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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Guardiola e a dupla herança de Cruyff

Em mais uma crónica na Tribuna Expresso, que de certo modo dá continuação à anterior, falo agora sobre o modo como a revolução protagonizada por Cruyff prosseguiu no trabalho de Guardiola. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sergio Busquets: o futebolista do futuro

Imaginem que são um médio-defensivo, que recebem a bola de costas no meio-campo, com a equipa adversária completamente organizada atrás e que, olhando apenas por cima do ombro, descobrem um modo de deixar o jogador mais talentoso da equipa perfeitamente enquadrado para atacar a última linha adversária. Parece impossível, mas foi o que Sergio Busquets fez em Camp Nou no fim-de-semana passado, no primeiro golo do Barça. Tudo no modo como fez a bola chegar a Messi, mas tudo mesmo, foi deslumbrante. A aparente facilidade com que o fez, então, é o sinal inequívoco do seu brilhantismo. Reparem que Busquets não está de frente para o lance, que não pode decidir a direcção do passe à última da hora. Ao olhar por cima do ombro, num primeiro momento, há uma linha de passe aberta para Messi, entre o ala esquerdo e o médio-centro do lado esquerdo do Girona. Se a bola entrasse aí, porém, o ganho não seria decisivo. Mas é essa a linha de passe mais convencional, aquela pela qual optaria a maioria dos jogadores. E já nem estou a falar de jogadores banais. Esses passariam para o lado, ou procurariam fazer a bola chegar aos flancos. Um bom jogador, um que perceba a vantagem de fazer a bola entrar verticalmente entre as linhas adversárias, escolheria essa linha mais convencional. Mas um jogador excepcional como Busquets pensa de outro modo. Entre o momento em que olha por cima do ombro e o momento em que a bola sai do seu pé, há tempo suficiente para que as circunstâncias do lance se alterem. E Busquets sabe isso. Sabe também que os adversários não ignoram essa linha de passe, e que se preparam para reagir à previsível entrada da bola nessa zona. E sabe ainda que Messi também sabe todas essas coisas, e que se encarregará de lhe dar oferecer uma linha de passe alternativa. Ao olhar por cima do ombro, Busquets vê tudo isso: vê uma linha de passe relativamente óbvia, vê aquilo que os seus adversários se preparam para fazer e vê o espaço que existe para Messi explorar alternativamente. E não faz o passe logo porque precisa de dar tempo aos adversários para tomarem consciência da linha de passe mais óbvia e porque precisa de dar tempo ao próprio Messi para perceber qual o melhor espaço a atacar.




É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ficar com a bola enquanto for preciso

A jogada é a do quinto golo do Barcelona, no passado fim-de-semana, em San Mamés, e tem sido amplamente elogiada sobretudo por aquilo que Messi fez. É possível, porém, dizer tantas coisas acerca dela que não resisto a trazê-la à discussão. Sim, deve elogiar-se o trabalho do argentino, que pôs meia equipa do Athletic de Bilbao a andar atrás de si antes de provocar a ruptura decisiva com o passe para Busquets. Mas não é tudo o que deve dizer-se acerca do lance. A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer.



A última coisa de que quero falar é da desmarcação de Busquets. Enaltecer as decisões de Messi sem lembrar a decisão de Busquets de solicitar aquele passe é tremendamente injusto. Sem ela, o lance não teria dado golo e ninguém elogiaria agora Messi. Pelo contrário, dir-se-ia que Messi se agarrara em demasia à bola, que desperdiçara linhas de passe e que permitira à defesa adversária controlar o lance sem grandes problemas. Para fazer um passe, como para dançar o tango, são precisas duas pessoas. Nenhum jogador, por melhor que seja, joga sozinho, e nenhuma boa decisão depende apenas de um jogador. Busquets é médio defensivo e, normalmente, é responsável por dar apoios recuados. Quando muito, oferece uma solução lateral ao portador da bola. E, naquele lance, poderia ter-se limitado a dá-la. Busquets percebeu, no entanto, que no momento em que Messi decide passar entre os dois jogadores adversários, havia uma melhor decisão do que ficar à espera do passe lateralizado do argentino; percebeu que, se iniciasse a marcha naquele momento e passasse nas costas do lateral, Messi iria ter uma linha de passe perfeita, instantes de segundo depois, entre o central e o lateral. Ao perceber as circunstâncias do lance, e aquilo que elas lhe pediam, Busquets percebeu que a melhor decisão que tinha a tomar, para facilitar a decisão do seu colega, era solicitar a bola naquele espaço. A isto chamo capacidade de leitura. O movimento de Busquets é profundamente atípico no jogador catalão e ninguém lhe levaria a mal que fizesse aquilo que está mais habituado a fazer, que seria oferecer uma linha de passe segura. Mas Busquets não é um jogador qualquer. A sua capacidade de leitura dos lances é muito acima da média, e aquilo que fez demonstra-o bem.

