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sábado, 3 de novembro de 2012

Elasticidade

Não é escassa a discussão, um pouco por todo o lado, em torno de sistemas tácticos. Para muitos, o sistema táctico é apenas um pormenor, e o desempenho de uma equipa depende muito mais das dinâmicas a que ela obedece; para outros, pelo contrário, o sistema táctico é absolutamente determinante. Confesso que ambas as hipóteses me parecem redutoras. Como é evidente, o 433 de José Mota é muito diferente do 433 de Guardiola, embora o desenho táctico seja igual. Daí não se segue, todavia, que a essência do Barcelona de Guardiola não esteja intimamente ligada ao desenho do 433. Aquilo que estou a querer insinuar é que, sem esse desenho, nada daquilo seria assim, ou seja, que embora o desenho táctico não seja suficiente para que uma equipa tenha qualidade, é-lhe necessário.

Um 433 rígido não é bom só porque é um 433. Se há coisa que caracterizou o 433 de Guardiola foi a sua absoluta elasticidade. Os extremos não eram extremos. Raramente eram eles quem dava profundidade e raramente tinham movimentos verticais. Muitas vezes, eram até médios por vocação quem jogava na posição de extremo, precisamente por causa dos movimentos interiores. O avançado também não era avançado, e, se quisermos, os médios não eram médios. Do meio-campo para a frente, havendo referências para cobertura e apoios, havia uma elasticidade tal que a equipa não obedecia a padrões de comportamento convencionais. Por elasticidade não se deve entender, no entanto, liberdade. Os jogadores, não estando presos a posições rígidas, não tinham também liberdade para tudo e mais alguma coisa. Aquilo que tinham era liberdade para esticar o desenho, para lhe conferir elasticidade e imprevisibilidade. Se há coisa que Tito Vilanova flagrantemente decidiu não continuar foi essa elasticidade. Daí a sua recusa, por exemplo, em adoptar o 343 de Guardiola (um sistema ainda mais elástico que usou, até agora, apenas uma vez, se não estou em erro, durante 15 minutos, e que não retomou, apesar do sucesso que teve), e em jogar com médios na posição de extremos. O seu 433 é muitíssimo mais rígido do que era o de Guardiola, e ainda que os jogadores mantenham hábitos de apoios e coberturas semelhantes, a equipa funciona ligeiramente pior precisamente porque não parece existir vontade de forçar a sua elasticidade. Com Vilanova, Messi manteve a sua liberdade. Mas isso talvez apenas porque é Messi. Os extremos são mais extremos do que nunca (tanto ou mais do que na primeira época de Guardiola), e foi-lhes retirada a iniciativa de virem para dentro. A equipa é mais previsível por ser menos elástica, por fomentar menos as combinações interiores e por deixar menos a cargo dos laterais a profundidade de que precisa.

Um dos principais méritos de Guardiola foi precisamente ter conseguido, de ano para ano, aumentar o nível de elasticidade da equipa (culminando com aquele extraordinário 343), sem que se rompesse o seu tecido táctico. Nesse aspecto, superou amplamente dois dos seus mestres, Louis Van Gaal (sobretudo pelo seu 343 losango no Ajax) e Marcelo Bielsa, cujas equipas são, sem dúvida, das mais tacticamente elásticas da História do jogo. Outros há, mais conservadores, que preferem não arriscar tanta elasticidade, temendo rupturas em tal tecido. É o caso de Vilanova, que tem a sorte, porém, de ter herdado uma equipa com processos formidáveis. Um terceiro grupo de treinadores existe para quem a elasticidade parece ser importante, mas que não sabem de que modo a podem fomentar sem que arrisquem descompensações. São os casos, a meu ver, de Jorge Jesus e de Wenger. Se Wenger tem o problema de, pretendendo uma elasticidade acima de tudo horizontal, muito parecida com a do Barcelona, com as movimentações a serem essencialmente do exterior para o interior, e de dentro para fora, não perceber como é que tal ideia se deve suportar em termos de coberturas, apoios e compensações, Jesus tem o defeito de gostar de uma elasticidade de tipo diferente, mais vertical, de permutas entre jogadores de sectores diferentes, com movimentos essencialmente de trás para a frente, o que provoca uma vertigem difícil de controlar e buracos tácticos difíceis de preencher. Bielsa, por sua vez, é um misto dos dois, virtuoso como ambos, mas com os defeitos, não tão acentuados, é certo, e muitas vezes potenciados por alguma falta de qualidade individual dos seus jogadores, de ambos.

