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quarta-feira, 2 de março de 2011

Conversa da Treta

De há uns anos para cá, tem-se acentuado a tendência de se privilegiar treinadores académicos a treinadores que foram ex-jogadores ou que fizeram carreira dentro do futebol. Com o fenónemo Mourinho, essa tendência ganhou ainda mais relevância. Acho esta divisão uma patetice. Há bons e maus treinadores nos dois lados da barricada. A academia garante tanta competência quanto a experiência dos relvados, ou seja, nenhuma. Ler muito, adquirir muitos conhecimentos, ter tido contacto com os mais recentes estudos não tem relação directa com a competência de um treinador. Não é a forma como a pessoa se instrui que advoga a sua qualidade, mas as ideias que possui e, em suma, a sua inteligência.

Os partidários da academia são ainda religiosamente favoráveis à metodologia de treino da moda: a periodização táctica. O problema da periodização táctica não é a periodização táctica, mas o que cada um acha que é a periodização táctica e a importância excessiva da discussão acerca dela. Há os que acham que ela é a coisa moderna que os modernos devem modernamente seguir, para não passarem modernamente por antiquados. Estes são os mais estúpidos, aqueles para quem, no fundo, trabalhar em periodização táctica é a única coisa que faz sentido, ainda que não saibam explicar porquê. Dizem-se adeptos da periodização táctica porque sabem que é a metodologia que corresponde ao que é moderno e porque faz lembrar Mourinho. Depois, até sabem mais ou menos em que consiste, mas não percebem que benefícios se podem extrair dela que não os óbvios. São, no fundo, fanáticos, pessoas que gostam de uivar que as equipas não devem ter preparadores físicos, que subir escadas não faz sentido nenhum e que o que interessa é treinar situações de jogo. Ouviram dizer estas coisas e agora repetem-nas, crendo-se diferentes.

Antes de prosseguir, queria deixar claro que a metodologia de treino é apenas um ingrediente e não tem o peso que estes fanáticos pretendem que tenha. Acho que, em teoria, há coisas que mais facilmente se adquirem treinando segundo a periodização táctica, mas acho também que há riscos enormes que dificilmente os fanáticos saberão acautelar. Agora, o que me parece importante referir é que se trata apenas de uma metodologia, ou seja, da maneira como se educa uma equipa. A conversa sobre metodologias centra-se no "como". Mais importante que essa conversa é uma que se centre no "quê". Um treinador que ache que a melhor maneira de chegar à baliza adversária é através da solicitação do seu ponta-de-lança de dois metros, utilizando um jogo directo, pode ser o melhor do mundo a operacionalizar treinos em periodização táctica, mas nunca será um grande treinador. É o melhor do mundo apenas a ensinar certos comportamentos à sua equipa. Falta saber se esses são os comportamentos que mais interessam à equipa. Treinar em periodização táctica não significa, por isso, treinar bem. Significa apenas treinar de modo diferente. Jaime Pacheco, se de repente aderisse à periodização táctica, continuaria a ser Jaime Pacheco. Continuaria a dar preferência ao músculo, embora agora não desse sovas aos seus jogadores e os pusesse antes a entrar duro uns sobre os outros, em exercícios com situações de jogo. E continuaria a ser um treinador sem ideias. A conversa abstracta sobre metodologia, por isso, é uma conversa frívola. O que interessa são as ideias. Se as houver, depressa se perceberá quais os melhores exercícios para as pôr em prática.

Dito isto, acho que o treino analítico, puro e duro, tem os dias contados. Por treino analítico entendo treino que divida as componentes física, técnica, táctica e psicológica e que as ministre separadamente. O treino analítico entende, por exemplo, que a componente táctica se subordina às componentes física e técnica, sendo por isso necessário preparar os atletas fisicamente e tecnicamente para que possam depois adquirir preparação táctica. Não acredito nisto porque acho que o jogo é específico e a melhor preparação é aquela que tem em conta todas as componentes em simultâneo. Não significa isto que não possam nem devam haver exercícios descontextualizados, que não deva haver trabalho adicional de ginásio, etc. O treino deve-se centrar sobre o comportamento, a decisão (e isso é tão táctico quanto técnico, físico e psicológico), mas não tem necessariamente de ser exclusivamente contextualizado. Ou seja, um exercício de posse de bola descontextualizado, sem as referências da situação de jogo, como sejam a baliza e o posicionamento relativo dos colegas, tem potencialidades que o melhor exercício de posse de bola contextualizado não tem: potencia situações imprevistas e obriga os jogadores a arranjar soluções inovadoras, estimulando por isso a criatividade e não forçando habituações excessivas. Do meu ponto de vista, o que é mais importante é educar o comportamento dos jogadores, obrigá-los a pensar e a descobrir por si quais as melhores soluções para cada lance. A periodização táctica pode funcionar, sobretudo para algumas coisas, mas pode também dificultar essa educação. É sobre as benefícios e os malefícios deste tipo de treino que pretendo falar em seguida.

Benefícios

Não vou falar de benefícios gerais, pois esses parecem-me conceptualmente errados. Dizer que a especificidade da periodização táctica é melhor do que a falta de especificidade do treino analítico não quer dizer nada e carece de explicação. A especificidade, a meu ver, é útil para certas coisas, mas prejudicial noutras. Vou antes referir aspectos em que me parece que a metodologia da periodização táctica pode potenciar a aprendizagem. Uma vez que o treino assenta sobre comportamentos, são os comportamentos colectivos que esta metodologia mais pode potenciar. Por exemplo, operacionalizar uma defesa à zona que tenha por referências a posição da bola, a baliza e o posicionamento dos colegas tem tudo a ganhar se trabalhado de um modo estritamente contextualizado. Aliás, algo que requer tanta coordenação entre tantos elementos só pode funcionar plenamente se trabalhado de modo contextualizado. Trabalhar a defesa à zona, porque se trata de um comportamento colectivo, é um dos benefícios da periodização táctica. Os atletas adquirirão rotinas de posicionamento e comportamento que dificilmente adquiririam sem o treino específico. O mesmo se passa em situações de transição defensiva e ofensiva. Uma equipa pretende que, no momento da recuperação de bola, o avançado se desloque do centro para a direita e que a bola seja posta nesse local para se iniciar a transição. O treino específico e contextualizado irá potenciar essa aprendizagem. Em suma, a metodologia da periodização táctica é benéfica para todo o comportamento colectivo que requeira repetição e sistematização. Mas nem tudo em futebol requer repetição e nem sempre a sistematização é benéfica.

