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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Futebol e Condições Climatéricas

Ainda sobre a ideia, sustentada em alguns dos últimos textos, de que o clima em que este mundial se jogou prejudicou não só o espectáculo em geral mas também, em particular, as equipas que fazem da organização táctica e da tomada de decisão os seus principais trunfos, expressa o Filipe Vieira de Sá, no seu último texto, uma opinião que, além de me parecer conforme à opinião de muita gente, e por isso interessante de contradizer aqui, implica a crença de que o futebol é uma coisa que, a meu ver, não é ou não devia ser. Embora o Filipe aceite  a ideia de que as condições climatéricas ajudam a explicar o que se passou no mundial, discorda do "pressuposto de que não estavam reunidas as condições para se jogar futebol", pois o futebol, na sua opinião, "é um jogo global, não pertence apenas à meia-estação europeia, e por esse mundo fora há várias equipas que jogam nas condições encontradas em certos estádios deste mundial". A implicação deste argumento não pode ser outra que não a de que os factores externos, na opinião do Filipe, fazem parte do jogo. Fica por saber, porém, se todos os factores externos ou se apenas alguns. Por exemplo, se o futebol é um jogo global e não se deve procurar organizar as principais competições internacionais apenas em sítios onde as condições climatéricas forem parecidas com as que se verificam a maior parte do ano no continente europeu, é aceitável jogar futebol, por exemplo, no Polo Norte?  Poderia ridicularizar esta posição ainda mais, mas parece-me que não valerá a pena. Em vez disso, era importante que as pessoas tentassem responder a algumas questões. Por que será que os campeonatos, na Europa, são organizados para começar quando o Verão já está a terminar e para acabar antes de ele começar? Por que será que param alguns na altura em que o Inverno é mais rigoroso? Não será porque condições extremas de calor e frio prejudicam necessariamente o espectáculo? Por que é que não se joga quando o campo está alagado? Ou por que é que não se joga em pelados? Alguns clubes agradeceriam, certamente. E o nível de competitividade seria, garantidamente, superior.

Parece-me, claro, pelo menos para mim, que há condições mais propícias à prática do futebol do que outras e que a tendência tem sido, ao longo dos anos, a de tentar uniformizar essas condições. O tamanho dos campos, o tamanho do corte da relva, a qualidade dos relvados, as bolas com que se joga, o calendário anual das competições - tudo isto é hoje em dia mais uniforme do que foi no passado. Em benefício do espectáculo e da justiça desportiva, entendeu-se há muito tempo que era importante mitigar a relevância dos factores externos tanto quanto possível. Em nome da diversidade, o Filipe discorda desta ideia. A ele e às muitas pessoas que, como ele, acham que as características do futebol de cada país devem ser preservadas a todo o custo, não interessa nem a qualidade do espectáculo nem essa coisa estranha a que estou a chamar "justiça". Tenho muitas dificuldades em perceber o que é que considera entusiasmante no futebol quem pensa assim. Pessoalmente, tenho pouquíssimo interesse em ver jogos da segunda liga. Da mesma maneira, não encontro quaisquer razões estéticas para apreciar um desenho de uma criança. Se quero ver futebol, tento ver as melhores equipas e os melhores jogadores; se quero ver pintura, vou ao  Prado ou ao Louvre. Achar que é mais importante preservar a diversidade de estilos e de características do que atenuar a injustiça que consiste em jogar futebol quando os factores externos são mais decisivos do que a competência das equipas é não gostar de futebol; é gostar de cultura. Eu acho bonito que se goste de cultura, e também acho bonito que se queira preservá-la. Mas preservem-na em museus, em livros de História, ou na memória colectiva.

Num jogo que consiste essencialmente em pôr frente a frente duas forças, parece-me lógico, além de justo, que os melhores a jogá-lo sejam aqueles que forem capazes de derrotar as forças adversárias unicamente por serem mais fortes do que elas. Parece-me ser o pressuposto, aliás, do próprio conceito de jogo. Num jogo de tabuleiro como o xadrez, por exemplo, os factores externos não têm praticamente peso nenhum. Em xadrez, ganha quem é melhor. Em futebol, não só não é assim como é ingénuo pensar que algum dia possa vir a sê-lo. É um jogo diferente, em que os factores externos (a sorte, o clima, os árbitros, etc.) terão sempre alguma importância. Mas isso não invalida que eles não devam ser reduzidos ao máximo. Claro que devem. Não faz sequer sentido entender o futebol como jogo se não se aceitar isto. Em desportos de pavilhão, por exemplo, o factor externo do clima não tem qualquer importância. Enquanto jogos, o basquetebol, o andebol, o voleibol e outros que tais são sem dúvida desportos mais justos. No ténis, pelo menos em alguns torneios, a simples presença dos primeiros pingos de chuva é suficiente para interromper um desafio. É verdade que essas interrupções têm por principal motivação o espectáculo e a preservação da integridade física dos atletas, mas é fácil de perceber que, por exemplo, jogar à chuva em terra batida não é jogar em terra batida. Da mesma maneira que, estando a chover em Roland Garros, um especialista em terra batida perde a vantagem que tem para um adversário que não o seja, também as equipas de futebol mais competentes perdem a vantagem que têm para as outras, se não estiverem reunidas as condições suficientes para que possam pôr em prática essa competência.

Temperaturas extremas, velocidades do vento muito elevadas, níveis de humidade altos, nevoeiros cerrados, chuvas intensas e níveis de oxigénio reduzido, em altitude, são algumas das condições atmosféricas que condicionam a qualidade dos jogos e diminuem as diferenças entre as boas e as más equipas. Tal como o ciclismo é um desporto de Verão, pelas razões que facilmente se entendem, o futebol é um desporto de Inverno porque o espectáculo é necessariamente melhor no Inverno. Ninguém, estando de perfeita saúde, contesta isto. Condições externas invulgares na Europa não tornam apenas o jogo diverso; tornam-no pior. Tornam-no pior porque, nessas condições, as melhores equipas deixam de ser capazes de fazer uso dos argumentos pelos quais são as melhores equipas. Níveis de humidade muito altos e temperaturas demasiado altas, as principais características que, a meu ver, prejudicaram a qualidade do campeonato do mundo e algumas das melhores equipas que lá estiveram, tendem a provocar um desgaste, a curto, médio e longo prazo, que é incompatível com a melhor prática do jogo. O que é que interessa que essas sejam as condições em que se joga normalmente em muitas partes do globo? Que os factores externos tenham um peso mais relevante em alguns lugares da América do Sul do que têm na maior parte dos países europeus e que, por isso, o futebol que se joga nesses lugares tenha menos qualidade e seja menos justo do que o futebol que se joga na Europa é razão suficiente para afirmar que o futebol em alguns lugares da América do Sul é menos interessante (entendendo que o interesse do jogo depende intrinsecamente da sua qualidade e da justiça a que se presta) do que o futebol que se joga na Europa. É por este motivo, essencialmente, que me parece que as grandes competições deviam evitar ao máximo a sujeição a essas condições. No Brasil, talvez bastasse abdicar de duas ou três das regiões em que se jogou e escolher melhor as horas do dia. Além disso, talvez também não fosse má ideia estender a competição por mais duas semanas, espaçando assim mais os jogos que cada equipa disputa e permitindo-lhes uma melhor recuperação de jogo para jogo.  Se assim tivesse sido, não haveria com certeza tantas surpresas e tantas anormalidades, o que, para muita gente, é um defeito. Mas as poucas que houvesse seriam muito mais motivadas pelo mérito ou pelo demérito das equipas. Quem quer que goste de futebol, e que goste pelas razões certas, tem de preferir um campeonato assim.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um Problema de Sol

Como é Verão, vamos falar de sol e de coisas que pessoas não fazem por estar muito sol. Devo dizer que este texto, pelo menos em parte, estava escrito já há vários meses, e que apenas por desmazelo não foi publicado mais cedo. Reporta-se a uma partida do campeonato espanhol, que opôs o Málaga ao Real Madrid de Mourinho. Diamantino Miranda, esse arauto do disparate, foi o comentador de serviço do desafio, e disse, entre outros disparates certamente merecedores de referência, que as equipas do sul de Espanha eram, por norma, menos agressivas que as do norte. A razão pela qual Diamantino pensa assim, disse-o depois, prende-se com as diferenças climatéricas. Segundo o astuto comentador, equipas que estejam sediadas em regiões com climas mais quentes, com praias, sol e, provavelmente, raparigas de biquini, são compostas por jogadores mais tecnicistas, mas menos disponíveis para ajudar a defender. Por si só, a ideia de que o clima define características de um atleta é suficientemente estúpida para que lhe fique indiferente, e é disso que vou falar em seguida. Antes, porém, quero falar do argumento particular de Diamantino. Muito rapidamente, e até porque estendeu a ideia a outros países, a Portugal, por exemplo, o argumento faz depender a pouca agressividade defensiva de onze atletas da localização geográfica de uma cidade. Do que Diamantino se terá esquecido é que os onze jogadores que, segundo ele, eram pouco agressivos, não eram naturais de Málaga, nem tão-pouco de cidades do sul de Espanha. A menos que, a juntar ao primeiro argumento, mais geral, defenda Diamantino também que estes jogadores perdem agressividade de acordo com o sítio onde vivem, e que, por exemplo, Toulalan, que jogou toda a vida em Lyon, era agressivo até se ter mudado para Málaga, não percebo muito bem como é que pode defender o que defendeu.

Enfim, não quero perder muito tempo a discutir o raciocínio de Diamantino Miranda, pois não me parece fácil tentar perceber lógica onde ela não existe. Mas a ideia de que o clima influencia as características de um atleta merece algum debate, e sobre isso gostaria de dizer algumas coisas. Há coisa de dois anos, lançou o Filipe no Jogo Directo uma discussão parecida, defendendo que "há indícios claros de que a temperatura mexe, e bem, com o calor do jogo". Tive a oportunidade de comentar esse texto, e de participar na discussão. Ainda hoje penso do mesmo modo, e o comentário de Diamantino Miranda veio apenas tornar presente algo que me faz de facto bastante confusão. Como é que alguém pode sequer conceber que o clima tem influência directa no tipo de futebol que se pratica em determinado sítio? Na verdade, talvez sem se aperceber, o Filipe defendia duas coisas diferentes: primeiro, que uma equipa não se consegue comportar como se comporta habitualmente, se a temperatura for consideravelmente mais alta; em segundo, que os brasileiros jogam de modo mais "acalorado" porque o clima assim o propicia. O primeiro caso não se insere sequer no mesmo tipo de discussão: qualquer equipa europeia que vá jogar a 2000 metros de altitude, com baixas concentrações de oxigénio, tem desempenhos inferiores, e não consegue manter o ritmo habitual. Não é propriamente a temperatura, mas sim qualquer condicionante externa que modifica o comportamento habitual dos jogadores, que estão preparados para responder em determinadas condições e têm dificuldades imediatas em adaptar-se a condições novas. O "calor" do jogo, nesse primeiro caso, é determinado pela habituação, ou falta dela, e não porque a temperatura desempenhe um papel providencial. Mas é o segundo caso que mais interessa, pois é sobre ele que as pessoas mais opiniões engraçadas têm.