Ora, dificilmente Guardiola conseguiria a agilidade táctica que conseguiu se não a tivesse fundado num sistema táctico como o 433 (ou mais tarde como o 343). Em 442 clássico, por exemplo, jamais conseguiria o jogo entre linhas que conseguiu, jamais conseguiria a quantidade de apoios centrais que conseguiu, jamais conseguiria ter sempre os jogadores juntos uns dos outros e juntos do local onde a bola está. O 433 permite, por definição, maior elasticidade do que um 442 clássico, embora haja equipas mais elásticas em 442 clássico do que em 433. O problema não está, pois, apenas nas dinâmicas da equipa, mas também, e muito significativamente, no sistema táctico que se adopta. Se o sistema de Wenger fosse o 433 (e não o 4231), se calhar não teria metade dos problemas que tem. Se Mourinho preferisse jogar com Modric ao lado de Kaká ou Ozil, e não ao lado de Xabi Alonso, se calhar o seu Real daria o salto qualitativo de que precisava. Em sentido contrário, parece-me ser, por exemplo, a grande mais-valia de Vítor Pereira. A elasticidade táctica de uma equipa depende muito das ideias do treinador, daquilo que é pedido aos jogadores, das características dos jogadores, e das dinâmicas treinadas. Mas, no limite, sistemas tácticos diferentes permitem níveis de elasticidade diferentes. Na minha opinião, o 433 (com um só médio-defensivo) e o 442 losango são das tácticas cujo potencial de elasticidade é maior, embora nenhuma delas supere o 343 losango. A equipa que não jogue em nenhum destes sistemas poderá ter processos de jogo interessantes (como a de Jorge Jesus ou de Arséne Wenger), poderá estar optimamente mecanizada (como o Real Madrid de Mourinho), poderá até ser extraordinariamente competitiva (como o Atlético de Madrid de Simeone), mas dificilmente atingirá a excelência. A consequência mais relevante dessa caraceterística a que estou a chamar "elasticidade" é a imprevisibilidade da equipa. Como é óbvio, elasticidade a mais pode provocar, para além de imprevisibilidade, caos e desorganização, pelo que o truque é perceber de que modo, em que condições, e em que medidas, deve ser desejada. Alguns sabem-no. E nenhum desses joga em 4231 ou em 442 clássico.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Abidal, Fabregas, a Vaidade e o 343 Losango de Guardiola

Queria começar por dizer que este texto é uma fusão de dois outros, um sobre a vaidade de um jogador de futebol, outro sobre o sistema táctico testado por Guardiola no primeiro jogo do campeonato. Tendo em comum o serem sobre o Barcelona, aproveito para falar das duas coisas ao mesmo tempo. Começando pela questão da vaidade, creio que haveria bastante a dizer nesse sentido. Vou tentar ser o mais resumido possível. Para muitos, sobretudo para aqueles que têm predilecção por ideais católicos, a ideia de um jogador vaidoso é pouco agradável. A vaidade é, para a grande maioria destas pessoas, sinónimo de egocentrismo, de falta de humildade e de incapacidade de sacrifício. Não concordo com isto, embora ache que há certos tipos de vaidade que signifiquem exactamente isso. Para mim, a vaidade é das coisas mais importantes num futebolista, para não dizer em qualquer pessoa que tenha ambições de qualquer tipo. Não obstante, há jogadores que usam a vaidade como um fim em si mesmo, e nestes, de facto, o atributo não é minimamente saudável: um caso flagrante será o de Mario Balotelli.