Malefícios

Uma das principais críticas à periodização táctica consiste em defender que uma metodologia que se baseia na repetição de estímulos atrofia a criatividade e a capacidade de improvisação do atleta. Acho a crítica injusta porque aquilo que se pretende não é que o atleta se comporte sempre da mesma maneira, mas que a equipa tenha comportamentos padronizados. Isto é, a periodização táctica serve para criar hábitos nos comportamentos colectivos, não nos comportamentos individuais. Serve para criar soluções colectivas sistemáticas e para oferecer, por sistema, as mesmas várias soluções ao portador da bola, não para obrigar o portador da bola a decidir sempre da mesma maneira. Isto não implica que isto não seja um perigo. E tenho sérias dúvidas que a maioria dos treinadores entenda esta ténue diferença. A periodização táctica, para muitos, serve para cultivar o estímulo que entendem ser o mais correcto em cada atleta. Com isso, atrofiam-lhe a capacidade de decisão. Um dos malefícios, portanto, da periodização táctica, está no facto de a especificidade poder travar a criatividade. Mas há mais. Acho a crítica acima injusta, mas acho também que há um lado da mesma que interessa ter em atenção. O comportamento colectivo, em futebol, depende de duas coisas: do comportamento de cada um dos elementos desse colectivo e da relação entre cada um desses elementos. A periodização táctica é especialmente útil para melhorar este segundo ponto, a relação entre os elementos do colectivo, mas é insuficiente ou até prejudicial no que diz respeito ao comportamento individual. A periodização táctica preocupa-se excessivamente com a abstracção do colectivo, esquecendo que o colectivo, em futebol, tem esta dupla dimensão. Só entendendo o treino colectivo nesta dupla dimensão, como treino de indivíduos e treino de relações entre indivíduos, se pode extrair o máximo de uma equipa. Se, por um lado, a periodização táctica pode ter o condão de aperfeiçoar mais facilmente a coordenação colectiva, ou seja, de melhorar com mais facilidade a relação entre indíviduos, devendo por isso ser adoptada em exercícios cujo objectivo seja afinar essa relação (defesa à zona, pressing, situações de transição, bolas paradas, etc.), tem por outro lado o problema de tornar demasiado específico o comportamento individual. É por isso que as equipas que trabalham em periodização táctica são, normalmente, mais organizadas, mas também equipas com menos capacidade de improviso, demasiado específicas. Assim é porque o treino a que estão sujeitas assenta na repetição e na sistematização, o que, como expliquei, acarreta virtudes e defeitos. Depois, há ainda o problema adicional de cultivar certos comportamentos num jogador, mas não cultivar nele a necessidade desses comportamentos. Um dos maiores problemas de quem trabalha em periodização táctica, a meu ver, tem a ver com o grau de consciência com que os atletas repetem as suas acções. Na minha opinião, sistematizar comportamentos só tem verdadeiro interesse se, ao mesmo tempo, for ensinado ao jogador o porquê de, em determinadas acções, fazer aquilo para o qual está a ser preparado. Percebendo a razão pela qual se deve comportar de tal maneira, mais facilmente o jogador adquirirá o comportamento correcto e melhor preparado estará para a imprevisibilidade do jogo. Ora, tenho sérias dúvidas que a grande maioria dos treinadores que trabalham em periodização táctica tenha competência para fazer perceber aos jogadores o porquê dos comportamentos que lhes são exigidos. E essa será uma das razões principais para o atrofio da criatividade e da capacidade de improvisação a que muitas dessas equipas acabam por ficar sujeitas. Há ainda outros riscos no uso desta metodologia, embora menores, em meu entender. É comum dizer-se que, não se treinando especificamente competências físicas e técnicas, não é possível, ou é difícil, que os atletas adquiram os requisitos físicos e técnicos de que necessitam. Ora, creio que compete ao treinador exigir o máximo em cada exercício e estar atento à execução do mesmo. Se assim for, o treino específico prepará fisicamente tão bem ou melhor os atletas quanto o treino analítico.

Para finalizar, gostaria de dizer que, em tempos, também eu fui traído pelo equívoco que esta conversa inútil implica. No rescaldo do fenómeno Mourinho, fui levado a acreditar que a capacidade de explicar certas coisas e a capacidade de perceber como fazer com que a equipa sistematize comportamentos eram sintomas de qualidades de treinador. Sei hoje que não é assim. Carlos Carvalhal será um dos melhores exemplos. Em tempos, por ter lido a sua tese de licenciatura e por ter percebido que tinha certas competências técnicas, acreditei que era um grande treinador. Não é. É um treinador mediano, que sabe trabalhar bem e potenciar ao máximo certos aspectos de uma equipa, mas que carece de uma compreensão do jogo que se distinga de outros treinadores. Vítor Pontes é outro exemplo. Estes treinadores conseguem, por norma, que as suas equipas sejam defensivamente organizadas, e que tenham as transições minimamente trabalhadas. Mas isso é tão pouco que não chega para fazer a diferença. Lá está, são pessoas que são capazes de tirar o melhor do método em que trabalham, mas que não são capazes de escapar aos perigos que o método acarreta. Por norma, as suas equipas são pouquíssimo criativas. Carlos Azenha é outro dos treinadores modernos a que este texto se dirige. E talvez seja aquele que melhor exemplifica a inutilidade desta conversa. Trata-se de um treinador académico, que parece ter conhecimentos teóricos diferentes, mas que é tão mau ou pior do que qualquer outro treinador medíocre. A curta passagem de José Guilherme pela Académica poderia também servir como exemplo.

