Em mais uma crónica na Tribuna Expresso, que de certo modo dá continuação à anterior, falo agora sobre o modo como a revolução protagonizada por Cruyff prosseguiu no trabalho de Guardiola.
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quinta-feira, 23 de abril de 2020
Guardiola e a dupla herança de Cruyff
Escrito por Nuno às 20:10:00 3 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Busquets, Cruyff, Guardiola, Raciocínios Tácticos, Tribuna Expresso
terça-feira, 24 de março de 2020
Nummer 14
No dia em que faz 4 anos desde que Johan Cruyff nos deixou, recupero para a Tribuna Expresso um texto originalmente publicado no número 0 da revista 90 Minutos, e a que poucos tiveram acesso.
Escrito por Nuno às 16:25:00 0 bolas ao poste
Etiquetas: Ajax, Cruyff, Futebol Holandês, História do Futebol, Raciocínios Tácticos
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
A Jogada do Século
"Quase todos os que não eram alemães acharam que nós deveríamos ter ganho. Não estivemos no nosso melhor na final, mas demos o exemplo a biliões de pessoas. Demos igualmente esperança a todos os jogadores que, como eu, não eram grandes nem fortes. Toda a filosofia de como o futebol devia ser jogado se modificou durante esse torneio. Tal filosofia era, na verdade, muito simples, e continua a sê-lo hoje. Há uma bola, e ou a tens tu ou a têm eles. Se a tiveres tu, eles não podem marcar golo. Se usares a bola bem, a probabilidade de êxito é maior do que a probabilidade de fracasso. Isto mudou o foco para a qualidade e para a técnica, enquanto antes girava tudo em torno do esforço e do trabalho."
Johan Cruyff, My Turn
Se tivesse de escolher uma jogada que, de certo modo, definisse aquilo que foi a evolução do futebol no século XX, escolhia a primeira jogada da final do campeonato do mundo de 1974. O lance é, para os padrões actuais, uma aberração: a velocidade a que se troca a bola, a ausência de zonas de pressão, as marcações individuais dos alemães, a total anarquia da organização ofensiva holandesa, etc.. E, no entanto, o mesmo lance justifica toda a evolução que o futebol sofreu nos últimos 50 anos. É sobretudo por isso que me parece justo descrevê-la como a jogada do século. Nela estão contidas as sementes da revolução laranja, e de tudo aquilo que essa revolução proporcionaria depois, e é nela - precisamente nela - que identifico a fronteira entre o velho e o novo paradigma. Não é de todo irrazoável falar de um futebol antes de Cruyff e de um futebol depois de Cruyff, e muitos já o fizeram, mas normalmente situa-se a fronteira entre essas duas épocas um pouco mais tarde. Aquilo que Cruyff veio a ser como treinador, e o pensamento que depois criaria escola, não é indissociável, contudo, daquilo que foi como jogador. A revolução que as suas ideias protagonizaram tiveram expressão maior no seu 'Dream Team' e, posteriormente, no futebol praticado pelas equipas de Guardiola, mas tudo começou na Holanda, no final da década de 60 e início da década de 70. É nessa altura, com o sucesso do Ajax entre 1969 e 1973 (finalista vencido em 69, o Ajax venceria a Taça dos Campeões Europeus em 71, 72 e 73) e com o futebol apresentado pela selecção holandesa no Mundial de 74, que tudo começa. E a forma como a Holanda chega à vantagem na final dessa competição é o dealbar desse mundo novo. É nesse lance que a parceria entre Rinus Michels e Johan Cruyff encontra o seu expoente máximo. Mesmo que a selecção germânica tenha conseguido recuperar da desvantagem, e a Holanda não se tenha sagrado campeã do mundo, o futebol vergou-se nesse momento e nunca mais foi o mesmo.