Quando se voltar a criticar um jogador que, não provocando duelos individuais, demora muito a soltar a bola, pense-se primeiro no que esse jogador está verdadeiramente a fazer. Leiam-se as circunstâncias e veja-se se, por acaso, ele não estará a pensar bem, se não estará à espera de uma solução mais fiável, de um linha de passe melhor, de um desequilíbrio da equipa adversária. E olhe-se bem para o jogo, quando isso acontecer. Que se tenha a capacidade de ver se, além de tudo isso, os colegas do portador da bola estão a fazer tudo o que devem para que ele possa tomar a melhor decisão possível. Não é nada incomum que um jogador, sobretudo um jogador inteligente, se agarre à bola sobretudo por ter intuído qualquer coisa que os colegas não intuíram ou que, tendo intuído, acharam arriscado pôr em prática. A intuição que esse jogador teve pode ser muito boa, mas, se os colegas não a facilitarem, será ineficaz. E quem é criticado é, geralmente, quem não se desfez da bola a tempo. Um bom jogador - dizem - joga bem em qualquer campo e em qualquer equipa. Não podia estar mais em desacordo. Qualquer jogador, sobretudo aquele que se destaca pelos aspectos intelectuais, é aquilo que a equipa em que joga lhe permitir ser. Numa equipa fraca do ponto de vista intelectual, um jogador inteligente só ocasionalmente se destaca pela sua inteligência. Sempre que faz ou tenta fazer algo que vai para lá das capacidades intelectuais dos que o rodeiam ou das capacidades colectivas da equipa em que está inserido, é incompreendido. Para os que não o compreendem, a imaginação com que joga e que, em equipas a sério, é o atributo mais requisitado, é invariavelmente descrita como egoísmo.

P.S. O blogue tem funcionado a meio-gás nos últimos meses e continuará a funcionar assim durante mais algum tempo. A todos os seguidores, a única coisa que posso prometer é que, a partir de Setembro, passará a ser possível escrever com mais regularidade.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A avalanche

Há quem fale em crise, quem diga que o Barcelona, este ano, está mais fraco, e patetices parecidas. Acredito que as pessoas que o dizem não têm visto os jogos e que, olhando para os resultados, e comparando-os com os de épocas anteriores e, sobretudo, com os do Real Madrid, achem que há qualquer coisa de inferior. Não há. Aliás, exceptuando o desafio perdido em casa frente ao Hércules, o Barcelona tem sido sempre superior e nunca teve uma vitória em causa. Em vários jogos, e sobretudo porque Guardiola começou a época a gerir esforços, a equipa tem preferido ser menos massacrante e mais cautelosa e ponderada. Mas, quando é preciso passar 90 minutos a jogar à rabia com os adversários, o Barcelona continua impecável. Na semana passada, a goleada imposta ao Sevilha revela isso mesmo. Mais do que a goleada, a forma quase humilhante como os sevilhanos foram vergados é elucidativa. As pessoas esquecem-se que o Real Madrid só ainda jogou contra dois dos primeiros dez classificados da Liga Espanhola, Mallorca e Espanyol. Esquecem-se igualmente que, dos 9 jogos do Barcelona no campeonato, 5 foram contra equipas de entre esses mesmos dez. Esquecem-se, por fim, que o Barcelona já jogou e venceu, em casa, o Valência e o Sevilha, e que já passou incólume nas deslocações dificílimas ao terreno do Athletic de Bilbao e do Atlético de Madrid. Uma revisão do calendário talvez não fizesse mal aos papagaios que pensam que podem descobrir os mistérios do universo olhando simplesmente para resultados.



