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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Mania da Objectividade

Uma das principais razões - talvez mesmo a principal - pelas quais a esmagadora maioria das equipas de futebol por esse mundo fora não joga bem é, a meu ver, a objectividade. Não é, aliás, infrequente ouvirmos dizer de uma equipa que mastiga muito o jogo no meio-campo que tem falta de objectividade. Comentadores, treinadores, jogadores, todos sem excepção reconhecem que, quando uma equipa não consegue criar perigo, quando joga demasiado para trás, quando perde tempo a encontrar boas soluções de passe, revela falta de objectividade. Para quase toda a gente, joga bem quem procura constantemente a baliza, quem vai para a frente, quem não perde tempo com inutilidades, quaisquer que elas sejam. Pessoalmente, aborrece-me que dois jogadores que põe quatro ou cinco adversários à rabia, desposicionando-os, desgastando-os, e mantendo a bola, sejam criticados por não serem objectivos. Aborrece-me porque esses jogadores fazem sozinhos o que uma equipa inteira não é capaz de fazer. E, invarialmente, são eles quem estão errados, na opinião de quase toda a gente.

Como sabe quem lê este blogue, considero haver pouquíssima gente que saiba realmente alguma coisa de futebol. Uma das razões pelas quais penso assim é precisamente a ideia praticamente consensual de que todas as acções em campo devem ser objectivas, sejam elas quais forem. Como também deve ser sabido, é costume não concordar com muitas das ideias praticamente consensuais acerca de futebol. Para mim, nenhuma acção em campo deve ser objectiva. Nenhuma! Não o deve porque, embora o jogo tenha um objectivo, cada uma das acções pode apenas ter um objectivo circunstancial. A ideia de que uma equipa deve ser sempre objectiva tem origem precisamente na falácia que consiste em achar que uma acção isolada tem de ser executada em função de um objectivo geral. Pois não tem. O futebol é essencialmente um jogo não-objectivo, nesse sentido. Não é esgrima, nem remo. Em esgrima, não se pode não ser objectivo. Todas as acções são ou para se defender, ou para atacar o adversário. Em remo, não se pode simplesmente não remar, ou remar em círculos. Mas futebol não é isto. É um jogo de tipo diferente. Quando uma equipa só tem em mente ser o mais objectiva possível não tem praticamente nada. Só volta para trás em casos extremos, quando encurralada junto a uma linha, ou quando lhe interessa queimar tempo; só sai a jogar quando o adversário não faz pressão alta; só faz um passe curto quando não tem ninguém na frente que possa correr feito parvo.

É talvez do feitio do que é moderno achar que tudo o que é objectivo é bom. E, por isso, acções cujo fim não seja claro são imediatamente consideradas acções erradas. Acontece em futebol, mas acontece também em muitas outras coisas. É essa a razão pela qual, por exemplo, se aceita geralmente que as Humanidades não merecem um investimento idêntico ao que merecem as Ciências ditas concretas. É também por isso, por exemplo, que se acha que crises económicas se combatem essencialmente com ideias económicas, como se a Economia não fosse influenciada senão por si mesma. Vivemos num tempo em que, habituados pela estupidez das opiniões públicas, achamos que tudo se resolve com um plano bem definido, com metas bem definidas, com continhas bem feitas. Achamos que, se tivermos um objectivo claro, se fizermos tudo o que está ao nosso alcance para atingir esse objectivo, e, se não nos desviarmos do plano e do objectivo do plano, acabamos por ser bem sucedidos. E ignoramos que, muitas vezes, desviarmo-nos de planos e de objectivos é a atitude mais correcta. É um vício científico, um vício que tem por modelo uma mentalidade matemática. Aprendemos a fazer contas quando somos pequenos, e não só nos julgamos imediatamente inteligentes como julgamos que todos os porblemas se resolvem matematicamente, ou seja, juntando parcelas, fazendo contas, e obtendo resultados. Pois nenhum problema complexo se resolve matematicamente, e nenhum problema humano, por assim dizer, pode ser solucionando com habilidades matemáticas. A atitude matemática que estou a atacar consiste em considerar que a execução de meia-dúzia de passos correctamente, e pela ordem correcta, conduz necessariamente ao resultado desejado. Nada no mundo que seja minimamente complexo se resolve assim, e uma das formas de estupidez, porventura a mais moderna das estupidezes, consiste em pensar que sim.