Como disse acima, a conversa que se centra no "como" é conversa da treta. Privilegiar uma determinada metodologia de trabalho em detrimento de outra é apenas um pequeno aspecto a considerar nas competências gerais de um treinador, um aspecto tão relevante como, por exemplo, o sistema táctico preferido. Há várias fórmulas para chegar ao sucesso e, não obstante considerar que a periodização táctica tenha virtudes, optar por ela em vez de uma metodologia tradicional não significa praticamente nada. Aliás, não se percebendo certas coisas bem mais importantes acerca do jogo, diria mesmo que essa opção é absolutamente irrelevante. Não percebendo, por exemplo, a importância de ter os sectores sempre juntos, em todos os momentos do jogo, a importância das coberturas defensivas e ofensivas, a importância da tomada de decisão no cômputo geral das acções individuais, etc., diria que pouco importa ser o melhor do mundo a perceber como é que se pode fazer com que os atletas adquiram certos comportamentos. Pensar, por isso, que existe uma espécie moderna de treinadores que está mais capacitada que a espécie antiga, e que a diferença de espécie se explica pela conjuntura teórica em que esses treinadores foram formados, é uma forma errada de pensar. Não existe diferença de espécie nenhuma. Existem treinadores competentes, treinadores mais ou menos competentes e treinadores incompetentes. E a competência não é algo que se adquira por se pertencer a uma determinada espécie e não a outra.

sábado, 8 de maio de 2010

Villas Boas: Toda a Verdade

No dia 6 de Novembro de 2009, Paulo Bento, após uma série de maus resultados, demite-se desencadeando um chorrilho (magnífica palavra, bem sei) de acontecimentos que culminaram com a contratação de Paulo Sérgio. Muito se escreveu, e aconteceu, entre a mudança de v(B)entos (que trocadilho fantástico, por esta ninguém esperava!!); coisas boas, como… bem… coisas, e outras menos boas: Carvalhal, Costinha, Carvalhal, João Pereira, Carvalhal, etc. O que ninguém sabe é que a razão de ser para todos estes e outros acontecimentos converge num único elemento. Este é o verdadeiro relato do que aconteceu nas semanas que se seguiram à demissão de Paulo Bento.

No dia 12 de Novembro, o Sporting comunica à CMVM a entrada de Ricardo Sá pinto como director desportivo, sendo que este pega de imediato no dossier do novo treinador. Villas Boas é o treinador que elege. Ao contrário do que é dito e escrito, a sua contratação não cai por falta de acordo de verbas, nomeadamente aquilo que o Sporting Clube de Portugal estaria disposto a pagar para a Académica libertar Villas Boas. O acordo entre os clubes existe, e é uma exigência de última hora, por parte de Villas Boas, que motiva o recuo de Bettencourt: Villas Boas compromete-se a vencer o título ainda em 2009/2010, desde que uma figura proeminente do universo leonino saia de Alvalade: Liedson. A reacção de Bettencourt é inflexível: abandona de imediato a reunião, dizendo que André VilLas Boas é louco, proferindo expressões como "herege", "blasfémia", "Perdoai-o Senhor pois ele é apenas uma criança que não sabe o que diz", etc. Incrédulo, Villas Boas assiste à partida de Bettencourt e de Salema Garção, este último hesitante entre acompanhar o seu presidente de imediato ou ligar para os seus contactos jornalísticos a descrever os mais recentes contornos da reunião entre Villas Boas e o "staff" leonino. No fim deste espectáculo, ficam apenas Sá pinto e Villas Boas, com o último a proferir apenas uma frase:

- Tu vais-me dar uma pêra, não vais?

Dito isto, o director desportivo dirige-se a Villas Boas, enquanto o jovem técnico, desesperado, procura algo com que se defender, pegando por fim numa garrafa de água, meio vazia e sem tampa.

- Tu conseguias mesmo fazer do Sporting campeão? – perguntou-lhe Sá Pinto enquanto lhe esticava a mão, cumprimentando-o.

No dia 14 de Novembro, Sá Pinto conta a alguns jogadores, entre eles Hélder Postiga e Simon Vukcevic, os verdadeiros motivos que levaram a que Villas Boas permanecesse em Coimbra. Mais tarde, Postiga faz uma pequena confidência a Vukcevic, depois do montenegrino corrigir um e-mail que Pedro Silva queria enviar a uma brasileira que conhecera num restaurante de rodízio:

- Enquanto o Liedson permanecer no Sporting, eu não volto a fazer golos.

Esta ideia terá então iluminado Vukcevic, que pensou:

- Epah, e eu, enquanto ele estiver em Alvalade, não volto a jogar bem!

Entretanto, chega Izmailov e pergunta, em russo, o que é que se passa, ao que o número dez leonino responde que lhe explicaria do que se tratava assim que o camisola 7 conseguisse terminar os exercícios de gramática que lhe pedira para fazer. Cabisbaixo, Izmailov pegou no caderno contendo os exercícios que o seu amigo lhe havia preparado e deitou mãos à obra. Entretanto, as exibições do Sporting melhorar ligeiramente, precisamente no período em que o 31 se encontrava lesionado, levando Sá Pinto a pensar que, se calhar, Villas Boas até tinha razão. Esta iluminação, associada à qualidade evidenciada pela equipa de Coimbra, mostrou a Sá Pinto o erro que o presidente do Sporting havia cometido. Decidido, dirigiu-se a Bettencourt para tentar convencer o líder leonino a reconsiderar e a contratar Villas Boas para as próximas temporadas. Bettencourt, todavia, tinha outros planos. No dia anterior tivera uma conversa com Carvalhal e o técnico havia explicado que tinha grandiosos planos para o ano que se seguia, sendo que todos eles assentavam em redor de Liedson.