Não é destes, porém, que pretendo falar. Podia falar do caso de Diogo Rosado, jovem jogador emprestado pelo Sporting ao Feirense, que ainda há pouco mais de uma semana deu um recital na Luz, mas creio que, também nisto, é em Barcelona que os exemplos melhor frutificam. Compare-se o futebol de Eric Abidal há dois anos com o seu futebol actual. Tirando as parecenças morfológicas, eu diria imediatamente que se trata de outro jogador. A "lavagem cerebral" a que foi sujeito modificou-o radicalmente. E estamos a falar de um jogador na fase final da sua carreira profissional, um jogador que acumulou hábitos e vícios ao longo de todo o seu percurso. Abidal era um lateral certinho, forte do ponto de vista atlético e muito concentrado. Subia pela certa, arriscava pouco, e garantia à equipa solidez. Nos primeiros dois anos de Guardiola, não se modificou significativamente, e cheguei a sugerir que Maxwell era melhor opção que o francês, sobretudo pelo jogo interior que possibilitava. No final da segunda época e, sobretudo, no início da terceira, Maxwell "ganhou" o lugar de lateral esquerdo, e Abidal passou a ser mais utilizado como central do que como lateral. Penso que essas duas coisas terão influenciado decisivamente a mente de Abidal. Primeiro, terá percebido por que razão um jogador francamente mais débil do ponto de vista físico e menos sólido defensivamente lhe tinha roubado o lugar; depois, forçado a jogar numa posição que não era a sua, obrigado a pensar de uma maneira diferente, uma vez que o Barcelona força a saída pelos seus centrais e exige que estes entreguem sempre jogável, Abidal terá começado a modificar os seus hábitos e as suas crenças. Sensivelmente a meio da época passada, e ainda a central, Abidal revolucionou-se. E, de lá para cá, tem sido sempre a melhorar. Agora, joga com uma classe que não tinha, tanto a central como a lateral, deixou de esticar o jogo no extremo ou de devolver ao central; agora, fica com ela, vem para dentro, joga no meio, provoca o adversário que o vem pressionar, arrisca dentro da área, faz "cabritos" no meio de uma multidão. Num ano, motivado pelas circunstâncias que referi acima, Abidal compreendeu que lhe faltava, para poder servir esta equipa ao máximo, adquirir uma vaidade que nunca tivera. E hoje é, de longe, o melhor lateral esquerdo do plantel (para não ir mais longe), porque percebeu que este modelo de jogo exige de cada uma das suas unidades um certo envaidecimento.

Outro bom exemplo é o de Cesc Fabregas. Quem via Fabregas a jogar o ano passado, e sobretudo se se tivesse deliciado com o seu futebol no passado, percebia nele uma tristeza qualquer. A sua enorme qualidade continuava lá, mas havia qualquer coisa em Fabregas que se atrofiara. A meu ver, o espanhol foi melhorando progressivamente o seu futebol precisamente até à época transacta. É verdade que foi fustigado por algumas lesões, e que a época não lhe correu da melhor maneira, mas a sua evolução estagnou, a meu ver, por outras razões. É sabido que Fabregas ambicionava voltar à Catalunha no início da época passada, e que ter permanecido em Londres não o terá deixado satisfeito. Mas o que perdeu, penso, foi uma certa alegria em jogar. E perdeu-a porque percebeu que o seu futebol só poderia evoluir verdadeiramente no ambiente que o Barcelona de Guardiola propiciava. O que desapareceu, na época anterior, foi a sua vaidade de jogar, a vaidade de ser cada vez melhor. E desapareceu, em meu entender, porque percebia que, para se tornar cada vez melhor, para poder potenciar ao máximo as suas qualidades, teria de mudar de ares. Ainda que o Arsenal seja das equipas que mais privilegia o tipo de futebol de que gosta, era na Catalunha que iria encontrar dez almas-gémeas, dez colegas dentro de campo que compreendem tudo o que faz. Sem a vaidade. que só jogando num modelo como o do Barcelona, poderia voltar a ter, Fabregas acomodou-se, e, não fosse a mudança para Espanha esta época, acredito que pararia de evoluir. Na Catalunha, ainda é cedo para perceber até onde pode chegar. Mas é certo que está no local mais propício para continuar a sua afirmação enquanto jogador.