O momento crítico do lance, aquele momento que vai contra tudo aquilo que sabemos ou julgamos saber acerca do jogo, é o momento em que Johan Cruyff, fazendo uso da liberdade e da autoridade que tinha dentro de campo, se aproxima dos defesas holandeses e, recebendo a bola de um deles, decide ser ele a pautar o jogo a partir de trás. Durante alguns segundos, Cruyff foi o jogador mais recuado da sua equipa. Enquanto os colegas trocavam a bola no meio-campo alemão, manteve-se atrás deles, analisando o que se passava à sua frente. Isto é tão surpreendente quanto ilógico, do ponto de vista actual. Mas a verdade é que cabe nesses breves instantes uma revolução inteira. Sem que o próprio Cruyff o soubesse, estava a fundar uma nova maneira de jogar futebol. Ao posicionar-se assim, Cruyff comportou-se como o treinador que seria uns anos mais tarde e, mais ainda, como aquele tipo de jogador que, de certo modo, viria a inventar: o médio-defensivo de qualidade técnica, capacidade de passe e visão de jogo invejáveis que teve em Guardiola o primeiro e mais genuíno representante. Atrás de todos os outros colegas, Cruyff pôde ver o que não veria se estivesse mais subido no terreno. A intuição de que poderia romper por entre as linhas adversárias com a bola colada ao pé dificilmente lhe assomaria ao espírito noutras circunstâncias.
Quando a bola voltou a Cruyff, já o capitão holandês tinha visto como se comportava o bloco defensivo germânico, que tipo de marcações estavam a ser exercidas (sobre si e sobre os seus colegas), e quais as fragilidades que podia explorar. A circulação aparentemente inócua da bola não só lhe deu tempo para observar o que se passava à sua frente como fez o adversário expor os seus comportamentos defensivos. Os 16 passes que antecederam a arrancada fulminante do génio holandês, que só viria a ser travado em falta dentro da área alemã, foram absolutamente decisivos para que se formasse a intuição de que, ultrapassando o seu marcador directo em zona frontal, se criavam as condições ideais para entrar na área adversária com a bola controlada. Não acredito que Cruyff tenha feito de propósito. Isto é, não acredito que lhe tenha passado pela cabeça que precisava de ter uma visão global do campo de batalha antes de tomar a iniciativa de atacar as hostes inimigas. A atitude de Cruyff, no princípio do jogo, é puramente experimental. A ideia ocorreu-lhe e pareceu-lhe boa. E foi isso que o levou a experimentá-la. Do mesmo modo, não acredito que dessa experiência se tenha seguido uma conclusão irrefutável. O que ela originou foi uma intuição. No momento em que recebe a bola e encara Berti Vogts, Cruyff não só já tinha interiorizado uma série de padrões comportamentais do adversário como teria a percepção, mais ou menos vaga, de que havia muito espaço no centro do terreno (esse espaço existias porque os holandeses tinham arrastado as marcações dos alemães para os corredores laterais, e o centro estava momentaneamente despovoado).
