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sábado, 19 de março de 2016

Apontamentos para uma Estética não-Allegriana

1. O Bayern-Juventus da passada quarta-feira não foi um grande jogo de futebol, ao contrário do que tinha acontecido na primeira mão em Turim, mas serve bem para mostrar de que modo os golos monopolizam as descrições do que foi uma partida de futebol e de que modo a marcha do marcador pode não espelhar nada do que se passou nas quatro linhas. O jogo teve quatro momentos distintos, a meu ver: 1) a primeira parte, em que o Bayern, mesmo com alguns problemas de criatividade numa segunda fase de construção, foi melhor, não obstante os dois golos da Juventus; 2) os primeiros 20/25 minutos da segunda parte, em que a Juventus foi melhor, não obstante não ter marcado nas várias ocasiões que soube criar; 3) o resto da segunda parte, em que o Bayern, sem jogar bem, forçou as iniciativas individuais dos seus jogadores mais habilidosos, colocou muita gente na área, encostou a Juventus nos últimos 15 metros e conseguiu chegar ao empate; 4) o prolongamento, em que o Bayern voltou a ser a equipa que é e acabou por criar as situações de golo que lhe valeram o apuramento. 

2. Para quase toda a gente, a Juventus justificou a vantagem ao intervalo, defendendo bem e aproveitando o balanceamento ofensivo do Bayern para lançar os seus contra-ataques. Luís Freitas Lobo, por exemplo, fartou-se de criticar os riscos que a equipa de Guardiola ia correndo, apesar de a Juventus não conseguir produzir um (um único!!) contra-ataque perigoso. E não se coibiu de justificar o segundo golo dos italianos com a incapacidade da transição defensiva dos alemães. A sério? Num lance que começa com 3 avançados contra 5 defesas, no qual o portador da bola só tem um colega à frente da linha da bola contra quatro defesas adversários, no qual Morata inventa praticamente sozinho a situação de golo, passando por três adversários e deixando Cuadrado isolado, no qual tanto Alaba como Benatia podiam ter resolvido o lance, parando o espanhol em falta, é a transição defensiva dos alemães que merece censura?

3. À excepção desse lance prodigioso de Morata, do qual não há estratégia com que o treinador adversário se possa precaver, a Juventus teve um lance de contra-ataque digno de nota: aquele em que Pogba se conseguiu soltar pela esquerda, já perto do final da primeira parte, e acabou por cruzar rasteiro, com Cuadrado a aparecer ao segundo poste e Neuer a fazer uma excelente defesa. Um único lance, já a acabar a primeira parte, com o resultado a favor a ajudar à desconcentração dos bávaros, é motivo para se dizer que a Juventus fez mais do que defender, nessa primeira parte? Não, não é. A Juventus teve a sorte do jogo, apanhando-se a ganhar após um erro não-forçado de Alaba (e Neuer também não fica isento de culpas), num passe de Khedira para Lichtsteiner que, em condições normais, originaria uma recuperação de bola dos alemães, e dilatando depois a vantagem no lance de Morata já comentado. Não fez mais nada de relevante, em termos ofensivos, nessa primeira parte, até ao lance de Pogba pela esquerda. Mentira: quase que aproveitava um erro de Neuer, a sair a jogar, que deixava Morata isolado. É mesmo isto que as pessoas consideram uma boa primeira parte?

4. Dirão que, mesmo que não tenha atacado bem, a Juventus defendeu bem, e isso precipitou o resto. Deixem-me ser frontal: defensivamente, a Juventus foi miserável. Se calhar, é preciso repetir: miserável! Podia dar vários exemplos, aliás recorrentes em todo o jogo. Veja-se o lance do primeiro golo do Bayern. Antes de a bola chegar a Douglas Costa, que fez o cruzamento para o golo de Lewandowski, a jogada desenvolveu-se da direita para a esquerda, no meio-campo defensivo da Juventus, até que um passe longo descobriu Coman, que atrasou para o brasileiro. Durante todo esse tempo, a Juventus tem 8 (8!) jogadores dentro da área, formando mais ou menos, sem grande critério, uma linha defensiva. A sério que acham que amontoar jogadores ao pé da baliza, sem estarem devidamente alinhados e sem um critério de espaço entre eles devidamente uniforme, é defender bem?

5. Dirão que isso aconteceu na fase final do jogo, quando as forças começaram a faltar e o Bayern estava a começar a recorrer às acções individuais de Ribery, Coman e Douglas Costa, e aos cruzamentos para a área. Posso dar exemplos de coisas parecidas na primeira parte. A Juventus apresentou-se em 541 não para ocupar melhor certos espaços defensivos, mas porque o Bayern, ao colocar Müller muitas vezes perto de Lewandowski, fazia com que a arrumação dos defesas italianos, que se organizavam em função dos adversários que perseguiam individualmente, criasse a ilusão de que se formava uma defesa a cinco. Alex Sandro entrou em campo com uma única missão: vigiar Douglas Costa. Não fez mais nada. Andou atrás dele. E, como o brasileiro passou muito tempo aberto no flanco, houve momentos em que a Juventus jogou literalmente com dois defesas-esquerdos. Atenção, não jogou com dois jogadores que são defesas esquerdos de origem, um à frente do outro ou um ao lado do outro. Jogou com dois defesas esquerdos no mesmo espaço, um às cavalitas do outro. As perseguições individuais eram tão flagrantes, entre os defesas italianos, que não foram poucas as vezes que Barzagli e Evra saíram da linha defensiva para virem perseguir o avançado alemão que lhes calhava marcar. Há um momento, a meio da primeira parte, em que Ribery decide soltar-se do flanco e ir até ao lado direito, até muito perto de Lahm. Como, no início do lance, Barzagli definiu a marcação ao francês, foi atrás dele. Sim, houve um momento, com a bola no meio-campo, em que o Barzagli, que era supostamente o central do lado direito, estava ao pé do Pogba, na ala esquerda. Isto é organização defensiva de excelência em que parte do mundo?

6. Durante os primeiros 70 minutos, Luís Freitas Lobo repetiu um dos seus chavões preferidos: que Allegri é o melhor treinador italiano da actualidade. Ainda que tenha mudado o discurso depois de o Bayern marcar, como bom cata-vento que é, Freitas Lobo cometeu a atrocidade de dizer que um treinador cuja equipa se comporta como descrito acima é o melhor treinador italiano da actualidade. Não terá sido por acaso, aliás, que Arrigo Sacchi tenha dito, há poucos dias, tão mal de Allegri. Para Freitas Lobo, porém, apinhar jogadores dentro da área e à frente dela, sem outro critério que não a referência dos adversários, é arte (sim, também disse que defender assim era arte). Freitas Lobo é só um idiota a quem deram tempo de antena. Que as mesmas ideias se registem em quase toda a gente que viu o jogo é que é grave. A Juventus não defendeu bem; defendeu com muitos. Embora as duas coisas possam produzir resultados parecidos, a diferença entre uma coisa e outra é incomensurável. Chamar "treinador" a Allegri é, de resto, uma hipérbole.

7. Dirão que as duas coisas (defender bem e defender com muitos) não são assim tão diferentes, pois o Bayern não soube tirar partido dessa eventual desorganização. Soube, soube. As pessoas é que não sabem ver um jogo de futebol. A primeira oportunidade de golo é do Bayern. Quase ninguém se lembra desse lance porque Arturo Vidal falhou a recepção (é o primeiro lance neste vídeo). Se a tivesse acertado, ficava dentro da área, sozinho com Buffon pela frente, e possivelmente faria o primeiro golo do jogo, mudando toda a história do mesmo. Esse lance é todo potenciado pela desorganização defensiva da Juventus. Douglas Costa recebe na linha, e flecte para o meio. À sua volta, num raio de 5 metros, tem Alex Sandro, Evra, Hernanes, Khedira e Pogba (este à frente da linha da bola), completamente desinteressados do espaço que os separa da linha defensiva. Além dos dois defesas esquerdos, um em cima do outro (no início da jogada, Evra está a dois metros de Alex Sandro, completamente alheado de tudo), não há linha de meio-campo, não há cobertura recuada ao médio que fecha a esquerda (Khedira está à frente de Hernanes e não alguns metros atrás, como devia), o médio direito não acompanha o restante posicionamento defensivo do meio-campo (Cuadrado está interessado em perseguir Vidal e fica a cerca de 15 metros de Khedira), e o buraco entre o último central e o lateral é absurdo (Lichtsteiner, preocupado com Ribery, que está aberto no flanco, está a cerca de 20 metros de Barzagli, que está perto de Bonucci, o qual descaíra para a esquerda para fazer a cobertura correcta ao lateral). Foi por esse buraco que Vidal entrou e foi aí que o passe de Douglas Costa o descobriu. Estava criada a primeira situação clara de golo. Ninguém fala dela, e é a jogada que melhor explica o que foi a primeira parte do jogo: uma equipa a tentar jogar e a outra a amontoar jogadores.

8. As pessoas falam da estratégia defensiva da Juventus (como se viu, foi miserável), falam do contra-ataque (como se viu, praticamente não existiu) e falam da pressão que conseguiu impor, evitando que o Bayern saísse a jogar como gosta. Também aqui não devem ter visto bem o jogo. O Bayern conseguiu sair a jogar quase sempre. Teve falhas, sim, mas recusou-se a sair de outra forma e, de um modo geral, conseguiu impor o seu jogo habitual. E, tirando a falha de Neuer (precipitada pelo mau posicionamento de Xabi Alonso, que se esconde atrás de Morata e não dá a linha de passe que devia) a qual deixa Morata isolado, nenhuma das iniciativas de pressão alta dos italianos lhes foi particularmente útil. Umas vezes com mais qualidade do que outras, o Bayern saiu a jogar e obrigou invariavelmente a Juventus a baixar as linhas. Onde o Bayern não esteve bem foi na segunda fase de criação. Depois de sair, impunha-se que soubesse construir melhor no meio-campo adversário, e isso não conseguiu fazer. Convenha-se que, sem Thiago ou Lahm nessa zona do terreno, a equipa não o consegue fazer bem. É, a meu ver, a principal fragilidade da equipa de Guardiola neste momento, muito potenciada pelas lesões que têm afectado o plantel (Lahm está a jogar na defesa por isso, e Thiago não está propriamente com o melhor dos ritmos competitivos). Não obstante, construiu mais uma excelente ocasião de golo na primeira parte, que acabou com uma boa defesa de Buffon. Achar que o resultado ao intervalo espelhava o que as duas equipas tinham feito em campo é não saber distinguir o futebol praticado dos golos marcados pelas duas equipas.

9. A Juventus só foi a melhor equipa em campo no arranque da segunda parte. Por intranquilidade dos bávaros, que pareciam pressionados pela necessidade de fazer o primeiro golo rapidamente, falharam muito ao nível do passe e permitiram aos italianos algumas jogadas interessantes. Aí, sim, a Juventus conseguiu alguns lances minimamente decentes e - diga-se - podia mesmo ter sentenciado a eliminatória. Guardiola esperou o máximo que podia (viu-se o desagrado na sua cara num lance em que Neuer pontapeia a bola para a frente sem nexo) e acabou por decidir abdicar de alguns dos seus princípios para tentar incomodar os italianos, agora muito mais confortáveis, de outro modo. A partir do momento em que Coman entrou, o Bayern colocou ainda mais jogadores na frente e entregou a criação quer aos dois alas (Ribery e Coman), quer a Douglas Costa, que passou a jogar por fora do bloco defensivo da Juventus, quase como único médio. A mudança teve duas intenções: 1) forçar os italianos a recuar ao máximo para dentro da sua área, pois havia agora ainda mais jogadores bávaros em posições avançadas; 2) forçar situações de cruzamento para a molhada que se criara como consequência desse recuo. Ainda que tenha perdido discernimento, e tenha acumulado muitas acções sem nexo, a equipa de Guardiola conseguiu exactamente aquilo que a mudança pressupunha. E, dada a desorganização defensiva dos italianos, era uma questão de tempo até que os golos surgissem. Surgiram na sequência de dois cruzamentos, mas podiam ter surgido na sequência de remates à entrada da área (a Juventus permitiu esse espaço) ou por penetrações pelo solo (há pelo menos um passe de Douglas Costa que deixa Lahm em excelente posição dentro da área, mas a recepção trai o alemão). 

10. No prolongamento, o Bayern voltou a jogar como sabe e como o fizera na primeira parte. Convicto de que aquilo que acontecera nessa primeira parte foi uma anormalidade, voltou ao que sabe fazer e controlou o jogo como quis. É assim que se joga futebol, seja contra que equipa for. Que isso só tenha sido eficaz no prolongamento é uma contingência da natureza aleatória que caracteriza o jogo. O golo de Thiago é o exemplo perfeito do que poderia ter acontecido a qualquer altura, na primeira parte, mas que não aconteceu por acaso (e talvez porque Thiago não estava em campo).