Sobre vaidade, é tudo. Ou quase tudo. Podia acrescentar, fazendo a ponte do tema anterior para o que se segue, que só com onze jogadores a quem foi incutido um certo tipo de vaidade era possível uma equipa jogar, com sucesso, num esquema táctico tão arrojado como o 343 losango. À demonstração de força do Real Madrid no sábado, com uma vitória categórica por 6-0 no terreno do Saragoça (e foram 6, mas podiam ter sido 10), uma demonstração de força que, apesar de tudo, carece de consolidação, uma vez que o adversário facilitou em demasia o trabalho dos merengues, respondeu o Barcelona com uma das maiores lições tácticas dos últimos 20 anos. Pela frente, não tinha um adversário desorganizado, que defendia apenas com cinco jogadores, que não formava uma linha defensiva, que não tinha preocupações com coberturas, que não juntava os sectores, como o teve o Real Madrid no dia anterior. Tinha, sim, o quarto classificado do ano passado, uma equipa muito bem organizada, com excelentes princípios de jogo, com os sectores bem juntos, colectivamente forte. E o que fez Guardiola? Aproveitou as ausências forçadas de alguns titulares do sector defensivo para testar o seu 343, com que jogará certamente muitas vezes esta época. Os resultados do teste, adiante-se, não poderiam ter sido melhores.

O sistema não é um 343 vulgar, ou seja, um 343 em linha, nem o 343 utilizado por Marcelo Bielsa na selecção chilena, que, embora em losango, utilizava alas. É um 343 losango à Cruyff, no Barcelona, e à Van Gaal, no Ajax, um sistema que caiu em desuso nos últimos 15 anos, principalmente, a meu ver, pelos excessivos riscos de uma linha de 3 defesas, e pela natural evolução táctica do jogo. Hoje em dia, com a evolução que o jogo teve, só uma equipa muito competente a pressionar pode dar-se ao luxo de jogar neste esquema sem correr sistematicamente o risco de ver os avançados adversários enfrentar os seus 3 defesas. Por essa razão, desapareceram praticamente os sistemas tácticos com 3 defesas. Mas, se há equipa em que isso parece poder ser uma realidade, essa equipa é o Barcelona. Mas quais são as vantagens deste sistema táctico, em relação ao habitual 433, ou 442 losango? A meu ver, são vários. Não falando da saída de bola, aquando do pontapé de baliza, que passa a ter pontos de referência diferentes, creio que é a nível de pressing e a nível de formação de apoios em zonas mais ofensivas que se encontram as principais vantagens. Neste esquema, a pressão é mais alta, feita com mais homens na zona da bola, e é mais eficaz a constranger toda e qualquer circulação baixa. Contra equipas que preferem sair a jogar, que gostam de trabalhar o jogo, como o Villareal, penso que os resultados só podem ser positivos, como foram. Falta testar contra equipas que joguem mais directo, contra adversários que não tenham a preocupação de construir desde trás. Mas mesmo aí, penso, a profundidade não fica mais desguarnecida por se jogar com uma linha defensiva de três jogadores e não com uma linha de quatro, desde que a equipa recupere toda em bloco. Além disso, e porque as coisas estão ligadas, ao jogar assim o Barcelona "arrasta" sistematicamente mais adversários para zonas recuadas, tornando menos eficaz a resposta destes quando recuperam a bola. No que diz respeito aos apoios, em situação ofensiva (e aqui parece-me, de facto, a grande virtude do sistema), o Barcelona passa a jogar não só com um jogador a entrar nos espaços entre linhas, como até aqui, mas com dois. Formando um losango no meio-campo, ganha uma estrutura de apoios de maior densidade, e torna ainda mais fácil o futebol de toque curto da equipa, em organização ofensiva, e a tendência para fazer da bola um engodo. Contra o Villareal, foi assustador o modo como a equipa encostou literalmente o adversário à sua área, mesmo tendo este o desígnio de não fazer descer a linha defensiva abaixo de um determinado ponto. O Barcelona só jogou 60 minutos (a partir daí descansou com bola), acumulou uns impressionantes 71% de posse de bola contra a melhor equipa espanhola, a seguir aos catalães, a trabalhar a bola, venceu por 5-0, mas, mais do que isso, empurrou ostensivamente uma das equipas mais bem preparadas em termos tácticos para onde bem lhe apeteceu. O domínio foi, por isso mesmo, avassalador. Mais até do que esta equipa já nos tinha habituado. É uma demonstração inequívoca de força, sim, mas, mais do que isso, é mais uma lição táctica, mais uns quantos preconceitos quebrados, mais uma manifestação de como há ainda caminhos por desbravar, em termos conceptuais, no que diz respeito ao jogo.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Tácticas (1) - O Bife