Fica o vídeo dos primeiros 4 minutos do jogo frente ao Sevilha. As imagens deverão ser esclarecedoras. Se não forem, diga-se ao menos que foram 4 minutos de atropelamento, com o Barcelona a jogar, a trocar a bola cada vez mais perto da baliza adversária, a progredir no terreno, a criar oportunidades de golo, e o Sevilha a correr atrás da bola. A avalanche foi de tal modo intensa que, quando o golo surge, a sensação de inevitabilidade era óbvia. Quando houver outra equipa com a capacidade para fazer 4 minutos tão demolidores como estes, ainda por cima jogando quase a passo, avisem.

P.S. A forma como Sergio Busquets antecipa o que os adversários vão fazer e a forma como se coloca em campo e como reage ao modo como os adversários atacam é genial. É o exemplo máximo de inteligência em momento defensivo. Tem a perfeita noção de quando deve atacar o lance e de como o deve fazer. Com pezinhos de lã, está no sítio certo à hora certa para impedir a transição, para fechar espaços, para roubar bolas. É de longe, mas de muito muito longe, o melhor médio defensivo da actualidade.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sergio Busquets e o 343 de Guardiola

Busquets apareceu numa altura em que, por azar, ainda o Entre Dez não se preocupava em escrever sobre jovens talentos que não os portugueses. Se assim não fosse, teria certamente constado de entre os vários jogadores já avaliados na rubrica "Certezas". Desde os primeiros jogos que nos pareceu ser um jogador de qualidade inegável e alguém que, mais tarde ou mais cedo, se iria impor na alta roda do futebol europeu. Confesso que a minha referência actual como médio-defensivo, aquele jogador que me encanta como me encantaram Redondo, Guardiola e Paulo Sousa, por exemplo, não faz sequer parte dos principais planos da sua equipa, sendo o terceiro médio-defensivo do seu plantel. Falo de Gago. Não estando a jogar, é difícil prever a sua evolução e não sei que jogador será daqui a uns anos. Como tal, a referência volta a ser Andrea Pirlo. O que tem o jovem catalão, então, a ver com Pirlo? O facto de ser aquele que, no futuro, me parece ter melhores condições para seguir o legado do italiano, tendo em conta que Gago permanece ignorado em Madrid.

O futebol de Busquets começou por ser correcto e simples. As suas decisões, não raro as melhores, eram a sua imagem de marca. Não inventava, não complicava; tudo o que saía dos seus pés era simples. A matemática exacta do seu jogo, não sendo este muito extravagante, muito imaginativo, de levantar estádios, sustentava-se por si mesma. Para a posição que ocupava em campo, era, mais do que suficiente, aconselhável. Um médio-defensivo deve ser um jogador de toque curto, de apoios, um jogador que consiga municiar os médios mais criativos sem comprometer, que consiga fazer fluir o jogo atacante o mais rapidamente possível, embora sem se precipitar. Busquets fazia isto tudo e a equipa agradecia. Dificilmente poderia fazer mais. E já a época passada defendíamos que, apesar da sua imaturidade, tornava o futebol do Barcelona mais inteligente do que quando no seu lugar se apresentava Yaya Touré. Volvida que está a primeira volta do campeonato espanhol, Busquets apresenta-se como primeira opção para Guardiola, tendo relegado para o banco de suplentes o costa-marfinense. Mas o catalão não se ficou por aqui. A sua tenra idade permite que continue a evoluir. E à magia da simplicidade de processos, aos pezinhos de lã com que joga, juntou agora a classe e os números dos predestinados. Têm sido habituais, para quem tem visto os jogos do Barcelona, algumas ousadias de Busquets, toques de calcanhar, fintas em zonas complicadas, números artísticos colectivamente eficazes. E tudo isto sem sacrificar a eficácia e a qualidade das suas decisões. O menino certinho, bem comportado, parece ter dado lugar ao adulto emancipado, com um autodomínio assinalável e competências antes ignoradas.