11. A defesa do Bayern, na segunda parte, era constituída por Lahm (1,70m), Kimmich (1,76m), Alaba (1,80m) e Bernat (1,70m). Sim, é possível jogar futebol ao mais alto nível com uma defesa composta por jogadores pequenos, pouco intensos e pouco agressivos. De resto, é um privilégio poder ver o que um miúdo de 21 anos consegue fazer com a bola, numa posição na qual nunca jogou, constantemente exposto ao risco. A qualidade das decisões de Kimmich, sempre à procura de um colega atrás da primeira linha de pressão do adversário, é qualquer coisa de extraordinário. Kimmich é médio de origem, e será decerto como médio que fará carreira. Para aqueles que adoram o Renato Sanches, um médio a sério é alguém que joga como Kimmich. É por jogar como joga, de cabeça levantada, à procura de colegas, e por ser tão criterioso no passe como é, que tem a facilidade que tem para jogar como central. De resto, é possível não admirar o futebol praticado pelas equipas de Guardiola. Mas é preciso ser realmente muito tacanho para não admirar a sua coragem... 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Benfica de Rui Vitória

O Benfica de Rui Vitória é, até à data, pouco mais do que um conjunto de jogadores espalhados num campo de futebol. A conclusão não é tardia nem motivada pelo descalabro do último fim-de-semana; em abono da verdade, foi o que tem vido a ser, jogo após jogo, desde o início do campeonato. Os resultados e a confiança que eles trazem mascararam essa realidade, criando a ilusão de que a equipa estava a crescer enquanto equipa. Não estava. O Benfica de Rui Vitória, até à data, não cresceu rigorosamente nada. Luís Freitas Lobo, por exemplo, acredita que este Benfica, em comparação com o de Jesus, é mais compacto e equilibrado, joga com as linhas mais juntas e é capaz, por isso mesmo, de jogar de forma mais pausada. É inacreditável que se possa sequer acreditar nisso. Basta ver 10 minutos de um jogo do Benfica de Rui Vitória para se perceber que o portador da bola é invariavelmente deixado ao abandono, que os homens sem bola raramente fazem movimentos de aproximação, que os alas e os avançados pouco ou nada são encorajados a invadir espaços interiores ou a baixar, que a tendência é para ocupar o máximo de espaço no terreno de jogo e que a inferioridade numérica no meio-campo, decorrente da insistência num modelo de jogo que requer necessariamente formas de compensar essa inferioridade é sempre, mas sempre, perniciosa para a equipa. O Benfica de Rui Vitória, até à data, é uma perfeita nulidade enquanto equipa.

Dois ou três resultados gordos (um deles construído nos últimos 20 minutos) e uma vitória inesperada em Madrid, conquistada às custas de 90 minutos a defender e de um Júlio César intransponível, não deveriam ser suficientes para se tirarem ilações positivas deste Benfica. Como sempre, as pessoas fiam-se nos resultados, e depois acontecem coisas que não conseguem explicar. A derrota humilhante deste fim-de-semana, uma das mais pesadas de sempre do Benfica em casa, não foi surpreendente, porém, para quem vê o que é importante ver. O Sporting ganhou com justiça, sem sequer fazer um jogo extraordinário. Foi eficaz e soube potenciar os erros do modelo do Benfica. Mas, mesmo que o não fosse, bastaria ocupar relativamente bem os espaços, coisa que as equipas de Jesus costumam saber fazer, para ter o domínio relativo do jogo. Tal como na Supertaça, o Sporting foi superior ao Benfica essencialmente porque foi uma equipa mais equilibrada em cada momento do jogo. Isso é o princípio de tudo. Sem ter sequer feito da troca de bola um modo de desposicionar o Benfica, bastou ao Sporting esperar que os encarnados, tendo que assumir as despesas do jogo, se desorganizassem por si. E assim foi. O Benfica foi sempre uma equipa desorganizada, tanto a defender como a atacar; teve sempre menos gente na zona da bola; nunca se preocupou com os apoios recuados ou com os apoios laterais, deixando o portador da bola sem outra solução que não o apoio vertical; defendeu sempre demasiados metros em largura quando a bola entrava nas alas, o que criava espaços excessivos entre os jogadores  (veja-se o espaço entre os centrais no segundo golo, potenciado por uma linha defensiva demasiado centrada quando a bola está encostada à linha esquerda); etc..

Para dar um exemplo do que é o Benfica de Rui Vitória, note-se a falta de rede no meio-campo, no terceiro golo do Sporting: o médio que incia a jogada não tem atrás de si nenhum outro médio, a dar um apoio recuado e a oferecer a cobertura numa eventual perda de bola, assim como não tem ninguém à sua direita, em cerca de quarenta metros, a não ser o lateral, que procura abrir. Assim é muito fácil ao adversário prever a opção do portador da bola. A antecipação que origina a perda de bola não é demérito do portador  nem do receptor, nem sequer é mérito do defesa sportinguista; é demérito colectivo do Benfica. O principal motivo da perda da bola é a desorganização colectiva que torna fácil ao adversário ler o lance. A agravar a situação, os centrais estão muito longe do portador da bola e do meio-campo, ficando, por conseguinte, incapacitados de reagir rapidamente à perda. No lance do terceiro golo, as pessoas vão crucificar o médio que cometeu a imprudência de fazer um passe à queima, ou o atacante que teve o desmazelo de se deixar antecipar, ou até mesmo o lateral direito, Sílvio, que demorou a reocupar a sua posição depois de a equipa ficar sem a bola, apesar de ser o único que, no momento ofensivo, se preocupou em dar uma solução de passe ao portador da bola (o que o deixou  naturalmente em condições deficientes para recuperar rapidamente). As pessoas vão crucificar qualquer um destes três, ou mesmo qualquer um dos outros jogadores que estavam em campo, pois não são capazes de perceber que um jogador joga aquilo que o colectivo lhe permitir jogar. As pessoas vão crucificar os jogadores, mas o principal responsável é Rui Vitória. O Benfica de Rui Vitória é, até à data, aquilo que foi exemplarmente neste jogo: pouco mais que nada.

P.S. O que pude ver do arranque da época fez-me antecipar, desde muito cedo e sem grandes hesitações, que o Sporting era o principal candidato ao título, este ano. Ainda que essa convicção tenha ficado enfraquecida depois do afastamento de Carrillo, possivelmente o melhor jogador do arranque de temporada leonino, creio que continuo a subscrever esse prognóstico.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Histeria em torno de André André e o que isso diz de Lopetegui

Mais irritante do que a cacofonia do nome é a histeria em torno das qualidades futebolísticas de André André, estrondosa nas últimas semanas e após o clássico deste fim-de-semana. Para Luís Freitas Lobo, por exemplo, André André é um jogador extraordinário. Mas pronto, para Freitas Lobo o Benfica de Rui Vitória também é uma equipa com as linhas muito mais juntas do que o Benfica de Jesus e Gonçalo Guedes também é um jogador que pensa o jogo a cada instante. Há que dar a condescendência devida aos parvos, e Freitas Lobo não é excepção. Quanto a André André, enfim, pode apenas dizer-se que é o exemplo mais recente da estupidez com que se olha para um campo de futebol. De tempos a tempos, surgem estes casos absurdos de jogadores sem o mínimo de talento que entusiasmam plateias inteiras. Tem tudo aquilo de que as bancadas gostam: é raçudo, vai a todas, corre que se farta, é voluntarioso, joga com amor à camisola e, ainda por cima, é filho de uma antiga glória do clube. No meio disto tudo, uma pessoa até se esquece de que o que era realmente giro era se tivesse talento. André André não tem talento. É um médio de combate, razoável do ponto de vista técnico, e útil em alguns momentos de um jogo. Não é nem médio para jogar entre linhas, que é como acreditam que deve jogar, nem médio para acrescentar alguma coisa à equipa em organização ofensiva, nem médio para jogar em zonas com pouco espaço. André André não tem um pingo de criatividade. Executa rápido, é verdade, mas apenas considera uma possibilidade. A sua decisão é sempre a mais óbvia, e pode apenas ter alguma utilidade, no passe, em momentos do jogo em que há muito espaço e pouca coisa a considerar. Os treinadores continuam a teimar em médios deste género, e continuam a acreditar que este tipo de jogador tem espaço em equipas que passam a maior parte do tempo em organização ofensiva. É pena, porque o futebol moderno, dados os bons exemplos que se foram acumulando nos últimos anos, já mostrou que não é com músculo, vontade e entrega ao jogo que se constroem equipas competentes. André André é uma espécie de Raúl Meireles. Se este já apanhou uma fase da evolução do jogo em que já não deviam apostar nele, dado aquilo que se começava então a exigir a um médio de ataque, André André aparece numa altura em que só por estupidez se pode achar que a organização defensiva adversária se desfaz com gente que corre muito, toma decisões muito rápidas e disputa cada lance como se fosse a coisa mais importante do mundo. André André é o típico médio de que se gostava muito há 15 anos. Sempre que aparecem jogadores deste tipo, fico com a sensação de que não se percebe o quanto o jogo evoluiu entretanto. 

Quanto a Lopetegui, sempre me pareceu o típico treinador que, tendo sido educado, enquanto treinador, numa escola futebolística que o conduz à posse e ao futebol apoiado, possui a tentação secreta de ser um treinador à antiga. Este início de campeonato desfez finalmente todas as dúvidas. As suas equipas só não são equipas dos anos 80 porque o talento o vai disfarçando. Este ano, porém, parece realmente apostado em recuar às origens. Não é só os extremos sistematicamente abertos, as variações de flanco cada vez mais constantes, o privilégio pelas alas, a distância absurda entre jogadores e a previsibilidade com que a equipa ataca; é também o tipo de meio-campo que está a tentar construir. O ano passado, o meio-campo ofensivo do Porto era muito criativo. Quando não jogavam Oliver ou Herrera, os dois titulares, jogava Evandro, que tem bastante qualidade. E Brahimi tinha liberdade suficiente para vir para terrenos interiores, sem bola, para criar superioridade numérica por dentro e para deixar a largura e a profunidade a cargo do lateral. Este ano, além de ter saído Oliver e ter entrado Imbula, que não tem nem um terço da qualidade do espanhol e vem claramente sobrevalorizado, Herrera saiu do onze e Evandro nem conta. E Bueno, onde anda? O meio-campo do Porto, com Imbula e André André (já para não falar de Danilo), não sabe pausar o jogo, não sabe assumir a posse e não tem capacidade para desmontar linhas defensivas através de trocas de bola e penetrações frontais. Com este meio-campo, o futebol do Porto consiste sobretudo em fazer a bola chegar à linha, para que Brahimi, Corona, Varela e Tello desequilibrem individualmente, e em meter muita gente na área (os médios correm a direito, tendo por missão aparecer o mais possível junto ao ponta de lança, essencialmente a pensar em cruzamentos, em passes em profundidade para as costas da defesa e em segundas bolas). Apesar da qualidade individual do Porto, que me parece ser superior à de qualquer um dos rivais, este género de ideologia será fatal a Lopetegui.

sábado, 18 de abril de 2015

Notas Soltas sobre a Jornada Europeia

1. A primeira nota é sobre a surpresa do Dragão. O resultado é surpreendente, mesmo para um optimista e mesmo reconhecendo que faltaram ao Bayern vários jogadores importantes. Mais surpreendente será, talvez, a apatia dos alemães, sobretudo na segunda parte, e a incapacidade de condicionar o adversário, como habitualmente, pelo jogo de posse. A maior parte das pessoas teceu rasgados elogios à estratégia de Lopetegui e não se coibiu de traçar um nexo causal entre essa estratégia e o resultado do jogo. Não querendo de modo algum sugerir que a pressão portista não teve alguns efeitos desejados, parece-me um exagero, porém, atribuir a essa estratégia qualquer um dos golos com que o Porto construi a interessante vantagem que leva para a segunda mão. Sim, essa estratégia foi importante na forma como, na segunda parte, o Porto conseguiu evitar que o Bayern fizesse o seu jogo habitual de posse e fosse conseguindo as habituais penetrações frontais, mas não foi responsável por mais nada. Já não é de agora, mas sempre que um jogo corre mal a Guardiola, para a opinião pública, é porque o treinador contrário descobriu a pólvora. Enfim... Sobre o terceiro golo, não sei se é preciso dizer mais do que foi um pontapé para a frente, um erro de Boateng, que não percebeu onde é que a bola ia cair, e uma recepção fenomenal de Jackson. Quanto aos outros, são erros individuais não potenciados pela pressão portista, como se alegou. Pressão não é aquilo que Jackson e Quaresma fizeram nos dois primeiros golos, respectivamente. Aquilo é uma iniciativa individual que, quando muito, serve para atrasar a saída de bola do adversário. Pressão é um comportamento colectivo. Não foi a pressão do Porto que forçou aqueles erros e não foi a estratégia de Lopetegui que deu resultado. Foram erros individuais. E os erros individuais não são da responsabilidade dos treinadores. Não perceber isto é achar que, desde que o Porto consiga repetir a estratégia, tem a eliminatória garantida. Não tem.