O futebol é demasiado complexo para que possa ser jogado objectivamente, matematicamente, com sucesso. E é por ser tão complexo que um conceito como "objectividade" é absurdo. A maior parte dos treinadores treina a sua equipa, portanto, para fazer coisas absurdas. É por isso que o jogo é tão mal jogado por esse mundo fora; é por isso que os melhores jogadores, os criativos, os inteligentes, os que pensam por si, recebem pouca atenção. Os treinadores querem animais irracionais que repitam o lhes mandam fazer, que joguem sempre em função de um plano de jogo, que façam, em qualquer situação, aquilo que são treinados para fazer, quer a situação convide a isso, quer não. Tais treinadores não sabem o que é futebol. Um treinador a sério não tem um plano de jogo. Isto é, porventura, radical de mais para que alguém o perceba. Deixem-me remodelá-lo: um treinador a sério, um treinador que saiba o que é o jogo, que perceba que, como outras coisas, o futebol é um jogo demasiado complexo para que o conceito de "objectividade" faça sentido, um treinador que compreenda que o futebol é essencialmente um jogo de situações atípicas, irrepetíveis, e que os seus jogadores não são executantes de um plano, mas seres pensantes, agentes que têm de decidir o que é melhor em cada situação, está-se nas tintas para aquilo a que vulgarmente chamam "planos de jogo". Planos de jogo são coisas de gente idiota que acha que o futebol é um jogo de planos.

O futebol é um jogo em que o plano se elabora constantemente, a cada alteração das circunstâncias de jogo. Antes de uma equipa poder ser objectiva, ou seja, antes de poder materializar o seu futebol numa oportunidade de golo, tem de criar condições para que possa sê-lo.  E isso leva, na maioria das vezes (dependendo, claro está, da forma como o adversário defende), muito tempo. A maior parte das equipas salta este passo, ou ignora-lhe a importância. Se virem uma brecha na frente, não hesitam em tentar um passe de morte, por menores que sejam as probabilidades de sucesso de tal passe. Crê-se que todas as veleidades concedidas pelo adversário, todos os espaços, toda a liberdade ao atleta que conduz a bola deve ser encarada como uma oportunidade de criar imediatamente uma situação de golo. Poucas são as equipas que encaram o jogo como uma sucessão, por vezes muito numerosa, de micro-acções. E é por isso que, por exemplo, a criatividade é um atributo tão pouco procurado. Quando se acha que o jogo é essencialmente objectivo, jogadores que saibam pensar, que saibam imaginar melhor do que os outros, não são especialmente diferentes. Veja-se o caso de Modric, no Real Madrid. É um exemplo, mas haveria muitos outros. No Real, Mourinho pretende dele o que pretendia de Sneijder no Inter: últimos passes. É por isso que Modric não rende o que podia render. O mesmo acontece com Özil. Mourinho acredita na objectividade do jogo, e embora seja, porventura, o melhor treinador do mundo a preparar a sua equipa em função dessa objectividade, reduz dramaticamente o potencial dela ao acreditar nisso. Modric é um criativo. Estaria como peixe na água numa equipa que trabalhasse muito o jogo a meio-campo, com passes curtos, tabelas, movimentos entre linhas, apoios e coberturas próximas. Como o encarregam de uma função, como fazem dele alguém que, a todo o custo, tem de solicitar os atacantes em condições ideais, corta-se-lhe a imaginação. Pedem-lhe que execute meia-dúzia de coisas e que não faça outras tantas, quando ele estaria bem se não lhe dissessem coisa alguma. Em cada lance que intervém, tem de agir de acordo com as instruções que tem. É obrigado, por isso, a agir quase automaticamente, a repetir certos movimentos, a tentar sistematicamente coisas idênticas. Quando resulta (o que acontece devido à sua qualidade), corresponde ao que esperam dele. O problema é quando não resulta, o que acontece muitas vezes, pois o sucesso de tal futebol não depende só dele. Aí, acusam-no de estar pouco inspirado, e não pensam sequer na possibilidade de a falta de inspiração ter sido causada pelas instruções que tem.

