para mantê-lo vivo, mas porque já não está rodeado de colegas a quem interessa jogar o mesmo jogo. Cada jogador é aquilo que o rodeia. E Iniesta deixou de estar rodeado dos mais inteligentes. O Barça de Luis Enrique já não é o Barça de Xavi e Iniesta. Em tempos, num lance que não consigo situar (imaginava, erradamente, ter sido o lance em Old Trafford que permitira a Paul Scholes fazer o golo que eliminou o Barça nas meias finais da Champions de 2007/2008), Xavi falhou um passe decisivo à entrada da área por tê-lo feito sem perceber antecipadamente se o colega a quem passava a bola estaria à espera de recebê-la. Ninguém me compreendeu, porque para quase toda a gente não se deve passar a bola antes de olhar a ver se lá está o colega. Xavi, ao falhar esse passe, antecipava o Barcelona de Guardiola. Antecipava-o na medida em que antecipava aquilo que o Barcelona de Guardiola permitia a todos os jogadores, e em especial ao próprio Xavi: jogar de olhos fechados e passar sem precisar de perceber se o colega vai estar onde deve estar. Xavi passou a bola, nesse dia, para onde devia estar o colega. Só que o colega não estava lá porque não tinha sido ensinado a perceber antecipadamente onde Xavi queria que ele estivesse. O Barcelona de Guardiola fez-se sobretudo disto: todos pareciam saber com antecedência suficiente as intenções dos colegas. Numa equipa assim, ninguém superava Xavi. Tinha sempre mais passes que toda a gente, percorria sempre mais metros do que os outros. Sem bola, dava mais opções ao portador do que qualquer outro colega. Com ela, era sempre o mais eficaz, optasse pelo passe curto ou pelo passe longo. Agora que a equipa de Xavi e Iniesta já não existe, a única boa notícia é que estão os dois (especialmente Xavi) mais próximos de se tornarem treinadores de futebol.

 4. As Inconsistências e os Estúpidos

Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que o rendimento do sueco tenha sido o problema. Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de... isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%. A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e  que Suarez tenha feito uma boa época. Mas - surpresa das surpresas - é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir. Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

As Pequenas Alterações de Guardiola

O Bayern de Guardiola perdeu no Dragão porque os erros individuais, num jogo como o futebol, podem ser decisivos. Dois erros deram em golo, outros intranquilizaram a equipa, e criou-se a ilusão de que a equipa alemã, se devidamente incomodada, não era capaz de contornar a pressão portista. E o Porto de Lopetegui, cuja estratégia de pressão consistiu basicamente em tentar impedir que o Bayern usasse a ligação entre os centrais e Xabi Alonso, saiu da primeira mão com uma vantagem generosa e, mais do que isso, convencido de que encontrara a receita para ultrapassar a eliminatória. Ao contrário do que foi dito por muita gente, não gostei particularmente do modo como o Porto pressionou nesse jogo, e não acho sequer que os erros individuais (os que deram em golo e os outros) tenham sido frutos da pressão e da estratégia de Lopetegui. A intenção de pressionar alto nunca foi acompanhada pela subida da linha defensiva, e só por inépcia e intranquilidade dos alemães o espaço que era dado atrás da linha de médios não foi melhor aproveitado. O Porto subiu linhas, procurou dificultar a saída de bola dos bávaros, jogou com bravura, mas não pressionou excepcionalmente bem. Disse aqui que não perceber isso era meio caminho andado para perder uma eliminatória que, não obstante a vantagem de dois golos e a quantidade de jogadores lesionados do adversário, estava longe de estar garantida.

Ora, não só se comprovou que a eliminatória não estava garantida, como foram exactamente esses defeitos no modo de pressionar do Porto que Guardiola aproveitou. Ao contrário, novamente, do que ouvi e li, não acho que Lopetegui tenha jogado de modo diferente do que fez no Dragão. Tentou sempre impedir a saída de bola dos bávaros, procurando que os seus médios pressionassem alto, e procurou sempre impedir que tal saída se fizesse pelo médio-defensivo. Sempre. A diferença foi que o Bayern conseguiu evitar essa pressão e ultrapassou sistematicamente essa linha de médios, o que no Dragão só aconteceu ocasionalmente. Sempre que o Bayern o conseguiu, o Porto foi obrigado a baixar as linhas e a iniciar a pressão mais atrás. Daí que se tenha criado a ilusão de que defendeu mais recuado e de que procurou esperar mais pelos alemães. Não foi verdade. Tentou fazer exactamente o mesmo que fizera na primeira mão. Mas, ao contrário da primeira mão, em que beneficiou de erros individuais não propriamente forçados por um comportamento colectivo relevante, o que intranquilizou os jogadores do Bayern e afectou a capacidade da equipa alemã para levar a bola para o espaço entre a linha defensiva e a linha média do Porto, a equipa de Lopetegui não foi bem sucedida nessa intenção porque o adversário soube contornar tudo isso.

Ao contrário também do que foram dizendo os comentadores do jogo, a disposição táctica do Bayern foi exactamente a mesma da primeira mão: um 433. A única diferença, do meio-campo para a frente, foi a troca posicional entre Lahm e Müller. O capitão dos bávaros jogara a primeira mão no meio-campo, de perfil com Thiago, mas jogou desta vez na linha, como extremo. Mas Müller não jogou ao lado de Lewandosky; jogou no meio-campo, de perfil com Thiago. A ideia de Guardiola parece-me óbvia: trocar um jogador que, apesar de muito inteligente e de ser posicionalmente muito bom, não é especialmente forte entre linhas, por um jogador cujos movimentos interiores e de aproximação à área que o distinguem nunca foram aproveitados na primeira mão. Müller é fortíssimo a explorar o espaço entre linhas, e foi esse espaço que o Porto concedeu na primeira mão e que o Bayern nunca conseguiu aproveitar condignamente. Para a segunda mão, Guardiola optou por manter dois alas muito abertos (neste caso, Götze e Lahm), de maneira a garantir o máximo de espaço entre os laterais e os centrais e entre os laterais e o médio defensivo, e trouxe Müller para o espaço interior, onde as suas movimentações sem bola pudessem permitir ao Bayern uma solução constante nesses espaços. Müller é possivelmente o melhor jogador do mundo a movimentar-se sem bola, e Guardiola usou esse trunfo na posição certa. Abdicou das movimentações de Müller da linha para a área, nas quais também é muito forte, para passar a contar com elas onde lhe interessava que elas ocorressem, nas costas de Oliver. Com essa pequena alteração, na qual pouca gente aliás terá reparado, a pressão do Porto, porque não era bem feita, deixou de ser incomodativa; com essa pequena alteração, Guardiola virou a eliminatória de pernas para o ar.

Para aqueles que consideram que Guardiola teve a sorte de ter um conjunto de jogadores fantásticos em Barcelona, que acham que o seu mérito termina em ter sabido encontrar um modelo de jogo adequado a um conjunto de jogadores especiais, estes 6-1 são talvez a melhor demonstração do quão errados estão. Até por não haver muita gente que dê valor ao que se pode fazer com o espaço entre linhas que os adversários dão, duvido que houvesse outro treinador capaz de ler tão bem como ele aquilo que o jogo do Dragão tinha sido e aquilo de que a sua equipa precisava para que não voltasse a sê-lo. A mim, não deixa de me surpreender. Tacticamente, continuo a dizê-lo, está a milhas de distância de qualquer outro treinador no planeta. Guardiola trocou dois jogadores e, com isso, mudou completamente as coordenadas do jogo. Acrescente-se a isso outra pequena alteração, a de ter prescindido de sair por Xabi Alonso, o que aliás já tinha acontecido em muitos momentos na primeira mão, e tem-se a melhor explicação do que se passou em Munique com o Porto. Como Guardiola disse ainda, depois da partida, Lopetegui tinha surpreendido na primeira mão, ao mandar Jackson pressionar sistematicamente Xabi Alonso. Para a segunda mão, Guardiola pediu a Xabi Alonso para fazer os mesmos movimentos, para recuar e para se posicionar na mesma entre os centrais, o que obrigava Jackson a acompanhá-lo, mas apenas para dar espaço para a bola sair pelos centrais, preferencialmente Badstuber. Alterando as dinâmicas  sem bola atrás dos médios e alterando a dinâmica da saída de bola, abdicando de usar Xabi Alonso, como habitualmente, na primeira fase de construção, Guardiola aproveitou o principal defeito da estratégia defensiva do Porto e anulou a sua principal virtude. Sem grandes mudanças, sem os principais desequilibradores da equipa, sem quatro habituais titulares, transformou um resultado muito perigoso numa vitória muito tranquila em apenas 45 minutos. Quantos treinadores do mundo o conseguiriam? Continuo a achar que há poucos privilégios, actualmente, como o de podermos desfrutar destas fabulosas lições de quem sabe tanto acerca de futebol. Veremos o que faz agora contra o Barça que criou.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Curtas de Dezembro

1. Depois de uma época que só não foi exemplar por ter deixado escapar a Liga Europa, Jorge Jesus perdeu vários jogadores e começou a época com um plantel bem menos forte do que o dos últimos anos. O sorteio da Champions não ajudou, e o Benfica acabou eliminado das competições europeias mais cedo do que nos últimos anos. À margem das circunstâncias adversas, o futebol encarnado depende, mais do que nunca na era de Jesus, da qualidade individual, e é essa a principal crítica que lhe deve ser feita. Num modelo como o de Jesus, o mínimo desinvestimento tem um impacto significativo, e o desempenho ofensivo dos encarnados, esta época, é quase exclusivamente explicado pelos golos de Talisca, pelas arrancadas de Salvio e Gaitan, e pela qualidade de Enzo.