2. Ainda sobre um aspecto do que disse acima, há a tendência absurda, hoje em dia, para elogiar treinadores cuja estratégia consiste em estabelecer zonas de pressão e em atacar rapidamente assim que se recupera a bola para aproveitar o espaço nas costas do adversário. O absurdo disto está no facto de não se ser capaz de ver estratégia em mais lado nenhum. Só há stratégia, para esta gente, quando uma equipa abdica propositadamente da bola para poder atacar com mais espaço depois. Não há paciência para estes miseráveis... Para esta gente, se uma equipa assume deliberadamente o jogo, é porque tem melhores jogadores; se não o assume deliberadamente, é porque o treinador é um estratega. E quando a estratégia defensiva, calculista, de esperar pelo erro do adversário, não tem sucesso, é porque os jogadores não a souberam cumprir. Para esta gente, a estratégia de defender atrás, pressionar nas zonas certas e sair rapidamente para o contra-ataque é infalível, desde que os jogadores se comportem como devem. Foi mais ou menos isto que Luís Freitas Lobo foi insinuando no jogo que opôs o PSG ao Barcelona. Se, por acaso, o PSG tivesse feito golo naquele contra-ataque conduzido por Lavezzi que terminou com Cavani a perder espaço e a permitir o corte de Mascherano, o que na altura daria o empate, assistiríamos decerto ao elogio da estratégia de Laurent Blanc. Como não resultou, e como o Barça continuou a mandar no jogo e ainda dilatou a vantagem, o insucesso explica-se ou pela apatia dos jogadores ou por o treinador não ter posto outro tipo de jogadores.

3. Foi só isto que se ouviu dizer pelos comentadores de serviço da Sporttv responsáveis pela cobertura da jornada da Liga Europa (Helena Costa e outro pateta). O Wolfsburgo perdeu por 4 a 1 em casa com o Nápoles porque Benitez é um estratega e porque os alemães não apresentaram agressividade, empenho e mobilidade suficiente. Para esta gente, só é possível contrariar aquela super-estratégia de ficar fechadinho atrás da linha da bola sendo mais agressivo, empenhado e mexido. 99% das pessoas que comentam futebol na televisão repetem ladainhas e ideias disseminadas que ou estão erradas ou não são bem aplicadas. Vêem um ou outro jogo e aplicam rótulos que ficam para sempre. Como ouviram dizer que Benitez é assim e como, se calhar, viram um jogo do Sevilha contra um adversário mais forte, decidiram que Unai Emery é como Benitez. E passaram o tempo todo a falar de como os dois são iguais, de como as equipas de ambos jogam defensivamente, esperando o momento certo para atacar, e de como, por essa razão, são mal amados num país em que a maior parte dos treinadores defende uma cultura de posse. Eu até aceito que em Espanha haja mais treinadores a defender uma cultura de posse do que noutros países. Daí a serem todos vai um salto enorme. E incluir Unai Emery entre os treinadores calculistas cujas equipas abdicam da bola é um disparate que não é possível qualificar.

4. Regressando ao jogo de Paris, Luís Freitas Lobo também repetiu alarvidades. As principais tiveram a ver com Matuidi e com Pastore. Para Freitas Lobo, Matuidi é o melhor médio a jogar pela meia esquerda do mundo, signifique isso o que significar. A única coisa que Matuidi fez, no jogo de quarta-feira, foi aparecer no flanco esquerdo, a ir buscar bolas perto da bandeirola de canto. Não fez mais nada senão piques para ir apanhar a bola onde ela dificilmente seria útil. Piques! Um jogador é o melhor do mundo a jogar ali pela meia esquerda porque faz piques! Ao que chegou o comentário futebolístico em Portugal! Só esta opinião seria suficiente para que Freitas Lobo merecesse o internamento, mas é preciso confrontá-la com a opinião sobre Pastore para se perceber exactamente o tipo de coisas de que gosta. Ao contrário do que disse de Matuidi, que elogiou ad nausea, e sempre que mexia uma das pernas, Freitas Lobo passou o jogo a dizer que Pastore gostava de fazer as coisas com classe, que tecnicamente era evoluído, mas que era lento para jogar a este nível. O que fazia falta, a meu ver, era um comentador que, quando Freitas Lobo dissesse estas coisas, lhe perguntasse rapidamente o que achava de Pirlo, de Kroos, de Busquets, de Iniesta, de Thiago Alcântara ou de Fabregas. Gostava de saber, embora já saiba, de que maneira para Freitas Lobo estes jogadores são diferentes de Pastore. A resposta é óbvia, apesar de Freitas Lobo não a saber dar: são jogadores conceituados e, como tal, o que fazem é bem feito. A lentidão é apenas um defeito, para Freitas Lobo e outros atrasados mentais, de jogadores que não sejam conceituados. Nesses, lentidão é contemporização, planeamento, cérebro. Sim, pode-se jogar a este nível sem pressas, senhor Freitas Lobo! E não só se pode como é aconselhável que se faça. Na opinião de Freitas Lobo, o que falta a Pastore é ser Matuidi. Na opinião de quem percebe alguma coisa do jogo, pelo contrário, não falta nada a Pastore e falta tudo a Matuidi.

5. Sobre o duelo madrileno, tenho pouco a dizer. Foi mal jogado, de parte a parte, e só os adeptos de outros desportos e os amantes do futebol inglês é que podem gostar de um jogo cujo único motivo de interesse é a disputa da bola. Sim, foi um jogo intenso, muito disputado, com os jogadores muito empenhados. Dito isto, foi um jogo paupérrimo. Quando as equipas se preocupam em demasia em disputar cada bola como se fosse a última, transferem a concentração para essa necessidade e o futebol perde qualidade. Aproveitando a dicotomia proposta por Freitas Lobo, foi um jogo de Matuidis quando podia ter sido um jogo de Pastores. Há, no entanto, um lance que merece o meu reparo. Passou-se na área do Atlético de Madrid, com Benzema a receber uma bola com algum espaço. Ao invés de se tentar virar para a baliza, enquadrando-se com ela, o francês tentou uma habilidade de calcanhar, deixando a bola, contra todas as previsões, à entrada da área, para Ronaldo finalizar. Como Ronaldo estava apertado, o remate acabou por ser obstruído, e a jogada não teve efeito. Para Pedro Martins, que comentava o jogo, o avançado do Real tomou uma má decisão, pois estava em boa posição quando recebeu a bola e devia ter tomado a decisão mais simples de tentar finalizar ele. Não só não é certo, contudo, que Benzema ficasse com espaço para finalizar depois de rodopiar sobre si próprio, como não me parece que ser o mais simples possível seja sempre o melhor que há a fazer. Por vezes, complicar é a melhor decisão. E o que é espantoso, a meu ver, é que se diga que esta foi uma má decisão quando, semanas antes, em Camp Nou, numa jogada muito parecida, o toque de calcanhar do francês permitiu a Ronaldo fazer o golo com que, na altura, o Real empatava. Mais uma vez, é o desfecho da jogada, não a decisão do jogador, que conta para esta gente. Benzema lembrou-se de fazer uma coisa que poucos estavam à espera e fê-la bem. Como é normal, ele não pode prever o comportamento de todos os adversários, assim como não pode prever o comportamento do colega a quem vai entregar a bola. Tem que confiar que as coisas vão correr bem. Em Camp Nou, bastava que alguém do Barcelona tivesse antecipado aquilo para que a jogada não tivesse efeito. Neste caso, como no outro, só posso gabar a iniciativa de Benzema. Arriscou fazer uma coisa diferente que, tendo a desvantagem de ser mais difícil de pôr em prática, acarretava a vantagem de ser menos previsível para os adversários. Não foi bem sucedido, mas tomou uma boa decisão. Não perceber isto é também não perceber bem a diferença entre quem é simples e quem sabe simplificar.

6. A última nota é sobre a melhor liga do mundo. Há anos a fio que se diz que a Liga Inglesa é o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo, aquele em que se joga melhor, etc.. Parece-me mais ou menos incontestável que é aquele que movimenta mais dinheiro e aquele que maior capacidade tem para atrair os melhores jogadores. Não se segue daqui que seja o melhor. Para dizer a verdade, é até discutível que esteja entre os cinco melhores campeonatos da Europa. O futebol em terras de Sua Majestade continua a ser primitivo e nem a chegada de treinadores continentais, contra os quais se levantam já algumas vozes, argumentando que estão a descaracterizar o futebol inglês, tem sido suficiente para que esse futebol se consiga manter ao nível dos melhores da Europa. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, há três equipas espanholas, duas francesas, uma italiana, uma alemã e uma portuguesa. Nos quartos de final da Liga Europa, há duas equipas italianas, duas ucranianas, uma russa, uma espanhola, uma alemã e uma belga. Nos quartos de final das duas provas europeias, não resta uma única equipa inglesa. Não explicando tudo, explica alguma coisa. As melhores equipas inglesas estão num nível inferior às melhores equipas do resto da Europa, e as restantes equipas com aspirações europeias estão num nível inferior às restantes equipas do resto da Europa. Como é que a alegada melhor liga do mundo é incapaz de pôr um único clube entre os dezasseis que ainda se encontram em prova? Enquanto se continuar a achar que jogar futebol é correr muito, lutar muito e transpirar muito, nada mudará. Os treinadores continentais podem ser capazes de introduzir novas ideias, mas precisarão de décadas para mudar mentalidades. E é essencialemente a mentalidade que distingue o futebol inglês que faz com que seja bem inferior ao futebol que se pratica noutros sítios.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Mundial dos Detalhes e das Individualidades

Há um tipo de estupidez particular, quando se fala de futebol, que consiste em ignorar que este não é um jogo como a maioria dos outros jogos. Ao passo que é difícil dizer, por exemplo em xadrez, que determinado jogador teve sorte em vencer, no futebol nem sempre quem joga melhor é quem vence. Não há, aliás, outro jogo que se compare ao futebol, nesse aspecto, e essa é também uma das razões pelas quais este é um desporto tão popular. O motivo é mais ou menos claro: ao contrário da grande maioria dos outros jogos, é um jogo cujo resultados não são geralmente volumosos. O golo é algo que acontece poucas vezes e, sendo a diferença de golos que determina quem ganha e quem perde, é natural que haja muitos jogos cujo resultado não espelhe o que as equipas fizeram. Uma vez que as equipas ganham ou perdem por causa de um ou dois lances em cada 90 minutos, é possível afirmar que é o jogo em que os detalhes são mais decisivos. Isso fez com que, ao longo dos anos, muitas pessoas acreditassem que eram melhores equipas aquelas que se especializassem melhor nos detalhes. Não acreditando nisso, é verdade que os detalhes têm um peso importante na definição de um jogo e é muitas vezes por eles que se deve explicá-lo. Pessoalmente, considero que é melhor equipa aquela que trabalhar de maneira a depender menos dos detalhes, mas não posso deixar de reconhecer que são eles, muitas vezes, que distinguem os campeões. Em competições a eliminar, então, o peso dos detalhes é ainda mais significativo. E se, a juntar a isto, a qualidade colectiva das equipas de um torneio, por exemplo um campeonato do mundo, for nivelada por baixo, mais decisivos eles são.

O preâmbulo anterior serve para preparar as duas coisas que quero dizer de seguida. A primeira é que é profundamente estúpido todo o comentador de futebol que, qual Freitas Lobo, chega ao fim de uma partida de futebol e tenta justificar o que nela se passou apenas pela qualidade táctica das equipas. Essas pessoas acham que resultados espelham fielmente exibições, e que se ganha porque se fez necessariamente por isso. São estúpidos porque não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e que, muitas vezes, são os detalhes que determinam os vencedores. Arranjam explicações para tudo, riscam da memória tudo o que sabiam, e fazem diagnósticos com base num ou noutro lance em 90 minutos. O melhor exemplo foi o que se passou no texto anterior. Ninguém percebeu nada do que aconteceu à Espanha neste mundial, mas todos acharam que foi eliminada porque já não joga como antes e que o futebol que joga actualmente é inferior ao futebol da Holanda e do Chile. Não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e não acreditam, como deve acreditar quem tem ideias, que a Espanha actual, sendo ou não tão forte como foi em 2012, por exemplo, ganharia 9 em 10 jogos que fizessem com qualquer um deles. A segunda coisa que pretendo afirmar vai também contra quase tudo o que tenho ouvido dizer sobre este mundial: para mim, está a ser dos piores mundiais dos últimos anos. E a razão tem precisamente a ver com esta questão dos detalhes. Uma série de factores tem contribuído para que as diferenças entre as boas e as más equipas se tenha esbatido, e os vencedores têm-se distinguido dos vencidos, por norma, apenas através de um detalhe ou outro. A maior parte das pessoas não pensará assim, mas um dos melhores critérios para distinguir um bom jogo (e um bom campeonato) de um mau jogo é ele não ter por factor decisivo um detalhe. Nesse sentido, este mundial estará ao nível do de 2002, por exemplo, e será, a par desse, o pior das últimas duas décadas.