Desesperado, Sá Pinto tentou demover o seu presidente, mas sem sucesso. No dia da fatídica eliminatória para a Taça de Portugal frente ao Mafra, após nova tentativa frustrada de demover Bettencourt de manter Carvalhal para a época seguinte, Sá Pinto assistiu ao jogo junto do banco, visivelmente enervado com o diálogo entre Carvalhal e Liedson, com o técnico português a perguntar e a pedir a opinião ao Levezinho não só sobre aspectos do jogo como também sobre se o baiano era conhecedor de algumas mezinhas que o ajudassem a combater a calvície. A atitude desrespeitosa de Liedson para com Sá Pinto no final do jogo foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo.

A saída de Sá Pinto deixou em aberto a vaga de director desportivo, que foi assumida temporariamente por Salema Garção. Os poucos dias foram, contudo, suficientes para que Salema Garção pudesse tomar conhecimento do pequeno “pacto” que Postiga e Vukcevic haviam feito,” pacto” esse de que Izmailov, agora que já estava perto de concluir os exercícios de gramática que Vukcevic havia proposto ao russo, queria fazer parte. Entretanto, horas antes do jogo com o Braga para o campeonato, Pereirinha perde uma aposta com Moutinho e é obrigado a enviar uma mensagem a Carvalhal, fazendo-se passar por Bettencourt, dizendo o seguinte:

"Mister Carvalhal, aconteça o que acontecer, contamos consigo para a próxima época. Ass: JEB."

O que Pereirinha não poderia prever era que não só o jogo com o Braga correria mal como a equipa sofreria a quantidade de derrotas que sofreu de seguida, o que levou a que Bettencourt, certo dia, na sauna, soltasse uma lamentação a respeito do trabalho de Carvalhal:

- Mister Carvalhal, isto assim não dá. Começo a ficar com dúvidas acerca da renovação...

- Mas você disse que, acontecesse o que acontecesse, contava comigo.

- Eu??!! Está louco, homem? Uma coisa é estar convencido que o Sporting está a jogar melhor e que você algum dia será campeão com alguma equipa, outra bem diferente é pôr-se a imaginar coisas que eu disse.

Carvalhal, envergonhado e desconfiando que fora enganado por alguém que se fizera passar por Bettencourt, desabafa com Liedson, que lhe diz que sabia que não fora Bettencourt a enviar a mensagem, mas um jogador do plantel. Carvalhal exerce pressão sobre Liedson para que este revele o que sabe, mas Liedson admite apenas confidenciar tal informação caso Carvalhal começasse a encostar Saleiro, pois este andava a fazer alguns golos e isso poderia fazer crer às pessoas que o Sporting não precisava de Liedson. Carvalhal promete a Liedson pensar no assunto e o Levezinho indica o nome de Pereirinha. Na semana seguinte, em jantar com Carlos Queiroz, Carvalhal conta o sucedido, ao que Queiroz sugere:

- Pá, esses putos só estão bem é a fazer porcaria. Castiga-o, pá.

- Pois, pensei nisso. Mas o chavalo tem entrado bem. É quase sempre dos melhores quando o ponho a jogar. - respondeu Carvalhal, hesitando em tomar medidas tão drásticas.

- Pá, o gajo também se pôs com aquela coisa dos penálties na selecção e mandei-o logo para casa. - continuou Queiroz. - Vê lá se voltou a marcar penálties. Eles precisam é de correctivos. Nunca mais o ponhas até ao fim da época, a ver se aprende! Nem que utilizes o Pedro Silva. Eles têm de perceber quem é que manda.

Com medo de que Carlos Queiroz nunca mais lhe falasse, Carvalhal decide então obedecer e Pereirinha não volta a calçar, a não ser muito esporadicamente, até ao duplo desafio com o Atlético de Madrid, lançando-o então às feras para tentar queimá-lo e assim justificar a sua opção. Acontece que Pereirinha acabou por jogar enormidades e Carvalhal teve de fundamentar a sua opção por deixar o 25 sistematicamente de fora alegando que o jovem não gostava de espinafres, razão pela qual continuou a deixá-lo sistematicamente de fora após esses desafios.

No dia anterior ao decisivo jogo da segunda mão contra os espanhóis, quando Izmailov finalmente termina os exercícios de gramática, Postiga e Vukcevic explicam ao russo os contornos do acordo firmado ainda em 2009. Izmailov, sabendo ainda que fora Liedson quem confessara a Carvalhal que fora Pereirinha quem enviara a dita mensagem, decide ser ainda mais assertivo na sua tomada de decisão: ou Liedson ficava no banco frente ao clube de Madrid, ou ele abandonava de imediato o Sporting. O português do russo, no entanto, ainda não era muito fluente, o que leva Carvalhal a procurar Costinha para que este lhe explique as razões pelas quais o jogador não queria defrontar o Atlético de Madrid. O problema é que Costinha fala tão bem russo como Pedro Silva fala português. Resultado: Costinha entende que Izmailov só continuaria no Sporting se Carvalhal saísse, não tolera a audácia do russo e manda-o embora do estágio, comunicando que ele alegava que não se encontrava psicologicamente apto para jogar e apenas contando a Bettencourt a verdade. Este facto resultou no comunicado posterior da Sporting Sad à CMVM, divulgando que Carvalhal não continuaria na próxima época.

Livre de Carvalhal, Bettencourt volta a abordar Villas Boas e, apesar da intransigência do jovem técnico, o presidente do Sporting parece disposto a ceder, entrando em contacto com alguns clubes brasileiros e vários supermercados para efectivar a transferência de Liedson. Costinha, no entanto, traz para o negócio o seu desagrado e confronta Villas Boas:

- És capaz de explicar como é que conseguirias ser campeão sem o Liedson?