Existe, aliás, a tendência para achar que não é só o futebol, mas todo o tecido social, que é reflectido pelo clima de um país. Acho tal conclusão, como deverão calcular, um profundo disparate. Para muita gente, os países mediterrânicos são menos produtivos, em geral, porque são países com climas temperados, e é o clima que se regista nesses países que faz com que as pessoas sejam mais preguiçosas, mais irresponsáveis, mais inconstantes, e mais emocionais. O raciocínio de quem pensa assim é mais ou menos o seguinte: as pessoas vivem debaixo de temperaturas altas toda a vida, e isso frita-lhes as ideias. Enfim, achar que a temperatura é responsável pela definição do carácter de um povo é tão ridículo que chega a ser difícil falar sobre isso. As características gerais de um povo - se é possível, de facto, traçá-las - são definidas ao longo de séculos de História, e influirá mais no tipo de pessoas que os portugueses são, para usar o exemplo de Portugal, o facto de termos uma tradição católica profundamente enraízada, ou o facto de termos sofrido certos acidentes históricos, do que o facto de vivermos à beira-mar, com um clima ameno. O ser humano é uma criatura de hábitos, e as pessoas comportam-se como vêem os outros comportar-se. Se o clima em Portugal mudasse subitamente, e passássemos a ter um clima nórdico, a geração seguinte seria exactamente igual à geração seguinte que viria, caso isso não acontecesse. Quem fala em portugueses, fala noutros povos quaisquer. Se a temperatura, ou a latitude, fossem determinantes, ingleses e irlandeses seriam praticamente iguais.

A ter alguma influência no carácter de um povo, o clima tem uma influência reduzidíssima. Se assim é, menor será ainda essa influência em qualquer manifestação cultural desse povo. O futebol, enquanto manifestação cultural, não foge à regra. O futebol praticado numa determinada região do globo difere do futebol praticado noutra região por várias razões. Primeiro, porque são manifestações culturais de povos diferentes, com culturas diferentes, com preocupações diferentes, com legados históricos diferentes, com estruturas morais diferentes. Depois, e sobretudo por isso, porque o próprio futebol cria uma determinada tradição. Por que é que os italianos são mais defensivos? Porque, enquanto povo, são mais conservadores, mais reservados, mais precavidos? Obviamente que não. Porque, a dada altura, os modelos defensivos italianos começaram a ter sucesso, e criaram escola. A tradição futebolística de um país é talvez o factor mais relevante na definição do tipo de futebol que se pratica num país. Que causa está por trás do futebol de toque da Espanha, nos últimos anos? Um trabalho de fundo que modificou radicalmente a identidade do futebol espanhol, o privilégio pela inteligência e pelo talento. E no Brasil, por que é que no Brasil o jogo é tão "acalorado", há tanta irresponsabilidade táctica, e há tanto jogador talentoso? Não é por causa do calor, que faz com que os jogadores tenham as emoções à flor da pele, assim como é o calor que leva os miúdos para a praia e para as ruas, onde aprendem a jogar? Claro que não. São as condições sociais, a cultura do país, o fundo católico, etc.. Será a irresponsabilidade táctica característica do futebol brasileiro assim tão diferente da irresponsabilidade táctica de outros países sul-americanos? Não é. E o que dizer da irresponsabilidade táctica dos britânicos? É uma irresponsabilidade diferente da dos brasileiros, mas ainda assim é irresponsabilidade. Como explicá-la, se o clima não é "acalorado"? Essencialmente, porque a tradição futebolística na Grã-Bretanha não conheceu praticamente evoluções, nos últimos 50 anos, e porque no futebol (e no desporto, em geral) britânico se tendem a privilegiar atributos atléticos.

Acreditar que a temperatura (e o sol, em particular) determina o tipo de futebol que se pratica num certo país é não perceber nada de futebol, e é não perceber nada de seres humanos. O futebol, como todas as expressões de um povo, reflectem em parte o tecido histórico, cultural, religioso, e social desse povo. Mas, em si, é uma prática isolada, que pode, a qualquer altura, seguir um trajecto completamente distinto, sem qualquer relação directa com esse tecido. Estes dois tipos de factores são aqueles que, a meu ver, melhor explicam as distinções entre os vários tipos de futebol que se praticam pelo mundo. O clima, ou qualquer factor ambiental, não entra em nenhum deles. Não é sequer um factor secundário; não influi sequer na personalidade dos indivíduos que compõem esse povo, quanto mais nas suas práticas. Pode, quando muito, num passado muito remoto, ter ajudado a que determinados povos se dedicassem mais a umas actividades do que a outras, optassem por um determinado estilo de vida e não por outro, e que a personalidade desse povo - que foi sendo criada paulatinamente, ao longo dos tempos - tenha então sofrido inflexões decisivas em determinado período da sua formação por força do clima em que se vivia. Mas isso nem uma influência indirecta é. Se, a partir de agora, começasse a nevar durante todo o ano na península ibérica, e fizesse sol na Islândia, seriam preciso inúmeras gerações, e vários séculos para que os islandeses passassem a ter tradição futebolística, e os portugueses e os espanhóis perdessem a deles. A influência dos factores ambientais é, na melhor das hipóteses, uma influência remota, e só com muita boa vontade é que se consegue aceitar que Diamantino Miranda e outros que, como ele, acreditam em tais disparates, não estejam ainda hospitalizados.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Utilidade Invisível de um Avançado

Para muita gente, o papel de um avançado resume-se a fazer golos, e a avaliação do seu rendimento depende exclusivamente desse factor. Para outros, mais moderados, o avançado deve fazer golos, mas deve também ser capaz de oferecer outras coisas à equipa. Para um terceiro grupo de pessoas, nas quais me incluo, um avançado, como aliás qualquer outro jogador, deve essencialmente ser alguém que oferece coisas à equipa, sendo os golos que marca um mau critério para lhe definir o rendimento sobretudo porque, dependendo do modelo de jogo da equipa, dos companheiros, daquilo que lhe é pedido, etc., tal competência pode não ser o que de mais importante tem para dar. No Real Madrid, por exemplo, acredito que Cristiano Ronaldo tem tendência a render mais quando Benzema joga (em vez de Higuain), pois o tipo de movimentos e de preocupações do francês facilitam as características do português. E isto mesmo durante os largos meses em que Benzema não fazia golos. O rendimento de um avançado, portanto, não pode ser avaliado nem pela quantidade de golos que marca, nem pela quantidade de outras coisas que oferece à equipa, mas pela forma como se enquadra nessa equipa, pela forma como, de acordo com o tipo de coisas que oferece, facilita ou dificulta o rendimento colectivo. É por pensar no rendimento colectivo e só nele que, por norma, avalio rendimentos individuais de modo muito diferente da grande maioria das pessoas. E é por essa razão que, uma vez mais, quero falar de Hélder Postiga.

Tal como nunca achei Benzema um mau finalizador, não acho sequer que Postiga o seja, como o sabe quem acompanha este blogue. Falha tantos golos como qualquer outro avançado de renome, e se não marca mais é essencialmente porque não está tantas vezes como outro tipo de avançados em posição privilegiada para o fazer. Sobre golos, aliás, a sua prestação na selecção sempre desmentiu a teoria de que era perdulário. E, aliás, a sua prestação em Espanha, até ao momento, tem sido boa para calar certas vozes. Recentemente, outra crítica lhe tem sido feita: a de que está constantemente fora-de-jogo. O que é curioso é que não me lembro de alguém criticar isto em Liedson, que era apanhado em fora-de-jogo muito mais vezes do que Postiga, e que era apanhado essencialmente por distracção, ao contrário do português. A meu ver, releva esta crítica essencialmente de dois tipos de coisas: um preconceito generalizado contra o jogador, e a incapacidade de analisar ao pormenor os lances em que tem sido apanhado em fora-de-jogo. Sobre a primeira dessas coisas, é pouco interessante falar. Postiga pertence ao tipo de jogadores sobre os quais as opiniões que se formam dependem de uma opinião pública negativa previamente formada. Como tenho pouca paciência para demover multidões, e como já escrevi o suficiente, no passado, acerca dos equívocos generalizados em relação ao jogador, não vou voltar ao assunto. Sobre a questão do fora-de-jogo, é verdade que Postiga, nos últimos tempos, tem sido apanhado muito mais vezes em fora-de-jogo do que antigamente. Mas é preciso analisar as situações e perceber os porquês dos factos. Tal como, na época passada, passou a rematar mais do que rematava porque Paulo Sérgio, inclusive publicamente, lhe ordenou que o fizesse, modificando-se portanto de maneira a tentar responder às críticas, parece-me que esta situação advém precisamente de uma tentativa de se tornar mais próximo dos golos, de procurar mais certos movimentos nas costas dos defesas, de modo a criar melhores condições de finalização para si. E da mesma forma que não se critica que Inzaghi, em 6 lances, tenha de ser apanhado 5 vezes em fora-de-jogo para poder usufruir de um sexto lance em condições de finalização privilegiadas, acredito que é injusto criticar Postiga pelas mesmas razões. Veja-se o quarto golo frente à Bósnia. Postiga tem arriscado mais certos movimentos, e isso tem feito com que esteja a ser apanhado em fora-de-jogo mais vezes. Mas se calhar também tem tido mais rendimento em termos de golos porque tem arriscado mais esse tipo de movimentos. Por isso, convém que as críticas se decidam. Se gostam de um avançado que faz golos, que joga no limite do fora-de-jogo para poder estar mais perto dos golos, então não podem criticá-lo por estar precisamente a fazer isso. Se não se importam com os golos que um avançado faz, então deixam-no em paz quando não faz golos.