2. O Porto de Lopetegui é uma equipa de oito e oitenta. Tem um plantel formidável do meio-campo para diante; tem uma plantel banalíssimo do meio-campo para trás; tanto goleia como empata com o Boavista; tanto sufoca o adversário do primeiro ao último minuto como se deixa surpreender depois de estar a vencer por alguns golos de diferença. Agrada-me a atitude ofensiva da equipa e agrada-me a intenção de pressionar alto; desagradam-me, porém, as variações constantes de flanco, o excesso de vertigem e a incapacidade, mais ou menos geral, para controlar o ritmo de jogo. Não sei o que acontecerá na segunda metade da época, até porque, sobretudo numa prova de regularidade como é o campeonato, uma equipa assim tanto arrisca o fracasso quanto o sucesso.

3. Marco Silva está a fazer um trabalho interessante. Um clube como o Sporting deve ambicionar sempre o título. O que não pode fazer, num momento complicado em que não pode, de maneira nenhuma, competir com o investimento dos dois rivais e que vem na sequência de anos de crise desportiva, é anunciar publicamente essa ambição. Enquanto "outsider", o Sporting pode sempre intrometer-se nessas contas, como aconteceu o ano passado; enquanto candidato, dificilmente. Não tem plantel para isso e entra em campo pressionado para ganhar. Não obstante, Marco Silva tem apresentado bons indicadores. É verdade que ter Nani - que só por questões extra-desportivas não está a jogar num dos dez melhores clubes europeus - ajuda muito, mas a equipa tem comportamentos interessantes. Acima de tudo, é menos mecânica do que a equipa de Leonardo Jardim, que obteve o máximo do que poderia ter obtido a época transacta, e isso é já um indício do quanto poderá evoluir no futuro. Era importante agora, a meu ver, que dessem finalmente oportunidades a dois jogadores da equipa B que, por quaisquer razões, continuam na gaveta: Chaby e Iuri.

4. Em Espanha, o Real Madrid só não é campeão se não quiser. Dia sim, dia não, a imprensa portuguesa diz que Mourinho é o melhor do mundo. Mas basta ver as diferenças do Real de Mourinho para o Real de Ancelotti para se perceber que, no mínimo, a imprensa portuguesa é tendenciosa. Mourinho jogava com médios como Khedira, Granero ou Diarra. Chegou a jogar com Pepe no meio-campo. Modric nunca foi opção. Ancelotti joga só com dois médios: Modric e Kroos. Não é preciso falar de títulos para que se percebam as diferenças. Mesmo sem Ozil e sem Di Maria, jogando num sistema de jogo que nem sempre oferece uma boa rede de apoios, o Real é uma máquina de futebol de ataque. E isso tem a ver, acima de tudo, com as ideias de Ancelotti a respeito do seu meio-campo. É aí que é profundamente diferente de Mourinho. E é por aí que o seu Real é bem mais competente e criativo do que o Real de Mourinho. Voltemos alguns anos atrás no tempo, lembremo-nos de que foi ele quem "inventou" um meio-campo inteiro para que um jogador que nunca sequer tinha jogado como médio-defensivo se pudesse tornar o melhor dos últimos quinze anos nessa posição e teremos a melhor descrição possível de Carlo Ancelotti.

5. O novo Barcelona começou muito bem. Luis Enrique conseguiu que a equipa jogasse com o bloco tão subido quanto na era de Guardiola, com os sectores muito juntos e a pressionar muito alto. Ao mesmo tempo, ia apostando em jovens jogadores de grande talento, como Munir, usava aos três e aos quatro médios criativos, e conseguia dinâmicas inacreditáveis. Tudo isso se foi, pouco a pouco, dissipando. Às vezes fala-se da coragem de um treinador sem se saber muito bem do que se fala. Para mim, coragem é manter as ideias quando as coisas não correm bem. E o que Luis Enrique fez, a partir de dada altura, foi mostrar que não a tem. Primeiro, foi Piqué, de longe o melhor central do plantel (seguido de Bartra) a ser encostado. Luis Enrique prefere Mascherano e Mathieu porque são mais compenetrados, metem mais o pé, esfolam-se mais, etc.. Depois, foi a derrota diante do Real Madrid. O Barça ainda não tinha sofrido golos no campeonato, jogava bem e fazia coisas que mais nenhuma equipa (salvo o Bayern de Guardiola) faz. Depois da derrota com o rival da capital, o Barça é uma equipa mais banal do que o Barça de Tata Martino. Já não joga com a defesa subida, já não aproxima os sectores, já não pressiona alto, e já nem sequer é capaz de fazer um jogo de posse como antes. Entretanto, desde que Luis Suarez passou a poder jogar, Pedro Rodriguez nunca mais foi titular e Munir raramente foi chamado. Mais do que nunca, o Barça é uma equipa de avançados, e o seu treinador espera que Neymar, Messi e Suarez, para os quais os outros oito jogam, resolvam individualmente o que o colectivo deixou de querer resolver.

6. Paco Jémez foi um dos nomes mais falados para substituir Tata Martino. A direcção do Barça acabou por escolher mal, e Paco Jémez manteve-se aos comandos do Rayo Vallecano. Esta entrevista devia ser lida por toda a gente, mas principalmente por Luis Enrique, que é quem tem a responsabilidade, pela herança que tem, pela tradição do clube e pelas características dos jogadores que possui, de fazer o que nela é ensinado. Para Jémez, ter a bola a todo o custo, arriscando se for preciso arriscar, é o que mais importa, e metê-la na frente é sempre pior do que procurar alguém perto com critério. Além disso, é o adversário que tem de se preocupar com a sua equipa, não a sua equipa com o adversário, e a defesa defende os espaços, não os adversários. Por outro lado, quando um lateral sobe, deve estar preocupado com tudo menos com o facto de ter de vir defender a seguir: a equipa encarregar-se-á de compensar essa subida colectivamente. Para Paco Jémez, é falso que não se possa pressionar durante 90 minutos essencialmente porque pressionar, em seu entender, é um esforço colectivo que depende mais de ajudas, coberturas e posicionamentos relativos do que com esforço muscular, agressividade perante o portador da bola e perseguições individuais. Empatar, acrescenta ainda, é o pior resultado que pode obter: prefere perder, porque, evidentemente, pode perder dois jogos em cada três e fazer os mesmos pontos que faz com três empates. Há pouca gente que pensa assim, e há pouca gente que não vai achar em quase tudo o que Paco Jémez diz um certo atrevimento. E, no entanto, diz mais coisas acertadas em meia-dúzia de respostas do que se diz em dez anos de cursos de formação de treinadores.

7. Nuno Espírito Santo começou a sua aventura em Valência e tem sido bastante elogiado. Evidentemente, é elogiado porque tem tido bons resultados. O futebol do Valência baseia-se, porém, no erro do adversário e no contra-golpe. Tudo o que Nuno pretende é que a equipa chegue rapidamente à baliza adversária, assim que rouba a bola. Defensivamente, os comportamentos da equipa nem são maus, parecendo saber exactamente o que fazer nos momentos de pressing. Mas com bola exigia-se muito mais. E exigia-se sobretudo menos pressa. O Sevilha, o Villareal e o Rayo Vallecano, para dar exemplos de equipas com orçamentos inferiores ou muito inferiores, jogam muito mais à bola do que o Valência, e quando as coisas começarem a correr menos bem e os resultados começarem a ser menos lisonjeiros, talvez caia em desgraça com a mesma velocidade com que caiu em graça.

