quinta-feira, 23 de abril de 2020
Guardiola e a dupla herança de Cruyff
Escrito por Nuno às 20:10:00 3 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Busquets, Cruyff, Guardiola, Raciocínios Tácticos, Tribuna Expresso
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Sergio Busquets: o futebolista do futuro
É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.
Escrito por Nuno às 09:39:00 2 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Busquets, Lances, Messi, Raciocínios Tácticos
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Ficar com a bola enquanto for preciso
Escrito por Nuno às 11:49:00 11 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Busquets, Lances, Messi, Raciocínios Tácticos
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A avalanche
Fica o vídeo dos primeiros 4 minutos do jogo frente ao Sevilha. As imagens deverão ser esclarecedoras. Se não forem, diga-se ao menos que foram 4 minutos de atropelamento, com o Barcelona a jogar, a trocar a bola cada vez mais perto da baliza adversária, a progredir no terreno, a criar oportunidades de golo, e o Sevilha a correr atrás da bola. A avalanche foi de tal modo intensa que, quando o golo surge, a sensação de inevitabilidade era óbvia. Quando houver outra equipa com a capacidade para fazer 4 minutos tão demolidores como estes, ainda por cima jogando quase a passo, avisem.
P.S. A forma como Sergio Busquets antecipa o que os adversários vão fazer e a forma como se coloca em campo e como reage ao modo como os adversários atacam é genial. É o exemplo máximo de inteligência em momento defensivo. Tem a perfeita noção de quando deve atacar o lance e de como o deve fazer. Com pezinhos de lã, está no sítio certo à hora certa para impedir a transição, para fechar espaços, para roubar bolas. É de longe, mas de muito muito longe, o melhor médio defensivo da actualidade.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Sergio Busquets e o 343 de Guardiola
O futebol de Busquets começou por ser correcto e simples. As suas decisões, não raro as melhores, eram a sua imagem de marca. Não inventava, não complicava; tudo o que saía dos seus pés era simples. A matemática exacta do seu jogo, não sendo este muito extravagante, muito imaginativo, de levantar estádios, sustentava-se por si mesma. Para a posição que ocupava em campo, era, mais do que suficiente, aconselhável. Um médio-defensivo deve ser um jogador de toque curto, de apoios, um jogador que consiga municiar os médios mais criativos sem comprometer, que consiga fazer fluir o jogo atacante o mais rapidamente possível, embora sem se precipitar. Busquets fazia isto tudo e a equipa agradecia. Dificilmente poderia fazer mais. E já a época passada defendíamos que, apesar da sua imaturidade, tornava o futebol do Barcelona mais inteligente do que quando no seu lugar se apresentava Yaya Touré. Volvida que está a primeira volta do campeonato espanhol, Busquets apresenta-se como primeira opção para Guardiola, tendo relegado para o banco de suplentes o costa-marfinense. Mas o catalão não se ficou por aqui. A sua tenra idade permite que continue a evoluir. E à magia da simplicidade de processos, aos pezinhos de lã com que joga, juntou agora a classe e os números dos predestinados. Têm sido habituais, para quem tem visto os jogos do Barcelona, algumas ousadias de Busquets, toques de calcanhar, fintas em zonas complicadas, números artísticos colectivamente eficazes. E tudo isto sem sacrificar a eficácia e a qualidade das suas decisões. O menino certinho, bem comportado, parece ter dado lugar ao adulto emancipado, com um autodomínio assinalável e competências antes ignoradas.