Nunca fui o maior admirador de Sneijder, mas deixei de gostar definitivamente dele precisamente no ano em que muitos achavam que ele merecia a bola de ouro, isto é, no ano em que foi campeão europeu no Inter. Deixei de gostar dele exactamente porque o seu futebol era mecânico: recebia a bola, rodava e tentava um último passe. Falhava trinta passes por jogo, mas eventualmente acertava um ou outro. Evidentemente, com a mecanização da equipa, as acções de Sneijder até tinham alguma eficácia. Por outro lado, na sua selecção, a jogar da mesma maneira, só a prejudicou. Para Mourinho, o seu médio de ataque é uma espécie de quarter-back, e é essa ideia que não aceito. Nenhum jogador de futebol, pelas particularidades do próprio jogo, pode ter uma função específica como têm os jogadores de futebol americano. O futebol é um jogo de decisões, um jogo de criatividade, e é a criatividade, e só ela, que deve ser cultivada. Modric e Özil, em abono da verdade, são muito mais criativos do que Sneijder alguma vez foi. Sneijder era um executante extraordinário, mas nunca me pareceu o mais criativo dos jogadores. O croata e o alemão renderiam muito mais se estivessem numa equipa que preconizasse um modelo de jogo menos objectivo, se lhes fosse pedido não uma série de tarefas, mas apenas que criassem, consoante as circunstâncias, e de acordo com a posição relativa em que fossem colocados no campo. Hoje em dia, com a cientificidade a que se aproximou o futebol, vive-se uma autêntica mania da objectividade. E os melhores jogadores, aqueles que arranjam soluções de que ninguém estava à espera, aqueles que são capazes de criar a partir do nada, que solucionam problemas absolutamente inéditos, sem nunca terem sido preparados para solucioná-los, acabam ostracizados no meio de tanta objectividade. E nem sequer se percebe que, juntando meia-dúzia de jogadores criativos e deixando-os encarregues apenas de criar se fica, ainda que de forma menos óbvia, bem mais perto dos objectivos a que se propõe qualquer equipa de futebol do que cultivando um ideal de objectividade que apenas coarcta o potencial criativo de uma equipa.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Euro 2012 - 1ª Ronda

Grupo A

Polónia e Grécia deram o pontapé de saída deste campeonato. Num jogo esquisito, em que os gregos defenderam mal os flancos, com a equipa a bascular horizontalmente muito mal, foram os movimentos do flanco direito polaco que começaram por criar dificuldades. À excepção destes movimentos, com Piszczek e Kuba em claro destaque, a Polónia foi uma equipa pouco interessante. Aliás, tirando as combinações pela direita, muito facilitadas pela forma deficiente como o meio-campo grego defendeu, pouco se viu. Quanto à Grécia, pouco também para dizer. Ao contrário de muita gente, para quem Samaras fez um mau jogo (o comentador de serviço, aliás, disse que estava a fazer um jogador horrível), acho que o avançado grego foi o melhor em campo. Tem isto a ver não apenas com um modo diferente de ver o jogo, mas sobretudo com o facto de valorizar todas as acções em campo de igual modo. Para aqueles que acham que Samaras esteve muito mal, só os lances vistosos é que importam. Como atirou duas bolas para as nuvens e chutou no chão num lance em que quis variar o flanco, acham que esteve especialmente desastrado. Acontece que, à excepção desses lances, Samaras esteve incrivelmente bem. Foi muitas vezes solicitado com pontapés longos, e deu quase sempre bom seguimento ao lance. Por vezes, mesmo rodeado por três adversários, recebia no peito, punha no chão, aguentava os adversários, esperava pelo apoio, e deixava a bola jogável. Um avançado também é isto. E, quando um avançado consegue isto tantas vezes, é preciso reconhecer-lhe mérito. Samaras foi a principal figura dos gregos porque foi o que permitiu aos gregos, muitas vezes, chegar à frente em ataque combinado. Depois, a procurar os espaços certos entre os defesas e os médios polacos também esteve acima da média. Incompreensível que não se lhe tenham percebido as qualidades. A República Checa acabou cilindrada pela Rússia, mas não partilho da euforia geral acerca dos russos. É verdade que a equipa tem qualidade individual de sobra, e deverá ser levada muito a sério, por isso. Mas, em termos colectivos propriamente ditos, esta selecção está a milhas daquela que, há quatros anos, Guus Hiddink comandava. A República Checa, aliás, teve uma postura bem mais interessante. Defendeu mal, e desleixadamente, é certo, mas trocou bem melhor a bola. Os russos concederam sempre a iniciativa ao adversário, e raramente fizeram outra coisa do que sair em contra-ataque. Apresentaram qualidade neste momento do jogo, é certo, mas beneficiaram quase sempre do mau posicionamento checo. Colectivamente, a única coisa que me pareceu verdadeiramente interessante na equipa russa foi a movimentação  dos extremos, Arshavin e Dzagoev, percorrendo o espaço entre linhas com muita qualidade, e a movimentação de Kerzhakov. Quando não se apressaram, e trocaram a bola verticalmente, pelo chão, com passes curtos, os russos conseguiram apresentar argumentos colectivos relevantes. Mas esse pareceu sempre um plano alternativo. Contra equipas melhor preparadas para a perda de bola, terão de utilizá-lo mais recorrentemente, se quiserem manter a bitola.