8. Em Inglaterra, o campeão Manchester City cometeu, a meu ver, o maior pecado que um campeão pode cometer: não ter mudado nada para a nova época. Os campeões precisam de estímulos novos para continuarem a querer ser os melhores, e uma boa maneira de criá-los seria modificar qualquer coisa, sobretudo na forma de atacar da equipa. Sem grandes reforços e sem grandes mexidas na maneira da equipa jogar, o City perderá a pouco e pouco a capacidade de continuar no topo em Inglaterra.

9. O Arsenal de Wenger continua incapaz de ser uma equipa competitiva durante toda a época. Embora o investimento comece a aproximar-se do investimento feito por alguns rivais, e embora consiga finalmente preservar os melhores jogadores de ano para ano, mantêm-se os principais problemas na equipa: as competências defensivas e as lesões. É pena, porque a equipa consegue fazer coisas que a esmagadora maioria das equipas não consegue. E é pena porque Wenger é dos treinadores mais interessantes, do ponto de vista ofensivo. Gosto do estilo, mas tenho de reconhecer que, se não caprichar mais, sobretudo na forma como a equipa defende, o estilo de Wenger não é suficiente.

10. O Chelsea de Mourinho tem o melhor plantel, de muito longe, da Premier League. E mesmo com um meio-campo composto por Matic, Fabregas e Óscar, o futebol praticado é, na maioria das vezes, muito pobre. Defensivamente, a equipa não podia ser mais competente, mas continua a preferir entregar a decisão dos jogos às iniciativas individuais e ao aproveitamento dos detalhes do que às qualidades colectivas. Ainda assim, é capaz de chegar para ser campeão. Em Espanha, em Itália, em França e na Alemanha, Mourinho dificilmente seria campeão a jogar desta maneira. Mas em Inglaterra não há uma equipa capaz de ser regular desde que Ferguson se reformou, e isso é tudo o que importa. O seu Chelsea é competente defensivamente, e isso talvez seja suficiente.

11. Entretanto, Mourinho não perde uma oportunidade para aludir a Guardiola. Quando lhe perguntaram se podia ganhar quatro competições esta época, disse que não porque, ao contrário de outros campeonatos, o campeonato inglês não tem pausa de Inverno e até se joga no Natal. Já aqui tinha sugerido que a carreira de Mourinho pode ser descrita, a partir de certo momento, como uma tentativa de resposta a uma certa obsessão. Agora parece que encontrou outra.

12. Depois de uma época quase brilhante, o Liverpool de Brendan Rodgers está a fazer uma campanha sofrível. A saída de Suarez e a lesão de Sturridge fazem com que o ataque da formação inglesa seja muito diferente do que foi a época passada, e essa pode ser uma explicação para o sucedido, até porque não há muitas mais diferenças. Gosto de pensar, contudo, que uma equipa em que Mario Balotelli é titular em praticamente todos os jogos e em que Lazar Markovic mal tem oportunidades para jogar é uma equipa que não merece muito mais do que a modesta posição que ocupa. Pode-se tentar explicar o insucesso do Liverpool de muitas maneiras, mas referir um treinador que avalia tão mal a qualidade individual dos atletas que tem à sua disposição é capaz de ser suficiente.

13. Gostei muito do trabalho de Pochettino no Espanyol e, do que vi em Inglaterra, só posso dizer bem. A aventura com o Tottenham não tem sido tão feliz quanto isso, ainda que a equipa mantenha as aspirações intactas (está a cinco pontos do acesso à Liga dos Campeões) e há muita gente que tem criticado o seu trabalho. A primeira coisa que gostava de dizer é que Pochettino herdou uma equipa absurda, quase toda formatada pela ideia absurda de jogo que André Villas-Boas tentou implementar. A qualidade individual do Tottenham, ao contrário do que se possa pensar, é muito má, quando se pensa que o clube tem aspirações europeias: Lloris, Verthongen e Lamela são talvez os únicos que podiam jogar num clube maior. Daí que exigir a Pochettino outra coisa que não ficar entre os dez primeiros me pareça um exagero. Ainda assim, não se vê o técnico argentino a jogar para os pontos. Pelo contrário, é das poucas equipas da Premier League que tenta fazer coisas diferentes, que tenta jogar pelo meio, que tenta invadir espaços entre linhas, que joga com os apoios próximos. As derrotas não têm ajudado e vê-se que muitos dos jogadores não gostam de ter de pensar tanto e preferiam um futebol mais à inglesa. Há uns anos, Juande Ramos tentou fazer coisas parecidas e os jogadores do Tottenham, na altura, fizeram-lhe a cama. Lembro-me de ter dito que, embora tivesse regressado às vitórias com Harry Redknapp, o Tottenham perdera nessa altura uma boa oportunidade de se tornar um clube grande em Inglaterra. Não me enganei, ainda que os quartos e quintos lugares de Redknapp tenham dado alegrias a muita gente. Com Pochettino, o Tottenham tinha finalmente a oportunidade de ser, a médio prazo, uma equipa muito forte em Inglaterra. É verdade que os jogadores não são os melhores para isso, mas, para já, era pelo menos importante que esses mesmos jogadores não preferissem ser jogadores de equipa pequena. Infelizmente, é isso que me parece que querem ser.

14. Tim Sherwood, antigo treinador do Tottenham, percebe tanto de futebol como um lagarto ao sol percebe de física quântica. Na sequência da recente derrota do Tottenham com o Chelsea, sugeriu que o belga Verthongen é "muito mau a defender". Para Sherwood, defender é aquilo a que, nas distritas e na Premier League, vulgarmente se chama ter caparro. Verthongen, realmente, não tem caparro. Ou não faz grande uso dele. Isso não significa que não saiba defender. É com preconceitos deste género, preconceitos de que o futebol está completamente cheio, que continuamos a ter de lidar. Esta gente ganha milhões e continua a pensar como o velho que vai à bola ao Domingo a dizer que o futebol era bom era no tempo dos cinco violinos.

15. Na Alemanha, o Bayern vai chegar de novo à viragem do ano com o campeonato praticamente no bolso. É verdade que a resistência interna não é muita, e que o Dortmund, ainda por cima, tratou de facilitar a vida aos bávaros, mas não deixa de ser uma proeza. Quanto ao futebol da equipa, vai crescendo aos poucos e, mesmo sem alguns dos melhores intérpretes, Guardiola tem os seus pupilos cada vez mais próximos do que pretende. Além do 433 da época passada, a equipa joga agora também em 343 e em 352 com uma facilidade impressionante. A linha defensiva está sempre muito alta, o que é absolutamente decisivo para quem queira jogar como Guardiola joga, e os sectores sempre muito juntos, pelo que é fácil depois à equipa adaptar-se a um posicionamento diferente. Mais significativo ainda é perceber que o 343, por exemplo, não serve tanto para abrir a frente de ataque, pois os extremos são essencialmente jogadores para jogar por dentro e vir solicitar o passe a zonas entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, quanto serve para ter mais gente no meio. A diferença de Guardiola para os restantes treinadores de futebol é tanta que fazer com que as pessoas a percebam é muito difícil.

16. Por cá, nos últimos dias, o Benfica recebeu o Belenenses, que jogou sem Miguel Rosa e sem Deyverson, possivelmente os dois jogadores mais influentes da equipa esta época. Se calhar é patetice minha, mas isto é capaz de ser um caso de polícia. Miguel Rosa desvinculou-se do Benfica e, mesmo assim, continua a ver a sua carreira comprometida por quem quer que no Benfica tenha algum poder. Já o ano passado tinha sido assim, e voltou a sê-lo este ano. E a única coisa que se faz é assobiar para o lado. Há muita coisa que vai mal no futebol. Há pouca coisa tão abjecta como isto.