À luz do futebol que hoje conhecemos, toda a jogada é estranha: Cruyff a vir buscar a bola aos defesas; Cruyff a posicionar-se atrás de todos os seus colegas; Cruyff a ir no um para um quando era o último defesa; etc. Há algo de profundamente bizarro em tudo isto. E, no entanto, a facilidade com que Cruyff transforma uma jogada de bola a meio-campo numa grande penalidade a favor da sua equipa, antes de qualquer adversário ter sequer tocado na bola, é incontornável! Se parássemos o filme no momento em que Cruyff recebe a bola pela segunda vez e, garantindo que a jogada se desenrolaria junto ao solo, perguntássemos a alguém em qual das duas áreas era mais provável que, sete segundos depois, houvesse uma falta para grande penalidade, quantos se atreveriam a dizer que isso se daria na área germânica? Dado o futebol que conhecemos hoje em dia, quase todos pensariam numa perda de bola dos holandeses e num contra-ataque alemão. O futebol moderno parece, portanto, o exacto oposto desta jogada. Mas aí é que está. O que esta jogada mostra é que, contra todas as probabilidades, há benefícios em jogar assim. Cruyff é, em grande medida, responsável por nos fazer perceber que é possível triunfar contrariando tudo o que nos ensinaram. A dívida que temos para com ele é essa. Mostrou-nos que, em futebol, há uma vantagem teórica decisiva em assumir a iniciativa, e mostrou-nos também que a vontade de fazer coisas diferentes, de não repetir apenas o que os outros fazem, de inovar constantemente, de satisfazer a curiosidade, experimentando, pode beneficiar-nos de um modo inesperado. O talento de Cruyff é, em grande medida, o reflexo da sua prodigiosa intuição. Mas essa intuição não era um dom inato; era o resultado do seu inconformismo, daquela mania de se colocar insistentemente perante obstáculos diferentes, de não resolver os problemas sempre da mesma maneira, de buscar amiúde novos desafios e novos estímulos. A intuição de Cruyff, aquilo que lhe permitia responder com criatividade aos obstáculos que se lhe deparavam, desenvolveu-se em função do desconforto a que ele próprio decidiu sempre sujeitar-se. Colocando-se sistematicamente perante circunstâncias atípicas e forçando-se a descobrir um modo de lidar com cada uma delas, ia adquirindo ferramentas que lhe permitissem lidar cada vez melhor com a atipicidade inerente ao jogo de futebol. A meu ver, esta jogada mostra tudo isto de forma flagrante. É em grande parte por isso que estão contidos nela os fundamentos do futebol moderno.
Escrito por Nuno às 14:51:00 2 bolas ao poste
Etiquetas: Clássicos, Cruyff, História do Futebol, Holanda, Raciocínios Tácticos
terça-feira, 18 de maio de 2010
Ibrahimovic
Foi publicado a semana passada, na Academia de Talentos, um artigo infame no qual se defendia que Ibrahimovic era um flop europeu. A infâmia do artigo está não só na forma absurdamente exagerada em que são postos os termos e nas coisas que são consideradas, mas também e sobretudo nos argumentos utilizados. As razões que presidiram a tal teoria foram, uma vez mais, os golos que o sueco faz (ou não faz). Dizer que o sueco faz poucos golos na Europa, que se mexe pouco e que, considerando o derradeiro teste o jogo atípico em Camp Nou frente ao Inter, o Barcelona só começou a criar perigo quando ele saiu é não perceber nada de Ibrahimovic nem de pontas-de-lança e é também mentir com quantos dentes se tem. Poderia lembrar o remate de Pedro ao lado ou o remate de Messi para excelente defesa de Júlio César, pois a movimentação de Ibrahimovic está na origem dos mesmos. Poderia lembrar a assistência de calcanhar para Messi, que o deixa na cara de Júlio César antes de Lúcio conseguir, à última, o corte. Poderia também lembrar a assistência de cabeça para Xavi, que fica igualmente em zona de finalização e que só não consegue o remate porque, uma vez mais, alguém corta "in extremis". Podia também lembrar o penalty que sofreu e que não foi assinalado. Tudo isto demonstra que Ibrahimovic não esteve propriamente apagado nesse desafio. O que é, no entanto, grave e que, provavelmente, tem origem na mesma cegueira em que se viu um jogo diferente do verdadeiro, é que se meça o valor do jogador, ou o valor de qualquer ponta-de-lança, pelos golos que marca. Ibrahimovic só é, por isso, um flop europeu para os que não sabem o que é um ponta-de-lança. Esses, como muitos outros, deveriam estar calados na hora de falar sobre coisas das quais não percebem.
Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.
As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.
Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.
Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:
"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."
Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:
"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."
Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.
Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.
As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.
Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.
Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:
"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."
Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:
"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."
Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.