Grupo B

Começou com a surpreendente derrota da Holanda frente à Dinamarca. Pelo que os holandeses fizeram no último mundial, no entanto, não deveria ser surpresa para ninguém. Para já, devo dizer que a Holanda é a equipa mais fraca, em termos estritamente colectivos, em prova. Em contrapartida, tem qualidade individual que nunca mais acaba. Depois de um começo em que os dinamarqueses concederam a iniciativa aos holandeses, depressa se percebeu que ter seis jogadores só para defender e quatro só para atacar criaria buracos fáceis de aproveitar. Acalmando-se, a Dinamarca começou a trocar a bola com tranquilidade, fazendo os holandeses correr atrás dela. Sem grandes pressas, nem correrias à parva, os dinamarqueses levavam a bola para o flanco e voltavam a trazê-la para o meio, sem que os holandeses a conseguissem roubar, e começaram a controlar o jogo. Ao intervalo, já a Dinamarca ia dando um banho à Holanda. A segunda parte arrancou com a Holanda disposta de modo diferente, com Afellay a vir mais dentro, e Sneijder a aparecer mais descaído para o flanco esquerdo, e, fruto unicamente da qualidade individual dos holandeses, criaram situações suficientes para empatar, e talvez até para ganhar. Mas nunca souberam controlar o jogo. A Dinamarca, sendo muitas vezes incapaz de suster o ímpeto holandês (principalmente por haver uma diferença na valia individual brutal), nunca perdeu a compostura. Saiu sempre tranquilamente, sem grande vontade de explorar a velocidade, privilegiando a manutenção da bola, e acabou por vencer muito justamente. A Holanda só ameaçou individualmente, quer fosse pelos rasgos de Robben ou Van Persie, quer fosse pelos passes teleguiados de Sneijder. Um apontamento, ainda, acerca do organizador holandês. Não é de agora, mas este jogo foi sintomático disso, e vale a pena falar no assunto. Nos últimos anos, Sneijder perdeu qualidades a nível da decisão. Sobretudo na segunda parte do desafio, com a Holanda pressionada para obter o empate, não faltaram elogios a Sneijder. No entanto, acho que as suas opções raramente ajudaram a equipa. É verdade que conseguiu colocar duas vezes o avançado na cara do guarda-redes, mas ofereceu diversas bolas à defesa dinamarquesa. O que critico em Sneijder é o que critico em alguns médios cuja melhor característica é a qualidade de passe. Sem critério na decisão, estivesse junto à área dinamarquesa, estivesse a meio-campo, Sneijder flectia para dentro e procurava sistematicamente o último passe. Houve raras excepções, mas que apenas confirmaram a regra. Tal decisão resultou as primeiras vezes, mas facilmente se tornou previsível. E cada bola que chegava à esquerda passava a ser um ataque inofensivo. Os elogios de que foi alvo ignoraram, portanto, o erro de decisão que esteve na base das acções elogiadas, e não consigo perceber como se ignora tal coisa. Sneijder, como Robben, de outra forma, quis resolver sistematicamente o jogo sozinho. E isso raramente é bom. Van der Vaart entrou para oferecer apoios horizontais pela esquerda, e praticamente nem tocou na bola. No outro jogo, pouco a dizer. Portugal só se pode queixar de si mesmo. É verdade que podia, e até talvez merecesse, empatar o jogo no final, mas passou demasiado tempo à espera de um erro alemão. É sabido que não gosto particularmente de equipas que jogam os 90 minutos no erro do adversário, e foi isso que Portugal fez. Não o fez sempre tão baixo como em alguns momentos do jogo, mas apostou essencialmente na capacidade de pressing e nas transições. Não quis nunca ter a bola durante demasiado tempo, e teve sempre medo de se expor. Se a Holanda ainda atacou com quatro jogadores, Portugal nunca usou mais do que os três da frente. A Alemanha também não fez um jogo excepcional, mas teve o mérito de ter procurado, pelo menos durante mais tempo, a sorte que acabou por ter. Resultados justos, neste grupo, e um nome a reter: Hummels.