Há um ano, antecipei que a qualidade deste mundial estava em risco precisamente pelas condições climatéricas. Achava, porém, que a prova decresceria de qualidade apenas a partir da fase a eliminar, e achava que as condições climatéricas seriam decisivas apenas no desgaste acumulado nos jogadores. Estava redondamente enganado. As condições climatéricas foram decisivas desde o primeiro jogo. A selecção que mais pagou por elas foi a Itália, uma das que melhor futebol apresentou na primeira fase e que, não obstante, foi eliminada. O primeiro jogo mostrou uma Itália competentíssima, mas incapaz de aguentar mais do que 60 minutos, em termos físicos. A última meia-hora do jogo contra a Inglaterra foi sofrível, quer para um, quer para outro conjunto, e no jogo com a Costa Rica a Itália foi incapaz de ter ideias precisamente pelo desgaste dessa primeira partida. Mesmo não voltando a jogar como na primeira partida, a Itália voltou a ser bem superior ao seu adversário no último jogo, sendo eliminada, lá está, por um detalhe. O detalhe do clima, o detalhe do árbitro e o detalhe das bolas paradas atiraram uma das melhores equipas em prova para fora da mesma logo na fase de grupos. Para muitos, a Itália foi-se embora porque não foi tão forte como as equipas que passaram. Para mim, essas pessoas não sabem o que é futebol. Em termos estritamente futebolísticos, a Itália foi a equipa mais forte do grupo. Acontece que, em futebol, às vezes isso não é suficiente. E neste campeonato do mundo jogar bom futebol tem sido das coisas menos importantes para se atingir o sucesso.

Posso juntar ao exemplo da Itália e da Espanha muitos outros. 1) A Alemanha a fraquejar diante do Gana. Um jogo que estava completamente controlado, com a Alemanha a ganhar por 1-0 e com várias oportunidades para dilatar o marcador, transformou-se em poucos minutos numa coisa completamente diferente, com dois golos de seguida dos ganeses, e só não terminou com goleada para os africanos porque não aproveitaram 3 ou 4 lances de forma inexplicável. 2) O apuramento do Uruguai, sem nada fazerem por isso. Depois de uma exibição paupérrima contra a Costa Rica, os pupilos de Tabarez não foram superiores aos ingleses, mas aproveitaram a falha de Gerrard. Também não foram superiores aos italianos, mas beneficiaram da expulsão de Marchisio e do facto de Suarez não ter sido expulso, como beneficiaram de mais um golo decisivo, na sequência de uma bola parada, de Godín. 3) O apuramento da Grécia. Depois de uma copiosa derrota frente à Colômbia, os gregos mantiveram-se à tona da água por empatarem contra o Japão num jogo em que podiam ter perdido por vários golos. Depois, frente à Costa do Marfim, um golo de penalty no último minuto dos descontos (aliás, como o golo que marcaram à Costa Rica e que lhes permitiu adiar a decisão dos oitavos de final para o prolongamento)  ditou a passagem de uma equipa que, futebolisticamente, não é nada. 4) O Irão a bater o pé à Argentina e Messi a resolver. Os argentinos queixaram-se precisamente das condições climatéricas, e o que se viu foi uma equipa cansada, sem capacidade colectiva e individual para penetrar na defesa iraniana. Os iranianos acabaram por ter as melhores oportunidades da segunda parte, mas foi um momento de inspiração individual de Messi que ditou a vitória argentina. 5) A surpresa da Costa Rica. Não querendo tirar mérito a uma equipa que tem mostrado algumas qualidades, os costa-riquenhos só estão onde estão pelos detalhes. Os uruguaios subestimaram-nos, a Itália não se conseguiu mexer, a Inglaterra já estava eliminada, e a lotaria dos penalties contra os gregos puseram-nos nos quartos de final. É evidente que têm três ou quatro bons jogadores, e uma equipa solidária, mas não foi por questões futebolísticas que chegaram até aqui. 6) O apuramento da Suíça. A Suíça apurou-se à frente do Equador porque no jogo inaugural, precisamente contra os sul-americanos, venceu a partida no período de descontos, num lance que começa com uma perdida dos equatorianos na área suíça, que lhes podia ter dado a vitória, e que termina com um contra-ataque suíço que é transformado em golo (e em fora-de-jogo, salvo erro). 7) A bola à barra de Pinilla. No último minuto dos descontos, o Chile podia ter eliminado a equipa anfitriã. Assim, foram para penalties e a sorte sorriu aos brasileiros. 8) A eliminação do México. A Holanda não fez um grande jogo, mas pressionou os mexicanos na última parte do desafio, conseguiu empatar e chegou à vantagem num lance de penalty nos últimos minutos. 9) A eliminação da Nigéria. Os franceses não foram superiores aos nigerianos na maior parte do tempo, e podiam ter sofrido um golo em várias ocasiões. A partir de um lance em que Matuidi devia ter sido expulso e a Nigéria teve de alterar o seu meio-campo, os franceses cresceram, acabando por chegar ao golo, uma vez mais, num lance de bola parada. 10) A eliminação da Argélia. Embora a Alemanha tenha sido muito superior, os argelinos foram corajosos e souberam pôr a nu as debilidades sobretudo do sector defensivo germânico. É verdade que passou a melhor equipa, mas a Argélia, se tivesse tido outra sorte, tinha mandado a Alemanha para casa. É minha convicção de que tal cenário só foi possível porque as equipas mais fortes, nestas condições, ficam mais expostas e vulneráveis aos detalhes, como seja o da vontade com que os argelinos jogaram. 11) A eliminação dos Estados Unidos. A Bélgica foi superior durante 105 minutos. Nesse período, podia ter marcado mais de uma dezena de golos. Mas os Estados Unidos podiam ter vencido o jogo no último minuto do tempo regulamentar e, depois de estarem a perder por 2-0, construíram ocasiões de golo suficientes, em apenas 15 minutos, para virar o resultado. 12) O desfecho dos oitavos de final. Dos oito jogos dos oitavos de final, 5 foram a prolongamento (2 dos quais foram a penalties) e outro ficou resolvido nos últimos minutos. Tal equilíbrio não é acidental. A Argélia, a Suíça e os Estados Unidos, principalmente, só arrastaram o jogo para o prolongamento porque houve condições externas a equilibrar as contendas. Em condições normais, estes jogos seriam decididos nos 90 minutos. 13) A derrocada das equipas europeias. É verdade que, em quantidade, passaram aos oitavos de final tantas equipas europeias como em 2010, mas ficarem pelo caminho as duas equipas que ainda há dois anos se sagraram campeã e vice-campeã da Europa parece-me substancialmente diferente de ficarem pelo caminho a Itália e a França de 2010. Ao mesmo tempo, não é normal que, das 10 equipas do continente americano em prova,  8 tenham passado aos oitavos de final, sendo que também o Equador esteve muito próximo de o conseguir. O mundial, nas condições em que tem sido jogado, é benéfico para as típicas equipas sul-americanas, que se caracterizam por serem aguerridas e muito disponíveis em termos físicos, e ainda por terem várias individualidades com qualidades técnicas que podem decidir individualmente os jogos.

Muitos se têm espantado ainda com as várias exibições espectaculares dos guarda-redes. Na minha opinião, é mais uma evidência de que o mundial não tem sido muito bem jogado. Quando os avançados e os guarda-redes são os principais destaques das equipas, é sinal de que o futebol apresentado, em termos gerais, não tem sido grande coisa. Desde o mundial de 86 no México que as principais estrelas de cada selecção não tinham tanto protagonismo e não eram tão decisivas. Isso deve-se ao facto de, tacticamente, o futebol ter evoluído bastante. Nos últimos trinta anos, assistiu-se a uma evolução táctica que, de algum modo, fez com que os principais jogadores não fossem capazes de brilhar individualmente como até então. Evidentemente, houve quem o conseguisse. Mas neste mundial têm brilhado individualmente quase todos aqueles que se esperava que brilhassem, excepção feita, talvez, a Ronaldo. Tacticamente, o mundial tem sido muito fraco, e isso faz com que os jogadores com mais facilidade para se desenvencilharem sozinhos sobressaiam. Faz também com que os jogos sejam mais emotivos, uma vez que os adeptos de futebol tendem a emocionar-se mais com lances individuais espectaculares (dribles, iniciativas individuais estonteantes, remates de longe, jogadas junto às áreas, contra-ataques, etc..) do que com jogadas bem pensadas. Daí que haja quem considere que este mundial esteja a ser bom. Como tal, faz também com que equipas que estão a dominar uma partida possam, em poucos minutos, ser encostadas à sua área, como aconteceu com a Nigéria frente à França, com o México frente à Holanda, com a Costa Rica frente à Grécia, ou com a Bélgica frente aos Estados Unidos. Quando, tacticamente, as equipas não demonstram grande coisa, sobressaem as individualidades e sobressai a crença dos jogadores, o que torna tudo muito mais imprevisível, volátil e, para quem acha que bom futebol é futebol junto às áreas, emotivo. Que tantas individualidades estejam a deslumbrar individualmente e que se esteja a registar tanta imprevisibilidade denota justamente o decréscimo de qualidade do futebol que tem sido jogado; denota que os detalhes estão a ter mais importância do que deviam. Os guarda-redes têm brilhado porque, precisamente, não se tem jogado bem. Luís Freitas Lobo disse outro dia que nunca tinha visto ninguém defender tanto como Tim Howard frente à Bélgica. Realmente, defendeu muito, se estivermos a pensar em quantidade. Mas não o vi fazer nenhuma defesa extraordinária. Fez quase duas dezenas de defesas, e nenhuma delas foi uma defesa impossível. O que Freitas Lobo não percebeu foi que Tim Howard não fez mais do que qualquer guarda-redes faria. Defendeu o que tinha de defender. Do facto de que os guarda-redes estejam a ser chamados mais vezes a intervir do que é costume não se segue que estejam a fazer grandes exibições. À excepção de um ou outro caso, é absurdo ficarmos espantados, por exemplo, com o guarda-redes da Argélia ou com o guarda-redes da Nigéria. São guarda-redes banalíssimos que estiveram mais em jogo porque as defesas têm defendido mal e porque os ataques não têm encontrado as condições de finalização ideais.

Quando o futebol é colectivamente mal jogado, sobressaem os apontamentos individuais, aumenta quantidade de lances junto às áreas e, por conseguinte, dispara o protagonismo dos guarda-redes. Quando assim é, tudo fica mais dependente dos detalhes, e é quem for mais eficaz nos detalhes ou quem tiver mais sorte neles, não quem for melhor em termos gerais, que terá sucesso. O futebol deste campeonato do mundo, até porque está a ser disputado onde está, não é muito diferente do futebol que se vê semanalmente em qualquer campeonato sul-americano. As melhores equipas, porque as condições assim o proporcionaram, não são as melhores equipas em condições normais, não são as equipas organizadas e com uma ideia de jogo colectiva, mas aquelas que conseguem aliar a solidariedade e o sacríficio defensivo à inspiração de dois ou três atacantes individualmente muito competentes. Sobram apenas 2 equipas cuja competência táctica merece louvor, a Alemanha e a Bélgica, e mesmo essas têm sobrevivido mais à custa da competência das individualidades do que da competência colectiva. Este mundial representa uma regressão, em termos tácticos, sem precedentes, e é de facto a melhor forma de culminar um ano profundamente negro na História do Jogo. Confesso que não esperava que fosse possível uma equipa voltar a ser campeã do mundo sem que fosse, em termos colectivos, minimamente competente, mas este mundial prepara-se para me mostrar que estava enganado. Estava enganado, porém, sem o estar. É que, no meu raciocínio, não equacionei a preponderância decisiva dos factores externos. E foram os factores externos, sobretudo as condições climatéricas anormais para a prática do futebol, que propiciaram este cenário. Nos últimos anos, o futebol evoluiu de modo a que os detalhes e as individualidades não fossem suficientes para sagrar campeões. Infelizmente para quem gosta de futebol, este mundial voltou a tornar o futebol um jogo só de detalhes e individualidades. Por absurdo que pareça, em 2014 pode voltar a haver um campeão do mundo que não sabe jogar futebol.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Passe e Devolução: A Versão Bávara