Antes de começar, devo avisar o leitor que esta é uma rubrica séria. Estava pensada para falar sobre tácticas, sobre o 442, o 433, por exemplo, e a seu tempo esse será o intuito. Hoje, porém, tinha o sono trocado e decidi escrever um texto... vá lá... trocado... E quero falar dessa táctica maravilhosa que é... o Bife...

Quem é a grande mente por trás deste sistema? Aquele que ficou conhecido, enquanto jogador, pelo pontapé-canhão e que, enquanto treinador, ambicionará, por certo, o epíteto de cérebro-canhão: a cada sinapse, uma bomba de ideias... e cheiro a queimado... Falo obviamente de Ronald Koeman. O timoneiro holandês, que noutra vida terá afundado cada navio que comandava, chegou a época passada à Luz e fez um trabalho - chamemos-lhe assim - esquisito. Deixou a equipa em terceiro, nada que outros treinadores não tivessem feito, e levou-a até aos quartos de final da Champions, feito pelo qual se pensava na sua renovação. Antes que mudassem de ideias, preferiu abandonar o navio e voltar a casa, não fosse a segunda época correr ainda pior. Disseram - e ainda dizem - que é de aplaudir o que obteve. Não consigo entender porquê. Devo lembrar que um homem não é aquilo que alcança, mas a forma como o faz. É muito mais fácil ser culto de terno e gravata, ou ser justo e bom se tiver o que comer. Não me apetece enumerar todos os treinadores que ganharam coisas em clubes que tinham possibilidades de o fazer, mas que nem por isso têm qualquer mérito. Quer dizer, até me apetece. António Oliveira, Artur Jorge, Alex Ferguson, Del Bosque, etc. Fiquemos por aqui. Bom, não falemos do campeonato. Na Liga dos Campeões, Koeman chegou aos quartos de final. Como? Retrocedamos um pouco. A duas jornadas do fim da primeira fase, estava em último no grupo, com 4 pontos. O Lille e o Manchester tinham 5 pontos, o Villareal 6. Acontece então que o holandês se lembra de ir a França jogar - pasmem-se - à defesa. O último classificado, a duas jornadas do fim, com uma equipa francamente acessível, vai ao reduto destes à procura do 0-0. E conseguiu-o. Como é que ele fez isto? Com 2 centrais, 4 laterais e 3 trincos. Inaudito! Com que intenção fez Koeman isto? Simples. Deixar a decisão do grupo para a última jornada, altura em que o Benfica recebia o Manchester. O que o cérebro de Koeman não conseguiu atingir foi que, nessa mesma noite, caso o Manchester vencesse em casa o Villareal, algo francamente provável, a passagem na eliminatória já não dependia somente da sua equipa. Ou melhor, poderia depender, mas teria de ganhar o jogo por mais de 1 golo de diferença. Acontece, porém, que Manchester e Villareal empatam. Sai a sorte grande ao holandês. Agora bastaria vencer o Manchester pela margem mínima, coisa que qualquer clube no mundo deve ambicionar, sobretudo um que joga com 3 médios defensivos. E o que aconteceu? Ganhou mesmo. Como? Com 20 minutos bons e 70 de pontapé para a bancada, contra uns ingleses desinspiradíssimos. Nos oitavos, o poderoso Liverpool. Não poderia ter calhado melhor. Uma equipa inglesa, muito equilibrada defensivamente, mas sem ponta de criatividade, que pratica um futebol directo, ideal para os defesas do Benfica, altos e bons no jogo aéreo. Num lance de bola parada, um golo, e 1-0 na primeira eliminatória, num jogo paupérrimo de lado a lado. Com esta configuração, o Liverpool tinha de ir à procura de um golo, coisa em que não é, de todo, uma equipa capaz. Fê-lo. Enviou 2 bolas ao poste. Depois o Benfica fez um golo... e acabou a eliminatória. Ainda haveria de marcar mais um, deixando para a história um total de 3-0 ao Liverpool, coisa que os estultos gostam de lembrar, imaginando tratar-se de um feito louvável. Chegou aos quartos de final e, por esta altura, nem toda a sorte do mundo lhe poderia valer. Ainda conseguiu adiar as decisões para o segundo jogo, mas Ronaldinho e companhia não deixaram os créditos por mãos alheias. No final, campanha interessante, ao colocar o Benfica honrosamente entre os últimos oito.