Grupo C

Excelente novidade, o comportamento italiano frente à Espanha. Quando todos previam, até pelos três defesas centrais com que se apresentavam, que a Itália fosse defender os 90 minutos, e apostar na velocidade, eis que apareceram Pirlo e companhia a mostrar que os últimos trinta anos de futebol transalpino deviam começar a ser esquecidos. A Espanha foi melhor, como era de esperar, e até merecia ter ganho, pelo caudal ofensivo apresentado, mas a Itália deu a melhor réplica que poderia ter dado. Percebeu que a melhor forma de controlar o jogo espanhol não é defender com autocarros, mas ficando com a bola, circulando-a, fazendo os espanhóis provar um pouco do seu próprio veneno, e acabou por conseguir atacar com qualidade e não apenas através das acções de dois ou três jogadores. Calma, circulação de bola, e segurança no passe, foi tudo aquilo de que precisaram. Muito bem Cassano, a segurar e a esperar pelos apoios. Muito bem também Marchisio, e excelente Andrea Pirlo. Não sei se a Itália terá capacidade para dominar adversários mais fracos, mas contra um adversário mais forte provaram competência. Quanto à Espanha, apesar do empate, continua a ser a melhor equipa em prova. Mourinho disse que, sem avançado, a equipa foi inofensiva. A Espanha teve alguns problemas, mas nenhum que tenha a ver com a ausência de um avançado, ou com o que quer que Mourinho ache que significa ser inofensivo. Durante a primeira parte, a opinião geral foi de que a Itália teve as melhores oportunidades, o que é falso. Ter obrigado Casillas a mais defesas apertadas do que a Espanha obrigou Buffon não significa ter mais oportunidades. Os espanhóis apareceram em posição de finalização vezes sem conta, mesmo na primeira parte, e inúmeras foram as vezes que os remates já dentro da área embateram em italianos ou foram cortados in extremis. E ser capaz de, tantas e tantas vezes, conseguir invadir os espaços entre a linha defensiva e a linha de meio-campo do adversário é também uma forma de criar algum perigo, pois a partir daí um único passe pode isolar um colega. Os espanhóis jogaram bem, foram superiores, e mereciam ter ganho, não obstante o bom jogo italiano. Dizer que foram inofensivos só se entende se ainda houver alguma azia relativamente ao tipo de futebol catalão que tantas insónias lhe causou. O verdadeiro problema da Espanha chamou-se Xabi Alonso. Ou a necessidade que Del Bosque viu em utilizá-lo. É que o jogador do Real Madrid não é deste filme, e não compreende bem o que há a fazer na grande maioria das situações. Não raras vezes, esticava o jogo quando se pedia calma; outras, simplesmente, parecia não perceber o que os colegas queriam dele. Del Bosque acha que ele tem de jogar, e então o meio-campo espanhol é uma confusão. Mesmo a defender, Xabi Alonso nunca soube cobrir Busquets, como este o cobria a ele, e a Espanha esteve desorganizada quando tentava recuperar a bola. Não era mais fácil, se a ideia é replicar o que o Barcelona faz, usar precisamente o modelo catalão, com Busquets, Xavi, e Fabregas, e soltar Iniesta, Silva e outro jogador na frente? Para quê inventar? De resto, nota negativa também para Arbeloa no lance do golo italiano, estando encostado a Cassano e permitindo o aproveitamento da profundidade entre ele e Piqué. Nota muito positiva, por outro lado, para Andrés Iniesta. Que jogo monstruoso! Alguém tem dúvidas de quem é o melhor da Europa? Eu não tenho. No outro jogo do grupo, a Irlanda é demasiado britânica para estar neste campeonato. Quando se junta a algo que está obsoleto há 40 anos um treinador cujas ideias estão obsoletas há 20, só se poderia esperar um futebol completamente obsoleto. Eis a Irlanda, a pior equipa em prova. As únicas armas que têm são a agressividade e os lances de bola parada. A Croácia, em 4132, apresentou-se sólida, e com alguma criatividade. No entanto, o jogo tornou-se demasiado fácil para que se possam tirar grandes ilações. É preciso ver o que faz contra adversários mais poderosos.

Grupo D

Dois jogos fracos. França e Inglaterra não têm argumentos, nem individuais, nem colectivos, para ombrearem com as melhores selecções da competição. A selecção francesa mandou no jogo, mas sempre de forma muito atabalhoada. É também curioso que Mourinho não tenha feito a mesma crítica aos franceses que fez aos espanhóis. É que a França também jogou sem avançado. E, neste caso, o jogador que jogou mais adiantado, Benzema, até é seu jogador. O avançado gaulês procurou sistematicamente movimentos interiores e de aproximação, e raramente sugeriu a solicitação em profundidade. Ribery não sabe o que é uma decisão, e Nasri é pouco para inventar lances de perigo. Há demasiado músculo a meio-campo, e pouca inteligência para contornar problemas bicudos. Quanto à Inglaterra, é provavelmente a pior selecção inglesa de que tenho memória. É verdade que faltam Rooney, Wilshere e Lampard, principalmente, mas a quantidade de jogadores absolutamente banais entre os titulares ingleses é indescritível. Tirando os dois centrais e os dois médios-centro, alguns deles praticamente em final de carreira, a equipa inglesa ou tem jovens promessas ou tem jogadores de baixíssima categoria. Welbeck? Milner? Glen Johnsson? Francamente. Juntando a isto o deserto de ideias colectivas que é esta equipa, só esperando um milagre como o do Chelsea este ano. Quanto ao outro jogo, duas equipas muito parecidas, em termos de desenho táctico, mas com intenções diferentes. Os ucranianos procuraram, desde o apito inicial, a baliza adversária, e sobretudo por isso mereceram a vitória. Só depois de se encontrar a perder é que a Suécia quis mandar no jogo (e até conseguiu duas ou três boas oportunidades) e não merecia, por isso, que a sorte lhe sorrisse. Tacticamente, são duas equipas muito pouco interessantes, e não creio que valha a pena perder muito tempo a falar delas.