E depois do que se passou ontem em Manchester, já é possível dizer que o Bayern de Guardiola é melhor do que alguma vez foi o de Jupp Heynckes? A tareia monumental que os bávaros foram dar a casa do vice-campeão inglês, pondo o adversário à rabia a maior parte do tempo, não pode ficar indiferente a ninguém. O Bayern de Heynckes revelou-se letal, cirúrgico, mas não tinha a capacidade para subjugar, durante 90 minutos, os seus adversários. Era uma equipa forte nos detalhes, e que se fez valer da capacidade de concentração e de uma ambição colectiva extraordinária. Mas, para vencer o que venceu, para chegar onde chegou, teve de sofrer muito. O futebol dos bávaros, no passado, era sofrido; tudo era feito em esforço, em velocidade, e cada jogada representava o último lance da vida de cada um dos jogadores. O Bayern de Guardiola, em poucos meses, é o completo oposto. Continua uma equipa fortíssima, não parece ter perdido capacidade de concentração, mas passa o jogo inteiro a passear, como se estivesse a fazer a coisa mais fácil do mundo. A diferença é incomensurável. Ontem, em Manchester, o City andou atrás da bola, e o Bayern de Munique andou literalmente a recrear-se. Sabe esperar pelos momentos certos para atacar, sabe jogar com as expectativas (as próprias e as dos adversários), sabe gerir o ritmo do jogo e circular a bola a seu bel-prazer, e sabe que uma jogada é só uma jogada, que, se fizerem as coisas bem feitas, terão outras jogadas e outras oportunidades para chegarem ao golo. O futebol dos alemães está agora muito menos dependente da inspiração individual, da concentração de cada um dos jogadores e da afinação com que se entendem. Agora, os princípios organizadores são a participação, em cada lance, de todos os jogadores, a recreação colectiva e a criatividade. Até os jogadores mais dados ao individualismo parecem entreter-se e gozar de um estilo que preconiza as tabelas, o envolvimento a pares, os triângulos, os toques de primeira. Vemos os bávaros a fazer, já com alguma frequência, aquilo que, para muitos, só os catalães, por qualquer mistério insondável, sabiam fazer: passe e devolução, passe e devolução, passe e devolução. Vemos, por exemplo, Alaba a entrar pelo meio (uma novidade, no modelo de Guardiola), a envolver-se no trabalho de posse a meio-campo e a solicitar a bola entre linhas; vemos Ribery a ir de um lado ao outro do campo para perto de Robben para lhe dar uma opção curta, e até vemos Robben a procurar companheiros no meio com os quais tabelar.

Ontem, jogou Thomas Müller como avançado e, apesar de Luís Freitas Lobo ter insistido que aquela não era a melhor posição para o internacional alemão, foi muito por aí que o Bayern foi tão superior. Sem bola, Müller é um dos melhores jogadores do mundo. A sua capacidade de movimentação e a inteligência com que percebe o que deve fazer e para onde deve ir a cada momento fazem dele, possivelmente, a melhor opção para a posição de atacante, nesta equipa. Sem bola, Müller saiu invariavelmente de entre os centrais, ora para se aproximar do portador da bola, estivesse ele numa faixa ou no centro, ora para ocupar o flanco direito, permitindo a Robben invadir o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, por onde o Bayern depois progredia. Com isso, confundiu marcações, mas permitiu sobretudo soluções de passe inesperadas à sua equipa. Muito da dinâmica ofensiva bávara, ontem, se deveu ao extraordinário trabalho de Müller, ainda que Freitas Lobo tenha achado que ele nunca conseguiu entrar no jogo. Guardiola não pensa como a maioria dos treinadores, e não pensa decerto como Freitas Lobo. Para ele, há coisas mais importantes do que um determinado jogador tocar muitas vezes na bola. Ontem Müller terá sido dos jogadores mais importantes em campo, até pela liberdade que permitiu quer a Robben, quer a Ribery, e Guardiola não terá deixado passar isso. Que outro treinador, por exemplo, se daria ao luxo de tirar o melhor lateral direito do mundo da sua posição de origem para pô-lo no meio-campo, ainda por cima tendo tantas opções (e tão conceituadas) para ali? Que outro treinador escolheria o jogador mais baixo da equipa para jogar como médio-defensivo? Guardiola é diferente dos outros, e requer dos seus jogadores coisas diferentes. Com o regresso de Götze, Javi Martinez e Thiago Alcântara, é possível que Lahm volte a ser lateral, mas até ver foi o jogador que melhor cumpriu aquela posição. Onde me parece que Guardiola tem ainda que trabalhar muito (e pensar bem sobre quais os jogadores que melhor servem esse propósito) é no meio-campo. O meio-campo é a alma deste modelo e, neste momento, Schweinsteiger e Kröos são demasiado parecidos. O meio-campo funciona bem, tem a dinâmica certa e os princípios certos, mas falta-lhe criatividade. Posicionalmente, fazem de facto o que têm a fazer, não procurando a bola fora do bloco adversário, mas invadindo-o e solicitando-a entre linhas. Mas depois falta algum atrevimento para mantê-la dentro do bloco, para procurar procurar soluções difíceis e arriscadas, em espaços curtos. Invariavelmente, escolhem a opção mais segura. De Schweinsteiger, em abono da verdade, não esperava mais do que isso, e nunca me pareceu que pudesse ser outra coisa, no modelo que Guardiola quer implementar, que não médio-defensivo (agora já nem isso). Mas de Kröos, jogador que muito admiro, esperava outra coragem. Claro que ainda é cedo e que esse tipo de coisa ainda pode ser cultivada, mas Kröos, para já, não me parece dar tudo o que Guardiola precisa. Thiago Alcântara e Götze (ou eventualmente Ribery) poderão por isso trazer coisas diferentes ao meio-campo ofensivo do Bayern. Nenhuma destas observações é, contudo, relevante, se pensarmos na brutalíssima mudança operada por Guardiola em tão pouco tempo. Se, em poucos meses, foi capaz de pôr o Bayern a jogar de uma maneira tão distinta daquela com que se exibia antes, deve-se presumir que os pequenos defeitos que a equipa ainda tem se possam corrigir com o tempo. Seja como for, continuo por isso sem dúvidas de que o Bayern de Guardiola será a seu tempo aquilo que o seu Barcelona foi, uma equipa de passe e devolução perpétuos, capaz de subjugar qualquer adversário e capaz de conduzir cada partida de futebol como bem lhe aprouver. E, depois disto, continuará a ser possível defender que o modelo de Guardiola não é o mais avançado para um jogo como o futebol e que só resultou num sítio em que os jogadores eram perfeitos para esse modelo?

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Freitaslobices

A primeira pergunta que se impõe é: o que é que é preciso para que Luís Freitas Lobo esteja calado? Tempos houve em que o poeta - desculpem - o comentador desportivo Luís Freitas Lobo dizia coisas interessantes e que valiam a pena ser escutadas; hoje em dia só diz disparates. Se não está a falar da alma da bola, ou a fazer a mesma metáfora pela décima sétima vez, está a dizer banalidades acerca do jogo. O seu discurso, que começou por ser diferente, por ser mais informado do que o da maioria, é hoje em dia insuportável. Não aprendeu nada, não evoluiu rigorosamente nada. Transmite banalidades e embrulha-as num palavreado tão imbecil quanto escusado. Para o plantel do PSG, então, tem uma autêntica antologia de poemas. Pastore é - não me perguntem porquê - uma pantera cor-de-rosa. De Beckham fala mais do penteado, da idade, da qualidade de passe, e do pretenso bom posicionamento do que da qualidade em termos de decisão que oferece à equipa, que é quase tudo o que importa. Sobre Lucas, sempre que este toca na bola, diz que "joga muito". Já o sabíamos, mas o senhor insiste em dizer-nos, e sempre com as mesmas palavras. Matuidi - aprendi ontem - é um alicate em forma de jogador de futebol. E sobre o jogo, senhor Freitas Lobo, tem alguma coisa a dizer?

Não há muito tempo, falou-se na possibilidade de Luís Freitas Lobo, assim como Tomaz Morais, vir a colaborar no Sporting. Num clube que agoniza, que melhor maneira de reerguê-lo do que contratar uma pessoa que percebe de râguebi e outra que se distingue por fazer metáforas enquanto comenta jogos de futebol? Ou a direcção do Sporting pensa que o problema do clube tem a ver com falta de habilidade para a placagem e incapacidade para brincar com palavras, ou então tal possibilidade não faz sentido nenhum. Cultivou-se a ideia de que Freitas Lobo, por conhecer muitos jogadores desconhecidos da grande maioria do público, devia ter competências para colaborar na prospecção de jovens craques, e seria para essas funções que seria eventualmente contratado. Mas conhecer muitos jogadores resulta de ver muito futebol, não de saber alguma coisa de futebol. As pessoas que não sabem como é que funciona o departamento de recrutamento de um clube - a grande maioria das pessoas - acha que Freitas Lobo até pode dar um bom prospector para o Sporting. Isto é estúpido de muitas maneiras, mas vou referir apenas algumas. Em primeiro lugar, se há coisa em que o Sporting ainda continua a ser muito forte é na prospecção e no recrutamento, e é bom que a nova direcção, que deve vir com ideias reformistas, tenha isto em mente, se não quiser destruir a única coisa que pode ainda fazer regressar o clube ao convívio dos grandes do futebol português, ou seja, a sua formação. Em segundo lugar, pressupõe esta ideia uma outra, muito disseminada, de que o senhor Aurélio Pereira e mais dois ou três colaboradores são os responsáveis por todos os talentos descobertos pelo Sporting. Um segredinho: para um clube se manter tão forte no recrutamento, durante tanto tempo, é preciso bem mais do que um par de olhos e jeitinho para o negócio. Por fim, a ideia de que identificar grandes quantidades de jogadores se relaciona de algum modo com capacidade para distinguir potenciais craques é absurda. Para que Freitas Lobo me fizesse acreditar que, de alguma maneira, tem competência para tal, teria primeiro de saber fazer distinções finas entre atletas, de saber caracterizar-lhes correctamente as virtudes e, sobretudo, de não pôr todos e mais alguns dentro do mesmo saco. Para Freitas Lobo, tudo o que tem duas pernas, tem menos de 20 anos e joga futebol é potencialmente um craque. Assim também a minha avô. Identificar potencial é muito mais do que catalogar tudo e mais alguma coisa. Para se perceber que Freitas Lobo não tem a mínima vocação para isto, embora se lhe reconheça que vê muito futebol e conhece muitos jogadores, bastava que se fosse ver o que disse de jovens jogadores há cinco anos. Lembram-se do que dizia acerca de Pelé? Eu lembro-me.

De resto, nos últimos jogos que vi do PSG comentados por Freitas Lobo, o amor por Matuidi é quase pornográfico. No PSG, é certo, podia apaixonar-se quase por qualquer jogador. Que se tenha apaixonado por Matuidi diz muito do que é Freitas Lobo. Matuidi é um jogador banalíssimo, um médio como há às centenas até nas distritais, um médio cuja melhor característica é a disponibilidade física. Para muitos, é preciso um Matuidi para suportar tantas estrelas. Para esses, o choque ontem foi Ancelotti ter apresentado tantos craques e apenas um Matuidi. Para mim, que reconheço a Ancelotti muitas qualidades, o único pecado foi ter jogado com Matuidi e não com Verratti. O PSG foi talvez a equipa que vi que melhor jogou, em cinco anos, contra este Barcelona. Ajudou, é certo, o facto de o Barcelona não ter jogado bem e de não ter forçado muito. Mas o PSG fez o que poucas equipas tentam fazer: tentou ficar com a bola, quando a conquistava. Para isso foi fundamental a qualidade técnica e intelectual do onze escolhido. Questionou-se muito a utilização de David Beckham, mas este fez um jogo exemplar, a coordenar os ritmos da equipa. Como de resto o fez Pastore. Lucas, pela facilidade de drible e pela forma como segura e conserva a bola, também foi precioso. O PSG conseguiu dividir o jogo com o Barça não porque Matuidi esteve em todo o lado, como Freitas Lobo não se cansou de dizer, mas porque soube trocar e preservar a bola quando a tinha. Fez um jogo exemplar porque juntou vários jogadores fortíssimos a conservar a bola e/ou a decidir, no momento do passe. Matuidi, nesse aspecto, era o parente pobre daquela equipa. Servia para morder calcanhares, como se essa fosse uma grande virtude, mas não servia para mais nada. Freitas Lobo insistiu, do princípio ao fim, que Ancelotti devia ter no meio-campo outro jogador como Matuidi, que devia trocar Beckham por Chantôme ou Verratti. Na base desta insistência está a ideia de que competia aos homens do meio-campo serem pressionantes. E é isso que não percebo. Pressionar verticalmente, pelo meio, este Barcelona é das coisas mais estúpidas que se pode fazer. Dois Matuidis a pressionar resultariam inevitavelmente em espaços entre os dois Matuidis e os defesas, principalmente porque este PSG se apresentou num 442 clássico. Felizmente, Ancelotti não é parvo, e Beckham ocupou sempre os espaços deixados por Matuidi, quando este saía para ir transpirar para cima de um dos médios catalães. Freitas Lobo não percebe, ao fim destes anos todos, que o futebol não é um jogo de individualidades, e que trabalhadores não servem para compensar craques, nem criativos servem para compensar trabalhadores. Cada acção individual só faz sentido colectivamente. O que Freitas Lobo valoriza nas acções de Matuidi é aquilo que elas têm de individual, não os efeitos colectivos que produzem. Gosta de Matuidi porque Matuidi se destaca dos outros por correr mais, bater mais, e estar mais em jogo. Não percebe que cada acção dele tem milhares de consequências que não vê, e que muitas das coisas boas que um jogador faz só são boas porque os colegas fazem muitas outras coisas que beneficiam a acção do colega. Matuidi não contribuiu em nada para a organização defensiva dos franceses, que foi boa (bem melhor, por exemplo, que a do Milan, que tanta gente gabou), e muito menos contribuiu para o que de bom a equipa fez com bola. Por tudo isto, Freitas Lobo é pouco mais do que o representante supremo do chico-esperto que se acha moderníssimo, mas que afinal continua a acreditar que ser responsável e eficaz em termos defensivos é estar constantemente em cima do adversário, pressionar agressivamente e batalhar por cada bola como se fosse a última.

domingo, 29 de abril de 2012

Jornal O Idiota!