Tomei a liberdade de resgatar o vídeo acima do extraordinário blogue Paradigma Guardiola. É composto de várias intervenções de Busquets no último jogo do Barcelona para o campeonato, frente ao Villareal, sendo que algumas dessas intervenções corroboram o que acima foi dito. A qualidade de Busquets com bola e a sua evolução em termos mentais terá mesmo permitido a Guardiola utilizá-lo de um modo que, antes, não acreditava ser possível. Guardiola preparou a equipa, no início desta época, para jogar em 343 sempre que isso fosse recomendável. Com efeito, quando com 4 defesas, o Barcelona, para sair a jogar, faz subir muitíssimo os laterais e abre os centrais. A bola sai então num dos centrais, que deve dar início ao processo ofensivo. Acontece, porém, que equipas que pressionem muito alto e com dois avançados podem constranger esta estratégia usando cada um dos avançados para pressionar os dois centrais catalães. Prevendo essa situação e para não abdicar de sair a jogar desde a defesa, Guardiola projectou a equipa para se estender no campo em 343 quando a bola está no seu guarda-redes. Assim, sempre que se justificasse, o médio-defensivo baixava, ocupando o centro da defesa que estaria vago pela abertura dos centrais, e os laterais subiriam para a linha dos dois médios-ofensivos. No início da época, vimos o Barcelona optar por esta estratégia várias vezes, mas sempre com Yaya Touré. Talvez porque isso não era treinado com Busquets, sempre que o médio catalão jogava, o Barcelona não optava por este método, mesmo quando o mesmo se justificava. Com o Villareal, contudo, várias foram as vezes que Busquets baixou para a linha dos centrais, de modo a ocupar um espaço livre, dada a pressão altíssima protagonizada pelos avançados adversários. Acredito que a inclusão de Busquets nesta estratégia não tem apenas a ver com o facto de o jovem parecer ter agarrado a posição, mas sobretudo com o facto de ter já maturidade suficiente para que não seja um risco entregar-lhe a bola sendo o último homem.

Posto isto, falta falar da utilidade do 343 de Guardiola e de como o Barcelona, mesmo utilizando essa estratégia, acabou por não se conseguir soltar das amarras da pressão da equipa de Ernesto Valverde. Creio que a estratégia é especialmente útil para facilitar ao Barcelona a saída de bola, sempre que pressionado em cima. Baixando o médio-defensivo, cria uma situação de superioridade numérica e pode começar a construir sem ter de recorrer a passes mais longos. Importa, por isso, que depois dessa primeira fase o médio-defensivo reocupe o seu lugar natural, aproximando-se dos médios-ofensivos para lhe dar os devidos apoios. O jogo contra o Villareal, porém, não é exemplo. O jogo não correu bem aos catalães por várias razões. Em primeiro lugar, falharam-se muitos passes, alguns deles em zonas complicadas. Isso fez com que a equipa não tivesse tanta bola e, sobretudo, que se intranquilizasse. Fora isso, seria plausível que uma equipa como o Barcelona, fazendo uso da estratégia do 343, conseguisse anular a pressão alta do adversário e fosse capaz de sair a jogar, de pé para pé, de forma faseada, sem saltar etapas. No entanto, o Barcelona poucas vezes o conseguiu fazer. A forma como o Villareal pressionava nem sequer era exemplar, muito focada nas individualidades. Em 442 clássico, os dois avançados atacavam os dois centrais do Barcelona, os alas fixavam-se nos laterais e os médios nos dois médios-ofensivos do Barça. Às vezes, quando Busquets baixava, um dos médios saía para pressioná-lo. Nestas alturas, o médio do Barça que ficava solto deveria ter aproveitado para procurar receber a bola. Creio que faltou, acima de tudo, maior movimentação dos dois médios-ofensivos e essencialmente a passagem da primeira fase de construção à segunda. Não conseguindo ligar os defesas e Busquets aos médios-ofensivos, o Barça foi recorrendo cada vez mais aos lançamentos longos para Ibrahimovic, acabando por não conseguir permanecer com a posse de bola, como tanto gosta. Concedendo maior mobilidade aos médios-ofensivos quando a equipa tinha a bola na defesa ou em Busquets, o Barcelona teria certamente desamurrado as marcações e criado buracos importantes no meio-campo. Por exemplo, poderia ter sido estratégia obrigar Xavi, que era quem estava mais policiado, a movimentar-se, sem bola, numa diagonal para a ala esquerda, por exemplo. Levaria, pelo menos momentaneamente, o seu adversário com ele, o que daria espaço, por exemplo, para Ibrahimovic baixar e receber de costas para a baliza, e servir de apoio vertical. As solicitações para o sueco seriam assim pelo chão e mais curtas, facilitando-lhe a vida. Entrando a bola em Ibrahimovic, estaria feita a ponte da primeira para a segunda fase de construção. Depois disto, fazia sentido o sueco jogar de frente com Jonathan dos Santos ou obrigar Pedro a aproximar-se de Ibrahimovic para que ele lhe desse a bola.