Após a primeira ronda, mantenho a opinião, pouco convicta na altura, de que as principais candidatas à vitória final são a Espanha e a Alemanha. Modifica-se, sobretudo, o lote de segundas equipas, com a Itália e a Rússia a serem as minhas apostas. É evidente que o torneio se decide a eliminar, e que uma equipa fora destas quatro pode conseguir surpreender. Dependerá, por isso, também do que acontecer nesta fase de grupos. Dinamarca, Portugal, Holanda e França, principalmente, poderão, portanto, ter uma palavra a dizer. Os dinamarqueses pela sobriedade colectiva com que apareceram na prova; as restantes por terem categoria individual com que compensar as deficiências colectivas. Veremos o que se segue. 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pontos sobre o Mundial

1. Os movimentos interiores de Müller eram aquilo que tornava a equipa alemã, a atacar, uma equipa imprevisível. Ao aparecer em zonas centrais, entre os médios e os avançados, concedia não só todo o flanco para as subidas de Lahm como fornecia linhas de passe verticais, povoava zonas entre linhas e unia o sector do meio-campo ao atacante. O segundo golo frente à Argentina é a demonstração disto. É o posicionamente de Müller que permite o passe vertical e o desequílbrio ofensivo decisivo. Sem Müller, a Alemanha, do ponto de vista colectivo, era só mais uma equipa.


Argentina 0-2 Germany

Perry | Vídeo do MySpace

2. Num mundial em que um elevado número de equipas apresentou um duplo-pivot defensivo no meio-campo ou, simplesmente, dois jogadores actuando de perfil, ficaram visíveis os problemas crónicos desse tipo de estrutura. A Alemanha não conseguiu suster a posse de bola espanhola e o constante povoamento da zona entre os centrais e os médios-defensivos, afundando-se no campo; o Brasil nunca foi uma equipa compacta e concedeu sempre espaços indesejáveis, caindo contra uma Holanda que pouca qualidade tem a trocar a bola; a Inglaterra e a França nunca se encontraram; a Holanda sofreu todos os golos de bola corrida por causa dessa estrutura. Só a Espanha, e sobretudo porque tem mais tempo a bola, não tem sofrido por causa dos dois jogadores lado a lado no meio-campo. A epidemia, porém, merecia uma reflexão.

3. No jogo da Holanda contra o Brasil, não foram apenas as referências ao homem evidenciadas pelo comportamento de Heitinga, Van Bronckhorst ou De Jong que permitiram ao Brasil chegar ao golo. O espaço central deveria estar sempre protegido, mas a inclusão de dois médios defensivos, ainda por cima com este tipo de comportamento, torna esse espaço um deserto. Kaká arrasta De Jong e não há maneira de Van Bommel fechar o espaço rapidamente. Assim, forma-se uma avenida que Filipe Melo aproveita, fazendo um passe rasteiro de 40 metros a isolar Robinho, possibilidade inaceitável a este nível.


Netherlands 0-1 Brazil

Simão | Vídeo do MySpace

4. Ainda a Holanda, desta vez contra o Uruguai. O golo de Forlan evidencia o problema das linhas defensivas holandesas. Com dois médios de perfil, cria-se um buraco entre linhas que Forlan aproveita. Recebe um passe vertical e, tendo todo o tempo do mundo ao seu dispor, dribla um adversário e chuta sem oposição. Apesar de facilitado pelo erro técnico do guarda-redes holandês, a chave do lance está no espaço que o duplo-pivot defensivo dos holandeses concede.