17. Por falar em mafiosos, um dos sites portugueses com maior afluência, o TV Golo, foi há tempos bloqueado por todas as operadoras, segundo consta, na sequência de uma ordem judicial desencadeada por uma queixa da Sporttv. O site em questão disponibilizava links para videos de golos e apanhados dos melhores lances de jogos de muitas ligas. Não sei muito bem o que leva uma empresa como a Sporttv a sentir-se lesada por um site deste género (ainda por cima, tanto quanto pude perceber, o site inglês okgoals.com disponibiliza boa parte do que era disponibilizado pelo tvgolo.com), da mesma maneira que não consigo compreender a maior parte das razões contra a livre divulgação de conteúdos na internet, em geral. De qualquer modo, é no mínimo irónico que esta acção moralizadora dos costumes dos utilizadores da internet tenha vindo precisamente de uma empresa que, pelo menos até há bem pouco tempo, detinha o monopólio do negócio do futebol em Portugal e que o vendia como queria e pelos preços que queria. Haja escrúpulos...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Mannschaft

O mundial terminou e acabou por consagrar uma das poucas equipas que fez alguma coisa que se parecesse com jogar futebol. Confesso que, sendo a Alemanha, para mim, a favorita à vitória depois da fase de grupos, achava que havia muitas possibilidades de isso não acontecer, dada a importância que os factores externos estavam a ter neste torneio. Ajudou, parece-me, o facto de as meias-finais e a final terem sido jogadas a horas decentes, assim como o facto de o desgaste acumulado se ter começado a notar a partir dos quartos-de-final, como previra. Até aos oitavos de final, o clima prejudicou as equipas jogo a jogo, provocando erros de concentração, desorganização e, em suma, favorecendo as equipas que não fazem da organização táctica e das boas decisões colectivas a sua força. A partir dos quartos de final, porém, o clima afectou as equipas de outro modo: a sua acção deixou de ser no próprio jogo (à excepção do Argentina - Bélgica), mas no desgaste acumulado pelas individualidades. Se, até aos oitavos de final, as equipas que, não obstante serem desorganizadas, tinham individualidades capazes de resolver individualmente tinham sido favorecidas pelo clima, a partir dos quartos de final voltaram a ser as equipas com competências colectivas as principais favoritas. Não admira, por isso, que a única dessas equipas que sobrevivera à primeira fase tivesse acabado por ser a lógica vencedora.

Embora não tivesse previsto que a primeira fase do mundial fosse tão mal jogada, tinha previsto que, a partir dos quartos de final, os jogos fossem fracos. Não foram; foram paupérrimos. O melhor de todos acabou por ser mesmo a final, o que é surpreendente, tendo em conta que as finais não costumam ser muito bem jogadas, por variadas razões. Nos quartos de final, o Argentina - Bélgica foi fraquíssimo, o Alemanha - França foi morno, o Holanda - Costa Rica teve momentos de emoção, mas foi muito mal jogado, de parte a parte, e o Brasil - Colômbia foi um jogo de futebol de rua. No Alemanha - Brasil, houve 20 minutos engraçados, mas a exibição patética dos brasileiros tratou de desnivelar de tal modo o jogo que o espectáculo terminou ali. O Argentina - Holanda foi um dos piores jogos da competição, com duas equipas cheias de argumentos, mas sem capacidades colectivas e com todas as individualidades a acusarem o cansaço prolongado. A final, por seu turno, foi um jogo interessante, com uma equipa a assumir a condução da partida e a outra a tentar jogar no erro da primeira, a fazer lembrar alguns dos melhores embates entre escolas de futebol opostas dos últimos anos. Para muita gente, este foi o melhor mundial a que assistiram. Quem pensa assim, na minha opinião, é mais influenciada pelas emoções que os jogos suscitaram do que pela qualidade dos mesmos. De facto, houve muita incerteza, muitas surpresas, muitas ocasiões junto às balizas e muitos golos. Nada disto implica que tenha havido bom futebol. Na minha opinião, não houve. O mundial foi fraco naquilo que mais importaria que não fosse, nas decisões. Tem de ser esse o critério para se avaliar a qualidade de um jogo, não as emoções, as oportunidades de golo ou a incerteza no marcador. Por norma, houve más decisões, muitos erros individuais e colectivos, muitas equipas desorganizadas. No capítulo das decisões, este mundial representou um retrocesso de mais de 20 anos. Felizmente para a modalidade, ganhou uma das poucas equipas que jogaram modernamente. Não fosse a vitória alemã, e 2013/2014 teria sido a época futebolística mais negra de que me lembro.

A vitória alemã representa ainda a vitória de um estilo sobre o estilo contrário. Para muitos, o tiki-taka morreu e as recentes derrotas do Barcelona, bem como a incapacidade do Bayern de Guardiola para vencer o Real Madrid mostraram isso mesmo. Para outros, nos quais me incluo, o tiki-taka não é uma coisa em que só o Barcelona de Guardiola era competente. Pessoalmente, considero que há uma forma melhor de jogar futebol, e essa forma consiste em ter a bola, em preservá-la e em circulá-la com critério, em usá-la passivamente, para descansar e cansar o adversário, mas também em usá-la activamente, para desposicionar os adversários, para conduzir o jogo para onde interessa que seja conduzido, e para manter a própria equipa organizada e preparada para a perda da bola. Esta Alemanha faz isso tudo quase tão bem como o faz a Espanha, e melhor do que qualquer outra selecção alemã do passado. Foi melhorando de ano para ano, com Joachim Löw, nesse capítulo, e apareceu neste mundial a jogar à Guardiola mais do que nunca. Parece-me um exagero pensar que Guardiola foi o cérebro por trás da vitória alemã, mas não é decerto exagerado pensar que foi uma influência decisiva, como aliás já tinha sido uma influência decisiva para os anteriores campeões do mundo. Joachim Löw começou a copiar o modelo espanhol (e o modelo de Guardiola) depois de ter sido eliminado nas meias-finais em 2010. Até aí, jogara quase sempre em 442 clássico. Depois disso, nunca mais o fez. Em 2012, porém, ainda os alemães não eram suficientemente maduros a jogar dessa forma, e a equipa acabou por cair aos pés de uma Itália que fazia esse tipo de jogo simplesmente porque tinha jogadores mais aptos para o fazerem. Aos poucos, no entanto, Joachim Löw convenceu-se de que tinha de ir mais longe para ter sucesso. Ir mais longe implicava imitar tudo, desde o sistema táctico às inovações introduzidas pelo próprio Guardiola. Foi por isso que começou este mundial a jogar no 433 de Guardiola, com Lahm a médio-defensivo, como Guardiola concebera, e com Muller na posição de avançado, como Guardiola concebera. É verdade que não manteve esse ideal até ao fim, mas a sua equipa jogou sempre mais à espanhola do que à alemã, e isso foi decisivo. Löw foi campeão do mundo pelas mesmas razões que Del Bosque o fora há 4 anos, porque foi humilde o suficiente para perceber que Guardiola não é apenas o treinador mais titulado dos últimos anos mas o homem que melhor percebeu o que uma equipa de futebol deve fazer para ter sucesso. Tal como Del Bosque, Löw aproveitou as ideias de Guardiola para melhorar as suas, e isso foi decisivo para esta conquista. A vitória alemã mostra assim várias coisas, mas a mais importante talvez seja a de que é a imitar o estilo de outras equipas, ao contrário do que muitas vezes se pensa, que uma equipa evolui. Imitar os grandes mestres, como em qualquer forma de arte, é a melhor maneira de evoluir.

Melhor Onze:

Guarda-Redes: Neuer
Defesa Direito: Lahm
Defesa Esquerdo: Blind
Defesas Centrais: Thiago Silva e Hummels
Médio Defensivo: Pirlo
Médios Ofensivos: Wijnaldum e Óscar
Extremos: Özil e James Rodriguez
Avançado: Muller

Treinador: Joachim Löw

Suplentes:

Guarda-Redes: Cillessen
Defesa Direito: Zabaleta
Defesa Esquerdo: Verthongen
Defesas Centrais: Varane e Garay
Médio Defensivo: Schweinsteiger
Médios Ofensivos: Kroos e Iniesta
Extremos: Robben e Messi
Avançado: Van Persie

Treinador: Jorge Luís Pinto

terça-feira, 3 de junho de 2014

Balanço Negativo

Como tive oportunidade de escrever, esta época futebolística representou, de certo modo, um retrocesso na evolução do jogo. Com um campeonato do mundo à porta ao qual alguns dos melhores jogadores do mundo chegam em más condições (ou não chegam, de todo), e a julgar por aquilo que se passou há um ano no Brasil, antevejo uma prova sofrível, o que seria a cereja no cimo do bolo. Não acredito, apesar de tudo, que um ano sirva para inverter a evolução do que quer que seja, e a tendência será, nos anos que se seguem, as coisas voltarem à normalidade. Dito isto, gostaria de fazer um balanço daqueles que foram os principais destaques desta temporada:

Em Portugal, Jesus voltou a ser campeão. Tenho falado muito acerca do quão importantes são, para o reconhecimento de um treinador, um jogador ou uma equipa, as circunstâncias que os mesmos não controlam, como o acaso, o talento dos adversários, as decisões de terceiros, etc., e esta época de Jesus é disso um extraordinário exemplo. Para muitos, porque ganhou mais títulos do que nunca e porque esteve pertíssimo de ganhar tudo o que podia ganhar, este foi o melhor dos cinco anos de Jesus à frente do Benfica. Não só discordo amplamente disto como me parece absurdo que se tenha tal opinião. O Benfica começou muito mal a época, tendo uma participação medíocre na Liga dos Campeões e perdendo muito terreno para o principal adversário. Se o Porto não estivesse fragilizado e conseguisse manter a qualidade do futebol que apresentou no início da época, o Benfica teria tido muitas dificuldades em recuperar o terreno perdido e, pior do que isso, em atingir os níveis de confiança que viria a atingir no final da época. Quando se fala na época no Benfica, concede-se o mau arranque, mas considera-se que a segunda metade da época o compensou. Esquece-se, porém, que só o compensou porque as coisas começaram a correr mal aos adversários dos encarnados. Os níveis de confiança subiram porque os resultados começaram a ser positivos, não o contrário. O Benfica termina a época a poder ganhar tudo porque internamente não teve adversários à altura, o que permitiu à equipa convencer-se de que não tinha defeitos e, assim, elevar bastante os níveis de confiança que, no início, estavam bastante debilitados. Foram as circunstâncias externas, não a qualidade do Benfica propriamente dita, que ditaram o sucesso desportivo desta época. O Benfica de Jesus, tal como o do ano passado, é mais calculista do que nunca. Defensivamente, tornou-se uma equipa fortíssima, mas ofensivamente depende cada vez mais das características atléticas dos seus jogadores. Em termos de criatividade colectiva, foi mesmo o ano mais fraco dos cinco anos de Jesus.