Villas Boas nota alguma resistência e finca o pé, dizendo a Costinha que tinha de confiar nele. Costinha diz-lhe que ele tinha perdido quase todos os últimos jogos e que, portanto, não tinha propriamente muita confiança no se trabalho. Sem chegarem a entendimento, Costinha decide abortar as negociações, imaginando que o técnico da Académica era um bluff e salvando assim o Sporting da ameaça do bicho-papão que queria livrar-se do seu mais-que-tudo.

por Gonçalo

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Várias Concepções de Defesa à Zona

"Confrontado com a eventualidade do F.C. Porto de Mourinho «defender à zona», J. é peremptório: "Não. Eu não concordo com isso. Eu acho que vocês estão completamente enganados. Sabe porque é que eu digo que estão completamente enganados? Porque o Porto é uma equipa que faz um pressing alto (...)" e "(...) jogar à zona é jogar numa zona expectante, dando a iniciativa ao adversário e jogando na sua zona defensiva"." Para A., "jogar à zona é estarem todos atrás da linha da bola. Agora, jogar à zona não é termos todos os jogadores a jogar dentro da nossa área, mas sim o adversário estar a trocar a bola entre a defesa e a nossa equipa estar toda atrás da linha da bola"."

in AMIEIRO, Nuno, Defesa à Zona no Futebol, pp.96

J. e A. são designações para dois treinadores de futebol. Tanto um como outro têm um conceito de defesa à zona profundamente errado. Para muita gente, como para estes senhores, jogar à zona é colocar os jogadores todos atrás da bola, aglomerá-los numa posição estática, expectante. Nesse sentido, uma equipa que defendesse à zona, seria sempre uma equipa que concederia a iniciativa de jogo ao adversário e que tentaria aproveitar os erros do mesmo para, depois, jogar no espaço criado pela subida das suas linhas. Ora bem, defender à zona não é nada disso. É possível, por exemplo, defender à zona executando um pressing alto.

Antes de começar, propriamente, gostaria de deixar claro que o livro de Nuno Amieiro que citei é um estudo eloquente e muito bem exposto do conceito de defesa à zona. Nele, Amieiro fala dos vários conceitos de zona e expõe as razões para se privilegiar um em detrimento dos outros. Para quem quiser, de facto, aprender algo sobre a zona, recomendo a leitura integral do livro, uma das poucas coisas sobre futebol que vale, de facto, a pena ler. Ora bem, antes de me deter nas várias concepções de zona, gostaria então de dar uma ideia geral do que é defender à zona. Ao contrário do que J. e A. parecem presumir, defender à zona não tem a ver com uma mentalidade mais ou menos defensiva. É possível defender à zona pressionando alto, como é possível defender à zona com um bloco baixo. Aquilo que define a zona não é a mentalidade, mas as referências de marcação. Ao contrário das marcações tradicionais ao homem, marcar à zona tem por referência não o adversário directo, mas a bola e a posição da nossa equipa; o que interessa são os espaços e não os adversários. Como tal, é predicado da zona encurtar os espaços, reduzir ao máximo a possibilidade de a bola passar entre os nossos jogadores. Defender à zona implica, portanto, várias coisas: esquecer o adversário, fazer campo pequeno, ou seja, jogar o mais perto dos companheiros que for possível, ocupar o lado forte (lado onde está a bola) e desocupar, porque desnecessário, o lado fraco (lado onde a bola não está). Para dar um exemplo, numa jogada em que o adversário conduz a bola pela esquerda, a equipa que defende à zona deve encontrar-se montada derivando para a direita (do ponto de vista de quem defende), com os jogadores de tal forma perto uns dos outros que o portador da bola só tenha linhas de passe para trás ou virando, por alto, o flanco. O que interessa na defesa à zona é ocupar espaços e manter essa ocupação independentemente da movimentação do adversário. Se os espaços estiverem, a todo o momento, preenchidos, o adversário, porque precisa de espaço para jogar, deixará de ser uma preocupação. A preocupação inicial da defesa à zona é impedir que seja o adversário, pela sua movimentação, a conduzir a marcação para onde lhe aprouver, criando espaços. Ignorando o posicionamento e a movimentação de cada um dos adversários, a equipa manter-se-á sólida, organizada, compacta. E será muito mais difícil ao adversário conseguir desequilíbrios. Ao contrário do que acontece numa defesa ao homem, um adversário, ao passar por um defesa numa equipa que jogue à zona, terá outro adversário imediatamente perto dele, porque a estrutura defensiva assenta em coberturas sucessivas. Numa defesa à zona, porque a referência não são os adversários mas os colegas, atrás de um jogador estará sempre outro, ao lado desse, outro, de acordo com a própria estrutura posicional pretendida. Dito isto, abrem-se várias possibilidades de interpretação, o que no fundo faz com que haja várias concepções de zona diferentes.

1) Em primeiro lugar, a chamada "zona mista". O pressuposto inicial é o mesmo que o da defesa à zona, isto é, o que interessa é a bola e os colegas, pelo que cada jogador deve estar posicionado em função da posição da bola no terreno e em função do posicionamento dos colegas. No entanto, esta variante da defesa à zona pressupõe que, entrando um adversário na zona de competência de um dos defensores, esse defensor deve encarregar-se de marcá-lo, largando-o se ele sair da sua zona. Isto implica definir a zona de competência, o que não é propriamente fácil e entra em contradição com um dos pressupostos base da zona, ou seja, a sua maleabilidade. Defender à zona não tem nada de estático. Não há zonas de competência no campo, porque a zona de competência é diferente a cada instante. Uma vez que a defesa à zona tem por referências a posição da bola e dos colegas, ela varia consoante a posição da bola e dos colegas. Logo, definir zonas de competência parece-me francamente difícil. Ainda assim, poder-se-ia definir essas zonas de competência a cada instante, ficando o defensor, a cada instante, com a competência de uma zona, digamos, equivalente a alguns metros à sua volta. O que me parece, contudo, contraproducente, neste tipo de variante da defesa à zona é o facto de, ainda que apenas quando um adversário directo entra na zona de jurisdição de um defensor, haver momentos em que a preocupação dos defensores deixe de ser a bola e os colegas e passe a ser o adversário. No fundo, a troca de referências, ainda que instantânea, poderá acarretar, ainda que por instantes, a perda de noção dos espaços. Defender segundo este conceito, ainda que não conceda espaços tão amplos como quem defende estritamente ao homem, acaba sempre por ser um modo de defender pouco eficaz. É inevitável, porque é natural e constante que os adversários entrem nas zonas de competência dos defensores, que se abram espaços. Esta concepção de zona é a mais utilizada hoje em dia. E é-o porque é o modo mais fácil de interpretá-la. No entanto, acarreta quase tantas consequências como uma defesa ao homem.