Já esta época, Koeman herdou o melhor plantel holandês, a equipa mais equilibrada, fruto de um trabalho bem conseguido por Hiddink. Levou novamente a sua equipa aos quartos de final da Champions. Vejamos como o fez. Na fase de grupos, Liverpool, Galatasary e Bordéus. Resultado: segundo lugar. Nada de extraordinário. Nos oitavos, enfrenta o Arsenal, finalista vencido da edição anterior. Consegue um bom resultado em casa, vencendo por 1-0. Na segunda eliminatória, voltava a precisar apenas de um golo. O Arsenal massacrou, massacrou, massacrou. Enviou bolas ao poste, bolas ao poste, bolas ao poste... Até que conseguiu marcar um golo. Mas, já no final, de novo num lance de bola parada, a sorte sorriu uma vez mais a Koeman, e o PSV passou aos quartos. O que aconteceu aqui? Foi cilindrado pelo Liverpool. E no campeonato? Bom, no campeonato chegou a ter onze pontos de avanço. E como qualquer treinador de sucesso, desperdiça onze pontos para dar emoção à coisa e parte para a última jornada em terceiro, a depender dos outros, como gosta. Van Gaal consegue perder a liderança do campeonato e a mais que provável vitória do mesmo, perdendo o desafio. Já o Ajax, ganhou. Mas o PSV de Koeman também ganhou e os dois ficaram empatados pontualmente. Como decidir então quem era campeão? Recorrendo à prática comum e - arrogo dizê-lo - a mais justa, desempatando através do registo do confronto entre as duas equipas em questão? Não, nada disso. Se assim fosse, o Ajax, que tinha esmagado não há muito tempo o PSV com esclarecedores 5-1, seria campeão. Na Holanda, o primeiro factor de desempate é a diferença entre golos marcados e sofridos e, feitas as contas, o PSV tinha mais um golo que o Ajax. Koeman sagrou-se campeão por um golo. Feito notável, para quem tinha a melhor equipa, o clube mais estável, e onze pontos de avanço...

Em dois anos, Koeman conseguiu ganhar o respeito de quem acompanha o futebol. De quem acompanha mal, acrescento eu. Feitos e títulos não são certificados de habilitações. Koeman atingiu o que atingiu sempre a par da sorte, esse elemento tão previsível. Confesso que não vi o PSV jogar senão contra o Liverpool. Mas vi o que fez no Benfica e tudo indica que não mudou muito. Tacticamente, é um horror. Preferir 3 médios defensivos numa equipa grande é, na minha opinião, uma demonstração inequívoca de falta de categoria. Há quem me diga que são gostos. Talvez sejam, mas os gostos também se discutem, ao contrário do que se pensa. Poderia chamar muita coisa ao sistema táctico empregado por Koeman: leite, vaca, etc... Prefiro chamar-lhe bife... São gostos. Koeman também quis dispensar Nuno Assis, esqueceu-se de Karagounis e recusou a contratação de Van der Vaart. Preferiu o Beto para número 10. São gostos...