Voltemos bruscamente ao tema do texto, que tem essencialmente a ver com o tipo de coisas que um avançado pode oferecer a uma equipa, mas das quais as pessoas raramente se apercebem. Diz o Filipe Vieira de Sá, para quem o Postiga, pelas acusações praticamente diárias, deve ser presença assídua nos seus pesadelos, o seguinte acerca do avançado da selecção nacional:

"Os avançados são quem tem menor participação no jogo colectivo, o que é normal, mas na Selecção a sua acção não tem conduzido, nem a qualquer ocasião criada, nem tão pouco a um acréscimo positivo na fluidez de jogo. Ou seja, o contributo positivo do ponta de lança, na Selecção, tem-se resumido à finalização, e apenas à finalização."

Para o Filipe, o avançado, no modelo de jogo da selecção, tem pouca participação no jogo colectivo porque as acções sem bola, as movimentações, as acções com bola longe da baliza, e tantos outros pormenores aparentemente irrelevantes, não entram nas contas que faz para atribuir rendimentos individuais. Como discordo disto, e como acho que Ronaldo e Nani têm tudo a ganhar com a utilização de um ponta-de-lança que se preocupe com movimentos interiores, que sirva de apoio vertical aos médios, e que saia da sua posição, arrastando consigo adversários, é natural que tenha uma opinião diferente. O lance que trago, e a interpretação que vou dar do mesmo, têm por fim, essencialmente, mostrar como há mais do que golos, assistências, e coisas vistosas que devem entrar na análise do rendimento de um avançado, tornando ainda claro por que razão é Postiga útil a esta equipa, como o seria a muitas outras, caso houvesse uma percepção melhor das coisas extraordinárias que tem para oferecer.


szólj hozzá: 3-1

Que eu tenha conhecimento, não se elogiou, no lance do terceiro golo da selecção, senão o passe de Moutinho e a conclusão de Ronaldo. De facto, quem vê o jogo, está atento à bola, e é por esses dois jogadores que ela passa até chegar ao fundo das redes. Evidentemente, tanto um como outro, definiram bem a jogada, e são os principais responsáveis pelo lance. Mas, e agora pergunto eu, não haverá quem tenha facilitado que aquilo acontecesse como aconteceu? Isto é, será o mérito apenas dos dois jogadores, ou terá havido alguém que, muito discretamente, sem tocar nem sequer se ter aproximado da bola, tenha permitido à equipa gozar daquela oportunidade? A meu ver, isso é inequívoco. Estou a falar, naturalmente, de Postiga. Quando a bola está a ser disputada no meio-campo, já Postiga, tendo percebido o espaço que havia entre os médios e os defesas bósnios, se disponibilizara, ocupando esse espaço, para vir receber a bola, na eventualidade de um colega ter tempo e espaço para executar o passe na sua direcção. Ao mesmo tempo, inadvertidamente ou não, o seu posicionamento baixo criou hesitação no defesa central que estava mais perto de si. Foi por isso que Ronaldo, ao receber o passe de Moutinho, se isolou de imediato, porque o defesa, hesitando entre dar um passo à frente para apertar Postiga e ficar recuado, vigiando o posicionamento de Ronaldo, acabou por reagir demasiado tarde. Ao se colocar onde se colocou, ao perceber o espaço que deveria ocupar e ao se disponibilizar para o fazer, muito antes de ser evidente que a equipa ia ficar com a bola, Postiga forçou a indecisão do defesa, o que, por sua vez, facultou a Ronaldo o espaço suficiente para arrancar sozinho para a baliza. Se, por outro lado, Postiga tivesse ficado enfiado entre os centrais, se não estivesse interessado naquele espaço, o defesa, até porque tinha a ajuda do outro central, facilmente se teria concentrado apenas em Cristiano Ronaldo, e nunca ficaria para trás apenas com o passe de Moutinho.

Naquilo que Postiga fez, porém, ninguém reparou. Como não tocou na bola, como Moutinho nem sequer olhou para ele, para a grande maioria das pessoas não teve qualquer acção no lance. Para mim, que não vejo as coisas com a mesma linearidade, teve, e teve muita. Não digo que se tenha posicionado com a intenção de dificultar o comportamento ao defesa. Mas, porque estava preocupado com a equipa, com o dar o apoio certo, com a ocupação do espaço certo, naquele momento, acabou por ajudar a equipa, mesmo que o seu posicionamento entre linhas não tenha sido utilizado para fazer passar a bola. A simples colocação correcta em campo de Postiga, naquele momento, permitiu à equipa (sim, à equipa!), que os dois jogadores que intervieram activamente no lance gozassem das condições ideais para criar uma ocasião de golo. E isto, porque é invisível, é para muitas análises uma acção inútil. É por estas e por outras que as análises que estão preocupadas apenas com acções com bola são redutoras. Neste caso específico, sem ter tocado na bola, sem sequer ter estado perto da zona por onde a bola passou, Postiga foi decisivo para o desfecho do lance. De resto, é este um bom exemplo, a meu ver, de como um avançado não precisa de fazer golos, nem precisa de assistir os colegas para que estes façam golos, nem precisa de ganhar bolas de cabeça, nem precisa de ir ao choque com os defesas, nem precisa sequer, cúmulo dos cúmulos, de tocar na bola para ser útil, enquanto avançado, às necessidades da equipa. A utilidade de um avançado, e aliás de qualquer jogador, nem sempre é visível a olho nu, nem se caracteriza por acções evidentes. E é por isso que o rendimento individual não pode ser condignamente avaliado senão tendo em conta toda a utilidade, visível e invísivel, que esse indivíduo tem na obtenção do rendimento colectivo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Contra Argumentos Não Há Factos

"Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica."

Fernando Pessoa, "Crónicas da Vida que Passa",
publicado in O Jornal, a 18 de Abril de 1915.

Vem isto a propósito de mais um esplendoroso exercício de reflexão estatística executado pelo Filipe Vieira de Sá. Pretende o Filipe, de calculadora em punho, demonstrar que o Postiga não presta para nada, e que o Sporting é menos eficaz com ele em campo. E com que critérios pretende ele justificar tal ideia? Um só: a diferença entre os golos marcados pelo Sporting com ele em campo e os golos marcados sem ele. Um só critério! Isto vindo de quem se diz mestre da estatística? É preciso alguma boa-vontade para não rirmos de tal infantilidade. Mas já lá vamos. Conclui assim o Filipe a sua análise: "Apresento apenas os dados, que são factuais, e espero que eles possam contribuir para alguma coisa. Porque deviam." Os dados (que são factuais, como tão bem enfatiza o Filipe) mostram que o Sporting marca mais golos quando o Postiga não joga. E como são factuais - como o Filipe faz questão de frisar - não se pode duvidar de que contenham qualquer verdade. Se os dados são factuais - como o Filipe diz que são - pode-se concluir 1) que o Sporting marca de facto menos golos com o Postiga em campo, 2) que, por marcar menos golos com ele em campo, é menos forte com ele em campo, 3) que, por marcar menos golos com ele em campo, joga pior com ele em campo, e 4) que, por o Sporting marcar menos golos com o Postiga em campo, o Postiga não presta para nada e deveria ser substituído. É esta a linha de raciocínio do Filipe, que não pode estar errada porque se baseia na factualidade - como tão bem nos fez saber.

Comecemos pela citação de Fernando Pessoa. Baseia-se a teoria do Filipe, assim como todas as suas ideias recentes, na premissa de que, "contra factos não há argumentos", ou seja, de que os factos, tais quais se deram, são auto-explicativos e prevalecem sobre qualquer argumentação. Ora, como diz Pessoa, não é assim que o mundo funciona: é precisamente contra factos que há argumentos. Os matemáticos (e os patetas também) levarão as mãos aos cabelos, com tal afirmação. Isto porque vêem o mundo através do papel quadriculado em que fazem contas, e acham que o mundo é universalmente explicado pela matemática. Estão enganados. Os factos, propriamente, não são nada. Não existem factos, se quiserem. O principal erro dos matemáticos é pensar o contrário, é pensar que existe uma coisa empírica que se dá, a que chamam facto, e que a interpretação desse facto acontece posteriormente. Todo o facto é já uma interpretação. E interpretar o mundo matematicamente é só uma maneira de interpretá-lo, não a maneira mais eficaz. Como diz Pessoa, "os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos". O que permite a Pessoa dizê-lo é o critério de verdade utilizado em cada uma destas duas coisas: no caso dos argumentos, o critério de verdade é a lógica; no caso dos factos o critério será outra coisa qualquer, provavelmente a matemática. É por isso que apresentar factos e pressupor a impossibilidade de refutação do que quer que esses factos permitam concluir é uma falácia. Mais uma, de tantas que o Filipe comete. Os factos não têm lógica, e querer concluir o que quer que seja com base numa coisa que não tem lógica parece-me um salto de fé muitíssimo arriscado. Diz o Filipe, noutro texto, o seguinte: "Entendo a avaliação que faço como extremamente sólida por ser baseada em factos de longo prazo". E melhor frase não poderíamos encontrar. A razão pela qual acha o Filipe que as suas avaliações são sólidas é o serem baseadas em factos. Como se viu acima, todas as suas avaliações se baseiam então em coisas ilógicas, coisas que carecem de interpretação e que, por si, não têm conteúdo cognitivo nenhum. Por conseguinte, nenhuma das suas avaliações é sólida, como acredita. Falta-lhe a lógica que só a capacidade argumentativa - coisa que aboliu do seu raciocínio - poderia dar. Sem ela - coitado - é um matemático frustrado a mostrar que sabe fazer contas de dividir.