Estas são apenas algumas possibilidades estratégicas que teriam sido proveitosas para desbloquear aquele que me pareceu o principal problema do Barça no desafio, a capacidade de fazer a bola entrar em condições jogáveis na zona intermediária do adversário. O papel de Busquets, nessa manobra, como já o disse, foi importante. Mas mais importante ainda é o Barcelona saber que pode contar com ele para este tipo de soluções. O seu crescimento está à vista e a sua qualidade parece cada vez mais. Para terminar com chave-de-ouro, arrisco-me a dizer que será um dos grandes nomes deste desporto durante a próxima década.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Futebol fora de época...

É um exercicio engraçado imaginarmos certos jogadores a "florescer" num ambiente que não aquele em que os descobrimos. Embora a evolução dos mesmos enquanto jogadores não fosse possível, se estes se encontrassem num ambiente totalmente diferente. Mas será que, mesmo por um mero acaso, isto fosse possível, isto é, se estes conseguissem atingir o nível que apresentam nos seus clubes, será que receberiam o mesmo reconhecimento noutros clubes, ainda que a maior parte dos outros clubes fosse de um nível, incomparavelmente inferior? Provavelmente não.

Se nos debruçarmos sobre o caso do jogador Sergio Busquets, facilmente percebemos que o facto de ele se "emancipar" só é possível por se encontrar numa equipa num "estádio" de desenvolvimento superior às demais. Dificilmente este jogador poderia "crescer" numa equipa como o Sporting, pelo menos neste momento, ou até em qualquer equipa do meio da (nossa) tabela. Da mesma forma, mais facilmente vemos um jogador como Liedson alcançar sucesso na Liga Inglesa, por exemplo, do que um jogador como Postiga. Postiga, em várias coisas me lembra Barbosa, Pedro Brabosa. Não só pela excelência do seu futebol, mas muito pelo seu "deslocamento" perante grande parte dos que o rodeiam. Porque corre quando deve, toca quando deve, dribla quando pode, não chama para si as atenções dos exageros que não comete. Em contrapartida, este jogador teria, sem ponta de dúvida, mais condições para ter sucesso numa equipa mais evoluída, como o Barcelona, do que o Levezinho.

A explicação está no desenvolvimento do conceito de futebol que habita nestes dois jogadores: um joga para o povo, da forma mais primitiva que existe (mas é também a única que a grande maioria dos adeptos sabe apreciar); o outro joga para si e para aquilo que entende ser o melhor para a equipa. O problema é que a percepção de jogo que possui é demasiado "erudita" para o futebol que o acolhe.

Adam Smith defendeu o seguinte: "só as qualidades de espírito são capazes de conferir uma autoridade entre iguais (...) São, porém, qualidades invisíveis, sempre sujeitas a contestação, e efectivamente contestadas em geral (...)"

Esta afirmação, ainda que derive de alguém que não tenha qualquer tipo de relacionamento com o desporto-rei, aplica-se de forma bastante pertinente às idiossincrasias do mesmo.

Um solução inteligente muitas vezes não requer exuberância físico/técnica, o que impede o devido reconhecimento da execelência da resolução em causa. Soluções que não sejam sustentadas por uma interpretação, ou decisão, tão correcta, mas que ponham em foco qualidades fisico/técnicas estão ao alcance de todos. Já um jogador que possua um entendimento superior do jogo só tem hipotese de ser reconhecido se os agentes futebolísticos que o rodeiam (treinadores, jogadores, adeptos, etc.) tenham eles próprios uma concepção evoluída do jogo.

Não é exclusivo do futebol a existência de pessoas com uma visão de tal forma evoluída, na área em que estão inseridos, que dificilmente são "agraciados" com o reconhecimento contemporâneo.
O problema é que, ao invés de outros exemlos, não é possivel ao jogador deixar obra se não estiver inserido no "ambiente correcto", para se poder prestar o devido reconhecimento numa época posterior, uma época que se mostre "capaz" de tal feito.

Um jogador, enquanto parte de um todo, está sempre condicionado pelo mesmo e, se o todo é demasiado primitivo para poder absorver as qualidades do mesmo, dificilmente as qualidades desse jogador serão aproveitadas e reconhecidas. Dai que se preste vassalagem a jogadores como Pelé, e outros, em detrimento de jogadores como Custódio, Farnerud, etc.