É o que me surge, ao vislumbrar a primeira página do jornal deste Sábado: " Desgaste provocado pelo português decisivo para o adeus do catalão" ou " Aposta do Real Madrid no projecto Mourinho provocou rombo no porta-aviões culé" foram as frases que me arrebataram a atenção. Já é sobejamente conhecida a fidedignidade de grande parte dos artigos deste jornal, mas ainda assim, perante tamanha estultícia, nem o parco respeito que destilo pelo jornal A Bola me prevenira para a sua parangona. Piorou, no entanto, a minha incredulidade, ao ler as linhas que se encerravam sobre a despedida de Pep. Miguel Correia assinou a crónica ataviada das seguintes pérolas: "uma certeza: um dos aspectos que mais terá contribuído para o desgaste do ainda responsável pelo Barcelona terá sido a guerra de palavras protagonizada por José Mourinho, treinador do Real Madrid, mind games tanto do agrado do técnico português e aos quais Josep Guardiola esquivou-se permanentemente, direcionando o seu discurso,educado, sempre noutras direções. Mas há quem defenda que, afinal, o técnico, que ainda não digeriu o último desaire contra o Real, atirou a toalha para o chão, temendo que, na próxima época, Mou ganhe os títulos mais importantes, uma atitude bem diferente da que mostrou na sua carreira de jogador, isto é, nunca se rendia as adversidades".

Tanta patetice deixou-me perdido, confesso. Não percebia se isto se tratava de uma peça humorística, ou se era apenas idiotice do Sr. Miguel Correia. Idiotice, afinal. Acho piada uma pessoa aludir a uma suposta cobardia de Guardiola, sendo que ele próprio,o Sr. Miguel Correia, abafado que está nesse lamaçal, inventa personagens para assim poder, da forma mais cobarde possível, apelidar Pep de cobarde. Depois, a convicção que coloca numa crença absolutamente idiota, quase religiosa, de que Guardiola está desgastado pela sua relação com Mourinho. Ele, Pep, que nunca adaptou a sua equipa a terceiros, que se centrou única e exclusivamente no aperfeiçoamento do seu modelo, encontrava-se desgastado pela acção de terceiros? Que estupidez!

Um aparte, em que prometo ser breve, sobre Mourinho e Ronaldo. Que são, cada um no seu espaço, elementos de enorme valia, ninguém dúvida, mas esta coisa absurda de os colocar acima de todos só porque são portugueses não encerra em si mesma a mais caluniosa das ofensas? Não será este tipo de xenofobismo a forma mais primitiva de, na sua miserável existência, se sentirem minimamente importantes? Se Mozart teve piolhos, estas pessoas dariam tudo para trocar a sua vida pela desses parasitas.

Depois, na sua habitual crónica, surge Luís Freitas Lobo. Freitas Lobo faz-se acompanhar sempre de uma elegância tremenda, evitando ao máximo melindrar quem quer que seja; porém, encontrei na crónica deste Sábado elemento que justificam reparos. Na sua coluna de opinião, intitulada "As verdades do Futebol", Freitas Lobo dá a entender que a abordagem efectuada pelo Chelsea foi meritória. Isto porque, no seu entender, os 73% de posse de bola do Barcelona estiveram sempre controlados, apesar de 2 bolas no ferro, duas enormes defesas de Petr Cech, (e já nem vale a pena abordarmos o que se passou na primeira mão). Mais, a diferença que Freitas Lobo apregoa deste Barcelona para o que venceu na época passada assenta, segundo ele, na estrutura. Critica o 343 de Guardiola, defendendo que "nenhuma equipa no futebol moderno resiste a este desequílbrio posicional", ignorando o que na realidade contribuiu para o falhanço deste ano, para além de circunstâncias relacionadas com o lado caótico do jogo, como o acaso, ou seja: as opções infelizes que o próprio Guardiola reconheceu ter tomado, assim como aquelas de que ele não falou, como seja o caso de Piqué.

O cronista português podia ter abordado a "aparente má época de Guardiola" através das suas opções, mas quis encontrar uma justificação mais elaborada, o que resultou num redundante engano. Mais, ao afirmar que nenhuma equipa no futebol moderno está preparada para o desequilibrio estrutural de que fala, Freitas Lobo ignora o essencial sobre esta equipa: as regras que se aplicam ao restante universo futebolístico não se podem notar na equipa catalã; as regras são diferentes, por que um diferente paradigma assim o obriga. No futebol moderno, como ele defende, a tendência empurra as equipas para atribuirem uma maior importância aos factores físicos. Esse nunca foi um ponto importante na equipa de Guardiola, e, apesar disso, esta "inferior" equipa, no que aos aspectos físicos diz respeito, dominou o futebol mundial nos últimos 4 anos ao mesmo tempo que lançou mais de 20 miúdos na ribalta. Não sei a partir de que data devemos começar a definir o "futebol moderno", mas esta supremacia contraria, de forma clara, a sua sugestão de que o sucesso na Europa responde a uma superioridade física de umas equipas sobre outras. Termino com uma frase de bancada, com que ele nos brinda, na sequência da que já salientei sobre a mudança de estrutura no conjunto catalão: "Realidade tática agravada com o facto de, contra o Real, forte no jogo aéreo, o central eleito(Puyol) ter apenas 1.78metros". Não sei o que dizer, nem consigo encontrar no jogo contra o Real indícios de que o que é defendido nesta frase encerra o mais ínfimo sentido. À excepção dos últimos 10 minutos, em que existiu algum desnorte do Barcelona, o Real não conseguiu beliscar sequer a superioridade do seu adversário. As melhores oportunidades de golo, de todo o jogo, foram as duas do Barcelona. Os golos do Real resultam de erros a que nada corresponde a baixa estatura de Puyol (o primeiro golo surge de um ressalto, e no segundo Valdés não está isento de culpas), e, sendo assim, não consigo descortinar a relevância dos centimetros a menos de Puyol.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Melhor Equipa do Mundo

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho eliminou o Barcelona, publicou o Entre Dez um texto em que defendia a equipa blaugrana. Não o fez por despeito, mas porque, apesar da eliminação, a equipa manteve a sua identidade, a sua honra, e jogou o melhor que pôde, não vencendo apenas por manifesta falta de sorte. Hoje, após a eliminição ante o Chelsea, repete-se o exercício. No final do jogo, as estatísticas deram 27% de posse de bola ao Chelsea. As estatísticas estão erradas. Desconheço quais os critérios para medir a posse de bola, mas o Chelsea não teve nem 20% de posse. Como é óbvio, a posse de bola não justifica nada, e muitos poderão dizer que o Barça não soube materializá-la em oportunidades. Mas isso também é falso. O Barcelona teve, nada mais, nada menos, do que oito oportunidades claras de golo, ao longo do jogo. Os postes, Petr Cech, e a sorte, protegeram o Chelsea.

Ao longo da partida, Luis Freitas Lobo foi gabando a estratégia do Chelsea. Há cinco anos, Luís Freitas Lobo percebia qualquer coisa de futebol. Hoje em dia é acéfalo. Não sei o que terá acontecido entretanto, mas a verdade é que não sabe o que diz. Há-de haver uma explicação clínica. Aliás, quando o Barcelona fez o primeiro golo, disse Luís Freitas Lobo que estava reposta a lógica na eliminatória. Como é que ele pode dizer isso, quando defendeu que o Chelsea tinha merecido o resultado da primeira mão? Luís Freitas Lobo diz aquilo que os resultados exigem que diga. Se o Barcelona tivesse marcado mais do que o Chelsea, diria que o Barcelona jogou bem, e que vencera a eliminatória quem mais merecera. Como não foi o que aconteceu, foi o Chelsea que mais mereceu. Repito: isto é conversa de gente com problemas na cabeça. Os resultados são o que são, mas nem sempre espelham o que se passa em campo. E o que se passou em campo, nesta eliminatória, foi que o Barcelona esmagou o Chelsea. "Estratégia" é saber defender para atrair o adversário, e depois lançar os ataques. Defender com nove jogadores dentro da área não é "estratégia". É fé. E, às vezes, porque o jogo dá-se a isto, a fé pode vencer a competência. Foi o que aconteceu. Em condições normais, o Barcelona venceria a eliminatória com a facilidade com que venceu o Bayer Leverkusen. Acontece que, juntando-se várias anormalidades (13 oportunidades claras de golo, e apenas 2 golos; 4 bolas nos postes; 3 oportunidades de golo do adversário e 3 golos sofridos; erros de Mascherano), uma eliminatória em que uma equipa esmagou a outra acabou por permitir que a equipa esmagada passasse à final. Pode acontecer. Não é muito normal, mas pode acontecer.

Há que notar que, assim que Fernando Torres marcou o golo do empate, que punha um ponto final na eliminatória, os adeptos entoaram, em coro, o hino do Barcelona. Não sei se não será algo inédito num campo de futebol. Desconfio que sim. É costume dizer que, em Inglaterra, os adeptos aplaudem a equipa mesmo quando esta perde. Isso acontece principalmente porque os adeptos são, na sua grande maioria, estúpidos. Aplaudem porque notam que a equipa se esforçou. Não reparam que, apesar do esforço, jogaram miseravelmente. Hoje, em Camp Nou, os adeptos aplaudiram por outra razão. Aplaudiram porque o orgulho na sua equipa é tanto que supera a frustração de não marcar presença na final de Munique. Isso é inédito. E só podia ser alcançado num clube com um projecto deste tipo, e com um modelo de jogo que, mesmo nos jogos em que o resultado não é favorável, deixa a certeza de que se jogou o melhor que era possível. Hoje, o Barcelona foi derrotado, principalmente porque o futebol permite que o melhor seja derrotado. Mas venceu de outra maneira, novamente. E é por ter vencido dessa maneira que é seguro que seja novamente o principal favorito a conquistar o troféu na época seguinte. Sim, o Barcelona não vai revalidar o título de campeão europeu. Mas continua a ser a melhor equipa do mundo. De longe.

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho derrotou o Barça, apontaram-se defeitos à equipa, apontaram-se erros a Guardiola, etc.. O Entre Dez optou por outro discurso, o mesmo por que opta agora. O Barcelona perdera porque, mesmo sendo o melhor, às vezes perde-se. A terceira época de Guardiola mostrou que tínhamos razão. Apesar de ter sido derrotado, continuava a ser a melhor equipa do mundo, e continuava a ser a equipa que melhor jogava, e que melhores condições reunia para ganhar as competições que disputava. Hoje, que se repetiu o azar de o Barcelona não passar à final da Liga dos Campeões, repetem-se as razões, e repetem-se as nossas previsões. Trata-se da melhor equipa do mundo, da única equipa de que tenho conhecimento que conseguiu aterrorizar o mundo do futebol. Para mim, por exemplo, este é o melhor ano, em termos de qualidade de jogo, da era Guardiola. Aceito que, defensivamente, a equipa não tem estado tão bem como já esteve, embora muito por culpa pelas ausências sistemáticas de Piqué e Abidal. Mas, ofensivamente, foi o ano em que a equipa melhor jogou. Duvido que a maioria das pessoas que me lêem consigam perceber o que digo, sobretudo porque a equipa não vai ganhar o que ganhou noutros anos, mas é assim que penso. Em termos de jogo, a equipa aprendeu a desenvencilhar-se de situações mais difíceis, e tornou-se ainda mais confortável a jogar da maneira que joga. Se, noutros anos, havia equipas que conseguiam dificultar o trabalho aos jogadores catalães, este ano não houve uma única que o conseguisse.