Uruguay 1-1 Netherlands

Ricardo | Vídeo do MySpace

5. O futebol da Holanda é pobre. Da afirmação não se segue que não merecesse estar onde está. A única equipa individualmente superior ou semelhante que enfrentou foi o Brasil, que também não apresentou um futebol extraordinário. Um mundial, porém, em que esta Holanda chega tão longe, só pode ser um mundial fraco. Não houve uma única equipa, das que enfrentaram a Holanda, que soubesse aproveitar as deficiências defensivas e a pobreza ofensiva dos holandeses. Junte-se ainda a isto a forma quase fortuita como a equipa adquiriu vantagem nos seus jogos e explica-se a aparente facilidade com que chegou até à final. Sobre o momento ofensivo, é sobretudo relevante falar daquilo que não se vê. Não se vêem movimentos de aproximação e, por conseguinte, capacidades colectivas interessantes na troca da bola; não se vêem os médios a dar apoios laterais ao portador da bola, quando esta está no flanco; não se vê movimentos sem bola significativos; não se vêem ideias; não se vê imaginação; não se vê capacidade para mandar no jogo. Apesar de muitos tecerem considerações positivas em relação ao futebol dos holandeses, gabando-lhe a genialidade ofensiva e o pragmatismo com que tem abordado os jogos, a Holanda tem sido pouco mais que medíocre. A genialidade é meramente individual e o pragmatismo é uma palavra mal usada para se referirem a "muitos homens atrás da linha da bola". A Holanda não defende bem, arrisca é pouco; a Holanda não ataca bem, tem é bons atacantes.

6. Wesley Sneijder tem sido, para muitos, dos melhores jogadores do torneio. Acho que todo aquele que o afirma não tem visto bem os jogos da Holanda. Não está em causa o valor do jogador. Está em causa aquilo que tem feito. Antes de mais nada, creio que esta opinião, em muitos casos, deve estar viciada pelo facto de ele já ter cinco golos. O problema é que é preciso ter em conta como é que os marcou. Contra o Japão, um frango monumental do guarda-redes nipónico; contra a Eslováquia, de baliza aberta, após trabalho de Kuyt; contra o Brasil, um cruzamento desviado por Filipe Melo e um de cabeça, após bola parada; contra o Uruguai, às três tabelas. Sneijder ainda não marcou, por assim, dizer, um golo em que pudesse dizer-se que fora seu todo ou o principal mérito. Por isso, se avaliar-lhe a prestação pelos golos obtidos já não fazia muito sentido, menos o faz quando os golos aconteceram como aconteceram. Para além disto, Sneijder tem jogado muito menos do que têm afirmado. Raramente se aproxima do portador da bola; raramente faz movimentos horizontais para criar superioridade numérica nas linhas ou fornecer apoio ao portador da bola; não vai para a confusão, procurando uma tabela. Prefere geralmente alhear-se do jogo e procurar espaços sem ninguém, para poder receber e fazer o que bem entender. Mas com isso foge ao jogo e não ajuda a equipa a encontrar soluções mais complexas. Sneijder tem-se protegido, procurando receber a bola sempre em condições ideais. Com isso, não só tem estado menos em jogo do que poderia como não tem sido colectivamente competente. Continua, sempre que tem a bola, a evidenciar uma qualidade de passe muito boa. Mas pouco mais do que isso tem apresentado. E, sinceramente, isso não chega para estar entre os melhores do torneio. Comparar a sua prestação com a de Xavi ou Iniesta, por exemplo, não faz o menor sentido.

7. Muito se falou de Fábio Coentrão e da sua forma neste mundial. Não creio que se deva ceder à euforia. A análise fria e racional mostra que Fábio Coentrão fez um bom mundial, é verdade, que foi um contributo ofensivo relevante no flanco esquerdo português. Isso é verdade e é nisso que Coentrão é, de facto, forte. Mas está longe de ser um jogador completo e de ter mostrado, neste mundial, que estava perfeitamente adaptado à posição de lateral. Dizem os que defendem o contrário que Coentrão esteve extraordinário a defender e que, se mais provas fossem precisas, que Maicon e Dani Alves não lhe criaram grandes problemas. O que estas pessoas estão a esquecer é que Portugal defendeu quase sempre enfiado no seu meio-campo e maioritariamente em organização e em superioridade numérica. É natural, nessas condições, que os defesas estejam menos expostos. Fábio Coentrão não sentiu grandes dificuldades a defender, é verdade, mas isso, por si, não significa nada. Pelo modo como Portugal defendeu, sobretudo contra o Brasil e contra a Espanha, seria natural que assim fosse. Raramente os defesas tiveram que corrigir rapidamente o seu posicionamento, raramente ficaram em igualdade numérica ou em lances de um para um com os avançados, raramente ficaram com muito espaço para cobrir. Fábio Coentrão atacou bem e isso é digno de registo. Mas fiquemos por aqui, porque não foi verdadeiramente testado para aquilo em que ainda lhe faltam atributos.