Passemos agora para aquilo que, concretamente, quer o Filipe demonstrar com este exercício em particular, e preocupemo-nos com o método utilizado, pois é no método que estão todos os equívocos que determinam a natureza equivocada das conclusões. A conclusão final, a de que o Postiga não presta para nada e deve ser substituído para que o Sporting fique mais forte, baseia-se em, pelo menos, dois dogmas: 1) que a quantidade de golos que uma equipa marca é directamente proporcional à sua força global; 2) que há necessariamente uma relação de natureza causal entre a acção de um jogador e o rendimento de uma equipa. Penso que o primeiro dogma não coloca grandes problemas (o próprio Filipe não acreditará nisso, e só terá fechados os olhos a esta objecção evidente por lhe dar jeito para as conclusões que queria tirar), e não vou falar dele. Quanto ao segundo, há coisas a dizer. A grande maioria das opiniões sobre futebol consiste em afirmar que se devia trocar o jogador A pelo jogador B, pois este oferece maior rendimento. Isto não faz sentido de muitas maneiras, mas não faz sentido essencialmente porque não há uma relação causal entre o rendimento individual de um jogador e o rendimento da equipa em que actua. O rendimento de uma equipa não pode ser medido pela soma dos rendimentos individuais, e é perfeitamente possível que, ao substituir um jogador A, com um rendimento individual fraco, um jogador B, que consiga um rendimento individual óptimo, faça com que o rendimento colectivo decresça. Permitam-me o seguinte exemplo: o rendimento individual do Ronaldo, em Madrid, é brilhante. E o rendimento colectivo do Real é maior com ele em campo. Mas transfira-se o Ronaldo para Barcelona e o seu rendimento individual chocará necessariamente com os interesses colectivos. Em Barcelona, imaginando que lhe dariam a liberdade para fazer o que faz em Madrid, Ronaldo manteria um rendimento individual altíssimo, contribuiria até individualmente para parte do rendimento do Barcelona, mas prejudicaria, no limite, o rendimento da equipa, porque lhe modificaria certas particularidades. A optimização do rendimento colectivo não depende da optimização do rendimento individual de cada uma das unidades que compõem o colectivo, mas sim da adequação do que cada uma dessas unidades faz aos interesses colectivos. É isto, essencialmente, que continua a não entrar nas cabeças das pessoas que acham que falam "colectivamente" de futebol.

Transpondo para o caso concreto do Postiga, o equívoco do Filipe está em presumir que um jogador transforma a sua qualidade individual em rendimento colectivo qualquer que seja o ambiente. Se o Postiga tem características complemente incompatíveis com as coisas que o colectivo privilegia, é natural que o rendimento do colectivo seja superior quando, em vez do Postiga, jogar alguém que se enquadra melhor naquilo que o colectivo faz. Isso não significa que esse seja melhor jogador, nem significa, sequer, que seja melhor para o colectivo cujo rendimento ajuda a melhorar. O Postiga pode fazer tudo bem feito, pode fazer coisas complicadíssimas, que poucos têm qualidade para fazer, mas, se a equipa não fizer uso dessas coisas, nada do rendimento colectivo será afectado por isso. Por exemplo, o Postiga ganha a bola no meio de dois adversários, tem um trabalho desgraçado a segurá-la, espera por colegas e entrega de frente no médio. Se o médio, a seguir, jogar longo a solicitar a entrada de um extremo e a jogada se perder, todo o trabalho do Postiga, bom ou mau, acabou por não contribuir para nada. Se calhar, nesse caso específico, em vez de ter alguém que fosse capaz de fazer o que Postiga fez, seria melhor ter um avançado que saltasse apenas à bola e que, sem se desgastar a protegê-la e a esperar pelos colegas, fosse imediatamente para a área. No caso de uma equipa que não priviligie o tipo de coisas em que o Postiga pode contribuir, não me faz confusão que o Postiga não seja o avançado que mais contribui para o rendimento colectivo. O problema, porém, é pensar que quem está mal é o Postiga. Se o Sporting pratica um futebol de equipa pequena, se não procura combinações curtas, se não faz um jogo de posse e circulação, se insiste em cruzar de longe para a área, se procura um futebol mais objectivo, é natural que um jogador de equipa grande, que é forte sobretudo a fornecer à equipa condições para jogar como uma equipa grande, não contribua significativamente para o rendimento dessa equipa. Mas - repito - o mal está na equipa, não no jogador. Resumindo, consiste o segundo dogma em presumir que, quando um jogador é bom, é bom em qualquer equipa, em qualquer modelo, com quaisquer tarefas, e que contribui necessariamente para o rendimento da equipa. Como é óbvio, não é assim que as coisas funcionam.

Depois de demonstrado o carácter dogmático da análise do Filipe (ele que tanto se diz contra os dogmatismos), vou agora enumerar os vários problemas metodológicos que se podem registar neste caso concreto. 1) Os 5 jogadores comparados são Cardozo, Lisandro, Liedson, Falcao e Postiga. Os primeiros 4 foram titulares indiscutíveis desde que chegaram a Portugal; Postiga, no Sporting, foi-o apenas na época passada. Os outros 4 jogaram quase sempre os 90 minutos; Postiga, mesmo quando titular, foi substituído bastantes vezes. Seria bem mais interessante e honesto fazer as continhas utilizando os minutos em que os jogadores estiveram em campo, e não os jogos em que foram utilizados. Apesar de tudo isto, o Filipe faz uso das três épocas em que Postiga esteve no Sporting. E ainda tem moral para dizer que as coisas que apresenta são factuais? É uma factualidade, no mínimo, muito duvidosa. Se calhar, mais de metade dos 68 jogos que o Filipe diz que o Postiga jogou jogou-os apenas parcialmente. 2) O segundo problema deriva do primeiro: pela inconsistência da utilização não se pode aferir nada. Nas primeiras duas épocas, Postiga era tão criticado e jogava tão pouco que, quando jogava, dificilmente podia render ao máximo. Mais uma vez, utilizar épocas em que o jogador, por factores extrínsecos à sua qualidade, não estava no seu melhor, comparando-o com 4 jogadores que nunca tiveram esse tipo de problemas, é no mínimo injusto. 3) Uma coisa que gostava que o Filipe fizesse com a sua calculadora especial era as mesmas continhas, mas em jogos da selecção. Será que Postiga, num ambiente diferente, num ambiente que, pelo menos com Paulo Bento, arriscaria dizer que lhe é mais favorável, continuava a ser um jogador que prejudicasse o rendimento da equipa? Tenho as minhas sérias dúvidas. 4) Nos resultados obtidos, o Filipe justifica o facto de o Porto render menos com Falcao do que sem ele com a pouca consistência dos 10 jogos em que ele não jogou. Eu entendo e aceito a justificação. Mas por que é que não se lembrou, de igual modo, o Filipe de justificar os resultados do Postiga com a pouca consistência dos jogos das duas primeiras épocas? Porque, uma vez mais, lhe dava jeito que não o fizesse. A inconsistência dos objectos de análise depende por isso da honestidade intelectual do Filipe, que é pouca.

Para terminar, e porque o texto já vai longo, queria voltar à ideia de Pessoa de que os factos não interessam para nada, e que são os argumentos que devem ser respeitados. Além de ter ficado evidente que o método usado pelo Filipe para o apuramento de factos carece de precisão, ficou também demonstrado - e bem demonstrado - que as suas conclusões dependem de premissas que o próprio não justifica. Os argumentos, ao contrário dos factos, ajudam a perceber como é que as coisas se passam e por que é que se atingem determinadas conclusões. Por ignorar os argumentos, e só dar atenção a factos, não percebeu o Filipe a natureza ilógica daquilo que estava a fazer. Sem a lógica dos argumentos, o seu raciocínio ilógico invariavelmente o conduz para conclusões precipitadas. Neste caso, o principal erro esteve em presumir que o rendimento colectivo ajuda a perceber rendimentos individuais. Noutros casos, erros parecidos ocorrerão.

Sobre a forma como o Filipe conduz discussões, tenho também algumas coisas a dizer. Ao contrário do Filipe, que prefere as bicadas subtis, sem outra justificação que não a tentativa de ridicularização, a minha intenção não é contestar a proposta dele através da troça, mas através da discussão. Ao contrário do Filipe, a quem interessa apenas a sua perspectiva, valorizo acima de tudo a troca de ideias. É por isso que, ao contrário do Filipe, cito as ideias dele, rebatendo-as com as minhas; é por isso também que nunca fugi a uma discussão, nem recusei comentários. Consiste o método de discussão do Filipe em apresentar contas de matemática para mostrar como tudo o que não tenha matemática é falso. E ainda diz que não é um rapaz dogmático! Está certo. O meu método é diferente: consiste em mostrar, pela lógica, que certos argumentos fazem mais sentido que outros. Por outras palavras, os interesses do Filipe são religiosos: pretende vender uma certa fé, partindo, como parte qualquer religião, de determinados dogmas que carecem de prova. A minha posição é distinta. O único dogma é não haver dogmas. Os meus interesses, se não científicos, são intelectuais. Não defendo o que defendo porque sim; defendo-o por isto ou por aquilo, consoante o argumento. O Filipe defende o que defende porque os números - a suprema divindade da religião a que dá corpo - lhe dizem que tem de defendê-lo, mais ou menos como um cristão defende o Cristianismo porque um livro grosso contém a palavra divina e é sacrilégio duvidar dela. As matematiquices do Filipe fazem dele, portanto, um fundamentalista. Como todos os fundamentalistas, parece uma pessoa honesta e liberal, desde que não discordem da sua fé, fé essa que, no seu caso, é a matemática.

domingo, 14 de agosto de 2011

O Futebol e a Falácia da Selecção Natural

Num recente artigo no Letra 1, espaço que me parece ter bastante qualidade e que aproveito para publicitar, argumenta Filipe Vieira de Sá, com base numa analogia que, apesar de interessante, carece de justificação, que o futebol, tal como o jogo da evolução das espécies, não converge para um ideal de perfeição. O que pretende, ao argumentá-lo, é defender a ideia de que, em futebol, não há uma fórmula que garanta o sucesso, e que esse sucesso depende, isso sim, da capacidade adaptativa da "espécie" ao "meio", sendo por isso natural que à "espécie dominante" de hoje se suceda amanhã outra "espécie dominante", melhor adaptada. Como é sabido, até porque escrevi coisas nesse sentido muito antes de o Barcelona de Guardiola ser a "espécie dominante" que é hoje, o tema interessa-me muitíssimo, e sustento uma opinião contrária à do Filipe. De um modo muito resumido, que espero sustentar melhor daqui para a frente, entendo o Barcelona de Guardiola como um salto evolutivo gigantesco (coisa de que falei aqui) e, em muitos aspectos, decisivo. Contra esta ideia, defenderia o Filipe, se bem lhe entendo o argumento, que não existem, em futebol, saltos evolutivos decisivos, e que aquilo que a "espécie dominante" faz hoje define o "meio" ao qual quem vem atrás deverá adaptar-se, superando-o.

Importa, em primeiro lugar, referir que não creio que exista perfeição, nem fórmula que garanta sucesso continuado. Acredito, porém, que existem maneiras melhores de jogar do que outras, maneiras que garantam mais vezes o sucesso, e que o modelo futebolístico posto em prática pelo Barcelona ultrapassa, em qualidade, tudo o que foi feito antes. Penso assim por uma razão simples, porque o futebol é um jogo e, como qualquer jogo, possui um conjunto de regras que lhe limita as possibilidades. O jogo do galo, para dar o exemplo de um jogo simples, cujo conjunto de regras impõe limites óbvios, acaba invariavelmente empatado, sempre que jogado por dois jogadores minimamente conscientes das possibilidades ao seu dispor. Há jogos, obviamente, mais complexos (sendo o futebol um caso evidente), jogos em que as possibilidades são muito maiores, mas, no limite, passa-se o mesmo. Todo o conjunto de regras fixo, que é aquilo em que consiste, por definição, qualquer jogo, é um "meio" ao qual se adaptam melhor os que possuírem as características mais adequadas ao conjunto de regras com que se define esse "meio".