Em Espanha, o Atlético de Madrid foi campeão. Já disse a maior parte das coisas que tenho a dizer sobre a equipa de Simeone, mas posso dizer mais uma ou outra. Continuo sem conseguir dar mérito a uma equipa cuja principal arma é a agressividade com que disputa os seus lances. Não o consigo não por não valorizar o empenho e a crença daquelas jogadores, mas porque acho que, em futebol, níveis de agressividade como os do Atlético de Madrid são contraproducentes. São-no no sentido de desposicionarem e desgastarem excessivamente quem os pratica, já para não falar do risco que é jogar 90 minutos com entradas a pedir cartão, e só podem ter gerado sucesso por factores alheios ao jogo. Em primeiro lugar, pela conivência das equipas de arbitragem. Foram pouquíssimos os jogos do Atlético de Madrid a que assisti em que não ficasse um ou dois jogadores por expulsar. Em segundo lugar, porque os adversários foram bem mais fracos do que em anos anteriores. Por fim, porque a fragilidade dos adversários e a possibilidade do título no horizonte criaram a ilusão aos jogadores de que eram melhores do que são, o que os fez transcenderem-se. O Atlético de Madrid foi campeão e Simeone é hoje um dos treinadores mais aplaudidos na Europa. Individualmente e colectivamente, contudo, a equipa é banalíssima. Há jogadores com futuro, mas são poucos: Courtois, Arda, Adrián e Oliver, principalmente, sendo que os últimos dois praticamente nem foram opção. Colectivamente, não há um princípio de jogo que se possa dizer que seja extraordinário. Ofensivamente, então, desafio mesmo a que me digam que tipo de jogadas é que a equipa privilegia. Assim que as coisas começarem a correr menos bem, a confiança com que chegaram até ao topo evapora-se. E é nessa altura que a verdadeira qualidade ficará à vista. A minha previsão é de que esse momento não tardará.

Em Inglaterra, igualmente, o ano foi muito fraco. Como previa há um ano, a reforma de Alex Ferguson e o regresso de Mourinho iam fazer com que o campeonato inglês fosse mais disputado do que tinha sido nos últimos anos. Não esperava, porém, que, além de disputado, fosse tão mal disputado. Wenger continua a ser pouco perspicaz, em termos defensivos, e isso custou-lhe mais um campeonato. Andou durante muito tempo na frente, mas não teve estofo, na recta final da prova, para preparar a equipa para ser campeã. Ao contrário, todavia, do que se conjecturava, o seu Arsenal esteve mais perto dos principais candidatos, o que comprova que, quando o plantel se mantém, a tendência é tornar-se melhor. A próxima época, não perdendo ninguém, mostrará um Arsenal mais experiente e certamente mais capaz de se impor quando as coisas correrem menos bem. Mourinho foi a principal desilusão (tendo em conta que de André Villas-Boas, depois do que fizera no ano anterior, dificilmente esperava mais do que meia temporada em Londres) e o Chelsea, repleto de jogadores talentosos, acabou a temporada a jogar à Di Matteo. Mata fora o melhor jogador do Chelsea nos últimos dois anos, e foi o primeiro a ser ostracizado por Mourinho. Seguiu-se Óscar. Sobrou Hazard, o que é manifestamente pouco. Abdicar de dois dos três jogadores mais criativos da equipa é de uma estupidez inacreditável. Mourinho pode continuar a ser um treinador atento, muito esperto e competitivo, mas, depois da lobotomia, deixou de pertencer ao restrito grupo dos melhores treinadores do mundo. O Chelsea só não foi campeão porque Mourinho já não é Mourinho. Pellegrini não é um treinador genial, mas é um treinador com uma ideia de jogo interessante. Conseguiu ser campeão porque o principal adversário, pelo menos em termos de recursos, andou o ano inteiro a jogar como uma equipa pequena. Sobre David Moyes e o que aconteceu ao Manchester United, francamente, não me surpreende. O seu Everton foi sempre uma equipa deprimente, e era natural que não conseguisse melhor em Manchester. Conseguir ficar atrás da sua antiga equipa, agora bem melhor treinada, aliás, foi obra. Sobre Brendan Rodgers, não tenho uma opinião muito formada. Não vi muitos jogos do Liverpool, mas os que vi não me entusiasmaram particularmente. É uma equipa competitiva, muito agressiva, e que me parece beneficiar disso por jogar em Inglaterra. Mas não vejo uma equipa criativa, capaz de resolver problemas complicados, e com uma ideia de jogo clara, que não se baseie unicamente em recuperar a bola em zonas adiantadas ou em atacar vertiginosamente. É uma espécie de Atlético de Madrid, ainda que não tão agressiva e com menos qualidade individual, que dependerá muito, no futuro, daquilo em que os jogadores puderem acreditar.

Em ano de estreia na Alemanha, Guardiola fez muitas coisas boas, mas podia ter feito mais. Em termos de títulos, francamente, foi uma época muitíssimo positiva. Ser campeão a 7 jornadas do fim, vencer a Taça e alcançar as meias-finais da Liga dos Campeões é muito bom, e dificilmente se podia pedir mais. Em termos de evolução de ideia de jogo, também me parece irrefutável que este Bayern se tornou mais forte e mais dominador do que era, ainda que não tenha ganho tanto. Faltou, no entanto, uma coisa que, a meio da época, parecia mais ou menos evidente e possível, a capacidade de a equipa continuar a evoluir num modelo de jogo tão exigente como aquele que Guardiola propõe. A minha opinião é a de que Guardiola sentiu demasiadas pressões e, a meio da temporada, não obstante a equipa estar cada vez mais sólida e cada vez mais capacitada para jogar como pretendia, decidiu fazer a vontade a quem o criticava. Aproveitando-se da vantagem no campeonato, começou a preparar a equipa para jogar como jogara em anos anteriores, arriscando menos quando em posse, e isso fez com que os bávaros parassem de aprender a jogar dentro de um modelo que exige coisas que só com muita prática se aprendem. Pareceu-me, porém, que Guardiola nunca se satisfez com isso, e a verdade é que foi em alguns jogos mais exigentes que voltou às suas ideias arrojadas. Na Liga dos Campeões, por exemplo, nunca jogou com dois médios de perfil, como o passou a fazer na segunda metade do campeonato. O que aconteceu foi que, nos dois únicos jogos em que se exigia perfeição à equipa em posse, os bávaros não conseguiram ser perfeitos. E não o foram, essencialmente, porque a exigência de Guardiola na segunda metade da época não foi suficiente. Jogaram de acordo com uma ideia de jogo boa, mas sem o devido nível de preparação para ela. Sem essa preparação, e sem a sorte do jogo que o Real Madrid acabou por ter, o Bayern acabou por desconcentrar-se e terminou a eliminatória dando uma imagem que não é a verdadeira imagem da equipa. Não sei se Guardiola prepara grandes mudanças no plantel para a época que vem, mas o mais importante seria tentar convencer os jogadores de que, apesar do desaire, aquela é a melhor maneira de serem uma equipa de futebol.

