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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Um Panegírico da Argentina

"A afeição por um país não é determinada por certidões de nascimento nem por laços de sangue. Nunca estive na Argentina, sei pouco sobre a História e a cultura do país, mas, quando a bola começa a rolar, sou muito mais argentino do que português."


Eis um texto para todos aqueles - e sabe Deus os muitos que há! - que consideram incompreensível e ultrajante que um português possa gostar mais da selecção da Argentina do que da Selecção Nacional.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Brolin

"O poeta é igual ao príncipe das nuvens
que se ri do arqueiro e afronta a tempestade;
exilado na terra e no meio dos apupos,
as asas de gigante impedem-no de andar."

Charles Baudelaire, "O Albatroz"

Este poderia ser um texto sobre a carreira de um grande jogador, uma homenagem aos êxitos de um dos maiores jogadores da sua geração e uma forma de recordar, com prazer, o futebol alegre de Tomas Brolin. Não será nada disso. O que Maradona disse dele ilustra quase tudo o que ele foi: "um sueco com habilidade sul-americana. Pena foi que se tivesse lesionado e não tenha podido dar tudo o que tinha". Com efeito, Brolin foi uma aberração, um nórdico com pés e imaginação de sul-americano que foi uma lufada de ar fresco no seu país, que encantou o mundo do futebol até ao momento em que partiu a perna. Para muitos, esta lesão afastou-o do trilho certo e foi a principal responsável pelo seu declínio enquanto jogador. Não concordo com isto. Voltei a vê-lo jogar depois disso e ainda havia nele a antiga chama de campeão. O problema terá sido mais mental que físico.

Quem se lembra dele, lembra-se de alegria, de fantasia, de pura habilidade e, sobretudo, de uma paixão avassaladora por este desporto. Brolin não era só mais um jogador talentoso; era muito mais que isso. Ainda assim, o seu talento foi ímpar naquele país, não obstante Henrik Larsson ter sido eleito, há poucos anos, o melhor jogador sueco de todos os tempos. Aliás, lembrar que Larsson ficará na História à frente de Brolin é até a maneira mais adequada de iniciar um texto sobre o prodígio nórdico. É que, se há alguém a quem o futebol traiu, esse alguém é Tomas Brolin. Larsson é apenas dois anos mais novo que Brolin e jogou na mesma altura que ele, sem nunca atingir o patamar de excelência do primeiro. Compará-los, além de ser impossível, pois o talento de um foi inegavelmente superior ao do outro, chega até a ser sacrílego.

Disse que Brolin não foi apenas um jogador porque tinha, como poucos, uma paixão enorme pelo jogo. Isso via-se na forma alegre, jovial, pueril e desinibida com que jogava. Nenhum sueco para além dele - arrisco dizê-lo - manifestou tamanha alegria a jogar futebol. Os seus dribles, a facilidade de passe, a magia, a classe, foram únicos. Chegou a ser eleito o quarto melhor jogador de 1994 e, depois do brilhante Mundial de 94, o Barcelona pensou recrutá-lo. Tal não aconteceu e a carreira de Brolin teria uma viragem abrupta. Vítima de um desporto aviltante, da incompetência de treinadores e da estupidez vigente, Brolin não voltaria a ser o mesmo. O seu futebol, para sobreviver, precisava de se alimentar daquela paixão que sempre manifestara - essa era a sua motivação. E foi isso que Brolin perdeu.

Ao ingressar no Leeds United, Brolin encontrou um futebol onde o músculo se sobrepõe à técnica, onde o jogo estava castrado e era apenas um pretexto para medir capacidades atléticas. Em Inglaterra, a magia, a paixão, o prazer não existiam. O futebol, e tudo o que o envolvia, era em terras de Sua Majestade uma luta, um confronto, e não um jogo. Se Brolin quisesse evidenciar-se pelo seu poderio físico, teria sido pugilista. Se escolheu o futebol, foi porque o futebol é muito mais do que uma desculpa para se pôr em combate dois pares de hormonas. Em Inglaterra, encontrou uma cultura primitiva, bárbara no sentido lato de bárbaro, uma cultura para quem o futebol servia de estímulo a um espírito animalesco. Em Inglaterra, não se jogava futebol; mediam-se vontades, músculos e graus de irracionalidade. Sendo o futebol, para Brolin, precisamente o oposto, depressa se tornou desnecessário. A desmotivação foi causa e consequência do pouco uso que passou a ter. Ao mesmo tempo que ia deixando de ser opção, ia perdendo o amor que tinha ao jogo. A inteligência, a classe, e o prazer abandonaram-no, mas apenas porque o futebol, como ele o via, o abandonara primeiro.

Aos 28 anos, após mais alguns anos de pouca valia, agastado com a relação com o jogo, Brolin decidiu desistir. Não desistiu, como tantos outros, porque uma lesão o tinha incapacitado, mas sim porque o futebol o tinha enganado. Tornara-se de tal forma inteligente, de tal forma diferente daquilo que a esmagadora maioria que anda no futebol é, que não era compreendido. Sem capacidade para contrariar a incompreensão de que foi vítima, refém num mundo mesquinho, pequeno, desambicioso e estúpido, não tinha outra saída. Foi perdendo a paixão pelo jogo de forma gradual até que ela se extinguiu por completo. A 12 de Agosto de 1998, tornou oficial a decisão. Eis o canto do cisne:

"Estou aqui para dizer se vou ou não continuar a jogar futebol. Decidi desistir. Já andava a pensar desistir há muito tempo; pensava em desistir antes de assinar pelo Crystal Palace, mas eles convenceram-me a não o fazer. Estou muito contente por o Crystal Palace me ter dado a oportunidade de jogar futebol. Mas, depois da época terminar, estava ainda mais convencido a desistir. Gostaria de permanecer no Crystal Palace, mas não tinha qualquer motivação. Tentei assistir a alguns jogos do Campeonato do Mundo de França, mas não ajudou. Preferia, em vez disso, jogar golfe. Não tenho motivação para continuar a este nível."

Este foi, pois, muito mais que um texto de homenagem, um lamento. O futebol, infelizmente, continua a ser um desporto preferencialmente para selvagens e para bestas. Em futebol, ser civilizado, possuir uma inteligência acima da média, ser cordato, educado, puro, não é importante. E não o é porque, salvo raras excepções, é um desporto de gente sem escrúpulos, para incultos, para fanáticos, para cobardes, para hipócritas, um desporto que serve para libertar o ser irracional que há dentro de cada um. Dificilmente os génios teriam lugar no meio de tanto lixo...