E o Real Madrid, no passado fim-de-semana? Tenho lido várias coisas acerca do jogo de Camp Nou que o Real ganhou, e continuo sem perceber a análise das pessoas. O Real ganhou como o Chelsea ganhou: porque teve sorte. E a sorte, por vezes, protege quem menos faz por ela. Era difícil de prever que o Barça tivesse azar três vezes seguidas, mas aconteceu. Teve azar, e teve o Mascherano em campo. A primeira oportunidade do Real Madrid, no sábado, foi a do segundo golo, aos 70 e tal minutos. Depois, tem outra mesmo a acabar, numa altura em que, aí sim, já havia algum desnorte dos catalães. O Barcelona, mesmo não tendo jogado bem, teve 4 oportunidades flagrantes de golo (uma de Dani Alves, uma de Xavi, e duas de Tello). Somando isso ao facto de os dois golos do Real terem sido precedidos de falta (para não falar no fora-de-jogo no primeiro golo), como é que se pode ser hipócrita ao ponto de dizer que o Real venceu de forma justa e foi a melhor equipa em campo? Ou estão mal habituados, tanto é o domínio dos catalães, ou são, pura e simplesmente, desonestos. Guardiola e Iniesta têm razão no que dizem: o Barcelona não jogou tão bem como é costume, é verdade, mas ainda assim foi superior ao Real Madrid e foi a equipa que mais fez por vencer. A haver um vencedor justo, esse tinha de ser, obviamente, o Barcelona. Mas, como o futebol não se faz de justiça, o Real ganhou. Como hoje o Chelsea ganhou. Acontece.

Por fim, gostaria ainda de falar de Mascherano. Tenho batido na mesma tecla, mas acho que tenho de fazê-lo novamente. Mascherano já tinha sido o responsável no golo sofrido frente ao Milan. Frente ao Chelsea, foi o responsável directo pelos dois golos (não conto o de Fernando Torres, que ocorre numa altura em que o Barça tentava tudo por tudo para apertar o cerco ao Chelsea). Em Stamford Bridge, reage mal ao lance e invade o espaço de Puyol, em vez de oferecer uma cobertura, e quando se apercebe não se reposiciona bem, não cortando a linha de passe possível para Didier Drogba. Em Camp Nou, é ele quem sai da sua posição para ir perseguir Lampard até à linha de lateral, abrindo um buraco desnecessário no centro da defesa que Busquets não conseguiu cobrir a tempo. Frente ao Real, é ele quem falha a cobertura no lance de Ronaldo. É verdade que Adriano vai fechar ao meio quando tinha Busquets ao seu lado, melhor posicionado para o fazer, e isso permite que a bola entre em Ozil. Mas, indo a bola para a linha, Mascherano só tinha que bascular. Além de não perceber o que Ozil ia fazer, que era óbvio, estava praticamente a meio do meio-campo, a mais de 20 metros de Busquets, que é quem sai ao alemão. Se, no meio-campo, é o que é, a defender, por ter menos bola, sempre pareceu o argentino um estorvo menor. O que é certo é que, a jogar com três defesas, a equipa fica mais exposta, e as carências intelectuais de Mascherano mais visíveis. O Barcelona também pagou por isso, e é bom que Guardiola o perceba. Aliás, com Piqué em campo, desconfio que o Barcelona estaria neste momento na final de Munique, e o Real em pânico por estar com um ponto apenas de avanço no campeonato. Às vezes, também é tão simples quanto isto.

Quando se fala, por isso, em passagens de testemunho, e em mudanças de ciclo, apetece dizer às pessoas para terem juízo. Quando virem uma equipa a ser capaz de vergar outra como o Barcelona faz sistematicamente com os seus adversários, ou quando virem uma equipa a ser, por pouco que seja, superior aos catalães no terreno de jogo, aí, sim, atirem foguetes. É que, até à data, o Barcelona ainda só perdeu competições por questões acidentais, e ainda não jogou um único jogo, com quem quer que seja, em que se pudesse dizer honestamente que o adversário foi superior. Há coisas que têm de ser revistas, nomeadamente o reforço do sector defensivo, mas não tenho dúvidas de que a equipa de Guardiola continuará a ter a hegemonia que teve até aqui. E é sobretudo disso que se trata, quando se defende esta maneira de jogar. É que, mesmo perante dois ou três desaires sucessivos, fica sempre a sensação de que é impossível acontecer muitas mais vezes o que aconteceu esta semana.

domingo, 26 de setembro de 2010

Lições de Mestre (6)

Comecemos por uma ideia defendida habitualmente por muita gente e que está absolutamente errada. Para muitos, o Barcelona de Guardiola é uma equipa que abre muitíssimo, em momento ofensivo, fazendo campo grande e circulando a bola a toda a largura do terreno. Dizem certos entendidos que é esta faculdade que possibilita ao Barcelona o seu jogo rendilhado e que é no jogo exterior da equipa que está a sua principal virtude. Luís Freitas Lobo, a semana passada, a propósito do massacre a que o Braga foi sujeito em Londres, sugeriu que as pessoas estão equivocadas quando dizem que o Arsenal joga de maneira idêntica ao Barcelona. O seu argumento era o de que, ao contrário do Barcelona, que abre o seu jogo, o Arsenal privilegia a zona central para atacar.

Também considero que há diferenças entre o modo de jogar das duas equipas, mas esta não é certamente uma delas. É que, se há coisa em que as duas se aproximam, é no privilégio quase contra-intuitivo dos espaços centrais para atacar. O Barcelona não faz campo grande como julgam. Se há coisa que distingue o 433 dos catalães é a não fixação dos extremos nas linhas. Quem quer que jogue como extremo, tem por missão jogar por dentro, aproximar-se do portador da bola. A profundidade, em organização ofensiva, é sempre dada pelo lateral. Os extremos só ocupam a linha em momentos de transição ou como ponto de origem, de onde saem para vir receber um passe curto numa zona central. O futebol do Barcelona, assim como o do Arsenal, é preferencialmente jogado pelo meio; Luís Freitas Lobo está completamente enganado quando pensa que não.

O lance que se segue fortalece esta ideia. Mas podia ainda alegar, por exemplo, a opção clara de Guardiola pelo 442 losango nos dois últimos jogos, frente ao Gijón e frente ao Bilbao, com Busquets a trinco, Keita e Xavi como interiores, e Iniesta como médio ofensivo, a cair preferencialmente em zonas centrais, ficando o ataque entregue a Villa e Pedro/Bojan. Neste esquema, então, foi ainda mais visível a ocupação dos espaços centrais e o privilégio dado ao jogo pelo meio. Fazer campo grande não é algo que esteja nos princípios do Barça, simplesmente porque tal é contraditório à filosofia de jogo da equipa, que requer uma rede de apoios muito mais próxima e compacta. Para que o Barcelona possa jogar como joga, tem de ter, mesmo com bola, os jogadores muito juntos uns aos outros. A largura e a profundidade é, por isso, tarefa de quem vem de trás, nunca dos extremos.




O golo começa a ser construído com a vinda da bola da linha para o meio e é a partir do meio que tudo se desenha. Neste momento, estão 9 jogadores do Panathinaikos atrás da linha da bola. Um passe vertical de Messi trata de deixar batidos os dois médios entre os quais a bola passa. Entre linhas, Xavi devolve de primeira a Messi, que entretanto se desmarcara para a frente. Ao receber a bola de Xavi, Messi torna-se no alvo das atenções dos defesas gregos. O defesa que estava em cima de Pedro sai da marcação para travar Messi, que passa a poder jogar com Pedro. Fá-lo e recebe de imediato a devolução, já no interior da área. Depois, é dominar a bola e rematar. O mais difícil estava feito.

Com duas tabelas perfeitas, as duas iniciadas por um passe vertical que queima linhas, o Barça ultrapassou uma defesa que, inicialmente, estava composta por nove jogadores. É assim que se entra numa defesa compacta, que opta por colocar quase todos os seus jogadores atrás da linha da bola. Esta jogada exemplifica várias coisas. Reforça, em primeiro lugar, a ideia que referi há algumas semanas acerca de fazer da bola um engodo. Desmente, igualmente, a teoria de que o Barcelona não ataca pelo meio. E demonstra, por fim, a utilidade que há num simples passe vertical. Nos dias que correm, o jogador que tenha por preocupação este tipo de passes é sempre um jogador com uma capacidade acima da média. Era esta qualidade que, por exemplo, Pontus Farnerud possuía e que poucos valorizavam. É esta qualidade, também, que faz de Hélder Postiga um avançado muito mais valioso do que se quer crer. Mas como se prefere a garra, a capacidade de luta e a obsessão pelo golo, jogadores como estes dificilmente agradam às massas. É pena que não haja mais Guardiolas para educá-las.

domingo, 4 de maio de 2008

Erro de Casting ou Casting Errado?

Luís Freitas Lobo, num artigo sobre Tiago, explica, e bem, por que razão o internacional português não rendeu o que se esperaria dele nesta época. Diz Freitas Lobo:

"Na Juventus de Rainieri, [Tiago] entrou num 4x4x2 clássico em linha e com grande distância entre-linhas como um dos membros de um duplo-pivot central. Deixou de ter apoios para jogar curto, tocar e desmarcar-se, numa progressão apoiada, até à entrada da área, para ter à sua frente um corredor inteiro para percorrer, seja em posse, seja à espera de um passe, seja na recuperação. Não é este o habitat indicado para o futebol de Tiago. Assim, fica fora dos timings do jogo, ritmos e espaços."

Concordo, na íntegra, com isto. Acho que as características de Tiago não lhe permitem ser um jogador de topo neste sistema e, mais, que o 442 clássico, além de todas as lacunas que lhe reconheço, é das tácticas nas quais os jogadores têm de ser mais completos. Porque o futebol caminha na direcção da especialização, a própria táctica é um fóssil. Por exemplo, um médio de topo neste sistema tem de ser óptimo a atacar e óptimo a defender, tem de ser criativo, saber ler o jogo e, ao mesmo tempo, correr quilómetros (o que provoca desgaste, sobretudo psicológico, e retira discernimento), ser forte nos duelos corpo a corpo, etc. Para uma táctica destas, há poucos médios de qualidade. O melhor, aquele que melhor se enquadra neste sistema, que tanto ataca como defende com qualidade, talvez seja Steven Gerrard. Tendo em conta tudo isto e tendo em conta que Tiago nunca se evidenciou num sistema idêntico, que foi sempre um jogador de apoios curtos, não seria de espantar que não fosse capaz de vingar na Juventus. Outro exemplo foi Hugo Viana no Newcastle, ou no Valência. Diz ainda Freitas Lobo:

"O seu melhor lugar é como um dos médios interiores no vértice avançado de um meio campo em triângulo só com um pivot-defensivo. Ou seja, no centro de um 4x3x3. Assim, sente as costas protegidas por um trinco forte e depois, de perfil com outro médio culto, faz as transições defesa-ataque-defesa. Foi assim, com as linhas próximas, que brilhou no Lyon, à frente de Diarra, e a lado de Juninho. Tal como fez no Chelsea."

Sem dúvida. Mas num 442 losango também renderia, como interior. Ou em qualquer táctica que privilegie o jogo em apoios, na qual tenha, a seu lado, alguém com quem trocar a bola, para que nunca tenha de jogar comprido, ou de fazer uso da capacidade de transporte, aspectos do jogo em que é um jogador mediano. Os seus melhores jogos na selecção foram ao lado de Deco, porque aí consegue ter alguém que lhe facilite o jogo, que lhe dê soluções colectivas e não o obrigue à individualidade, na qual é banal.

Tiago é um jogador de colectivo e não tem capacidade para resolver sozinho os problemas da equipa, seja a construir o jogo ofensivo, seja a transportar a bola, seja a jogar comprido, seja a recuperar bolas ou a ganhar lances de cabeça. Nesse sentido, jamais se integraria com facilidade numa táctica como o 442 clássico, que é uma táctica iminentemente individual, que não privilegia um jogo em apoios e na qual os jogadores têm de acumular funções.

Freitas Lobo resume bem os porquês de Tiago ter tido uma época tão abaixo do que se esperaria dele, mas fica por aí. Quero pegar no seu argumento para concluir três coisas que não poderia deixar de dizer:

1) Que o 442 clássico - repetindo o que disse acima - no contexto actual do futebol, é uma táctica que não privilegia o colectivo e que os jogadores, sobretudo os do meio-campo, são obrigados a preencher espaços maiores, a esforços redobrados, a demasiadas tarefas e funções. Isto faz com que um jogador de meio-campo, para ser eficaz nesta táctica, tenha de possuir uma capacidade que só os melhores do mundo possuem. Neste contexto, esta táctica só poderá ser desempenhada com sucesso por equipas com capacidade para contratar os melhores do mundo.