A principal prova do futebol europeu foi, talvez, o espelho mais fiel da tenebrosa temporada futebolística que se viveu este ano. Desde jogos horripilantes, como a primeira mão da eliminatória que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsa, a decisões dramáticas no tempo regulamentar, como o povo tanto gosta, esta edição da Liga dos Campeões teve mais a ver com religião do que com futebol propriamente dito. As equipas que melhor futebol apresentaram foram sendo eliminadas, fosse pelo azar ditado pelo sorteio, como o Manchester City e o Arsenal, fosse por cobardia, como o PSG, fosse por erros próprios ou porque o futebol, em última análise, é um jogo que se presta a isso, como o Borussia de Dortmund ou o Barcelona, e nas meias-finais só já havia uma equipa cujo futebol era minimamente interessante. Quando, nas quatro semi-finalistas, há apenas uma das seis equipas que melhor futebol mostraram, pouco mais há a dizer. O Real acabou por vencer a décima e foi o menos mau que poderia ter acontecido. A equipa continua longe de jogar bem, mas consegue juntar um leque de jogadores que, do ponto de vista individual, pode ser decisivo. Foi-o, de facto, nos quartos de final e nas meias-finais, e foi por esse leque de individualidades que marcou presença na final. Há, no entanto, muito, mas mesmo muito, a melhorar no ano que vem, sobretudo porque a ambição de ganhar uma competição que não ganhavam há largos anos, o principal dínamo emocional da equipa esta temporada, já não existe, e porque há uma série de jogadores (Ronaldo à cabeça) cuja idade forçará a que o seu rendimento seja, a partir de agora, tendecialmente inferior.

domingo, 27 de abril de 2014

Idade das Trevas

Vivem-se hoje, no que diz respeito ao futebol, tempos idênticos àqueles que o mundo conheceu na sequência do declínio do Império Romano, tempos de obscuridade em que o progresso parece ter sido interrompido. Um pouco por todo o lado, triunfam as equipas cuja principal virtude é a transpiração, sendo o maior exemplo disto o Atlético de Madrid de Simeone, uma equipa tão competitiva quanto retrógrada. A primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsea foi, a todos os níveis, um dos jogos mais deploráveis do século XXI. Haver num campo de futebol duas equipas e nenhuma delas ser uma equipa de futebol não só não é coisa que se esperasse ver numa meia-final de uma competição tão importante como não é coisa que se tenha visto muito nos últimos 20 anos. Não obstante, não quero falar muito deste Atlético de Madrid, ou do Chelsea de Mourinho. O sucesso de Guardiola em Barcelona contribuiu muito, a meu ver, para o progresso do futebol, e os anos que se seguem tratarão de o comprovar, ainda que esse progresso se faça paulatinamente e, pelo meio, haja retrocessos pontuais, como parece ser o caso desta época.

A melhor forma de falar da escuridão que tem sido esta temporada futebolística, com pouquíssimas novidades dignas de interesse, é opor dois treinadores, um que pertence ao século passado, outro que é um visionário. Refiro-me a Tata Martino e a Pep Guardiola. Martino tem, apesar de tudo, uma virtude: a de não ter tentado uma revolução. Percebeu que tinha de continuar o trabalho de Guardiola e de Tito Villanova, e percebeu que o melhor a fazer era não mexer muito. As pessoas esquecem-se, por exemplo, que a primeira volta do Barcelona, este ano, foi impecável (mesmo sem Messi durante alguns meses), e isso se deve, sobretudo, à forma como Martino procurou fazer com que os jogadores continuassem a jogar da maneira como sabiam. Faltou a Martino, porém, tudo o resto. Faltou perceber que jogar de determinada maneira implica fazer um sem número de coisas, faltou ser capaz de manter os jogadores concentrados em jogos de baixa exigência, faltou dar minutos de descanso a alguns jogadores (como Xavi) e mostrar a outros que a equipa precisa deles  não apenas quando não há outros para jogar (Bartra, Song e Sergi Roberto) e faltou ser capaz de ler bem aquilo que os jogos pediam dele. Até à eliminatória com o Atlético de Madrid, para a Liga dos Campeões, estes problemas pareciam pouco visíveis. O Barça tinha superado um adversário difícil, o Manchester City, tinha mostrado que continuava superior ao Real Madrid, nos confrontos directos, e só dependia de si para ser campeão.

Tudo terminou quando uma equipa super-agressiva, que joga à margem das leis, na maioria das vezes, deixou a nu os principais problemas de Tata Martino. É verdade que o Atlético de Madrid, com árbitros menos ingleses (os primeiros dez minutos da segunda mão foram vergonhosos, com o Atlético a criar sistematicamente situações de perigo que começam em faltas não assinaladas por Howard Webb), dificilmente teria passado essa eliminatória, mas o que é constrangedor é que isso nunca fora um problema, por exemplo, no tempo de Guardiola. Martino começou a perder a eliminatória quando sugeriu que, para vencer a equipa de Simeone, o Barça precisava de ser tão intenso como o Atlético. Não percebeu que, contra equipas intensas, o melhor antídoto é ser pouco intenso, é ficar com a bola, reduzir o ritmo de jogo, circular em segurança, cansar o adversário, levá-lo para onde quer, etc.. Contra uma equipa cuja principal estratégia ofensiva é pressionar alto para aproveitar os possíveis erros do adversário, a melhor contra-estratégia é arriscar, sair a jogar pelos centrais, fazer baixar os três médios para criar linhas de passe interiores, e adiantar os laterais. O Barcelona tentou fazer a sua circulação habitual, mas muito timidamente, e abandonando-a sempre que sentiu medo de cometer erros. Contra uma equipa que faz da intensidade com que joga a sua maior arma, a melhor estratégia é sempre fazer com que essa intensidade não tenha relevância. E isso faz-se tendo a bola, entrando nas zonas de pressão do adservário apenas para sugerir ao adversário que pode recuperar a bola, saindo delas imediatamente e, com isso, cansando o adversário. 

Quando se fala de posse de bola, esquece-se geralmente de que ela tem um uso passivo e um uso activo. Diz-se que ter muita bola não serve para nada, e muitos treinadores até preferem que a equipa adversária tenha a bola para lha poderem tirar. Esquece-se de que quem tem a bola não tem apenas a bola; tem também a possibilidade de conduzir o adversário para onde quiser. O Barcelona de Tata Martino não tem apenas menos posse de bola, em quantidade, do que tinha o Barça de Guardiola. É também muito menos inteligente a fazer um uso táctico da bola. O Barcelona de Guardiola usava a bola para descansar, para se reorganizar, para retirar a iniciativa de jogo ao adversário, mas usava a bola também de forma activa, entrando no bloco para solicitar que o adversário activasse a sua pressão, saindo rapidamente do bloco para circular por fora e assim ir explorar os espaços deixados em aberto pela pressão que entretanto o adversário activara. Este Barcelona continua a usar a bola de forma passiva muito bem, continua a ser capaz de ter mais bola que os adversários, e continua a ser capaz de, ocasionalmente, activar combinações estonteantes entre os seus jogadores, mas não sabe usar a bola, porque não tem treinado para isso, como um engodo. E esse uso era precisamente aquilo que, há uns anos, fazia com que houvesse um fosso gigantesco entre essa equipa e as restantes. Esse fosso, actualmente, deixou de existir, e o Barcelona é uma equipa tão permeável aos detalhes quanto outra qualquer. Ainda que continue a ser dos melhores conjuntos, e ainda que continue a ter alguns dos melhores jogadores do mundo, já não é uma equipa que, em condições normais, ganha sempre. Acresce a esse problema um outro, que com ele se relaciona: o facto de Tata Martino não perceber que, para jogar como o Barcelona deve jogar, em toque curto, com posse, tem de cumprir um vasto leque de requisitos. Não pode, por exemplo, ter a linha defensiva sediada no meio-campo, a dez ou mais metros do médio-defensivo; tem de haver uma sucessão de coberturas que impossibilite que o adversário consiga criar linhas de passe assim que recupera a bola.

Se, contra o Atlético de Madrid, ficou evidente que Tata Martino é um treinador banal, não percebendo sequer que a equipa de Simeone não é sequer muito forte em termos zonais e que bastava ter jogado com dois extremos constantemente abertos (Martino percebeu a meio da época que tinha mais sucesso jogando com Iniesta e Neymar nas alas, ou seja, com jogadores menos profundos e que gostam de vir para dentro, mas achou que essa fórmula era a fórmula certa para todo e qualquer jogo) para que houvesse mais espaço pelo meio (aliás, foi assim que o passe de Iniesta pôde entrar, no golo de Neymar), algumas das novidades tácticas apresentadas por Guardiola no seu Bayern de Munique devem ajudar a confirmar que o catalão é mesmo de outra galáxia. É verdade que Guardiola tem cedido a algumas pressões dos dirigentes bávaros e é verdade que algumas das suas ideias, por esse motivo, têm demorado a ser implementadas. Mas nota-se, sobretudo quando as coisas correm bem e sente a possibilidade de testar coisas diferentes, uma vontade enorme de revolucionar o futebol dos alemães. A mais recente das surpresas tácticas confirma que quem acha que, em futebol, já tudo foi inventado, é um imbecil. Tal como mostrou, na Catalunha, que ainda era possível jogar em 343 ao mais alto nível, mostra agora que um lateral não é necessariamente só o que as pessoas pensam que é. Para muitos, o lateral serve para jogar pela linha. Mais defensivamente ou mais ofensivamente, é papel do lateral jogar encostado à lateral, pensa quase toda a gente. Para Guardiola, para quem os laterais foram sempre, como outros jogadores quaisquer, participantes de tudo o que equipa faz, isso nunca foi bem assim. Apesar disso, nunca os laterais de Guardiola tinham sido médios. Até agora.