2) Um segundo tipo de defesa à zona, que é por exemplo a concepção de Jesualdo Ferreira, implica algo ligeiramente diferente. Pode dizer-se, grosso modo, que há dois momentos distintos no acto de defender, um passivo e um activo. O termo "zona pressionante", criado por Arrigo Sacchi, abrange o momento activo da zona. Defender à zona implica sempre a definição de uma zona pressionante, que mais não é que a zona onde se pretende recuperar a bola. Nessa zona do terreno, que pode ser mais alta ou mais baixa, mais larga ou mais estreita, mais junto à linha ou mais central, o acto de defender torna-se uma coisa activa, que pressupõe a recuperação da bola e não apenas uma organização territorial. Mesmo quando a zona pressionante não é definida, a equipa tem momentos em que defende mais activamente, nem que seja junto à área, pelas razões óbvias. Ora, a passagem de um momento passivo para um momento activo, de um momento em que a preocupação é estar organizado para um momento em que a preocupação passa a ser preencher agressivamente os espaços de modo a constranger o portador da bola, é um momento crucial. A interpretação de como este momento deve ocorrer leva a divergências de opinião e a ligeiras diferenças na forma de defender. É neste momento que a zona de Jesualdo difere, por exemplo, da de Mourinho. Ora, no momento de pressionar o adversário que conduz a bola, no momento em que é efectivada a zona pressionante, nesta concepção, a preocupação deixa de ser a bola e os colegas, passando a ser a bola e os adversários. Nesta concepção, que é a de quase toda a gente que defende à zona, pressionar activamente é sempre pressionar homens. Quando o defensor que está perto do portador da bola ataca a bola, os colegas devem reagir procurando acercar-se dos adversários que tiverem por perto de modo a inviabilizarem uma opção de passe. Isto pode parecer uma boa solução, mas creio que acarreta problemas. Com este comportamento, ao esquecerem deliberadamente a ocupação dos espaços, fixando-se num adversário em concreto, perde-se, ainda que momentaneamente, a estrutura de coberturas que estava montada. Imagine-se agora que o portador da bola que era pressionado, em vez de passar a bola, driblava e livrava-se do defensor que o tinha pressionado. As consequências eram óbvias. Após ultrapassado esse obstáculo, uma vez que a estrutura defensiva tinha sido temporariamente desfeita, teria algum tempo e espaço de manobra para progredir. O comportamento defensivo implícito nesta concepção, ainda que não totalmente inadequado, acarreta, portanto, momentos de desorganização que podem ser fatais.

3) Isto leva-nos para uma terceira concepção da zona, que mais não é do que uma consequência, nas zonas do terreno a isso mais propícias, da segunda concepção. Nas imediações da área e dentro dela, o momento defensivo é sempre activo. Porque a baliza é uma referência defensiva óbvia, defender perto dela é sempre defender de uma forma pressionante, atacando o portador da bola. Ora, há quem defenda que, dentro da área e junto a ela as referências não podem ser zonais, mas sim os adversários. O argumento é o seguinte: como, nessa zona do terreno, todos os espaços são importantes, é muito difícil ocupá-los a todos, mais vale seguir cada um dos adversários, ignorando os espaços. Esta atitude mais não é do que uma consequência, como disse, da segunda, que define, no momento pressionante do acto defensivo, que as referências são os homens e não os espaços. Mas, tal como na segunda concepção, isto acarreta consequências. A troca de referências espaciais pelas referências dos adversários e vice-versa não é instantânea; a passagem de uma a outra é sempre um momento de desorganização. Se é verdade que um defensor pode, para si, ser rápido a reagir e a escolher um adversário para marcar, não nos podemos esquecer que a movimentação que resulta dessa decisão vai implicar novas decisões em cada um dos seus colegas que se tinham colocado no terreno em função dele. Transformar um acto defensivo que tem por referências os colegas e a bola num acto defensivo que passa a ter por referências o adversário não é um processo de fácil execução porque, uma vez mais, o comportamento de um jogador vai condicionar o comportamento de cada um dos seus colegas. E essa transformação, por não ser simples, leva tempo. Ou seja, esta teoria, ao tentar resolver aquilo que considera ser um problema irresolúvel, a impossiblidade de ocupar com exactidão os espaços dentro da área, acaba por descuidar um problema provavelmente maior: ao se preocupar excessivamente com os espaços, esquece o tempo, que, provavelmente, até é mais decisivo. Enquanto a equipa se reorganiza, trocando referências, o adversário tem tempo para agir, tempo esse que pode ser crucial. Além de isto ser um problema evidente, mantém-se o mesmo problema de sempre no que diz respeito às marcações individuais: ficando os jogadores entregues a pares de marcações, qualquer desembaraço individual é um desequilíbrio decisivo.