Escrito por Nuno às 12:10:00 15 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Cruyff, Destaques Individuais, Ibrahimovic, Raciocínios Tácticos
domingo, 22 de março de 2009
Cruyff contra a Intensidade
Para muitos, a característica mais importante de uma equipa de futebol que queira ser bem sucedida tem de ser a intensidade de jogo. Por intensidade de jogo entende-se capacidade de jogar a um ritmo elevado durante os noventa minutos, índices de concentração e agressividade máximos, capacidade de pressionar activamente em todo o campo, etc. E diz-se que hoje em dia as melhores equipas são aquelas que conseguem ser intensas a este nível. Esta é - dizem as mesmas pessoas - a arma dos colossos ingleses. Concordo que muito do potencial de Manchester e Liverpool, por exemplo, tenha a ver com isto. Afinal, são duas equipas que raramente impõem ritmos baixos aos jogos e que têm na velocidade de processos a principal arma. De formas diferentes, é verdade, serão talvez as equipas com maior intensidade de jogo na Europa. Aquilo com que não concordo é que essa seja a característica fundamental para o sucesso. Ou pelo menos - acredito - há armas com que combatê-la.
Reconheço que Manchester e Liverpool têm as equipas atleticamente mais aptas a vencer a Champions. Mas, como sempre defendi, o futebol tem muito mais de intelectual do que de atlético. Não acredito, por isso, que o empenho físico que subjaz à capacidade de ser intenso, que a simplicidade, a velocidade, a objectividade e a agressividade sejam imbatíveis. Contra equipas que fazem da intensidade a sua arma, que têm um poderio atlético superior, como são o caso do Manchester e do Liverpool, o segredo residirá em possuir a bola, em trocá-la entre os seus jogadores o mais rapidamente possível, em criar sucessivas linhas de passe e assinaláveis redes de apoios. Se há equipa com a qual me identifico é o Barcelona de Guardiola. E é precisamente o futebol do Barcelona que serve de ilustração àquilo que defendo. Cruyff dizia, há dias, nesta entrevista, que não se importava que o Barcelona jogasse já com uma destas duas equipas, para muitos as duas grandes favoritas à vitória final. A razão era simples: não há razão nenhuma para temer qualquer adversário. O futebol do Barcelona é que é difícil de anular, não o contrário. De forma a contrariar a capacidade atlética destes dois adversários, Cruyff sugere o seguinte:
Reconheço que Manchester e Liverpool têm as equipas atleticamente mais aptas a vencer a Champions. Mas, como sempre defendi, o futebol tem muito mais de intelectual do que de atlético. Não acredito, por isso, que o empenho físico que subjaz à capacidade de ser intenso, que a simplicidade, a velocidade, a objectividade e a agressividade sejam imbatíveis. Contra equipas que fazem da intensidade a sua arma, que têm um poderio atlético superior, como são o caso do Manchester e do Liverpool, o segredo residirá em possuir a bola, em trocá-la entre os seus jogadores o mais rapidamente possível, em criar sucessivas linhas de passe e assinaláveis redes de apoios. Se há equipa com a qual me identifico é o Barcelona de Guardiola. E é precisamente o futebol do Barcelona que serve de ilustração àquilo que defendo. Cruyff dizia, há dias, nesta entrevista, que não se importava que o Barcelona jogasse já com uma destas duas equipas, para muitos as duas grandes favoritas à vitória final. A razão era simples: não há razão nenhuma para temer qualquer adversário. O futebol do Barcelona é que é difícil de anular, não o contrário. De forma a contrariar a capacidade atlética destes dois adversários, Cruyff sugere o seguinte:
"Por más que te salgan a toda pastilla, por más que te vayan a buscar arriba, por más presión que te den, tú tienes la forma de salvarlo. Y esta pasa con la técnica, el juego de posición y la velocidad que le imprimas al balón. Un pase rápido y bien dirigido a un compañero que se ofrezca en las ayudas es la única forma de hacer que ellos lleguen tarde y que tú ganes ese medio metro para salir de la presión."