O que, em primeira instância, trai o raciocínio ao Filipe é que o "jogo" da evolução das espécies não esteve, ou não está, ao contrário de um jogo como o futebol, sujeito a um conjunto de regras fixas, e que é isso, no limite, que permite afirmar que não há perfeição que sirva de critério. Aliás, ao contrário do futebol, em que se foram descobrindo formas melhores de se contrariarem as imposições do "meio", e em que as "espécies dominantes" se sucederam por desenvolverem, por reacção ao meio, características mais adequadas ao conjunto predefinido de regras do meio (houve poucas alterações significativas às regras, ao longo da História do Jogo), no jogo da evolução das espécies são, por norma, as alterações no meio, ou seja, as alterações nas "regras do jogo", que ditam a melhor adequação de um certo conjunto de genes a esse meio. Para fornecer disto ilustração, recorro ao exemplo clássico das borboletas brancas antes da industrialização em Manchester. A borboleta de cor branca, que predominava naquela zona antes da industrialização, deu lugar, em menos de um século, ao predomínio de uma espécie de cor negra não por esta ter vencido a batalha da evolução, mas porque o meio o impôs. O que se passou foi que, antes da industrialização, a borboleta branca predominava por estar melhor "adaptada" às imposições do meio, por se confundir melhor com a vegetação da zona, assim escapando mais facilmente aos predadores. Mudando o meio, mudou-se também a facilidade que estas borboletas tinham para escapar aos predadores. Com a fuligem e a rápida mutação da cor da vegetação local, a borboleta negra passou a ter melhores características para escapar à predação e, ao fim de algumas gerações, passou a ser a espécie dominante. O que este caso evidencia é que, no que diz respeito à luta pela sobrevivência, são essencialmente as mutações no meio que determinam a sucessão das espécies. Aliás, é por isso que se chama "selecção natural", por as espécies que sobrevivem serem seleccionadas naturalmente, pelas contingências do meio, pelo Acaso. No que diz, portanto, respeito ao jogo da evolução das espécies, não se pode dizer que exista mérito evolutivo, pois a evolução depende integralmente das condicionantes exteriores. Tal não é o caso do futebol, em que a evolução se fez principalmente por as espécies terem modificado a maneira como reagiam às condicionantes exteriores que, salvo raras excepções, permaneceram inalteradas.

A analogia utilizada pelo Filipe é, assim, falaciosa. E é-o simplesmente porque um jogo como o futebol não está sujeito à inconstância regulativa a que o jogo da evolução esteve. Há, todavia, usos interessantes a fazer dessa analogia. Quando Darwin chegou às Galápagos, descobriu que a fauna e a flora das ilhas era radicalmente diferente de tudo o que conhecia. Isto permitiu-lhe conjecturar que o isolamento insular determinara um jogo evolutivo totalmente distinto do que se passara noutras zonas do globo. Ou seja, num meio com regras diferentes, princípios evolutivos diferentes. Encontrou ali espécies que não existiam em nenhum outro local simplesmente porque o meio lhes permitira a subsistência. O que quero sugerir com este exemplo é que, mesmo no mundo natural, se o meio for relativamente inalterável, há a tendência para certas espécies subsistirem ininterruptamente. A conclusão óbvia a tirar é a de que, se as espécies que melhor se adaptam às características de um meio tiverem a possibilidade de permanecer nesse meio, sem que haja alterações no sistema de regras do mesmo, a tendência é o domínio dessas espécies não mais ser posto em causa.

Além de tudo isto, parece esquecer-se o argumento do Filipe de que há uma espécie que venceu já o jogo da evolução das espécies: o homem. E não só o venceu como já nem sequer o joga. De tal modo a vitória foi clara que é a única espécie que está livre das imposições do meio. É evidente que o homem não é uma criatura perfeita, e que teria dificuldades em sobreviver em determinados habitats, mas é a criatura que melhores características reuniu para fazer face às características gerais do meio em que habita e que controla plenamente: o planeta. A lei do mais forte e a selecção natural deixaram de se aplicar ao homem há muito tempo, e a menos que se dê uma mudança radical no meio, um cataclismo qualquer que destrua os pilares civilizacionais em que nos constituímos, não me parece crível que o homem venha algum dia a perder o estatuto de espécie dominante. O argumento que estou a fazer consiste em afirmar que não é preciso ser perfeito, no sentido utópico da palavra, para se vencer definitivamente o jogo da evolução; basta possuir as características - ou construi-las - que melhor se adequam às imposições do meio. No caso do homem, esse jogo começou a ser ganho no momento em que se começou a civilizar. Civilizar-se, aliás, significa precisamente desobedecer à lei do mais forte. Assim, ao desobedecer à mais profunda lei da natureza, adaptou-se o homem o melhor possível ao conjunto de regras que constitui o meio em que habita, e não mais ficou sujeito à dança da sucessão de espécies dominantes. Pode dizer-se, inclusivamente, que o homem não é sequer a espécie dominante do planeta, mas a espécie vencedora. Seria "dominante" se fosse aquela que, temporariamente, melhor se adapta ao meio. Mas, neste momento, é muito mais do que isso: é aquela que controla o meio e que dita as regras do jogo.

Deixem-me agora recuperar o argumento do Filipe acerca da sucessão de "espécies dominantes" em futebol, para mostrar como o argumento "mete a pata na poça" e torna clara a falácia a que se oferece. Segundo o Filipe, o que se passa em futebol é que o "meio" é definido por aquilo que fazem as "espécies dominantes", e que as restantes espécies se adaptam não ao conjunto de regras de que estão rodeadas, mas sim às características evolutivas da "espécie dominante". Segundo, portanto, o Filipe, a evolução em futebol depende de reacções não ao meio, mas às espécies que habitam o meio. Não é assim que funciona o jogo evolutivo das espécies, e, como tal, toda a sustentabilidade do argumento, que consiste na analogia com a teoria da "selecção natural", se desmorona. Parece-me, porém, que boa parte da confusão do argumento consiste em confundir a teoria geral da selecção natural com a luta particular que se dá no interior de um organismo, entre um hospedeiro e um parasita. É que, a dada altura do seu texto, dá o Filipe a entender que as restantes espécies, para sucederem ao domínio catalão actual, precisam agora de vacinar-se contra a doença viral que é o Barcelona. E, de repente, aquilo que era uma teoria simpática e promissora, consistindo numa analogia com a teoria da selecção natural, passa a ser uma coisa esquisita que consiste em aproximar a espécie dominante numa determinada altura da História do Futebol de um vírus para o qual ainda não se formaram anticorpos que o debelem. No final do seu texto, portanto, a teoria da sucessão das espécies dominantes em futebol é fundamentalmente uma analogia com a relação entre organismos hospedeiros e organismos parasitários: a vacina que debela a "espécie dominante" do vírus sucede ao vírus; gerações depois, tendo certas espécies secundárias do vírus sobrevivido ao ataque da vacina, um novo vírus volta a suceder à vacina; nova vacina, consistindo agora em anticorpos contra este novo vírus, volta a suceder ao vírus; e por aí em diante. O artigo, principiando com uma premissa que, como demonstrei, é falaciosa, acaba pois a falar de uma coisa completamente diferente, embora igualmente falaciosa, como adiante tornarei claro.

Como organismos parasitários que são, os vírus precisam de organismos hospedeiros que lhes suportem a existência. Ainda que, aparentemente, estejam em competição com eles, não é verdade que façam parte do mesmo jogo a que os outros estão entregues. Os vírus não são espécies que compitam com outras espécies, que façam parte da luta entre espécies da qual só as mais adaptadas ao meio saem vencedoras; os vírus são, isso sim, parte das imposições do meio. Podem, eventualmente, destruir uma espécie ou, pelo menos, contribuir para que perca o seu estatuto de espécie dominante, mas nunca poderão usurpar-lhe o trono, pois dependem dela. Na luta pela sobrevivência, um vírus, embora sendo um organismo vivo, funciona mais como um factor externo (como a falta de alimento, a temperatura, etc.) do que como uma espécie que compete directamente com aquela que ataca. Neste sentido, a luta entre um hospedeiro e um parasita, que é aquilo que, no entender do Filipe, caracteriza a evolução em futebol, é completamente distinta da luta entre espécies pelo estatuto de "espécie dominante". Já demonstrei acima como a primeira analogia era falaciosa, como não funcionava comparar o que se passa em futebol com o que se passa no jogo da evolução. Se, por outro lado, pretender o argumento do Filipe defender-se com a analogia dos vírus e das vacinas, pior ainda. Os vírus não têm interesses evolutivos idênticos às outras espécies; a sua existência depende necessariamente da existência de espécies que lhes são superiores. Por aqui se percebe que o argumento não tem ponta por onde se lhe pegar.

Resumindo, a analogia de que o Filipe faz uso, entre futebol e evolução, tem vários problemas. O primeiro problema é que são jogos diferentes, consistindo o primeiro num jogo com regras fixas, enquanto o segundo é um jogo de regras variáveis. O segundo problema é ignorar que, no jogo da evolução, é o meio que estipula a evolução e a sucessão de espécies, e que não há propriamente adaptação, no sentido preciso do termo; no futebol, não: são as espécies que aprendem a adaptar-se ao meio em que habitam. Em terceiro lugar, há o problema de não perceber que, fixando-se um determinado conjunto de regras durante um determinado período de tempo, num determinado meio com várias espécies, a tendência é surgir uma espécie dominante, que é aquela que nasce com as características que mais se adequem às características fixas do meio. O quarto problema consiste em esquecer, talvez deliberadamente, que houve uma espécie que venceu já o jogo da evolução, espécie essa que já nem sequer está sujeita à variabilidade das características do meio, tal é o seu domínio. O quinto problema é a confusão entre luta entre espécies e luta entre hospedeiros e parasitas, que são coisas diferentes, obedecendo a contingências diferentes. Com tantos problemas, a coisa mais simpática que se pode fazer é condescender, dizendo que a analogia não funciona e o argumento não é bom.