4) Resta uma última concepção de defesa à zona, que é precisamente a concepção defendida por Nuno Amieiro no livro em questão, assim como por José Mourinho ou Carlos Carvalhal, para dar dois exemplos. É, digamos, a mais pura das concepções, aquela que não se desvirtua, em momento algum do jogo, dos seus pressupostos iniciais. Para muitos, será demasiado lírica; para outros, a mais coerente. Devo dizer que é a concepção que mais me satisfaz, simplesmente porque é nela que sinto residirem menos problemas de coerência. Distingue-se das anteriores, como disse, por em nenhum momento se afastar das referências primordiais estabelecidas inicialmente: a bola, os colegas e a baliza. Ao contrário da segunda concepção, a zona pressionante é mesmo uma zona pressionante, ou seja, é efectivada mediante referências zonais. O jogador que está mais perto do portador da bola ataca a bola e os colegas reagem atacando os espaços de acordo, unicamente, com a movimentação do seu colega e com a movimentação de cada um dos seus colegas. Isto pode permitir, eventualmente, que haja um adversário solto para receber um primeiro passe desse portador da bola. Mas o novo portador da bola, o que a recebe do primeiro portador, tem agora muito menos espaço para jogar, muito menos linhas de passe e, sobretudo, uma estrutura defensiva adversária que se manteve organizada e inalterada. Ao contrário, também, da terceira concepção, segundo esta concepção é indiferente a zona do terreno onde se defende. Porque a baliza é uma das referências, quanto mais perto dela, mais aglomerados devem estar os defensores e, por conseguinte, menores serão os espaços. A única objecção possível a esta teoria seria em caso de contra-ataque ou ataque rápido, no qual, apesar de a equipa que ataca atacar com poucos jogadores, a equipa que defende também ter poucos defensores. Nesse caso - pode dizer-se - não é possível ocupar todos os espaços. Mas a defesa à zona implica ainda uma última coisa: o assinalar do adversário. Apesar de o adversário não ser uma referência como o são a bola, os colegas e a baliza, é necessário haver a noção de onde ele está a cada momento. Isto não serve para que seja possível marcá-lo quando isso se tornar necessário, mas sim para cortar o melhor possível as linhas de passe para o mesmo ou para perceber quais os espaços mais importantes a preencher. Ao contrário, portanto, da terceira concepção, numa jogada de ataque rápido, nas imediações da área, os defensores devem manter as mesmas referências de antes e não se preocuparem com o adversário. Devem, contudo, ter a capacidade de assinalá-lo, de perceber onde ele está, de modo a colocarem-se o melhor possível. Com efeito, se tudo isto for executado a preceito, os espaços de manobra manter-se-ão escassos e a equipa manter-se-á organizada, mesmo em lances de pouca presença na área. Esta concepção - julgo - é a única verdadeiramente colectiva. Defender à zona não é só um capricho ou só uma forma mais eficaz de defender; é também o único modo de uma equipa defender verdadeiramente em equipa, de forma solidária. Não abdicar, em momento algum, das referências dos colegas e da bola é a única forma de, em todos os momentos, a equipa ser equipa; é a única forma de, em todos os momentos, não depender de cada um dos seus elementos, mas sim de algo que se cria com a solidariedade desses elementos. Jogando assim, os jogadores não têm, no momento defensivo, funções individuais, mas uma função colectiva que é igual para todos e que só varia segundo a posição do terreno em que se encontram. Partilhar as mesmas funções que todos os colegas é o único modo de jogar colectivamente.

Para acabar, gostaria ainda de falar dos defeitos normalmente apontados a todas as defesas à zona. Porque se preocupa unicamente com o lado forte da bola, há sempre espaço para jogar no lado fraco e uma variação de flanco rápida pode criar desequilíbrios. Isto é verdade, mas uma equipa que joga assim sabe-o. Sabê-lo implica poder atenuá-lo, treinando-o. Carlos Carvalhal uma vez disse que essa era uma realidade com que as suas equipas tinham de saber lidar e que muito da preparação delas passava por reagir ao momento da variação de flanco o mais rapidamente e adequadamente possível. A grande vantagem desta forma de defender é conhecer, em rigor, as suas próprias limitações, o que, em abono da verdade, é o primeiro passo para as corrigir. A capacidade de bascular rapidamente e em sintonia é pois uma das mais importantes tarefas a treinar. Isto leva-me para outra questão. Com um conceito tão rigoroso, que implica a perfeita harmonia entre vários elementos, um treino superficial e teórico sobre a zona não pode ser eficaz. Defender à zona, porque implica uma perfeita relação entre todos os jogadores, porque implica um saber responder a cada um dos comportamentos de cada um dos elementos do todo, não pode ser treinada levianamente. Todo o treino tem de ser preparado em função desta ideia, de modo a criar hábitos, rotinas, modos de pensar e executar. Daí considerar que, para jogar numa defesa à zona pura, tem de se treinar sob o método proposto pela Periodização Táctica. Com outra metodologia, francamente, acho difícil um conceito como este, que necessita de tanta sistematização e que pressupõe um comportamento absolutamente mecanizado, funcionar bem.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Carvalhal: mais do que a soma das individualidades

Como andam aí papagaios a dizer coisas que não são verdade, é tempo de falar delas, com a atenção que merecem. É opinião algo generalizada que Carlos Carvalhal, actual treinador do Vitória de Setúbal, é um treinador defensivo e que a sua equipa pratica um futebol assente na defesa, feio e de aproveitamento dos erros do adversário. Isto não é verdade.

Já foi tema de um texto neste espaço algo semelhante. Na altura, defendi que Mourinho era tudo menos um treinador defensivo, coisa que, obviamente, ainda mantenho. Com Carlos Carvalhal passa-se actualmente o mesmo. Quem não percebe muito de futebol, tende a achar que treinadores como estes dois são treinadores defensivos. Obviamente, estão equivocados. Os dois têm filosofias de jogo muito parecidas, o que não é novidade, pelo que quem ache que um é defensivo tem tendência a achar que o outro também o é. Estão enganados em relação aos dois.