Desde o início da época que se percebia que os laterais do Bayern não faziam bem o mesmo que os laterais do Barça de Guardiola, integrando a manobra ofensiva por dentro e não por fora do extremo. Agora, contudo, Guardiola parece interessado em fazer dos laterais não apenas participantes do jogo interior no último terço do terreno, mas médios de construção. Assim que a equipa entra em processo ofensivo, os centrais abrem, o médio defensivo baixa, formando uma linha de três atrás, e os laterais, em vez de subirem no terreno pela linha, vêm para dentro, para a zona deixada vaga quer pelo abaixamento do médio-defensivo, quer pela subida dos outros dois médios, que passam a preocupar-se em solicitar linhas de passe dentro do bloco adversário. O que acontece é a equipa passar a jogar com três defesas, dois médios defensivos, dois extremos bem abertos, e dois médios atacantes, constantemente preocupados em explorar os espaços atrás dos médios adversários. Introduzindo esta dinâmica logo na primeira fase de construção, Guardiola consegue assim manter bastantes jogadores no meio-campo, de maneira a dar linhas de passe próximas na primeira fase de construção sem perder a profundidade e a largura dos extremos e sem perder médios dentro do bloco adversário, algo a que dá muitíssima importância e algo que nem Kroos nem Schweinsteigger têm conseguido dar-lhe. Com esta estratégia, a equipa parece conseguir manter o adversário o mais aberto possível (dado o posicionamento dos extremos, que deixam de ter de vir tanto para dentro) e parece ser capaz de manter vários homens dentro do bloco adversário, a solicitar linhas de passe entre as linhas adversárias, duas coisas que, até agora, estava a ter dificuldades em conseguir em simultâneo. Tal como o 343 na Catalunha servira para ter muitos médios ofensivos entre as linhas adversárias, sem perder a largura que força a que o adversário esteja aberto, esta dinâmica parece assim permitir duas das coisas a que Guardiola mais importância dá, em termos ofensivos.

Não obstante ter algumas reservas quanto a mudanças de posições relativas de jogadores de processo defensivo para processo ofensivo, reconheço que é das coisas mais engenhosas que já vi um treinador pensar. E sentir que há quem seja capaz de surpreender com coisas nunca antes tentadas, em termos tácticos, é das coisas mais gratificantes, para quem percebe o jogo. A mim, Guardiola continua a surpreender-me. É pena que Beckenbauer, que ainda esta semana não percebeu nada do que se passou no jogo da primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid (o Bayern só jogou mal quando abdicou da posse de bola com que dominou toda a primeira parte), ache que o Bayern deve continuar a ser uma equipa banal, sujeita à mesma aleatoriedade da fortuna que todas as outras. E é pena que Guardiola, por força da pressão que Beckenbauer tem exercido com a sua estupidez, não possa reformar a equipa como deseja. Num ano de trevas, como este, há quem queira que as trevas engulam até a única pessoa que não se conforma em viver nas trevas. Os estúpidos só estão bem se todos à volta deles forem estúpidos como eles.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Guardiola e os Dois Médios

Talvez seja prematuro tecer considerações acerca deste assunto, mas não posso deixar de sentir alguma perplexidade por Guardiola ter feito actuar, pelo menos nos dois últimos jogos do Bayern, dois médios de perfil à frente da defesa. O 4231 nunca foi um esquema que Guardiola apreciasse. Ao chegar a Munique, aliás, a primeira mudança que operou foi precisamente na disposição do trio de meio-campo, invertendo o vértice do triângulo e passando a utilizar apenas um médio-defensivo. Se as coisas estivessem a correr mal, ainda compreendia, não concordando, a necessidade de voltar a arrumar a equipa como Heynckes a arrumava. Mas Guardiola teve, nestes primeiros meses em solo alemão, um sucesso estrondoso: já ganhou duas competições, tem o título alemão, a meio do campeonato, praticamente no bolso, sofreu uma única derrota depois do jogo inaugural, e numa partida em que, claramente, os jogadores sentiram que podiam relaxar, e quase toda a gente já reconheceu que, em pouco tempo, conseguiu pôr o seu Bayern a jogar à sua imagem. Dadas estas circunstâncias, que razão há para adoptar um modelo táctico que não é da sua preferência, que nunca utilizou na Catalunha, e com o qual rompeu, mesmo tendo sido o modelo ganhador do ano passado, assim que chegou à Baviera?

Não encontro muitas explicações para o facto, e estou algo apreensivo quanto ao futuro da equipa bávara. A menos que seja uma experiência provisória, regressar ao duplo-pivot de Heynckes parece-me um enorme retrocesso. Evidentemente, jogar com Lahm e Thiago no meio-campo não é o mesmo que jogar com Schweinsteiger e Luís Gustavo. Mas uma parte muito significativa daquilo que a equipa de Guardiola geralmente é capaz de fazer (sair a jogar pelos centrais e pelo médio-defensivo, envolver muitos jogadores no processo ofensivo, capacidade para jogar entre linhas, pressionar alto) fica comprometida com a mudança de posicionamento no miolo. Não vi os jogos com o Estugarda e com o Borussia de Monchengladbach, de maneira que não posso saber se esta mudança foi algo que Guardiola preparou durante esta pausa de Inverno ou se foi um recurso circunstancial, usado apenas nos últimos dois jogos, frente ao Eintracht de Frankfurt e frente ao Nuremberga, por razões que desconheço. De resto, Guardiola mostrou-se satisfeito com o que os seus jogadores fizeram contra a equipa de Frankfurt. É verdade que golearam e que podiam ter goleado por números ainda maiores, mas fiquei com a sensação de que o jogo correu de feição aos bávaros, que o adversário baixou os braços demasiado cedo, e que foi tudo tão fácil que não se podiam tirar grandes ilações acerca do desempenho da equipa de Guardiola. A verdade é que a minha relutância tinha razão de ser, e esta semana, em Nuremberga, ficou bem à vista de todos o quão problemático pode ser jogar num modelo como este. O Bayern ganhou, é certo, mas fez talvez a pior exibição da época. Foi profundamente incapaz de controlar o jogo, de sair a jogar como é hábito, de entrar entre linhas e desenvolver o seu jogo dentro do bloco adversário, viu-se forçado a recorrer, por sistema, a um jogo muito mais directo e chegou mesmo a ter menos posse de bola do que o adversário. Com dois médios junto à defesa, e apenas Gotze solto entre os médios e os defesas adversários, a equipa perde capacidade de pressão, permite que os médios adversários pressionem mais à frente e fica com menos apoios próximos em zonas mais ofensivas. Marcou o primeiro golo na primeira oportunidade que teve, e já depois de o adversário ter tido quatro ou cinco boas ocasiões, mas nunca foi dominador como costuma ser. Este fim-de-semana, ainda que fosse Guardiola quem estivesse no banco, foi o Bayern de Heynckes que esteve dentro das quatro linhas.