Tomei a liberdade de resgatar o vídeo acima do extraordinário blogue Paradigma Guardiola. É composto de várias intervenções de Busquets no último jogo do Barcelona para o campeonato, frente ao Villareal, sendo que algumas dessas intervenções corroboram o que acima foi dito. A qualidade de Busquets com bola e a sua evolução em termos mentais terá mesmo permitido a Guardiola utilizá-lo de um modo que, antes, não acreditava ser possível. Guardiola preparou a equipa, no início desta época, para jogar em 343 sempre que isso fosse recomendável. Com efeito, quando com 4 defesas, o Barcelona, para sair a jogar, faz subir muitíssimo os laterais e abre os centrais. A bola sai então num dos centrais, que deve dar início ao processo ofensivo. Acontece, porém, que equipas que pressionem muito alto e com dois avançados podem constranger esta estratégia usando cada um dos avançados para pressionar os dois centrais catalães. Prevendo essa situação e para não abdicar de sair a jogar desde a defesa, Guardiola projectou a equipa para se estender no campo em 343 quando a bola está no seu guarda-redes. Assim, sempre que se justificasse, o médio-defensivo baixava, ocupando o centro da defesa que estaria vago pela abertura dos centrais, e os laterais subiriam para a linha dos dois médios-ofensivos. No início da época, vimos o Barcelona optar por esta estratégia várias vezes, mas sempre com Yaya Touré. Talvez porque isso não era treinado com Busquets, sempre que o médio catalão jogava, o Barcelona não optava por este método, mesmo quando o mesmo se justificava. Com o Villareal, contudo, várias foram as vezes que Busquets baixou para a linha dos centrais, de modo a ocupar um espaço livre, dada a pressão altíssima protagonizada pelos avançados adversários. Acredito que a inclusão de Busquets nesta estratégia não tem apenas a ver com o facto de o jovem parecer ter agarrado a posição, mas sobretudo com o facto de ter já maturidade suficiente para que não seja um risco entregar-lhe a bola sendo o último homem.
Posto isto, falta falar da utilidade do 343 de Guardiola e de como o Barcelona, mesmo utilizando essa estratégia, acabou por não se conseguir soltar das amarras da pressão da equipa de Ernesto Valverde. Creio que a estratégia é especialmente útil para facilitar ao Barcelona a saída de bola, sempre que pressionado em cima. Baixando o médio-defensivo, cria uma situação de superioridade numérica e pode começar a construir sem ter de recorrer a passes mais longos. Importa, por isso, que depois dessa primeira fase o médio-defensivo reocupe o seu lugar natural, aproximando-se dos médios-ofensivos para lhe dar os devidos apoios. O jogo contra o Villareal, porém, não é exemplo. O jogo não correu bem aos catalães por várias razões. Em primeiro lugar, falharam-se muitos passes, alguns deles em zonas complicadas. Isso fez com que a equipa não tivesse tanta bola e, sobretudo, que se intranquilizasse. Fora isso, seria plausível que uma equipa como o Barcelona, fazendo uso da estratégia do 343, conseguisse anular a pressão alta do adversário e fosse capaz de sair a jogar, de pé para pé, de forma faseada, sem saltar etapas. No entanto, o Barcelona poucas vezes o conseguiu fazer. A forma como o Villareal pressionava nem sequer era exemplar, muito focada nas individualidades. Em 442 clássico, os dois avançados atacavam os dois centrais do Barcelona, os alas fixavam-se nos laterais e os médios nos dois médios-ofensivos do Barça. Às vezes, quando Busquets baixava, um dos médios saía para pressioná-lo. Nestas alturas, o médio do Barça que ficava solto deveria ter aproveitado para procurar receber a bola. Creio que faltou, acima de tudo, maior movimentação dos dois médios-ofensivos e essencialmente a passagem da primeira fase de construção à segunda. Não conseguindo ligar os defesas e Busquets aos médios-ofensivos, o Barça foi recorrendo cada vez mais aos lançamentos longos para Ibrahimovic, acabando por não conseguir permanecer com a posse de bola, como tanto gosta. Concedendo maior mobilidade aos médios-ofensivos quando a equipa tinha a bola na defesa ou em Busquets, o Barcelona teria certamente desamurrado as marcações e criado buracos importantes no meio-campo. Por exemplo, poderia ter sido estratégia obrigar Xavi, que era quem estava mais policiado, a movimentar-se, sem bola, numa diagonal para a ala esquerda, por exemplo. Levaria, pelo menos momentaneamente, o seu adversário com ele, o que daria espaço, por exemplo, para Ibrahimovic baixar e receber de costas para a baliza, e servir de apoio vertical. As solicitações para o sueco seriam assim pelo chão e mais curtas, facilitando-lhe a vida. Entrando a bola em Ibrahimovic, estaria feita a ponte da primeira para a segunda fase de construção. Depois disto, fazia sentido o sueco jogar de frente com Jonathan dos Santos ou obrigar Pedro a aproximar-se de Ibrahimovic para que ele lhe desse a bola.