2) Que não foi Tiago em si, ou seja, o jogador, quem falhou, mas sim a contratação de Tiago. Quero com isto dizer que, tendo o aval de Ranieri (desconheço se o teve, mas tenho de partir do pressuposto de que teve), a contratação de Tiago foi um erro. Se o plano era jogar em 442 clássico, o treinador italiano deveria ter percebido que Tiago não era o jogador ideal para esse sistema, uma vez que as suas características são totalmente opostas às que se requerem num médio nesta táctica. Ranieri terá contratado, então, Tiago pelo bom futebol que praticou noutra equipa, não tendo em conta as suas características, mas apenas a posição que ocupava em campo. Em vez de querer um médio competente para um 442 clássico, terá apenas desejado um médio.

3) Que este tipo de erros grosseiros (como foi exemplo também a contratação de Leandro Lima, um médio de toque curto, para jogar entre linhas, coisa que a equipa de Jesualdo não contempla) denota a incapacidade da grande maioria dos treinadores em reconhecer os atributos de cada jogador, bem como a incapacidade destes para perceber que os atributos intelectuais são de todo mais importantes na adequação de um jogador a um modelo de jogo do que os atributos técnicos e físicos. É fácil, portanto, concluir que Ranieri, como Jesualdo, como grande parte dos treinadores, olha apenas para os atributos técnicos e físicos dos jogadores, descuidando os atributos intelectuais, sem dúvida mais relevantes. Em Tiago, ter-se-á visto que é um jogador de boa técnica, com boa capacidade de passe e remate, mas não se terá visto, com certeza, que não é um jogador para ritmos demasiado altos, que é bom a nível posicional, fornecendo correctamente os apoios, que reconhece que os processos ofensivos passam por diferentes etapas, que não arrisca passes demasiado longos, privilegiando a segurança e a posse de bola, que precisa de ter várias soluções de passe perto de si, pois não é forte em acções individuais, etc. São estes atributos, estas capacidades intelectuais e não as capacidades técnicas e físicas, que definem a posição de um jogador, bem como o papel que o mesmo pode desempenhar num colectivo. E foram estes atributos intelectuais que não se tiveram em conta quando se decidiu contratar o internacional português.

Discordo, portanto, que Tiago tenha sido um erro de casting. O próprio casting (bem como a quem competia fazê-lo) esse sim, é que foi um erro.

domingo, 9 de dezembro de 2007

As asneiras de Luís Freitas Lobo

Antes de mais, gostava de referir que poucas coisas há, sobre futebol, que valham a pena ler além dos textos de Luís Freitas Lobo. A excepção será, certamente, a crónica semanal de Jorge Valdano, todos os sábados, n'A Bola. Embora muito do que diga seja correcto e útil, Luís Freitas Lobo tem, de vez em quando, afirmações pouco convincentes. Tentei, pois, reunir aquelas que me parecem mais problemáticas.

1."Hoje, trincos ou pivots-defensivos, refinaram a forma de jogar e aumentaram a influência no jogo colectivo. São, tacticamente, os jogadores mais importantes para o equilíbrio da equipa, numa posição que é a âncora que mantêm o onze preso ao campo durante 90 minutos."

Percebo perfeitamente o argumento de Luís Freitas Lobo: um jogador que actue naquela posição central influi significativamente no desempenho defensivo e no desempenho ofensivo da equipa. Mas não concordo que seja o jogador mais importante. Aliás, afirmar que há posições mais importantes que outras é não entender o futebol como um jogo colectivo. Os processos ofensivos dividem-se em várias fases, todas elas importantes. Se a equipa atacar bem nas primeiras fases, mas não o fizer na última, de nada vale. Assim, são tão importantes, nos processos ofensivos, os jogadores que participam nas primeiras fases como os que participam nas últimas. A defender, acontece o mesmo. A equipa deve defender em bloco e todos têm o seu papel. Não há jogadores mais importantes que outros a defender, como não há jogadores mais importantes que outros a atacar. O médio-defensivo, apesar da sua posição nuclear, não tem mais importância que qualquer outro jogador.

2. "Os grandes craques são de geração expontânea ou produtos de formação? É uma questão antiga, mas em qualquer debate, sempre se falou na formação como a suprema referência de fazer grandes jogadores. Uma escola onde se adquirem as bases e os movimentos que depois vão servir de suporte a toda uma carreira futura. Parece uma opinião pacifica, mas há quem ouse desafiar estas teorias. Pensamos nas origens dos grandes jogadores de todos os tempos, de Pelé e Maradona, e vemos que nelas em vez de campos relvados e chuteiras último modelo, estão baldios de terra e pés descalços. Dirão que esses não contam, são excepções, porque são génios. Uma teoria desmoronada quando pisamos terras brasileiras e se descobrem craques até debaixo das pedras. Ou, até, noutros locais menos imagináveis. Até aos 22 anos, em vez de passar pelos escalões de formação, ele trabalhou como mecânico de automóveis, pintor e repositor de supermercado. Um belo dia, alguém lhe deu uma bola para os pés. Com ela dominada, foi desde as profundezas da Bahía até á relva de Alvalade. É esta a essência de Liedson. A leveza do bom futebol em cada jogada. Natural, simples, como cada golo que marca. Em que escola aprendeu aqueles movimentos, aquela capacidade de rematar e seduzir a baliza? Liedson seria um «case study» perito para entender os mitos e as utopias da formação e entender qual o verdadeira influência do chamado «futebol de rua» no processo de crescimento do grande jogador da actualidade. Deve ele crescer selvagem ou lapidado cientificamente? A solução estará a meio caminho destas duas vertentes. Acredito que mais do que ensinar, um treinador na formação deve antes guiar cada talento para este descobrir qual o melhor caminho de o explorar. A cada jogo, a cada golo que marca, olhando para o futebol de Liedson percebe-se que, afinal, os grandes craques não se fabricam nem se procuram, simplesmente... encontram-se!"

Não adianta referir, uma vez mais, a qualidade duvidosa de Liedson. Finjamos que o texto não é sobre o 31 do Sporting, mas apenas sobre a questão da formação. Há, em primeiro lugar, falsidades que não podem passar em claro. Maradona e Pelé têm, de facto, origens humildes. Mas afirmar que não tiveram formação é absolutamente ridículo. Alguém acredita que, se Maradona não tivesse saído do Argentino Juniors para o Boca e do Boca para o Barça, se teria tornado no melhor de todos os tempos? Alguém acredita que, se Maradona só começasse a jogar futebol federado aos 22 anos, teria feito a mesma carreira incomparável? Por pior que tenha sido a sua formação, ela existiu. Ter contacto com a competição também é formação. Nenhum grande jogador começa a jogar à bola aos 22 ou 23 anos. Em países pobres como o Brasil, no qual todos os miúdos jogam à bola na rua e para os quais a bola é o único brinquedo, é natural que surjam muitos talentos. Estes talentos são essencialmente intuitivos: amadurecem através da intuição individual, da percepção de cada um e das necessidades que o futebol de rua impõe. Sem passarem do futebol de rua para um clube federado, essa intuição nunca passa disso mesmo. Assim, um jogador que cresça selvagem, que não tenha a experiência de jogar em campeonatos competitivos, que não tenha a experiência do "futebol a sério", nunca passa de um jogador instintivo. E o instinto também é ensinado. Os jogadores que não passam por formação têm lacunas tácticas enormes, pois não foram domesticados para as deixarem de ter. São jogadores que só podem emprestar o seu instinto. Isso, no futebol moderno, é muito pouco. Acredito, apesar de tudo, que muitos jogadores que passam por todos os escalões de formação nunca chegam a ser grandes jogadores. Mas isso porque lhes falta o talento. Aquilo em que não acredito é que haja jogadores que, sem passarem por formação, apesar de muito talentosos, acabem por ser grandes. Isto acontece também em arte. Nenhum artista, por mais talentoso que seja, sem o contacto com outros artistas, sem o contacto com a História da Arte, sem o contacto com quem o pode ensinar, consegue tornar-se um grande artista. Assim, ao contrário do que pensa Luís Freitas Lobo, a solução não está a meio caminho destas duas vertentes: nenhum jogador que não seja ensinado, cujo talento não seja lapidado, dará um grande jogador. Ao contrário do que também pensa Luís Freitas Lobo, os grandes craques não se encontram, simplesmente. Fabricam-se! Ainda que o talento já lá esteja, têm de passar por um processo de amadurecimento que, individualmente, sem o contacto com a formação, jamais obtêm.

3. "Terminam os jogos da Champions e surge uma série de dados estatísticos. Remates, cantos, posse de bola… e, nos últimos tempos, um novo dado: os quilómetros que durante os noventa minutos cada jogador correu! É difícil encontrar dado estatístico mais absurdo e inócuo do que este. Em vez de quanto correu o jogador o que devia surgir era quantos quilómetros correu a bola impulsionada por acção desse jogador." "Mais do que colocar um conta-quilómetros num jogador, devia-se colocá-lo na bola e, no fim, ver qual das equipas a fez correr mais. Um dado para perceber o que é jogar bem."

Concordo com o primeiro período: de facto, nada mais improfícuo que contar os quilómetros que cada jogador correu. Correr muito não significa correr bem e, muito menos, jogar bem. Mas não concordo com a alternativa que Luís Freitas Lobo propõe. Contar os quilómetros que a bola percorre? Para quê? Uma equipa que opte por um futebol directo faz correr a bola, de cada vez, dez vezes mais do que uma equipa que opte por um futebol curto. E isso significa que a primeira joga melhor que a segunda? Claro que não. É que isso nem sequer ajuda a perceber a quantidade de bola que a equipa teve. Numa equipa como a primeira, a bola percorre dez vezes mais espaço, mas pode perder-se logo de seguida. Numa equipa como a segunda, se não se fizerem dez passes (o que já seria bom), perder-se-ia estatisticamente para a primeira. O que significa isto, então? Rigorosamente nada. Contar os quilómetros que a bola percorre é tão absurdo como contar os quilómetros que os jogadores correm.

4. "Para Luisão, cada jogo, cada jogada, parece que se tornou um teste. Esta semana desabafou. Sente-se quase o «patinho feio» da equipa. Disse não compreender porque não gostavam dele. Compreende-se o desabafo. Por princípio, os adeptos gostam mais de cisnes. Luisão nunca o será. Mas, na fábula, como na vida, os «patinhos feios» sempre foram mais inteligentes que os «cisnes». Num campo de futebol, também."

Luisão não compreende por que não gostam dele? Se for, preciso, eu explico. Luís Freitas Lobo acha que Luisão, enquanto "patinho feio", é mais inteligente que os outros. Han??? As palavras "Luisão" e "inteligente", na mesma frase, fazem-me alguma confusão. Luisão é inteligente? Como assim? Inteligente como que tem... hmmm... digamos... inteligência? E neste planeta? Só pode ser uma piada. Luisão é, a todos os níveis, horrível. Não é rápido; não é agil; é mau, muito mau, a nível posicional; não é inteligente a dobrar os companheiros; não sabe sair a jogar; apesar da sua altura, não é imponente no futebol aéreo como se desejaria. Luisão não tem nenhum atributo que faça dele um grande jogador. Continua a ser incrivelmente absurdo que algum dia alguém se tenha lembrado de o levar à selecção brasileira. Não, Luisão não é um cisne. Mas também não é um patinho feio. Luisão não é nada...

5. "Para essas quatro posições, tem cinco com saber táctico: (Veloso - Vukcevic - Izmailov - Moutinho - Romagnoli). Poucos, para um sistema física e tacticamente tão exigente. Quando mexe nas peças, a máquina ressente-se de imediato."

Falando do Sporting e do esquema em losango, Luís Freitas Lobo sugere que Paulo Bento tem poucas alternativas para o meio-campo. Segundo ele, só estes cinco têm "saber táctico" para jogar ali. Às vezes, sinceramente, acho que Luís Freitas Lobo tem problemas de memória, ou algo parecido. Vou dar mais dois nomes, assim à parva: Pereirinha e Farnerud. Se fala em "saber táctico", é porque não está a pôr em causa o valor dos restantes jogadores do plantel, mas apenas a dizer que, bons ou maus, não sabem cumprir tacticamente. Ora, pode-se achar o que se quiser de Pereirinha ou de Farnerud, menos achar que, tacticamente, não têm saber. Farnerud é, posicionalmente, óptimo. Podem apontar-lhe todos os defeitos que quiserem, mas tacticamente é irrepreensível. Pereirinha, então, é um caso gritante. Para a idade que tem, é demasiado adulto. Compreende perfeitamente as necessidades da equipa e, tacticamente, da sua idade, não há ninguém que lhe chegue aos calcanhares. É absolutamente injusto falar disto e esquecê-lo. Luís Freitas Lobo, como muita gente que tem dado palpites sobre o que vai mal no Sporting, também errou. Acha ele que, para o esquema do Sporting, o plantel oferece poucas soluções que possam cumprir tacticamente. Como maior parte dos que dão palpites, Luís Freitas Lobo acertou ao lado.