Aquilo em que o Filipe crê, muito teoricamente, é que não há modos melhores do que outros de jogar futebol. O argumento que usa para justificar essa crença é, como se viu, altamente falacioso. Por conseguinte, não justifica coisa nenhuma. Só o faria se o futebol fosse, tal como o jogo da evolução, um jogo de regras flutuantes, que mudassem consoante as marés. Como não é, a comparação entre as duas coisas é um artifício falso e barato, que não serve de grande coisa. Por aqui se percebe que a sua crença, sem um argumento a sério que a justifique, não passa de uma crença tola, como qualquer crença que se possa ter, por mais absurda que seja. Crê nisto, portanto, o Filipe religiosamente, que é a única maneira de crer numa coisa que não faz sentido nenhum. O futebol é um jogo e, como qualquer outro jogo, por mais complexo que seja, tem necessariamente de possuir maneiras de se jogar melhor. O xadrez é um jogo igualmente complexo e, actualmente, evoluiu até um ponto em que os melhores jogadores têm uma vantagem quase decisiva por começarem o jogo com as brancas. Aliás, a própria ideia de evolução implica melhorar de algum modo: evolui a criatura que melhora a sua relação com o meio em que se predispõe a evoluir. Toda a História do Futebol é uma história de evolução neste sentido. Não é lícito afirmar, apenas porque sempre houve, até aqui, maneiras melhores de se jogar o jogo do que maneiras anteriores, que continuem a haver, ad eternum, formas de melhorar que se oponham a formas anteriores. O futebol constitui-se por um sistema rígido de regras (ao contrário do que acontece, por exemplo, em arte), e a tendência é, por isso, para que a evolução tenha um limite. De resto, nada disto implica, como é óbvio, que formas piores de jogar o jogo não possam vencer, pontualmente, formas melhores. Mas formas melhores ganharão mais vezes: e é esse o ponto de tudo isto.

Por fim, e já que se falou bastante de espécies dominantes, talvez fosse bom que certas pessoas percebessem que as espécies dominantes dos que falam de futebol não são aquelas que vêem mais jogos, nem aquelas que comentam mais jogos, nem aquelas que fazem mais continhas de algibeira, nem aquelas que apagam mais comentários, mas sim as que melhor desenvolvem as capacidades críticas, naturalmente adequadas ao seu objecto de estudo, que lhes permitam o domínio. Isso faz-se, mais do que perdendo tempo com asneiras do tipo das que falei acima, cultivando o espírito crítico, treinando as competências argumentativas, aceitando o desafio de discussões teóricas, etc. Sem isto, e por mais minúcia que se ponha em tudo o resto, não passará quem o faz de um coitadinho a quem muito se aplaude o esforço para memorizar a matéria que sai no teste, de modo a transitar de ano e a continuar a sua sofrida sobrevivência até ao fim da escolaridade obrigatória, repousando depois.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entrevista

Um amigo jornalista que começou a visitar com frequência blogues de futebol nos últimos tempos, perfilhando a ideia inteligente de que a utilidade de qualquer discussão se baseia na troca de argumentos, perguntou-me outro dia o porquê das recentes hostilidades entre o Filipe do Jogo Directo e eu. Segundo ele, reproduzindo ideias que outras pessoas já expressaram, o debate sobre futebol tem a ganhar com as discussões que nós temos e seria interessante mantê-las. Disse-lhe que os argumentos são a maior arma numa discussão e que há pessoas que assumem posições fáceis quando os argumentos as conduzem para becos sem saída. Como ele não percebeu o que eu queria dizer, iniciou uma conversa que, pelo vício da sua profissão, aqui reproduzo em forma de entrevista. Para o distinguir, chamemos-lhe Rei de Copas.

Rei de Copas: É verdade que o Filipe te censurou comentários por não lhe "agradar a conversa", como se costuma dizer?

Nuno: Só ele poderá responder a essa pergunta. Isto é, só ele poderá dizer qual a razão pela qual censurou um comentário, mas não consigo encontrar explicação melhor.

Rei de Copas: E em que consistiam os comentários censurados?

Nuno: Era a conclusão de uma conversa - mais uma - sobre o método de análise que ele recentemente adoptou para aferir rendimentos individuais. Estávamos a falar do Maniche e sugeri, como cenário hipotético, uma análise feita ao jogo do Mascherano contra o Bétis, para a Taça do Rei. Nesse jogo, o Mascherano esteve impecável em termos de passe e teve certamente uma percentagem de passes completados na ordem dos 80%, no mínimo. Teci dois argumentos para defender que os números do Mascherano não implicavam que tivesse feito uma boa partida. O primeiro consistia em dizer que percentagem de passes completados não traduz, de maneira nenhuma, o rendimento de um jogador em termos de passe, seja ele quem for, pois não nos informa se a opção de passe foi a melhor em cada situação. Acha o Filipe - e esse é apenas um dos erros do seu método que aponto - que a percentagem de passes completados indica, com um grau elevado de precisão, o rendimento de um jogador da linha média. Aliás, é essa a principal razão para gabar sucessivamente as exibições do Maniche. Ele pensa assim porque acha que a exibição de um médio depende em muito da sua capacidade de dar seguimento aos lances que lhe passam pelos pés. Por trás dessa ideia, está outra que consiste em pensar que um jogador que consiga endereçar a bola a um colega, seja ele qual for e esteja ele em que condições estiver, beneficia a equipa em termos de posse e circulação de bola. Ora, isto não faz sentido.

Rei de Copas: Não sei se estás a ser muito claro. Então achas que a posse de bola depende de mais coisas do que da capacidade de preservá-la?

Nuno: Sim. Para muita gente, manter a posse de bola depende da capacidade de conservá-la. Discordo inteiramente disto. Acho que, em futebol, a posse de bola tem duas componentes: a componente de conservação e a componente de risco, chamemos-lhe assim. Um central, por exemplo, quando sai a jogador tem invariavelmente duas ou três opções fáceis. Se optar por nunca arriscar um passe mais vertical, se jogar sempre com o colega do centro da defesa, ou com o lateral do seu lado, falhará pouquíssimos passes. O mesmo acontece num médio. Um médio que opte por jogar para o lado ou para trás participará com qualidade na posse de bola da equipa, mas apenas na sua componente de conservação. Ora, há alturas em que a melhor opção é um passe para a frente, ou para uma zona mais povoada, ou para um colega com menos espaço para jogar. Às vezes, em situações específicas, o ideal é procurar um apoio frontal, procurar chamar o adversário, procurar invadir espaços curtos. Isto comporta riscos que não se coadunam com a componente de conservação da posse de bola, mas riscos que são necessários se, com efeito, se quer fazer da posse de bola algo mais do que mantê-la. Aliás, a única função da componente de conservação é criar condições ideais para que a componente de risco seja assumida.

Rei de Copas: Então, nesse caso, o rendimento de um jogador de meio-campo depende da forma como avalia cada situação e da opção entre conservar ou arriscar?

Nuno: Não. A sua qualidade em posse depende disso, mas o rendimento de um jogador depende de muitas outras coisas. É por isso que o método do Filipe é altamente redutor. E, por ser altamente redutor, é altamente falacioso.

Rei de Copas: Nesse caso, a sua avaliação do rendimento do Maniche está errada de duas maneiras. Está errada porque se reduz a um elemento do jogo e está errada porque não interpreta sequer correctamente esse elemento. É isto?

Nuno: Sim. Para ele, o rendimento do Maniche é bom porque ele completa muitos passes. Isto não indica nada senão que ele completa muitos passes. Não indica se cada um desses passes correspondeu à melhor opção em cada momento, porque isso só a observação empírica e a análise descritiva de cada lance podem perceber. Além de reduzir o rendimento do jogador àquilo que ele faz com bola. É aqui que entra o segundo argumento que utilizei. O exemplo do Mascherano não foi inocente. Utilizei-o porque ele, apesar de ter estado impecável em termos de percentagem de passes completados, fez um jogo abominável. Como já referi, mesmo com bola, não fez um jogo extraordinário, ainda que não tenha comprometido. Mas sem bola foi absurdo. Posicionalmente, esteve uma lástima. Não só teve culpa em dois golos sofridos, como esteve invariavelmente mal colocado: pressionava à frente dos avançados, ia atrás de jogadores adversários em vez de estar preocupado com a posição relativamente aos colegas, não fornecia coberturas nem apoios recuados, estava permanentemente desconcentrado, fazia faltas desnecessárias, etc. Ora, isto a análise numérica do Filipe não contempla, porque não há maneira de transformar comportamentos em números. E não contemplar isto é perder de vista algo muito importante. A exibição do Mascherano foi horrível, mas, usando o método de análise do Filipe, teria sido bastante boa.

Rei de Copas: E foi essa sugestão que despoletou a hostilidade?

Nuno: Assim parece. A primeira reacção foi defender-se com ironia, acusando-me de estar a afirmar que ele tinha feito uma avaliação ao Mascherano que, na verdade, não tinha acontecido. A acusação é tão idiota que, vindo de uma pessoa inteligente, significa apenas que não tinha outra maneira de defender o seu argumento. Reforcei a ideia de que aquele era um cenário hipotético, de que era eu quem estava a criar o cenário hipotético, e de que a minha intenção era criticar o método e não a análise, pois essa análise não tinha ocorrido. E ele insistiu com a ideia tola de que eu estava a fazer declarações falsas e a pôr palavras na boca dele. Foi aí que se lembrou de dizer que se iria tornar mais activo na moderação de comentários, alegando que a inteligência das pessoas que visitam o Jogo Directo ficaria a ganhar com a censura das minhas mentiras.

Rei de Copas: E achas que essa foi uma estratégia de evasão?

Nuno: Evidentemente. Aliás, o truque não é novo. Já não é a primeira vez que a sua estratégia argumentativa se reduz à tentativa de defesa através do desmentido. Muitas vezes, quando discutimos, a conversa acaba com ele a afirmar que eu estou a pôr palavras falsas na sua boca e que não estou a compreender o que ele está a dizer. Considero-o uma pessoa inteligente, mas este tipo de truque era escusado. Fá-lo porque não lhe interessa continuar a discussão e quando sente que não tem ou não lhe apetece pensar em argumentos. Desta vez, só foi um pouco mais longe e, depois de insistir no truque do costume de dizer que eu estava a inventar coisas que ele não tinha dito (coisa que eu próprio assumi desde o início e que fiz questão de salientar), decidiu acabar a conversa ameaçando censurar o comentário seguinte, assim como todos os que, daqui para a frente, não lhe interessassem.