8. Num mundial pobre, em termos tácticos, não há um treinador que tenha merecido mais do que elogios ocasionais. Os dois principais nomes são os de Marcelo Bielsa e de Joachim Löw, embora ambos tivessem dado importantes tiros no pé. Bielsa começou bem e mostrou que uma equipa individualmente menos capaz pode bater o pé aos grandes e jogar deliberadamente ao ataque. Falhou rotundamente ao abdicar das suas principais ideias na eliminatória frente ao Brasil. O jogo de posse e pressão alta dos chilenos, em 343 losango, com Matías Fernandez e Valdivia como principais referências, deu lugar ao jogo veloz, em 442, sem os dois nomes acima referidos. O medo do Brasil ou a cobardia de não ter sido fiel a si mesmo valeram a Bielsa a desilusão. A de todos os chilenos e a nossa. Quanto a Joachim Löw, tem o mérito de ter colocado a selecção alemã a jogar um futebol menos germânico do que é costume. Muito disso, como já referi, era afinal fruto do comportamento criativo de uma individualidade, mas mesmo assim os alemães eram organizados e pareciam pensar de um modo colectivo. Falhou, contudo, como já falhara no Euro 2008, a opção por um 442 clássico e a ausência de movimentos atacantes imprevisíveis, para além dos protagonizados por Thomas Müller.

9. O Uruguai chegou longe, mas nunca impressionou. A caminhada teve na arbitrariedade do calendário a sua principal causa e os uruguaios tiveram apenas o mérito de nunca perder contra equipas individualmente mais fracas. Percebeu-se, todavia, que não podiam ir muito mais longe e que, assim que tivessem pela frente um conjunto mais forte, ficariam pelo caminho. Dentro dos uruguaios, é preciso porém destacar Diego Forlan, um jogador claramente acima da média. Quaanto a Luis Suarez, para muitos uma grande revelação, não posso deixar passar a oportunidade de dizer que me parece extraordinariamente sobrevalorizado. É um jogador que finaliza bem e que aparece bem em zonas de finalização. Mas é só. É incrivelmente prejudicial na construção e toma invariavelmente más decisões com bola. A quantidade absurda de golos que marcou no campeonato holandês deve ser relativizada, tal como relativizado deve ser o seu real valor. Parece-me um jogador do estilo de Mateja Kezman, muito competente num campeonato em que se passa muito tempo perto das balizas, mas sem qualidade para grandes voos.

10. Diego Maradona e Dunga montaram equipas à imagem daquilo que foram enquanto jogadores. Por razões diferentes, nem um nem outro mostraram competência enquanto treinadores de futebol. Vem isto demonstrar que, para se ser treinador, não basta ter sido jogador, por mais genial que se tenha sido. Para Maradona, o futebol é estritamente individual e, nos dias que correm, só um milagre faria com que alguém com uma concepção do jogo deste tipo pudesse ser campeão do mundo.

11. Esta Espanha, ao contrário do que se tem dito, não é o Barcelona. Dito isto, é mais o Barcelona do que era a selecção de 2008, ao contrário do que também algumas pessoas pensam. A selecção de 2008 não trocava tanto a bola como esta, não se detinha tanto em passes e tabelas como esta; não tinha também mais do que três jogadores do Barcelona (Xavi, Iniesta e Puyol), enquanto esta tem seis ou sete; e, sobretudo, Guardiola ainda não era treinador do Barcelona na altura, com toda a revolução que isso acarreta. No entanto, o que é preciso frisar é que esta Espanha, ainda que tenha adoptado o estilo do Barcelona, não tem os automatismos da equipa de Guardiola. Assim, o que há de Barcelona nesta equipa é a quantidade absurda de jogadores do Barcelona no onze. A única coisa que esta selecção tem do Barcelona é as individualidades. Colectivamente, como disse, só o estilo é igual. Nem a competência na pressão, nem a mecanização sem bola, nem o esquema táctico são sequer parecidos. O que é igual é o estilo.

12. O estilo da Espanha é, ainda assim, a principal bandeira desta equipa. E se os espanhóis se sagrarem campeões do mundo, será porventura a vitória conceptual mais importante desde o início do século. O que os espanhóis têm mostrado ao mundo é que este estilo, este jogar para o lado e para trás, este brincar à rabia com os adversários, o ter e querer sempre a bola, a certeza do passe, a profusão de tabelas, o jogo de apoios e pelo centro do terreno é o modo mais eficaz de ser superior a qualquer adversário. Este estilo, ainda que somente o estilo, mesmo faltando toda a mecanização e entrosamento entre jogadores, mesmo faltando limar os mais diversos detalhes, é assim o primeiríssimo e mais importante princípio que uma equipa de topo deve ter. Os espanhóis, sem serem colectivamente uma equipa bem trabalhada, gozam do facto de terem jogadores que preferem jogar neste estilo. E essa preferência faz deles, quando juntos, o mais forte conjunto em prova.