Nem mais. Se o Barcelona jogar à Barcelona, o Manchester e o Liverpool é que devem temê-los. Isto porque contra a intensidade há uma arma óbvia: ter a bola. E se há equipa temível nesse aspecto do jogo é o Barcelona. E o que pode fazer uma equipa contra um adversário que tenha a bola? Tentar tirá-la, através da capacidade de pressão, através da entrega, do esforço físico. Será sempre uma disputa entre a competência de ser intenso e a competência de ter bola. O problema é que, se os dois forem competentes naquilo que se lhes impõe, será sempre quem tem bola que estará por cima. É por isso que o Barcelona só deve temer-se a si próprio. Se conseguir impor o seu futebol, a intensidade dos outros não será suficiente para pará-los.
Os quartos-de-final estão aí e, contra os desejos de Cruyff, nem Liverpool nem Manchester se atravessaram no caminho do Barcelona. O adversário será o Bayern de Munique. A diferença será, no entanto, apenas qualitativa, pois os germânicos constituem igualmente uma equipa que vive da intensidade de jogo. Perderá, para os ingleses (sobretudo para o Liverpool), em organização defensiva, mas de resto é uma equipa em tudo idêntica às outras duas. Será, por isso mesmo, um excelente ensaio para o Barcelona e uma primeira ordália às verdadeiras capacidades da única equipa europeia (com qualidade suficiente para jogar a este nível) que joga um futebol verdadeiramente apoiado. Depois do duplo desafio com o Bayern, ficará muito mais claro que espécie de resposta pode dar, nos dias de hoje, um futebol mais elaborado, mais requintado, mais inteligente, face ao músculo e ao suor em que a esmagadora maioria das filosofias hodiernas se baseiam. Tal como Cruyff, acredito que o jogo posicional, a capacidade de criar apoios ao portador da bola, a velocidade com que se circula a bola, a técnica e a inteligência podem fazer frente à capacidade atlética, por mais perfeita que esta seja. Acredito, portanto, que o Barcelona não só tem francas possibilidades de vencer a Liga dos Campeões este ano, como se constituirá, caso o consiga, como um exemplo de como a elegância, a classe e as ideias se podem superiorizar à força, à vontade e ao espírito de sacrifício.
Os quartos-de-final estão aí e, contra os desejos de Cruyff, nem Liverpool nem Manchester se atravessaram no caminho do Barcelona. O adversário será o Bayern de Munique. A diferença será, no entanto, apenas qualitativa, pois os germânicos constituem igualmente uma equipa que vive da intensidade de jogo. Perderá, para os ingleses (sobretudo para o Liverpool), em organização defensiva, mas de resto é uma equipa em tudo idêntica às outras duas. Será, por isso mesmo, um excelente ensaio para o Barcelona e uma primeira ordália às verdadeiras capacidades da única equipa europeia (com qualidade suficiente para jogar a este nível) que joga um futebol verdadeiramente apoiado. Depois do duplo desafio com o Bayern, ficará muito mais claro que espécie de resposta pode dar, nos dias de hoje, um futebol mais elaborado, mais requintado, mais inteligente, face ao músculo e ao suor em que a esmagadora maioria das filosofias hodiernas se baseiam. Tal como Cruyff, acredito que o jogo posicional, a capacidade de criar apoios ao portador da bola, a velocidade com que se circula a bola, a técnica e a inteligência podem fazer frente à capacidade atlética, por mais perfeita que esta seja. Acredito, portanto, que o Barcelona não só tem francas possibilidades de vencer a Liga dos Campeões este ano, como se constituirá, caso o consiga, como um exemplo de como a elegância, a classe e as ideias se podem superiorizar à força, à vontade e ao espírito de sacrifício.
Escrito por Nuno às 00:49:00 4 bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Competições Europeias, Cruyff, Raciocínios Tácticos
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