Rei de Copas: E o que lhe dizias no comentário censurado?

Nuno: Repeti que não estava a inventar coisas que ele não dissera, mas antes a utilizar o seu método de análise para avaliar eu o rendimento de um jogador. Insisti que estava a criticar o método e não a criticar a sua análise, pois ele não a fizera. E disse-lhe, por fim, que, apesar de a opção da censura ser obviamente um direito seu, não deveria justificá-la com a inteligência dos seus leitores, pois os seus leitores, se fossem de facto inteligentes, facilmente percebiam que eu não estava a inventar coisas que ele não tinha dito, como ele alegava.

Rei de Copas: Achas então que a censura não se deveu à necessidade de proteger a inteligência dos seus leitores e a sua honestidade?

Nuno: Isso é evidente. Qualquer pessoa o percebe.

Rei de Copas: Deveu-se a quê, então?

Nuno: À incapacidade de argumentar. Tenho insistido bastante com as limitações do método e ele até assume essas limitações. Mas como quer defender a utilidade do método, tem de ignorar essas limitações. Quando fica incapacitado de defender essa utilidade, perante a evidência da falácia em que consiste, não tem outra solução senão recorrer a estratégias fáceis, como seja aquela de dizer que eu invento coisas que ele não disse, ou a menos honrada de censurar o comentário.

Rei de Copas: Sentes-te de algum modo atingido por não te permitirem contra-argumentar?

Nuno: Não. Não sou pessoa de ficar afectada com golpes baixos. A indignidade atinge apenas aqueles que a praticam. Acho que quem perde alguma coisa com a recusa do debate são as pessoas que o acham interessante e ele próprio, que poderia evoluir com as críticas. Ele, no entanto, entende as minhas críticas como um ataque inútil. E é isso com o qual não concordo. Concordo que seja um ataque e até concordo que seja provocador. Aquilo com que não concordo é com a sua inutilidade. A minha capacidade argumentativa, como a capacidade argumentativa de qualquer pessoa, constrói-se com o treino a que se é submetido pelos ataques que nos fazem. Eu, ao contrário da grande maioria das pessoas, gosto que ataquem as minhas ideias, sobretudo se os argumentos com que o fazem forem fortes. É com a força dos argumentos contrários que o meu pensamento e as minhas ideias evoluem. E quanto mais frontal, desde que honesto, for o ataque, melhor. É isto que ele não entende. É que, apesar da frontalidade, da provocação, da ofensiva do ataque, trata-se de um ataque honesto, isto é, fundado em argumentos. E ele teria muito a ganhar se optasse por contra-argumentar, em vez de fugir à argumentação. Mas são opções. Como é opção dele, de há uns tempos para cá, deixar cada vez mais que as suas análises sejam influenciadas pelos números e menos pela interpretação.

Rei de Copas: Achas, portanto, que as análises feitas no Jogo Directo têm menos interesse, hoje em dia, do que tinham?

Nuno: Acho que são mais redutoras. O Filipe pensa que progrediu, ao ter números a suportar as suas análises. Mas está enganado. É que, apesar de poder falar com mais conhecimento de causa em relação a certas coisas - e isso é um facto - perdeu de vista coisas importantes.

Rei de Copas: E que coisas importantes foram essas?

Nuno: Ao basear a sua análise em números, talvez tenha arranjado maneira de comprovar que um certo jogador é forte num determinado aspecto do jogo e fraco noutro, mas deixou-se levar por uma tendência de análise que consiste em entender o rendimento de um jogador como uma soma de atributos. Para ele, o rendimento é igual ao somatório dos vários aspectos do jogo. Com isto, perdeu de vista algo muito mais importante, que tem que ver com a relação entre cada um desses aspectos. O rendimento do Maniche é obtido através da soma de percentagem de passes completados, desequilíbrios ofensivos, perdas de bola, recuperações, remates, etc. De fora desta história ficam várias coisas. À cabeça, coisas que se fazem sem bola: posicionamento, movimentação, desmarcação, capacidade de fornecimento de apoios. Mas fica de fora também a tomada de decisão, que em futebol vale mais do que o efeito de cada decisão. O Filipe contabiliza factos, quando na verdade deveria contabilizar intenções. É por isso que a adopção do método o afastou do que verdadeiramente importa. Compenetrado com os números, perdeu de vista coisas muito mais importantes.

Rei de Copas: É esse o teu argumento contra as estatísticas, em geral?

Nuno: Em parte, sim. O problema de deixar que as estatísticas expliquem os fenómenos, numa coisa que depende de intenções, como é o caso do futebol, é que normalmente explicam apenas os resultados e não as tendências que conduziram a esses resultados. Explicar rendimentos através de factos seria o mesmo que explicar a qualidade de uma obra de arte pelo número de pessoas que visitou a galeria em que ela se encontra exposta. A qualidade da arte não depende de coisas contáveis, não por ser arte, mas por ser qualidade. Não depende da opinião das pessoas, não depende da perfeição técnica, não depende do domínio do medium, não depende de nada que seja mensurável. Não existe, em arte, uma pedra de toque através da qual se possa aferir a qualidade de uma coisa. Depende, isso sim, da potencialidade descritiva da obra, das ideias do autor, do interesse dessas ideias, etc. Em futebol, passa-se o mesmo. Não existe uma pedra de toque com que possamos contabilizar a qualidade com que um jogo foi jogado. Ao criar um método que pretende eliminar parte da análise descritiva, um método que, não sendo assumidamente perfeito, tem a pretensão de aproximar a análise da verdade, o Filipe está a tentar inventar uma pedra de toque através da qual possa medir, com maior ou menor grau de erro, uma coisa que não é mensurável por natureza. O que o método dele pretende é eliminar a análise descritiva e transformar números em evidências. Isto, em futebol, é altamente falacioso. A sua formação matemática diz-lhe que a estatística ajuda a perceber melhor tendências. O que ele não entende é que os fenómenos cujas tendências as estatísticas podem explicar não são fenómenos como o futebol. No futebol, a matemática e as estatísticas não têm nem podem ter a mesma capacidade explicativa que têm noutras áreas. A minha reacção contra as estatísticas deriva da convicção de que, em futebol, elas são sempre uma tentativa frustrada e simplista de resolver a complexidade inerente ao jogo. No fundo, o que as estatísticas fazem é tentar tornar quantitativo o que não pode deixar de ser qualitativo. E isso é absurdo.

Rei de Copas: A tua analogia com a arte é muito interessante. Queres falar um pouco dela?

Nuno: Posso falar. Ninguém no seu perfeito juízo achará que pode medir a qualidade - digamos - da Noite Estrelada de Van Gogh ou da Für Elise de Beethoven. Essa qualidade só pode ser descrita, nunca medida. Até uma certa altura, a pintura era essencialmente representação e a qualidade de uma pintura dependia em muito da sua capacidade representativa. De certo modo, o mundo visível era uma pedra de toque para aferir a qualidade da obra. Mas o Impressionismo acabou com isto. A qualidade não depende da sua capacidade de imitar ou representar o real, como não depende da perfeição técnica, de aspectos formais, etc. A qualidade está na imaginação do artista no momento da pintura. Para descrever qualitativamente a Noite Estrelada, é necessário descrever as intenções, as ideias e as preocupações de Van Gogh, a aquisição técnica e conceptual que lhe permitiu aquela pintura, a relação, no fundo, entre as propriedades manifestas no quadro e aquilo que era a figura do seu autor. Estas coisas não são contáveis; podem apenas ser descritas. Em futebol passa-se o mesmo. Tal como, para perceber a qualidade da Noite Estrelada, é muito mais importante descrever relações entre o que é visível e as intenções do autor do que reparar em coisas visíveis, em futebol é muito mais importante descrever as intenções, as ideias e as opções do Maniche do que contar a quantidade de passes que ele conseguiu.

Rei de Copas: E queres dar exemplos de aspectos estatísticos que, segundo o que defendes, não podem servir senão para perceber coisas supérfluas?

Nuno: Bom, já falei de alguns, como seja a percentagem de passes completados. Não queria falar disso em profundidade, pois um amigo de longa data está a preparar um texto sobre a falácia das estatísticas, que será publicado, se tudo correr bem, nos próximos dias, mas posso referir exemplos. Remates à baliza, por exemplo. No método do Filipe, a quantidade de remates à baliza influencia o rendimento do jogador. O erro implícito é grosseiro. Qualquer remate, para ele, é qualitativamente relevante. Isto não faz sentido nenhum. Um jogador que remate cinco vezes de meio-campo tem um rendimento, a nível de remates, idêntico a um jogador que rematou cinco vezes à entrada da área. Um remate em desequilíbrio, sem ângulo, numa situação de três para um, é qualitativamente igual a um remate em condições privilegiadas, em zona frontal, sem oposição, quando não tem nenhum colega melhor colocado. E por aí fora. O mesmo se passa com recuperações de bola. O jogador que faz a intercepção fica com os louros todos, quando muitas vezes é um colega que força, pela pressão que exerce, o adversário a fazer mal o passe. No método do Filipe, uma intercepção por boa leitura de quem intercepta tem tanto valor como uma intercepção por mau passe do adversário. Um jogador que tenha a sorte de estar na zona por onde o adversário mais ataca terá, à partida, mais condições que os colegas para ter mais recuperações de bola. Além disto tudo, há ainda que perceber que custos, sobretudo em termos de organização defensiva, terá tido cada uma das recuperações de bola de um jogador. Nada disto é contemplado pelas estatísticas. Poderia falar de muitos mais exemplos, pois nenhum aspecto estatístico está isento de falhas deste tipo, mas estes dois chegarão. Há, ainda, no entanto, um outro problema, que tem a ver com o critério de selecção dos aspectos relevantes. Como é que se decide que um remate é relevante para aferir o rendimento de um jogador e um lançamento de lateral não é? É uma pergunta justa. E a única resposta possível é: bom senso. E aqui entra um lado não-quantitativo da coisa que entra em contradição com a pretensão científica do método. É que todo o método, que se pretende o mais científico possível, depende da sua não-cientificidade.

Rei de Copas: Mas o Filipe assume que a análise estatítisca é apenas um instrumento e que carece de interpretação.