Não acreditando que isto consista numa mudança de crenças de Guardiola acerca do jogo, consigo avançar com duas ou três razões que expliquem esta mudança táctica, mas nenhuma delas me parece inteiramente satisfatória. A mais plausível parece-me ser a necessidade de soltar Mario Gotze entre linhas. Para que Gotze se preocupe exclusivamente com acções sem bola, em procurar oferecer as melhores linhas de passe dentro do bloco adversário, Guardiola terá sentido que precisa de um segundo médio fora do bloco. Ainda que faça algum sentido e ainda que muitos treinadores optem por este tipo de solução, é absolutamente estranho nas equipas de Guardiola. Xavi e Iniesta tanto jogavam fora do bloco, quando isso se exigia, como ocupavam rapidamente posições dentro do bloco adversário, para oferecerem uma linha de passe vertical. Uma das forças do seu Barcelona, aliás, era precisamente não ter jogadores vocacionados para um certo tipo de acções. Cada jogador reagia como a situação de jogo mandava, e era isso que tornava imprevisível a acção de cada um deles. Forçar Gotze a jogar entre linhas e Thiago junto a Lahm é especializar o que cada médio deve fazer sem bola, e parece-me que Guardiola nunca foi a favor dessa solução. De resto, nos primeiros meses em Munique, se havia alguém responsável por aparecer sistematicamente entre linhas, era o avançado. Os médios apareciam lá de vez em quando, sempre que a jogada assim o pedia, mas não por indicações prévias. Com o meio-campo desta maneira disposto, não há permutas constantes e não se favorece, de modo algum, a troca de bola interior. Por isso, e ainda que seja a resposta mais óbvia, não me parece plenamente justificável. Há ainda a possibilidade de Guardiola ter sentido que, com Mandzukic em campo, que é um avançado que não sabe nem tem competência para baixar e aparecer entre linhas, precisa que alguém o faça. Sobre Mandzukic já disse muita coisa e a minha opinião acerca dele é consistente com esta possibilidade. A ser verdade, Mandzukic seria o principal responsável por uma mudança táctica que me parece, claramente, perniciosa em termos colectivos. Consigo ainda pensar numa terceira possibilidade, a de Guardiola estar a preparar a equipa para certos jogos ou certos momentos de jogos futuros. Com o campeonato praticamente ganho, e alguns processos já consolidados, é possível conjecturar que Guardiola queira que a sua equipa se saiba comportar de uma segunda maneira, menos interessada em fazer da posse a sua maior arma, mais equilibrada atrás e com menos gente à frente, sobretudo para gerir vantagens sem bola. Ora, gerir vantagens sem bola é coisa que Guardiola nunca fez e coisa que me parece completamente oposta àquilo em que acredita. Daí que também esta solução, a de estar a preparar a equipa para uma competição mais exigente, do ponto de vista táctico, como seja a Liga dos Campeões, não me parece muito certa. Sejam quais forem os motivos, uma coisa parece óbvia: em 4231, o Bayern de Guardiola é muito mais parecido com o Bayern de Heynckes do que com o Barcelona de Guardiola. E, se os últimos 5 ou 6 meses mostraram que é bem possível pôr outras equipas a jogar à Barça, abdicar disso parece-me um contrassenso.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Passe e Devolução: A Versão Bávara

E depois do que se passou ontem em Manchester, já é possível dizer que o Bayern de Guardiola é melhor do que alguma vez foi o de Jupp Heynckes? A tareia monumental que os bávaros foram dar a casa do vice-campeão inglês, pondo o adversário à rabia a maior parte do tempo, não pode ficar indiferente a ninguém. O Bayern de Heynckes revelou-se letal, cirúrgico, mas não tinha a capacidade para subjugar, durante 90 minutos, os seus adversários. Era uma equipa forte nos detalhes, e que se fez valer da capacidade de concentração e de uma ambição colectiva extraordinária. Mas, para vencer o que venceu, para chegar onde chegou, teve de sofrer muito. O futebol dos bávaros, no passado, era sofrido; tudo era feito em esforço, em velocidade, e cada jogada representava o último lance da vida de cada um dos jogadores. O Bayern de Guardiola, em poucos meses, é o completo oposto. Continua uma equipa fortíssima, não parece ter perdido capacidade de concentração, mas passa o jogo inteiro a passear, como se estivesse a fazer a coisa mais fácil do mundo. A diferença é incomensurável. Ontem, em Manchester, o City andou atrás da bola, e o Bayern de Munique andou literalmente a recrear-se. Sabe esperar pelos momentos certos para atacar, sabe jogar com as expectativas (as próprias e as dos adversários), sabe gerir o ritmo do jogo e circular a bola a seu bel-prazer, e sabe que uma jogada é só uma jogada, que, se fizerem as coisas bem feitas, terão outras jogadas e outras oportunidades para chegarem ao golo. O futebol dos alemães está agora muito menos dependente da inspiração individual, da concentração de cada um dos jogadores e da afinação com que se entendem. Agora, os princípios organizadores são a participação, em cada lance, de todos os jogadores, a recreação colectiva e a criatividade. Até os jogadores mais dados ao individualismo parecem entreter-se e gozar de um estilo que preconiza as tabelas, o envolvimento a pares, os triângulos, os toques de primeira. Vemos os bávaros a fazer, já com alguma frequência, aquilo que, para muitos, só os catalães, por qualquer mistério insondável, sabiam fazer: passe e devolução, passe e devolução, passe e devolução. Vemos, por exemplo, Alaba a entrar pelo meio (uma novidade, no modelo de Guardiola), a envolver-se no trabalho de posse a meio-campo e a solicitar a bola entre linhas; vemos Ribery a ir de um lado ao outro do campo para perto de Robben para lhe dar uma opção curta, e até vemos Robben a procurar companheiros no meio com os quais tabelar.

Ontem, jogou Thomas Müller como avançado e, apesar de Luís Freitas Lobo ter insistido que aquela não era a melhor posição para o internacional alemão, foi muito por aí que o Bayern foi tão superior. Sem bola, Müller é um dos melhores jogadores do mundo. A sua capacidade de movimentação e a inteligência com que percebe o que deve fazer e para onde deve ir a cada momento fazem dele, possivelmente, a melhor opção para a posição de atacante, nesta equipa. Sem bola, Müller saiu invariavelmente de entre os centrais, ora para se aproximar do portador da bola, estivesse ele numa faixa ou no centro, ora para ocupar o flanco direito, permitindo a Robben invadir o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, por onde o Bayern depois progredia. Com isso, confundiu marcações, mas permitiu sobretudo soluções de passe inesperadas à sua equipa. Muito da dinâmica ofensiva bávara, ontem, se deveu ao extraordinário trabalho de Müller, ainda que Freitas Lobo tenha achado que ele nunca conseguiu entrar no jogo. Guardiola não pensa como a maioria dos treinadores, e não pensa decerto como Freitas Lobo. Para ele, há coisas mais importantes do que um determinado jogador tocar muitas vezes na bola. Ontem Müller terá sido dos jogadores mais importantes em campo, até pela liberdade que permitiu quer a Robben, quer a Ribery, e Guardiola não terá deixado passar isso. Que outro treinador, por exemplo, se daria ao luxo de tirar o melhor lateral direito do mundo da sua posição de origem para pô-lo no meio-campo, ainda por cima tendo tantas opções (e tão conceituadas) para ali? Que outro treinador escolheria o jogador mais baixo da equipa para jogar como médio-defensivo? Guardiola é diferente dos outros, e requer dos seus jogadores coisas diferentes. Com o regresso de Götze, Javi Martinez e Thiago Alcântara, é possível que Lahm volte a ser lateral, mas até ver foi o jogador que melhor cumpriu aquela posição. Onde me parece que Guardiola tem ainda que trabalhar muito (e pensar bem sobre quais os jogadores que melhor servem esse propósito) é no meio-campo. O meio-campo é a alma deste modelo e, neste momento, Schweinsteiger e Kröos são demasiado parecidos. O meio-campo funciona bem, tem a dinâmica certa e os princípios certos, mas falta-lhe criatividade. Posicionalmente, fazem de facto o que têm a fazer, não procurando a bola fora do bloco adversário, mas invadindo-o e solicitando-a entre linhas. Mas depois falta algum atrevimento para mantê-la dentro do bloco, para procurar procurar soluções difíceis e arriscadas, em espaços curtos. Invariavelmente, escolhem a opção mais segura. De Schweinsteiger, em abono da verdade, não esperava mais do que isso, e nunca me pareceu que pudesse ser outra coisa, no modelo que Guardiola quer implementar, que não médio-defensivo (agora já nem isso). Mas de Kröos, jogador que muito admiro, esperava outra coragem. Claro que ainda é cedo e que esse tipo de coisa ainda pode ser cultivada, mas Kröos, para já, não me parece dar tudo o que Guardiola precisa. Thiago Alcântara e Götze (ou eventualmente Ribery) poderão por isso trazer coisas diferentes ao meio-campo ofensivo do Bayern. Nenhuma destas observações é, contudo, relevante, se pensarmos na brutalíssima mudança operada por Guardiola em tão pouco tempo. Se, em poucos meses, foi capaz de pôr o Bayern a jogar de uma maneira tão distinta daquela com que se exibia antes, deve-se presumir que os pequenos defeitos que a equipa ainda tem se possam corrigir com o tempo. Seja como for, continuo por isso sem dúvidas de que o Bayern de Guardiola será a seu tempo aquilo que o seu Barcelona foi, uma equipa de passe e devolução perpétuos, capaz de subjugar qualquer adversário e capaz de conduzir cada partida de futebol como bem lhe aprouver. E, depois disto, continuará a ser possível defender que o modelo de Guardiola não é o mais avançado para um jogo como o futebol e que só resultou num sítio em que os jogadores eram perfeitos para esse modelo?