O futebol do Setúbal é, provavelmente, o futebol mais correcto da Primeira Liga, talvez a par do futebol do Porto. Paulo Bento teve oportunidade de dizê-lo: o Setúbal é a equipa da liga que melhor faz as transições ofensivas. Concordo inteiramente com isto. Mas, assim sendo, como compatibilizar uma equipa supostamente defensiva com uma equipa que faz boas transições ofensivas? Uma destas coisas não pode ser verdade. A não ser que essas transições ofensivas, embora boas, sejam esporádicas, o que não correcto. Acontece, isso sim, que o Setúbal é uma equipa bastante completa. Defende muitíssimo bem, com uma organização estupenda, em bloco, com os jogadores muito juntos, utilizando uma pressão baixa, mas agressiva. Esta forma de defender privilegia a ocupação de espaços recuados, o encurtamento entre linhas e dá a iniciativa de jogo, até certo ponto do terreno, ao adversário. Em vez de começar a pressionar logo no meio-campo, o que concederia alguns espaços entre linhas, o Vitória encolhe-se estrategicamente e só ataca o portador da bola mais atrás. Isto faz com que haja pouco espaço e que o futebol do adversário, se não for dinâmico e envolvente, tenha pouco sucesso.

É verdade que há mais equipas que assentam o seu sistema defensivo num bloco baixo, mas poucas aquelas que conseguem executar o tipo de pressão que o Setúbal executa, a toda a largura do terreno e com uma concentração de jogadores extraordinária. Esse é o grande segredo da consistência defensiva dos sadinos. Agora, se o Setúbal fosse só isto, uma equipa que defende bem, talvez conseguisse alguns empates e, com sorte, ganhasse alguns jogos às custas da inspiração dos avançados. A verdade é que isto não é bem assim. Saíram alguns jogadores nucleares e a equipa, enquanto equipa, continuou a ser eficaz, o que prova que o sucesso ofensivo não estava directamente relacionado com a perícia dos elementos ofensivos. O Setúbal de Carvalhal, além de defender bem, ataca bem. Quando em posse de bola, a equipa não a esbanja desleixadamente. Se o adversário puder ser apanhado em contrapé, o ataque é lançado rapidamente, mas sempre com transições seguras, com passes rasteiros, ponderados, de pé para pé. Mesmo quando a equipa utiliza um futebol mais directo, a bola raramente é lançada para jogadores com poucas possibilidades de a conservarem. Os passes verticais são do melhor que há neste campeonato, normalmente à procura de Pitbull, que depois segura, espera pelo avanço dos companheiros e orienta o ataque. Quando o adversário está melhor posicionado, o Setúbal opta por sair a jogar calmamente, procurando sempre o meio-campo: a bola do lateral raramente percorre a linha; o passe é sempre à procura do médio. O futebol apoiado do Vitória, nas primeiras fases de construção, é de uma precisão espantosa. Depois, raramente a bola sai do médio para as alas; a transição típica é o passe rasteiro vertical, o que possibilita uma subida gradual da equipa. Além disso, sem bola, toda a equipa trabalha muitíssimo bem e há, normalmente, bastantes linhas de passe.

Em termos ofensivos, este é, basicamente, o segredo da equipa: futebol seguro, rápido quando pode sê-lo, mas sempre consciente da importância da posse de bola. A equipa sobe sempre em bloco, provocando poucas rupturas entre linhas, e a movimentação sem bola de todos os elementos é excelente. Além disso, é notável a capacidade que a equipa tem para dar apoios: o jogador que recebe a bola raramente o faz sem ter uma solução de passe imediatamente garantida. Aliás, o jogo em apoios do Setúbal não tem mesmo paralelo em Portugal. E é precisamente este jogo apoiado, este subir e descer em conjunto, como se os jogadores estivessem amarrados, que faz a força da equipa. Defendem bem e atacam bem porque raramente fazem os dois processos isoladamente; defendem e atacam em equipa, como poucos o fazem, com cada jogador a apoiar outro, com e sem bola.

Para quem diz que o Setúbal joga um futebol feio, conte-se os passes falhados, os pontapés sem nexo que a equipa dá. Para os que acham que a equipa só defende, conte-se a posse de bola que conseguem, em cada jogo. Carlos Carvalhal disse, depois de ter ganho ao Sporting após ter perdido Edinho e Matheus, que ficava provado que "uma equipa não é apenas o somatório das individualidades". Para muita gente, isto é uma tautologia e nem sequer se terão preocupado em entender correctamente o significado destas palavras. Mas a verdade é que o Vitória de Carvalhal ilustra isto melhor que qualquer outra equipa neste campeonato. Não estou a falar de vontade, de garra, de motivação, de coragem, de espírito de grupo. Estou a falar de táctica. Há equipas (90% delas) cuja valência se poderia obter somando a valência de cada jogador. Não é o caso deste Setúbal. Com um plantel modesto, a equipa já ganhou uma taça da Liga, está nas meias-finais da Taça de Portugal e reparte o quarto lugar do campeonato com o Sporting. Coincidência? Boa época que não mais se voltará a repetir? Claro que não. A excelente temporada do Vitória é fruto do futebol colectivo da equipa. Muito mais que um extremo de qualidade, quem joga a extremo é toda a equipa; mais do que uma dupla de centrais experiente, quem defende é toda a equipa. Cada processo de jogo é obtido dividindo o esforço por cada jogador. Não há uma bola que se dispute que a equipa não o faça em conjunto. Os jogadores estão sempre perto uns dos outros, sempre preparados para dobrar o companheiro ou para lhe dar uma linha de passe quando ele tiver a bola. Esta coesão, este sentido colectivo, muito mais significativo que a soma de todas as individualidades, é que é a verdadeira valência da equipa. Nenhum jogador está entregue a si próprio, quando tem a bola, ou quando não a tem. Nenhum jogador tem uma função em campo; tudo o que um simples jogador tem para fazer é feito em conjunto. Para bom entendedor, isto basta.