Nuno: Assume, mas só para o que lhe dá jeito. E, ao assumi-lo, fica com um problema grande entre mãos. É que, se os números carecem de interpretação e, por si só, não servem de muito, então os números não têm poder explicativo. Se não têm poder explicativo, não podem ser usados como pedra de toque para aferir nada, não podem servir de arma de arremesso para validar interpretações e não podem servir de argumento para desvalorizar outras interpretações. O problema do Filipe é que quer duas coisas que se excluem mutuamente: a cientificidade dos números e a interpretação deles. E quere-as por razões diferentes. Quer, por um lado, que os números legitimem a sua interpretação, e nesse sentido diz que eles são apenas instrumentos; mas quer também que os números tornem ilegítimas interpretações diferentes das suas, e aí os números já são ciência exacta. Na verdade, o método do Filipe é uma tentativa pobre e desonesta de se auto-legitimar.

Rei de Copas: Tens algum exemplo com que possas ilustrar isso?

Nuno: Sim. Recentemente, o seu método avaliou o Guarín muito positivamente. Apesar disso, o Filipe considera que o Fernando é melhor para o lugar, pois é melhor a nível posicional. Neste caso, o Filipe ignorou a tendência estatística, assumindo a limitação do método, explicando a opção por questões que o método não contempla, como seja a responsabilidade táctica e o sentido posicional do Fernando. Devo dizer que concordo inteiramente com o Filipe. O problema é a incoerência. Neste caso, o Filipe teve lucidez suficiente para perceber que o Guarín é inferior ao Fernando em certas coisas importantes que não podem ser contabilizadas. Mas, noutros casos, o método funciona como ciência exacta e os números servem para objectar opiniões que se fundam em coisas que também não podem ser contabilizadas. Desde logo, o exemplo do Maniche. O meu argumento em relação ao Maniche era semelhante ao argumento do próprio Filipe em relação ao Guarín e ao Fernando. O que eu defendia era que os números do Maniche não significavam, por si só, que ele merecesse o aplauso largo que ele lhe concedia, da mesma forma que os números do Guarín não justificavam, por si só, que fosse melhor para o lugar que o Fernando. Para que o Maniche merecesse tal coisa, havia que falar de coisas de que o Filipe não falava, coisas que o método não pode contemplar. Nesse caso específico, o Filipe não aceitou a interpretação. No caso do Maniche, os números representam fielmente o seu rendimento e ele não admite outra interpretação. No caso do Maniche, o sentido posicional e a responsabilidade táctica nem sequer são relevantes para aferir a sua qualidade. Isto é uma incoerência primária. Poderia ainda falar da questão do Javi Garcia. Ultimamente, tem argumentado o Filipe sistematicamente que o Airton desempenha a posição com qualidade e que merecia a titularidade, por não perder tantas bolas como o espanhol. Mais uma vez, está a basear a sua opinião somente nos números. Está a esquecer coisas importantes, coisas que ele próprio não esquece noutras ocasiões. Está a deixar de lado, em primeiro lugar, as opções de passe dos dois. Para aferir se o Airton perde mais ou menos bolas que o Javi, não basta contar as perdas de bola; é necessário também perceber as opções de passe dos dois, o grau de risco adoptado, a restante estrutura colectiva, etc. Depois, é necessário também observar coisas como o sentido posicional, coisas como a capacidade de leitura dos lances e a velocidade com que os jogadores se reposicionam, etc. E, finalmente, uma coisa que o Filipe tanto gosta, o aspecto mental: o Javi Garcia é mais adulto e acusa menos a pressão que o Airton, é mais experiente e sabe melhor em que situações, por exemplo, pode e deve fazer falta. Todas estas coisas ficam de fora na observação do Filipe. Não quero com isto defender nada em relação ao Javi e ao Airton. Estou apenas a discutir as razões numéricas que servem o argumento do Filipe.

Rei de Copas: E a questão do Belluschi?

Nuno: Pois, o Filipe acha que descobriu a pólvora, ao afirmar que o Belluschi, ao contrário do que se pensava, é muito forte em termos defensivos, recuperando muitas bolas. E é um dos exemplos que mais gosta de dar para justificar a relevância do método. A meu ver, trata-se de uma trivialidade. Já há um ano que o Entredez defendia que o Belluschi não era fraco em termos defensivos. O argumento não era necessariamente o mesmo, ou seja, o de que recupera muitas bolas, mas isso não importa. Já o dizíamos, como o dizemos em relação a outros jogadores, normalmente os criativos, que, por serem criativos, geram o preconceito de serem fracos defensivamente. Quase nenhum o é. Mas, mais importante do que afirmar que a descoberta do Filipe não foi descoberta nenhuma, pois já havia quem o defendesse antes, é afirmar que a descoberta do Filipe é um disparate. É que, para ele, as recuperações de bola de um jogador, seja o Belluschi ou outro qualquer, é sinal inequívoco de que exerce um trabalho defensivo relevante. O que ele esquece é que esse jogador está inserido numa determinada estrutura colectiva, estrutura essa que pressiona de uma determinada forma. Não será alheio aos números do Belluschi, por exemplo, o facto de ter ao seu lado um jogador muito forte em termos de agressividade e ocupação de espaços, como seja o Moutinho. A minha opinião é que, parte dos números do Belluschi se explicam melhor pelo trabalho colectivo do que propriamente pelo desempenho individual. O Belluschi recupera muitas bolas porque é inteligente, porque se posiciona bem, porque lê bem os lances, porque é suficientemente agressivo e ocupa suficientemente bem os espaços defensivos, mas também porque o Porto pressiona de um modo específico que conduz a mais recuperações na sua zona. E esta segunda parte da explicação o método do Filipe não é capaz de perceber.

Rei de Copas: Para ti, portanto, o método estatístico do Filipe é um perfeito disparate?

Nuno: Acho que pode ajudar a perceber tendências, mas nunca a explicá-las. E jamais pode funcionar para aferir rendimentos individuais. Há demasiadas coisas que não podem ser contempladas senão pela análise descritiva.

Rei de Copas: E o que tens a dizer em relação à pretensão do Filipe de que um método estatístico, parecido com o seu ou não, ajudaria necessariamente as equipas a estarem mais conscientes das suas necessidades e a perceberem melhor o rendimento individual dos seus atletas?

Nuno: Isso sim, acho um perfeito disparate. Há coisas muito mais importantes a considerar para que uma equipa possa potenciar o seu colectivo do que propriamente perceber quantas bolas um jogador perde e quantas bolas ele recupera. A potenciação das equipas dependerá de uma melhor percepção dos comportamentos dos seus jogadores e de uma melhor percepção do seu comportamento colectivo, não da percepção daquilo que cada jogador fez ou deixou de fazer.

Rei de Copas: Gostavas que o Filipe fizesse alguma coisa em relação ao seu método?

Nuno: Não tenho nada a ver com o que ele faz. Mas, já que falas nisso, gostava a sério que ele o utilizasse para analisar um jogo do Barcelona. A prazo - como ele diz que todos aqueles números devem ser lidos - iria talvez perceber que não poderia chegar a conclusões nenhumas. Iria talvez perceber que Xavi e Iniesta têm uma percentagem de passes completados inferior à dos outros médios e perdem mais bolas que Busquets e até do que Mascherano e Keita, embora isso não os faça necessariamente descartáveis. Iria talvez perceber que Puyol perde menos bolas que Piqué, e que isso não faz dele um defesa necessariamente mais fiável em posse. Iria talvez perceber que os desequilíbrios ofensivos são repartidos quase igualmente pelos cinco jogadores mais adiantados, e que isso complicaria a distinção individual que gosta de fazer. Iria talvez perceber que não há diferença significativa entre o número de passes completados pelo Mascherano e o número de passes completados pelo Busquets e que Busquets perde mais bolas que Mascherano, embora a titularidade de Busquets não possa sequer ser posta em causa. Uma análise ao Barcelona poderia servir para ele perceber a inutilidade em que consiste o seu método. Ou então não. A casmurrice é tanta que era capaz de inventar desculpas para as coisas esquisitas que encontrasse.

Rei de Copas: A tua relação com o Filipe é cada vez mais tensa?

Nuno: Não acho que tenhamos uma relação. Aliás, deixa-me aproveitar para falar de um assunto sobre o qual muitos têm uma opinião que considero errada. As pessoas falam muito de cordialiidade e de boa educação. Acham que eu tenho um estilo deselegante e, mesmo que reconheçam importância ao que digo, aconselham invariavelmente a ser mais moderado no modo como exponho as minhas ideias. Devo dizer que essas pessoas não percebem bem aquilo que eu faço. Interessa-me pouco cultivar amizades; isto não é a minha vida. As intervenções em blogues, a exposição das minhas ideias neste blogue, a minha existência cibernáutica, no fundo, não tem nada a ver com a minha vida. O meu interesse é inteiramente intelectual. E, por sê-lo, deve estar o menos constrangido possível por convenções sociais. As pessoas imaginar-me-ão sempre como alguém muito irritado à frente do computador, como alguém muito febril, que se entusiasma muito com as discussões. Não sou nada disso. Se disser que, no dia-a-dia, sou uma pessoa extraordinariamente diplomática, calma e muitíssimo bem-educada, cordialíssima, que não ostenta qualquer tipo de arrogância nem tem opiniões fortes sobre praticamente nada, poucos acreditarão. E não acreditarão sobretudo porque não percebem aquilo que eu faço aqui. O meu interesse aqui é discutir, expor ideias, tecer argumentos, ouvir opiniões diferentes e procurar rebatê-las. O meu interesse é cultivar-me, e isso faço-o pelo exercício exaustivo da discussão, pelo esforço mental de procurar respostas para todos os problemas. É precisamente porque o que me interessa é a discussão e só a discussão que assumo o estilo que assumo. Isto porque a discussão tem tanto mais interesse quanto mais controversas forem as propostas. A minha falta de cordialidade, a minha postura acusativa, a minha arrogância, a minha ironia, tudo aquilo que as pessoas, no fundo, acham que eu sou é uma fatalidade do meu único interesse, que é discutir. O carácter desta entidade que escreve e assina como "Nuno" não é o carácter da pessoa real que lhe dá corpo, mas uma consequência necessária dos interesses que essa pessoa tem ao escrever nestes espaços sobre estas coisas. É por isso que não faz sentido achar que devo respeito às pessoas com quem falo. É que eu não falo, verdadeiramente, com elas. A personalidade que é resultado dos meus interesses em falar destas coisas é que fala com elas. Trata-se de uma máscara. E eu, na verdade, não tenho controlo sobre o que ela diz, pois o que ela diz é consequência dos interesses intelectuais e do interesse na discussão que, esses sim, possuo.

Rei de Copas: Pois, para mim, que te conheço, isso é claro. Obrigado, Nuno, por esta extensa conversa! E até uma próxima oportunidade...