Estas são apenas algumas possibilidades estratégicas que teriam sido proveitosas para desbloquear aquele que me pareceu o principal problema do Barça no desafio, a capacidade de fazer a bola entrar em condições jogáveis na zona intermediária do adversário. O papel de Busquets, nessa manobra, como já o disse, foi importante. Mas mais importante ainda é o Barcelona saber que pode contar com ele para este tipo de soluções. O seu crescimento está à vista e a sua qualidade parece cada vez mais. Para terminar com chave-de-ouro, arrisco-me a dizer que será um dos grandes nomes deste desporto durante a próxima década.
Escrito por Nuno às 18:44:00 15 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Busquets, Guardiola, Lances, Raciocínios Tácticos
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Futebol fora de época...
É um exercicio engraçado imaginarmos certos jogadores a "florescer" num ambiente que não aquele em que os descobrimos. Embora a evolução dos mesmos enquanto jogadores não fosse possível, se estes se encontrassem num ambiente totalmente diferente. Mas será que, mesmo por um mero acaso, isto fosse possível, isto é, se estes conseguissem atingir o nível que apresentam nos seus clubes, será que receberiam o mesmo reconhecimento noutros clubes, ainda que a maior parte dos outros clubes fosse de um nível, incomparavelmente inferior? Provavelmente não.
Se nos debruçarmos sobre o caso do jogador Sergio Busquets, facilmente percebemos que o facto de ele se "emancipar" só é possível por se encontrar numa equipa num "estádio" de desenvolvimento superior às demais. Dificilmente este jogador poderia "crescer" numa equipa como o Sporting, pelo menos neste momento, ou até em qualquer equipa do meio da (nossa) tabela. Da mesma forma, mais facilmente vemos um jogador como Liedson alcançar sucesso na Liga Inglesa, por exemplo, do que um jogador como Postiga. Postiga, em várias coisas me lembra Barbosa, Pedro Brabosa. Não só pela excelência do seu futebol, mas muito pelo seu "deslocamento" perante grande parte dos que o rodeiam. Porque corre quando deve, toca quando deve, dribla quando pode, não chama para si as atenções dos exageros que não comete. Em contrapartida, este jogador teria, sem ponta de dúvida, mais condições para ter sucesso numa equipa mais evoluída, como o Barcelona, do que o Levezinho.
A explicação está no desenvolvimento do conceito de futebol que habita nestes dois jogadores: um joga para o povo, da forma mais primitiva que existe (mas é também a única que a grande maioria dos adeptos sabe apreciar); o outro joga para si e para aquilo que entende ser o melhor para a equipa. O problema é que a percepção de jogo que possui é demasiado "erudita" para o futebol que o acolhe.
Adam Smith defendeu o seguinte: "só as qualidades de espírito são capazes de conferir uma autoridade entre iguais (...) São, porém, qualidades invisíveis, sempre sujeitas a contestação, e efectivamente contestadas em geral (...)"
Esta afirmação, ainda que derive de alguém que não tenha qualquer tipo de relacionamento com o desporto-rei, aplica-se de forma bastante pertinente às idiossincrasias do mesmo.
Um solução inteligente muitas vezes não requer exuberância físico/técnica, o que impede o devido reconhecimento da execelência da resolução em causa. Soluções que não sejam sustentadas por uma interpretação, ou decisão, tão correcta, mas que ponham em foco qualidades fisico/técnicas estão ao alcance de todos. Já um jogador que possua um entendimento superior do jogo só tem hipotese de ser reconhecido se os agentes futebolísticos que o rodeiam (treinadores, jogadores, adeptos, etc.) tenham eles próprios uma concepção evoluída do jogo.
Não é exclusivo do futebol a existência de pessoas com uma visão de tal forma evoluída, na área em que estão inseridos, que dificilmente são "agraciados" com o reconhecimento contemporâneo.
O problema é que, ao invés de outros exemlos, não é possivel ao jogador deixar obra se não estiver inserido no "ambiente correcto", para se poder prestar o devido reconhecimento numa época posterior, uma época que se mostre "capaz" de tal feito.
Um jogador, enquanto parte de um todo, está sempre condicionado pelo mesmo e, se o todo é demasiado primitivo para poder absorver as qualidades do mesmo, dificilmente as qualidades desse jogador serão aproveitadas e reconhecidas. Dai que se preste vassalagem a jogadores como Pelé, e outros, em detrimento de jogadores como Custódio, Farnerud, etc.
Escrito por Gonçalo às 05:29:00 2 bolas ao poste
Etiquetas: Busquets, Destaques Individuais, Raciocínios Tácticos